MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

ACERTOS E ERROS DA REVOLUÇÃO DE 1964 - História Oral do Exército - 31 de Março 1964 (entrevistas de militares e civis)


História Oral do Exército - 31 de Março 1964
15 Tomos, publicados pela Biblioteca do Exército Editora, 2003.


ACERTOS E ERROS DA REVOLUÇÃO DE 1964


Preâmbulo

O fichamento que fiz da coleção História Oral do Exército - 31 de Março de 1964, que foi publicada em 15 Tomos pela Bibliex, em 2003, se refere aos acertos e erros dos 5 generais-presidentes, num período de 21 anos, e tem como finalidade levar o conhecimento das realizações do Movimento Militar aos historiadores em particular e ao público em geral, especialmente o público jovem, que nas últimas décadas é bombardeado nas escolas e nas universidades pelos terroristas derrotados, e por fanáticos professores marxistas, de que a Revolução de 1964 se resume a perseguição política, tortura e morte. 

Como qualquer governo, os de Castello Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo somam acertos e erros, muito mais acertos do que erros, como podemos comprovar mediante o conteúdo fichado abaixo, fruto de entrevistas concedidas por militares e civis à História Oral do Exército.

Aproveitei para meter a colher no assunto, com algumas observações.

Boa leitura!

Solicito ampla divulgação.

Félix Maier

  

1) ACERTOS DA REVOLUÇÃO

 

“Se reduzirmos ou eliminarmos a miséria, a ignorância, a corrupção, a exploração política e os desníveis sociais, o comunismo morre de inanição” (Tenente-Coronel Idalécio Nogueira Diógenes, Tomo 4, pg. 188).

 

O Brasil era formado por “ilhas”; virou Continente

“Quem conheceu o País, como conhecemos, antes de 1964, sabe que para viajar de Fortaleza para Teresina, levava-se 24h com pernoite em  tinhaSerra Grande. O Brasil transformou-se, o Brasil mudou, com as hidrelétricas, com os portos, com as estradas, com a indústria naval, com a indústria de ponta de fibra ótica, com os aeroportos. O Brasil era considerado como um conjunto de ilhas populacionais isoladas. Tudo mudou neste País: as universidades foram ampliadas, o Brasil cresceu e se transformou na oitava economia do mundo. O brasileiro passou a confiar mais em si mesmo e a fortalecer a vontade nacional. O novo Brasil, o Brasil do Maracanã, com o povo, de pé, aplaudindo o Presidente Médici. O que se fez por este País não tem preço. Agora, o pior de tudo isso é que aqueles que foram derrotados e, hoje, encontram-se no Poder, nada fizeram. Até a Petrobras vê-se ameaçada de perder seus avanços e conquistas tecnológicas e a sua própria nacionalidade. Se não fosse 1964, o que seríamos hoje?” (General-de-Divisão Francisco Batista Torres de Melo, Tomo 4, pg. 65).

 

As Forças Armadas impediram a criação das “FARB”

“Se perdêssemos, talvez estivéssemos hoje enfrentando, como a Colômbia, quem sabe, as FARB – irmãs das FARC – ou seja, as Forças Armadas Revolucionárias do Brasil. Aí, os esquerdistas estariam exultantes!... E os verdadeiros brasileiros – aqueles que realmente amam este País – atormentados e desprestigiados como acontece hoje, com os nossos vizinhos colombianos” (Coronel Irtonio Pereira Rippel, Tomo 10, pg. 374).

Obs.:

Em 6 décadas, as FARC deixaram saldo de 260.000 mortos, tendo a Colômbia mais de 50 milhões de habitantes (dados de 2020) - – cfr. https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/05/farc-deixaram-mais-de-260000-mortos-na.html.

No Brasil, com população 4 vezes maior (mais de 209 milhões em 2020), quantos mortos haveria se a Guerrilha do Araguaia fosse vitoriosa, consolidando-se uma suposta “FARB” durante 5 décadas? Mais de 1.000.000 de mortos?

F. M.

 

Pleno emprego

“Não havia desemprego, ao contrário, o nível de emprego crescia de forma a absorver perfeitamente os jovens que demandavam o mercado de trabalho. No eixo Rio-São Paulo, executivos ganhavam mais do que seus similares americanos ou europeus. Kombis das empresas de construção civil recrutavam mão-de-obra no ABC paulista com alto-falantes oferecendo bons salários e confortos nos alojamentos. Um metalúrgico parcimonioso ganhava o bastante para comprar um fusca novo.

Criou-se a Portobras, que começou a se preocupar não só com os portos marítimos, mas com hidrovias interiores, como a Tietê-Paraná.

A partir de 1964, reduziu-se substancialmente a inflação, que no desgoverno Goulart era de 96%, para 12% ao ano, o que se verfificou no primeiro decênio da Revolução, período em que as nossas exportações decuplicaram de 1,2 bilhão de dólares para 12 bilhões, chegando mais tarde a 22 bilhões de dólares.

Uma pesquisa do IBOPE, realizada em junho de 1971, em pleno Governo Médici, atribuíra-lhe 82% de aprovação. Em 1972, a economia crescia a 11,9%, a maior taxa de todos os tempos. Era o quinto ano consecutivo de crescimento superior a 9%. A renda per capita dos brasileiros aumentara 50%.

(...)

No campo psicossocial, através da criação do Banco Nacional da Habitação, conseguiu a Revolução de 1964 dar casas para uma parcela significativa da população. O meu primeiro apartamento foi adquirido com o empréstimo do BNH, o que ocorreu com inúmeros brasileiros. Ao mesmo tempo, reduziu o analfabetismo, com a criação do Mobral; criou o Projeto Rondon, que levou ao interior do Brasil, particularmente à Amazônia e à fronteira Oeste, profissionais de saúde e professores que modificaram o perfil da saúde e da educação naquelas longínquas regiões. Ainda no campo da Educação, assegurou a presença de mais de dez milhões de estudantes nos bancos escolares, realizando uma revolução no setor do ensino universitário, com um substancial incremento do número de vagas no nível superior. O Funrural – o maior programa de distribuição de renda do mundo – teve um alcance invejável, beneficiando cerca de quarenta milhões de trabalhadores rurais, sustentando a economia de mais de oitenta por cento dos nossos municípios” (General-de-Brigada Geraldo Luiz Nery da Silva, Tomo 10, pg. 228-229).

 

Telecomunicações: entre as mais avançadas do mundo

“Lembro-me de uma profissão que havia naquela época aqui no Rio de Janeiro. Era o garoto contratado para ficar tentando conseguir linha [telefônica]. Era um garoto de 13, 14 anos, contratado para ficar numa sala com um telefone para conseguir a bendita linha” (Coronel Romeu Antonio Ferreira, Tomo 9, pg. 368).

“Na área de infra-estrutura, foram remodelados, para atenderem a exigências futuras, todos os portos fluviais e marítimos, e os aeroportos; foram construídas a Ponte Rio-Niterói, a Estrada do Aço, rodovias e ferrovias. Itaipu, que é a maior hidrelétrica do mundo, interligada a outras usinas energéticas, como Boa Esperança e Tucuruí, deus as condições de desenvolvimento que nos permitiram dizer, com orgulho, que temos o maior parque industrial da América Latina. Isto se deveu a Itaipu e às que foram citadas, construídas nos governos militares.

No campo das telecomunicações, criou-se tudo o que ainda existe hoje. De fato, em 1964, praticamente nada tínhamos neste setor, mas em 1974, dez anos depois, em menos de um minuto ligávamos, por telefone da melhor qualidade, com qualquer ponto do território nacional. Ainda no Governo do Presidente Médici, foi inaugurada a televisão a cores, que não deixava nada a desejar em relação às melhores do mundo. Os sistema de telecomunicações do Brasil, implantado durante os governos militares, foi considerado empreendimento tecnológico de país desenvolvido, que se deveu à alta qualidade dos técnicos formados pelo nosso Instituto Militar de Engenharia (IME), entre os quais os Ministros das Comunicações, o Coronel Higino Corsetti e o Comandante Euclides Quandt de Oliveira. Assim, o IME tornou-se uma entidade de primeira grandeza na preparação de excelentes profissionais técnicos, como estes que atuaram na área das comunicações.

(...) Na educação, foram adotadas as seguintes medidas, entre várias outras: aumentar a escolarização, da faixa dos sete aos 14 anos, que passou, entre 1970 e 1980, de 67% para 83,7%; incrementar a matrícula nas universidades, que subiu, entre 1964 e 1981, de 100 mil para 1,3 milhão; estímulo substancial ao ensino dos 1º. e 2º. graus; reestruturação da educação básica (1º. grau), que passou de quatro para oito anos; estímulo e subsídios ao ensino do 3º. grau (superior), através do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq); do Fundo de Financiamento para Estudos e Projetos (FINEP) e da Coordenação de aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), de modo que, no início dos anos de 1980, já havia enorme rede de mestrado e doutorado e a institucionalização da pesquisa.

Nos meios urbano e rural, para atender às populações mais carentes, foram criados os Programas Nacionais de Ações Sócio-Educativas e Culturais (PRODASEC, meio urbano; e PRONASEC, meio rural; Programa de Expansão e Melhoria da Educação Básica do Meio Rural (EDURAL) e Programa de Apoio às Populações Carentes da Zona Canavieira do Nordeste (PROCANOR).

Quanto à saúde, tem-se que atentar para a complexidade crônica do problema. Sempre houve duas estruturas: a de saúde pública, que cuidava da medicina preventiva, e a previdenciária (dos Institutos de Aposentadoria e Pensões), à qual cabia a medicina curativa. Já se pode visualizar que a grande maioria do povo era excluída das condições de tratamento de saúde. Os governos revolucionários tentaram de várias formas unificar essas estruturas, pouco conseguindo. Criaram-se várias entidades de saúde, com vistas a essa unificação: o Sistema nacional de Saúde, o Programa de Interiorização das Ações de Saúde (PIASS), o Prev-Saúde, o Conselho Consultivo de Administração Previdenciária (CONASP) e as Ações Integradas de Saúde (AIS). Estas últimas conseguiram transferir mais recursos federais para Estados e Municípios, aumentando os níveis de equidade e universalização dos atendimentos e estimulando a produtividade dos órgãos de saúde em todos os níveis, criando programações conjuntas, evitando a duplicidade de esforços.

Com relação à Assistência Social, várias foram as iniciativas tomadas: a criação do Banco Nacional de Habitação (BNH); o Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural (FUNRURAL); o Estatuto da Terra; implantação da Lei Orgânica da Previdência Social (aprovada desde 1960), unificando-se a Previdência com a criação do Instituto Nacional de Previdência Social (INPS), que passou a atender a outras classes de trabalhadores – empregados domésticos, jogadores de futebol, garimpeiros, estudantes, ministros religiosos e outros; o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), ligado à política habitacional; o Programa de Integração Social (PIS), financiado pelas empresas privadas. O Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público (PASEP), financiado pelos órgãos governamentais.

Para se ter uma noção mais ampla de todas as realizações da Revolução de 1964, sugiro a leitura do livro do Coronel Ivany Henrique da Silva – Heróis a Lutar – em particular o seu Capítulo 12, que apresenta um relato completo dessas realizações (Blue Chip Gráfica e Comunicação Ltda – Rua Cardoso Marinho, no. 18ª – 20220-370 – Santo Cristo – Rio de Janeiro – RJ)” (Coronel Luciano Moreira de Souza, Tomo 4, pg. 125-127).

“A telefonia teve um extraordinário desenvolvimento. Em 1964, eu passava doze horas num posto telefônico, na Avenida Rio Branco, para conseguir ligação para a Cidade de Fortaleza. Nove anos depois, em 1973, estive em Nova York e pude verificar que já estávamos chegando ao nível da telefonia americana. Isto se deve a dois ministros, engenheiros militares, um da Marinha e outro do Exército, respetivamente, o Comandante Euclides Quandt de Oliveira e o Coronel Higino Caetano Cosetti. Os dois eram fabulosos técnicos de comunicações. Corsetti, foi, inclusive, nosso instrutor na AMAN” (Engenheiro João Paulo Simões Accioly de Carvalho, Tomo 12, pg. 292-293).

 

Dados estatísticos da Revolução

“Dentre os renomados civis que defenderam a Revolução por seus feitos, destacamos a douta conferência do Engenheiro Glycon de Paiva, diversas vezes divulgada, em nível nacional, inclusive na Carta Mensal de setembro de 1984, publicação de alto nível intelectual do Conselho Técnico da Confederação Nacional do Comércio.

Falei na Carta Mensal de setembro de 1984, porque, como o senhor destacou, a partir de 1985, o ‘revanchismo’ impediu qualquer referência positiva na Imprensa sobre o período da Revolução. É proibido divulgar!...

Justo e correto seria lembrar e avaliar o progresso do Brasil na vintena revolucionária de dezembro de 1963 a dezembro de 1983, mas os acéticos escondem os números que dão ao período extraordinária expressão. E aí, Glycon de Paiva dá uma série de exemplos como a capacidade instalada de energia elétrica que passou de 4.480 megawatts para 35.000 megawatts, um crescimento superior a nove vezes.

No intervalo considerado, o maior aumento de potencial elétrico de todo mundo foi o do Brasil. O nosso País passou para o terceiro potencial do mundo em setembro de 1984, quando a Revolução se preparava para deixar o Governo.

A produção do aço cresceu de 2,8 milhões de toneladas/ano para 18 milhões, um crescimento de 600%. A produção de automóveis passou de 174.000 unidades ano para 880.000, aumento superior a cinco vezes, e, logo, alcançou a casa de um milhão por ano.

A produção de petróleo subiu de 98 mil barris/dia para 340 mil, aumento superior a três vezes. A exportação anual do Brasil subiu de 1,4 bilhão de dólares em dezembro de 1963 para aproximadamente 22 bilhões de dólares em dezembro de 1983, 15 vezes maior.

Em 1964, o País tinha 75 milhões de habitantes e a nossa renda per capita era de 400 dólares, sendo o PIB (Produto Interno Bruto) de 25 bilhões de dólares. No vinteno, a renda per capita atingiu 2 mil dólares, mesmo com a população crescendo para 125 milhões de habitantes. O PNB cresceu 1.450%, chegando a 295 bilhões de dólares.

Dois dados do campo social merecem ser ressaltados. No ensino superior, demos um salto de 120 mil universitários para 1,3 milhão, um crescimento de 1.000%. O outro número importante refere-se à quantidade de habitações construídas com base nos financiamentos do Banco Nacional da Habitação (BNH), que cresceu de 100 mil unidades para 4 milhões e duzentos mil, o que corresponde a um aumento de 42 vezes.

(...)

Concluindo, parece-me importante repetir que, para alcançar esses resultados, nos apoiamos, em boa parte, na poupança alheia, cerca de 60 bilhões de dólares, em termos reais, sobretudo a partir do Governo Geisel, uma vez que ao final do Governo Médici a nossa dívida não chegava a US$ 8 bilhões. Adquirimos no exterior equipamentos pesados para ampliação de quatro usinas siderúrgicas e para a instalação de mais três, assim como para o estabelecimento de dois pólos petroquímicos e para a metalurgia do cobre, do zinco e do níquel.

Para a realização das conhecidas obras ciclópicas monumentais, colossais, acrescentamos o pedido de novos empréstimos para rodovias, telecomunicações, saneamento básico e habitação. A consequência foi o natural endividamento nacional, especialmente no Governo Geisel que passou ao seu sucessor uma dívida de US$ 40 bilhões, cerca de cinco vezes maior do que recebera do Presidente Médici, apesar de que os gastos redundaram num aumento substancial da nossa infraestrutura capaz de permitir um grande crescimento.

Os governos posteriores civis, Sarney e Collor, Itamar e Fernando Henrique – aumentaram enormemente essa dívida. Com eles, a dívida se ampliou assustadoramente, sem um retorno de investimentos que justificasse tal endividamento. Esse é um dos maiores problemas a serem resolvidos, que tornam extremamente vulnerável a economia do País como um todo. Aí, está, também, uma diferença fundamental entre o período revolucionário, onde a dívida tinha uma contrapartida de crescimento real, e o período posterior, onde a dívida cresceu absurdamente sem ninguém constatar nenhum crescimento razoável da economia brasileira” (Coronal Hernani D’Aguiar, Tomo 9, pg. 193-194).

Obs.

Em 9/4/2020, o Professor de Economia Ricardo Bergamini publicou a evolução da dívida total brasileira, de 2002 até fevereiro de 2020. Bergamini dá destaque à dívida interna em poder do Banco Central, que não é lembrada na mídia – uma verdadeira “pedalada fiscal”.

No início do Governo Lula da Silva, a dívida estava em cerca de R$ 1,104 trilhão. Em fevereiro de 2020, chegou a 6,182 trilhões. Confira tabela abaixo.

F. M.

Dívida Líquida

Total da União (Interna e Externa)

 Fonte ME - Base R$ bilhões.

Itens

2002

% PIB

2010

% PIB

2018

% PIB

Fev/20

% PIB

Dívida Interna Em Poder do Mercado

558,9

37,54

1.603,9

41,28

3.728,9

54,13

4.099,9

55,94

Dívida Interna Em Poder do Banco Central

282,1

18,95

694,0

17,86

1.794,3

26,04

1.901,6

25,94

Dívida Externa Líquida

262,9

17,66

90,1

2,32

148,2

2,15

181,1

2,47

Dívida Total Líquida

1.103,9

74,15

2.388,0

61,46

5.671,4

82,32

6.182,6

84,35

PIB 2002 – (R$ 1.488,8 bilhões); PIB 2010 – (R$ 3.885,8 bilhões);

PIB 2018 – (R$ 6.889,2 bilhões). Previsão do PIB 2020 – (R$ 7.329,4 bilhões). 

Hoje é dia de divulgação da dívida da União com base em fevereiro de 2020 e, como sempre, a imprensa omite o estoque da dívida em poder do Banco Central no montante de R$ 1.901,6 bilhões (25,94% do PIB), sendo essa a parte mais importante da dívida, visto que nada mais é do que uma “pedalada oficial” (aumento disfarçado de base monetária, ou emissão de dinheiro falso). Vejam que essa orgia saiu de 17,86% do PIB em 2010, para 25,94% do PIB em fevereiro de 2020. Crescimento real em relação ao PIB de 45,24%. É nessa lama que o Brasil joga os seus criminosos e imorais déficits fiscais primários. 

Em 2010 o estoque da dívida líquida da União (interna mais líquida externa) era de R$ 2.388,0 bilhões (61,46% do PIB). Em dezembro de 2018 era de R$ 5.671,4 bilhões (82,32% do PIB). Crescimento real em relação ao PIB de 33,94%. Em fevereiro de 2020 migra para R$ 6.182,6 bilhões (84,35% do PIB). Aumento real em relação ao PIB de 2,47%, comparativamente ao ano de 2018.

Ricardo Bergamini

(48) 99636-7322

(48) 99976-6974

ricardobergamini@ricardobergamini.com.br

www.ricardobergamini.com.br

 

Primeiro lugar em “vontade nacional” – orgulho de ser brasileiro!

“Foram tempos em que alguns lutaram para dar a todos os brasileiros: paz social, ordem e absoluta segurança, bem como prosperidade à nossa Nação. Apesar da ação permanente dos revanchistas, há muitas pessoas de bem que sentem saudade daquela época, em que o Brasil era verdadeiramente respeitado.

O professor Ray Cline, que foi assessor permanente do Presidente dos Estados Unidos desde a época de Franklin Delano Roosevelt e que dirigiu o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais da Universidade de Georgetown, em Washington, ao estudar o Poder Nacional em termos quantitativos e qualitativos dos 78 maiores países do planeta, chegou à conclusão, em estudo publicado em 1975, de que o Brasil do primeiro lustro da década em 1970 era o sexto país, em Poder Nacional, na frente, por exemplo, do Canadá, da Itália e Austrália, e o primeiro, junto com a França, em determinação ou vontade nacional.

Considerando a reconhecida competência do Professor Ray Cline, sem dúvida um dos maiores estrategistas não só norte-americano, mas de todo o mundo, verifica-se o valor incomensurável do Brasil, como nação, na primeira metade da década de 1970 (Governo do Presidente Médici, querido pelos brasileiros, exceto pelos terroristas sanguinários e seus defensores extremistas, que hoje usam a mídia para criticá-lo injustamente.

Já em 1971, falando aos estagiários da Escola Superior de Guerra, o então embaixador do Brasil em Washington, Araújo Castro, asseverava: ‘Nenhum país escapa ao seu destino e, feliz ou infelizmente, o Brasil está condenado à grandeza. A ela condenado por vários motivos, por sua extensão territorial, por sua massa demográfica, por sua composição étnica, pelo seu ordenamento sócio-econômico e, sobretudo, por sua incontida vontade de progresso e desenvolvimento’, aquela forte vontade nacional do primeiro lustro da década de 1970, mensurada com tanto acerto por Ray Cline.

Os vinte anos do regime político implantado em 1964 transformaram completamente o Brasil, que se modernizou e se desenvolveu de modo realmente revolucionário.

É uma pena que no País que já teve a maior vontade nacional do mundo, como vimos, hoje prevaleça a vontade internacional, como se verificou, por exemplo, na criação da reserva Ianomâmi, um crime perpetrado contra a soberania nacional por Collor de Mello e seu Ministro da Justiça, Jarbas Passarinho, para atender às exigências norte-americanas feitas por escrito – carta assinada por oito senadores dos EUA, em 14 de junho de 1991, encaminhada a Collor por George Bush” (General-de-Brigada Geraldo Luiz Nery da Silva, Tomo 10, pg. 235-236).

 

Mar territorial das 200 milhas

“Expandimos o nosso território através do mar das 200 milhas, com uma reação enorme de todo mundo em cima do Presidente Médici, porque aquela medida incorporava ao território brasileiro enorme área passível de exploração econômica, as 200 milhas em todo o nosso litoral.

Cerca de 4 milhões de km2 de superfície que passaram a ser somados a nossa área de 8,5 milhões de km2 [entrevistador]” (General-de-Exército Luiz Gonzaga Schroeder Lessa,  Tomo 10, pg. 68).

“O que aconteceu nos últimos vinte anos, vamos dizer entre 1964 e 1984 e o que aconteceu entre 1985 e 2005 que é o mesmo período? Então, vai ser um desastre. Não fizeram nenhum porto, a Revolução fez vinte. Não construíram nenhuma estrada, a Revolução 56 mil quilômetros. Ergueram 2 milhões de casas, a Revolução 4 milhões. Como podem competir? Quais são as siderúrgicas que os atuais governos instalaram? Nenhuma, todas que existem herdaram dos governos revolucionários. Onde há um projeto igual ao Carajás? Ah! Desenvolveram o cerrado? Negativo! O cerrado é obra realmente do Governo autoritário. Foi ele que investiu em pesquisa para usar o cerrado; foi ele que fez um programa com os japoneses para construir estrada para chegar ao porto e nós estamos hoje tirando proveito disso.

(...)

A única mensagem que vou deixar é esta: entendo ser preciso que esse período seja estudado com relativa isenção. Diria que serão identificados alguns defeitos, alguns pecados, como também, muitas virtudes importantes, quer na forma de administrar, de comportar-se diante do patrimônio público, quer no processo ético completamente diferente: a idéia de que terminou o meu mandato, tenho que ir embora. É uma diferença fundamental, porque o civil acha isso abominável, só um idiota que, podendo continuar no Poder, vai embora. Esse processo ético é totalmente diferente. Então, penso que o fundamental é darmos instrumentos e estimular essa gente que está chegando agora, que já tem apreciável distância dessa época, a qual ele tem acesso somente pela literatura – do que aconteceu – mas que tem disposição para aprofundar estudos e pesquisas. Então acho que teremos uma avaliação mais positiva desse Movimento. Embora, como disse, vamos carregar alguns dos pecados cometidos, eternamente” (Deputado Federal Antônio Delfim Neto, Tomo 5, pg. 166-167).

“Quanto ao Médici, não me julgo elemento indicado para qualquer avalição, pois fiz parte da sua equipe. Era um homem simples, desapegado do Poder, bem-intencionado e popular. Em razão dos seus êxitos, passou a ser sistematicamente contestado pela mídia esquerdista. A declaração dele: ‘O governo vai bem, mas o povo vai mal’, mostra claramente as suas preocupações com os problemas sociais e a sua coragem de dizer que não concordava com alguns aspectos da sua administração.

Vale ressaltar que as ações do seu governo obstaram a expansão do comunismo internacional, que se esvaziou na América do Sul. E nada foi feito simplesmente para agradar aos americanos, como muitos dizem. Até pelo contrário, os enfrentamos em várias áreas de interesse, como, por exemplo, a fixação dos limites do mar territorial em duzentas milhas. O Embaixador Menezes Côrtes, quando esteve em Porto Alegre, contou-nos a pressão que o Brasil sofreu por parte dos americanos devido à nossa decisão. Ameaçaram bloquear a nossa rádio-base na Ilha das Cobras. Através de uma espécie de ‘guerra eletrônica’ iriam desmontar o frágil sistema de vigilância do nosso mar territorial, que fazia o rastreamento dos navios e submarinos no Atlântico Sul” (Coronel Hélio Lourenço Ceratti, Tomo 13, pg. 193).

Obs.:

Com o mar territorial de 200 milhas, o território brasileiro teve um acréscimo de 5,7 milhões de km2 de área oceânica ao longo da costa brasileira, a chamada “Amazônia Azul”.

Em 2005, o Ministério da Educação e a Marinha do Brasil lançaram o livro “O Mar no Espaço Geográfico Brasileiro” – disponível em https://www.academia.edu/13122999/O_Mar_no_Espa%C3%A7o_Geogr%C3%A1fico_Brasileiro.

F. M.

 

A terceira bandeira

“Nos anos da Revolução, até Médici, o Brasil estourou todas as metas e previsões e ombreou-se com as grandes nações; tornou-se um País em pleno desenvolvimento. A infraestrutura de comunicações, transportes e energia subiu de patamar, resultado de uma administração eficaz e proba, que aplicou os recursos com correção e de maneira competente. O Brasil mudou de feição.

Vou citar só um fato: fretes, a terceira bandeira.

Mário Andreazza, Ministro dos Transportes, foi oportuno com a denúncia que fez sobre o Acordo dos Fretes, pois exportávamos no navio dos outros.

Pagávamos a totalidade dos fretes e seguros gerados por nosso comércio exterior a armadores estrangeiros. Era uma vergonha! O Ministro deu um murro na mesa, denunciou o Acordo, provocando, para tratar do assunto, corrida ao Brasil – foi no início da década de 1970 – da Rainha da Inglaterra, de representantes noruegueses e outros.

Acabou a terceira bandeira, para nós, e deslanchou a indústria naval, que não existia no País” (Coronel Francisco Valdir Gomes, Tomo 6, pg. 138).

“No período da Revolução, ninguém tinha medo de bandido. Andava-se pelas ruas, a pé, filhos, esposas, para fazer visitas a qualquer hora do dia ou da noite. Não tinham carro.

Havia o quê? Algum milagre? Não, é que naquela época havia autoridade e hoje não existe autoridade. Hoje o bandido faz o que quer porque sabe que é impune. Ninguém o pune porque não tem moral para punir.

E por que não tem moral? Porque as autoridades de hoje foram os bandidos de ontem. Como punir? Que moral elas têm? Nenhuma! (Coronel Stanley Fortes Baptista, Tomo 6, pg. 101).

 

Criação do Funrural, o maior programa de distribuição de renda da América Latina

“Durante o Governo do Presidente Médici (30.10.69-15.03.74), o País assistiu à implantação do Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural (Funrural), o maior programa de distribuição de renda da América Latina, atendendo a milhões de trabalhadores rurais, até então abandonadas à própria sorte, pois que sem dinheiro à aposentadoria. Esta foi uma medida de transcendental importância para o campo, onde morava a maioria da população brasileira e a mais pobre. No interior não existia uma política creditícia ou de financiamento para a agricultura, de apoio aos pequenos produtores. A pobreza, ali, era muito grande, muito acentuada, e não se manifestava em toda sua grandeza e necessidades, porque o homem campestre era pacato, e expressava muito a figura do Jeca Tatu, era o homem conformado por falta de cultura. No entanto, a contribuição do pequeno agricultor, em termos de produção de alimentos, era tão significativa que a criação do Funrural e a extensão dos seus benefícios à grande família do campo passaram a se constituir numa questão de justiça social” (Engenheiro Agrônomo Francisco Valter Vieira, Tomo 12, pg. 264-265).

 

O “milagre brasileiro”

“Se observarmos os números da execução financeira do /tesouro no período 1963-1973, vamos verificar que o déficit – diferença entre receita e despesa , em 1963, foi de 48%, caindo para 34% em 1964, e evoluindo para um saldo positivo em 1973, primeira vez que as receitas do Tesouro superaram as despesas. Vale registrar que os déficits, a partir de 1969, foram inexpressivos, caracterizando um equilíbrio entre receita e despesa. Este desempenho foi um dos principais responsáveis pela queda gradual da inflação nesse período. Tal comportamento de ajuste de receita e despesa na execução financeira do Tesouro, introduzido e perseguido pela Revolução de 1964, é o que, a partir do ano 2000, passou a chamar-se de Responsabilidade Fiscal.

(...)

Portanto, segundo a Revista Conjuntura Econômica (FGV), de maio de 1974, o PIN mais que triplicou, de 1963 a 1973, passando de 20 para 63,5 bilhões de dólares. Nesse mesmo número da Revista, verifica-se que, em 1963, as exportações brasileiras foram de 1,4 bilhão de dólares e, em 1973, de 6,8 bilhões de dólares, quintuplicando praticamente aquele valor. A produção de veículos automotores cresceu de 171 mil, em 1963, para 730 mil, em 1973, e a de tratores de rodas de 11 mil para 42 mil. Com relação à produção de cimento (em 1.000t) e de aço em laminados (em 1.000t), o crescimento deu-se de 5.000 para 15.000 e de 2.000 para 6.000, respectivamente, ou seja, triplicaram.

Estes e outros números caracterizaram o extraordinário crescimento do Produto Interno Bruto, evidenciando uma nova dimensão da economia brasileira no período revolucionário, especialmente entre 1968 e 1973, com a taxa anual média de 10%. Este fato, como sabemos, passou a chamar-se Milagre Econômico. Isto nos faz, hoje, lembrar, com saudade e orgulho daquele período de prosperidade inédita.

Pela relevância dessa evolução, é justo que recordemos com os brasileiros esta época memorável através do quadro que peço seja focalizado:

VARIAÇÃO ANUAL DO PIB (%)

1963 – 1,5

1964 – 2,9

1965 – 2,9

1966 – 5,1

1967 – 4,8

1968 – 9,3

1969 – 9,0

1970 – 9,8

1971 – 12,0

1972 – 11,1

1973 – 13,6

 

Diante destes dados, fica evidente que o País chegou em 1973 com a inflação declinante, o crescimento elevado e saldo positivo na balança comercial.

Atualmente (2002-2004), a mensagem que é passada pelos nossos Ministros da Fazenda expressa que isto é impossível, ou seja, que só a estabilidade da economia viabiliza o crescimento do País e que o combate ao desemprego terá que esperar por isto. Diante das atuais e elevadas taxas de desemprego, 20% na área metropolitana de São Paulo, fica evidente o quanto eram injustas, para não dizer terríveis, as críticas dos opositores da Revolução: ‘O povo não come obras de infraestrutura’ ” (General-de-Divisão Luiz Augusto Cavalcante Moniz de Aragão, Tomo 12, pg. 104-105).

“Será que era culpa de meu pai que o Brasil de seu governo estivesse batendo recordes de crescimento? Que vivêssemos a pleno emprego? Que a Nação chegasse a crescer até 13% ao ano? Que tivesse conseguido colocar a inflação a níveis do primeiro mundo? Será que os adversários querem até que se esconda os dados de todos esses sucessos? É proibido declarar que estávamos batendo o Japão em termos de crescimento? Será que escamotear tudo isso não é pedir demais?

A expressão ‘milagre brasileiro’ não foi coisa de sua assessoria. A expressão surgiu por meio de alguns comentaristas ao constatarem que, em termos de desenvolvimento, havíamos passado o Japão, cujo êxito era visto pelo mundo como ‘milagre japonês’.

Quanto ao ‘Brasil Grande’, será que foi mais divulgado do que ‘os 50 anos em 5’ do Juscelino?” (Engenheiro Roberto Nogueira Médici, Tomo 14, pg. 193).

 

Província mineral de Carajás

“Merecem destaque os investimentos na província mineral de Carajás, descoberta em 1967 e que já se revelara muito promissora. Seu dimensionamento progressivo avaliou uma reserva de 18 bilhões de toneladas de ferro de alto teor (66%), mas também uma grande quantidade de cobre, manganês, bauxita e ocorrências significativas de ouro, níquel, cromo e estanho. A necessidade de investimentos, no entanto, era grande e a produção em larga escala só poderia começar a acontecer em 1986. Em 1977, os investimentos estimulados para o Projeto Ferro-Carajás eram tão elevados que a empresa americana United States Steel, até então associada à Companhia Vale do Rio Coce (CVRD) na iniciativa, desvinculou-se do projeto. Além das dimensões dos custos, a sua análise em relação às perspectivas do mercado internacional era pessimista.

Isto, naturalmente, significou mais ônus para o Brasil. Portanto, um grande projeto, voltado principalmente para a exportação, exigindo também um grande investimento de longo prazo, ajudando a compor a estratégia de melhora da balança comercial, em um período de crise internacional, tornou-se extremamente crítico para o País. Uma estratégia própria de grandes estadistas, planejadores e empreendedores, competentes e confiantes, mas, certamente, sonhadores e atrevidos. Planejadores que romperam com as teorias conservadoras e jogaram pesado. Souberam arriscar” (General-de-Divisão Luiz Augusto Cavalcante Moniz de Aragão, Tomo 12, pg. 108).

 

Construção de hidroelétricas

Quais as hidroelétricas de maior destaque construídas no período revolucionário? [entrevistador]

Itaipu, Tucuruí, Urubupungá, o Complexo de Ilha Solteira, Emborcação, Sobradinho, Paulo Afonso (I, II, III e IV), Itaparica, Itumbiara, Porto Primavera, Pedra do Cavalo, Rosana, Taquaruçu, São Simão, Três Irmãos, Foz do Areia, Salto Osório, Marimbondo, Samuel, Funil, Boa Esperança e tantas outras.

O que pode ser dito sobre a Hidroelétrica de Itaipu? [entrevistador]

Trata-se da maior hidroelétrica do mundo.

Foi inaugurada em outubro de 1984, com duas de suas 18 turbinas previstas funcionando. Cada turbina gera 700 MW e o conjunto tem uma capacidade de 12.600 MW. Naquela data, foi também entregue um ‘linhão’ para transmissão da energia, com 1.200 km, indo de Foz de Iguaçu a São Roque (SP).

O custo deste empreendimento foi de US$ 15 bilhões, sendo que só o ‘linhão’ custou cerca de 1 bilhão e 200 milhões de dólares.

O esforço para salvar a fauna e a flora da região ganhou destaque na imprensa internacional como uma das maiores e mais sérias iniciativas desse tipo, até então realizadas. Inevitavelmente, a formação do lago submergiu o conjunto do Salto de Sete Quedas, um dos mais belos monumentos naturais do Brasil.

Recentemente, assistia na TV ao comentário de que o aço gasto em Itaipu correspondeu a 380 Torres Eiffel” (General-de-Divisão Luiz Augusto Cavalcante Moniz de Aragão, Tomo 12, pg. 112).

 

Construção de rodovias

Quais as principais realizações no setor rodoviário? [entrevistador]

A evolução da Rede Rodoviária Nacional foi extraordinária ao longo dos governos militares. Vejamos alguns dados que eu trouxe anotado para me facilitar. Em 1964, havia, no País, entre todos os tipos de estradas, 545 mil quilômetros, dos quais apenas 34 mil quilômetros asfaltados; por elas passavam cerca de 450 mil caminhões por ano; todas as estradas eram em pista simples.

Em 1984, havia no País 1,4 milhão quilômetros de estradas, portanto, foram construídas 45 mil quilômetros de rodovias por ano; desse total, 100 mil quilômetros era pavimentadas; e por elas passavem cerca de 2 milhões de caminhões por ano, apesar da segunda crise do petróleo, ocorrida em 1979. Como decorrência, o aumento de circulação de passageiros e mercadorias foi gigantesco, levando riqueza para todo o território nacional.

A estes números, podem ser acrescidos cerca de 1.000 quilômetros por ano em trechos de conservação de estradas, inclusive com repasse de recursos para os governos estaduais.

Que obras rodoviárias merecem destaque ao longo dos governos revolucionários? [entrevistador]

- duplicação da Rio-São Paulo, isto é, passou a ter duas pistas independentes (auto-estrada), inclusive com a nova pista de subida da Serra de Araras;

- concretização das ligações, ainda incompletas ou inexistentes: Rio-Salvador, Curitiba-Porto Alegre, Campo Grande-Cuiabá e Cuiabá-Goiânia;

- novo traçado da BR-040, no trecho Petrópolis-Juiz de Fora, com duas pistas. A BR-040 liga o Rio de Janeiro a Belo Horizonte e Brasília;

- construção da Ponte Rio-Niterói, com 14 km, inaugurada em 1974;

- construção das rodovias: Rio-Santos, Santos-São Paulo (Imigrantes), São Paulo-Campinas (Bandeirantes);

- prosseguimento, com pavimentação, da Rodovia Anhanguera até à BR-040, melhorando a ligação São Paulo-Brasília;

- melhoramento do traçado e reconstrução com asfaltamento (antes era em terra) da Belém-Brasília;

- construção da Cuiabá-Santarém (BR-163), com 1.750 km, pelos 8º. E 9º. Batalhões de Engenharia de Construção. Esta obra permitiu o desenvolvimento do Projeto SINOP a 500 km ao norte de Cuiabá, além de levar o progresso para a área por ela servida;

- construção da Tansamazônica, aproveitando, em grande parte, mão-de-obra desempregada do Nordeste como consequência de uma terrível seca naquela região;

- construção e asfaltamento da Rodovia Cuiabá-Porto Velho (Rodovia Marechal Rondon): 1.442 km, eliminando o estrangulamento do Noroeste em relação ao Centro do País. Antes, o tempo de viagem era de trinta dias; com a sua entrega, passou a ser de 24 horas;

- construção e pavimentação da Rodovia Brasília-Barreiras-Salvador, inclusive execução de ponte sobre o Rio São Francisco. A rodovia foi construída pelo 4º. Batalhão de Engenharia de Construção (Barreiras);

- construção e pavimentação da rede do Nordeste, possibilitando encurtamento superior a 600 km nas viagens entre Brasília e São Luís, Brasília e Fortaleza, e Brasília e Recife;

- o acréscimo total à rede do Nordeste, entre estradas pavimentadas e não pavimentadas, ligações e acessos foi de 5 mil quilômetros;

- asfaltamento da maioria das estradas do Rio Grande do Sul” (General-de-Divisão Luiz Augusto Cavalcante Moniz de Aragão, Tomo 12, pg. 118-119).

 

O transporte ferroviário foi relegado a segundo plano, mas não esquecido

“Também não foi esquecido o setor ferroviário. Para não esquecer os feitos mais importantes, trouxe também uma relação das ferrovias construídas ao longo dos governos da Revolução:

- da Soja, no Paraná e Santa Catarina;

- de Carajás (Pará-Maranhão) – com 890 km, ligando a província mineral da Serra do Carajás ao porta da Madeira, próximo a São Luís;

- do Aço (Minas Gerais-Rio de Janeiro-São Paulo), o seu trajeto revelou-se muito caro, pelo número elevado de viadutos e túneis, além de suas características técnicas muito rigorosas. Sua construção, ora foi interrompida, ora ganhou metas desaceleradas, mas não foi concluída. É usada parcialmente;

- do Trigo (Roca Sales-Passo Fundo), iniciada e interrompida na década de 1950, a retomada de sua construção tornou-se viável após a primeira crise do petróleo (1973) e pelo fato de ter sido confiada ao 1º. Batalhão Ferroviário). Concluída em 1980;

- Minas-Distrito Federal, partindo de Pires do Rio (Minas Gerais), foi concluída pelo 2º. Batalhão Ferroviário; o seu destaque é a ponte sobre o Rio Araguari, construída por administração direta por aquela organização militar.

Foram modernizados muitos trechos ferroviários, especialmente com substituição de toda a superestrutura, isto é, trilhos, dormentes e lastros (brita). Como por exemplo, o pátio de Canoas, e trechos diversos da malha do Rio Grande do Sul.

Por outro lado, foram desativados vários ramais ferroviários considerados antieconômicos.

Uma atenção especial foi dada ao transporte coletivo das grandes cidades, com a construção dos trechos iniciais do metrô do Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e Recife.

- as linhas de trens urbanos e suburbanos também foram melhoradas e receberam muitas composições novas, como por exemplo, as da antiga Central do Brasil, além de obras de infraestrutura, com sensível melhoria da eficiência em geral” (General-de-Divisão Luiz Augusto Cavalcante Moniz de Aragão, Tomo 12, pg. 120).

 

Construção de portos

“Nos vinte anos de governos da Revolução, foi dada uma atenção importante ao sistema portuário no País.

Foram  construídos inúmeros portos e os maiores, já existentes, foram ampliados e modernizados, inclusive com largo investimento em aquisição de equipamentos de grande porte.

Vejamos os novos portos construídos:

- Porto de Sepetiba – Os estudos para a localização do Porto na Baía de Sepetiba tiveram início em 1973, pelo Governo do então Estado da Guanabara. A partir de 1974, foram assumidos pelo antigo Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis, sucedido pela Portobras. A primeira etapa da obra, o  terminal de carvão, na Ilha da Madeira, entrou em operação em 1982. Foram ainda previstos o terminal para minérios de ferro e o de carga geral.

- Porto de Praia Mole – O complexo portuário de Praia Mole, em Vitória, foi inaugurado oficialmente em novembro de 1984. Possibilitou a movimentação de 3 milhões de t/ano de produtos siderúrgicos e 8 milhões de t/ano de carvão. É um porto artificial em mar aberto e sua localização na Ponta do Tubarão é favorecida pelo acesso ao terminal da Companhia Vale do Rio Doce.

- Porto da Ponta da Madeira – Situado a 9 km de São Luís, é parte do Projeto Carajás. Possui instalações de descarregamento de vagões, estocagem de minérios, sistema de embarque por uma linha de transportadores, repeneiramento e rebritagem.

- Porto de Estrela – Situado no Rio Taquari (Rio Grande do Sul), foi inaugurado em 1977, tornando-se o primeiro entroncamento intermodal, conectando hidrovia, ferrovia e rodovia.

- Porto de Trombetas – Situado à margem direita do Rio Trombetas, afluente do Amazonas, escoou em 1984 cerca de quatro milhões de toneladas de bauxita.

Iniciado em 1967, quando foram descobertas as primeiras jazidas de bauxita, a 80 km da Cidade de Oriximiná (Pará). O primeiro embarque para o mercado internacional deu-se em agosto de 1979. A bauxita é levada da mina por ferrovia, num percurso de 30 km.

A Companhia Vale do Rio Doce era a maior acionista (46%) do projeto.

A preocupação com a ecologia também está presente em todo o Projeto Trombetas. Dentro dessa filosofia, foi criada a Comissão Interna de Meio Ambiente (CIMA), que busca possibilitar um melhor controle e preservação das condições ambientais da área.

Pode-se citar, ainda, entre outras obras, a construção do terminal açucareiro de Recife e o salineiro de Areia Branca” (General-de-Divisão Luiz Augusto Cavalcante Moniz de Aragão, Tomo 12, pg. 120-121).

 

Construção de aeroportos

“Foram construídos os seguintes aeroportos:

- Internacional do Rio de Janeiro;

- Internacional de Guarulhos (São Paulo);

- Internacional de Confins, a 47 km do Centro de Belo Horizonte. Atualmente, denominado Tancredo Neves.

Outros aeroportos foram ampliados e modernizados. O gerenciamento das obras e do financiamento destas instalações foi muito bem conduzido pela Infraero.

Para coroar as realizações na infraestrutura aeronáutica, foi implantado o Sistema Integrado de Defesa Aérea e Controle do Tráfego Aéreo (SINDACTA), com a utilização de radares tridimensionais, que executam o acompanhamento do tráfego aéreo, integrados ao processamento de dados em computadores para informação dos voos” (General-de-Divisão Luiz Augusto Cavalcante Moniz de Aragão, Tomo 12, pg. 121-122).

 

Acertos no campo social: BNH, FGTS, Estatuto da Terra, Mobral

“O BNH [Banco Nacional da Habitação] foi importante, foi extremamente importante; o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) foi importantíssimo. O Estatuto da Terra editado pelo Presidente Castello Branco; o Mobral, também, foi muito bom. Eu fiz o IPM do Mobral comunista, que era o PNA (Programa Nacional de Alfabetização), associado ao Movimento de Cultura Popular, que eles usavam para doutrinação dos favelados. O coordenador nacional desse PNA era o Betinho – Herbert José de Souza. Primeiro, da AP (Ação Popular) do meio estudantil, depois comunista quando adquiriu mais asas. Aí, ele, então, se revelou totalmente. Ele foi o Coordenador do Programa Nacional de Alfabetização, que era um programa de alfabetização, mas de linha comunista. Inicialmente, quando quiseram anular esse PNA, fizeram o Mobral. Nas mãos do Simonsen [Mário Henrique Simonsen], os resultados foram muito bons” (General-de-Brigada Celso dos Santos Meyer, Tomo 10, pg. 142).

 

Planos estratégicos, projeto de Nação

“O que houve de extraordinário para o Brasil foi que cresceram nossas responsabilidades no plano de possibilidades estratégicas, de projeto de Nação – estudamos e pensamos o Brasil por toda a vida – convivemos com a gente brasileira ao longo de todas as regiões do nosso País. As Forças Armadas são uma universidade natural do povo, a presença do oficial, do sargento, dos quadros profissionais, enfim, lá nos ermos da Amazônia, no interior do Nordeste, de Minas, do Rio Grande do Sul, nas grandes capitais. Essa interação com as populações civis nos oferece essa lição de Brasil que se projetava dentro dos programas de desenvolvimento amplo da Revolução, do qual destaco o Segundo Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND), que é um marco no Governo Geisel, e abrange todas essas grandes linhas do desenvolvimento nacional.

Ali, notamos a sensibilidade para a priorização da área tecnológica, para onde teremos que ir – o salto é por aí – e vieram as verbas, não só para a área militar, para os projetos da Marinha na área tecnológica, projetos nucleares importantes, para os projetos do Exército, na área bélica, quando o mundo se assustou com os nossos blindados, fruto de pesquisas tecnológicas inteiramente conduzidas por brasileiros: o Urutu, o Cascavel, o Sucuri, o Osório, além da Embraer, mísseis, satélites, foguetes etc.

A priorização foi em ambos os sentidos, não só na parte militar, mas na civil, como o Centro de Pesquisas de Telecomunicações, da Embratel, em Campinas, que é o maior do mundo, e onde nasceu a fibra ótica; a Eletrometal, que é a primeira indústria mundial a beneficiar o nióbio, fazendo a mistura daqueles aços especiais necessários à corrida espacial e outras aplicações dessa notável tecnologia de ponta.

Sempre houve uma tentativa de equilíbrio, não priorizando projetos desenvolvimentistas ou demandas só do Exército. Os projetos desencadeados de avançadas e ousadas conquistas nas áreas espacial, de telecomunicações, energética; na agricultura, como a Embrapa, com tecnologias pioneiras e extraordinários experimentos científicos etc., tudo isso foi um projeto global e não podemos jamais ser acusados de tratamento especial, no que diz respeito a interesse estratégico militar” (Coronel Francimá de Luna Máximo, Tomo 11, pg. 238-239).

Obs.:

Sobre a Embrapa, veja o trabalho inovador que o ministro Alysson Paolinelli fez na estatal - https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/05/alysson-paolinelli-o-motor-da-embrapa.html.

O plano que reinventou o campo - Alysson Paolinelli - https://www.youtube.com/watch?v=6GkTMPuJ5nA.

F. M.

 

Programa Nuclear Brasileiro

“O programa nuclear brasileiro foi justificado, também, a partir de uma previsão de esgotamento do potencial hidrelétrico na região centro-sul. Não havia também a certeza da viabilidade técnico-econômica da transmissão elétrica a distâncias superiores a 2.000 km. Por outro lado, havia a plena consciência de que o quilowatt oriundo de uma usina termonuclear era bem superior ao da hidroeletricidade e, desde a década de 1950, com a experiência do Almirante Álvaro Alberto, sabia-se que os países detentores da tecnologia nuclear dificilmente concordariam em transferi-la, mas apenas estariam dispostos a vender ‘caixas-pretas’.

Em 1967 e 1968, dois grupos técnicos recomendaram a instalação de uma usina nuclear com capacidade da ordem de 500 MW.

Em 1971, após concorrência internacional, foi assinado contrato com o consórcio Westinghouse e Empresa Brasileira de Engenharia, para o fornecimento e montagem de uma Central Nuclear de 625 MW, utilizando Reator a Água Leve Pressurizada (PWR), utilizando-se como combustível o urânio enriquecido e no esquema ‘caixa-preta’.

A seguir, começaram as articulações para a instalação de mais seis ou oito centrais nucleares. Foi quando surgiu a alternativa do acordo com a República Federal da Alemanha (1975), dentro da premissa de que o Brasil não devia nem podia limitar-se a adquirir no exterior, em operações isoladas, centrais nucleares, sem cogitar de um programa de cooperação tecnológica e industrial, tanto no que se refere a centrais quanto ao ciclo do combustível, que proporcionasse uma autonomia progressiva.

A base da cooperação foi uma programação da instalação de oito centrais nucleares até 1990, de 1.300 MW de potência cada uma, com a participação progressiva da indústria nacional no fornecimento dos componentes. O valor global do programa – centrais mais ciclo do combustível – foi estimado, na época, em cerca de US$ 20 bilhões.

O protocolo previa a constituição de 11 empresas mistas entre a Nuclebras e cerca de vinte grandes empresas e bancos alemães ou suas subsidiárias. Apenas cinco dessas empresas foram constituídas, dentre elas estão: Nuclep, fábrica de componentes pesados de reatores; Nuclen, empresa de engenharia nuclear; Nuclam, empresa de mineração e prospecção de urânio; Nuclei, serviços de enriquecimento, e Nusteg, pesquisas para aperfeiçoamento jet-nozzle de enriquecimento.

Como se sabe, os preços dos fornecedores alemães começaram a subir, em especial após o segundo choque do petróleo, e a economia brasileira também viu-se bastante fragilizada. Foi necessário, portanto, uma expressiva redução do programa como um todo, embora não tenha sido paralisado.

Assim, da Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto, cujo nome homenageia um dos maiores incentivadores do programa nuclear brasileiro, foram construídas apenas a Angra-1, já citada, e a Angra-2, com potência de 1.300 KW, embora a maior parte dos equipamentos de Angra-3 já estejam comprados.

O que coube às Forças Armadas no Programa Nuclear Brasileiro? [entrevistador]

A partir de 1982, o Exército Brasileiro participou do esforço pelo domínio da energia nuclear com o Projeto Atlântico, que contemplou o estudo da viabilidade técnica da construção de um reator de potência moderada a grafite, refrigerado a ar, e da produção, no Brasil, de frafite nuclearmente pura. Neste contexto, foi criado o Instituto de Projetos Especiais, em Guaratiba, no Rio de Janeiro, que objetivava a construção de um reator crítico de potência entre 10 e 20 MW e a instalação de uma usina para a produção de grafite naquelas condições. Com a Nova República, o projeto foi esvaziado, sobretudo, a partir do desastroso Governo Collor de Mello, o mesmo acontecendo nos oito anos de FHC até ser finalmente extinto, juntamente com o IPE, em 2003, no atual Governo, que não disse ainda a que veio.

A Marinha do Brasil vem realizando, desde o 2º. semestre de 1979, um grande esforço de pesquisa e desenvolvimento que tem como objetivo final a obtenção de um submarino nacional de propulsão nuclear. A missão coube ao Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP), que criou no município de Iperó, São Paulo, o seu centro experimental Aramar. Tendo conseguido, continuamente, recursos bem expressivos, o projeto da Marinha vem obtendo seguidos êxitos apesar de todas as restrições encontradas em fornecedores internacionais, o que vem lhe obrigando a executar um profundo e eficiente trabalho de pesquisa e desenvolvimento, cujo destaque maior foi o desenvolvimento das ultracentrífugas que já operam em cascatas, em escala-piloto, em Aramar” (General-de-Divisão Luiz Augusto Cavalcante Moniz de Aragão, Tomo 12, pg. 114-116).

 

Acordo Nuclear secreto com a China

“O Presidente Figueiredo, em janeiro de 1981, por intermédio do Embaixador Paulo Nogueira Batista, Presidente da Nuclebras, encaminhou uma carta pessoal ao Presidente Reagan, às vésperas da posse deste último, mostrando que o Governo brasileiro se reservava o direito de questionar a validade da Lei de Não-Proliferação aprovada em 1978, já que nós tínhamos acordos firmados com os Estados Unidos e o acordo, uma vez chancelado, deve ser cumprido.

O Embaixador foi recebido pelo Vice-Presidente da República eleito, o Sr. George Bush, pai do atual Presidente dos Estados Unidos, e quatro dias depois informou ao Embaixador Paulo Nogueira Batista o seguinte: o Presidente Reagan compreende a posição do Presidente Figueiredo e verbalmente transmite ao Presidente Figueiredo a sua posição. Ele não tomará nenhuma iniciativa que possa criar problemas se o Brasil buscar o seu desenvolvimento na área nuclear, em outras áreas, fora da forma como foi acertado no acordo com os Estados Unidos.

De forma que entendo o seguinte: independentemente de partido, Democrata ou Republicano, a sociedade americana, uma vez ajustado o procedimento, se esquece dos parceiros e passa a raciocinar só com aquilo que é considerado válido para ela.

(...)

Só para retornar, essa Comissão, a CPI atuou em 1990? [entrevistador]

Em 1990. A Comissão mista do Congresso era dirigida pela Deputada Ana Maria Rattes, e o relator, o Senador Severo Gomes. Então passemos, agora, à parte de debates.

Questionaram que não havia informações claras sobre o Projeto Solimões, um projeto desenvolvido pelo Centro Tecnológica da Aeronáutica, em São José dos Campos, e que buscava o enriquecimento do urânio com base no raio laser.

Outro ponto muito comentado pelos parlamentares foi o embarque de urânio para o Iraque, que teria sido feito no Governo Figueiredo, e que explicitei ter resultado de um acordo-quadro aprovado pelo Congresso Nacional e promulgado pelo Vice-Presidente da República Antônio Aureliano Chaves, no exercício da Presidência da República.

No debate, deixei patente que estava sendo apreciado o que eles chamavam de projeto paralelo autônomo de produção da energia nuclear. Havia mistério sobre como isso começou, como foi obtido urânio enriquecido para o reator da Marinha e do IPEN. Duas ou três vezes, o Deputado Luiz Salomão enfatizou que o problema não nasceu no Brasil. Nasceu em algum lugar.

Eu expliquei a eles o seguinte: cuidarei do aspecto institucional, ou seja, as negociações de governo para governo e deixarei, como ajustado anteriormente, que os aspectos técnicos sejam explicitados pelo Doutor Rex Nazareth Alves. Acontece que no ano a que Vossa Excelência, Deputado Luiz Salomão, se refere, o que encontrou nas instalações de Aramar, no Estado de São Paulo, foi negociado pelo País com a China. Como parte do acordo feito com aquele país, foram exigidas aquelas duas premissas: primeiro a do sigilo, que o nome da China não fosse revelado; o segundo compromisso explícito é que seria usado para fins pacíficos.

E aí invoquei o regimento do Senado Federal, Artigo 117; eu não posso omitir de Vossa Excelência os dados, mas tenho inclusive obrigações das quais, para cumprir o ajuste feito com o país que nos forneceu o urânio enriquecido, não posso declinar. Quanto ao Iraque, não há dificuldade nenhuma, lembro-me do texto claro. Solicito a Vossa Excelência que, para o primeiro caso, o do urânio enriquecido, só estejam em plenário os parlamentares. A reunião naquele momento tornou-se secreta.

É porque no ajuste que fizemos com a China não tínhamos autorização para revelar que nos forneciam a quantidade de urânio desejada para enriquecermos o nosso urânio.

Isso foi quando, General? [entrevistador]

Isso foi no dia 24 de outubro de 1990.

Mas quanto à China fornecer urânio para enriquecer o nosso... [entrevistador]

Em 1982.

Então o nosso Governo revolucionário fez um acordo com a China e isso a oposição não cita? [entrevistador]

Não lhes convém.

O Tratado com a China, de país para país, sobre um problema tão sensível. A nossa imprensa, na época, não tratava disso, talvez por ser sigiloso, nunca foi citado esse acordo. [entrevistador]

(...)

A senhora Ana Maria Rattes, Presidente da CPI, fez uma indagação: seria regimental, dentro da casa, a criação de um mecanismo que fiscalizasse e controlasse o programa autônomo de energia nuclear? E nos perguntou, a mim e ao doutor Rex, se acharíamos mais fácil a Comissão conduzir o processo de fiscalização e controle.

Pedi um prazo para ouvir os meus colaboradores. Depois de consultá-los, considerei válida a proposição, inclusive coloquei o doutor Rex Nazareth à disposição, para dar um arcabouço àquele controle.

Mas desejava, também, tratar da parte da desinformação e até mesmo da má fé. Apresentaram-me os termos de uma declaração do Professor José Goldemberg, Secretário de Ciência e Tecnologia do Governo Collor, que se referiu, em Nova York, a uma publicação do Estado de São Paulo, no dia 10 de outubro: ‘o Presidente Fernando Collor pôs fim a um programa militar secreto para construção da bomba atômica brasileira. Os militares estavam há um ou dois anos construindo uma bomba semelhante à que destruiu Hiroshima’. Palavras do Secretário de Ciência e Tecnologia, querendo mostrar a dificuldade da decisão do Presidente da República, e a importância de possuir instrumentos que permitam a sociedade informada, de existir um nível decisório sobre o que deve ser feito, e como fiscalizar. Essa é a questão. Assim, examinei a proposta da Deputada Ana Maria Rattes.

Depois que ouviram e receberam informações sob juramento, de pessoas qualificadas que efetivamente conheceram o programa nuclear, e depois de visitar os centros de pesquisa das três Forças Armadas, o Senador Severo Gomes concluiu seu relatório. Primeiro, o programa nuclear paralelo e autônomo conseguiu, através do esforço das Forças Armadas e da Comissão Nacional de Energia Nuclear, avanços significativos na área nuclear. A Marinha, no Centro Experimental de Aramar, em Iperó, São Paulo, já enriqueceu urânio; a Aeronáutica, em São José dos Campos, também em São Paulo, trabalha com seu projeto de enriquecimento por raio laser, e o Exército, em Guaratiba, Rio de Janeiro, está se preparando para construir um reator de urânio natural, movido a grafite e refrigerado a gás.

Esses resultados são significativos para a pesquisa nacional, uma vez que foram atingidos com base nos esforços exclusivamente brasileiros. Com investimento, técnicos, equipamentos totalmente brasileiros, as empresas utilizadas no programa já estão perto da escala industrial. Isso significa que o Brasil conseguiu tornar-se independente e autossuficiente nesse setor. O resultado indica, também, que a tecnologia nuclear brasileira deve ser protegida e que a pesquisa e os estudos do setor precisam ser incentivados” (General-de-Brigada Danilo Venturini, Tomo 15, pg. 182-185).

Obs.:

Sobre o Programa Nuclear Brasileiro, veja os textos disponíveis em https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/06/programa-nuclear-brasileiro.html.

Em 1990, o Presidente Collor fechou o buraco na Serra do Cachimbo, Pará, que serviria para testes nucleares.

https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/06/presidente-collor-fecha-buraco-na-serra.html

F. M.

 

Uma síntese das principais realizações dos governos da Revolução

“Devem ser destacados, especialmente:

- o chamado milagre econômico, no período de 1968-1974, caracterizado pela taxa média de crescimento do PIB de 10%;

- a profunda mudança no perfil energético do País, acelerada a partir de 1979, para fazer frente ao segundo choque do petróleo (1979);

- as grandes obras de infraestrutura em estradas, portos e aeroportos;

- os grandes sistemas da Eletrobras (distribuição de energia) e Telebras;

- na área social, a criação do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), o Sistema Financeiro e de Poupança e o Sistema de Habitação, centrado no Banco Nacional de Habitação (BNH) e o Funrural, beneficiando milhões de brasileiros que trabalham no campo.

Como consequência do desenvolvimento econômico, o crescimento do número de empregos e da renda nacional, com seus efeitos inseparáveis na renda individual.

- na área educacional, o destaque maior parece-me que foi a eliminação da figura vergonhosa e desalentadora dos milhares de ‘excedentes’ anuais. Aqueles estudantes aprovados em concursos para as universidades, porém não matriculados por falta de vagas, e o Projeto Rondon, que o Governo FHC manteve com outro nome;

- programa de construção de hidroelétricas, com destaque para Itaipu, Tucuruí e Sobradinho;

- programa de aceleração da busca de autossuficiência de petróleo, a partir de 1979, com destaque para a exploração da Bacia de Campos;

- programa de desenvolvimento da energia nuclear, que permitiu ao País incorporar essa tecnologia estratégica;

- programa de substituição de importações de insumos básicos e bens de capital, com destaque para a criação e expansão de siderúrgicas e fábricas de cimento e a implantação de polos petroquímicos;

- Programa Nacional do Álcool, com destaque para a criação de empregos no campo, acompanhada de melhoria salarial nessa área, e para a ampla fabricação de carros a álcool;

- o amplo programa de mineração, com destaque para o Projeto Carajás;

- o amplo programa de construção rodoviária, com destaque para a efetivação das interligações de todas as capitais do Sul, Sudeste, Nordeste, Centro-Oeste e Norte-Ocidental, além das ligações com Brasília;

- a Ponte Rio-Niterói;

- a implantação de corredores de exportação;

- o grande programa de construção de aeroportos internacionais e do Sistema Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo (SINDACTA);

- os desenvolvimentos regionais com os Programa Indicativo Nacional (PIN), Programa de Redistribuição de Terras (Proterra), Progres;

- o extraordinário êxito da Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco (CODEVASF) em pleno Nordeste brasileiro na produção agrícola;

- a expansão da agricultura e pecuária, apoiada pelas empresas de pesquisas agropecuárias, que integraram grandes áreas, antes consideradas inservíveis para o plantio. Essa expansão passou a gerar receitas crescentes de exportação;

- investimentos e apoio à área de pesquisa e desenvolvimento, com a criação ou reaparelhamento de inúmeros centros de pesquisa e apoio a projeto;

- investimentos elevados em educação e saúde;

- a criação da Fundação MOBRASL – Movimento Brasileiro de Alfabetização -, com o objetivo de cuidar da alfabetização e da educação contínua de adolescentes e adultos;

- programas e ações políticas do Governo, que garantiram a participação do nosso País em pesquisas na Antártica” (General-de-Divisão Luiz Augusto Cavalcante Moniz de Aragão, Tomo 12, pg 122-123).

 

Projeto Radam-Brasil

“Quando o Presidente Figueiredo assumiu o Governo, já encontrou o projeto de grande alcance conhecido por Projeto Radm-Brasil. O Presidente Ernesto Geisel, em sua mensagem ao Congresso, em 1975, considerou que, pela sua capacidade e pelo número de questões envolvidas, o Projeto RADAM deveria transformar-se num projeto nacional. Daí o nome Projeto Radam-Brasil. Com um programa de trabalho estreitamente ligado ao processo de desenvolvimento econômico das áreas mais pobres, sobretudo no Nordeste e Centro Oeste.

Até para conhecer melhor o Brasil, não? [entrevistador]

É, e promover a integração dessas áreas menos favorecidas com o Centro-Sul. Esses programas foram organizados em cooperação com a Fundação Getúlio Vargas e centros de estudos, nacionais e de desenvolvimento regional e local. Entre as principais atividades do Projeto Radam-Brasil – agora passo para a administração do Presidente Figueiredo, de 1979 a 1984 – foi descoberto um corpo carbonário no Morro de Seis Lagoas, na margem esquerda do Rio Negro, Amazonas. Ele revelou reservas de 2,4 bilhões de toneladas de minério de nióbio, os quais representam 70% das reservas mundiais do metal.

Identificação, no Estado do Paraná e no norte de Santa Catarina, de associações rochosas passíveis de serem mineralizadas em ouro, cromo, níquel e cobre. Identificação e delimitação de mais de 8 milhões de hectares de terras com excelente potencial para irrigação, no Nordeste brasileiro, dos quais 60% situam-se no Vale do Rio São Francisco” (General-de-Brigada Danilo Venturini, Tomo 15, pg. 201-202)

 

Pró-Álcool: 80% dos carros a álcool

“Outra importante realização foi o Pró-Álcool, posteriormente desprezado e até extinto, fruto da pressão exercida pelo cartel do petróleo, infelizmente. Sob o ponto de vista econômico, teria sido uma grande saída para o Brasil. Além de substituir o petróleo, essa energia alternativa gerava uma grande massa de empregos na agricultura. O Pró-Álcool era tão importante que, durante alguns anos, a produção de carros a álcool chegou a 80%, contra 20% de carros movidos a gasolina e a óleo diesel, o que dá uma ideia da magnitude do programa, que deveria ter sido intensificado, e não extinto” (Economista Paulo Roberto Coelho Pinto, Tomo 12, pg. 256).

“Ainda sobre os recursos renováveis, há que se destacar o Programa do Álcool, ou Pró-Álcool, um desafio de grande repercussão internacional, uma resposta clara do Brasil à crise energética. Este nosso País é surpreendente, a sua criatividade não pode deixar de ser desenvolvida. Atualmente, lamenta-se o desestímulo que os seus administradores vêm inoculando na sociedade, fruto da falta de visão. E naquela época houve – é preciso que se diga – o boicote permanente, a reação surda, a oposição disfarçada ao Pró-Álcool, desafios enfrentados corajosamente pelo Presidente João Figueiredo.

(...)

Em termos práticos, em 15 de março de 1979 – data que assinala a posse de Figueiredo na Presidência da República – o Brasil possuía zero carro à álcool. Seis anos depois, ao deixar a Presidência, entregara ao País uma frota de 1,2 milhão de veículos movidos a álcool, conquista que se deve à competência dos técnicos do Centro Tecnológico de Aeronáutica (CTA), sediado em São José dos Campos, São Paulo. O próprio Presidente passou boa parte do seu governo utilizando um carro a álcool” (Engenheiro César Cals de Oliveira Neto, Tomo 12, pg. 276).

 

O Brasil ajudou a evitar a Operação Suriname, que seria uma invasão dos EUA naquele país

“Em 1982, o Presidente Reagan mandou uma delegação ao nosso País, com fotografias ampliadas, várias fotografias. Propuseram a realização de uma reunião, que aconteceu na Granja do Torto e à qual compareceram, para assessorar o Presidente, além de mim, Ministro Chefe do SNI, o General Venturini, Secretário do CSN e o General Ludwig, Ministro Chefe da Casa Militar. A reunião realizou-se na Granja do Torto e pelos EUA participaram o Embaixador Antony Motley, o General Clark (Assessor do Presidente Reagan), um oficial da CIE, de nome Claridge, e um outro Assessor da Casa Branca.

Os americanos contaram que estavam prestes a fazer uma manobra naval no Caribe, quando iriam aproveitar para desembarcar e ocupar o território do Suriname. Um momento de suspense. O pivô da história: Cuba. A embaixada cubana, sem alarmar, pretendia internar no Suriname pessoal deles e o Reagan não aceitava isso.

Aquelas fotografias, falei nelas mas não expliquei, eram principalmente de desembarque de navios e aviões russos, na Nicarágua e nas ilhas do Caribe. Depois que descreveram tudo sobre o perigo que imaginavam existir, pelo crescimento da influência cubana no Suriname, viraram-se para o João e disseram: ‘Precisamos que o senhor ponha um Batalhão de paraquedistas no aeroporto do Suriname.’ O João quase morreu, coitado. Depois, ele comentou: ‘Puxa, nunca esperei por essa.’

(...) Nesse momento, disse: ‘João, pede licença para nos retirarmos. Vamos fazer uma pequena conferência em separado.’ Saímos e fomos ao gabinete dele, de onde os americanos nada poderiam ouvir. Fui o primeiro a falar: ‘João, não negue, porque se você disser não e bater o pé, haverá consequências no nosso relacionamento com os Estados Unidos, e alguns óbices, principalmente na área econômica.’ O Presidente, então, perguntou: ‘O que você sugere?’ Respondi: ‘Peça a eles um tempo, informando que vamos mandar uma comitiva com a missão de conversar com o Presidente daquele país.’ O Presidente do Suriname era um tipo despreparado. A ideia era inverter o papel. Argumentar sobre o absurdo de Cuba querer apossar-se do Suriname; ressaltar que a América Latina não tinha a ver com o comunismo.

Oferecíamos diversos tipos de assistência e apoio, como matrículas de surinameses em cursos, no Brasil, envio de técnicos experimentados para trabalhar na construção de linhas telefônicas, comunicações rádio e outros benefícios. O João comentou: ‘Você é ‘de morte’, Medeiros. Perguntei: ‘Mas você vai fazer isso?’ Ele respondeu: ‘Vou.’ Conversamos mais um pouco naquele local e voltamos para a sala onde os americanos aguardavam. O João, ele mesmo, fez a exposição de nossos propósitos, que foram prontamente acatados. Gostaram, porque saíram de mais uma encrenca: invadir um outro país. Estava suspensa a Operação Suriname.

E o emprego de nosso Batalhão seria contraproducente, em virtude de nossos princípios de não intervenção... [entrevistador]

Não tinha ‘nem pé nem cabeça’. Partiram satisfeitos e, dias depois, após o contato com o Presidente Bouterse, o Venturini viajou para o Suriname. Seguiu com dois coronéis; estávamos na Semana Santa. Havia 8 elementos de segurança do SNI embarcados no avião. Não apareceram nenhuma vez. Passaram um dia inteiro, lá, como se fossem segurança pessoal e ninguém desconfiou. O Venturini foi muito bem recebido, voltou feliz da vida, todos aplaudimos o sucesso de sua missão e, imediatamente, começamos a cumprir o que tínhamos prometido.

A participação brasileira no Suriname foi muito apreciada pelo Governo americano. Ela evitou, certamente, a perda de vidas de militares americanos e de muitos surinameses, além de um enorme desperdício para os Estados Unidos. O Presidente Regan ficou muito impressionado e agradecido pela pronta e eficaz ação do Governo brasileiro.

A esse propósito, quando o Presidente Reagan veio ao Brasil visitar o Presidente Figueiredo, me convidou a visitá-lo na Casa Branca. Viajei aos EUA, visitei a sede da CIA, em Langley, Virgínia, e depois encontrei-me na Casa Branca com o Presidente Reagan, presentes o Embaixador Motley e o General Clark, oportunidade em que o Presidente americano renovou os seus agradecimento pela ação brasileira, mostrando-se imensamente feliz pelo êxito da mesma” (General-de-Exército Octávio Aguiar de Medeiros, Tomo 15, pg. 45-46).

 

O Brasil ajudou a abrandar o confronto Peru-Equador, em 1981

“O General Adhemar da Costa Machado me contou uma história que serve para mostrar um pouco do temperamento do Presidente Figueiredo. Não sei se o senhor foi testemunha. Existia um litígio entre o Peru e o Equador, até acabou havendo perigo de enfrentamento militar entre eles, ao longo da Rodovia Pan-americana. A tropa do Peru de um lado e a do Equador, do outro.

O Presidente Figueiredo quis mandar alguém lá, a fim de tentar resolver a situação. Escolheu o General Adhemar da Costa Machado, que servia no Estado-Maior do Exército, como 2º. Subchefe. Seguiu com 2 Coronéis, um deles chamava-se Ilson Nunes da Silva. O General Adhemar contou-me que foi ao Itamaraty, para saber dos detalhes, e lhe disseram: ‘Olha, a parte diplomática já acabou, não existe como, diplomaticamente, resolver isso. O Presidente quer que, pelo menos, vá um militar para tentar evitar o confronto bélico.’ Resolveu, então, ir ao Presidente, para pedir orientação e procurou o General Venturini, Chefe do Gabinete Militar. Segundo o General Adhemar, vou ser fiel aqui, porque os dois faleceram, o General Venturini voltou, com o seguinte recado: ‘Olha, o General Figueiredo mandou você ir à ‘m....’, pois se tivesse orientação já a teria dado, há muito tempo. O fato é que não há orientação a ser dada; vai lá e vê o que você consegue.’ [entrevistador]

Isso é bem do João Figueiredo.

O General Adhemar foi e conseguiu abrandar a situação, tanto que naquele período nada mais ocorreu. O problema foi surgir, novamente, em 1994. [entrevistador]” (General-de-Exército Octávio Aguiar de Medeiros, Tomo 15, pg. 48).

 

Obs.:

Sobre os vários conflitos de fronteira entre o Peru e o Equador, acesse https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/06/conflitos-fronteiricos-entre-peru-e.html.

F. M.

 

Sem a Revolução, o que seríamos?

“Caso não tivesse ocorrido a Revolução de 1964, na melhor das hipóteses, teríamos nos transformado, na década de 1980, em um País de padrão médio africano, pela total falta de condições de enfrentar as duas crises do petróleo e pelo excesso de tolerância com o MCI. Na pior das hipóteses, teríamos nos tornado em um teatro de operações, com algumas características do TO da Guerra do Vietnam. Ocupado por guerrilhas urbanas e rurais e invadido por tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) ou da Organização das Nações Unidas (ONU). Hoje, o que seríamos?” (General-de-Divisão Luiz Augusto Cavalcante Moniz de Aragão, Tomo 12, pg 124).

 

Método Cooper é popularizado no Brasil pelo Capitão Cláudio Coutinho

“Os acertos foram muitos, mas gostaria de citar um fato, na minha área, na minha especialidade, que é Educação Física e esporte. Vi um amigo, um companheiro – Capitão Cláudio Coutinho, infelizmente já falecido, prematuramente, foi meu companheiro na área de Educação Física, fomos Instrutores na Escola de Educação Física do Exército – que teve oportunidade de fazer um curso com o professor Cooper, Kenneth Cooper, nos Estados Unidos e, quando ele voltou, com esses conhecimentos que ele auferiu, foi chamado pela então Confederação Brasileira de Desportos (CBD) para integrar a comissão técnica da Seleção Brasileira que ia disputar a Copa de 1970, no México. E, conforme todos sabemos, aquela Copa teve um êxito extraordinário, principalmente na preparação física, que nos levou a enfrentar muito bem a altitude do México, que, até então, era um mito. E nós tivemos a melhor preparação física da Copa.

Isso teve muito a ver com o trabalho do Coutinho, junto com o Chirol, com o Parreira, que são também pessoas de muito valor. Mas com o êxito da Copa do Mundo, o que aconteceu? O método Cooper começou a se popularizar, livros foram editados, porque até então era difícil ver, nas ruas das cidades brasileiras, alguém correndo; quando se via alguém correndo, era militar.

E hoje, o que é que se vê? Por exemplo, vejo aqui na Avenida Atlântica: há dias que você não consegue andar, tal é a quantidade de pessoas que passaram a se preocupar com o seu físico. E isso começou com certeza nesse trabalho oriundo do êxito na Copa do Mundo, em que o meu amigo Cláudio Coutinho – uma inteligência viva a serviço do esporte nacional – teve uma parcela considerável” (Tenente-Coronel Reginaldo Pontes Bielinski, Tomo 11, pg. 325).

Obs.:

Cláudio Coutinho faleceu em 1981, aos 42 anos de idade, quando praticava pesca submarina nas Ilhas Cagarras, próximo a Ipanema. Foi treinador do Flamengo e da Seleção Brasileira. Na Copa da Argentina, em 1978, logrou o terceiro lugar, invicto. O torneio foi marcado por polêmica que existe até hoje, devido ao jogo em que o Peru teria “se vendido” aos argentinos, em derrota de 6 x 0.

F. M.

 


2)ERROS DA REVOLUÇÃO


O AI-5 deveria ser o primeiro Ato, segundo o jornalista Themístocles de Castro e Silva e o engenheiro Accioly de Carvalho

“Um movimento como este, quando explode e se torna vitorioso, gera as suas próprias leis. Se foi vitorioso e respaldado pelo povo, foi porque a ordem jurídica anterior estava fendida e não teve forças para detê-lo, claro. Então, o Movimento de 31 de Março tinha que gerar as suas próprias leis e seguir em frente. Mas não: primeiro, dividiu logo a vitória com o outro lado, admitindo para Vice-Presidente da República o Sr. José Maria Alkmin, representante da situação deposta, Juscelino e Jango. Depois, com o Presidente Costa e Silva, a Revolução cometeu o mesmo equívoco, indicando para vice-presidente um cidadão muito ilustre, um cultor do Direito, o Dr. Pedro Aleixo, politicamente, entretanto, contrário ao Movimento vitorioso. Tanto assim que se recusou a assinar o AI-5, que deveria ter sido editado no começo da Revolução.

Exatamente porque a Revolução não quis, ela própria, gerar as suas leis, surgiram as crises posteriores, impondo corretivos graduais através dos primeiros Atos Institucionais. Primeira crise, ato 1. Segunda crise, ato 2. Terceira crise, ato 3. Na primeira eleição que se fez, deu-se a vitória do outro lado, para os governadores do Rio de Janeiro, da Guanabara e de Minas Gerais” (Jornalista Themístocles de Castro e Silva, Tomo 4, pg. 280).

“No que diz respeito ao Ato Institucional no. 5 (AI-5), eu diria que ao comando revolucionário, logo no início – depois transferido ao Presidente Castello, quando eleito – deveria ter sido concedido os poderes contidos naquela Ato, editado anos mais tarde. Defendo a tese de que o AI-5 deveria ter entrado em vigor no dia da Revolução, encerrando-se com um mandado de seis anos para o Presidente Castello Branco. Ao fim deste período, o Presidente Castello estaria em condições de convocar as eleições, depois de ter feito a limpeza política. Assim, a decretação do AI-5 demorou muito” (Engenheiro João Paulo Simões Accioly de Carvalho, Tomo 12, pg. 292).

 

Jarbas Passarinho fala sobre ter assinado o AI-5

“Pago até hoje por ter assinado o AI-5. Quando me perguntam: ‘O senhor assinaria?’ Respondo: ‘Nas mesmas circunstâncias, assinaria.’ Sabe, era ainda um coronel, por isso mesmo, quando o Médici indicou meu nome para ser candidato, conta-se que, no Alto Comando, o General Orlando Geisel disse: ‘Gosto muito do Passarinho, mas não faço continências para coronel.’ Então a minha possível candidatura morreu ali. (...)

Então, naquele momento em plena reunião, assisto o quê? O Ministro do Exército, General Lira Tavares, depois que Pedro Aleixo sugerira, apenas, o estado de sítio, toma a palavra e diz: ‘Não é possível, o Exército não tem condições de manter a ordem no país diante das guerrilhas que estão aí, das violências que são praticadas.’ E exemplificava: ‘Marighela, um comunista notório, tradicional a vida inteira, foi preso num determinado momento, antes do AI-5. Em seguida – os bacharéis em Direito sabem melhor do que eu – entrou o habeas corpus. Foi preso, mas três dias depois estava fora. Não havia como manter as liberdades fundamentais para lutar contra um grupo que queria acabar com nossa liberdade, se chegasse ao Poder.’ Por isso o AI-5 foi uma medida correta: primeiro, porque foi uma resposta, ao contrário do que propalam – lê-se neste mesmo livro ‘A Esquerda Armada...’ – eles adotam uma cronologia onde mostram que isso começou em 1965, ainda no Governo Castello, com o Coronel Cardim, nome parnasiano, Jefferson Cardim de Alencar Osório. Repetem sempre que a guerrilha foi uma resposta ao AI-5. Não, a resposta é que foi o AI-5. (...) Quando chegou a minha vez de falar, fui o primeiro, exceto o Vice-Presidente, a usar a  expressão ‘para não chegarmos à ditadura.’ Inicialmente, fiz o elogio da posição do Vice-Presidente, Pedro Aleixo, tentando fazê-lo caminhar conosco, porque ele não estava numa luta contra nós, mostrava apenas que podia haver um estágio intermediário. E, a minha frase está lá, reproduzida, agora, pelos jornais: ‘A mim me repugna, senhor Presidente, como a Vossa Excelência, enveredar pelo caminho da ditadura, mas se eu não tenho alternativas, às favas os meus escrúpulos de consciência.’ Pago por isso, repito, até hoje” (Senador Jarbas Gonçalves Passarinho, Tomo 5, pg. 63).

“Revolução é quando se tem um líder e se pretende fazer uma mudança radical. Porque nós pretendíamos fazer uma mudança radical. Essa mudança não foi feita, infelizmente, não foi feita. Que mudança seria essa? A Revolução de 1964, no meu entender, deveria ter fechado tudo, passa a borracha e vamos comçar de novo. Significa o seguinte: não tem que aceitar aquele ‘congressinho’ para manter a fisionomia da frente. Fecha, todo mundo na rua. Fecha a Justiça – todo mundo para a rua. Vamos fazer de novo, vamos botar gente nova. Colocar interventores nos Estados, acabar com a Câmara de Vereadores, acabar mesmo! Vamos fazer uma faxina, vamos empregar a linguagem que, hoje em dia, se usa tanto – vamos passar o Brasil a limpo. Aquela ocasião era a hora de passar o Brasil a limpo. Passar a borracha. Começar de novo.

Depois, sim, eleições livres em todos os níveis com normas e regras bem definidas, de maneira que não se permitissem situações abusivas como se vê hoje – essa justiça morosa, realmente lenta e, a todo momento, apresentando, como no Congresso, casos de corrupção. É uma vergonha!

Era isso que deveria ter sido feito pela Revolução, como se pretendia! Vamos ao Chile. Pinochet passou a borracha. Veja o Chile como está hoje. Ele não teve nenhum remorso em fechar o Congresso, fechar a Câmara dos Deputados. Fechou tudo, inclusive a Justiça. Estabeleceu uma junta e governou com ‘punho-de-ferro’.

Em qualquer revolução, em qualquer ação de força, a injustiça faz parte do sistema. Não podemos querer fazer uma revolução ‘boazinha’. Ah!, não. Paga o justo pelo pecador? Paga. Mas o preço que se paga ou que ser teria pago seria muito menor do que o preço que estamos pagando hoje com uma violência urbana fora de controle, com a corrupção instaurada no País e com o descrédito das instituições. Se nós tivéssemos feito isso, hoje, com certeza, teríamos um outro Brasil’” (Coronel Tomás de Aquino de Carvalho Lima Sampaio, Tomo 10, pg. 391-392).

 

Primeiro erro: Castello Branco é obrigado a submeter-se à eleição do Congresso Nacional

“O que observei, lá do Nordeste, acerca da atitude do Congresso, ao ser deflagrada a Revolução, foi o propósito de, imediatamente, apossar-se do Governo, como acontecera, anteriormente, com a saída do Jânio e em outras ocasiões. Não conseguindo, seguiu-se a linha da omissão. Por ocasião da eleição do General Castello Branco à Presidência da República, tentaram até ausentar-se, obrigando-nos, no IV Exército, a buscar cada um dos deputados e senadores e indicar-lhes local e hora para o embarque. Eles não queriam nem votar.

E, depois de terem votado, começaram a abraçar o Castello [Entrevistador].

Para o desempenho do General Castello, foi altamente negativo sua eleição ter sido realizada pelo voto dos senadores e deputados. Eles não mereciam ter esse privilégio. Foi o primeiro e, talvez, o maior erro da Revolução que se iniciava” (General-de-Brigada Hélio Ibiapina Lima, Tomo 2, pg. 180-181).

“No dia 15 de abril de 1964, o General Castello Branco assume a Presidência da República. A meu ver, por ser um militar muito competente, mas extremamente legalista, talvez não fosse o mais indicado para ser o primeiro presidente revolucionário. O General Castello Branco, por seu temperamento, e fiel à legalidade, procurou dar à Revolução o aspecto mais democrático possível, limitando-se a corrigir os fatos mais graves, preocupado em fazer tudo de um modo pacífico, conciliando com o Judiciário, com o Congresso” (Coronel José Antônio Bayma Kerth, Tomo 4, pg. 107).

“O Castello era um democrata. Foi meu comandante na Escola de Estado-Maior e mantinha pressão permanente, afirmando: ‘O Exército não pode, ao mesmo tempo, servir a dois senhores. Ou se é militar, ou se é político, porque até juramentos podem conflitar numa hora dessas. O Exército, se fizer política, não é mais força armada, é milícia” (Senador Jarbas Gonçalves Passarinho, Tomo 5, pg. 56).

 

Atritos entre castellistas e costistas

“Nós, militares, compreendemos que, nos primeiros tempos da Revolução, que duraram um ano e meio a dois anos, houve uma divisão, um pouquinho forçada por alguns, entre o que se chamaria os ‘castellistas’ e os ‘costistas’ – Castello Branco e Costa e Silva. Eu digo que a divisão foi forçada porque 90% dos militares, inclusive dos revolucionários, e eu me incluo nesse grupo, 90% não estávamos preocupados em saber se vai ser fulano ou beltrano. Estávamos preocupados era em ter um chefe à altura e que logo assumisse a chefia, para não ficarmos acéfalos depois de ter vencido” (General-de-Exército Jonas de Morais Correia Neto, Tomo 9, pg. 48).

“Na Secretaria Geral do Conselho [de Segurança Nacional], assisti ao delinear de um conflito virulento e de consequências lamentáveis para a Revolução e para o Exército. Foi a guerra de atrito entre o ‘grupo Costa e Silva’ e o ‘grupo Castello Branco’. Sem economizar palavras, seus líderes odiavam-se. Portella não tolerava os Geisel, e não tolerava o que ele chamava 'o pessoal da Sorbonne’, que era o pessoal dos Geisel, Golbery à frente. Desse último tinha ódio; em certa medida correspondido” (Coronel Luís de Alencar Araripe, Tomo 2, pg. 228).

“Fizemos com que entre nós a cizânia crescesse. A mesma que vai aparecer mais tarde, na luta entre os chamados radicais, que vão se opor, inclusive, ao fim do chamado regime militar, permitindo aquelas coisas que nos levaram até a uma participação em terrorismo, como as bombas atiradas em certos lugares – a questão do Riocentro. Aqueles fatos ocorreram, porque um grupo ainda não tinha se disposto a aceitar a passagem do governo para a área civil” (Senador Jarbas Gonçalves Passarinho, Tomo 5, pg. 59).

“O que o povo esperava da Contrarrevolução que passou a se chamar de Revolução?

Esperava desenvolvimento, honestidade, austeridade, ordem e segurança: isto de fato aconteceu. O Governo de Castello, porém, não ouvia ‘o grupo revolucionário’, que havia desencadeado a Revolução. Ligava-se pouco ou quase nada, devido às sequelas por ocasião da renúncia do Jânio. Falavam-se pouco e não se cumprimentavam.

Uma desunião. [entrevistador]

Exato. Tanto que ao ocupar a Presidência da República, Castello Branco enfrentou problemas com este grupo. O Ato Institucional No. 2 (AI-2) só saiu porque os paraquedistas pressionaram. Quartéis pressionaram, comandados pelo Plínio Pitaluga, ainda vivo, o Confúcio, o Sebastião Chaves, que comandava o Regimento Floriano. Resolveram depor o Castello e colocaram as tropas na rua. A Marinha, chefiada pelo Almirante Heck, dispunha-se, também, a bloquear a barra do Rio, para exigir a saída do Catello. O General Costa e Silva, Ministro da Guerra, foi à Avenida Brasil num carro-comando, reunir-se com os coronéis para um acordo. Antes, ao sentir a crise, Costa e Silva foi até o Castello, cuja filha, Antonieta – Nieta -, pediu-lhe:

- Salve o papai!

Era um carro-comando PC, ou seja, Posto de Comando instalado na viatura. [entrevistador]

Exatamente. Nesse carro-comando, Costa e Silva fez um acordo com os coronéis. Estes oficiais tinham o apoio da Força Aérea, inclusive, pelo Haroldo Veloso. Em suas bases, encontravam-se prontos para a ação. Nesse dia, na Av. Brasil, surgiu a candidatura do Costa e Silva e saiu o AI-2. Costa e Silva assumira o compromisso de arrancar tudo o que os coronéis queriam do Castello” (Doutor Carlos Eduardo Guimarães Lousada, Tomo 7, pg. 348-349).

 

A doença de Costa e Silva, sonegada aos brasileiros

“Sabemos de fonte segura que na ocasião em que foi escolhido, o General Costa e Silva estava gravemente enfermo. A equipe dele, seus assessores e elementos mais chegados já sabiam disso e sonegaram essa informação por interesse do mandato. Pouco depois o Presidente teve problemas, ficou incapacitado e precisou ser substituído. Já a escolha do novo Presidente deu-se através de uma eleição de forma militarizada. Tudo porque a situação era de inquietação, estávamos vivendo aquela fase de contestação que apresentava sinal de rápida deterioração” (General-de-Divisão Rymundo Maximiano Negrão Torres, Tomo 8, pg. 99).

 

Costa e Silva pensava em devolver o poder a um civil

“O Costa e Silva, quando assumiu, pensou em acabar, devolver para o civil. Isto eu sei devido às reuniões dele com o General Lyra Tavares, cujo gabinete em Brasília, eu chefiei até a crise devido ao problema de saúde do Costa. O General Lyra conversava muito comigo, era falante, uma cultura privilegiada. Ele chegou a me confidenciar, uma vez, a conversa do Costa e Silva com ele, sobre a sucessão. Ele achava que estava na hora de devolver o bastão ao mundo civil, porque a Revolução, com o passar do tempo, estava se desgastando. Ao paisano em geral, não interessava ter poder de tirar, de botar, de prender. Ele gosta da bagunça, em poder fazer negociatas, de comprar A, comprar B, de realizar um bom negócio. Ele não está muito interessado em coisas certas” (General-de-Brigada Celso dos Santos Meyer, Tomo 10, pg. 143).

 

Desenvolvimento & Segurança

“As Forças Armadas estão inseridas naquele binômio que tanto se fala na Escola Superior de Guerra: Segurança e Desenvolvimento, binômio que foi se desequilibrando ao longo da Revolução cada vez mais e só ficou no campo do Desenvolvimento e nada para o da Segurança. Então, perdemos uma oportunidade com os presidentes militares, por pruridos, acho pruridos justificáveis, de modernizar as nossas Forças, de ter uma Força mais ágil, modernizada, tecnologicamente falando. Não precisávamos ter grandes efetivos, precisamos ter uma força moderna e adestrada. Esse aspecto perdemos e considero isso uma das falhas da Revolução” (General-de-Exército Luiz Gonzaga Schroeder Lessa, Tomo 10, pg. 70-71).

 

Uma síntese dos principais erros

“Já se falou aqui dos vários acertos, mas, e os erros da Revolução. Quais foram? [entrevistador]

Não ter feito a reforma agrária que o Presidente Castello Branco planejou. Não ter distribuído mais a renda. Não ter feito a reforma do Judiciário. Ter deixado a mídia e a educação nas mãos da esquerda. Esses me parecem ser os erros mais graves” (General-de-Brigada Durval Antunes Machado Pereira de Andrade Nery, Tomo 10, pg. 187).

 

Prolongamento dos governos militares

Os entrevistadores são quase unânimes em afirmar que a Revolução durou mais do que o necessário, provocando um grande desgaste nas Forças Armadas, principalmente no Exército. Afirmam que o Governo Federal deveria ter sido devolvido aos civis ao final do Governo Médici, ocasião em que os grupos terroristas estavam todos derrotados. Alguns afirmam que isso não foi feito devido à Guerrilha do Araguaia, que ainda não estava derrotada.

O general Leonidas afirma que “O General Castello Branco sempre teve como objetivo transformar o Brasil, o quanto antes, numa democracia. Acontece que, fustigado pelos antagonistas, essa transformação demorou mais do que devia. (...) Acho que nós cometemos dois erros, no que tange à permanência da Revolução:

- O primeiro, limitar o governo de Castello Branco. A Revolução estava legitimada por si mesma, não tinha que ‘concluir outro mandato’ – nós devíamos ter começado ‘o mandato de Castello Branco’, de seis anos, por hipótese, findos os quais nós voltaríamos à democracia. Foi um erro que, na época, eu, um jovem Tenente-Coronel, já dizia e comentávamos. Não se trata de um erro que eu analiso agora – mas, repito, não nos deixaram outro caminho. O General Castello Branco tinha verdadeira obsessão de ser considerado um ditador, não gostava dessa situação.

- O segundo erro foi o de prolongarmos demais a Revolução, o que nos trouxe uma carga negativa muito grande, que é essa que nos persegue até hoje, que nos desgastou, inclusive, na opinião pública, trabalhada pela mídia quase toda esquerdista, que hoje nos antagoniza. Insistem em dizer que somos torturadores, matadores etc. Esqueceram-se de que nós salvamos o Brasil” (Tomo 1, pg. 91-92).

“A intenção do Presidente Castello Branco era de que os Atos Institucionais terminassem no seu governo. Queria que seu sucessor saísse de eleições normais e passasse o governo para um civil. Inclusive, já tinha alguns nomes. Mas, na época da transferência do governo de Castello Branco, as guerrilhas começaram, gerando um clima difícil para a liberalização. Foram as guerrilhas, as agressões, que, do meu ponto de vista, provocaram o prolongamento dos governos revolucionários” (General-de-Exército Carlos de Meira Mattos, Tomo 1, pg. 234).

“Até o final do Governo Médici, o panorama político foi francamente favorável aos Governos da Revolução de 1964, tanto no que diz respeito ao Congresso Nacional, como à opinião pública.

Tal era a maioria política no Congresso, obtida nas eleições anteriores pela ARENA, partido governista, que muitos políticos previam, ao início do Governo Geisel, a iminência de virmos a ficar com um partido político único nas eleições daquele ano, à semelhança da situação do PRI no México. Adotando tais previsões, o Governo Geisel resolveu, para as eleições do primeiro ano de seu mandato, incentivar e ajudar politicamente o MDB, para que este partido melhorasse numericamente sua representação no Congresso. O resultado dessas eleições constituiu enorme surpresa para todos, pois o MDB conseguiu maioria no Congresso. Este grave erro de apreciação política prejudicou e condicionou a ação do Governo Geisel até o final do seu mandato” (Coronel Helio Mendes, Tomo 1, pg. 266).

O senhor julga que o Poder foi entregue aos civis no momento justo? [entrevistador]

Não, com certeza não. Deveria ter sido entregue ao término do terceiro período, ao final do Governo Médici. Antes não havia possibilidade por causa das ocorrências de 1968. Demorou-se um pouco para fazer a entrega total do Poder aos civis e sofremos por isso um desgaste natural. Todo o governante sofre esse desgaste. Embora houvesse alternância no Poder, os políticos e os analistas achavam que sendo um general o presidente, o governo era militar, era uma ditadura.

Como aluno da Escola de Estado-maior, aprendi que o Poder não admite vácuo e ao mesmo tempo encanta. Ninguém daquelas corriolas queria se desengajar. Penso que demoramos um pouco além do devido para entregar o Governo” (General-de-Brigada Carlos Augusto Fernandes dos Santos, Tomo 8, pg. 288).

“Julga o senhor que a Revolução se demorou muito no governo? [entrevistador]

Acho que sim. Geisel, com o início da distensão lenta, gradual e segura, levou quatro anos: de 1975 a 1978. Em 1979, entrou o Figueiredo. Ficou de 1979 até janeiro de 1985. Então, demorou além do necessário; acredito que, no final da década de 1970, Geisel poderia ter concluído a abertura porque já não havia mais a luta armada. Entendo que Geisel poderia ter convocado eleições diretas e entregue o Poder aos civis, já que ele iniciou, ele deveria ter concluído. Essa é a minha opinião. Não havia razão de haver mais um governo dito revolucionário depois da extinção do AI-5, feita pelo próprio Geisel” (Coronel Romeu Antonio Ferreira, Tomo 9, pg. 372).

“Talvez o tempo de duração da Revolução de vinte anos tenha sido um desses principais enganos. Por outro lado, esse tempo mais longo pode ser atribuído às forças que surgiram para contestar a Revolução, com armas nas mãos. Por exemplo, as guerrilhas; falsas guerrilhas, porque os homens que as fizeram não conheciam, apesar de terem se preparado no estrangeiro, a sua técnica. Escolheram mal a região de atuação, distante das reais [?] de contato com o exterior. Revolução, da maneira que pretenderam, não se faz sem o apoio de fora. A área escolhida [Xambioá] ficava tão distante de Belém que seria muito difícil de lá advir o apoio que se fazia necessário. Foi baseada somente na audácia e no espírito de aventura, sob uma visão restrita, de idealistas impregnados pela ideologia comunista, que não conheciam nada sobre guerrilha, mesmo com participantes orientados no exterior” (General-de-Brigada Plinio Pitaluga, Tomo 11, pg. 80).

“Em entrevista recentemente concedida à Rede Cultura de Televisão, indagado por que a Revolução tanto se demorou no Poder, Jarbas Passarinho – que esteve muito próximo dos governos militares, já que foi, em duas ocasiões diferentes, Ministro do Trabalho e da Educação – respondeu: ‘Debito à esquerda a duração do período revolucionário’, querendo referir-se, sem dúvida, à exacerbação da violência e à prática de atos terroristas por parte da esquerda de Carlos Marighella. Estas, sim, foram as verdadeiras causas do prolongamento dos governos revolucionários” (General-de-Divisão Théo Espindola Basto, Tomo 12, pg. 132).

 

Legislação político-eleitoral ficou quase intocável

“Um aspecto que conheço bem de perto e, lamentavelmente, ficou quase que intocável foi a legislação político-eleitoral. Os prejuízos ao País foram incríveis. Vemos que a vida política traduz-se de forma grosseira e desonesta, com a invasão de muitos tipos inescrupulosos que conseguem triunfar. O problema é simples de entender; basta comparar os ganhos de um deputado federal com os gastos nababescos de uma campanha política. A diferença é chocante e o sistema eleitoral brasileiro conduz, lamentavelmente, à desonestidade.

(...)

Por força dessa situação, está ocorrendo uma queda cultural e de seriedade dos elementos que representam a sociedade. O Congresso Nacional, hoje, reflete o interesse de grupos confessáveis e inconfessáveis e não os ideais do Bem Comum, o interesse da coletividade como um todo, como queria São Tomás de Aquino, por exemplo, na Suma Teológica. São pessoas jurídicas ou igrejas ou outros grupos que têm condições econômicas de eleger os seus representantes: deputados de empresas, de igrejas, de traficantes, dos contrabandistas, enfim, pessoas jurídicas, em última análise. Uma pessoa física, a não ser muito rico, não tem condições econômicas de bancar uma campanha política nos moldes em que ela se realiza no Brasil” (Doutor Emílio Antonio Mallet de Souza Aguiar Nina Ribeiro, Tomo 10, pg. 259).

Obs.:

Nina Ribeiro cita o exemplo do voto distrital puro para a eleição dos representantes do Congresso Nacional como um modelo mais democrático, por estar o político mais perto do povo no bairro onde mora.

F. M.

 

Ditadura ou ditabranda?

“Gostaria, agora, embora sucintamente, de tecer um comentário sobre a relação entre o Movimento de 1964 e o Poder Judiciário. A Revolução preservou muito a Justiça, praticamente não tocou na Justiça. Ainda hoje eu digo: na época da Revolução de 64 – nesse período eu já era juiz – nunca um militar se dirigiu a mim dizendo que eu julgasse desse ou daquele jeito ou dizendo a alguém que não cumprisse um mandado de um juiz” (Desembargador Edgar Carlos de Amorim, Tomo 4, pg. 259).

 “Quero, agora, ressaltar a liberdade que gozamos no Brasil e que poucos povos do mundo desfrutam. É uma ilusão dizer que há liberdade em determinados países. Durante o Governo Médici, colega holandês da faculdade, casado com uma brasileira, vivia se lamentando das dificuldades em levar os filhos para visitar seus avós, na Holanda. Havia uma taxa, um tipo de empréstimo compulsório, obrigando-o a pagar o dobro da passagem. Brinquei com ele:

- Está vendo! Você sai da Holanda, país democrático, e vem para o Brasil, que acusam de ditatorial... Por que você saiu da Holanda?

- Ah! Aqui temos liberdade. Na Holanda sou vigiado pelo meu vizinho, sou vigiado pela polícia e sou vigiado pelo governo” (General-de-Brigada Oacyr Pizzotti Minervino, Tomo 7, pg. 131).

“Era uma ditadura que tinha o Pasquim circulando, jornais circulando, justiça funcionando sem restrição, tinha o Congresso, eleição de governadores, prefeitos, senadores, deputados e vereadores. Que ditadura é essa?!” (Coronel Carlos Alberto Guedes, Tomo 9, pg. 274).

“Episódio também digno de ser lembrado foi o convite a mim feito por Carlos Caldeira, um dos proprietários da Folha, para um almoço na sede do jornal.

Qual minha surpresa! Fora convidado, também, o Cardeal Dom Paulo Arns. Participaram desse almoço eu, o Cardeal, Caldeira e Otávio Frias, pai e filho. Justificou o meu velho amigo Carlos Caldeira o desejo de proporcionar um diálogo sugerido pelo Cardeal. Fato notório eram nossas divergências políticas irreversíveis.

Durante o almoço, o Cardeal nos solicitou uma melhor solução para os ditos ‘presos políticos’ condenados pela Justiça Militar e que estavam cumprindo penas em vários presídios, inclusive no Hipódromo e na Casa de Detenção. Alegara o Cardeal as condições subumanas desses presos, merecendo respeito seus ‘direitos humanos’. Aleguei de pronto que o problema não era de nossa alçada e sim da Justiça Militar, bem como não reconhecia ‘direitos’ a ‘terroristas e assassinos’ condenados. Por insistência dos participantes a favor de Dom Paulo, prometi estudar o assunto.

Depois de algumas tratativas propus uma solução dentro das possibilidades da Secretaria de Segurança, que deveria ter o aval do Poder Judiciário. Esse aval foi conseguido e minha proposta aceita. Com verbas próprias do Gabinete do Secretário, em tempo recorde foi construído na área do Barro Branco da Polícia Militar um autêntico presídio ‘3 estrelas’, para todos os condenados da Justiça Militar.

Pareceu-nos que concentrada a fina flor da subversão e terrorismo, além de tê-los sob nossa guarda direta, o que proporcionou o acompanhamento de todas as suas ligações com o exterior e que vinha realmente a nos servir coo ‘informações’, também, deixavam de fazer proselitismo junto a outros tantos apenados.

Fui aquinhoado com a Ordem do Mérito Judiciário Militar, por contribuir para solucionar o problema de um presídio da Justiça Federal” (Coronel Antonio Erasmo Dias, Tomo 7, pg. 151).

“Em 1983, fui demitido sumariamente da CESP, simplesmente por ser um oficial do Exército. Eu e mais uns três ou quatro oficiais que trabalhavam lá, o Governador mandou nos demitir.

Quem era o Governador?

André Franco Montoro mandou nos demitir por sermos oficiais do Exército e por isso faço questão de dizer o seguinte: Isso aconteceu durante o Governo militar, que eles chamam de ‘ditadura’ e muito mais; mas não era ditadura, porque fomos mandados embora por um civil, por sermos militares, e ficou tudo por isso mesmo. Se fosse uma ditadura jamais teria ocorrido” (Tenente-Coronel Roberto de Andrade Ninô, tomo 7, pg. 280).

“Em 1964, a Guarnição de Santa Maria foi capaz de, em uma condição de risco e de perigo, como no imediato período pós-Revolução, respeitar a sacralidade dos lares! As patrulhas cercavam a casa do indivíduo, viam que ele estava queimando documentos, mas só o prendiam ao clarear do dia, o que nos causou enorme dificuldade, porque tínhamos que ir em busca de prova testemunhal, uma vez que a prova documental tinha sido queimada, com a permissão de um Exército cristão que, no seu todo, respeitou os direitos individuais dos suspeitos. Isso está escrito! Nós agimos com elegância total e dignidade completa. Pelo menos foi o que vi aqui, nesta cidade. E, com certeza, deve ter-se repetido Brasil afora. Foi exemplar! Então, não posso aceitar ‘revanchismo’. Isso sim é indigno, é antifraterno, é um verdadeiro lesa-pátria” (Tenente-Coronel Alexandre Máximo Chaves Amêndola, Tomo 8, pg. 399).

“Qual foi a atitude do Congresso Nacional quando da eclosão da Revolução? [entrevistador]

Na ocasião, o Senador Auro de Moura Andrade declarou vago o cargo de presidente, empossando Ranieri Mazzili, e nomeou Costa e Silva, Ministro da Guerra; o Almirante Augusto Rademaker, Ministro da Marinha; e o Brigadeiro Corrêa de Melo, Ministro da Aeronáutica. Na mesma noite, foi tudo resolvido, sem correr sangue, sem morrer ninguém. Caíram de podre, o termo é esse” (Tenente-Coronel Carlos Claudio Miguez Suarez, Tomo 9, pg. 385).

 

Ausência de renovação da elite política

“O primeiro [erro] foi considerar todos os opositores como inimigos, adversários. Se a Revolução tivesse aproveitado melhor a nossa elite política, a influência exercida pela Revolução sobre a juventude teria sido muito melhor. Para mim, foi o grande erro do Movimento. Havia muita gente boa que, embora pensasse diferente de nós, poderia ter sido chamada a colaborar, o que engrandeceria os quadros à disposição dos grandes ideais que nortearam o nosso Movimento.

Por outro lado, não se tratou, com o rigor devido, os inimigos, exploradores do povo brasileiro, traidores do Brasil. Esses indivíduos, que haviam sido enxotados pela opinião pública nacional, voltaram ao Poder a partir de 1985, fato que vem se agravando de 1990 aos dias atuais. Tudo isso deu azo ao ‘revanchismo’ desenfreado dos últimos 15 anos, que desembocou na tragédia nacional do momento presente” (General-de-Divisão Tasso Villar de Aquino, Tomo 9, pg. 85).

“O primeiro erro foi que ela permaneceu por tempo excessivo. Tenho a impressão de que, se a Revolução tivesse terminado ao fim do Governo Médici, teria sido consagrada por toda a História.

Um outro erro muito sério foi que, a pretexto de manter a juventude afastada da fermentação política, não permitiu a criação de lideranças jovens comprometidas com o espírito da Revolução. A juventude é o futuro de todo o país; portanto, os jovens tinham que participar. Já os partidos comunistas, de todos os matizes, foram às universidades, identificaram as lideranças, principalmente aquelas descontentes, e as recrutaram. Esse foi o segundo erro.

O terceiro foi a perda da guerra pela mídia, que, depois de um certo período, foi empalmada pelos comunistas e seus aliados. Estes infiltraram os seus seguidores nas faculdades de formação de ciências humanas e aí está a origem de todo o ‘revanchismo’ e da mentira que hoje é difundida.

A Revolução permitiu, ainda, que os verdadeiros revolucionários, mais adiante, fossem substituídos pelos oportunistas. Foi quando tivemos o império da tecnoburocracia, que tantos malefícios trouxe à imagem da Revolução. Também foi grave a ausência de solução para alguns problemas sociais, com aquela mentalidade de primeiro deixar crescer o bolo para depois dividir. Nós nos deveríamos ter engajado violentamente na solução dos problemas sociais brasileiros. Por fim, como oficial da Marinha, noto que foi dada muita ênfase à malha rodoviária em detrimento da ferrovia e da hidrovia. Isso foi um erro estratégico notório, responsável em boa parte, na atualidade, pelo elevado ‘custo Brasil’, que retira competitividade dos nossos produtos no mercado internacional” (Vice-Almirante Sérgio Tasso Vásquez de Aquino, Tomo 9, pg. 103-104).

“Existem críticas à Revolução de 1964. É claro que em todo movimento, ainda mais num movimento de força, ocorrem acertos e erros. Felizmente, houve mais acertos. Entre os erros, eu salientaria que o Movimento não permitiu ou dificultou o surgimento de novas e autênticas lideranças política, no seio das forças democráticas. Quando os militares deixaram o Poder, as lideranças políticas eram as mesmas causadoras da Revolução” (General-de-Brigada Adalberto Bueno da Cruz, Tomo 12, pg. 155).

 

A corrupção não foi combatida como deveria ter sido

“Trabalhei numa empresa, que eu não vou citar, muito boa empresa. O trabalho dela era de primeira linha, uma empreiteira. Eles nunca me pediram nada que atingisse a minha formação, sempre me respeitaram e a rigor nunca me solicitaram nada. Eu era uma espécie de garantia para eles. Todos, naquela época da Revolução, queriam ter um militar a seu lado. E muitos militares se beneficiaram. Eu, de certa forma, também. A empresa me empregou durante 11 anos, depois uma outra o mesmo tempo. Achei que estava na hora de parar e me afastei. O dono da empresa dizia, depois que ficamos mais íntimos: ‘Eu dou o meu preço, preço certo, correto, proposta técnica, proposta comercial. Agora, em cima disso, entra o preço político’. Chamavam de preço político – era o preço que queriam pagar, sempre muito superior e estamos conversados. Um exemplo disso é a ferrovia Belém-Brasília, naquele trecho que construíram trezentos quilômetros. Três empresas ganharam. ‘Deram para mim, porque dei o preço político que queriam. Dei o meu preço comercial e técnico, agora pagaram o preço político, não para mim, preste atenção, três vezes mais – método tri, isto é, pagaram três vezes mais o preço que era cobrado, embora para a empresa venha só o preço certo, o preço comercial, o restante não sei bem para onde vai’.

A Revolução não conseguiu impedir essas práticas, mas dificultava. Há uma passagem com o General Frota, com quem eu servi. Quando ele estava no Comando do antigo I Exército, um dia eu chego e ele estava numa reunião com os seus oficiais – eu nem era de lá, eu era da Escola Superior de Guerra. Ele estava reunido com o General Bento, Chefe do Estado-Maior, Coronel Ourique, Subchefe, e o Fiúza, que era do DOI/CODI. Eu, da ESG, passei por lá. E ele disse: ‘Agora, acabou a corrupção, não há mais corrupção com o AI-5’. Eu lhe disse: “O senhor está enganado. Vai ficar mais difícil, porque se tornará mais perigoso, mas vai aumentar o preço e aumentando o preço vai haver quem acha que compensa arriscar. Diria para o senhor que ficará mais caro’. E foi o que aconteceu. A licitação da ferrovia Belém-Brasília, para aqueles trezentos quilômetros, pagaram três vezes mais o metro do trilho do que o normal, do que a Vale desembolsava para fazer as suas ferrovias. Esse é um fato que assusta a nós militares, mas que não causa espanto àqueles cuja formação é bem diferente da nossa...” (General-de-Brigada Celso dos Santos Meyer, Tomo 10, pg. 143-144).

“Outro erro foi que não se deu muita importância ao combate à corrupção; não que ela não tivesse sido combatida, o foi, mas não com a profundidade que desejávamos.

Lembro-me de que houve alguns casos em que era o Serviço Nacional de Informações (SNI) que ‘pegava’; era o SNI atrás da corrupção, aqui e acolá. Mas lembro-me também de que o Governo deixava o combate à corrupção principalmente para as polícias, o que não foi bom. O Governo estava preocupado mesmo com a luta armada e a subversão” (Coronel Romeu Antonio Ferreira, Tomo 9, pg. 369).

“Uma das coisas pelas quais nos procuravam muito se relacionava à mineração. Incluía-se aí o cristal de rocha. Naquela época, o único cristal de rocha com propriedade piezo-elétrica, que servia para válvulas osciladoras, era o cristal brasileiro. E esse cristal era exportado para o mundo inteiro como lasca de cristal de cinquenta centavos de dólar o quilo, quando na verdade, saíam blocos de cristal, cujo valor era 10, 15 dólares o quilo. Fizemos levantamento disso, devido a vários informantes que nos procuravam, fazendo denúncias.

Diamantes, nós vimos no mercado de Amsterdã, Londres, Nova Iorque. Eram gemas brasileiras que chegavam lá com valores extraordinários, sem que aqui houvesse qualquer registro. Havia também esmeraldas e outras coisas desse tipo. E existia a célebre draga Xica da Silva, no Rio Jequitinhonha, que consumia a ‘brincadeira’ de seis mil litros de óleo diesel diariamente, com toda aquela estrutura. E nada produzia! Só que nos rejeitos da draga, um grupo de garimpeiros colhia diamantes industriais, esses pequeninos. E não havia produção! Fizemos levantamento junto com o pessoal da Aeronáutica, tendo descoberto algo inacreditável. Não sabíamos bem e até tivemos um pouco de cuidado. O valor que saía sem qualquer registro, mesmo dividido por dois, ainda dava mais do que o orçamento da União.

E não havia qualquer sanção. Conheciam-se as ligações do Costa Cavalcanti, Ministro das Minas e Energia, com o mundo empresarial de mineração, com os grupos todos. Sabíamos desses fatos, mas nada frutificava, não se chegava a um resultado, o que causava muita frustração. Mas, de qualquer maneira, essas coisas foram levantadas” (Coronel José Campedelli, Tomo 15, pg. 295-296).

Obs.:

Sobre a corrupção havida durante o governo militar, há um texto de Marcelo Freire, do UOL São Paulo – cfr. https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2015/04/01/conheca-dez-historias-de-corrupcao-durante-a-ditadura-militar.htm.

Delfim Netto, quando foi embaixador em Paris, era conhecido como “Monsieur Dix Pour Cent” (Senhor 10%) – Cfr. https://epge.fgv.br/files/default/13-03.pdf.

F. M.

 

A batalha da comunicação social foi perdida, assim como a Educação

“Nós não só perdemos a ‘guerra da comunicação social’, como também a da educação. Não soubemos, após ocuparmos o governo por vinte e um anos, orientar o Sistema Educacional Brasileiro e perdemos completamente a guerra da comunicação. Se você analisar, em quase todos os institutos de estudos superiores do Brasil, universidades, faculdades, as facções que dominam são as da esquerda, mesmo, em pequeno número. Esses elementos dominantes continuam praticando o ‘revanchismo’, não dando chances para quem não for do grupo deles, de esquerda” (General-de-Exército Carlos de Meira Mattos, Tomo 1, pg. 236).

“Entendo que não perdemos a ‘batalha da comunicação social’, simplesmente porque nunca nos engajamos nela. Tive um colega – não citarei o nome – que disse assim: ‘A galinha põe o ovo e canta’, mas não aprendemos isso na Escola Militar. Nós realizamos, porque temos que realizar, porque é parte do nosso trabalho, porque é parte da nossa profissão, porque é o nosso idela, nosso amor ao Exército, porque faz parte do nosso amor à Pátria.

Nós não estamos habituados a trabalhar em troca de recompensas. Acredito que a gente pense o seguinte: ‘O meu trabalho, os outros hão de reconhecer.’ Assim pensava o Presidente Castello Branco” (General-de-Divisão Geraldo de Araújo Ferreira Braga, Tomo 2, pg. 111).

“A batalha da comunicação social, perdida pela Revolução, começou logo nos primeiros dias do Movimento. Castello tinha profunda aversão a qualquer idéia de DIP, o Departamento de Imprensa e Propaganda, da ditadura de Getúlio Vargas, ícone de muitos libertários anti-Revolução. Os outros governos da Revolução participavam dessa idéia, embora, com certo acanhamento, tenham divulgado suas realizações. Mas, não cuidaram da conquista da opinião pública. No Governo Médici, a Assessoria de Relações Públicas da Presidência da República, sob a orientação extraordinariamente capaz do então Coronel Octávio Costa, realizou um trabalho que lembra, mas não é igual, aos dos marqueteiros dos nossos dias. Trabalho facilitado pelo alto desempenho da economia e pela imagem de Médici. Os outros presidentes, por excesso de escrúpulo, não atuaram sobre a opinião pública, deixando livre o espaço para as esquerdas, extremamente ativas, dentro e fora do Brasil. Foi um erro fatal para a imagem da Revolução” (Coronel Luís de Alencar Araripe, Tomo 2, pg. 246).

“O Presidente Geisel iniciou a abertura política, uma das metas do seu Governo, mesmo lutando contra algumas resistências, e o fez muito bem. Creio que houve um erro de estratégia, porque a abertura política começou pela imprensa, a primeira coisa foi a distensão da imprensa, realmente o setor mais controlado. (...) Mas a liberação da imprensa, talvez tenha sido um erro estratégico, porque todos os esquerdistas que estavam sem poder atuar, tolhidos pela ação enérgica de repressão, correram para lá, e lá estão até hoje. Assim, a grande mídia atual, que sempre contou com pessoal competente, absorveu muitos desses elementos de esquerda, que continuam a fazer jorrar sangue daquela época. Sofremos, ainda, as consequências disso” (General-de-Exército Domingos Miguel Antonio Gazzineo, Tomo 4, pg. 39).

“Não podemos deixar de reconhecer que houve algumas falhas. Erro mesmo só reconheço um: perdemos a ‘guerra da comunicação social’. Os adversários da Revolução foram muito inteligentes: infiltraram-se na Igreja, nos cursos de comunicação social e na mídia” (General-de-Divisão Francisco Batista Torres de Melo, Tomo 4, pg. 65-66).

 

“Brazil: love it or leave it!”

“Eu vi particularmente o que foi feito no Governo Médici pela Assessoria Especial de Relações Públicas (AERP), sob a direção do Coronel Octávio Costa (Octávio Pereira da Costa), oficial conhecido pela sua criatividade e inteligência. A AERP foi um excelente exemplo para o Brasil de como um setor de comunicação social deve atuar. Lembram do ‘Sugismundo’, aquela campanha contra a sujeira? E do ‘Ame-o ou Deixe-o’, hoje tão execrado? Foram mensagens criadas pela Assessoria Especial de Relações Públicas e que, antes do patrulhamento esquerdista, a sociedade absorvia com naturalidade” (General-de-Brigada Léo Guedes Etchegoyen, Tomo 8, pg. 186-187).

“Se houve algum erro a lamentar, foi o da despreocupação da Revolução com a penetração e o domínio dos comunistas na área da Educação, o que, também, adveio da prioridade dada pela Revolução ao combate aos extremistas voltados para a luta armada, deixando, em consequência, livre de controle os comunistas que atuavam nas mentes, no ensino superior, principalmente na formação dos jornalistas, ou seja, do pessoal de comunicação social como um todo, bem como dos que, mais tarde, estariam na cátedra universitária, em especial, à frente das cadeiras de história e geografia” (Coronel Hamilton Otero Sanches, Tomo 9, pg. 345).

“Mas o grande erro da Revolução foi que os governos militares subestimaram o poder da mídia, o poder do domínio da cultura. Parece que eles pensavam assim: ‘Não vamos gastar dinheiro público com propaganda ou com o que estamos fazendo, pois o que estamos fazendo são fatos e os fatos vão predominar’. Quando sabemos que isso não acontece: fatos nada significam, o que importa é o significado dado a esses fatos. Ainda hoje, existe muito   que não faz nada, mas é considerado lá em cima, apenas porque conta com o poder da mídia. E a Revolução nunca deu valor a isso. Nós ganhamos a batalha contra a guerrilha rural e urbana, mas perdemos a batalha da comunicação social. Essa é a minha opinião” (Coronel Romeu Antonio Ferreira, Tomo 9, pg. 369).

“Perdemos a guerra da informação. A anistia ‘ampla, geral e irrestrita’ só vale para um lado; a ‘constituição cidadã’ vive sendo modificada; o chamado ‘entulho autoritário’ é objeto de escárnio; o ‘revanchismo’ grassa à solta, oriundo do próprio Governo; a mídia, primordialmente ‘revanchista’, reflete a história recontada e não a história verdadeira. É essa história recontada que os estudantes aprendem até mesmo, pasmem, na AMAN, cujos professores do QCO e os contratados tiveram formação universitária com essa distorção. É preciso atentarmos para isso. Perdemos e continuamos perdendo a guerra da informação. Até quando? (General-de-Exército Carlos Tinoco Ribeiro Gomes, Tomo 10, pg. 39).

 

Atos desnecessários de censura

“No campo de minhas atividades específicas de Relações Públicas, Comunicação Social, eu mesmo consegui arrolar erros e falhas que, embora aparentemente pequenos, poderiam ter sido evitados.

Como exemplo, cito a censura em alguns verbetes da Pequena Enciclopédia de Moral e Civismo, do Padre Fernando Bastos de Ávila, publicado pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC). Não havia razão para isso: o trabalho era e é magnífico; verdadeira preciosidade pedagógica, útil para estudantes e professores de nível médio e superior, como, aliás, para todos os cidadãos, além de imparcial e apolítico.

Eu, por exemplo, tenho esse livro e comprei um livro para cada um de meus filhos. Um livro desses é um repositório de informações e definições: O que é governo? O que é Parlamento? É um livro apolítico e de grande importância vindo de um padre inteligentíssimo.

No último trimestre de 1969, a proibição de noticiar os progressos lentos, porém inegáveis, da recuperação do derrame sofrido pelo Presidente Costa e Silva em fins de agosto, reputo uma decisão errada. Ele sofreu o derrame, mas não morreu de derrame; e sim, de enfarto ocorrido depois.

(...)

A ausência total de notícias sob o desenrolar de episódios da guerra revolucionária da Serra do Caparaó foi outro erro. A gente não ouvia falar no Vale da Ribeira, mais tarde em Xambioá, como se eles não existissem. A gente ouvia sussurrar, a gente ouvia boatos, não a verdade, que não saía em lugar nenhum, oficialmente nada” (Coronel Hernani D’Aguiar, Tomo 9, pg. 190).

 

O Coronel Portocarrero enumera vários erros cometidos pelos militares

“O maior e talvez o mais grave erro cometido foi a sua perpetuação por cerca de duas décadas. Os dois últimos governos do período revolucionário acarretaram um desgaste bastante apreciável à Revolução e ao Poder Militar diante da população brasileira em geral, cujos reflexos são sentidos até os nossos dias. Podemos ainda enumerar alguns equívocos, a nosso ver cometidos:

- priorizar o campo econômico em detrimento do psicossocial, despreocupando-se da preparação de lideranças políticas para dar continuidade à Revolução;

- não ter conseguido neutralizar a elite política que criou o caos e foi afastada do governo pela Revolução de 31 de Março de 1964, permitindo que voltassem ao Poder, sabotando-o e buscando a desforra em todas as oportunidades;

- haver perdido a ‘batalha da comunicação social’, por omissão, por falta de aplicação de recursos na atividade ou exagerada confiança, permitindo que uma minoria atuante e ensandecida de brasileiros comunistas, aproveitadores e políticos inescrupulosos montasse uma estrutura que passou a dilacerar a verdade a ponto de transformar terroristas assassinos em heróis nacionais, como estão fazendo com Carlos Marighella, Carlos Lamarca, Luís Carlos Prestes e outros que hoje ocupam o primeiro escalão dos governos federais, estaduais e municipais;

- permitir que a esquerda e os revanchistas derrotados em 1964 e de 1968 a 1973 dominassem a mídia, a ponto de criar uma nova estória do Brasil, inculcando nas mentes dos mais desavisados que o que vem dos governos revolucionários é violência. Toda prisão foi sem motivo, todo preso foi torturado e todo morto assassinado. A Revolução se tornou impopular a partir de 1975 – porque ela não o era, principalmente no Governo Médici – porque não soube se comunicar. O muito que fez, o tanto que reformou, o muito que modernizou, o enorme crescimento que imprimiu ao País, tudo isso a mídia faz questão de ignorar; a lei do silêncio deve imperar sobre tudo de positivo que foi realizado. Atualmente, o inimigo tem feito o máximo esforço para o esvaziamento, o enfraquecimento e o sucateamento das Forças Armadas e, se possível, sua destruição, com o beneplácito do atual Governo [FHC]” (Coronel Luiz Mario Portocarrero de Castro Sá Freire, Tomo 11, pg. 173-174).

 

Atos contra antigos revolucionários

“Já a partir do Governo Geisel, houve uma mudança nas ações do governo revolucionário. Ao mesmo tempo em que o governo praticava atos de força contra o Congresso – senadores biônicos, cassações para modificar as ‘maiorias’ no legislativo -, houve também ações dirigidas nitidamente para afastar oficiais ‘afinados ainda’ com os princípios da Revolução de 31 de Março. Não esquecer que, nesse Governo, o Chefe da Casa Civil era o velho conhecido General Golbery, cujo secretário era Heitor de Aquino.

Ambos aliados dos maiores inimigos do Movimento de 1964, como o comunista-revanchista Elio Gaspari. Veja com quem essa dupla foi se meter! Não precisa acrescentar mais nada! [entrevistador]

Em São Paulo, para agradar setores que não eram revolucionários ou que, então, já estavam trabalhando mesmo contra a Revolução, refiro-me ao Governador de São Paulo Egídio Martins e ao Cardeal Paulo Evaristo Arns, o General Geisel cometeu aquela barbaridade que foi o afastamento do Comando do II Exército, do General Ednardo D’Ávila Melo, um dos melhores homens que já conheci em toda minha vida.

Outra liderança foi afastada com a demissão do Ministro Sylvio Frota, para facilitar a ‘eleição’ do General Figueiredo à Presidência. O livro do General Hugo Abreu mostra perfeitamente essa manobra da dupla Geisel-Golbery.

A partir daí, já não mais se falava em Revolução de 31 de Março.

Então foi fácil – a mídia, totalmente infiltrada, dominou os meios de comunicação e ganhou a batalha da comunicação social (que não houve)” (Brigadeiro-do-Ar Carlos Affonso Dellamora, Tomo 10, pg. 121).

 

Envolvimento das Forças Armadas na repressão

“Comete-se grandes erros ao condenar o Movimento de 1964. A posteriori, é muito fácil. Errou o Movimento de 1964 ao entregar a repressão aos militares. Vargas não fez isso. Entregou a repressão total à polícia, polícia civil e aos ‘cabeças vermelhas’ ali do Morro de Santo Antônio, a famosa Polícia Especial. Fizeram barbaridades, fizeram horrores, mas o Exército de então foi preservado. Cometemos esse erro, envolvendo o Exército na repressão. Criamos os CODI e os DOI. Entregamos a centralização das ações ‘na mão’ do comando unificado, construímos essa unidade de comando. É possível que tivesse de ser feito, mas foi uma lástima que tivesse acontecido. Pagamos até hoje por isso” (General-de-Divisão Octávio Pereira da Costa, Tomo 2, pg. 89-90).

“Durante o período de implantação dos DOI, era reduzido o número dos militares qualificados para trabalhar nesse tipo de organização. E o que aconteceu? Tivemos que pedir a contribuição da Polícia Civil, da Polícia Federal e da Polícia Militar, e isso foi o calcanhar-de-aquiles, porque o pessoal que vinha trabalhar conosco trouxe o mau hábito policial, isto é, bater para conseguir informação. Cabia ao condutor do trabalho não deixar que isso acontecesse, mas nem todos estavam presentes na hora do interrogatório de um preso. Não porque não quisessem e sim porque estavam em outra operação, e aí, nesse caso, ocorria excesso e quando o responsável chegava de volta, o erro já tinha sido cometido. Por isso repito, não posso afirmar que não tenha ocorrido. Deve ter existido. Mas foi episódico, esporádico, talvez até por força da quantidade de pessoas que atuavam dentro de um organismo dessa natureza, para fazer interrogatórios” (Coronel Hahenderson Vieira, Tomo 5, pg. 282).

“Fala-se muito na Operação Bandeirantes (OBAN). Lá havia uma grande quantidade de policiais civis que pertenciam ao Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) paulista. As turmas de operações, de análise, de busca, de carceragem, revezavam-se por vinte e quatro horas. Saía uma turma que estava interrogando, da Marinha, por exemplo, e entrava uma do DOPS; sabe-se que a polícia está calejada, tem a pele curtida pelo trato com a bandidagem. Então, se um delegado daquele se excedia, a OBAN se excedeu!

Havia excessos, mas não das instituições. A partir do momento em que você vai torturar, iguala-se a eles. No fim, não se sabe quem é o bandido e quem é o mocinho” (Tenente-Coronel Hiran Gomes Cavalcanti, Tomo 6, pg. 268).

“Uma guerra suja, sem dúvida, utiliza processos sujos e isso deve servir como ensinamento também. O Getúlio tomou uma decisão histórica nesse campo: ele criou uma polícia e não envolveu diretamente o Exército na repressão interna. O oficial do Exército é formado para uma guerra ética. Para isso ele exercita diariamente os valores do cidadão, do cumprimento do dever, da honra, da dignidade, que são, podemos dizer, o contraponto dessa guerra suja. Então considero que o grande erro dos governos que enfrentaram a subversão foi não terem criado uma polícia especial, desvinculada das Forças Armadas, para conduzir aquela guerra” (General-de-Brigada Carlos Augusto Fernandes dos Santos, Tomo 8, pg. 286).

“O Exército, para não envolver a Força nessas operações, criou esses órgãos específicos [DOI/CODI] para atende-las. Esses órgãos, sem uma vivência nesse setor, buscaram uma aproximação muito grande com a Polícia. Todas aquelas distorções e arbitrariedades usadas pela Polícia foram absorvidas, porque a Polícia, no dia a dia, vive num ambiente antagônico de violência e logicamente qualquer ser humano se embrutece em face dessa realidade. No entanto, vale lembrar que os criminosos que enfrentamos, no período da luta armada, não tinham nenhum comedimento, porque os terroristas são, por si só, elementos desumanos” (Coronel Amaury Friese Cardoso, Tomo 10, pg. 355).

 

Prisão de mulheres em local inadequado

“Em 1965, no Regimento-Escola de Infantaria estava comandando a Companhia de Carros de Combate Médios. Toda vez que a minha Companhia entrava de guarnição, tinha por norma percorrer todos os postos em que meus soldados estavam dando serviço dentro do Regimento.

Quando chego no xadrez, encontra uma postura inadequada da tropa, risinhos etc. O que havia? Havia cinco mulheres presas que foram encontradas num aparelho, sendo, então, recolhidas lá. E as instalações sanitárias, com aquelas privadas turcas, sem portas, eram evidentemente inadequadas.

A guarda ficava toda ativa, porque de vem em quando aquelas mulheres iam procurar a instalação sanitária para fazer as suas necessidades. Ao presenciar esse fato, fui direto ao comandante do Regimento e disse: ‘Não é possível continuar essa promiscuidade. Os elementos que imputo responsabilidade estão perdendo a seriedade no serviço’. O resultado foi a remoção das tais mulheres para o Batalhão de Comunicações, em Deodoro, onde havia condições de maior privacidade” (Coronel Amaury Friese Cardoso, Tomo 10, pg. 355).

A carne é fraca...

“Nos locais onde servi não me lembro de mulher presa, mas existia na Fortaleza de São João, no Rio, onde fiz bastante contato, pela necessidade de deslocamentos para lá. Não sei o número.

E esse era um outro problema que se criava, seriíssimo. Companheiros, tenentes como eu, comentavam: as presas se despiam na frente dos oficiais, como provocação. O camarada tinha de fazer uma revista, em determinada hora, e quando chegava lá ela estava totalmente nua, justamente para provocar.

Na Fortaleza de São João era proibido um oficial ir sozinho visitar o local onde estavam as mulheres, tinha que ser em dupla, ou três, porque a carne é fraca e ficava a mulher se atirando para cima dele, podia acontecer algo...” (Coronel Antônio Oswaldo de Mello Carneiro Lacerda, Tomo 6, pg. 209).

 

Obs.:

Em 1970, quando servi na 13ª. Companhia de Infantaria (atual 30º. BIMtz), em Apucarana, PR, durante certo tempo havia estudantes universitários de Maringá presos no quartel, inclusive algumas mulheres. As instalações, improvisadas, eram adequadas aos presos, separados por sexo. Havia proibição terminante aos soldados de guarda, de falar com  os presos.

F.M.

 

Desprestígio de alguns chefes militares revolucionários autênticos

“Depois da Revolução consumada, no meu ponto de vista, cometeu-se um engano, ao prestigiar os oficiais considerados mais prudentes, mais moderados, em detrimento dos revolucionários autênticos. Vou citar dois exemplos recaídos sobre oficiais cearenses: na Brigada Paraquedista, o Comandante de um Grupo de Artilharia, o Coronel Boaventura, oficial muito competente – foi até secretário na ONU -, militar de grande valor intelectual e revolucionário atuante; no Regimento Santos Dumont, o Coronel José Aragão Cavalcante, também de grande valor profissional, revolucionário autêntico, desde os idos de 1954. Pois bem, esses oficiais, que teriam mais tarde, papel destacado na Revolução, ainda antes do 31 de março, haviam recebido ordem para sequestrar o Sr. Carlos Lacerda, Governador do Rio de Janeiro [na realidade, do Estado da Guanabara]. Ambos se recusaram a cumpri-la. Se o Lacerda tivesse sido sequestrado, será que a Revolução ganharia a força que ganhou? Lacerda foi o maior líder civil da Revolução, o único que tinha um discurso, uma capacidade oratória muito convincente. Por sua brilhante inteligência, foi um político terrível, um aliado poderosíssimo da Revolução. Aqueles dois oficiais com participação decisiva na Revolução, logo em seguida, foram promovidos ao posto de Coronel, por merecimento. Quando entraram no quadro de acesso para General, entretanto, começaram a ser ultrapassados, sem qualquer justificativa mais plausível” (Coronel José Antônio Bayma Kerth, Tomo 4, pg. 108-109).

“Infelizmente, o Ato Institucional no. 5 (AI-5) me afastou definitivamente do processo revolucionário. Entendo que ele alijou as lideranças inteligentes do País. Eu estava muito envolvido com os Governadores Carlos Lacerda e Magalhães Pinto, e buscávamos insistentemente uma saída civil, para sucessor do General Costa e Silva, alguém que tivesse uma experiência marcante como dirigente de um Estado. Por isso, a meu juízo, o AI-5 foi a grande quartelada do Poder Militar do Movimento de 1964. Além de Carlos Lacerda, esvaziou-se um grupo muito ativo, ‘o grupo dos coronéis’, integrado, entre outros, pelo Coronel Francisco Boaventura Cavalcante, que frequentemente reunia seus integrantes com o objetivo de oferecer, procurar, propiciar um novo rumo, uma mudança política para o nosso País” (Tentente-Coronel Artur de Freitas Torres de Melo, Tomo 12, pg. 211).

“O General Mourão pouco ou nada tinha a perder. Ao descer das ‘Alterosas’, foi reunindo todas as iras, desconfianças, antipatias e ressentimentos contra o Jango, represados desde 1961. Tratava-se da hora da revanche que foi catalisada na operação Mourão. E um detalhe importante: quando ele colocou o pé dentro do Gabinete do Costa e Silva, já havia sido destituído da prerrogativa de líder da Revolução a que fora alçado pela sua audácia; o haviam congelado, e ele sofreu muito a partir dali. Ele, que tinha feito a guerra, sentiu que a tinha perdido, antes de chegar ao Gabinete do Costa e Silva, onde conheceu os novos donos da situação” (Coronel Celso Chagas da Costa, Tomo 13, pg. 300).

 

“Cofre das Vaidades” e a “Política da Chaleira”, a política de Golbery, o Bruxinho que Era Bom...

“Mas terá sido, certamente, a ligação íntima com o ‘Turco’ [colunista social Ibrahim Sued] que terá dado a Élio Gaspari a ferramenta com que aprendeu a abrir o ‘cofre das vaidades’ de certas figuras da ‘ditadura’ – como Ernesto Geisel, Golbery do Couto e Silva e Heitor de Aquino Ferreira – de onde saíram os papéis de arquivos oficiais – transformados leviana e criminosamente em arquivos pessoais – e os ‘diários’ e as fitas, secretamente gravadas, com que montou sua mais recente e longeva obra, cujos primeiros volumes, logo que lançados, com impressionante publicidade, já despontavam na lista dos mais vendidos, mostrando que Sirkis tinha razão, mesmo que o apontado fascínio seja o resultado de longas e trabalhosas compilações – via computador – do que muitos outros já escreveram, com uma conveniente e capciosa seletividade de fatos e fontes, ao bel-prazer do autor, de declarações com o velho ‘cheiro do Galeão’ e de um texto bem escrito, mas recheado de equívocos, erros grosseiros, meias-verdades e mentiras completas, próprias ou encampadas. Falhas que começam a ser apontadas publicamente, porque ainda estão vivas muitas das testemunhas dos fatos e que agora se dispõem a corrigi-lo e a contar o que sabem” (General-de-Divisão Raymundo Maximiano Negrão Torres, Tomo 14, pg. 51-52).

“Não concordo com isso, a tal ‘política da chaleira’. Então se tem água quente numa chaleira é bom que tenha uma pontinha aberta para escoar, senão explode. Mas não foi bem isso, porque a luta armada, conduzida pelos extremistas de esquerda, começou antes da Revolução de 1964. O ‘grupo dos onze’ do Brizola falava em matar os prisioneiros. Nas ‘Ligas Camponesas’, defendiam abertamente a luta armada. Antes da Revolução, vários militantes do então Partido Comunista do Brasil (PC do B) foram fazer curso na China para implantar a guerrilha.

Tivemos dezenas e dezenas de bombas jogadas pelos comunistas antes do AI-5. Mas eles dizem que a luta armada foi desencadeada depois do AI-5, após dezembro de 1968. Mentira! Porque a bomba de Guararapes foi em julho de 1966. Uma série de mortes, que lembramos bem até hoje, ocorreram antes. Mais uma mentira que eles tentam transformar em verdade pela repetição. Ninguém de bom senso, que viveu na época, concorda com isso. É mais uma empulhação desses críticos embusteiros” (Coronel Romeu Antonio Ferreira, Tomo 9, pg. 371).

Obs.

Para conhecer a ligação estreita do quarteto fantástico Geisel-Golbery-Aquino-Gaspari, leia meu texto “Elio Gaspari e Golbery - o Bruxinho Que Era Bom”, uma analogia ao clássico de Maria Clara Machado: https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/04/elio-gaspari-e-golbery-o-bruxinho-que.html

F. M.

 

O Pacote de Abril, do Presidente Geisel, que deu poder exorbitante aos parlamentares das regiões Norte e Nordeste

“Jamais deveríamos ter aceitado o tardio ‘pacote’ do Geisel. O Nordeste tinha que ser tratado, politicamente, como o restante do País, pois todos os prejuízos que viessem, teriam sido menores do que esta fórmula esdrúxula de conduzir a política nacional, que até hoje nos prejudica. Há mais de quinze anos falei que as bancadas não poderiam ser constituídas como o são. Se vocês procurarem nos anais eternos da Assembleia Legislativa, lá está o meu pronunciamento veemente contrário ao ‘pacote de abril’ de 1977.

Descuido ou intencionalmente, a bancada de um Estado como Sergipe – eu o cito por ser o menor da Federação – se antepõe à do Rio Grande do Sul. Os Estados do Norte e do Nordeste, menos populosos, garantiram boa representação no Congresso. E até hoje somos governados de uma maneira completamente errada. Não podemos continuar com esse Congresso artificial. As bancadas têm que ser proporcionais à população. Ninguém tem coragem de mexer. Basta contar o número de deputados de cada região. E onde está o maior PIB? E onde ferve a política? Aqui! E lá? É aquela política de sempre, capitaneada por líderes como o Antonio Carlos Magalhães e Jáder Barbalho, que estão brigando entre si” (Coronel Pedro Américo Leal, Tomo 13, pg. 249-250).

Obs.:

Hoje, principalmente o Nordeste, é governado por caciques do PT e do PC do B, que fazem ferrenha oposição ao Governo Bolsonaro, tendo como curral eleitoral os milhões de dependentes do Bolsa Família.

F. M.

 

A ênfase deveria ter sido a Educação da criança, o Ensino Fundamental

“Não nos engajamos na comunicação social e também não o fizemos, como devíamos, na Educação. A Educação é tudo. Eu era menino e o meu pai já dizia: ‘O problema número um do Brasil é a Educação.’ Inclusive, nesse período dos presidentes militares, fomos cuidar do Mobral, o adulto não tem paciência e fomos cuidar do adulto deixando as crianças, que têm curiosidade e aprendem. A minha empregada frequentou o Mobral quatro anos, gostava da escola, mas não aprendeu nada, e os que aprenderam, depois desaprenderam, porque não podiam comprar livros ou jornais e se tornaram analfabetos novamente. Penso que a ênfase deveria ter sido a criança, o ensino fundamental, o qual, enquanto não for levado a sério, não deslancharemos. No sentido lato da palavra, não é só ensinar a ler e a escrever não, é a educação integral. Quando a criança com dois anos bate o pezinho no chão, já deve ganhar uma palmada, a educação é fundamental, porque quem tem Educação cuida também da saúde, cuida de todas as outras coisas, a Educação é tudo.

Outra coisa, deixamos os comunistas assumirem as universidades. A juventude está sendo preparada por professores, na sua grande maioria, esquerdistas, comunistas, todos internacionalistas, o que é um desastre” (General-de-Brigada Augusto Cid de Camargo Osório, Tomo 14, pg. 128).

 

Faltou a Revolução de 31 de Março reformar o Judiciário

“E temos algo impressionante no sistema de governo, o Brasil é uma República presidencialista com um Judiciário ‘monárquico’. E o Poder Judiciário contraria o Artigo 1º. da Constituição, que diz que ‘todo poder emana do povo e em seu nome é exercido’. Agora, não existe no panorama político nenhum momento em que o Poder Judiciário emanou do povo. O Poder Judiciário assumiu o poder do imperador com a Proclamação da República e não largou mais.

As revoluções que tivemos foram contra o Executivo, não foram revoluções contra o Judiciário. Então, eles usurparam, diria isso, o poder do imperador e o mantiveram, pois não sofreram revoluções. Dessa forma, temos o poder monárquico do Judiciário, o poder presidencialista republicano do Executivo e do Legislativo em busca de seus próprios interesses. Isso não nos leva a lugar algum porque são forças totalmente heterogêneas e não harmônicas“ (Doutor Antônio José Ribas Paiva, Tomo 7, pg. 334).

“Não reformaram a Justiça, não fizeram uma limpeza mais profunda, como deveria ter sido feita. Lembro-me, certa ocasião, de um dos meus companheiros de turma que possuía um calhamaço de provas sobre elementos que deveriam ser cassados, afirmava ele, com tudo comprovado e que não o foram, porque decidiram não prosseguir.

Se a decisão foi sábia ou não, temos que analisar, porque realmente deixou-se de fazer ‘uma limpa’ em certos locais. Num desses locais em que estive, um dos chefes da agência do Serviço Nacional de Informações (SNI) estava fazendo um apanhado sobre um determinado indivíduo e me mostrou: ‘estou reunindo estas informações e é um negócio que assusta’, porque, naquela época, o cidadão já estava metido com drogas, lenocínio, terras, tudo que podia, ações próprias do crime organizado. Qual não foi minha surpresa, quando ao voltar, uns poucos anos depois, uns dois ou três anos, o tal indivíduo era o Governador do Estado. E foi indicado para a função. Aí você vê como as coisas não conjugam, porque sempre ocorre o problema da perseguição política. Torna-se difícil, realmente, porque o adversário político utiliza todas as armas” (General-de-Divisão Orlando Morgado, Tomo 5, pg. 88).

“A Revolução considerou o Judiciário intocável – sem dúvida, um outro erro. Nunca quis entrar, por exemplo, numa reforma judicial cartorária. Temos esses feudos nos cartórios, essa justiça lenta que a Revolução não quis modificar” (Coronel Romeu Antonio Ferreira, Tomo 9. Pg. 369).

“O Poder Judiciário permaneceu ileso: ninguém tocou na Justiça, que, a meu ver, deveria ter passado por uma reforma radical. Por isso, insisto, não fizemos uma Revolução, pois não mudamos os costumes políticos, não mudamos a Justiça, Poder que estava e continuou arcaico, sem servir à Nação” (Tenente-Coronel Artur de Freitas Torres de Melo, Tomo 12, pg. 209).

 

Dependência do petróleo externo

“O único problema que tivemos foi que não atacamos a questão do petróleo, como devíamos, e sem petróleo não há país que viva. Ficamos dependendo do petróleo barato e quando o preço foi lá em cima, passamos a pagar uma conta altíssima. Foi a forma que encontraram no exterior para impedir a nossa evolução. Lembro de uma notícia de jornal dizendo que nós pagávamos 900 milhões de dólares por ano com a importação do petróleo e, dois anos depois, passamos a pagar 12 bilhões. Não há economia que resista” (Coronel João Franco Pontes Filho, Tomo 11, pg. 136).

 

Atraso do Pró-Álcool; Reserva de Mercado de Informática

“O desenvolvimento foi extraordinário, e talvez não tenha sido melhor, porque o próprio General Geisel, com aquele espírito dele, não digo nacionalista, mas corporativista, atrasou muito algumas coisas; estou numa área, hoje ligada ao álcool como combustível, que atrasou demais, porque não se quis mexer como se devia, para não se mexer com a estrutura da Petrobras, à qual ele era ligado por uma série de motivos.

Então, são problemas... Essa reserva que se fez da informática, por exemplo, atrasou muito o nosso desenvolvimento” (Coronel Carlos Alberto Guedes, Tomo 9, pg. 267).

Obs.

A Reserva de Mercado de Informática foi praticamente esquecida pelos entrevistadores. Atrasou em pelo menos 20 anos o desenvolvimento tecnológico brasileiro.

Os produtos oferecidos, na época, especialmente da Itautec, eram caixotes embutidos por peças pirateadas dos “tigres asiáticos”, inclusive seu sistema operacional, com preços exorbitantes e que chegavam nas prateleiras já defasados tecnologicamente em relação aos produtos externos.

No texto “Nacionalismo e Esquerdismo nas Forças Armadas”, de minha autoria link https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/04/nacionalismo-e-esquerdismo-nas-forcas.html, consta:

“Em 1978, o Governo Geisel criou a Secretaria Especial de Informática (SEI), que instituiu a política de reserva de informática no País, que tinha por objetivo inventar a roda, ou seja, o computador, que seria genuinamente nacional. Propostas de instalações de fábricas da IBM e da Hewlett Packard no Brasil foram rejeitadas; não foi sequer permitida a produção desses equipamentos no Brasil, que seriam destinados exclusivamente para a exportação. Agradecem, até hoje, o Japão, a Coréia do Sul e a China, que estão pelo menos a duas décadas na nossa frente - os três países, em termos de produção de hardware e software; os dois primeiros, em termos de inclusão digital de sua população. [Hoje, a China supera os outros dois, exponencialmente.]

A xenofobia informática não era exclusiva dos militares retrógrados: ‘personalidades e associações profissionais e culturais de todo o país formavam um grande bloco com os cidadãos fardados, imitando a campanha do petróleo dos anos 50’ (PAIM, 2002: 81).

Os talibãs da SEI ‘declararam que o 'Sisne 3.000', da brasileira Scopus, era funcionalmente equivalente ao DOS, da Microsoft. E o programa dito brasileiro era mera cópia do DOS, cópia autorizada e legalizada pela SEI’ (PAIM, 2002: 86). O industrial Ricardo Semler ‘descrevia a indústria de informática como sendo um CCP - misto de cartório, contrabando e pirataria (PAIM, 2002: 86).”

F. M.

 

Tortura, a palavra mágica

“Quando o Presidente Castello tomou conhecimento de denúncias, de que estaria havendo tortura no Nordeste, mandou o General Geisel, imediatamente, ir até o local. De lá, foi a Fernando de Noronha. Hoje, tenho o testemunho de uma pessoa que foi presa na ocasião, um líder sindical petroleiro que mais tarde elegeu-se Deputado Federal, o Mário Lima, da Bahia. Era engenheiro da Petrobras, quando eu ocupava o cargo de superintendente da Empresa e me contou como o General Geisel foi de absoluta correção. Encontrava-se preso lá o Arraes. Penso que posso dizer isso, Mário Lima não vai me desmentir aqui: o Arraes chorava. Deu testemunho em relação a um Costa e Silva, coronel, que era o comandante de Fernando de Noronha, e que os tratou com absoluta correção e dignidade. Mário, por ter dado esse depoimento, foi criticado pelos comunistas, porque não deveria tê-lo feito. O ator Mário Lago, certa vez escreveu assim: ‘o comunista nunca diz que foi bem tratado, diz que foi torturado’, para criar de pronto um problema” (Senador Jarbas Gonçalves Passarinho, Tomo 5, pg. 67-68).

 “A tortura veio aparecer mais tarde. Veja que o Frota era um general de posição definida, um home de direita; o pensamento dele era nitidamente de direita. Dizia-se sobre o Frota, jocosamente, que, se o camarada chegasse com uma camisa ou com a gravata vermelha, ele já o colocava no Partido Comunista, direto, tal sua rigidez; mas não aceitava tortura, também. Não somente isso. Inclusive dava incertas nas prisões do I Exército. O que ‘eles’ fizeram? Uma casa em Petrópolis. Nessa casa, em Petrópolis, havia violências físicas. E um tal de Jarbas Passarinho foi citado numa das sessões de tortura feitas com uma presa chamada Inês Etiene Romeu, que agora deu testemunho, inclusive por escrito. Ela ouvia um camarada dizer: ‘Olha, primeiro vocês todos que pegaram em arma serão mortos; segundo, todos os quadros do Partido Comunista, porque são comunistas e devem ser mortos; terceiro, esses liberais que estão infiltrados entre nós, como esse Ministro da Educação, o Jarbas Passarinho, que é uma melancia, verde por fora mas é vermelho por dentro.’ Eu seria o próximo. E ainda me perguntam sobre coesão” (Jarbas Gonçalves Passarinho, Tomo 5, pg. 69-70).

“No DOI de São Paulo, passaram 2.541 subversivos presos. Todos eles prestaram as suas declarações preliminares no DOI. Era um interrogatório comum. Quando já estava pronto para ir embora do DOI, a fim de ser conduzido ao presídio, colocávamos o preso numa sala, dávamos para ele uma folha de papel almaço, uma caneta e dizíamos: ‘Bem, agora você vai escrever tudo sobre a sua vida de subversão. Estão aqui o papel e o lápis’.

Fechávamos a porta, ele ficava lá, sozinho e, de próprio punho, fazia o depoimento. Onde estão esses depoimentos originais? Estão todos no Superior Tribunal Militar, no processo de cada um desses presos. Qualquer pessoa bem-intencionada que leia os depoimentos, facilmente vai chegar à conclusão de que aqueles documentos nunca foram redigidos enquanto o autor estivesse sendo torturado, ou sob pressão. A maneira como a pessoa descreve, como escreve; a letra, a letra firme, a maneira como aborda as questões. Qualquer um, mesmo que não seja especialista, tenho certeza, chegará a essa conclusão.

Depois, ele ia para o inquérito policial, no Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), e confirmava o que havia dito no DOI. Posteriormente, era levado para a Auditoria. Na Auditoria, negava tudo. Negava e, se lembrado do que declarara antes, no DOI, alegava que falava sob tortura.

E por que faziam isso? Bom, primeiro, porque na Auditoria procuravam negar, é claro, para ver se a pena que iriam receber não seria tão grande. Segundo, tinham que justificar perante a esquerda, perante seus companheiros por que, no interrogatório do DOI, haviam entregado a organização, denunciado seus companheiros, confessado a localização dos seus aparelhos. E, terceiro, porque tinham certeza de que jamais seriam reconhecidos.

Não conseguimos nunca testemunhas oculares. Assaltavam bancos, os bancários viam, sabiam quem eram, mas, quando chamados, não os reconheciam, não sabiam de nada, por quê? Porque os primeiros bancários que fizeram o reconhecimento foram assassinados; ameaçados, sabiam que todos aqueles que reconhecessem os assaltantes teriam o mesmo destino. Nunca mais ninguém neste País quis depor contra os terroristas.

Temos também o caso da atriz e ex-Deputada Bete Mendes, que falou tudo no DOI, prestou depoimento na Polícia, também o fez na Auditoria e, 14 anos depois, veio a público dizer que tinha sido torturada.

(...)

Bom, como conclusão a respeito da tortura, posso dizer que a mídia explora a tortura com estardalhado e sensacionalismo. Os ex-terroristas procuram justificar o que confessaram, dizendo que falavam sob tortura. Hoje o curriculum vitae de uma pessoa é bastante valorizado quando afirma que foi torturada na época da ditadura, como dizem. Excessos condenáveis devem ter sido cometidos pela repressão, mas foram muito poucos, uma exceção” (Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, Tomo 5, pg. 228-232).

“Quanto à tortura, irmã gêmea da censura, no esforço de muitos para denegrir o prestígio das Forças Armadas, por meio de patrulhamento explícito, eu nunca vi. Fui preso em 1964 pelo Governo João Goulart, passei quinze dias recolhido à Fortaleza de São João, sem direito a sair de uma área limitada ao refeitório e a um apartamento. Segundo o noticiário da esquerda, também eu estaria sendo torturado, porque durante aquele período não pude receber qualquer tipo de visita familiar. As únicas visitas permitidas eram de militares fardados” (Tenente-Coronel Artur de Freitas Torres de Melo, Tomo 12, pg. 212).

 

A esposa do Major Ustra passeava no pátio do DOI com as presas. Que tortura era essa?

“Mais tarde vou ter a oportunidade de me referir a esse tipo de problema: da quebra dos vínculos da pessoa com a família. Milton Barbosa, o sargento [da Marinha] que caiu na clandestinidade, utilizou como um dos lugares para exercícios de tiro de arma portátil, a praia de Itaipuaçu, que naquela época era muito deserta. Houve um tiroteio entre os seus quadros e o pessoal do DOI de São Paulo, do II Exército, e ele faleceu em decorrência desse tiroteio e aquela moça, Linda Taiá, que era professora primária, foi atingida por um disparo na altura do frontal, perdendo uma parte do osso. Ficou muito tempo presa conosco no DOI em São Paulo, depois se recuperou.

Inclusive quando foi presa, estava grávida e teve a criança lá dentro do DOI. Isso veio a desmentir os maus-tratos que muitos diziam que praticávamos contra as pessoas presas. Até a própria esposa do nosso comandante, do então Major Carlos Alberto Brilhante Ustra [Joseita Ustra], ia lá dentro do xadrez, muitas vezes, para conversar com as moças que estavam presas e passeava com elas no pátio. Então, tinha todo esse tom de humanidade e que, infelizmente, os meios de divulgação do País jamais propalaram nada dessa natureza. Tínhamos que ter divulgado toda essa verdade, inclusive do DOI, que não perdeu o seu lado humano, como estou relatando, apesar de ter enfrentado os mais perigosos terroristas, que foram os que atuaram em São Paulo, durante a Operação Bandeirante (OBAN)” (Tenente-Coronel Orestes Raphael Rocha Cavalcanti, Tomo 11, pg. 289).

“Merecem registro os episódios envolvendo um oficial da Polícia Militar [Tenente José Ferreira de Almeida], um jornalista [Vladimir Herzog] e um metalúrgico [Manoel Fiel Filho], detidos no DOI-CODI para averiguações de envolvimento em atividades atentatórias ao regime, que foram encontrados mortos naquela dependência. Particularmente a morte do oficial da Polícia Militar mereceu de nossa parte e do então Comandante da Polícia Militar, questionamento junto ao Chefe do DOI-CODI pela maneira como se procedia, detendo elementos da Polícia Militar supostamente envolvidos em atividades subversivas sem o nosso conhecimento.

Sempre aceitamos e colaboramos com o DOI-CODI, reconhecendo a difícil tarefa de combater o terrorismo, que impunha o exercício de certas normas garantidoras da surpresa necessária a esse tipo de combate. À época citada, entretanto, o terrorismo já fora eliminado. Mantinham atividades subversivas grupos de menor expressão, como seria o caso da célula comunista na Polícia Militar” (Coronel Antonio Erasmo Dias, Tomo 7, pg. 142).

“Nas vésperas de eu passar o comando da Cia Cmdo da 2ª. Região Militar, um oficial, Tenente Rodrigues, meu subcomandante, foi fazer uma ‘paquera’ na Rua São João.

Quando ele estava paquerando, um carro veio e deu uma batidinha no carro dele, pela retaguarda, e aí começou uma briga. Ele, tenente subcomandante, talvez entusiasmado, ligou para o corpo da guarda da Companhia e acionou uma patrulha para ir lá. Essa patrulha foi, pegou o rapaz que tinha batido no carro dele e fizeram algumas boçalidades com ele.

Não tinham que ter prendido, não tinham que ter envolvido a tropa. Ele, para castigar, por causa da batida, cometeu umas barbaridades, que nem vêm ao caso aqui, e foi embora, e os sargentos e os soldados acabaram torturando esse rapaz, sem razão.

(...) Então, o que é que se fez? Prendeu-se o tenente e se fez um inquérito. Para simplificar: os sargentos e os cabos foram punidos e o tenente foi preso, condenado, e acabou se suicidando, porque a pressão contra ele foi forte. Todos os seus superiores ficaram indignados com aquele procedimento” (Coronel Carlos Alberto Guedes, Tomo 9, pg. 275).

Obs.:

Hoje, a Rede Globo oferece o Troféu Mário Lago a personalidades do meio cultural e artístico.

Mário Lago, ator, compositor, advogado, comunista, orientava todos os terroristas e “militantes de esquerda” para dizer que foram torturados, quando saíssem da cadeia, mesmo que isso fosse mentira.

Cfr. depoimento de Miriam Macedo, “A verdade: eu menti” - https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/05/a-verdade-eu-menti-por-miriam-macedo.html.

F. M.

 

A desinformação do livro “Brasil: Nunca Mais”, da Arquidiocese de São Paulo

“Tempos atrás fui a um sebo e curiosamente estavam lá os livros ‘Governo Castello Branco’ – que comprei – e o ‘Brasil Nunca Mais’, do Cardeal de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, livro que eu não conhecia. Este contém um depoimento de dois camaradas do MR-8 presos aqui no Paraná, casos que tratei nos meus livros, em que eles falsificam tudo de uma maneira vergonhosa. Inclusive um camarada declarou que fora torturado mesmo ferido. Ora, o terrorista tentou sacar uma arma e foi baleado; salvou-se por milagre; nós levamos o cidadão para o Hospital Militar e ele ficou baixado na enfermaria dos presos; depois disse que fora torturado no DOPS. Sei lá; se ele foi torturado foi em outro lugar, depois que saiu de nossa jurisdição. Mas ser torturado depois de tanto tempo? Para quê?

O outro era um camarada com mulher e filhos, que alugou uma casa no centro de Curitiba, na Rua Alferes Poli. O nosso pessoal os descobriu – era um dos chefes do MR-8 (codinome Fyatt) – montou uma situação para prendê-lo quando voltasse de uma viagem que fazia. Por medida de segurança, tiramos a esposa e os filhos da casa, pois poderia haver tiroteio. O Cardeal Dom Arns diz no livro que prenderam a esposa e os filhos para obrigá-lo a confessar. É mentira absoluta, deslavada; eu estava aqui, participei, pois era o E2. No apartamento daquele outro que disse ter sido torturado mesmo ferido, havia uma portuguesa e não sabíamos o que fazer com ela, porque no início estávamos inteiramente despreparados, então a colocamos em um quartinho lá no quarto andar do hospital militar. Ela ficou presa até seguir destino. Fui visitá-la. Tive vontade de lhe dar um bofete na cara porque ela me xingou: Assassino! Pois acreditava que tínhamos matado o rapaz, seu amante. Hoje, com certeza, ela deve contar que foi estuprada. Então, a estratégia era sempre alegar tortura nos ‘porões’ ” (General-de-Divisão Raymundo Maximiano Negrão Torres, Tomo 8, pg. 101-102).

Obs.:

O livro “Brasil: Nunca Mais”, lançado pela Arquidiocese de São Paulo em 1985, tem como fonte principal processos surrupiados do Superior Tribunal Militar (STM), onde consta o depoimento de réus que dizem ter sido torturados e onde há uma bem-informada relação de grupos terroristas que aterrorizaram o Brasil nas décadas de 1960 e 1970, assim como as várias dissidências que ocorreram no período. Mas não é citado um único crime dos terroristas e investigados  que foram processados pelo STM, como assassinatos, “justiçamentos” (assassinato de kamaradas), roubos a bancos, a casas d’armas, a quartéis, a supermercados e a pedreiras (para obter explosivos), como se os militares tivessem covardemente matado e torturado inocentes anjinhos sem crime nenhum nas costas, pelo simples prazer em matar e torturar.

É um panfleto escandaloso, desenvolvido sob a ótica comunista, de modo a ferir mortalmente as Forças de Segurança do período pós-1964. É a aplicação radical da logomaquia, que criou palavras e expressões como “burguês”, “elites”, “democracia”, “inimigo do povo”, “tortura” e mais recentemente, “antifascista” (Antifa), “me too”, “black lives matter”, “manifestações antidemocráticas”, com o intuito de promover a divisão da sociedade, e ridicularizar e destruir os adversários políticos.

O panfleto de Arns afirma, p. ex., que havia 2.181 grupos das Ligas Camponesas, espalhadas no Brasil por 20 Estados. No entanto, não informa quantos canaviais foram queimados pelos terroristas, nem quantas usinas de cana-de-açúcar foram destruídas, nem quantos fazendeiros e posseiros foram mortos.

Como resposta ao panfleto do “caríssimo amigo de Fidel Castro” - Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, em 1986 o então 2º. Sargento do Exército Marco Pollo Giordani lançou “Brasil, Sempre!”, disponível em http://www.docvirt.com/docreader.net/DocReader.aspx?bib=bibliotbnm&pagfis=752.

“A Logomaquia - ‘batalha com tiros de palavras’ - começa nas invectivas. Espontaneamente o homem procura exprimir a sua raiva por vocábulos que tendem a diminuir, ridicularizar e tornar ainda mais odioso o inimigo. Note-se que o insulto é pior se é dirigido a uma coletividade, raça ou família, em vez de a um indivíduo. (...) Certas expressões logomáquicas foram construídas com muita felicidade. ‘Inimigo do povo’, por exemplo, durante a Revolução Francesa. Tratar alguém como ‘inimigo do povo’ era apelar à solidariedade de todo o povo contra um único homem, era assim transformar este homem no bode expiratório que todos os outros estavam dispostos a aniquilar. ‘Burguês’ também não está mal, porque já era uma palavra desprezível no vocabulário aristocrático, e, consequentemente, ninguém queria ser ‘burguês’, visto de cima ou de baixo. (...) Jean Ferré gosta de sublinhar o golpe de magia logomáquico realizado com as palavras ‘aristocrata’ e ‘democrata’, que seriam antônimos rigorosamente simétricos, um significando ‘partidário do governo das elites’ e o outro ‘partidário do governo do povo’. Quando ‘aristocrata’ passou a significar ‘nobre’, ‘democrata’ ficou sem antônimo, o que é prático para os democratas mas desastroso para um pensamento político privado da indispensável dialética dos contrários. Para opor a democracia só se encontrou o conceito de ditadura, o que é tão mais lamentável e desconcertante quanto as ditaduras, de César a Hitler, são quase sempre de origem e mesmo de vocação democrática, isto é, popular. Portanto uma confusão talvez não tão inocente” (VOLKOFF, 125-6).

F. M.

 

Excessiva estatização

“Nas Forças Armadas sempre preponderou um espírito nacionalista, no bom sentido da palavra, de grande apego e amor aos valores nacionais e com o intuito de defende-lo contra os valores extrínsecos à Pátria. Mas, infelizmente, parte dos militares nacionalistas foi influenciada pelas ideias totalitárias do dirigismo econômico e se tornaram favoráveis a regimes estatizantes. Para esses também mandamos os livros. Reconhecíamos neles pessoas mal-informadas e não mal-intencionadas como eram os jornalistas, escritores e políticos da esquerda. Distribuímos com todo cuidado esses livros favoráveis à livre iniciativa, para um melhor esclarecimento.

O General Ernesto Geisel foi o expoente desse tipo de pensamento nacionalista militar, no Brasil. Para se ter uma ideia, quando seu Governo terminou, mais de 50% da economia brasileira estava nas mãos do Estado. Lembro-me de um professor de inglês, que esteve aqui no Brasil, dizer: ‘O estado atual da economia do Brasil é o sonho dos partidos socialistas da Europa daqui a trinta anos.’ Esse era o tempo necessário que eles imaginavam para poderem estatizar a economia e chegar à situação do Governo do General Geisel, que lveou quatro anos para fazê-lo” (Doutor Adolpho Lindenberg, Tomo 7, pg. 301).

 

Desengajamento: hora de “desmontar do tigre”

“Já se dava uma desmobilização grande, quando aconteceu a primeira ocorrência, em julho de 1966, o atentado no aeroporto de Guararapes, em Recife, tentando vitimar o candidato Costa e Silva. Morreram um almirante e um jornalista, além da existência de vários feridos graves, entre eles, o Coronel Sylvio, mais tarde General, que ficou com o corpo cheio de estilhaços.

Por que eles nunca se preocuparam com a atentado de Guararapes como fazem em relação ao Riocentro? Isso não demonstra ‘revanchismo’ [entrevistador]?

Pois sabe o porquê? Não houve punição. O inquérito conduzido pela Aeronáutica – o atentado ocorreu dentro do aeroporto – foi muito malfeito. Apesar disso, na prática, soube-se quem foi o responsável. O terrorista errou ao confiar demais no operário bombeiro que fez o dispositivo: um cano de duas polegadas, para encher de explosivo. Visitou-o três vezes. Quando aconteceu a explosão, e os jornais começaram a noticiar, o bombeiro apresentou-se na Aeronáutica para confessar o que sabia, e apontou o engenheiro Ricardo Zaratinni.

Hoje, o pessoal de esquerda tenta inocentar o Zaratinni, mas foi ele” (General-de-Brigada Hélio Ibiapina Lima, Tomo 2, pg. 182).

“As manchetes dos jornais de 15 de dezembro de 1970 reproduziam frases do discurso do Chefe do Estado-Maior do Exército, General Alfredo Souto Malan, preconizando o que chamou de ‘o desengajamento controlado das Forças Armadas de outras atividades que não fossem as de soldado, e o advento de um Brasil democrático, forte e livre’. Estávamos no segundo ano do Governo Médici, nos, agora, cognominados, por importação do francês, ‘anos de chumbo’.

(...)

A idéia do ‘desengajamento controlado foi mais tarde reproduzida por Golbery, com o nome de ‘distensão, lenta e segura’. É a mesma coisa. Tratava-se de desmontar do tigre, sem ser por ele devorado.

Ullysses Guimarães, em 1964, fora co-autor de um projeto de Ato Institucional que previa cassações por 15, em lugar de 10 anos. Em 1970, na oposição, líder do MDB, exasperava-se: ‘Enquanto houver cachaça, samba, carnaval, mulata e campeonato de futebol, não haverá rebelião no Brasil. O Corinthians segura mais o povo do que a Lei de Segurança Nacional’. Existe mesmo um desabafo do ex-Capitão Lamarca, terrorista em fuga para a Bahia: ‘Há três anos o Brasil está crescendo a 10%, ao ano, e a esquerda foi a última a saber’. Tudo isso está registrado em livro do brasilianista Thomas Skidmore [BRASIL – De Castello a Tancredo, Editora Paz e Terra, 1988 – Traduzido do original em inglês The Politics of Military Rule in Brazil – 1964-1985].

Quanto ao cidadão comum, perguntava ele: ‘Se está dando certo, para que mudar?’; e não se aceitava a resposta de ser quando tudo está dando certo é que é a hora de mudar. Quando a situação está ruim, não se pode. Naquele momento, era hora de ‘desmontar do tigre’. Se deixar o tigre com fome, ele nos devora. Aliás, a demora em desmontar vai-nos fazer perder bons nacos de carne abocanhados pelas jaguatiricas revanchistas.

(...)

Médici, em depoimento prestado a um jornalista, pouco antes de falecer, disse que não teria sido viável ser sucedido por um civil, porque ainda havia a subversão. Realmente, a guerrilha de Xambioá não havia sido debelada. Embora em História seja difícil falar-se em hipóteses, é possível que a luta contra as esquerdas armadas pudesse ter sido ultimada sob um presidente civil, com forças policiais, desonerando o Exército desse ônus. Afinal, a subversão nunca conseguiu o apoio da população, que via, na ordem, a garantia do bom estado da economia.

O Presidente tinha um prestígio imenso. Sua figura inspirava respeito, parecia um grande patriarca. Que presidente arrisca-se a ir ao Estádio do Maracanã? Nenhum, só o Médici. Pediram-lhe um palpite sobre o resultado do jogo contra a Itália, pela decisão da Copa do Mundo de futebol de 1970, e ele acertou a vitória do Brasil por 4 a 1. Tinha o dom que Napoleão dizia ser indispensável aos generais: sorte.

É preciso restaurar essas verdades, contrapondo-as ao constante fustigamento à memória do Presidente Médici. Quanto ao desengajamento, perdeu-se a oportunidade, e nada mais há que fazer, senão melancolicamente, registrar essa perda” (Coronel Luís de Alencar Araripe, Tomo 2, pg. 236-237).

“O Presidente Médici durante todo o seu mandato foi amado pelo povo, o que até adversários da Revolução reconhecem. Só não foi amado pelos terroristas, guerrilheiros e elementos que os apoiavam – uma minoria sem nenhuma expressão no contexto nacional. Pelo povo trabalhador, diligente, que dá duro e ganha pouco na luta pela sobrevivência, o Presidente Médici era muito querido.

No entanto, depois de tantos e tão expressivos acertos, não posso deixar de consignar o seu grande e único erro: deveria ter passado o Governo para um civil, entregaria o Governo com a casa arruada, com o PIB crescendo a mais de 10% ao ano, com a inflação de 15% ao ano, inflação que viera dos 400% ao ano, no tempo do incompetente Jango Goulart; passaria a um civil, um País que se transformou totalmente naqueles dez anos – 1964 a 1974.

Ernesto Geisel recebeu a casa arrumada mas, como dizia o meu amigo Ministro Frota, sendo ele um socialista disfarçado, criou 254 empresas estatais. Além disso, fez-se acompanhar daquele que fora o ‘anjo mau’ do Castello Branco – Golbery do Couto e Silva. O retorno do Golbery ao Governo, aquele homem que conheci coronel no QG da ID 4 – Infantaria Divisionária da 4ª. DI -, ‘exilado’ do Rio de Janeiro e aceito pelo meu pai em Belo Horizonte. A sua ‘expulsão’ do Rio de Janeiro teve como causa o episódio do discurso do Coronel Bizarria Mamede, discurso que teve uma repercussão enorme, no enterro do General Canrobert Pereira da Costa, Presidente do Clube Militar” (Coronel Henrique Carlos Guedes, Tomo 3, pg. 267).

“Em vez de realizar um trabalho de peso para que a democracia fosse reforçada nas universidades, fortalecendo a cátedra democrática, procurando penetrar nos diretórios estudantis – todos comandados por comunistas -, dificultando, de forma inteligente, a ação livre do MCI no ensino superior, o ‘intelectual’ fez ao contrário, tornou a universidade uma ‘área liberada’ de todas as correntes comunistas – marxistas, trotskistas, maoístas. Médicos, engenheiros, professores, advogados, jornalistas etc. nas universidades do Governo, foram formados por professores quase todos marxistas. E, ainda, inventaram a profissão de sociólogo. O que faz um sociólogo? Tudo é um artifício para difundir o marxismo, abertamente, e com o aval de serem diplomados” (Coronel Henrique Carlos Guedes, Tomo 3, pg. 269-270).

“Alguns elementos, principalmente da mídia, procuram caracterizá-lo [Presidente Médici] como um ditador impiedoso, carrasco, torturador. Muito ao contrário, era um homem afável, de boníssimo coração e que prestou inestimável serviço ao País. Sua popularidade era tão grande que um fato ocorrido com ele jamais aconteceu com outra autoridade no Brasil. Ao assistir a um jogo de futebol entre o Vasco e o Flamengo, no Rio de Janeiro, por dificuldades de trânsito, chegou uns dez minutos depois de iniciado o jogo. Quando entrou no estádio, na Tribuna de Honra, ao anunciarem o seu nome, todo o estádio se levantou e, de pé, o aplaudiu entusiasticamente” (General-de-Brigada Luciano Salgado Campos, Tomo 4, pg. 76).

“Devíamos ter entregue [o Poder] em 1974. Deram-se mais cinco anos e depois mais seis. Estou convencido de que a conjuntura internacional, então, já era completamente diferente e, digamos assim, o regime militar, o regime autoritário, caiu de moda. Caiu de moda na verdade. Foi um instrumento importante, mas produziu um cansaço. Não tinha mais condição daquilo funcionar, principalmente depois da crise mundial de 1982. Essa crise, digo e repito, já disse aqui, foi de tal profundidade que se permitiu dizer o seguinte: os ‘marqueteiros’, os manipuladores de opinião, conseguiram convencer o Brasil de que a crise era brasileira, de que a crise era do Governo brasileiro. Quer dizer, quem levou o mundo ao default foi o Brasil, falso absolutamente. O Brasil foi arrastado no default, mas a crise era mundial. Eu digo, os Estados Unidos tiveram uma recessão poderosíssima porque, veja, a taxa de juros americana era de 21%. Se falar isso para alguém hoje...

As pessoas pensam que foi o Gorbatchov que acabou com a União Soviética. Nada. Quem acabou com ela foi a recessão de 1982. Em 1982 ficou claro: quebrou a Polônia, quebrou a Romênia, quebrou a Bulgária, quebrou a União Soviética. Quer dizer, depois daquilo, a URSS era uma máquina faltando engrenagem. O Gorbatchov só veio para completar. Quem acabou com o mundo chamado comunista foi a recessão capitalista de 1982, que desintegrou tudo aquilo. Uma das coisas mais fantásticas é você ver a esquerda – claro que há exceções – na média, é de uma ignorância monumental. O susto com a esquerda não é o seu programa, é a ignorância com que eles pensam que vão implementar o programa. Então o que acontecia? As pessoas criticavam o Brasil: ‘vocês viram? Estão se endividando’.

O caso brasileiro era uma coisa... Em 1974, o Brasil tinha 12 bilhões de dólares de dívida, tinha reserva de 6 bilhões e exportava 6 bilhões, ou seja, a dívida era um ano de exportação. Hoje, a dívida é quatro anos de exportação, cinco anos – já foi até mais. Mas, os países da União Soviética, que usavam a Rússia como paradigma, estavam se endividando ainda mais e eles não tinham conhecimento disso. É uma coisa deliciosa ler, hoje, os documentos que escreveram naqueles anos, porque mostra que eles não tinham o menor conhecimento do que estava se passando e, na verdade, foram adquirindo esse conhecimento ao longo desses anos” (Deputado Federal Antônio Delfim Neto, Tomo 5, pg. 163).

“O desengajamento foi lento e gradual, conforme queriam os teóricos Jda Revolução. Pena que as transformações necessárias no campo político não chegaram a realizar-se. As cassações foram casuísticas e os políticos que apoiavam a Revolução, na sua maioria, eram fisiológicos e aproveitadores das vantagens de estarem próximos do Poder. Infelizmente, os governos que se seguiram ao ciclo revolucionário caracterizaram-se pela incompetência, despreparo e corrupção. Isto era mais ou menos previsível mas não se esperava esta desqualificação nos níveis apresentados. Não concordo com alguns chefes militares entrevistados na pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas, que consideram que a Revolução deveria ter acabado antes. Nem aceito o continuísmo daqueles radicais que pretendiam o regime autoritário para sempre” (General-de-Divisão João Carlos Rotta, Tomo 8, pg. 152).

“Progressivamente, houve o fechamento do Poder, promovido por aqueles grupos quem não interessava qualquer mudança que comprometesse seus privilégios.

Reagiram contra a abertura aqueles que desfrutavam de vantagens, facilitadas pela grande latitude atribuída ao exercício do Poder, às vezes sem freios, contenções e limites. Para defender seus interesse se fecharam em torno do Presidente Médici, sem admitir abertura. Para se ter uma ideia, durante o Governo Figueiredo, já sem a égide do AI-5, eu, um simples General, conversando com um Secretário de Estado da Bahia, na Ilha de Itaparica, ouvi da parte dele:

- Vocês não podem abrir, não podem entregar o Poder. Vocês têm é que fechar, senão perderemos tudo o que foi conquistado.

Quanto mais se fecha, mais difícil fica para se promover uma abertura no sentido da institucionalização democrática. O Presidente Médici não teve a felicidade de fazer o que ele poderia ter feito e, lamentavelmente, é estigmatizado – há uma distorção da sua imagem – só porque teve sucesso no combate ao terrorismo” (General-de-Brigada Egêo Corrêa de Oliveira Freitas, Tomo 8, pg. 227).

 

O Alto Comando do Exército queria o afastamento do Presidente Geisel. Mas, foi afastado o Ministro do Exército, Sylvio Frota.

“Ainda em 1975, ocorreu um fato de maior gravidade: o discurso ofensivo ao Exército feito pelo Senador Francisco Leite Chaves, por ocasião da morte do jornalista Vladimir Herzog. Ele gerou grande crise entre o Alto Comando do Exército e a Presidência da República. Três ou quatro meses depois, já em 1976, novo desencontro, com as proporções de uma crise ainda maior, ocorreu com a exoneração do Comandante do II Exército, General Ednardo D’Ávila Mello. Em ambas as ocasiões, o Ministro teve uma atitude firme de lealdade ao Presidente, já que o pensamento da maioria do Alto Comando do Exército, onde predominava a corrente revolucionária, era de que o Presidente Ernesto Geisel fosse afastado. Mau pai, como Ministro, não concordou com isto, embora divergisse da posição do Presidente.

No ano de 1977, surgiu o episódio do ‘Pacote de Abril’, quando Geisel iludiu seu ministério, inclusive seu Ministro do Exército. Houve, também, a tentativa de mudança das Diretrizes de Segurança Interna, procurando-se, dessa forma, neutralizar o sistema de repressão. Meu pai, novamente, conseguiu que seu pensamento prevalecesse, mas às custas de outro atrito. Houve também vários problemas relacionados com as promoções de oficiais-generais, em que era visível a tentativa do Presidente Geisel de afastar os homens simpáticos à linha revolucionária.

(...)

Esses eventos, ao chegar o ano de 1977, foram evidenciando o choque entre a corrente revolucionária, defendida por meu pai e outros companheiros, e a dos homens do Palácio do Planalto. Alguns desses eventos geraram atritos pessoais e, a partir do problema da Ordem-do-Dia de 25 de agosto de 1977, meu pai estava convencido de que a permanência dele no Governo não seria longa. Ele continuava pensando que o Alto Comando do Exército, assim como os das demais Forças, deveria sempre dar a palavra final sobre os rumos da Revolução e não que estes fossem determinados pela vontade de um único homem, que, naquele momento, não estava integrado ao pensamento revolucionário.

Em que data o Ministro Sylvio Frota foi demitido? [entrevistador]

Foi demitido em 12 de outubro de 1977.

(...)

Aliás, a respeito da saída do Generall Golbery existe um fato interessante. Meu pai, nos idos de 1981, recebeu em sua residência a visita de um industrial, amigo comum dele e do Ministro de Estado Armando Falcão, que frequentava constantemente a casa do ex-Presidente Ernesto Geisel. Esse senhor narrou o que o Ministro Falcão lhe dissera ter ouvido, quando o ex-Presidente comentou a saída do Ministro Golbery do Governo, com a seguinte frase: ‘O Frota tinha razão, o Figueiredo não vale nada!’ Creio que o Presidente Geisel percebeu tarde o erro que havia cometido” (Contra-Almirante Luiz Pragana da Frota, Tomo 14, pg. 178-182).

 

Governo Figueiredo, um desastre no processo sucessório

“Figueiredo foi escolhido para dar prosseguimento à ‘abertura’. Aparentemente, não foi bem sucedido. Seu governo foi marcado pela exacerbação da opinião pública, pela campanha das ‘diretas já’, pela ação de terroristas de direita, pelo descontrole da dívida externa e pela sua inapetência por governar. Destacou-se, sobretudo, pela incompetência para conduzir o processo sucessório. Figueiredo, direto e franco na aparência, não conseguia passar essa imagem para o seu governo. Abatido pela crise de saúde, mostrava-se oblíquo e dissimulado, não encarava de frente os reais problemas. Dizia-se que ele perdera a vontade de governar” (Coronel José Firmino Dias Lopes, Tomo 12, pg. 202).

“O General Figueiredo e seu grupo mais importante de assessores desejavam o Poder, não só pela satisfação de vaidades pessoais, mas também para desfrutar de suas benesses. O Governo Figueiredo foi um completo fracasso, marcado pela corrupção, repleto de escândalos, inflação alta, dívida externa crescente e avanço da subversão marxista em todo o País. Seu mandato eu os argumentos aos comunistas para denegrir a Revolução, tal o seu descalabro, embora o seu Governo nada mais tivesse a ver com o Movimento. Era apenas um grupo de aproveitadores e interesseiros que se utilizaram do sistema revolucionário para chegarem ao Poder e desfrutá-lo” (Contra-Almirante Luiz Pragana da Frota, Tomo 14, pgl 181-182).


O Caso Riocentro - 30 de abril de 1981

“Fui ouvido num inquérito este ano [2000] sobre o Riocentro. Quero dar o testemunho, que fique gravado isso aqui, que foi a verdade. O [Caso] Riocentro ocorreu em 30 de abril, na véspera do feriado de 1º. de maio. Toda noite de 30 de abril para 1º. de maio havia um show no Riocentro em que a ideia era colher recursos para o Partido Comunista Brasileiro, e a nossa gente gostava, desculpe o termo, de ‘sacanear’ o pessoal do PCB.

Em 1980, eu já era o segundo homem da estrutura do DOI. Dois anos antes, já não mais prendíamos, apenas atuávamos colhendo informações, encaminhando-as. Naquela época, recebi uma proposta de algumas pessoas para jogar uma bomba no Riocentro. Essa bomba era para estourar na caixa de força, com a finalidade de apagar a luz e o show parar. Não era para ser jogada nem lá dentro do Riocentro nem era para matar ninguém. A ideia era acabar com o show do PCB por falta de energia. Discordei daquilo, não gostei da proposta, por achar que era completamente extemporâneo, não tendo mais nada a ver com o clima em que vivíamos naquela época. E proibi a ação; isso foi em abril de 1980 – proibi a ação e ela não foi feita.

Em janeiro de 1981, fui cursar a ECEME, pois tinha ingresso garantido, porque havia conseguido o segundo lugar na EsAO. Logicamente, acredito, é uma suposição, uma especulação, que o que ocorreu lá no Rio Centro tenha sido, talvez, a mesma proposta de jogar uma bomba na caixa de força para acabar a luz. Aquilo que proibi antes, alguém autorizou depois e ocorreu aquele triste episódio do Riocentro no qual morreu um sargento do Exército [Guilherme Pereira do Rosário] e ficou ferido um capitão [Wilson Luís Chaves Machado].

Prestei este testemunho no inquérito que foi feito pelo General Sérgio Conforto, da minha turma, meu amigo. Disse exatamente isso nesse inquérito que estou agora repetindo” (Coronel Romeu Antonio Ferreira, Tomo 9, pg. 358-359).

“O episódio do Riocentro afetou o General Figueiredo? Atrapalhou a condução do Governo, que estava na fase de instalação da ‘abertura’? [entrevistador]

Nem um pouquinho. Em minha posição, no meu cargo, do lado de dentro do Governo, acompanhava e sentia tudo. Penso que exageraram um pouco, porque sempre fica no ar um vago receio, uma coisa indefinida... Mas, absolutamente, o Governo não balançou, nem um pouquinho, até porque já sabíamos do fato muitos meses antes, um mês e meio antes, mais ou menos. Tratava-se de um oficial do Destacamento de Operações de Informações (DOI), vinculado ao Centro de Operações de Defesa Interna (CODI), no Rio de Janeiro, e de um sargento, auxiliar dele naquela organização. Mais um personagem, um carpinteiro, filho de Minas Gerais, que fabricava bombas.

Bem, outro oficial, que morreu, infelizmente, sujeito formidável, contou para o Chefe da Agência Central que havia isso assim, assim... com o propósito de tumultuar uma reunião que seria realizada no Riocentro. O General Newton Cruz relatou-me o que ouvira e disse: ‘Olha, você fique tranquilo, não precisa nem falar com o Presidente, porque vamos atuar em cima desses dois e impedi-los de agir.’ Poucos dias depois, o Newton voltou a mim e informou: ‘Olha, aquele problema do Riocentro já está resolvido e os rapazes prometeram que não vão fazer nada.’ Respondi: ‘Está bem, vamos esperar. Você acha que a gente pode confiar?’ Newton disse: ‘Penso que sim, porque o oficial que trabalhou a cabeça deles e falou comigo é de toda confiança.’ De qualquer maneira, contei para o João Figueiredo. Informei, ainda, ao Venturini, bem como ao Ministro da Aeronáutica, meu amigo (Briadeiro Délio Jardim de Matos). Pedi que mantivessem sigilo.

Entretanto, mesmo com as recomendações, o Capitão resolveu fazer a besteira. O Sargento apanhou a bomba que o carpinteiro havia preparado, colocou no carro e o grupo dirigiu-se ao Riocentro. Deixaram o carro no estacionamento principal, depois saíram, foram explorar o local onde iriam colocar a bomba, mas resolveram voltar para casa.

Sem fazer nada? [entrevistador]

Sem fazer nada. Mas, nesse abrir de porta e sentar, o artefato explodiu.

A ideia deles seria perturbar a ‘abertura’? [ entrevistador]

Tumultuar a festa que se realizava no Riocentro. Não visava a ‘abertura’.

Agora o interessante, General, é que uma intenção primária dessas gerou tamanha repercussão. [entrevistador]

Ah, o Riocentro estava lotado! No auge da anistia, todos queriam participar da maneira que pudessem: ‘Agora vamos fazer o que queremos e ninguém vai nos prender’.

E o Presidente Figueiredo? Ficou surpreso? No dia em que o senhor falou sobre a ideia maluca, ele ficou tranquilo? O Presidente se sentiu traído? [entrevistador]

Sentiu-se; as consequências foram imediatas: acabou tirando o Newton Cruz da Agência Central, e aprovou o nome de outro oficial que eu apresentei. No entanto, permaneceu um ambiente irrespirável, desagradável. Não precisava acontecer. No final, o petardo explodiu e matou um sargento, à toa” (General-de-Exército Octávio Aguiar de Medeiros, Tomo 15, pg. 55-56).

Obs.

Estranho foi a Agência Central não ter feito nada para impedir as ações do Capitão Wilson Luís Chaves Machado e do Sargento Guilherme Pereira do Rosário, já que sabia que poderiam colocar uma bomba no Riocentro, na noite de 30 de abril de 1981, véspera do feriado do Dia do Trabalho. No mínimo, deveria tê-los colocado sob rigorosa vigilância, ou melhor, tê-los mantido no quartel ou em casa, à força.

Antes do Caso Riocentro, nos anos de 1980 e 1981, durante 16 meses, houve cerca de 40 atentados contra bancas de jornais e órgãos que faziam oposição ao governo Figueiredo, com muitos feridos e pelo menos uma morte, a da secretária da OAB-RJ, Lyda Monteiro da Silva, ocorrida em 27 de agosto de 1980. Nenhum desses atentados foi elucidado. Leia o livro de Dickson Melges Grael sobre o assunto, “Aventura, Corrupção e Terrorismo – À Sombra da Impunidade” (2ª. edição), Editora Vozes, Petrópolis, 1985.

O Coronel Dickson Grael é pai dos Grael (Lars, Torben e Axel) e avô de Martine Grael, todos velejadores náuticos.

Os “duros” do governo Figueiredo não queriam que os militares “desmontassem do tigre”...

Sobre o Caso Riocentro e os 40 atentados, leia texto de minha autoria em - http://wikiterrorismobrasil.blogspot.com/2014/07/caso-riocentro-33-anos-depois.html.

F. M.

 

Médici, um exemplo de cidadão e de militar

“Sempre cito um fato, para comparar o que hoje existe por aí: certa vez, necessitávamos de aumentar o preço da carne, que estava congelado. (...) Pois bem, havíamos congelado o preço da carne, devido a uma dificuldade de suprimento, ‘bateu no teto’ e tivemos que pedir para mexer no preço da carne. O Presidente ficou um pouco triste, mas disse: ‘vou decidir isso daqui a uns dias, não quero tomar decisão agora’. Dois dias depois me telefonou o Dr. Leitão e falou: ‘o Presidente autorizou você a liberar o preço da carne’. Aí, fiquei curioso para saber o que tinha havido e o Leitão me disse que ele mandara vender os bois que tinha para não se aproveitar do aumento do preço da carne. Isso devia servir de exemplo” (Deputado Federal Antônio Delfim Neto, Tomo 5, pg. 158-159).

“Realmente, a crítica mordaz e injusta dos contrários está sempre presente. Mas eu pergunto: ‘Por que um presidente que assumiu contra a sua própria vontade, que reduziu em quase dois anos seu mandato e que não admitia que se falasse em continuísmo, ia precisar de uma máquina para exaltar sua pessoa? Será que um presidente com essas características precisaria de um Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) de Getúlio Vargas para segurá-lo  no poder por 15 anos?’ ” (Engenheiro Roberto Nogueira Médici, Tomo 14, pg. 193).

 

“Em tempos de guerra, não existe imprensa livre”

“No governo de meu pai [Presidente Médici], havia uma guerra a ser vencida e, em tempos de guerra, não existe imprensa livre. Não existe nação, por mais democrática que seja, que não imponha censura à imprensa em tempo de guerra.

A relativa liberdade que os americanos deram à mídia, durante a guerra do Vietnam, foi, em grande parte, responsável pela derrota que amargaram. Já na Guerra do Golfo, nada, nenhuma notícia, fugia do controle militar” (Engenheiro Roberto Nogueira Médici, Tomo 14, pg. 196).

 

Médici converteu, pelo menos, um comunista...

“No Governo Emílio Garrastazu Médici, a presença do Presidente na televisão era como um calmante: de fala pausada, sincero, honesto, correto. Quero contar um fato, breve. Na época, como diretor do Departamento de Obras da Universidade Federal do Ceará, eu estava com um projeto de expansão do campus universitário e viajava sempre a Brasília. Numa das viagens, a meu lado, no avião, um jovem de aproximadamente 20 anos foi logo puxando conversa, dizendo que era estudante, líder estudantil, comunista convicto. Mas, ao ver e ouvir o Presidente Médici na televisão, acreditou nele e mudou radicalmente de convicção política” (Major Geraldo Nogueira Diógenes, tomo 12, pg. 231).

“O Presidente Médici tornou-se simpático, também, ao poro, pelo hábito de assistir aos jogos ouvindo o radinho de pilha. Porém, a guerrilha e a perturbação da ordem levaram-no a agir com máo-de-ferro, razão por que o pessoal da esquerda chama o seu período de governo dos ‘anos de chumbo’. Para mim, ‘anos de ouro’, anos do milagre brasileiro. E se os terroristas sofreram, foram perseguidos, os cidadãos comuns, todos aqueles que trabalhavam pela grandeza, pelo crescimento do País, experimentaram um período de prosperidade” (Tenente-Coronel Affonso Taboza Pereira, Tomo 12, pg. 222).

“Certa vez, quando acompanhei o Presidente Médici e o General Sardenberg ao Maracanã, em dia de jogo, pude ver oitenta mil pessoas, de pé, o estádio inteiro, aplaudindo o Presidente. Hoje, onde se poderia ver algo parecido? Atualmente, se o Presidente da República for anunciado no Maracanã, certamente será vaiado. É uma prova, quer queiram quer não, da popularidade do Presidente Médici” (General-de-Brigada Flávio Oscar Maurer, Tomo 8, pg. 312).

Obs.

Palavras proféticas: em 2007, o Presidente Lula da Silva foi vaiado durante a abertura dos Jogos Pan-americanos, no Maracanã – cfr. em https://oglobo.globo.com/esportes/lula-vaiado-quatro-vezes-nao-faz-abertura-do-pan-4171774.

A Presidente Dilma também foi vaiada, durante a abertura da Copa das Confederações, no Mané Garrincha, em Brasília, em 2013 – cfr. https://oglobo.globo.com/brasil/dilma-vaiada-na-abertura-da-copa-das-confederacoes-8701173.

F. M.


P.S.

E-mail recebido do Prof. de Economia Ricardo Bergamini em 28/08/2020 07:24 ricardobergamini@ricardobergamini.com.br

Inflação e juros são iguais a afogamento: seja uma profundidade de 2 metros, ou de 100 metros, ambas matam (Ricardo Bergamini).

 

Diferença entre juros SELIC e juros de longo prazo

Ricardo Bergamini

Ano

Dívida R$ Bilhões

PIB R$ Bilhões

% do PIB

Custo da Dívida- % ao ano

2011

2.600,7

4.376,4

59,44

12,83

2012

2.887,4

4.814,8

59,97

11,55

2013

3.059,6

5.331,6

57,39

11,32

2014

3.392,8

5.778,9

58,71

11,84

2015

4.055,7

5.995,8

67,64

16,07

2016

4.635,7

6.269,3

73,94

12,02

2017

5.218,8

6.583,3

79,27

10,29

2018

5.671,4

6.889,2

82,32

9,86

2019

6.137,6

7.256,9

84,58

8,71

Jun2020

6.321,2

7.193,9

87,87

9,04

 

Tendo em vista a proliferação de vigaristas, pilantras e vagabundos reinante no Brasil, sempre tentando esconder a verdade do nosso estado de putrefação econômica, creio ter chegado a hora de alertar aos meus leitores como funciona a politica de juros.

Existe a taxa de juros SELIC divulgada periodicamente pelo Banco Central, destinada às operações de mercado de curto prazo, ou seja: é uma taxa de referência para um dia, que em junho de 2020 estava em 3% ao ano.

A outra taxa de juros é a de longo prazo negociada, pelo Banco Central, com grandes investidores, que nos doze meses até junho de 2020 foi de 9,04% ao ano. Sendo de 7,52% ao ano para a dívida interna em poder do mercado, e 47,94% ao ano para a dívida externa (influenciada pela apreciação do dólar, em relação ao real).

Cuidado com os vigaristas e pilantras de plantões tentando provar que o Brasil não é um “Conjunto Vazio”, que acredita ser o “Centro do Universo”.

Vou passar a divulgar a taxa de juros de longo prazo mensalmente, acreditando que um dia os brasileiros vão dar mais importância para o Brasil, do que para os vigaristas de plantões.

 

Fonte - ME

Base: Junho de 2020



2 comentários:

  1. Citando Miguel de Cervantes Saavedra, o maior escritor da língua castelhana que por suas obras eleva-se a categoria de um dos maiores escritores mundiais de todos os tempos: "Os historiadores devem ser precisos, verídicos e totalmente imparciais; nem o interesse, o medo, o ódio ou a afeição poderá afastá-los da senda da verdade, da qual a história é a mãe, a conservadora das grandes ações, o testemunho do passado, o exemplo, o ensinamento para o presente e a advertência para o futuro."
    Trabalho digno e honrado de um verdadeiro historiador. Parabéns.
    Carlos A. C. Lima

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    1. Obrigado, Sr. Carlos A. C. Lima, pela palavras de incentivo.

      "Sine ira et studio" (Sem ódio e sem preconceito") - dizia o historiador Tácito. É assim que deveria ser escrito a História.

      F. Maier

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