Quando
o brasileiro imagina que já viu de tudo na administração pública, sempre
aparece uma novidade capaz de restaurar sua fé na inesgotável criatividade
nacional. Houve ministério para isso, secretaria para aquilo, comitê para
discutir o outro e grupo de trabalho destinado a avaliar a necessidade de criar
mais um grupo de trabalho. Era apenas uma questão de tempo até que algum
iluminado resolvesse explorar o último recurso energético verdadeiramente
renovável do planeta: o pum.
Segundo
notícia absolutamente confiável — afinal, saiu no Sensacionalista, que
às vezes parece mais profético do que muito analista político — o governo da Estocadora
de Vento estudava a criação do Ministério da Flatulência. Apertem o nariz! A
ideia era simples e genial: transformar aquilo que durante séculos foi motivo
de constrangimento em fonte de riqueza nacional. Finalmente o Brasil pisaria
firme na economia dos gases.
Faz sentido. Com a população envelhecendo rapidamente no Brasil, nada mais certo do que captar as flatulências dos velhinhos, de modo que seja aumentado o estoque de vento malcheiroso - o pum -, mas de grande utilidade energética. E a gente que ria do discurso feito por Dilma Rousseff na ONU, que vergonha...
De
acordo com um paper publicado em afamadas revistas científicas
sobre a Química do
Peido, o fedor do peido tem origem na presença de gás sulfídrico (H2S),
metanotiol (H3C-S-H), dimetil sulfeto (H3C-S-CH3) e mercaptanas na
mistura. Estes compostos contêm enxofre em sua composição. A proporção dos
compostos fedorentos representa algo como 1% do total.
Para
implantar a nova fonte energética, será realizada licitação nacional, para
escolha da firma que obtiver a melhor solução pumista, dentro do princípio de
melhor custo-benefício aos consumidores. Nada de estatal de pum público, como a
PumBrás, já que o pum é, antes de tudo, um produto privado. Por isso, serão
bem-vindas as empresas campeãs nacionais da Lava Jato, como a Odebrecht, JBS,
OAS, EBX, Camargo Correa, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão e demais clientes
do STF e do juiz Sergio Moro.
Feita
a licitação, serão criados centros de estoque de vento nos principais parques e
praças das cidades, de modo que os portadores da melhor idade da artrose e
outros ganhos escleróticos possam canalizar os gases noturnos/matutinos antes
de bailarem naqueles aparelhos de metal instalados nas praças e parques. Claro,
serão construídas cabines individuais, para a coleta do vento malcheiroso.
Ninguém iria querer ver as bundas caídas dos velhinhos nas praças, exceto a
arte Queer, que gostaria de levar algumas bundas para um museu, de modo que
fossem apalpadas por crianças.
As
centrais de estoque de vento malcheiroso terão medidores, em g ou kg, da
quantidade de gás emitida e estocada pelo dono da flatulência. Ao mesmo tempo,
após a descarga final de vento, o medidor emitirá um tim-tim, alertando no
painel quanto de dinheiro o dono da flatulência emitida terá transferido para
sua conta-corrente. É óbvio que o vazador de vento malcheiroso deverá fazer
primeiro o cadastro junto ao site do Ministério da Flatulência, de modo a fazer
jus ao dinheiro recebido.
Serão
acrescentadas moléculas de cebola, couve-flor e ovos, de modo que o gás de pum
fique ainda mais fedido e facilmente identificado durante o uso, assim como é
acrescentado o Mercaptan (à base de enxofre) ao gás liquefeito de petróleo
(GLP), para evitar acidentes, já que o GLP é inodoro. Afinal, existe pum que
não fede. Como identificar, assim, um vazamento na cozinha?
Haverá
também coletores individuais de gás pum, que podem ser guardados nos banheiros
das casas. Segurar um pum no elevador é fácil, mas guardá-lo a noite inteira é
impossível. Depois é só levar a coleta gasosa para um centro de estoque de
vento, onde será pesado e vendido.
Não
são apenas os velhinhos (em bom Português, não é preciso dizer que aí estão
incluídas também as velhinhas) que estão sujeitos à flatulência. Muitos jovens,
especialmente os balofos, são fábricas possantes de vento malcheiroso e também
podem contribuir com o aumento do estoque desse combustível gasoso.
Caminhões-tanque
recolherão o vento malcheiroso dos centros de estoque de flatulência, levando
para firmas credenciadas, que farão a distribuição do gás de trás aos
consumidores, seja em botijões, seja em sistemas de canalização do condomínio
ou da cidade.
Os
ambientalistas – especialmente os vegetarianos comedores de capim – já
demonizaram a vaca que emite pum, afirmando que o gás metano desses
animais é mais nocivo do que o gás carbônico emitido pelos carros, no
agravamento do efeito estufa. Antes que o rebanho bovino, caprino, asinino,
ovino e demais bichos fazedores de pum menos famosos sejam exterminados, eu
sugiro que as fazendas também tirem o pum das vacas, ao mesmo tempo em que
tiram o leite.
Por fim, haverá uma luta renhida pela disputa dos direitos autorais da máquina de coletar pum. O Sensacionalista afirma que esse direito deve ser dado a Dilma Rousseff, no que eu concordo plenamente. Sem aquele discurso na ONU, o Brasil não seria pioneiro no setor, com possibilidade de ganhar milhões de dólares em royalties nacionais e internacionais.
Durante
décadas discutiram-se petróleo, etanol, biodiesel, energia solar, eólica,
nuclear e, mais recentemente, hidrogênio verde. Ninguém, porém, teve a coragem
científica de olhar para trás — literalmente — e perceber que cada brasileiro é
uma pequena refinaria ambulante. O país sempre desperdiçou um patrimônio
invisível, lançando irresponsavelmente na atmosfera bilhões de metros cúbicos
de vento biológico, sem qualquer compensação financeira aos seus legítimos
produtores. Parece exagero? Façamos as contas. Se cada cidadão produzisse
apenas uma modesta quantidade diária de flatulências, multiplicada pelos mais
de duzentos milhões de habitantes, estaríamos diante de um potencial energético
capaz de despertar a inveja dos grandes produtores de gás natural. Seríamos a primeira
potência mundial em gás sonoro. Não por acaso, economistas já discutiriam a
criação de um novo indicador econômico: o PIB — Produto Interno Bufado.
Naturalmente,
uma inovação dessa envergadura exigiria uma máquina burocrática à altura. O
Ministério da Flatulência seria dividido em diversas secretarias
especializadas: a Secretaria Nacional dos Gases Nobres — embora nenhum deles
seja propriamente nobre —, a Diretoria de Emissões Espontâneas, o Departamento
de Controle das Escapadas Acidentais, a Agência Nacional do Pum (ANP),
encarregada de fiscalizar a qualidade aromática do produto, além de uma
rigorosa Corregedoria para investigar desvios de vento. Afinal, nenhum
ministério brasileiro sobrevive sem uma boa dose de papelório.
O cidadão interessado em comercializar sua produção gasosa precisaria preencher o Cadastro Nacional de Emissores Gasosos (CNEG), informando sua média diária de emissões, hábitos alimentares e o consumo semanal de feijoada, repolho, couve-flor, ovos, batata-doce, pinhão, cerveja e demais aceleradores da economia flatulatória. Depois da análise técnica, receberia sua Carteira Nacional de Flatulente Produtivo (CNFP), devidamente fotografada e plastificada, com validade de cinco anos ou até a primeira cirurgia bariátrica, o que ocorresse antes.
A
regulamentação também distinguiria os diversos tipos de produto. Especialistas
da prestigiosa Universidade Federal do Arroto Aplicado explicariam que nem todo
pum possui o mesmo valor energético. Existe o pum gourmet e o popular; o
silencioso, considerado de alto risco operacional; o sonoro, que funciona como
aviso prévio à população; e aquele cuja potência aromática é suficiente para
dissolver qualquer fila de banco em menos de quarenta segundos. A classificação
seguiria rigorosamente os padrões internacionais ISO-PUM 9001: Categoria A,
discreto; Categoria B, persistente; Categoria C, devastador; e Categoria D,
arma química doméstica.
A
parte científica do projeto também seria digna de nota. Os químicos lembrariam
que o odor característico resulta da presença de compostos sulfurados em
pequenas concentrações, suficientes, entretanto, para transformar um ambiente
familiar em zona de evacuação imediata. Alguns engenheiros chegaram a propor a
adição de aromatizantes ao combustível coletado, nos mesmos moldes do
mercaptano utilizado no GLP, para facilitar a identificação de vazamentos. A
proposta foi rejeitada por unanimidade. Concluiu-se que o produto nacional já
possui identidade olfativa perfeitamente consolidada.
Para
incentivar a produção, todas as cidades brasileiras ganhariam Centrais
Integradas de Armazenamento Flatulatório. Em cada praça pública seriam
instaladas elegantes cabines individuais, dotadas de isolamento acústico,
ventilação controlada, assento ergonômico, leitor biométrico, internet sem fio
e música ambiente. Enquanto o cidadão prestasse sua patriótica contribuição
gasosa à matriz energética nacional, um painel eletrônico exibiria mensagens de
incentivo: Obrigado por investir no futuro energético do Brasil; Mais
um metro cúbico e o senhor alcança a categoria Ouro; ou ainda: Parabéns!
O senhor acaba de superar a média municipal. Concluída a operação, um
discreto tim-tim informaria que o Pix correspondente acabara de ser
depositado em sua conta bancária. Nunca foi tão fácil transformar vento em
dinheiro.
A
Receita Federal, naturalmente, não deixaria escapar tamanha oportunidade
arrecadatória. Toda emissão acima do limite anual passaria a integrar a
declaração do Imposto de Renda. Os maiores produtores recolheriam o Imposto
sobre Grandes Emissões, enquanto consumidores habituais de feijoada fariam jus
a deduções fiscais. O sistema financeiro também não perderia tempo: surgiria o
Crédito Gasoso Consignado, permitindo ao cidadão antecipar sua produção futura
mediante juros módicos. Simultaneamente nasceria a Bolsa Brasileira de
Flatulências, onde corretoras negociariam contratos futuros de pum. Os
analistas da Faria Lima acompanhariam diariamente a volatilidade do mercado
gasoso, comemorando a alta do setor de feijões, a valorização da batata-doce ou
lamentando a queda na produção após os excessos gastronômicos das festas de fim
de ano. Os jornais econômicos estampariam manchetes históricas: Mercado
fecha em alta impulsionado pelo consumo de churrasco no fim de semana.
Os
ambientalistas, pela primeira vez, encontrariam motivo para comemorar. Em vez
de permitir que o metano escapasse inutilmente para a atmosfera, ele seria
capturado, tratado e convertido em energia limpa. Até as vacas passariam a
colaborar com o esforço nacional. Mochilas coletoras seriam discretamente
instaladas nos rebanhos, e os pecuaristas deixariam de selecionar seus animais
apenas pela produção de leite. A produtividade gasosa passaria a integrar os
critérios de melhoramento genético. Nos leilões agropecuários ouvir-se-ia o
leiloeiro anunciar com entusiasmo: Touro premiado! Excelente linhagem!
Produz cinquenta litros de leite e uma quantidade recorde de metano!
O agronegócio reagiria imediatamente ao novo mercado. Nunca houve tanto investimento em repolho, ervilha, lentilha, chucrute, batata-doce e pinhão, de modo a aumentar ainda mais a explosão da flatulência. Cooperativas agrícolas criariam linhas especiais de incentivo à fermentação intestinal, enquanto restaurantes promoveriam o Festival Nacional da Flatulência Sustentável, oferecendo certificado ambiental aos clientes mais produtivos. Paralelamente, a indústria desenvolveria mochilas coletoras portáteis, assentos automotivos com reservatórios, poltronas inteligentes, vasos sanitários equipados com sensores de captura e até elevadores dotados de filtros especiais. A publicidade faria sua parte: Não desperdice riqueza; Seu pum vale dinheiro; Transforme desconforto em investimento.
Os
condomínios disputariam qual edifício alcançaria primeiro a autossuficiência
energética. As assembleias deixariam de discutir infiltrações, pintura da
fachada ou rateio do elevador. A pauta seria outra: produtividade coletiva.
Evidentemente surgiriam fraudes. Sempre surgem. Alguns espertalhões tentariam
importar vento estrangeiro; outros adulterariam a produção utilizando
compressores industriais; haveria até quem contratasse consumidores
profissionais de feijoada para inflar artificialmente seus índices produtivos.
A Polícia Federal responderia à altura, deflagrando a Operação Bufa Limpa.
Peritos passariam dias analisando a composição química dos gases apreendidos,
enquanto os telejornais exibiriam manchetes memoráveis: Quadrilha desviava
metano para países vizinhos; Receita apreende caminhão carregado de pum sem
nota fiscal; Empresa é acusada de vender vento argentino como se fosse produto
nacional.
Nem
o futebol escaparia da febre gasosa. Clubes lançariam o programa Sócio
Flatulente, e os estádios se tornariam energeticamente autossuficientes após
clássicos acompanhados de cachorro-quente, refrigerante e cerveja. Os
narradores esportivos encontrariam um novo bordão: Que explosão de energia
no segundo tempo! Nas escolas, a Semana Nacional da Energia Gasosa
ensinaria às crianças que rir do colega é falta de educação, mas desperdiçar
gás é atentar contra o patrimônio energético nacional. Até a disciplina de
Ciências incluiria aulas práticas cuidadosamente supervisionadas.
No
final das contas, surgiria inevitavelmente uma disputa internacional pelos
direitos autorais da máquina coletora de pum. Inventores apareceriam aos
montes, empresas multinacionais ofereceriam fortunas e o Brasil brigaria para
registrar a tecnologia como patrimônio nacional. Quem diria? Depois de o Brasil
perder tantas patentes ao longo da história (o Rádio com o padre Roberto
Landell de Moura, o Avião com Santos Dumont, a Fotografia com Hercule Florence,
a Máquina de Escrever com o padre Francisco João de Azevedo, o Chuveiro Elétrico
com Francisco Canhos Navarro, o Cartão Telefônico Eletrônico (para orelhão)
com Nelson Guilherme Bardini, o Container Flexível de Carga/Big Bag com Renato
Pavan, o Identificador de Chamadas Telefônicas (BINA) com Nélio José Nicolai, o
Walkman/Stereobelt com Andreas Pavel, o Motor a Álcool com Urbano Ernesto
Stumpf, o Câmbio Automático Moderno com José Braz Araripe e Fernando Lemos),
finalmente lideraríamos a única indústria em que jamais faltou matéria-prima.
Infelizmente, o Ministério da Flatulência nunca saiu do papel. A Estocadora de Vento foi impichada. O Brasil continuou desperdiçando diariamente uma riqueza invisível que se dissolve na atmosfera — nem sempre de forma silenciosa, é verdade. Talvez um dia algum governante visionário descubra que certos projetos, por mais absurdos que pareçam, escondem um extraordinário potencial.
Até lá, bilhões de litros de vento continuarão sendo produzidos gratuitamente pelos brasileiros, sem imposto, sem burocracia e, sobretudo, sem licitação. É uma pena. Pela primeira vez na história nacional, o vento poderia realmente encher os cofres públicos.


MATÉRIA DO CORREIO BRAZILIENSE – O4 Fev 2017 

O PT nunca se posicionou contra as torturas praticadas em países comunistas, como Cuba, porque este país é governado por um sistema totalitário que lhe serve de modelo.