MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

HISTÓRIA ORAL DO EXÉRCITO - 31 DE MARÇO DE 1964 - Parte I

 HISTÓRIA ORAL DO EXÉRCITO

31 DE MARÇO DE 1964

O Movimento Revolucionário e sua História

 15 Tomos

 Biblioteca do Exército Editora, Rio de Janeiro, 2003

 

 

Félix Maier

 Cap QAO Ref do Exército

 

“O Exército nunca foi intruso na História desse País, o Exército sempre foi um instrumento da vontade nacional” (General-de-Exército Leonidas Pires Gonçalves, ex-Ministro do Exército – Tomo 1, pg. 85).

“Estaremos sempre solidários com aqueles que, na hora da agressão e da adversidade, cumpriram o duro dever de se oporem a agitadores e terroristas, de armas na mão, para que a Nação não fosse levada à anarquia” (General-de-Exército Walter Pires de Carvalho e Albuquerque, ex-Ministro do Exército).

A revolução gramsciana está para a revolução leninista assim como a sedução está para o estupro” (Olavo de Carvalho, in “A Nova Era e a Revolução Cultural – Fritjof Capra & Antonio Gramsci”)


APRESENTAÇÃO

A obra, que tem o general Aricildes de Moraes Motta como coordenador geral, é composta de 15 volumes e abrange entrevistas concedidas por 247 personalidades, incluindo principalmente militares do Exército (de general a tenente), almirantes, brigadeiros, deputados, embaixadores, jornalistas, advogados, engenheiros, juízes, desembargadores, que foram testemunhas oculares dos históricos Idos de Março de 1964.

Méritos pelo lançamento da importante obra devem ser creditados ao então Comandante do Exército, Francisco Roberto de Albuquerque, e ao Conselho Editorial da Biblioteca do Exército Editora (Bibliex), tendo o coronel Luiz Paulo Macedo Carvalho como presidente, e seus membros efetivos e beneméritos, como o general Carlos de Meira Mattos, o embaixador Álvaro da Costa Franco Filho, o general Aricildes de Moraes Motta, o general Ulisses Lisboa Perazzo Lannes, o Professor Doutor Arno Wehling e o Professor Doutor Ricardo Vélez Rodríguez (ex-Ministro da Educação do Governo Jair Messias Bolsonaro), dentre outros.

Tomei a iniciativa de fazer um fichamento dos 15 livros, referente aos trechos dos depoimentos que julgo serem os mais importantes, em uma certa ordem cronológica, ao mesmo tempo em que fiz algumas observações e disponibilizei links relativos ao assunto.

Há entrevistas que são verdadeiras pérolas históricas, por apresentarem fatos desconhecidos do público, com riqueza de detalhes. Por outro lado, há entrevistas - poucas - que são lacônicas, quase nada acrescentando a respeito do Movimento Revolucionário de 1964, como é o caso do General-de-Exército Ivan de Souza Mendes, que foi Chefe do SNI durante o Governo de José Sarney. O General-de-Divisão Octávio Pereira da Costa, na entrevista, dá uma aula sobre História do Brasil, desde a Guerra do Paraguai até a campanha presidencial de Tancredo Neves.

Alguns entrevistados falaram a respeito de algo específico, como o coronel Lício Maciel, sobre a Guerrilha do Araguaia; o general Danilo Venturini, sobre o governo Geisel e o programa nuclear brasileiro; o Coronel Pasquali, sobre o Projeto Rondon; o coronel Renato Brilhante Ustra, irmão do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, sobre ordem do Presidente Goulart e ministros para prender e matar Carlos Lacerda; o general Negrão Torres, sobre o “Pentateuco” de Elio Gaspari, 5 livros, com base em material surrupiado pelo general Golbery do Couto e Silva e pelo coronel Heitor de Aquino, em que há muita desinformação e mentira em estado puro – cfr. em https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/05/general-raimundo-negrao-torres-desanca.html.

O General Ibiapina nos informa que Marco Maciel, Vice-Presidente eleito na chapa de Fernando Henrique Cardoso, fez curso de explosivos em Cuba e solicitou uma carteira de “agente” ao General Antônio Bandeira.

Há até o depoimento do ex-deputado federal José Genoino Neto que, sobre os “acertos da Revolução de 1964”, saiu-se com esta pérola: “Acho que o que tem que ser frisado – esse é o destaque que eu faria – é que, nesse período, o Brasil montou uma infraestrutura razoável” (Tomo 5, pg. 174). Quando perguntado se sofreu tortura, disse: “Exatamente dentro da ‘comunidade de informações’, as pessoas eram torturadas, fui torturado. Era uma situação extremamente grave, delicada, na qual o cidadão ficava negociando a vida” (Tomo 5, pg. 179). E nada mais disse, sobre onde foi torturado, quem o torturou, em que circunstâncias; preferiu sair pela tangente, fazendo elucubrações sobre a tortura.

A maioria dos entrevistados respondeu a um questionário-padrão, que englobava as seguintes perguntas:

- O senhor poderia precisar quais foram as raízes do Movimento Revolucionário de 31 de Março de 1964?

- O senhor julga que a guerra fria teve alguma influência na Revolução de 31 de Março?

- Como o senhor situaria o panorama político brasileiro no período anterior ao Movimento de 31 de Março?

- Na sua opinião, a Igreja apoiava ou se opunha ao governo deposto?

- O que se passava no meio militar? Como se encontrava o ambiente nos quartéis, na fase pré-revolucionária?

- Qual a sua avaliação sobre a atuação das “Ligas Camponesas” e dos “Grupos dos Onze”? Esses movimentos poderiam ser entendidos como a progressão de uma revolução esquerdista no Brasil?

- No seu entender, o que se passava no meio militar? Houve tentativa de criar cisões nos quadros das Forças Armadas? Como estava o ambiente nos quartéis, nessa fase pré-revolucionária?

- A seu ver, quais os principais acontecimentos que foram determinantes para o desenvolvimento da Revolução de 31 de Março?

- Qual o real significado das Marchas da Família com Deus pela Liberdade, consideradas pelos opositores, hoje, como um grande movimento reacionário ao status quo implantado por João Goulart?

- Qual a atitude do Congresso Nacional, ao eclodir a Revolução?

- Como se portaram os movimentos sindicais e entidades taxadas de esquerdistas como a UNE, CGT, PUA, logo após o início da Revolução?

- O senhor nomearia os principais líderes civis e militares da Revolução de 31 de Março?

- O movimento foi exclusivamente de preparação interna? Houve alguma intervenção externa, algum auxílio externo?

- Qual o posicionamento dos Estados Unidos com relação ao nosso movimento revolucionário?

- A que o senhor atribui o rápido desmoronamento do tal “esquema militar” que o Jango sempre apregoava ter?

- Qual a sua opinião sobre a participação dos cadetes da AMAN na Revolução, tomando parte ativa no movimento?

- O Movimento trouxe maior união e robusteceu a coesão das Forças Armadas?

- O Movimento de 31 de Março baseou-se em alguma ideologia?

- A mídia, na época, apoiou o Movimento?

- É correto o termo Revolução? Como denominaria o Movimento de 31 de Março de 1964?

- O senhor entende que houve erros na Revolução? Caso positivo, quais foram?

- A mídia desta última década e aqueles que hoje detêm o poder fazem absoluta questão de omitir os acertos da Revolução de 1964. Poderia citar alguns desses acertos?

- Quais foram os objetivos da luta armada, desencadeada no campo e na cidade, e onde buscava orientação e apoio?

- O AI-5 foi necessário?

- E a criação de órgãos de informações, como os DOI, bem como o agravamento da Lei de Segurança Nacional?

- Hoje em dia muito se fala em “ditadura militar”, “anos de chumbo”. O que o senhor pensa a esse respeito?

- Ao tempo dos governos revolucionários, acha o senhor que as Forças Armadas se aproveitaram da situação para auferir qualquer tipo de vantagem?

- Existe o chamado “revanchismo”, por parte de autoridades, da imprensa e outros setores, em relação aos militares? O que o senhor pensa sobre a Lei da Anistia?

- A chamada “batalha da comunicação social” foi perdida pelos militares? Caso positivo, qual a razão?

- Com a queda do Muro de Berlim e o colapso da União Soviética, desapareceu o comunismo?

- A imagem do Exército Brasileiro vem apresentando elevados índices de aceitação junto à sociedade, como atestam numerosas pesquisas de opinião. Como o senhor analisa esse fato?

 

POR AMOR OU POR TEMOR

“Aí retorno ao fenômeno do tenentismo. Desde a Proclamação da República com Deodoro e depois Floriano, houve sempre uma maneira específica de tratar os militares. Denota uma preocupação da liderança política civil em – creio até como uma espécie de defesa – manter o militar padrão Duque de Caxias... O político civil sempre fez uma espécie de restrição as lideranças militares. Aceita a liderança militar porque percebe o pesa da força das armas. É como se ama a Deus, de duas maneiras: pelo amor ou pelo temor.

Os civis temem as Forças Armadas porque sabem que são poderosas. São poderosas quer em termos organizacionais, quer por seus valores morais e espirituais, pouco comuns a inúmeros segmentos da sociedade. Nós, militares, vemos isso com alguma clareza e podemos até ser chamados de sectários, narcisistas, por admitir esse quadro de condutas, por achá-lo bom, porém, os políticos não pensam assim” (Coronel José Roberto Eichler, Tomo 5, pg. 270).

 

PREÂMBULO

A TENTATIVA DE ASSASSINATO DE CARLOS LACERDA

GETÚLIO VARGAS SE SUICIDOU OU FOI ASSASSINADO?

“Havia uma corrupção generalizada no Governo Getúlio Vargas. Era escândalo em cima de escândalo, e quem mais denunciava, com base em documentação farta e raciocínio lógico, era o Carlos Lacerda, através, primeiro, de colunas na Tribuna de Imprensa e no Correio da Manhã, e depois no seu próprio jornal chamado Coluna da Imprensa.

Até que um belo dia nós soubemos lá na Diretoria de Rotas, onde eu trabalhava, no Aeroporto Santos Dumont, que um coronel da FAB (Força Aérea Brasileira) chamado Guilherme Telles Ribeiro estava fazendo uma operação irregular na compra de material para a FAB.

Irritados e envergonhados, denunciamos o fato e demos todos os documentos e comprovantes para o Carlos Lacerda publicar, o que ele fez. Resultado: 15 dias depois, esse Coronel Telles Ribeiro e um capanga entraram no edifício do Lacerda e deram uma surra nele dentro do elevador.

Assim que soubemos na Diretoria de Rotas, eu e os majores ficamos muito revoltados, com um claro sentimento de culpa, porque tínhamos induzido o Lacerda a publicar aquele artigo, aquela denúncia que geraria a agressão.

Reunimo-nos no Aeroporto e resolvemos passar a acompanhá-lo, armados de 45, para defendê-lo com a nossa presença. Daí para frente, começamos a acompanhar o Lacerda.

Todo dia tinha um acompanhante. No dia 4 de agosto de 1954, eu estava escalado, mas na hora do jantar recebi um telefonema do Galeão me convocando para voo do Correio Aéreo Nacional no dia seguinte de madrugada. Como a gente decolava muito cedo, eu não quis fazer o voo cansado, maldormido.

Telefonei para o meu colega Rubens Florentino Vaz para me substituir e ele pegou o serviço no Colégio São José, na Tijuca, onde o Lacerda proferia uma palestra. De lá, passei o bastão para ele às 9h da noite, e ele levou o Lacerda no carro dele até em casa, na Rua Tonelero, 180.

Lá chegando, o Lacerda, que estava com o filho Sérgio, desceu de um lado e o Major Vaz desceu do outro. Ficaram conversando um pouco, depois o Lacerda se afastou pela calçada para entrar. Este fato está descrito com todo o detalhe em meu livro, lançado há pouco, novembro de 2001, com o título ‘Getúlio e o Mar de Lama’, que estou deixando no Projeto História Oral. Ele mostra a verdade sobre 1954 e faz uma análise de todo esse período. De maneira que não vou entrar em muito detalhe, porque já consta aí...

Ficou muito conhecido esse episódio do assassinato do Major Vaz e ocorreu uma coisa que não é ressaltada no livro, que foi a aglutinação das Forças Armadas em torno da FAB para caçar os assassinos do Vaz. Isso foi muito comovente, a FAB ficou extremamente grata. Havia dias, como digo no livro, em que apareciam no Aeroporto Santos Dumont mil oficiais do Exército, fardados, com 45 na cintura, para caçar o bandido Euribes da Silva.

Esse episódio resultou no suicídio de Getúlio – o Getúlio se matou de vergonha. Dizem que foi o Lacerda que derrubou o Getúlio, coisíssima nenhuma, o Getúlio se matou de vergonha. Há uma versão de alguns médicos de que ele foi morto, não foi suicídio, porque existem umas circunstâncias meio esquisitas relacionadas com a sua morte.

Por que é que Getúlio, um homem que sempre gostou de andar bem-apresentado, bem-vestido, iria se suicidar de pijama e chinelo? Essa é a primeira dúvida que aparece. Segunda dúvida: por que a família impediu a realização da autópsia? Isso também é muito estranho, pois seria do interesse deles fazer a autópsia, para constatar se a bala tinha realmente partido do revólver de propriedade de Getúlio. Impediram a autópsia e nunca se soube se a bala era aquela mesma que tinha partido do revólver dele” (Coronel-Aviador Gustavo Eugenio de Oliveira Borges, Tomo 10, pg. 275-276).

 

ANTECEDENTES DO 31 DE MARÇO DE 1964

Muitos dos entrevistados voltam aos tempos da Proclamação da República, golpe desferido pelo Exército contra a Monarquia por militares doutrinados na filosofia do Positivismo de Augusto Comte, lembrando sua ideologia autoritária, que levou a muitas quarteladas durante quase um século, e que, inicialmente, pensavam que o Movimento de 1964 fosse mais uma dessas quarteladas passageiras, logo retornando o poder aos civis.

Outros entrevistados voltam à década de 1920, afirmando ser o Tenentismo (Revolta dos 18 do Forte, Coluna Miguel Costa-Prestes, Revolução de 1930) um dos motivos longínquos que redundou no Movimento de 1964, por ser um movimento político-militar que criticava a corrupção e o atraso sócio-econômico do Brasil, ao mesmo tempo em que pregava um desenvolvimento industrial rápido para o País. Estes analistas afirmam que a força remanescente ou pelo menos o espírito dos “Jovens Turcos” de outrora prevaleceu no sentido de o Movimento de 1964 se prolongar por 21 anos. Ou seja, venceu a turma dos “costistas” (Costa e Silva) – incluindo o presidente Médici, que queria aproveitar o Movimento para desenvolver econômica e socialmente o Brasil - sobre a turma dos “castelistas” (Castello Branco) – esses querendo devolver o poder logo aos civis, após a arrumação da ordem pública.

Diz Geisel no livro “Ernesto Geisel”, publicado pela Editora Fundação Getúlio Vargas, 5ª. Edição, 1998, à pg. 166:

“Lembro-me também de um fato, que nunca vi publicado, ocorrido um ou dois dias depois da revolução: houve uma reunião no gabinete do Costa e Silva e outros generais à qual compareci com Castello. Lá estavam Costa e Silva e outros generais, entre eles Peri Beviláqua, que aderiu à Revolução mas era muito ligado à esquerda. Costa e Silva, falando sobre a revolução, declarou: ‘Nossa revolução não vai se limitar a botar o Jango para fora! Temos que remontar aos ideais das revoluções de 22, de 24 e de 30!’ Ele queria fazer uma revolução mais profunda. Ficaram todos em silêncio”.

“Sobre a Revolução de 31 de Março de 1964, podemos listar causas tanto remotas quanto imediatas. As remotas retrocedem à década de 1920, quando irromperam os primeiros movimentos revolucionários militares, conduzidos por jovens oficiais idealistas, que não se conformavam com a situação de subdesenvolvimento do País. Achavam que o Exército – a maioria era do Exército – deveria fazer algo para mudar aquele panorama, caracterizado pela ‘política do café-com-leite’, que vigorava na época, a qual mantinha no Poder algumas oligarquias que nada faziam para conduzir o País, apesar de toda a sua potencialidade, ao nível de desenvolvimento das grandes nações do mundo, o que aqueles idealistas pretendiam.

Esses movimentos ficaram bem marcados pelo episódio heroico dos ’18 do Forte’, em 1922, tendo à frente o Capitão Siqueira Campos, e depois pela coluna revolucionária que percorreu o País, entre 1924 e 1926, erroneamente chamada de Coluna Prestes, pois ele era apenas um dos seus integrantes. Esses movimentos acabaram redundando na Revolução de 1930, cujos participantes acreditavam que iria redimir o País dos seus problemas.

Foi justamente nessa época, em que predominava tal pensamento em grande parte da oficialidade do Exército, sobretudo entre os oficiais jovens, que ingressou nas Forças Armadas a maior parte dos homens que fizeram a Revolução de 1964.

Então, imbuídos dos mesmos ideais daqueles jovens de 1922 – reformar o Brasil, alçá-lo rapidamente a uma posição de relevo mundial, acabar com o subdesenvolvimento – criou-se entre os oficiais do Exército uma corrente que pretendia lutar para alcançá-los. Dela originou-se o movimento de deposição de Getúlio Vargas e, depois, no segundo mandato de Getúlio, o movimento da Cruzada Democrática contra os comunistas, o Memorial dos Coronéis e o inquérito do Galeão, este determinante da queda e do suicídio do Presidente Vargas.

Essa corrente, que em 1930 imaginou poder atingir seus objetivos, foi traída por Getúlio, mais caudilho do que idealista. Novamente frustrou-se diante do comportamento do Marechal Lott (Henrique Baptista Duffles Teiseira Lott), em 1955, que afastou aqueles idealistas das posições onde poderiam fazer algo pelo qual almejavam. Mais tarde, no Governo João Goulart, passaram a conspirar no sentido de dar um basta ao caos que se implantava no País.

Esses homens, e outros que em face da situação a eles aderiram, foram os que fizeram a Revolução de 1964. Eis a razão por que fui buscar as causas remotas da Revolução de 1964 no idealismo que veio desde 1922, na corrente que se formou durante 40 anos, dentro do Exército, de homens que queriam fazer pelo Brasil mais do que simplesmente exercer as funções militares – queriam também mudar o País, a sua mentalidade política e transformá-lo numa potência” (Contra-Almirante Luiz Pragana da Frota, Tomo 14, pg 168-169).

“Existia, então, em algumas lideranças castrenses uma certa doutrina que vinha do passado, preconizando que os valores da elite militar seriam capazes de resolver os problemas brasileiros, sem a presença das elites civis. Foram refratários a essa doutrina nomes como Castello Branco e Eduardo Gomes, este sempre um militar civilista e democrático. Muitos coronéis daquela época e outros oficiais mais jovens queriam fazer algo em proveito do Brasil e, como entendo, a doutrina militarista tinha raízes nos chamados ‘jovens turcos’, que no princípio do século, durante o Governo Hermes da Fonseca, aperfeiçoaram-se na Alemanha.

A segunda questão está ligada às características da formação do militar, preparados para dirigir, comandar e dar ordens pressupostamente capazes de resolver os problemas que as pessoas estavam vendo nas ruas. Tudo seria fácil mediante a intervenção militar.

Quando o Movimento de 1964 foi vitorioso, indiscutivelmente quase 95% do País bateram palmas. Mas, à medida que o processo revolucionário de 1964 vai se implantando, ao mesmo tempo vai provocando discórdias e conflitos. Daí, a contestação que começava a surgir. No processo revolucionário, o Poder é arbitrário e provoca contestação. Cresciam dois tipos de oposição: os adeptos do marxismo, bem fortes, naquela época, ligados a Cuba e à União Soviética; e algumas lideranças liberais democratas que não estavam concordando com a execução do processo implantado no País. Eis a terceira causa: essas duas forças vão se unir, a de esquerda e a liberal, ambas antimilitaristas. Esta forma de oposição não sabia distinguir entre o militar de tendências civilistas e o de tendências militaristas. Tudo para eles era militarista” (Deputado Federal Bonifácio de Andrada, Tomo 15, pg. 96-97).

Havia, nas Forças Armadas, três grupos de oficiais, a saber: a corrente originada em 1922, que pretendia fazer algo para eliminar o quadro de subdesenvolvimento e a mentalidade política que tanto prejuízo trazia ao País; outro grupo que não achava necessária a intervenção das Forças Armadas, mas às vésperas do Movimento aderiu ao mesmo; e um terceiro grupo, menor, que apoiava a escalada marxista.

Depois da Revolução, este último grupo foi praticamente extinto: seus integrantes foram afastados, cassados ou demitidos e outros passaram para a reserva. Deste modo, permaneceram dois grupos dentro do sistema revolucionário militar: o grupo que defendia a transformação do Movimento numa Revolução, isto é, que queria aproveitar a intervenção militar de grande porte – afastou o Presidente da República – para conquistar os objetivos, de muitos anos antes, de transformar as estruturas política e administrativa do País, saneá-lo moralmente, afastar os políticos corruptos e criar novos quadros, redimir a economia abalada, resolver os problemas das desigualdades sociais e afastar definitivamente do cenário nacional a subversão, que era bem forte. Para tal, a Revolução deveria demorar tempo maior no Poder. O maior expoente desse grupo era o Marechal Costa e Silva.

Já o outro grupo, a outra corrente de pensamento, defendia a opinião de que a intervenção militar deveria apenas neutralizar aquela escalada comunista, afastando os homens do Governo ligados diretamente à subversão marxista e, logo que possível, dever-se-ia restabelecer o sistema político vigente antes da Revolução. Essa corrente, ligada ao Marechal Castello Branco, não queria o prosseguimento da Revolução por muito tempo.

Essa divergência resolveu-se com a ascensão à Presidência da República do Marechal Costa e Silva. Durante todo o seu Governo predominou a linha revolucionária, ou seja, aquela que queria transformar o Movimento de 31 de Março em uma Revolução, entendendo-se que uma revolução vem para mudar as estruturas existentes, para estabelecer uma nova ordem e não somente para restabelecer a antiga, como queria a outra corrente” (Contra-Almirante Luiz Pragana da Frota, Tomo 14, pg. 170-171).

 

Ob.:

O Contra-Almirante Frota é filho do General-de-Exército Sylvio Couto Coelho da Frota, Ministro do Exército no Governo Geisel.  O Ministro Frota é autor do livro “Ideais traídos: A mais grave crise dos governos militares narrada por um de seus protagonistas”.

As ações do Tenentismo (“Jovens Turcos”) que levaram ao Movimento de 1964 pode ser visto em https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/06/o-tenentismo-e-as-acoes-dos-jovens.html.

F. M.

 

 

MOVIMENTO COMUNISTA INTERNACIONAL

Praticamente todos os entrevistados concordam em dizer que o Brasil, em 1964, sofria a influência direta da Guerra Fria, com o Movimento Comunista Internacional (MCI) lançando suas garras sobre o Ocidente democrático, inclusive o Brasil, e os americanos fazendo a contrapropaganda a essa doutrina que tornava o mapa mundi cada vez mais vermelho.

“Ao término da Segunda Guerra Mundial, a União Soviética, em inferioridade nuclear em face dos Estados Unidos, adotou, em relação aos países não comunistas, política externa defensiva, caracterizada pelo movimento pró-paz – ofensiva pela paz – e pala promoção da subversão naqueles países – guerra psicológica – sempre acusando os EUA de intenções agressivas e imperialistas.

A seguir, logo que conseguiu produzir armas nucleares, a URSS mudou sua política externa, passando a utilizar a subversão e a guerra revolucionária para a rápida expansão do comunismo no mundo” (Coronel Helio Mendes, Tomo 1, pg. 255).

“As raízes remotas encontram-se em 1922. Desde a criação do Partido Comunista, começou a ininterrupta pressão do Movimento Comunista Internacional (MCI) sobre o Brasil; é a velha teoria do dominó: se o Brasil caísse, cairia o resto.

Sobreveio a Coluna Prestes e, depois, a Revolução de 1930. Luís Carlos Prestes, com a dissolução da Coluna, se exilou na Argentina e se negou a participar da Revolução de 1930, porque julgou-a burguesa, tendo declarado, pela primeira vez, que tomava a linha do comunismo.

A essa altura, conta a história que Oswaldo Aranha já lhe tinha enviado oitenta mil dólares. Da Argentina, Prestes foi para a Rússia, onde passou bastante tempo; aquele dinheiro foi um dos recursos que financiaram, mais adiante, a Intentona Comunista de 1935.

Esses acontecimentos incorporaram-se às raízes mais longínquas.

Como causa mais próxima, tenho que me reportar à queda de Jânio Quadros. Emergiram contradições, no período que vai da renúncia do Presidente Jânio Quadros à posse de João Goulart, e corremos o risco de uma divisão dentro do Exército” (Coronel Gabriel Antônio Duarte Ribeiro, Tomo 6, pg. 80-81).

“Amplos setores da administração pública, a Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT), a União Nacional dos Estudantes (UNE), a União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES) e a maioria dos sindicatos estavam completamente dominados por esquerdistas ou notórios comunistas. O Secretariado de Miguel Arraes, em Pernambuco, também era constituído de elementos vinculados ao esquerdismo. Leonel Brizola fundara o ‘grupo dos onze’ e criara a Frente de Libertação Nacional. Francisco Julião, no Nordeste, atuava, vigorosamente, através das Ligas Camponesas.

As greves se sucediam em proporções assustadoras, tanto no meio sindical como no estudantil, surgindo as chamadas greves de solidariedade. Janto tinha, no meio sindical, o seu grande sustentáculo. A agitação no campo era intensa. Os sindicatos rurais eram organizados por comunistas, militantes da Ação Popular trabalhista e sacerdotes católicos, sendo criada a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG) que se tornou mais uma integrante da CGT. Setores da Igreja Católica, considerados progressistas, expandiam o Movimento de Educação de Base, aplicando o método de alfabetização de Paulo Freire.

O Plano Trienal de Celso Furtado fracassou e o País mergulhou em impressionante ritmo inflacionário” (General-de-Exército Sebastião José Ramos de Castro, Tomo 1, pg. 118-119).

 

Imigrantes trouxeram dogmas do comunismo

“As forças políticas eram o resultado de 50 anos de confrontos e formação de elites políticas entre essas vertentes. Importamos ideologia comunista e projeções internacionais de interesses capitalistas. Dou exemplos marcantes que comprovam isso. A vinda de imigrantes europeus para o nosso País, em face das condições de trabalho em seus países, nas condições deixadas pela segunda revolução industrial e pelo sistema capitalista que dela emergiu, bem como a influência de intelectuais que haviam aderido aos dogmas da revolução bolchevista, foram responsáveis pela importação do comunismo. Essas ideias permearam a industrialização nascente nos centros urbanos do País e as relações de trabalho no campo, para onde parte daqueles contingentes impregnaram a força de trabalho” (Coronel Adalto Luiz Lupi Barreiros, Tomo 14, pg. 254).

Obs.:

O Coronel Adalto faz um relato detalhado sobre a Guerrilha do Vale do Ribeira, em Registro, SP, implantada por Carlos Lamarca (pg. 276-285).

F. M.

 

As 21 condições para admissão do PCB à Terceira Internacional (COMINTERN)

“Em março de 1922, foi criado o Partido Comunista no Brasil, no Rio de Janeiro, que logo aderiu ao Movimento Comunista Internacional, aceitando as 21 condições de admissão à Terceira Internacional (COMINTERN).

Através dessa entidade, agindo como central da subversão, Moscou, impondo disciplina férrea, dirigidas às atividades comunistas do mundo inteiro. É conveniente ressaltar, para melhor compreender o fanatismo ideológico do comunismo, que para aderir ao COMINTERN era indispensável a aceitação de determinadas condições, dentre as quais soa como chocante a de número 16, que prevê: ‘Todos os Partidos Comunistas devem renunciar não somente ao patriotismo, como também ao pacifismo social’.

Dentre os primeiros líderes a serem trabalhados em Moscou para vir exercer funções de destaque no Brasil, deve ser citado Luís Carlos Prestes (ex-capitão do Exército). Durante anos permaneceu na URSS realizando cursos de liderança e capacitação marxista-leninista. Retornou ao Brasil para participar da Intentona Comunista de 27 de novembro de 1935” (Coronel Humberto Ayres Corrêa, Tomo 14, pg. 232).

Obs.:

A história do PCB, assim como as 21 condições para admissão ao COMINTERN, pode ser visto em https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/06/partido-comunista-brasileiro-pcb-fgv.html.

Hoje, temos na América Latina outra Internacional Comunista, que pretende comunizar toda a região: o Foro de São Paulo. Conheça o histórico e as Atas Finais de vários Encontros do FSP no link https://www.averdadesufocada.com/images/f/atas_foro_sao_paulo.pdf.

A Universidade de Amizade dos Povos Patrice Lumumba, em Moscou, era uma incubadora de terroristas e guerrilheiros, inclusive do Brasil – cfr. http://wikiterrorismobrasil.blogspot.com/2015/09/universidade-de-amizade-dos-povos.html.

O documentário “The Soviet Story” (A História Soviética) apresenta os bárbaros crimes cometidos na URSS – Cfr. em https://www.youtube.com/watch?v=s3rr2ncqN5o.

Em 12 de junho de 2007, foi inaugurado em Washington, D.C. o “Memorial das Vítimas do Comunismo”, com a dedicatória "Para os mais de cem milhões de vítimas do comunismo e para os que amam a liberdade." Cfr. em https://pt.wikipedia.org/wiki/Memorial_das_V%C3%ADtimas_do_Comunismo.

F. M.

 

Revolução de cunho comunista: tomada do Poder em dois tempos

“Sem dúvida, havia uma revolução de cunho comunista, em preparação no País. Permito-me explicar como isso acontece: os comunistas nunca fizeram ou nunca iniciaram uma revolução, nem na União Soviética. Eles foram sempre os grandes aproveitadores das revoluções. A isso chamam de transformação da revolução. A revolução surge como um movimento determinado e depois se transforma. Lenine advertia: ‘Não é possível triunfar apenas com a vanguarda’. E o Partido Comunista é a vanguarda, é a direção.

A estratégia aplicada no Brasil tinha duas fases distintas. Na primeira, haveria uma espécie de golpe revolucionário, aplicado pelo próprio Governo João Goulart, originando um regime de força. O Congresso seria fechado e promover-se-ia um expurgo, nas Forças Armadas, de todos os elementos contrários.

Na segunda fase, esses elementos golpistas seriam postos de lado, e os comunistas assumiriam o Poder. Esse era o plano para a revolução comunista no Brasil. Eles não iam iniciar a revolução; quem iria fazê-lo era João Goulart.

Há, inclusive, uma carta enviada a Miguel Arraes por um jornalista, seu parente, contendo as conclusões de várias entrevistas de confidentes de João Goulart, como Samuel Weiner e outros, em que ele diz que o Presidente estava entusiasmado com a possibilidade de aplicar esse golpe, fechando o Congresso e estabelecendo uma outra Constituição para o Brasil. Era o que ele chamava de ‘República Sindicalista’, uma república dominada pelos sindicatos.

Mas os comunistas estavam preparados para a segunda fase, que era assumir o Poder, eliminando esses que a iniciaram” (General-de-Brigada Ferdinando de Carvalho, Tomo 2, pg. 152).

Como Tenente-Coronel, Ferdinando de Carvalho foi encarregado do Inquérito do Partido Comunista, que durou dois anos, resultando em mais de 150 volumes, que foram transportados num caminhão até o Superior Tribunal Militar (STM).

“Quando implantaram o comunismo na União Soviética, que ainda era o Império russo, no ambiente militar iniciaram a sua revolução pelo aliciamento dos marinheiros. Lembrem-se todos do episódio do encouraçado Potiomkin, também chamado por alguns de Potemkim, em 1905, quando os comunistas insuflaram a rebeldia dos marinheiros por motivos de rancho, ou ainda, do cruzador Aurora, que, nos antecedentes da Revolução de Outubro de 1917, levantou-se e bombardeou a Cidade de Leningrado. No Chile de 1963, a subversão nas Forças Armadas tinha importantes células na Marinha de Guerra.

No Brasil, também escolheram iniciar a revolução pela Marinha, embora as três Forças Armadas, indistintamente, tenham sido inoculadas pelo germe da quebra da hierarquia e da disciplina e pela tentativa de aliciamento das praças contra os seus superiores.

Gostaria de lembrar dois episódios que antecederam a revolta dos marinheiros e fuzileiros, aqui, no Rio de Janeiro. Falo da revolta dos sargentos em Brasília, um ano antes, na área Alfa, e da sabotagem que os sargentos mecânicos da Força Aérea fizeram contra as aeronaves, que, consequentemente, ficaram impossibilitadas de decolar. Felizmente, essa tentativa de cisalhamento não teve sucesso, porque a maioria esmagadora dos graduados se posicionou contra a crise provocada, artificialmente, pela subversão de cúpula conduzida pelo governo, aliada à subversão de base, a cargo, principalmente, do Comando Geral de Greve, depois CGT, e das Confederações de Trabalhadores, que agiam ao lado da UNE (União Nacional dos Estudantes)” (Vice-Almirante Sérgio Tasso Vásquez de Aquino, Tomo 9, pg. 96-97).

“Quando eu estava na ativa, era muito convidado para reuniões com empresários. Era solicitado pela Confederação Nacional do Comérico e, num almoço que eles fizeram, estava um grupo de empresários americanos. Junto se encontrava aquele que veio a ser presidente – o Jimmy Carter. Eram da Geórgia, do Sul dos Estados Unidos. E, naquela conversa, como eu falava inglês e eles não falavam o português, perguntei a eles: ‘Quais são os produtos brasileiros que vocês estão mais interessados em importar?’ E um deles respondeu: ‘Gostaríamos de importar o método de combate aos comunistas adotado por vocês’. Os americanos consideravam a coisa mais perfeita do mundo. Nenhum país tinha conseguido neutralizar, com tanta eficácia, o comunismo naquele nível que ele havia alcançado, porque eles já se diziam do governo: ‘Só não temos o Poder, mas estamos no Governo’. Eles falavam isso, o próprio Luís Carlos Prestes.

Era a tal tomada do Poder em dois tempos que falei, lembrando que Kerenski e Trotsky fizeram a revolução. Lênin entrou e derrubou os dois e estabeleceu a ditadura do proletariado, de triste memória. Na Tchecoslováquia, lembramos a tomada do parlamento, a queda do parlamento, eles assumiram o Poder, valendo-se do próprio Congresso... Eles apoiavam todo e qualquer movimento nacionalista. Você brigava com o governo e fazia um movimento de oposição. Eles apoiavam. Essa oposição ganhava, chegava ao governo e os comunistas entravam com eles. Era a chamada do Poder em dois tempos. Uma vez lá dentro, eles davam o tombo final, o golpe de misericórdia.

Isso eles fizeram, também, na própria Cuba. O movimento de Cuba, pelo Fidel Castro, a tal campanha de Sierra Maestra, foi apoiada pelos Estados Unidos. Foi, porque eles queriam se livrar do Batista, que estava tornando-se nacionalista. O Batista era um ex-sargento, um fantoche, mas ele começou a desagradar os americanos, reivindicando uma série de benefícios. Os cassinos, os hotéis, o jogo, era tudo explorado pelos americanos. Ele começou a querer colocar ordem no assunto e isso desagradou-lhes. A derrubada do Batista não foi ideológica, ele não era comunista, ele era nacionalista. Quem era e enganou os americanos, foi o Fidel Castro. Apoiado pelos americanos, derrubou o Batista, só que ‘o tiro saiu pela culatra” (General-de-Brigada Celso dos Santos Meyer, Tomo 10, pg. 141-142).

 

Sobre o “Bogotazo” e “La era de la violência”

“Quando exercia a função de Adido Militar no Peru, um jornal comunista de Lima, por ocasião das comemorações de um dos aniversários do famoso episódio conhecido como ‘Bogotazo’, publicou uma reportagem alusiva, inclusive com a fotografia do jovem Fidel Castro, na época, presente em Bogotá. O motim na Capital colombiana desencadeou-se com o assassinato do candidato do Partido Liberal às eleições presidenciais. Foram 4 dias de violentos distúrbios urbanos.

O jovem Fidel Castro, então com vinte e poucos anos, era convidado dos liberais. Nos conflitos morreram quarenta mil pessoas. O confronto entre as correntes liberais e conservadoras continuou ao longo do tempo e ficou conhecido como La era de la violência. Foram 4 anos e morreram aproximadamente quatrocentas mil pessoas de lado a lado. Liberais e conservadores matando-se mutuamente, até na zona rural; e com requintes de perversidade” (Coronel Roberto Monteiro de Oliveira, Tomo 13, pg. 219-220).

Obs.

O livro “O Homem que inventou Fidel – Cuba, Fidel e Herbert L. Matthews do New York Times”, de Anthony DePalma, Companhia das Letras, São Paulo, 2006, narra em detalhes a “tomada do Poder em dois tempos” em Cuba.

F. M.

 

RAÍZES DO MOVIMENTO REVOLUCIONÁRIO DE 31 DE MARÇO DE 1964

Origem externa e interna

“Podem ser considerados como raízes do Movimento revolucionário de 31 de Março de 1964, de origem externa, os seguintes fatos: a expansão do comunismo soviético, no período pós-1945, na Europa e em outros continentes; a vitória do comunismo de Mao Tsé-Tung, na China, em 1949, exportando sua ideologia, inclusive para a América Latina; a divisão da Coréia pelo Paralelo 38, decorrente do comunismo ali implantado; a introdução do comunismo, por Fidel Castro, em Cuba, e a expansão de sua ideologia marxista-leninista para a América Latina; a Guerra dos 30 anos no Vietnã, 1946/1976, culminando na derrota e expulsão dos franceses e, depois, dos norte-americanos; radicalização da bipolaridade, com ameaça de conflito nuclear entre Estados Unidos e a União Soviética, com a instalação de mísseis.

De origem interna: antagonismo político-militar, envolvendo parcela das Forças Armadas, nos anos 1950; o suicídio do Presidente Getúlio Vargas, em agosto de 1954, acentuando a dicotomia entre os denominados ‘golpistas gorilas’, direitistas e os esquerdistas ‘comunistas populistas’. O antagonismo entre esses grupos aumenta, radicalizando-se as posições nos anos de 1950 e início dos anos de 1960; reflexo da guerra fria, com poucas opções político-estratégicas e político-econômicas para o Brasil e cenário interno instável, do ponto de vista político-ideológico. No período de 1960 a 1964, quatro governos no Brasil de características contraditórias e antagônicas: Juscelino Kubitschek, final de Governo, Jânio Quadros, João Goulart e Castello Branco, este a partir de 1964” (Coronel Amerino Raposo Filho, Tomo 2, pg. 277).

“Nas raízes do Movimento de 1964 encontram-se os acontecimentos da década de 1950, a eleição de Getúlio Vargas e, depois, atentado contra o Carlos Lacerda, que causou a morte do Major da Aeronáutica Rubens Vaz. Em 1953, houve um manifesto dos coronéis que levou a deposição de Jango, Ministro do Trabalho de Vargas. Todos esses fatos, no fim, culminaram com o suicídio de Vargas, em 1954” (General-de-Divisão César Montagna de Souza, Tomo III, pg. 40).

 

Nordeste, o trampolim da vitória

“Corremos sério risco. O Brasil é detentor de uma das áreas estratégicas para o equilíbrio mundial. Se entrássemos em um estado-maior de qualquer país do mundo, entre as principais áreas estratégicas identificadas encontraríamos o Nordeste do Brasil (saliente nordestino). É a parte do continente americano mais próxima do Velho Mundo e a Segunda Guerra Mundial mostrou isso quando o Brasil cedeu bases para a Marinha e Força Aérea americanas. Também se deslocaram tropas do Centro-Sul do País para o Nordeste, quando a guerra se desenvolvia no Norte da África. Tanto é que os expedicionários, como são conhecidos os integrantes da FEB, estavam preparados para desembarcar no Norte da África.

Justifica-se, desse modo, consequente orientação da União Soviética, o esforço para uma revolução no Nordeste brasileiro, a fim de passar aquela parte toda para a órbita da URSS. Estávamos bem informados e conhecíamos os riscos que estávamos correndo.

(...)

A questão brasileira deve ser entendida inserida na estratégia mundial. Por isso que insisto em destacar a importância do saliente nordestino. Foi chamado de ‘Trampolim da Vitória’ por ingleses e americanos. Exerceu importância fundamental como suporte de bases aéreas e navais na Segunda Guerra Mundial. Assim, ao descrever questão como esta, deve-se examinar o quadro mundial, a situação que a precedeu e qual a sua projeção para o futuro. O Brasil dominado por uma ideologia que todos repelíamos seria um desastre total. Somos um País muito importante para sermos ignorados pelos outros, principalamente pela Europa Ocidental e pelos Estados Unidos” (General-de-Brigada Rubens Resstel, Tomo 7, pg. 97-102).

 

A renúncia do Presidente Jânio Quadros

A maioria dos analistas prefere focar o dia 24 de agosto de 1961 como antecedente próximo do Movimento de 1964, data da renúncia do presidente Jânio Quadros. Houve uma fissura muito forte dentro das Forças Armadas, especialmente no Exército, devido à não aceitação do vice de Jânio, João Goulart, para assumir o governo. Houve deslocamento de tropas do Exército do RS para SC, e de SP para o PR, porém não houve confronto bélico. Há depoimentos detalhados de militares sobre essas manobras que alcançaram Lajes e Criciúma.

Após o arranjo do parlamentarismo, Jango assumiu o governo, mas logo colocou em campo sua massa de manobra dos tempos em que era ministro do Trabalho de Getúlio Vargas – pelegos ligados a sindicatos, estudantes, comunistas – e reverteu, em plebiscito, novamente para o sistema presidencialista, com a ajuda de seu cunhado Leonel Brizola e sua “Cadeia da Legalidade”, pregada em várias rádios, especialmente no Rio Grande do Sul.

“Por felicidade, hoje digo por felicidade e, quando estávamos ultrapassando a divisa de Santa Catarina, entrando em território gaúcho, veio a ordem para retornar. Naquele período, soubemos depois, que os deputados reunidos com os ministros militares chegaram a um acordo. Aí vem a importância, que eu sei que ocorreu, do Tancredo Neves ter apresentado uma fórmula para evitar aquele derramamento de sangue – o parlamentarismo. Voltamos – o parlamentarismo foi aceito. O Vice-Presidente João Goulart não desfrutava mais dos poderes do presidencialismo. Sabemos que não demorou muito, porque o próprio Tancredo Neves, no cargo de Primeiro-Ministro, fez tudo para que o parlamentarismo terminasse e se retornasse ao presidencialismo. Essa é uma passagem importante que vejo na minha vida de tenente” (General-de-Brigada Durval Antunes Machado Pereira de Andrade Nery, Tomo 10, pg. 158).

 

“República de Trombas e Formoso”

“Quanto às ‘Ligas Camponesas’, criadas por Francisco Julião, vou relatar uma experiência pessoal que tem ligação com as mesmas.

Em 1962, recebi uma missão para ir ao meio-norte de Goiás e produzir um relatório sobre a chamada ‘República de Trombas’. Havia um elemento complicador, pois a mesma não admitia gente estranha em seu território.

Estimava-se serem dez mil habitantes a população de toda a área, em sua maioria posseiros, com maior incidência de baianos e cearenses. De um modo geral, os que demandavam aquela ‘República’ tinham sempre um passado a esconder, inclusive condenados pela Justiça. O ânimo de todos era a defesa intransigente de suas ‘posses’. Com a construção de Brasília e da Rodovia Belém-Brasília, passando próxima ao território da ‘República’, as terras foram valorizadas e novos proprietários, com documentos legais ou forjados, surgiram na região, atritando com os posseiros.

O líder local era o José Porfírio de Souza, homem ‘chucro’, mas com sensibilidade e carismático. Começou a montar uma cidade com aquela gente que precisava de terra, traçando os limites da área, ou da ‘República’, como eles mesmos diziam. Sei que um limite era o rio Tocantins, outra a Serra Dourada, mais a oeste a Rodovia Belém-Brasília.

(...)

Lá pude verificar que era uma sociedade organizada no molde socialista. A produção era entregue à Associação de Lavradores que se encarregava de vende-la em Anápolis e Goiânia.

A distribuição de terras, convém frisar, obedecia a alguns fatores. O candidato recebia a quantidade de lotes dependendo da idade, número de braços para o trato da terra – filhos e dependentes -, disposição física e, principalmente, tratar ele mesmo da gleba de ser um ‘associado’.

O José Porfírio de Souza era uma pessoa muito ligada ao Deputado Estadual de Pernambuco Francisco Julião, a quem considerava ídolo e orientador. (...)

Notei que os homens portavam armas, de tipos bem variados. Havia desde as rudimentares de caça, do tipo ‘espingarda do papo-amarelo’, até boas carabinas. Organizações do Terreno (OT) eram encontradas nas proximidades do povoado. A Associação possuía planos para a sua defesa; cada ‘grupo’, conforme a hipótese, sabia o que fazer.

Quanto à assistência médica, no caso de serem insuficientes os recursos locais, os doentes eram levados para Goiânia, onde três médicos, previamente contratados pela Associação, os atendiam, entre os quais se incluía um notório comunista.

Os políticos de âmbito estadual e mesmo federal cortejavam José Porfírio, porque era voto certo. O Vice-Governador já tinha estabelecido contato com ele.

(...)

Então, a ‘Liga Camponesa’ não estava mais só no Nordeste, mas procurando atuar no Norte goiano e com probabilidade de expandir-se para Mato Grosso e outros lugares” (Coronel José Tancredo Ramos Jubé, Tomo II, pg. 329-330).

“As ações criminosas das ligas camponesas se robusteceram e se ampliaram em virtude do apoio oficial, sob a influência dos comunistas junto à alta administração federal. Para se ter uma ideia da gravidade da situação, vou citar o caso do distrito de Trombas, município de Formoso-GO, com base em documentação oficial a que tive acesso. Ali existia um cearense, José Porfírio de Sousa, mais conhecido como Zé Porfírio, que tinha o comando total da área e mantinha quatrocentos homens em armas. Não se sabe de onde vinha o armamento, mas se pode imaginar. Quando ocorriam eleições em Formoso, os mil e duzentos votos do distrito de Trombas iam todos para Zé Porfírio ou para o candidato que ele apoiasse. Os outros candidatos recebiam ‘zero voto’. Outra área infectada era Araguaia, famosa, mais tarde, por emprestar esse nome – ‘guerrilha do Araguaia’ – aos focos guerrilheiros que por lá se instalaram. De início, como um núcleo denominado ‘guerrilha de Xambioá’ ” (Tenente-Coronel Idalécio Nogueira Diógenes, Tomo 4, pg. 185).

 

JANGO, PLAYBOY COM VOCAÇÃO PARA CAUDILHO

“Estancieiro milionário, dono de grandes fazendas no Rio Grande do Sul e no Uruguai, Jango não tinha nenhuma vocação para comunista; podia ter vocação para caudilho, como mostrava o seu pensamento populista ou por herança, talvez; ele foi uma cria do Vargas. Como João Goulart não tinha uma base sólida, ficou isolado dos governantes dos principais Estados e pelo Congresso, que era dominado pela UDN e pelo PSD, forças tradicionalmente conservadoras que não aceitavam aquelas teses. Então, buscou amparo nos sindicatos, no meio estudantil, nos intelectuais, e fez aquela agitação de rua, levantando aquelas bandeiras. Apesar disso, não via nele um homem a serviço de Moscou – linguagem que se usava na época – como não estava, também, a serviço de Washington. Jango era um homem que queria fazer o seu traçado próprio, dentro da realidade do continente sul-americano, política que Jânio Quadros, de certo modo, tinha iniciado, mas equidistante das grandes potências” (Jornalista José Blanchard Girão Ribeiro, Tomo 4, pg. 299).

“Em 1963, na revolta da Polícia Militar do Piauí, sendo eu oficial de operações, recebi, como comandante da Guarda de Honra, o Presidente João Goulart. Do meu conhecimento, foi a primeira vez, na minha vida militar, que um homenageado chamou o comandante da tropa para ficar ao seu lado. Conversamos e, do princípio ao último momento, ele tentava dar razão à revolta da Polícia Militar, para finalmente indagar: ‘O senhor não acha que essa revolta é justa, já que o pessoal da Polícia Militar tem passado fome?’ A minha resposta: ‘Não, presidente. O pessoal da Polícia Militar tem uma cadeia de comando; eles têm que observar os degraus dessa cadeia para ponderar os seus direitos. A indisciplina é um dos fatores que mais destroem as Forças Armadas” (Tenente-Coronel Murilo Walderk Menezes de Serpa, Tomo 4, pg. 205-206).

 

Jango fazia caçadas em Mato Grosso

“De vez em quando, o Presidente Jango fazia caçadas lá em Mato Grosso.

O próprio Comandante da 9ª. Região Militar determinava aos comandantes de Regimento que dessem apoio ao Presidente, cuja chegada se dava no aeroporto de Ponta Porã: enviar uma viatura, proporcionar segurança. Essa programação era comum, quase todo final de semana, enquanto Goulart caçava. Este fato não o vi escrito em canto nenhum, participei dele, porque fiquei como Subcomandante e, depois, como Comandante.

Tínhamos que arrumar aqueles meios, mas pensava: ‘Para o Presidente caçar precisávamos dar esse apoio: viatura, segurança?’ Considerava um absurdo.

O Jango tinha amigos entre os fazendeiros da região, na faixa de fronteira, em Mato Grosso, que poderiam dar apoio a ele. De fato, os amigos iam recebe-lo, mas João Goulart fazia questão da presença do Exército, para mostrar que a tropa estava com ele. Percebi isso: queria demonstrar que contava com o Exército para dar-lhe apoio em qualquer situação, até num simples passeio a Mato Grosso, para caçar. Aquele Presidente, que a gente esperava que melhorasse a situação do povo, estava mostrando-se, apenas, um playboy; assim a gente via o Presidente, o Jango” (Coronel Dynaldo Domingos de Souza, Tomo 6, pg. 40-41).

 

Jango, filho bastardo de Getúlio?

“As raízes mais profundas do Movimento Revolucionário de 31 de Março de 1964 encontram-se na revolução de 1930, a revolução dos Tenentes.

Naquele movimento revolucionário, Getúlio Vargas usurpou o Poder e os que o apoiaram acabaram frustrados; muitos dos que tomaram parte, naquela ocasião, participaram da Revolução de 1964, a exemplo do General Ernesto Geisel, seru irmão Orlando Geisel e muitos outros.

Getúlio, com o Poder absoluto, criou dois partidos para dar sustentação ao seu governo: o PSD, Partido Social Democrático, para as elites ricas e corruptas, e o PTB, Partido Trabalhista Brasileiro, para mobilizar o operariado.

Assim foi até a Segunda Guerra, após a qual foi deposto, sendo, mais tarde, eleito o Marechal Eurico Gaspar Dutra.

Depois de Dutra, Getúlio voltou ao Poder, desta vez pelo voto direto. Esse governo terminou com a sua morte, um dramático suicídio, num mar de corrupção e crises políticas e militares, principalmente envolvendo a Aeronáutica.

Nesse contexto, Getúlio protegia um afilhado, João Goulart que, dizem, era seu filho bastardo. Na gíria popular, era ‘cria política’ de Getúlio Vargas.

O partido de oposição que existia era a UDN, União Democrática Nacional, que nunca conseguiu vencer o esquema dos dois grandes partidos do Governo, eficiente sustentação de Getúlio durante muito tempo, baseado nos currais eleitorais.

Juscelino Kubitschek foi eleito apoiado por esses dois partidos, PTB e PSD, e derrotou o Marechal Juarez Távora, que era o candidato da UDN.

Depois de Juscelino veio Jânio, eleito com o apoio da UDN, embora não pertencesse aos quadros do partido, visto ser um candidato independente.

Foi eleito juntamente com João Goulart, que era de outra chapa [PTB]; a legislação eleitoral daquela época permitia isso.

Goulart era vetado pelos militares para a Presidência da República. Jânio, sabendo disso (assumiu em 1961), armou aquela renúncia-golpe para assumir poderes totais; mandou Goulart fazer uma viagem diplomática à China e renunciou, esperando ser reconduzido com poderes totais. Mas a sua estratégia falhou e ele realmente foi afastado do Governo, em meio a uma crise institucional muito grande: o País esteve à beira da guerra civil.

João Goulart assumiu a Presidência no regime parlamentarista.

Logo em seguida, articulou uma campanha objetivando a realização de um plebiscito para que voltasse a ser Presidente sob o regime presidencialista. Obtida essa nova condição, iniciou o ataque às instituições brasileiras, visando à criação de uma república sindicalista, o que era o seu objetivo, porque com essa república, baseada nas esquerdas, se perpetuaria no Poder, tal como o seu mestre Getúlio Vargas.

Dentro desse quadro, iniciou o seu plano: armou um esquema militar baseado em nomeações de generais e, também, no aliciamento de oficiais de baixa patente e muito principalmente de graduados: subtenentes, sargentos e cabos.

Utilizava a Caixa Econômica Federal, concedendo empréstimos para a compra de automóveis, financiamento de casas, e assim achava que tinha, por exemplo, a Brigada Pára-Quedista na mão. Buscou controlar os comandos dos Exércitos, como a nomeação para o IV Exército do General Joaquim Justino Alves Bastos, ainda General-de-Divisão, para depois, dando-lhe a quarta estrela, mantê-lo conivente com suas ações” (Coronel Petrônio Araújo Gonçalves Ferreira, Tomo 6, pg. 170-171).

“Em maio de 1953, o Getúlio escolheu o conterrâneo João Goulart para seu Ministro do Trabalho. O Jango, com 35 anos, idade mínima para ser ministro, era um advogado que se elegera deputado federal em 1945. Foi reeleito em outubro de 1950, quando coordenou a campanha que levou o Getúlio ao Poder pelo voto. Era muito ligado ao caudilho, e até se dizia ‘no baixo mundo’ que ele seria filho do Presidente. Cansei de ouvir essa versão, mas nunca li de nenhuma fonte qualquer comprovação sobre esta suspeita. Na realidade, havia uma estima muito grande do Getúlio pelo pupilo” (Major Sady Fialho Fagundes, Tomo 13, pg. 310).

 

O Senador Auro de Moura Andrade se vingou em Jânio

“Vamos voltar no tempo, para a renúncia do Jânio: o que se assistiu? Era Presidente do Congresso o Senador Auro de Moura Andrade, adversário do Jânio e que perdera, inclusive, eleição para ele em São Paulo. O que fez Moura Andrade no momento em que recebeu a carta-renúncia? Bateu a campainha, informou de imediato, não deu tempo para ninguém respirar, para conversar, nem nada, bateu a campainha e informou, de pronto, a renúncia de Jânio, declarou vaga a Presidência da República e convocou Ranieri Mazzili para assumi-la.

Veja você a figura o Presidente do Congresso, um senador, adversário político, a agilidade com que ele deu sequência ao ritual institucional.

Agora vamos para o Jango. Quem era o Presidente do Congresso? Auro de Moura Andrade. De que partido? Do PSD, partido que havia rompido com Jango no momento daqueles famosos decretos sobre Rforma Agrária. O Juscelino havia se encolhido. ‘Não vou hostilizar o Jango’ disse, ‘mas o PSD vai fazer oposição’. Disso avisou o Jango. E avisou novamente, por intermédio do João Pinheiro Neto – há um depoimento do João Pinheiro Neto sobre isso – de que o PSD era majoritário, embora a  ‘tropa de frente’ fosse a UDN, com o Lacerda vociferando etc. E o que aconteceu?

No momento em que o Jango deixa Brasília, e o Congresso é informado – não me lembro mais quem informou, se não me engano foi o Comandante do Planalto (na época não tinha esse nome), não sei se foi o General Fico, enfim – de que o Jango havia deixado Brasília, o que fez o Auro de Moura Andrade? Tocou a campainha e disse: ‘O Presidente [Jango] abandonou a chefia do Governo, está vaga a Presidência da República’. E convocou novamente Ranieri Mazzili para assumir a Presidência da República, e lhe deu posse imediatamente. Repete-se aquela mesma aceleração do ritual institucional.

Lá de 1961, repetindo o mesmo procedimento adotado com a intempestiva renúncia de Jânio Quadros, que deixara o País completamente perplexo. [entrevistador]

Semelhante ao que aconteceu em 1961 com Jânio Quadros. E foi usada, em 1964, pelo mesmo Auro de Moura Andrade, representando o mesmo grupo político, e dando posse...

Por acaso ao mesmo Ranieri Mazzili... [entrevistador]

Que era o Presidente da Câmara, e que, se não me engano, foi 17 vezes Presidente interino da República. Veja só a importância de um episódio relativamente pequeno. Por quê? Porque ficou caracterizada a continuidade institucional, quer dizer, quando o Jango chega ao Sul, e depois vai para o Uruguai, já não era mais presidente, não havia mais como ele se dizer presidente.

Esse aspecto é relevante.

Nós, dentro do quartel, nem estávamos sabendo disso. Só ficamos sabendo dias depois e só prestaram atenção nisso pessoas como eu que, por minhas origens, devido a meu pai, lá em Minas, sempre acompanhei as coisas da política.

(...)

Interessante, é que eu me chamo Luiz Carlos por causa do Prestes. Meu pai o admirava e nunca pensou que Prestes se tornaria comunista e estaria à frente da Intentona de 1935. Nasci em setembro e a Intentona foi em novembro. Eu tenho, escrita à mão por meu pai, uma verdadeira declaração de arrependimento por haver me dado o nome que tenho. Mas era tarde...” (Coronel Luiz Carlos Carneiro de Paula, Tomo 9, pg. 301-303).

 

 

GÊNESE DA CONTRARREVOLUÇÃO MILITAR

 

O JK verdadeiro

“Outros fatores se conjugaram para a eclosão do Movimento de 1964: a inflação deixada pelo Governo Juscelino e agravada no Governo Jango, a frustração pela renúncia de Jânio, o panorama político-social, em crescente degenerescência etc. Costumo dizer que o Presidente Juscelino, com a construção de Brasília – um sumidouro de dinheiro – fundou uma cidade e afundou o País. Quando fui oficial de gabinete, espécie de secretário do Ministro do Trabalho, algumas vezes levava despacho do ministro para o Palácio do Catete. Vinha telefonema de lá, avisando que o presidente ia viajar, saindo do aeroporto militar, no centro da cidade. Então, corria o ministro para lá com o despacho, eu segurando a pasta do ministro, o avião com as hélices rodando, já partindo, o ministro entregando os processos, e o presidente autorizando-os, sem os ler e sem nada. Dentro daqueles processos estavam milhões e milhões da Previdência Social, retirados dos Institutos para a construção de Brasília. Portanto, quando se fala em crise, em rombo da Previdência Social, em inflação, temos que voltar ao período de 1956 a 1961, no Governo Juscelino, quando a situação se agravou. Foi o rombo antecipado da Previdência, com o dinheiro desviado e a inflação crescente com a construção de Brasília.

Outra face visível na desordem do Governo de Jango era o descalabro da economia do País: inflação galopante, desvios de recursos, corrupção. Se olharmos bem a história deste País, veremos que a sua desorganização econômica começou com o Governo JK. O Juscelino, na ânsia de tornar-se eterno no Poder, eterno na história pátria, quis marcar a sua presença com a construção de Brasília e utilizou criminosamente todo o dinheiro da Previdência Social, entre outros desacertos. Quando JK deixou o Governo, Jânio quis consertar a economia, mas, irresponsável, renunciou ao cargo de presidente e deixou para Jango a desorganização herdada, sem força para segurar o barco. E os ‘pelegos’ tomaram conta do Governo. Já Luís Carlos Prestes vinha dizendo que os comunistas estavam no Governo, só lhes faltava o Poder. Aí, deu no que deu. No período compreendido entre o final de 1963 e começo de 1964, a situação se agravava: inflação, infiltração comunista, corrupção e , sobretudo, a deletéria ação da esquerda, ameaçando a hierarquia e a disciplina nas Forças Armadas” (General-de-Divisão Francisco Batista Torres de Melo, Tomo 4, pg. 63).

 

JK coloca Jango na Presidência

“Para se ter uma idéia da falta de patriotismo e de espírito público da maioria de nossos políticos, vou contar um fato ocorrido em 1961, por ocasião da queda de Jânio. Estava sentado numa cadeira, na Companhia Telefônica; no andar de baixo estava o Coronel Montagna. A telefonista disse: ‘O Juscelino vai falar com o Jango, em Paris.’ Liguei para o Montagna e perguntei: ‘Pode autorizar?’ Autorizou. Na conversa, ouvi o Juscelino pedir, implorar, a vinda do Jango e este dizer: ‘Eu não, vou nada, vou nada; aquele pessoal da FAB é um bando de doidos’ – alegava medo de ter o avião derrubado. Aí o Juscelino respondeu: ‘Rapaz, venha; o que interessa é o PSD, PTB, o resto que se lasque.’ Quer dizer, o País à beira de uma guerra civil e um político da estatura do Juscelino pensando em PSD e PTB. Fui conversar com o Montagna e disse: ‘Meu Deus do céu, e o País, e a Nação?’ Isto me marcou profundamente: a falta de caráter do homem público brasileiro” (General-de-Divisão Francisco Batista Torres de Melo, Tomo 4, pg. 72).

“Voltemos um pouco à época da Legalidade. As coisas se acirraram demais e vivíamos a iminência de uma guerra intestina muito séria, pois as próprias Forças Armadas estavam divididas, alguns considerando que na obediência à Constituição estava a legalidade; não viam o perigo que se corria por detrás disso. Antes, o General Denys (Odylio Denys), querendo contornar a situação, pedira ao Deputado Santiago Dantas, muito amigo do Jango, que o convencesse a desistir do governo. O deputado telefonou para o Vice-Presidente, que estava em Paris, retornando da China. Foi uma conversa tensa e, quando finalmente chegaram a um acordo, pois Jango já havia concordado, aqui no Brasil, o Juscelino Kubitschek entrou na sala, arrancou o telefone das mãos do Santiago Dantas e disse:

- Presidente, não desista. Venha e assuma o Governo que nós faremos uma frente para apoiá-lo.

O Jango voltou atrás e veio. Então, a Revolução que eu vivi tem três nomes: revolução redentora, contrarrevolução e revolução que poderia não ter existido, não fosse a presença e a ação inesperada do JK” (General-de-Brigada Ramão Menna Barreto, Tomo 13, pg. 137).

“Juscelino, já Presidente da República, preocupado com o desenvolvimento do País e com a construção de Brasília, entregou a área fundamental do Ministério do Trabalho e da Previdência Social a João Goulart, que a transformou em verdadeira sinecura político-partidária com a participação de comunistas, aproveitadores e ‘pelegos’ ” (Professor Luiz Queiroz Campos, Tomo 4, pg. 361-362).

“Muita gente pensa que as cassações foram arbitrárias, como pegar uma lista e ir cortando nomes. Não. Todas passaram pelo crivo dessa investigação. Tínhamos aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) à nossa disposição e íamos ao lugar onde o sujeito estivesse. Sentávamos com ele e dizíamos francamente: ‘Sr. Fulano, acontece isso, isso e isso. Queremos que o Sr. Esclareça.

Fomos buscar documentos nos cartórios, abrimos as suas dependências para fazê-lo. Fomos buscá-la onde existisse e, realmente, fizemos um dossiê com tempo suficiente; algumas daquelas pessoas foram levadas à própria Escola de Comando e Estado-Maior para um depoimento. Lembro-me muito bem dos depoimentos de pessoas ligadas ao Presidente Juscelino, que estiveram lá. A equipe que investigava o Juscelino organizou 17 pastas de problemas ligados ao ex-Presidente. Sabedor que as pessoas eram chamadas para serem ouvidas, antes que o pessoal fosse ao encontro dele para conversar, Juscelino pediu autorização e foi embora do País. Esse foi o problema do Presidente Kubistchek” (Coronel Sérgio Mário Pasquali, Tomo 5, pg. 189).

 

Corrupção do Governo JK: Jacareacanga e Aragarças

“Apenas serviu para que nós, assustados com a corrupção que já vinha anunciada e prevista com a posse do Juscelino, recomeçássemos a conspirar para derrubar o Juscelino.

Aqueles dois episódios de Jacareacanga, PA, e Aragarças, GO, por exemplo, foram essencialmente dois movimentos um tanto românticos, dirigidos contra a corrupção de Juscelino, e não sou eu quem falo da corrupção do Juscelino, quem declara e cita fatos e tudo é o Samuel Wainer no livro ‘Minha Razão de Viver’. O Samuel Wainer era o dono da Última Hora, o jornal que apoiava o Getúlio, criado para o seu próprio apoio e depois mantido pelo Juscelino com o dinheiro maciço do Banco do Brasil.

O que o Samuel Wainer roubou do Banco do Brasil é uma loucura, e depois foi parar na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Congresso, em que aparecem todos os valores, datas e documentos” (Coronel-Aviador Gustavo Eugenio de Oliveira Borges, Tomo 10, pg. 276).

 

Jânio, o ébrio, renuncia ao mandato presidencial

“Jânio Quadros bebia em Palácio. Dizem que depois de ter entregue as medalhas no dia 25 de agosto, ele foi até o Palácio, escreveu a carta, embriagou-se e entregou a carta. Ele renunciou pensando que o Exército iria busca-lo e recoloca-lo de novo no governo. Fecharia o Congresso e seria um ditador. Ficou sobrevoando São Paulo por duas horas e ouvindo, a bordo de um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) o que se passava no País. Uma coisa de louco, inteiramente tresloucada. Infelizmente, deram posse a João Goulart. Talvez tivesse sido menos traumático não tê-lo empossado, do que ter que derrubá-lo, o que foi feito, repito, atendendo ao pedido aflito do povo nas ruas” (General-de-Brigada Augusto Cid de Camargo Osório, Tomo 14, pg. 114).

 

Campanha da Legalidade, de Brizola

“A Legalidade resultou em uma grande insatisfação nas Forças Armadas e nas classes políticas não comprometidas com o populismo, o esquerdismo e o comunismo. A partir de então, e com o apoio de uma corrente de políticos de renome nacional como Carlos Lacerda, Magalhães Pinto, Ney Braga, iniciou-se um processo de conscientização da opinião pública, que ajudou a ampliar a fissura existente no arcabouço político do País e acabou por gerar as ações que passaram a tumultuá-lo. As Forças Armadas – particularmente uma parte significativa do Exército – inconformadas com o Governo João Goulart começaram a conspirar” (General-de-Brigada Egêo Corrêa de Oliveira Freitas, Tomo 8, pg. 213).

“Surgiu o problema Jânio Quadros [renúncia à Presidência da República]. Em consequência, vagou a Presidência, que caberia ao Vice-Presidente Jango, em viagem oficial pela China. Os ministros militares, preocupados, editaram aquela circular, informando sobre o que poderia acontecer no Brasil. Um jornal da época, Hora Presente, se não me engano, declarou que não tinha visto ainda uma observação tão penetrante como aquela declaração.

Como consequência, teve início o desfile de tendências. O Brizola era o Governador do Rio Grande do Sul e desencadeou a campanha pela Legalidade. Punha a toca no telefone, no alto-falante e no rádio, dia e noite. Insultava todo o mundo e dizia coisas apavorantes como as que ouvei: ‘os postes de luz em Porto Alegre não seriam suficientes para pendurar os gorilas’. Hostilizava os militares, procurando desmoralizá-los, chamando-os de gorilas” (General-de-Brigada Ramão Menna Barreto, Tomo 13, pg. 136).

“Atribuo a reação da oficialidade jovem contra a subversão, ao estudo da guerra revolucionária, que começou a ser ministrado na ECEME e na EsAO. O conhecimento doutrinário proporcionado pelas escolas, e até mesmo aquelas reuniões sobre as quais já falei, conseguiram formar um arcabouço intelectual adequado para proteger o militar contra a subversão” (General-de-Brigada Egêo Corrêa de Oliveira Freitas, pg. 217).

 

A conspiração militar para derrubar Jango começou em outubro de 1961

“Inicialmente, farei a seguinte colocação: não houve, a meu ver, uma revolução, em 1964, mas uma contrarrevolução. Quem queria fazer uma revolução não éramos nós; reagimos à revolução que estava sendo montada. Em plena guerra leste-oeste, o Brasil era disputado pelas forças da época, de um lado lideradas pela União Soviética, China e, também, Cuba; do outro, nós, democratas dispostos a defende-lo. Fizemos a contrarrevolução. Impedimos uma revolução comunista, que transformaria o Brasil, não em uma nova Cuba, porém em uma nova China, em função da sua extensão territorial, riquezas, grande população e posição geográfica – na época o Atlântico Sul era militarmente vital. Geopoliticamente falando, se o Brasil caísse, cairia toda a América Latina. Foi dentro dessa visão contrarrevolucionária que se articulou a Revolução de 1964, ou seja, a Contrarrevolução de 1964.

Tudo tem início, a meu ver, na renúncia do Presidente Jânio Quadros, quando os três ministros militares, Marechal Odylio Denys, Almirante Sylvio Heck e Brigadeiro Grüm Moss, assumem a liderança da Nação, durante um período. O Presidente Jânio Quadros simplesmente abandonara sua cadeira de Chefe de Estado, e seu sucessor, Sr. João Goulart, já estava comprometido com as forças ponderáveis da esquerda brasileira.

Na ocasião, Jango recebe a adesão do General José Machado Lopes, Comandante do III Exército, que apoia a posição de Leonel Brizola, então Governador do Rio Grande do Sul.

Seguem-se as démarches, nos setores militares e políticos. A realidade é que os três ministros das Forças Armadas queriam dar um basta ao avanço das articulações da esquerda, desencadeadas no País com uma força incrível. Eles pensavam, até, em tomar definitivamente o Poder, fixando a data de 5 de setembro de 1961. Entretanto, as forças militares se dividiram. Uns queriam a tomada do Governo pelas forças militares, outros optavam por manter o País na frágil legalidade existente. O Comandante do Exército, combalido por uma fratura no pé e febre, marcou, mesmo assim, uma reunião com os generais para o dia 3 de setembro, às 7h da manhã, no Palácio Laguna, para tomar a posição definitiva.

Na véspera, tanto o Almirante Heck, que exercia forte liderança na Marinha, quanto o Brigadeiro Moss, haviam obtido total apoio dos seus pares. O Marechal Denys, porém, no dia da reunião, no Palácio Laguna, conseguiu apenas o apoio de poucos generais, cinco ou seis, se não me falha a memória. Terminada a reunião, o Marechal Denys chamou os Ministros da Marinha e da Aeronáutica ao seu escritório, no Palácio Laguna, e relatou-lhes o resultado do encontro.

O Almirante Heck dirige-se à sala de visitas, onde se encontravam todos os generais convocados pelo Marechal Denys, e apoiado pelo Brigadeiro Grüm Moss faz a seguinte declaração: ‘É lamentável que a decisão tenha sido de entregar o Governo ao Jango. A revolução que poderia ocorrer hoje, de cima para baixo, amanhã será feita de baixo para cima. Mandarei fazer uma placa referente ao 5 de setembro de 1961, data que marcará o início de uma longa e dura caminhada’.

Dito isto, retirou-se para o Ministério da Marinha, acompanhado pelo Brigadeiro Grüm Moss e pelo Capitão-de-Fragata José Calvet Aranha, mais tarde Almirante; também me encontrava no carro com eles, nesta ocasião. Entregou-se o Governo ao Jango. Um grupo da Aeronáutica tentou, ainda, uma reação que o Brigadeiro Moss conseguiu evitar.

Um mês depois, no Edifício Avenida, na Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, realiza-se a primeira reunião, para se articular a Revolução de 1964, presidida pelo Almirante Heck. Estavam presentes, também, do Exército: Marechal Odylio Denys, General José Pinheiro Ulhôa Cintra, enteado do Presidente Dutra; da Aeronáutica: Brigadeiro Grüm Moss e outros; da Marinha: Almirantes Silveira Lobo, Acir de Carvalho Rocha, Augusto Rademaker, Mário Cavalcante, Levy Aarão Reis e Heitor Lopes de Sousa, este do Corpo de Fuzileiros Navais; do Itamaraty: Embaixador Abelardo Hermann Moraes e Barros, Osvaldo Américo Campiglia, e os médicos Nemésio Bailão e Sílvio Fausto, este muito amigo do Dr. Júlio de Mesquita Filho.

Coube-me secretariar este encontro memorável em que se decidiu iniciar o processo de articulação junto às Forças Armadas e à sociedade civil.

Como havia alguns representantes de grupos civis paulistas, na reunião, o processo começou em São Paulo, no meio civil. Em seguida, formou-se um núcleo chefiado pelo General Agostinho Cortes e outro coordenado pelo General Sebastião Dalysio Menna Barreto. Precisou-se ampliar com a formação de um terceiro grupo de coordenação e suporte financeiro, chefiado pelo Dr. Júlio de Mesquita Filho. Dele fazem parte: Dr. Gastão Vidigal, Dr. Hermann Moraes e Barros, Dr. João Bapstista Leopoldo Figueiredo, que fundou, logo em seguida, o Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais (IPES), órgão de relevante influência no processo conspiratório” (Doutor Carlos Eduardo Guimarães Lousada, Tomo 7, pg. 342-343).

“Com a queda do parlamentarismo, João Goulart sentiu-se livre para fazer o que queria: implantar no Brasil uma república sindicalista, nos moldes peronistas. Os acontecimentos foram se precipitando; todos viam e sentiam que caminhávamos para um regime de esquerda implantado pelo próprio Governo. Como E/1 (Oficial de Informações) da 10ª. Região Militar, em Fortaleza, trabalhei no preparo do que seria uma contrarrevolução, ou seja, planejando as ações que deveríamos desencadear após a possível implantação comunista no País.

Naquele momento, ainda sem nenhuma orientação do escalão superior, sem nenhuma orientação de um líder – porque ainda não tínhamos líder -, estávamos trabalhando, preparando essas ações. A ideia central era esta: se implantado um regime comunista, deixaríamos os quartéis, levando a maior quantidade possível de armamento e equipamento para o interior. Iríamos para zonas previamente escolhidas, solidários aos líderes rurais, onde montaríamos núcleos de resistência para derrubar o regime anárquico que seria instalado” “General-de-Brigada Gentil Nogueira Paes, Tomo 12, pg. 140).

“É preciso que a opinião pública entenda que o objetivo de 1964 não foi uma ação de tomada do Poder. Houve apenas uma contraposição ao que estava ocorrendo. Lembro que no Rio de Janeiro o Almirante Aragão havia cercado o Palácio do Governo do Estado, cujo Governador [Carlos Lacerda] foi obrigado a usar a retransmissão de uma estação de rádio de Belo Horizonte para denunciar o cerco. O Exército tem nos seus arquivos uma gravação da primeira reunião do Partido Comunista Brasileiro depois do 31 de março. Na sua autocrítica eles reconhecem que a precipitação da esquerda em tentar a tomada do Poder foi uma das causas do fracasso” (General-de-Brigada Léo Guedes Etchegoyen, Tomo 8, pg. 180).

 

O DITO “ESQUEMA MILITAR” DE JANGO

“O General Osvino, à frente da Petrobras, pagou todas as despesas com os comícios da Central do Brasil e do Automóvel Clube. Era o dinheiro da Nação a serviço dos comunistas e corruptos” (Tenente-Coronel Murilo Walderk Menezes de Serpa, Tomo 4, pg. 205).

“Os militares viviam ansiando por um lar onde pudessem viver condignamente com a família. Aí, João Goulart entrou, prometendo financiamento pleno para a aquisição da casa própria a quem levasse um requerimento em sua presença. Ele despachava: ‘Aprovo’, e a Caixa Econômica atendia. Conheci vários militares que tiveram os seus requerimentos aprovados e adquiriram sua casa própria financiada pela Caixa Econômica a perder de vista. Desta forma, o Governo considerava que estava preparando um dispositivo militar que lhe daria total cobertura para seus planos de implantação da república sindicalista-comunista dos seus sonhos. Muitos subtenentes e sargentos do Exército foram ao Automóvel Clube do Brasil naquela noite com o requerimento dentro de uma pasta para conseguir o ‘aprovo’, que lhes daria o financiamento da casa própria até um determinado valor, como acontecera com alguns conhecidos meus” (Coronel Italo Mandarino, Tomo 3, pg. 189).

“O esquema militar foi montado com base em favores e não em adesão espiritual, de consciência. O General Assis Brasil, através da Presidência da República, prometia às pessoas, de vários níveis, que se comprometessem com ele, uma série de favores. Vários coronéis foram promovidos a generais, nessas condições. Ele influía nas promoções, concedia benefícios financeiros pessoais através de organizações, como, por exemplo, a ‘Casa dos Sargentos’, ‘Casa dos Cabos’, ‘Casa dos Tenentes’ etc. Ele criou um esquema, mas não era um esquema de consciência. Quem tinha essa consciência éramos nós.

A prova disso é que os comandos da Vila Militar quando quiseram deslocar tropas para nos confrontar, não conseguiram. Era consenso entre eles que, como deslocavam a tropa na época dos comícios a título de segurança, para dar apoio e proteção à cidade, a deslocariam em outras ocasiões. Enganaram-se redondamente. Aqueles deslocamentos envolviam dois aspectos. Oficialmente, por exemplo, o Batalhão de Polícia do Exército vinha para o comício da Central do Brasil proteger o povo contra a desordem etc., mas, para eles, a tropa lá estava porque os apoiava. Imaginavam que era uma adesão à causa deles. Houve, pois, da parte deles, muita mistificação, e um erro crasso, confundiram as coisas, e acabaram literalmente derrotados” (General-de-Exército Carlos de Meira Mattos, Tomo 1, pg. 230-231).

Jango era assessorado por maus conselheiros

“Parece-me que o Sr. João Goulart estava inteiramente alheio a qualquer problema, por culpa dos seus auxiliares mais próximos, os quais os historiadores apontam como formuladores de ilusões. Entre eles, o Chefe do Gabinete Civil, Professor Darci Ribeiro, e o secretário de imprensa, Raul Ryff. Por isso, tomou como sendo da sociedade aquilo que os seus assessores pensavam. Mas a sociedade tinha um pensamento muito diferente e se sentia cada vez mais aflita com aquela situação” (General-de-Brigada Danilo Venturini, Tomo 15, pg. 152).

Comunista febiano na ECEME

[Na ECEME] Uns poucos alunos assumiram claramente posição contrária à Revolução. Quando o diretor de ano suspendeu as aulas, dois deles foram fazer parte de um grupamento que saiu do Rio e subiu a Serra para barrar as tropas que vinham de Minas, inclusive um muito conhecido, o Major Granja (Alirio Granja), Oficial de Infantaria que participou da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Profissionalmente era muito bom, mas comunista convicto. Lembro que durante as manobras que fazíamos no campo, o Granja não comia a etapa da ração dele. E quando a meninada se acercava do acampamento, pedindo sobras de comida, ele a distribuía toda, justificando:

- É um absurdo que existam brasileiros passando fome.

Algum aluno ou instrutor foi cassado? [entrevistador]

Instrutor, não me lembro. Houve algumas cassações de alunos. O Granja foi com o grupamento comandado pelo General Cunha Mello (Luiz Tavares da Cunha Mello) enfrentar os revoltosos do General Mourão (Olympio Mourão Filho) e como não tiveram êxito na missão, apresentou-se na Escola e, de imediato, requereu o seu desligamento e transferência para a reserva. Era um sujeito correto, e por isso teve sorte. Os esquerdistas que não se anteciparam, inclusive um colega do segundo ano, responderam a um inquérito. Tentaram negar qualquer ligação com a subversão, mas acabaram sendo cassados” (Coronel Hélio Lourenço Ceratti, Tomo 13, pg. 187-188).

 

Lista negra do General Assis Brasil

“Durante o Comando do General Jair, até maio de 1963, quando foi convidado para o cargo de Ministro da Guerra, aconteceram as transferências dos oficiais que, em 1961 e também mais tarde, havia sido considerados pelo agora General Assis Brasil e comparsas como contrários à posse e à permanência do Vice-Presidente no governo. O curioso é que, dentro do nosso limite de atuação, a expressiva maioria dos oficiais, que foi movimentada como ‘castigo’, era favorável à solução constitucional, isto é, à posse do Vice-Presidente João Goulart.

Trouxe aqui uma cópia de documentos encontrados em 1964 na residência do Brizola, nos quais o General Assis Brasil [Chefe da Casa Militar do Governo Jango] acusa seus colegas de farda de serem opositores ao Governo do Jango. Nesta nota está a relação dos oficiais sujeitos ao pedido de afastamento: Raphael Zipin, Milton Baptista Pereira, Telmo de Oliveira Sant’Anna (Asperante da Arma de Cavalaria de 1940), Jayme Moreno e Décio Barbosa. Estou eu aqui nesse pacote, sei lá por quê; Mas um fato interessante: essa movimentação, como já falei, só foi acontecer depois de 1961

“Vivíamos, em nossos apartamentos [da EsAO], em clima de tensão, porque corria muita história, muito boato e o que ocupávamos dava a frente para a Brigada Pára-quedista. Dizia-se que os sargentos para-quedistas iriam tomar aqueles apartamentos e nos prender ou qualquer coisa assim. Dávamos guarda à noite, armados, era uma escala de serviço que durou os 15 dias que antecederam a Revolução. No dia do Movimento estávamos escalados de serviço” (General-de-Exército Domingos Miguel Antonio Gazzineo, Tomo 4, pg. 35).

“Já no Mec [3º. Regimento de Reconhecimento Mecanizado], a situação ficou muito difícil porque havia uma nítida separação [entre oficiais e sargentos]. Durante o dia parecia tudo normal, mas à noite os oficiais dormiam no pavilhão da administração e os sargentos nos esquadrões e cada grupo dava ronda para o seu lado, separados, como se estivessem se protegendo uns dos outros. Quando clareava o dia, a tranquilidade voltava ao quartel, era como se nada houvesse acontecido. Tudo porque realmente o Comandante nunca chamou os oficiais e sargentos para dizer o que estava acontecendo e de que lado estava a Unidade” (General-de-Divisão Lélio Gonçalves Rodrigues da Silva, Tomo 8, pg. 161).

 

O “Paralelo 38”

“Desconfiávamos da unidade que partilhava o antigo aquartelamento ‘40’ [1º. Grupo de Canhões Automáticos Antiaéreos 40mm]. Havia o que chamávamos de ‘paralelo 38’, evocando o que se passara na divisão da Coréia, pois o quartel era dividido com o 24º. BIB (Batalhão de Infantaria Blindado, que atualmente se encontra aquartelado em Bonsucesso). Dizia-se que o pessoal do 24º. Estava sendo influenciado pelos líderes favoráveis a João Goulart. Então, nós não atravessávamos o ‘paralelo 38’, chegando-se ao absurdo de deixar armas automáticas, e até cachões, apontados, dentro dos parques, contra o vizinho do lado. Esse era o clima. Além disso, desconfiava-se de alguns chefes militares, nitidamente contrários ao pensamento dominante no Exército, e que não escondiam o fato de esposarem idéias marxistas-leninistas desde 1935.

Havia, pois, uma divisão no interior dos quartéis em facções pró e contra, sendo que, evidentemente, a maioria era contrária àquele estado de coisas que o Governo alimentava. Grande maioria” (Coronel Luiz Paulo Macedo Carvalho, Tomo 1, pg. 286).

“Nesse período, servindo no 3º. Regimento de Infantaria (3º. RI), em Niterói, RJ, jovem tenente ainda, lembro-me bem que a divisão entre militares de direita e de esquerda nos trazia muita inquietação e até uma certa aflição, por não sabermos quem era quem. Um ambiente que realmente contrastava com a nossa formação militar, assentada na hierarquia e na disciplina. No 3º. RI o oficial-de-dia não dormia: passava a noite de metralhadora na mão, acordado, indo aos postos, preocupado com a segurança.

Para que se tenha a ideia da desordem que ocorria no interior da caserna, cito um graduado, 3º. Sargento Quintaninlha, que era o presidente da Associação dos Subtenentes e Sargentos de Niterói, e que se ligava diretamente com o Presidente da República. Certa vez, passando bem próximo às dependências do Estado-Maior do Regimento, ele chamou-me e disse: ‘Aspirante, vou falar com Jango!’ Realmente, fez a ligação e era Jango quem estava na linha. Essas coisas contrastam com a cadeia de comando. Era a fase das greves, da indisciplina, dos chamados ‘generais do povo’, nós que somos generais do Exército Brasileiro. Povo somos todos nós, mas ‘generais do povo’, isso já é populismo demais.

Cito alguns nomes, permitam-me, pois este é um testemunho fidedigno. Era Comandante do I Exército o General Osvino Ferreira Alves que, durante visita ao 3º. RI, depois de passar em revista a tropa, tirou a túnica e, pendurando-a no ombro, dirigiu-se ao refeitório dos oficiais, para a apresentação individual. Após suas palavras, recebeu alguns apupos; os tenentes estavam insatisfeitos... divisão realmente! Lembro-me, também, do Almirante Cândido Aragão sendo carregado nos ombros pelos marinheiros e fuzileiros” (General-de-Divisão Théo Espindola Basto, Tomo 12, pg. 128).

“Ninguém sabia direito de que lado estava este ou aquele sargento. Como proceder durante o serviço de oficial-de-dia? Procurava-se, primeiro, saber qual a posição do Adjunto, bem como do Comandante da Guarda, e depois a dos sargentos-de-dia das subunidades para se ter um pouco mais de tranquilidade ou, quem sabe, de mais tensão. Dormir no quarto do oficial-de-dia, jamais. O tenente entrava no aposento, chaveava a porta, abria a janela, saltava-a e passava o resto da noite em outro lugar do Regimento.

Durante as rondas noturnas, era comum perceber-se que havia alguém nos seguindo ou nos observando na escuridão. Nunca foi possível saber quem era. Uma noite, estando de oficial-de-dia, escutei uma rajada de metralhadora no fundo do quartel. Corri até lá e não vi nada, tampouco qualquer coisa. Ninguém sabia de nada. Alguns escutaram os tiros mas não sabiam dizer quem os dera, outros sequer os ouviram. Registrei no livro de partes, mas tudo ficou por isso mesmo. Durante o dia, quando os tenentes e aspirantes ministravam instrução para os soldados, podia-se ver que alguém ficava espreitando de longe, escutando o que o instrutor dizia para seus instruendos. Normalmente era um cabo ou soldado antigo do 2º. Batalhão [ID/6, Pelotas, RS], a mando de alguém de lá” (General-de-Brigada Flávio Oscar Maurer, Tomo 8, pg. 317-318).

“Na verdade, não havia esquema militar. O General Assis Brasil, Chefe da Casa Militar, pensava que possuía um esquema militar que, simplesmente, nada tinha de concreto. Ele e seus assessores se empenharam para criar o tal esquema em determinadas guarnições e em algumas Grandes Unidades, como na Brigada Pára-Quedista, onde muitos sargentos receberam, naquela oportunidade, um financiamento para comprar casa pela Caixa Econômica. Isso influiu no desempenho da Brigada, que ficou dividida e acabou não saindo, deixando de manifestar-se, não optou por lado nenhum, porque as coisas, lá, não estavam bem. Enquanto o General Muniz Aragão não chegou, a Brigada mostrou-se indecisa.

O grupamento de tropas que se voltou contra Minas, partindo do Rio, foi comandado pelo General Cunha Melo. Ele, por exemplo, achava que a guerra estava ganha. Perdeu, porque não sabia que o Comandante do Regimento Sampaio – Coronel Raimundo – na verdade, um revolucionário, contribuiria, decisivamente, para a sua derrota.

Nesse ponto surgiu um dos líderes da Revolução, que esqueci de citar anteriormente, cometi um lapso – o Marechal Odylio Denys. Ele foi para Juis de Fora, antes da eclosão da Revolução, conseguiu ligar-se com o Coronel Raimundo, seu ex-Assistente, solicitando que ajudasse as tropas mineiras a tirar o Brasil das mãos despreparadas de Jango e do fanfarrão Brizola, que faziam o jogo dos comunistas infiltrados no Governo, nos sindicatos e nas Forças Armadas.

Com a adesão do Coronel Raimundo, as coisas ficaram feias para o lado dos janguistas” (Coronel Henrique Carlos Guedes, Tomo 3, pg. 261).

“É coisa natural, infelizmente existe uma banda podre e outra boa. Todos os elementos que integravam a banda boa não aceitavam os desmandos e as manifestações de indisciplina, correntes no Governo Goulart, que, por sua vez, valeu-se da banda que convivia bem com a anarquia generalizada.

O Comandante do Primeiro Batalhão de Caçadores (1º. BC) de Petrópolis, por exemplo, deslocou sua tropa e, no corte do rio Paraibuna, cerca das 18h de 31 de março, estabeleceu contato com o Destacamento Tiradentes que descia de Minas. As duas tropas se enfrentaram; as tentativas de entendimento não lograram sucesso; um tenente do BC passou para o nosso lado, convencido da pureza dos ideais que defendíamos. Criada a situação de fato, foi notificado, ao Comandante do BC, de Petrópolis, que o Destacamento atacaria logo que as circunstâncias o permitissem. Nesse instante, desfez-se a resistência e o Comandante do Batalhão desapareceu, proporcionando um triste exemplo. No avanço para o Rio de Janeiro, recolhemos, na estrada, soldados do Batalhão de Petrópolis abandonados por seu comando.

Qual o nome do Comandante do Batalhão de Petrópolis [entrevistador]?

Coronel Kerensky (Coronel Kerensky Túlio Motta) (General-de-Brigada José Antônio Barbosa de Moraes, Tomo 2, pg. 205).

“Quando no Escav [Escalão Avançado do Conselho de Segurança Nacional], em Brasília, ouvi – não é anedota – que Jango no Aeroporto de São Borja, ao embarcar de avião que o levaria para o Uruguai, voltou-se para o General Assis Brasil, seu Chefe de Gabinete Militar, e disse-lhe, no melhor sotaque de gaúcho fronteiriço:

- General, muito obrigado por tudo. Agora, queria lhe dizer uma coisa: aquele seu dispositivo militar... Mas que dispositivo de m... E soltou o palavrão adequado.

Não havia dispositivo algum, a não ser que se dê esse nome a uns poucos oficiais e generais que estavam do lado de Jango, uns por ideologia, outros por puro aventureirismo. Excetue-se a figura por todos os títulos respeitável do General Ladário Pereira Telles, Comandante da 1a. Região Militar e que aceitou assumir o comando do III Exército em Porto Alegre. Pelos motivos que já expus.

Aventureirismo semelhante ocorreu na Marinha, onde de destacaou o inefável Almirante de Fuzileiros Cândido Aragão. Assinale-se ter sido na Marinha que ocorreu o maior número de cassações” (Coronel Luís de Alencar Araripe, Tomo 2, pg. 242-243).

“Conforme havia sido acertado na comunicação pela Rede da Presidência, o Presidente João Goulart foi de avião para Porto Alegre, acompanhado da mulher e filhos. De Porto Alegre, foram, por terra, para o Uruguai.

Até o Presidente e sua família chegarem ao Uruguai, o Exército tratou de protege-los, já que um acidente com eles poria por terra, de certa forma, a brilhante vitória da Revolução, sem mortes e sem derramamento de sangue. Um fato, sob todos os aspectos, extraordinário.

Coube ao Itamaraty, por intermédio de nossa Embaixada em Montevidéu, avisar da chegada, a salvo, dos viajantes, Jango e família, à sua estância. A notícia trouxe um alívio geral!” (Coronel Alcio Barbosa da Costa e Silva, Tomo 14, pg. 213).

Obs.:

O Coronel Alcio é filho do Presidente Costa e Silva.

F. M.

 

GENERAIS, ALMIRANTES E BRIGADEIROS DO POVO

 

“A política partidária e a oferta desabrida de empregos e outras benesses constituíram uma tentativa de criar cisão nos quadros das Forças Armadas, mas, em maior intensidade, na Marinha e na Aeronáutica.

 

Militares como o General Henrique Baptista Duffles Teixeira Lott, Almirante Pedro Paulo de Albuquerque Suzano e o Brigadeiro Francisco Teixeira, em fase inicial, para citar apenas os de mais alta patente e mais responsáveis, por suas ambições políticas e por simples escravidão ideológica, fugindo aos seus juramentos profissionais e ao respeito ao Estatuto dos Militares, tentaram subverter a ordem e a disciplina castrenses, lançando oficiais contra oficiais, sargentos contra oficiais, desrespeitando as Instituições, praticando ações político-partidárias dentro dos quartéis, protegendo graduados e oficiais ligados ao esquema governamental da época. De outro lado, líderes civis e altas patentes das Forças Armadas – Ademar de Queiroz, Sylvio Heck, Grüm Moss – buscaram preservar a disciplina nas Forças Armadas.

 

Posteriormente, Almirante Aragão, Generais Osvino Ferreira Alves, Assis Brasil e o Brigadeiro Teixeira foram os que mais atuaram para fomentar a discórdia nas Forças Armadas, com a quebra da disciplina, o estímulo à desobediência, esteios das ações subversivas que caracterizaram o Governo Goulart.

 

São exemplos as inúmeras transferências de oficiais do Exército para as Circunscrições de Recrutamento, Nordeste e Amazônia, a discriminação de oficiais para missões no exterior etc. Outros, foram a revolta dos sargentos em Brasília, a baderna dos marinheiros e fuzileiros navais, as tentativas de organização de clubes de cabos e soldados nos moldes das organizações trotsquistas de 1916 e 1917” (General-de-Brigada Hélio Ipiapina Lima, Tomo 2, pg. 170-171).

 

“Quando Major, Comandante do Forte dos Andradas, fui ativo participante da Contra-Revolução de 1964, tendo ocupado simultaneamente a Refinaria Presidente Bernardes e encarregado de IPM, na Alfândega de Santos, à revelia do então Comandante da Guarnição, General Carlos Buck, um dos ‘Generais do Povo’ de então. Aquela missão me custou uma prisão” (Coronel Antonio Erasmo Dias, Tomo 7, pg. 143).

 

“Concluí a EsAO no final de 1963. O Ministro, General Jair, não permitiu que naquele ano os capitães da EsAO ficassem no Rio de Janeiro. Acho que ele não foi hábil: dispersou pelo Brasil inteiro centenas de capitães descontentes e doutrinados. Estudáramos a guerra revolucionária durante o curso e acreditávamos – era opinião dos instrutores e da maioria dos alunos – que já estávamos imersos em um de suas fases” (General-de-Divisão João Carlos Rotta, Tomo 8, pg. 136).

 

“Segundo soubemos a posteriori, o Almirante Aragão deixou de marchar sobre o Palácio Guanabara porque o General Amaury Kruel, Comandante do II Exército, aderiu ao Movimento. Kruel chegou a fazer vários apelos ao então Presidente João Goulart para que fizesse uma declaração contrária aos comunistas. Avaliava o General Kruel que conseguiria travar o Movimento, mas Jango evitou fazê-la. Diante da negativa do Presidente, ordenou às tropas sob seu comando que marchassem em direção ao Rio de Janeiro. O Comandante do I Exército, General Moraes Âncora, que até a reunião nas Agulhas Negras com Kruel, segundo nos foi relatado, estava rigorosamente neutro, deu um ultimato ao Almirante: ‘Não venha, porque senão vai enfrentar o Exército’. Aragão era ‘posudo’, falastrão, mas tinha bom-senso e mudou de ideia, desistindo do ataque ao Palácio Guanabara, cujas consequências seriam trágicas para nós” (Doutor Emílio Antonio Mallet de Souza Aguiar Nina Ribeiro, Tomo 10, pg. 245).

 

Obs.

 

Nina Ribeiro foi deputado estadual e federal pelo Rio de Janeiro, e é “trineto, por parte de mãe, do Marechal Emílio Luiz Mallet, Barão de Itapevi, Patrono da Artilharia Brasileira” (pg. 242).

 

F. M.

 

“Tínhamos oficiais que eram considerados comunistas, como o General Assis Brasil, o Jeová Mota – que é lá de Pernambuco. Aliás, o General Ibiapina relata isso muito bem. Quem desencaminhou, doutrinou o Gregório Bezerra, que era sargento, foi o Jeová Mota. Se bem que o Kerenski Mota, que comandou o Batalhão de Petrópolis, embora o nome leve alguma relação, nunca se revelou comunista, como o irmão. Conta um oficial que assessorava de perto o Castello que ele vacilou na hora de assinar o ato de transferência para a reserva do Kerenski Mota, depois do devido inquérito. A caneta falhou e o oficial que estava secretariando o Castello puxou uma ‘Bic’ e disse: ‘General, essa aqui não falha’. Era um oficial altamente conceituado, principalmente, pelo Castello. Nunca senti esse esforço de doutrinação. Havia os naturalmente voltados para o comunismo como é o caso do Luís Carlos Prestes, na Intentona. Ele, com seus seguidores, que enlutaram o 3º. Regimento de Infantaria com os assassinatos dos seus companheiros democratas quando dormiam. Aquele pessoal já era comunista e desenvolveu uma atividade de doutrinação em alguns oficiais.

 

(...)

 

(...) Lembro de um que era até meu aluno de inglês que se gabava do dispositivo militar do Jango: ‘Ah!, o dispositivo militar do Jango é muito bom, muito forte e ele vai fazer e vai acontecer’. Respondi-lhe: ‘Olha, esse dispositivo do Jango, na minha opinião, é fictício, porque os que são conhecidos não têm destaque, os militares de projeção não estão com o Jango’. Ele citou: ‘Assis Brasil, Jeová Mota, Osvino e Napoleão Nobre’. ‘Eles não têm expressão no meio militar. Os que têm são altos chefes militares: Castello Branco, Penha Brasil, Costa e Silva etc.’ Esse cidadão era um civil, mas aí a discussão cessou” (General-de-Brigada Celso dos Santos Meyer, Tomo 10, pg. 135-136).

 

Obs.

 

O Presidente Jair Messias Bolsonaro também usa uma “Bic”, que às vezes falha, por obra da judicialização política do STF, subserviente aos partidos de esquerda, como a nomeação do delegado Alexandre Ramagem para o cargo de Diretor-Geral da PF.

 

F.M.

 

“Quando estava na ECEME, nos dias que se seguiram à Revolução, cheguei a ser telefonista de dia revezando com o Malan. Num desses telefonemas, dado por pessoa desconhecida, recebi o seguinte informe: os senhores estão querendo prender o Almirante Aragão – o almirante Fuzileiro Aragão era elemento altamente subversivo. E, eu disse: ‘gostaríamos sim’. E me informaram: ‘Se quiserem prendê-lo, ele agora está na casa de uma senhora de quem ele é amante. Ele era chegado a essa atividade que aliás era uma atividade interessante – ser mulherengo.

(...)

Com a decisão do General [Mamede], foi pedido ao Almirante Heitor, já falecido também, que fosse prendê-lo com alguns fuzileiros contrários ao Almirante Aragão. E, assim foi feito, e, desta forma, ele acabou preso” (Coronel Hernani D’Aguiar, Tomo 9, pg. 173-174).

“Com a renúncia do Jânio Quadros e com a posse do Presidente João Goulart, o General Santa Rosa foi nomeado comandante. Ele assumiu o comando da Brigada, ainda, com a denominação de Núcleo da Divisão Aeroterrestre. Ele vinha do Rio Grande do Sul, estava com o Governador Leonel Brizola.

(...)

Os oficiais e sargentos de todas as unidades paraquedistas se reuniram naquela sala. Fui conhecer o novo comandante – General Santa Rosa – e fiquei surpreso, levei um susto, um susto muito grande, porque ele subiu numa mesa, num tablado, nós sentados – oficiais e sargentos – e disse assim: ‘Quero falar com os sargentos paraquedistas, quero cumprimentá-los porque vocês não cumpriram as ordens de seus oficiais’. Era inadmissível para mim, presenciar o General comandante em flagrante desrespeito aos princípios basilares da Instituição.

Diante de tal absurdo, passamos a nos envolver cada vez mais naquele movimento para derrubar, destruir aquele império – o soviético – que usava um movimento que se chamava Movimento Comunista Internacional, pretendendo ocupar um país continental, o Brasil, geoestrategicamente área de influência e de interesse do outro império – o norte-americano. Sentimos que a ameaça era muito maior do que aquela que tínhamos imaginado e precisávamos, sim, o mais rápido possível, acelerar aquilo e evitar o mal maior, porque a disciplina começou a cair visivelmente. Como um General-de-Brigada assume um Grande Comando de uma tropa tão preparada como a nossa e o seus primeiro ato é pregar a indisciplina, é jogar os sargentos contra os oficiais? Aquilo foi demais para mim” (General-de-Brigada Durval Antunes Machado Pereira de Andrade Nery, Tomo 10, pg. 160).

“No IME, não sentimos o problema da indisciplina porque, como alunos, não tínhamos subordinados, éramos responsáveis por nós mesmos. Mas sabíamos que nos quartéis havia problemas sérios de indisciplina. Certo dia, perto do Iate Clube, na Avenida Pasteur, encontrando um amigo, Capitão-Tenente, que servia numa Unidade da Marinha, no Rio de Janeiro, ele me contou que partira para a luta corporal com um cabo, seu subordinado, que se recusava à ordem de faxina.

Ora, quando uma Força Armada chega a uma situação dessa natureza, é sinal de que estamos diante de uma crise. Pois se a disciplina e a hierarquia – esteios da Instituição Militar – deixam de existir, algo vai muito mal. Infelizmente, era este o quadro precedente à Revolução. Oficiais da alta hierarquia das Forças Armadas, principalmente do Exército e da Marinha, davam-nos maus exemplos. O Almirante Aragão, Comandante do Corpo de Fuzileiros Navais, era chamado de ‘almirante do povo’ ” (Tenente-Coronel Affonso Taboza Pereira, Tomo 12, pg. 218-219).

 

General queria saber o que a “laboriosa classe dos sargentos precisava”...

“Um general que eu tinha em algo conceito inspecionou o Regimento e foi uma decepção para mim. Havíamos preparado vários temas táticos para que, mediante escolha dele, pudéssemos realizar uma demonstração no terreno. Terminada a inspeção da tropa, ele reuniu os sargentos no ginásio do 18º. e perguntou – palavras que me repetiram; eu não escutei – o que a laboriosa classe dos sargentos precisava.

Ora, no Exército não existe classe, existe hierarquia. Como é que um general vem nos inspecionar e fala em classe dos sargentos? E a decepção foi maior, porque ele retirou-se do Regimento sem ouvir ninguém sobre a eficiência da Unidade, nem a mim que estava encarregado da instrução e a nenhum outro oficial. Nós nos preocupávamos com isso” (General-de-Brigada José Mattos de Marsillac Motta, Tomo 13, pg. 104).

“Nessa época, o ambiente reinante no quartel não era de confiança. A hierarquia e a disciplina, dois fundamentos da carreira militar, não estavam sendo respeitados. Testemunhei algumas ações ligadas ao objetivo de conquistar a confiança de cabos e sargentos. No final de 1963, o General Jair Dantas Ribeiro, Ministro do Exército [na verdade, Ministro da Guerra], visitou a Guarnição de Santa Maria. O programa constou, em relação aos oficiais, apenas a apresentação de praxe, mas fez uma reunião com todos os cabos e sargentos da Guarnição, sem a presença da oficialidade, o que nos deixou desconfiados e apreensivos. Em seguida, foi embora.

Na minha subunidade, havia um terceiro-sargento chamado Pozzibom, que tomava conta da casa do General Osvino Ferreira Alves, que era de Santa Maria e lá mantinha essa moradia. Esse graduado liderava os demais sargentos da Guarnição e mantinha uma intimidade muito grande com o General Osvino, um dos sustentáculos de Jango. O sargento Pozzibom fora transferido da Guarnição. Eu, que era o Subcomandante, informei-lhe que iria publicar no boletim a sua transferência. Ele me respondeu que não o fizesse, porque seria revogada em breve. Dois ou três dias depois, chegou uma comunicação, cancelando a transferência.

Eu não era bem visto na Unidade, porque me opunha àquele ambiente, até de hostilidade, em que se vivia. Certa vez, a Unidade entrou de prontidão e só pude ser avisado mais tarde, pois não estava em casa. Quando cheguei, o Comandante já havia mandado distribuir o armamento e a munição para todos. Fui ao seu encontro e disse-lhe que se deveria recolher a munição da tropa – sargentos, cabos e soldados – porque não havia confiança. Autorizou-se a resolver o assunto. Coloquei a tropa em forma, expliquei que tinha havido um engano de munição entre a pistola Colt 45 e a metralhadora INA, e mandei que passassem em coluna, um por um, a fim de que fosse depositada, na lona previamente colocada no chão, a munição recebida. Já era noite e todos cumpriram a ordem. Levei a munição para a reserva de armamento, onde permaneceu com uma guarda. Para maior precaução, no dia seguinte conversei com o capitão que me autorizou a tirar o percussor de todo o armamento da tropa. Então, passamos a ter tranquilidade no quartel. Mas esse era o ambiente reinante” (Engenheiro João Paulo Simões Accioly de Carvalho, Tomo 12, pg. 286-287).

Obs.:

O engenheiro João Paulo foi oficial do Exército. Em 1964, era aluno do IME, onde cursou Engenharia Elétrica.

F. M.

 

Palestras sobre Guerra Revolucionária são feitas nos quartéis

“Eu convidei uns companheiros ilustres, como o Coronel Meira Mattos, depois General, bem como o Chefe do Estado-Maior da 1ª. Região, de quem não me recordo o nome, para fazerem palestras sobre Guerra Revolucionária. Fui denunciado, e, por isso, exonerado do Comando do “G Can 40.

Posteriormente, fui para São Paulo. Companheiros nossos, principalmente o Chefe do Gabinete do Marechal Castello, no Estado-Maior do Exército, conseguiram uma vaga em São Paulo, na 2ª. Região Militar, cujo comandante era o General Olympio Mourão Filho. No II Exército estava o Pery Constant Bevilaqua, homem incerto, enigmático.

Dizia: ‘Eu prego a Constituição, eu sou descendente de Benjamim Constant’, e, com isso, ele não fazia nada” (General-de-Brigada Augusto Cid de Camargo Osório, Tomo 14, pg. 116).

 

Casais compram armas e fazem treinamento de tiro

“[Na 2ª. Região Militar] coube-me dar uma dimensão a esse esforço, procurando ligações até mesmo no meio civil, na classe produtora, em toda parte. Tivemos integral apoio do Governador do Estado. O doutor Adhemar de Barros era contrário ao comunismo, enfrentava o Jango na televisão e nos dava todo o apoio. O Secretário de Segurança era o General Albérico Barbosa, que sempre nos apoiou. A Polícia Militar – muito bem comandada pelo General Franco Pontes – também estava conosco. Comecei a ‘trabalhar’ os comandantes de Unidades do Exército na área, ligando-me a eles estreitamente, conversando, visitando, quase todos meus colegas de turma da Escola Militar.

Desta forma, o meu trabalho pôde crescer, contando com a irrestrita solidariedade de muitos compatriotas. Junto à população houve uma ação muito bem-feita pelo General Menna Barreto – muito bem-quisto na sociedade. Ele fez até com que casais comprassem armas e fossem realizar treinamento de tiro por ele coordenado. Era um trabalho psicológico feito junto à população, assustada com os desvarios daquele Governo míope e antinacional” (General-de-Brigada Augusto Cid de Camargo Osório, Tomo 14, pg. 117).

 

Primeira reação pacífica popular anticomunista

“Na realidade, a minha participação nos pródromos da Revolução de 31 de Março de 1964 começou em 1961, quando, indignado pela falta de reação, naquela época, aos fatos graves que estavam acontecendo no Brasil, idealizei e realizei, em 27 de novembro de 1961, às 17h, junto ao Monumento aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, com o pseudônimo de José Carlos Gomes, a primeira reação pacífica popular anticomunista da década de 1960.

Ela teve o objetivo de alertar a opinião pública brasileira contra a infiltração comunista no País; contra a corrupção e a subversão que ameaçavam a vida nacional; levantar o moral do povo para uma possível luta e para protestar contra a política exterior do Brasil, principalmente a de apoio a Cuba.

Na ocasião, eu era capitão-aluno da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais. Organizei o comício contando com a cooperação de membros da família de minha esposa, que era grande; do doutor José Carlos, da Confederação Nacional do Comércio; da Liga Faminina Anticomunista; do jornalista Álvaro Americano, dos jornais O Globo e Tribuna da Imprensa e, também, do Palácio Guanabara.

Contei com a segurança oferecida pelo doutor Boré, do Departamento de Ordem Política e Social – DOPS. Tive apoio de Dom Jaima Câmara, do Monsenhor Bessa, doutor Cecil Boré e da Confederação Nacional do Comércio. O comício contou com a participação de associações religiosas, Liga Feminista Anticomunista e do povo em geral. Usaram da palavra Niaze Gerude, sob o pseudônimo de José Carlos Gomes, Dona Dulce Magalhães, Herculano Carneiro, Paulo Sérgio Carneiro, Angel Aparecido, refugiado cubano, Padre Pancácio Dutra e Erodines Saraiva” (General-de-Brigada Niaze Almeida Gerude, Tomo 11, pg. 90).

Obs.:

O General Niaze informa, ainda, na pg. 91, que publicou o livro “O Movimento Revolucionário de 1964 e a Verdade dos Fatos”.

F. M.

 

Grupos de Combate com 5 integrantes (GC-5), de Newton Cruz

“Participei de reuniões de conspiração, que se aceleraram desde o início de março de 1964, quando cursava o segundo ano da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME).

Em determinada ocasião, fui convidado pelo Tenente-Coronel Newton Cruz (Newton Araújo de Oliveira e Cruz) a participar de um grupo de combate, com cinco integrantes, para determinadas missões de caráter excepcional. Segundo ele nos deu ciência, este era o primeiro grupo de cinco membros a ser organizado, e outros estavam em formação. O chefe desse grupo era o Newton Cruz e dele participavam o então Capitão Oliveira (Argos Gomes de Oliveira), o Capitão Einar Walter Bergh – o famoso alemão Berg – o Capitão Ronaldo (Ronaldo Celso Lima), da turma de 1950, eu, Roberto Monteiro de Oliveira e um Major, também de Artilharia, que era do terceiro ano da ECEME, e só me recordo de seu sobrenome Oliveira.

Tínhamos, como os outros grupos, a incumbência de cumprir missões especiais. Uma delas já estava definida: uma vez iniciado o movimento (ou mesmo antes), receberíamos ordem e iríamos calar a TV Rio, através de golpe de mão ou explodindo a geradora dessa televisão que se situava na área do cais do Porto. Fizemos até mesmo reconhecimentos dessas instalações.

Havia também a possibilidade de outras missões mais complicadas e delicadas, que poderiam ser extremamente perigosas para os executantes, mas que deveriam ser cumpridas, mesmo com extremo risco de suas próprias vidas. Mas tudo ficou no campo das hipóteses, porque a Revolução caminhou favoravelmente e esse gurpo de combate foi praticamente dissolvido sem realizar nenhuma dessas missões” (Coronel Roberto Monteiro de Oliveira, Tomo 13, pg. 199).

 

Treinamento de tiro à noite, às escondidas, no Recreio dos Bandeirantes e no Campo de Instrução de Gericinó, no Rio de Janeiro

“Vivíamos, então, uma grave crise militar que rapidamente evoluiu para a área política com sérias repercussões. Em consequência, o Marechal Denys e o General Moniz de Aragão intensificaram as ligações com a tropa. Começamos a perceber que era preciso haver maior entrosamento entre as unidades. Como começamos a reagir, a tropa paraquedista foi proibida de realizar tiros de exercício e até tiro do recruta. Proibiu-se que a munição fosse entregue à Brigada. Começamos então a fazer acampamentos no Recreio dos Bandeirantes, que era totalmente deserto naquela época. Entrávamos com os carros particulares no Regimento-Escola de Infantaria – eu cansei de fazer isso no meu carro – para pegar com os oficiais daquele Regimento, a munição necessária para adestrar a tropa paraquedista. Fazíamos o tiro no Recreio dos Bandeirantes. Era a única possibilidade de adestramento. Fomos proibidos de participar de qualquer exercício. Entrávamos no Campo de Instrução de Gericinó, à noite.

O Tenente José Aurélio Valporto de Sá foi preso, assim como o Tenente Eglair Barcelos Alves. Foram presos porque estavam adestrando os seus pelotões em um exercício programado pelo Regimento. É claro que nós só podíamos fazer isso escondidos e durante a noite, ou no Recreio dos Bandeirantes ou no Campo de Instrução de Gericinó” (General-de-Brigada Durval Antunes Machado Pereira de Andrade Nery, Tomo 10, pg. 168).

 

Livro “Guerra Revolucionária”, de um coronel português

“Primeiramente, a minha participação na Revolução de 31 de Março de 1964 foi de expectativa, como era de praticamente todos nós militares, voltados para seus afazeres castrenses. Já diplomado pela Escola de Estado-Maior do Exército, em 1949, a minha visão se ampliou. Aliás, um dos objetivos da Escola de Comando e Estado-Maior é abrir os horizontes. Passei a me preocupar mais com os problemas políticos que, até então, nunca tinham me inquietado. Acredito, também, que fosse a situação da maioria dos meus companheiros. Cada um cuidava da sua vida, ministrava a sua instrução, as suas aulas, recebia ensinamentos nas escolas militares, e o tempo ia passando.

Gostaria de assinalar o seguinte: na época – não digo que tenha sido o único, porque não sei os outros – recebi um livro de autoria de um coronel português intitulado Guerra Revolucionária. Esse livro era uma antevisão da Quinta Coluna que foi muito bem usada pelos nazistas para dominar, praticamente, toda a Europa, visando ao domínio mundial. Esse coronel descrevia o processo com muita lucidez e objetividade e era um alerta. Para mim, foi um alerta. Depois, emprestei esse livro e como livro e dinheiro quando se empresta geralmente se perde, não sei mais aonde ele foi parar. Dali, então, é que comecei a despertar mais para essa questão – perigo comunista, política em si” (General-de-Brigada Celso dos Santos Meyer, Tomo 10, pg. 128).

 

João Cotrim: Um Engenheiro Brasileiro na Rússia

“O País marchava a passos largos para a implantação do que se chamava, na época, de república sindicalista, que, no fundo, significava a adoção do marxismo-leninismo, ou seja, a comunização.

Era preciso reagir!... E começamos modestamente... Os tenentes do Regimento [RO 105 – Itu-SP] passaram a fazer um programa anticomunista na Rádio Convenção, de Itu, o qual era gravado em instalações da Igreja Matriz, o que retrata, de maneira clara, a posição da Igreja na época, em sua grande maioria contrária às artimanhas daquele Governo, voltado para a implantação do comunismo ateu. A Igreja, além do incentivo, oferecia-nos todo o apoio.

Trabalhávamos em duplas: Tenentes Danilo Rubens Marini e Ronaldo Gouveia de Miranda faziam uma dupla de jornalistas, apresentando um jornal comentado, com críticas aos atos e medidas populistas do governo federal. Um outro quadro era o meu, como Engenheiro João Cotrim, especialista em construção de barragens e hidrelétricas, com o Tenente Montedônio, como um interlocutor ávido de notícias, interessado em saber tudo sobre a Rússia, de onde Cotrim acabara de vir, após estagiar nos canteiros de trabalho de grandes barragens, como autoridade, reconhecida internacionalmente, no assunto, obras apresentadas ao mundo pela Rússia e pelos seus admiradores no Brasil como fabulosas e inigualáveis. Esses mesmos brasileiros, anos depois, criticavam Itaipu, que teve como principal técnico João Cotrim, chamando-a de obra faraônica, obra que vem permitindo ao Brasil sobreviver em termos de energia.

Para viver o papel de João Cotrim, tive que estudar, nas suas minudências, o livro por ele escrito ‘Um Engenheiro na Rússia’. Nesse livro, ele mostra a grandeza das barragens, das hidrelétricas, mas enfatiza que a propaganda russa as tornava maiores e mais importantes do que na verdade o são.

Aborda, também, o Engenheiro Cotrim, o outro lado, mostrando a carência e a má qualidade dos bens de consumo na Rússia e destaca a intoxicação doutrinária, verdadeira lavagem cerebral, que sofria o povo na União Soviética. Ele cita em seu livro, por exemplo, uma propaganda muito difundida na Armênia, através de uma metáfora. Dizia o texto: ‘Raia no horizonte o comunismo perfeito’. E os camponeses da região não entenderam a figura de retórica e pediram explicações. A principal rádio estatal mandou-os procurar a definição de horizonte, uma vez que o conceito de comunismo já era por demais conhecido. E veio a definição de horizonte: ‘Linha imaginária que separa o céu da terra e que se afasta de nós à medida que nós nos aproximamos delas’.

Realmente, o conceito de horizonte retrata muito bem o ‘comunismo perfeito’, mostrando que ele nunca será alcançado, não existia, portanto, e nunca existirá.

Tudo isso era assunto de minha conversa no papel do Engenheiro Cotrim, com o Montedônio, o interlocutor à procura da verdade sobre a Rússia, que, no Brasil, era uma incógnita naquela época. Só chegavam de lá informações positivas, deixando todo mundo impressionado com o seu poder. Assim, o livro do Engenheiro Cotrim era, no início de 1963, uma atração; fazia parte dos primeiros livros a apresentar uma amostragem da realidade russa, diferente do que se difundia naquele período” (General-de-Brigada Geraldo Luiz Nery da Silva, Tomo 10, pg. 203-204).

 

Júlio de Mesquita Filho, dono da Folha de S. Paulo, queria uma Revolução muito mais dura

“Quem teve a oportunidade de ler o livro Março 1964: a mobilização da audácia, editado em 1965, irá relembrar as razões do acima exposto. Os que não leram vão tomar conhecimento do que escreveu o jornalista José Stachini, autor do livro, integrante de O Estado de São Paulo e, como citado no texto, considerado um de seus mais notáveis repórteres. Logo, aceito como pleno de credibilidade.

A carta do Dr. Júlio de Mesquita Filho, de 20 de janeiro de 1962, ao Estado-Maior clandestino, transcrita no livro, demonstra a articulação posta em andamento para a derrubada do Governo Goulart. Divergindo de alguns pontos, ressalta as falhas dos movimentos de outubro de 1945, contra a ditadura e na queda de Getúlio em agosto de 1954, com a precipitação da entrega do Poder ‘a homens que vinham do mesmo passado’; discute sobre o prazo de permanência de um governo discricionário; trata do expurgo dos quadros do Poder Judiciário, como absolutamente necessário, mas sem violências desnecessárias; opta pela decretação de estado de sítio, de início, com a dissolução das Câmaras, após a conquista da confiança da opinião pública; defende a vigência da Constituição de 1946, com as devidas alterações; propõe nomes para as pastas ministeriais, concluindo que ‘seria meio caminho andado para que o País se convencesse de que, afinal, se haviam apagado da nossa História os hiatos abertos na sua evolução pela ditadura do senhor Getúlio Vargas e pela ação corruptora dos seus discípulos nos governos que se sucederam até os nossos dias’; e, com extrema convicção, proclama que: ‘Acha-se o País em estado de profunda comoção e não esconde a descrença que o vai dominando, relativamente à possibilidade de sairmos da situação de anarquia e desordem em que desesperadamente nos debatemos’.

A etapa seguinte, de acordo com o livro, foi a apresentação por parte do doutor Júlio de Mesquita Filho aos chefes da conspiração de um projeto de ‘Ato Institucional’, elaborado pelo diretor de O Estado com a colaboração de professor de Direito Constitucional. Os seus dezesseis artigos definem que o governo será constituído por uma Junta Militar, que serão dissolvidos o Senado, a Câmara dos Deputados, as Assembleias Legislativas e as Câmaras Municipais, que governadores e prefeitos poderão ser confirmados ou destituídos com a nomeação de interventores, além de outras providências. Em suma, o que ocorreu efetivamente com a Revolução de 31 de março de 1964 foi muitíssimo mais tímido, muitíssimo mais brando, muitíssimo mais democrático do que havia sido proposto pelo doutor Júlio de Mesquita Filho” (Coronel Ernesto Gomes Caruso, Tomo 11, pg. 252-253).

 

TV Tupi era um alento para os conspiradores anti-Jango

“A euforia da esquerda só se comparava à nossa decepção e tristeza. Mas tínhamos um alento: a batalha travada pelo Governador da Guanabara, Carlos Lacerda, que desmontava o Governo por meio de artigos e discursos. E o Governador de Minas, Magalhães Pinto, que também era favorável à Revolução. Outro fato alentador era ligar a TV Tupi, à noite, e ouvir o editorial escrito por David Nasser, grande jornalista, lido com muita ênfase pelo locutor Gontijo Teodoro” (Tenente-Coronel Affonso Taboza Pereira, Tomo 12, pg. 219).

 

General Mourão conspira contra Jango, primeiro em São Paulo, depois em Minas

“Em 1964, eu era Oficial do Estado-Maior da 2ª Região Militar, em São Paulo. Quando lá cheguei, em 1963, o Comandante da Região era o General Lyra Tavares, que ficou pouco tempo, sendo logo substituído pelo General Olympio Mourão Filho.

Com o General Mourão, logo após ele assumir, passamos a ter reuniões conspiratórias presididas por ele, com alguns oficiais do Estado-Maior da Região. Quero aqui destacar o nome de dois deles que foram os padrinhos dos mais novos que lá estavam, foram o Coronel Policarpo e o então Coronel Augusto Cid Camargo Osório, depois General. Lá em São Paulo, tínhamos essas reuniões na parte da manhã, porque, naquela época, o expediente iniciava às 11h. O General Mourão nos reunia pela manhã, quando fazia exposições a respeito da situação, do pensamento dele; fizemos, inclusive, estudos e planejamentos para, se fosse o caso, montarmos um grupo de resistência na Serra da Bocaina, a meio caminho entre o Rio de São Paulo” (General-de-Divisão Anápio Gomes Filho, Tomo 11, pg. 48).

 

O estratagema do General Mourão, para ter tropa a seu comando

“Mas, o General Mourão queria ir para Minas, para uma Região Militar com tropa, porque não havia unidades de combate na 2ª. Região Militar; e ele acabou sendo transferido para a 4ª. Região Militar/4a. Divisão de Infantaria, em Juiz de Fora.

Aqui convém lembrar uma história que ele nos relatou em uma visita que fez a São Paulo após a Revolução. Disse-nos que fora informado por pessoas amigas que estava sendo acompanhado, vigiado em São Paulo, porque estaria conspirando contra o Governo. Então, em meados de 1963, nas comemorações da Revolução Constitucionalista de 1932 de São Paulo, ele e alguns oficiais compareceram à Assembleia Legislativa para a sessão solene e lá estava também o General Peri Constant Bevilaqua, que comandava o II Exército. Quando um dos oradores começou a criticar o Governo, naquele exato momento, o General Mourão fez um sinal para os seus oficiais, ficou de pé, e abandonou o recinto, em sinal de protesto aos ataques que o Governo estava sofrendo por parte daquele orador. Era a maneira que ele encontrou para mascarar a sua posição diante daquela corrente ligada ao Governo, contrária a ele e ao seu desejo de ir para a 4ª. RM/4ª. Di e, com aquela iniciativa, ele acabou sendo transferido, como queria, para Minas Gerais” (General-de-Divisão Anápio Gomes Filho, Tomo 11, pg. 48).

 

MOVIMENTOS DE GRUPOS CIVIS E MILITARES SÃO CRIADOS EM TODO O BRASIL, PARA COMBATER O DESGOVERNO DE JOÃO GOULART E A AMEAÇA COMUNISTA

 

Devido à baderna Jango-Brizola nos campos econômico e social, e seu aparato militar a serviço da indisciplina e insubordinação de militares nas Forças Armadas, desde 1961 houve criação de inúmeros órgãos de combate às pretensões de Jango se tornar um novo Getúlio – na verdade um novo Kerensky, pois estava alimentando o dragão vermelho, vale dizer o Comunismo -, como o IPES, o IBAD, a CAMDE, a Arca de Noé, o MED etc., além de grupos de conspiração formada por militares. Empresários, militares, escritores e artistas se empenharam em realizar palestras, lançar livros e filmes, para alertar a sociedade sobre o perigo comunista que cada dia era mais forte e evidente. Causou-me surpresa saber que poucos oficiais-generais, entre os entrevistados, fizeram menção a essas organizações civis anti-Jango.

 

INSTITUTO DE PESQUISAS E ESTUDOS SOCIAIS (IPES)

 

“Gostaria também de relatar sobre uma atividade que participei com três dirigentes do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES). O IPES foi um Instituto civil que atuou muito com o fito de difundir os princípios da livre iniciativa, da propriedade privada e, também, condenando as reformas de base do Governo de João Goulart.

Junto com três diretores membros do IPES, o Paulo Ayres Filho, o João Baptista Leopoldo Figueiredo e o Paulo Reis de Magalhães, formamos uma caixa única com o objetivo de traduzir quatro livros favoráveis à livre iniciativa. Um deles chama-se ‘O Caminho da Servidão’, principal livro de Hayek, fundador da Escola Neoliberal.

Traduzimos e publicamos esse livro; fizemos uma edição de cinco mil exemplares. Procedemos, ainda, a tradução e a publicação de mais três livros, tudo à nossa custa, e distribuímos gratuitamente os quatro livros por todos os quartéis brasileiros, por todas as universidades brasileiras, por todos os seminários brasileiros e para todos os jornalistas que tratavam de assuntos políticos. Quer dizer, eles podiam ser contra, mas não podiam dizer que eram ignorantes. Esses quatro livros já mostravam o que seria a economia de mercado, que veio triunfar nos dias de hoje” (Doutor Adolpho Lindenberg,  História Oral do Exército – 1964, Tomo 7, pg. 300).

“Atribuo o início das atividades de defesa da democracia à fundação do IPES (Instituto de Pesquisa e Estudo Social) e IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática) duas instituições que foram criadas por civis com a participação de militares. Não tive a oportunidade de tomar parte, mas alguns militares foram convocados e participaram, tentando vender a ideia de que alguma coisa tinha que ser feita. O ritmo dos acontecimentos estavam se desenvolvendo, principalmente, a partir da posse de João Goulart, com a renúncia do Jânio, começou a estabelecer uma enorme preocupação. Havia mesmo civis que estavam pensando em se retirar do País, achando que não havia mais solução. Um companheiro nosso, contemporâneo, que chegou aos mais altos postos do Exército, chegou a considerar que estava tudo perdido, tirou um ano de licença sem vencimentos e foi trabalhar numa empresa civil. Acreditava que já estava tudo perdido!

Outros militares, que eram mais politizados, começaram a fazer oposição ao Governo Goulart que tinha assumido e foram afastados, mandados para as chamadas Circunscrições de Recrutamento (CR), que passaram a ser, depois, as Circunscrições do Serviço Militar, as CSM. Por que os mandaram para as CSM? Porque eram administrativas relativas a Serviço Militar e Mobilização, contando com um efetivo muito reduzido. Eram oficiais muito politizados, como os irmãos Serpa. Para Bauru, foi o Golbery, se não me engano, e o Couto e Silva. O Serpa ‘louro’ foi para Sorocaba, o Serpa ‘preto’, que era o irmão mais velho, foi para o Piauí, o Serpinha – Luiz Gonzaga de Andrada Serpa -, o mais moço e o mais politizado, foi para Manaus. Esses oficiais merecem todo o meu respeito e minha admiração. Eles tiveram a antevisão, que eu mesmo admito que não tinha. Estava voltado para a minhas atividades castrenses, como já disse, para o meu esporte... Às vezes, achava que eles exageravam, que eles estavam vendo, como se diz normalmente, ‘chifre em cabeça de cavalo’ ” (General-de-Brigada Celso dos Santos Meyer, Tomo 10, pg. 128-129).

“Telefona-me do Rio de Janeiro um senhor chamado Gilberto Huber Filho, responsável pela impressão das listas telefônicas amarelas, naquela época. Numa reunião social no Rio de Janeiro ele fazia parte de um grupo que conversava sobre as ameaças de esquerdização do Brasil: socialização, comunização, a possibilidade de se chegar a choques, conflitos violentos, guerra civil; era um negócio muito aterrorizante, na época. Nesse grupo carioca estava o Trajano Pupo Neto, outro grande amigo meu, que disse a eles: ‘Olhem, não façam nada sem conversar com um grande amigo lá em São Paulo que é um ‘tarado’ em matéria de liberdade econômica.’

(...)

E esse Senhor Huber, como disse, tornou-se um ‘amigão’, chegou no meu escritório mais ou menos umas 16h e só saiu da minha casa depois da meia-noite. Então, nesse primeiro encontro, creio que o Huber concorda comigo, nasceu o que veio a se chamar Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais (IPES), porque resolvemos que faríamos alguma coisa nesse sentido: ele com o grupo do Rio e eu com os amigos de São Paulo.

(...)

Assim, outras entidades surgiram, também, mas Rio e São Paulo criaram o IPES e o seu presidente foi o João Baptista [João Baptista Leopoldo Figueiredo]. Em São Paulo, além do próprio João, contávamos, também, com gente como Paulo Reis de Magalhães, que foi um grande companheiro, Roberto Pinto e Sousa, enfim, são tantos que vou fazer a injustiça de nem tentar relacioná-los. No Rio de Janeiro, junto com o Huber tinha muitos outros companheiros como Harold Polland, presidente do grupo carioca, Augusto Trajano de Azevedo Antunes, enfim, muitas pessoas sérias, de nível alto e, sobretudo, de um patriotismo estupendo.

O IPES deu início, então, ao seu trabalho e hoje estou tendo o prazer de entregar aqui, ao Exército, os arquivos do IPES. O do Rio de Janeiro foi doado para a Biblioteca Municipal, o que achei um erro grave. Aqui não, eles vão ficar guardados no Exército e vão ser consultados por quem, sem ideia preconcebida, queira estudar o que foto aquele movimento.

(...)

Por que o IPES parou? Porque assim que houve a Revolução de 1964, das 440 empresas que contribuíam para ele – para defendermos as próprias empresas, defendermos o País, defendermos o interesse brasileiro – foram deixando de fazê-lo. Era uma tragédia: em cada reunião, dez, vinte, trinta paravam.

Em 1965 e 1966 já se pensava em fechar o IPES. Em São Paulo, em 1967, passou a hibernar, e, finalmente, fechou em 1968. O do Rio de Janeiro durou um pouco mais, mas também desviou as atividades. Hão havia, por parte dos empresários, seja brasileiros ou, muito menos, estrangeiros, interesse em apoiá-lo para que continuasse realizando aquele trabalho de tão bons resultados.

(...)

Institutos Liberais

Anos atrás estava voltando a ser panfletário e, por isso, me procuraram para formar um Instituto Liberal. Não pude aceitar, naquela ocasião. Paralelamente, surgiu um outro no Rio, liderado por um empresário que se dedicou realmente 100% àquilo, mas morreu há pouco tempo. Era um sujeito extraordinário; reuniu o pessoal do IPES e outras pessoas que queriam trabalhar e conseguiu fazer um Instituto Liberal dedicado exclusivamente à doutrinação e à cultura econômica. Obteve muito sucesso.

Em São Paulo, foi formado outro Instituto Liberal. Tive o privilégio de ser convidado para me aliar a eles e acabei presidente do seu Conselho Consultivo. Doei ao Instituto a minha biblioteca de economia, tudo sobre mercado. Existem hoje, pelo que sei, oito institutos liberais no Brasil inteiro. Porém, aí vem a dolorosa informação: todos, sobretudo o de São Paulo, estão passando pelo mesmo problema que o IPES viveu – queda de arrecadação e elevação dos custos. Começa-se a perguntar: para ou não para?” (Doutor Paulo Ayres de Almeida Freitas Filho, Tomo 7, pg. 381-389).

Obs.

O IPES, o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD), a Campanha da Mulher pela Democracia (CAMDE) e as Forças Armadas formaram a base quadrangular decisiva para o desencadeamento da Contrarrevolução de 31 de março de 1964, contra Jango, em sua política de implantar a "República Sindicalista" no Brasil.

Em 2002, fui convidado pelo secretário executivo do Instituto Liberal de Brasília, professor emérito da Universidade de Brasília, Nelson Lehmann da Silva – autor do livro A Religião Civil do Estado Moderno –, para participar das reuniões do Instituto, às quintas-feiras, à noite. O presidente era o embaixador, professor, pensador e escritor José Osvaldo de Meira Penna, autor de mais de duas dezenas de livros – cfr. em https://www.amazon.com.br/Livros-Jos%C3%A9-Osvaldo-de-Meira-Penna/s?rh=n%3A6740748011%2Cp_27%3AJos%C3%A9+Osvaldo+de+Meira+Penna.

O IL de Brasília fechou em 2004, assim como muitos outros no País inteiro, por falta de patrocínio. Herdei cerca de 20 livros do IL, versando principalmente sobre Economia e Liberdade, como O Caminho da Servidão, de Friedrich F. Hayek.

Nelson Lehmann faleceu em 2011.

Meira Penna faleceu em 29 de julho de 2017, aos 100 anos de idade.

F. M.

 

MOVIMENTO ESTUDANTIL DEMOCRÁTICO (MED)

 

“Nos idos de 1963, época em que cursava o 2º. Ano do Curso Colegial, no Colégio Dante Alighieri, aqui em São Paulo, foi organizado por um pugilo de colegas, um movimento chamado Movimento Estudantil Democrático (MED). Os colegas, de quem me recordo, Rafael Boschesi, filho de um antigo presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, e Moacir Porfírio, orientados por nosso saudoso mestre de Português, à época, Professor Francisco Sodero, organizaram o movimento. Possuía dois campos de ação, um de ordem cultural e outro de ordem eminentemente política.

 

Qual o sentido desse movimento? Por que foi organizado?

 

Porque o Brasil caminhava, tudo levava a crer, para um momento de forte confronto, naqueles tempos de enorme agitação em nosso País: agitação cultural, agitação política, agitação econômica e, é bom recordar, também, agitação militar – em 1963, o Presidente João Goulart compareceu a uma solenidade da Marinha e, praticamente, incitou a tropa contra seus respectivos comandantes. O confronto viria entre os grupos que, praticamente, detinham o Poder, homens da extrema esquerda, e os que queriam evitar que o País caísse totalmente nessa linha política.

 

Daí a razão desses curso e conferências, digamos, preparatórios, para os estudantes que estavam em fase de conclusão de seus respectivos cursos colegiais e entrando nas faculdades, que, de uma maneira geral, eram verdadeiros ninhos de subversão sob orientação da União Nacional dos Estudantes (UNE) e da União Estadual de Estudantes (UEE).

 

Tentava-se algum exercício democrático, um preparo de ideias democráticas para podermos enfrentar os colegas esquerdistas, estes sim, que já vinham tremendamente preparados pelo pessoal da extrema esquerda. Em outras palavras, esforçávamo-nos para que os demais estudantes não caíssem presas fáceis nas mãos das hostes comunistas. Naquela época, se usava muito essa expressão ‘comunista’, ‘esquerdista’. Aparentemente, hoje, esses termos estão fora de moda, mas talvez não estejam tão fora de moda assim; muda-se a forma mas não se altera o conteúdo.

 

O MED, movimento de reação democrática, parecia muito promissor e eram convidadas para falar pessoas ilustres do nosso meio jurídico. Recordo-me, por exemplo, do Dr. José Carlos Graça Wagner, advogado de grande renome, excelente conferencista, do Dr. Ives Gandra Martins, outro advogado de muita respeitabilidade, e que, também, fazia suas conferências, suas palestras, e do Dr. Francisco Albuquerque, então integrantes do Partido Liberal, dentre outros.

 

Lamentavelmente, este movimento encerrou suas atividades. Assim, chegamos ao 3º. Ano do Curso Colegial, às portas de entrarmos na faculdade, sem essa preparação.

 

Nessa ocasião, eu e mais um punhado de outros colegas, integrantes do antigo movimento, fundamos um novo, nas mesmas bases, que se chamou Associação Democrática Estudantil de São Paulo (ADESP)” (Doutor Antônio Carlos Adler, Tomo 7, pg. 318-319).

 

 

ASSOCIAÇÃO DOS HOMENS LIVRES

 

“A AD/6 estava sem General Comandante e o Coronel Paula Couto a comandava interinamente. Por sua posição anticomunista claramente definida, estava preocupado com o crescimento dos movimentos de esquerda. A principal ameaça provinha dos ‘grupos dos onze’ do Brizola que se organizavam em todo o Estado [RS]. Para contrabater os tais grupos, ele criou a Associação dos Homens Livres. Parecia até que, no início de 1963, Cruz Alta tornara-se um reduto de oficiais ligados a uma conspiração contra o governo. Essas precauções e a atuação democrática junto à população civil tiveram depois, em março de 1964, efeito muito positivo. Esse era o quadro da Guarnição” (General-de-Exército Décio Barbosa Machado, Tomo 13, pg. 91).

 

 

LIGA DE DEFESA NACIONAL

 

“No meio civil, destaco algumas pessoas que colaboraram conosco. O Dr. Apodyr Almeida de Oliveira, representante da Liga de Defesa Nacional na cidade. Foi um homem com quem me liguei permanentemente desde que cheguei em Pelotas. Nunca duvidei do seu sentimento patriótico. Advogado, não exercia cargo público, coisa rara. Era dedicado à Liga de Defesa Nacional, onde eu o auxiliava. Também o Dr. Edmar Fetter, Prefeito municipal, nos deu apoio antes, durante e depois da eclosão do movimento, e ainda um radioamador que servia de ligação entre a minha pessoa e o Etchegoyen (Léo Guedes Etchegoyen) – perdi o nome, é uma das minhas mágoas. Tínhamos uma rede-rádio de radioamadores que, mediante palavras-código, aparentemente sem importância, estávamos ligados: ‘Como vai o futebol? E o teu time? Já tens novos reservas?’ Parecia só brincadeira, mas sabíamos do que estávamos falando. Cito também o repórter Mário Emílio de Menezes, que hoje mora em Porto Alegre. Trabalhou muito na Liga de Defesa Nacional e tem muito para contar.

 

(...)

 

Entre os militares da Guarnição destacavam-se: o Major Scarone (Cid Scarone Vieira), meu braço direito na Revolução; o Major Prates (Paulo Sylvio Prates); o Tenente ou Aspirante Suppa (Mário Ângelo Suppa Thomaz Pereira), foi um grande auxiliar que tive. Como Aspirante ele até corria risco, proque eu, se me mandassem embora, iria promovido com todas as vantagens, mas o pobre do Aspirante.

 

Destaco, ainda, o Major Lúcio (Lúcio Madeira Guimarães), que era Assistente na ID/3, trabalhava ligado ao Coronell Joaquim. A ID não tinha oficial de Estado-Maior. Eram só o Comandante, o Assistente e dois oficiais do Quadro Auxiliar de Oficiais, por sinal excelentes; um deles – o Cavalcanti (Humberto Pessoa Cavalcanti) – faleceu há pouco tempo.

 

Convém deixar aqui registrado que houve unanimidade por parte dos demais oficiais e praças da Unidade em apoiar o Movimento. Não tivemos defecção. A partir do momento que o Regimento disse que estava a favor da Revolução, nenhuma voz discordante se apresentou” (General-de-Brigada José Mattos de Marsillac Motta, Tomo 13, pg. 109-110).

 

 

 

EDUCANDO PARA A DEMOCRACIA

 

“Uma organização que nos ajudou muito foi a ‘Educando para a Democracia’, cuja história retrato no artigo ‘O acordar dos militares’. Cortamos todo o Rio Grande pregando Democracia para os estudantes do 3º. Grau. Era uma linha intelectual que reunia homens como: o Galeano Lacerda, desembargador, hoje está aposentado; o Hugo di Primio Paz, professor da UFRGS; o Clóvis Stenzel, psicólogo e advogado, foi líder da Arena no Congresso; a Ecilda Haenzel, advogada, cujo marido, o médico José Mariano Haenzel, já morto, foi quem me possibilitou não embarcar para Ipameri e ficar resistindo aqui. Um colaborador de peso foi o José Otão, reitor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS), que nos possibilitou organizar a ‘Educando para a Democracia’, que nasceu dentro da PUC” (Coronel Pedro Américo Leal, Tomo 13, pg. 246).

 

“Os ‘janguistas’ me anularam, mas me vigiavam. Sabiam que eu tinha proteção da Junta [Médica], através do seu presidente e do Mariano Haenzel, que emitiu um atestado para meu filho – na verdade, ele sempre foi profundamente asmático. Tudo isso era uma articulação e logo depois que iniciei a Licença para Tratamento de Saúde de Pessoa da Família (LTSPF), senti que fui esvaziado.

 

Eu, o Léo Etchegoyen, o Lauro Rieth, o Sommer de Azambuja e o Comandante do 2º. Regimento de Reconhecimento Mecanizado, o Admar Borges Fortes da Silva; nós cinco fomos transferidos. O Sommer de Azambuja e o Lauro Rieth solicitaram transferência para a reserva; não sei se o Etchegoyen chegou a ir para Santo Ângelo; eu não fui e o Coronel de Cavalaria, irmão de um jornalista do Correio do Povo, não sei o que se passou com ele. Fiquei uns dois ou três meses completamente isolado, porque quem falasse comigo era identificado e ficava marcado” (Coronel Pedro Américo Leal, Tomo 13, pg. 248).

 

 

GRUPO DE AÇÃO PATRIÓTICA (GAP)

 

“Fiz a Revolução com 19 anos, liderando um movimento de jovens do Grupo de Ação Patriótica – GAP – que se opunha à representação da União Nacional dos Estudantes (UNE), dominada por comunistas. Nossa atuação está registrada em muitos autores e os jornais da época destacam a presença do GAP em atos públicos de defesa da ordem e dos valores mais expressivos e conservadores da sociedade brasileira.

O nosso Grupo, que atuava principalmente no Rio de Janeiro, em Minas Gerais e em São Paulo, era composto, basicamente, por jovens estudantes, tendo por programa de ação o combate às reformas comunizantes de Brizola e Goulart; ao sistema de representatividade da classe estudantil, adotado na União Nacional dos Estudantes e na União dos Estudantes do Ensino Secundário (UEES); à encampação de refinarias; à ocupação de postos-chave da administração na Petrobras, no Departamento de Correios e Telégrafos, na Rede Ferroviária, nos Portos etc. por elementos comunistas; à influência desmedida dos dirigentes sindicais nos destinos do País; à censura à palavra de políticos da oposição, como Amaral Neto, Carlos Lacerda, Raimundo Padilha e muitos outros, no rádio e na televisão; à omissão governamental diante das greves e das agitações permanentes, de caráter político e subversivo.

 

Os jovens tinham como referência maior o trabalho desenvolvido pelo Almirante Sílvio Heck, Ministro da Marinha no Governo Jânio Quadros, para fugirem a uma identidade partidária, de vez que eram muitas as lideranças políticas que se opunham a Goulart, como os governadores de Minas, Magalhães Pinto, de São Paulo, Adhemar de Barros, e da Guanabara, Carlos Lacerda, todos candidatos em 1965, e o grupo de JK, do PSD, onde muita gente se contrapunha ao Presidente.

 

O GAP se integrou a entidades formadas por empresários, mulheres, militantes católicos, militares da reserva, ex-líderes estudantis, para se opor à pregação revolucionária das esquerdas, que encontravam acolhida no Governo Goulart, bem como ao grevismo político que fazia parte do cotidiano do País.

 

(...)

 

O Brasil é quase todo o continente, e para onde se inclina, a América Latina tende a seguir, como bem disse o Presidente Nixon. Os EUA não tolerariam uma Cuba do tamanho do Brasil. Nem do Chile, salvo por uma das mais impressionantes e completas personalidades históricas de nosso tempo, o General Augusto Pinochet, um grande amigo do Brasil, que nos visitou várias vezes como Presidente e, depois, como mero turista. Este forma com o General Franco, de Espanha, a dupla de grandes benfeitores do Ocidente, tratados com tanta ingratidão e maior desonestidade no que tem sido publicado. Foram eles que infringiram as maiores derrotas ao comunismo no século XX.

 

A bibliografia é rica em confirmar o empenho da União Soviética em agitar a situação política e social no Brasil, na América Latina, insistindo na violência no campo, na dominação da mídia e do meio intelectual. A Igreja e as Forças Armadas eram prioridades do comunismo desde a década de 1940. Afinal, as grandes derrotas do comunismo se deram no final da década de 1930 com a Guerra Civil da Espanha, em meados da década de 1960 com o Brasil e de 1970 com o Chile. Em todos os três casos, a mão comunista – com base na Rússia principalmente – era visível e os bons resultados da reação no campo social e do desenvolvimento econômico foram duros golpes. As bases do progresso da Espanha, do Chile e do Brasil são devidas a Franco, Pinochet e aos nossos generais-presidentes, especialmente Castello, Costa e Silva, Médici, e João Figueiredo. A única vitória do comunismo importante foi a Revolução dos Cravos, em Portugal, que acabou por permitir uma independência sangrenta em Angola e Moçambique, territórios que estavam marchando para uma solução de alto nível, com base na lusitanidade, em algo que se parecesse com a do Brasil que foi proporcionada por um rei de Portugal, na ocasião príncipe-herdeiro. Mas a cobiça comunista das riquezas de Angola, principalmente, falou mais alto, não contando apenas com a reação de uma parte não comunista, a União Nacional para Independência Total de Angola (UNITA), que sustentou uma guerra violenta por mais de 25 anos, com grande número de mutilados. Uma tragédia, em que o Brasil agiu de forma omissa no governo Geisel e, daí, em diante.

 

(...)

 

A partir daí, a prioridade dos soviéticos foi a infiltração entre militares e religiosos. No Brasil, não poderia ser diferente. Os militares sofreram de tal maneira a infiltração, que tivemos, pouco antes da Guerra da Espanha, a Intentona de 1935 e, em 1964, a nossa Revolução precisou retirar, de forma autoritária de suas fileiras, mais de quatro mil militares sob suspeição de tolerância com o comunismo, número muito maior do que o de afastamento no funcionalismo civil, por exemplo. A Igreja, por sua vez, foi muito usada pelos radicais da luta armada e pela influência que os temas políticos passaram a ter na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). O saldo desta militância de esquerda de parte do clero abriu as portas do Brasil para seitas ditas cristãs, que acabaram se tornando verdadeiros negócios e comitês eleitorais, a chamada ‘bancada evangélica’.

 

(...)

 

Ao ser fundado em junho de 1962, o GAP firmou convênio com a Aliança Democrática Brasileira e o Centro José Bonifácio, organizações democráticas de São Paulo, presididas pelos estudantes Waldo Domingos Claro e Fânio Sandoval, e formou um núcleo em Juiz de Fora, dirigido pelo universitário Marcos Ventura de Barros.

 

(...)

 

Não tendo vinculação com qualquer partido, o GAP aceitava, de bom grado, a colaboração e a adesão de todos os verdadeiros patriotas, independente de onde viessem ou estivessem.

 

De nossa Carta de Princípios, constava a defesa intransigente do regime democrático, da família, da Igreja, da propriedade e da iniciativa privada.

 

(...)

 

Hélio Silva recorda os Comícios pela Democracia, realizados pelo Deputado Amaral Neto, com a presença de parlamentares de todo o País, membros da Ação Democrática Parlamentar, nos quais pregávamos, em praça pública, a reação ao Governo. Nesses comícios, realizados semanalmente em várias cidades, coube-me sempre falar em nome dos estudantes democratas como presidente nacional do GAP.

 

Lembra o escritor que me cabia, através da Rede da Democracia – cadeia de emissoras de rádio que se opunha à cadeia da legalidade, de Leonel Brizola – falar, semanalmente, na qualidade de Presidente do GAP, recomendando, inclusive, a mobilização armada contra os camponeses de Francisco Julião e os elementos dos Grupos dos Onze, de Brizola.

 

A participação da rapaziada do GAP, relembra o escritor, estava intimamente ligada ao grupo conspirador liderado pelo Almirante Sílvio Heck. Por algumas vezes, realizamos transporte de armas de São Paulo para o Rio de Janeiro. Chegamos, inclusive, a trazer metralhadoras em malas e em ônibus da viação Cometa. Este transporte e movimentação de armamento foi uma vez estourado pela Polícia do Exército, mas eu e mais dois companheiros conseguimos escapar na própria estação rodoviária.

 

Em consequência desta ação, a sede da entidade Ação Vigilante do Brasil, na Rua 1º. de Março, no Rio de Janeiro, foi invadida e interditada, assim como um sítio em Jacarepaguá, onde o Governo apreendeu as armas. Por sorte, o Inquérito Policial Militar (IPM) que o Ministro da Guerra instaurou foi confiado ao General Idálio Sardemberg. Como a imprensa janguista insistia em citar Heck, além de citar-me juntamente com o GAP, tomei a iniciativa de procurar pessoalmente o General Sardemberg, em sua casa, na Rua Souza Lima. Na conversa que mantive com ele, aleguei que o movimento distribuía livros, combatia a UNE etc. e que o noticiário dos jornais era maldoso. O General Sardemberg me ouviu e por fim disse-me: ‘Sei que as coisas não são bem como você diz, mas elogio o seu civismo e peço levar ao Almirante Heck minhas palavras de tranquilidade. Vocês não serão incomodados’.

 

(...)

 

Lembro-me de que, no final de 1962, logo após o Almirante Sílvio Heck deixar o Quartel Central do Corpo de Fuzileiros Navais, onde se encontrava preso, formamos um grande cortejo de automóveis integrado por delegações de diversas entidades, entre as quais a nossa – o Grupo de Ação Patriótica – e muitas outras, como a Frente da Juventude Democrática, a Ação Vigilante do Brasil, a União Operária Camponesa do Brasil, o Movimento Estudantil Católico, o Movimento Estudantil Marítimo, a Aliança Democrática Popular etc.

 

(...)

 

A primeira operação conjunta foi a distribuição de livros e folhetos em fábricas e colégios da Guanabara, São Paulo de Minas Gerais. Distribuímos, inicialmente, três livretos: ‘Depoimento sobre a Rússia’, mais de seis mil exemplares, de Nascimento Brito, Diretor do Jornal do Brasil; ‘Estopim da Fraude’, de Waldo Domingos Claro, presidente da Aliança Democrática Brasileira; e ‘UNE, Instrumento da Subversão’.

Numa ação continuada, conseguimos, ainda, distribuir mais de vinte mil livros de esclarecimento popular, alcançando maior destaque ‘Um Engenheiro Brasileiro na Rússia’, de John Cotrim; ‘Estudantes Brasileiros na Tcheco-Eslováquia’, de Ronaldo Pereira Rodrigues, que fora Secretário da UNE; e ‘Condição Humana da China Comunista’, de Suzanne Labin.

 

(...)

 

A Cadeia Radiofônica da Democracia iniciou suas atividades no final de outubro de 1963, liderada pelas Rádios Tupi, Globo e Jornal do Brasil, com a participação no primeiro programa de João Calmon, Roberto Marinho e Nascimento Brito, diretores das emissoras que encabeçavam a Cadeia” (Jornalista Aristóteles Drummond, Tomo 9, pg. 144-158).

 

 

AÇÃO DEMOCRÁTICA PARLAMENTAR (ADEP)

 

“Dia a dia, eu e meu pai sentíamo-nos na obrigação de tomar posição favorável ao movimento contra João Goulart. Meu pai, Deputado José Bonifácio Lafayette de Andrada me chamou para vir a Brasília e disse que o Deputado João Mendes tinha organizado uma frente parlamentar poderosa, a Ação Democrática Parlamentar (ADEP), para defender a democracia contra qualquer manobra que surgisse. A ADEP realmente reuniu deputados da UDN, quase todos do PSD, também do PTB e de outros partidos da Câmara dos Deputados. Conversei com o João Mendes e ele disse: ‘Bonifácio, você podia organizar a ADEP em Minas. Temos o apoio do IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), instituição não ligada a nós diretamente, mas que está muito preocupada com o avanço da esquerda no Brasil. É um grupo poderoso de industriais brasileiros dispostos a apoiar financeiramente o combate ao comunismo’.

 

Essa foi a informação que recebi sobre o IBAD. Ele disse mais: ‘Você lá em Minas, além da direção da ADEP na Assembleia, como também vou me comunicar com os dirigentes do IBAD, poderá fazer contato com eles.’ O professor Ivan Hassolocher, segundo me disse, era o presidente do IBAD. Respondi: “Deputado João Mendes, esse negócio de dinheiro do IBAD é algo com que não gosto de lidar. Nesse caso, lá em Minas, há uma figura muito interessante, Padre jesuíta José Cândido de Castro, que está também muito atemorizado com os movimentos de esquerda no País e poderá gerenciar esta área, com garantia de correção.’ Nesse episódio, preferi que tudo se articulasse com ele, porque todos ficariam seguros de que não haveria nenhuma hipótese de desvio de dinheiro. Realmente, não cuidei desse setor. O Padre Castro articulou-se com o IBAD e passou a ser o responsável por essa área, em Minas. E mantinha contato comigo. Organizei a ADEP na Assembleia Legislativa, que logo recebeu o apoio de quase todos os deputados mineiros. Lançamos um manifesto nesse sentido” (Deputado Federal Bonifácio de Andrada, Tomo 15, pg. 67).

 

 

CRUZADA TIRADENTES

 

“A determinação era muito grande. Acho que uma pesquisa, antes que desapareçam os dados, precisa ser mais bem-feita sobre aquela fase e sobre o ambiente psicossocial de Minas Gerais. Recordo-me bem da Cruzada Tiradentes, de um Padre interiorano. Não me lembro direito da figura dele. Esse Movimento andava pelo interior de Minas, em grupos enormes, organizados para apoiar o Cristianismo contra o Comunismo. Era um movimento altamente significativo. Estive também com grupos sindicalistas desejosos de participar. Os meios empresariais, da mesma forma. O movimento feminino era poderoso, desfilando nas ruas por Deus e pela Pátria. Quer dizer, é preciso caracterizar bem que esse 31 de Março de 1964, em Minas Gerais, fou uma reação vigorosa do seu povo para depor o pró-comunista João Goulart. No dia 31 de março, a vitória das forças mineiras, da maioria do povo de Minas, inegável e decisivamente contribuíram, até além das Alterosas, para que as Forças Armadas ocupassem o Poder e iniciassem a institucionalização do movimento revolucionário” (Deputado Federal Bonifácio de Andrada, Tomo 15, pgl 76-77).

 

 

MANIFESTO DOS PROFESSORES UNIVERSITÁRIOS, COM SOBRAL PINTO

 

“O ambiente nacional exigia providências emergenciais. No campo, havia uma violência muito grande. Os brasileiros não mais se sentiam seguros. E ainda se apresentava a anarquia institucional: os deputados a fazerem leis apenas compatíveis com a ideologia que cada um adotava. Em 1963, falava-se abertamente de uma república sindicalista.

 

No primeiro trimestre de 1964, quatrocentos ou mais professores universitários, tendo à frente a figura grandiosa de Sobral Pinto, divulgaram um manifesto, criticando a complacência do Governo e pedindo soluções. O cardeal do Rio de Janeiro fez um alerta sobre a eclosão possível de uma revolução popular. À época, eu era juíza de Barbalha e, ouvindo a Rádio Mayrink Veiga, mesmo como juíza, era difícil entender se o Governo estava dentro da legalidade ou se o povo estava com a ilegalidade. Com o manifesto dos professores universitários, pude, então, compreender que o Governo se posicionava do lado das esquerdas” (Desembargadora Águeda Passos Rodrigues Martins, Tomo 12, pg. 244).

 

 

CRUZADA DEMOCRÁTICA

“Em 1950, os comunistas conseguiram infiltrar-se no Clube Militar, utilizando a revista para fazer proselitismo da sua doutrina. Nasceu, então, a reação dos verdadeiros patriotas e democratas para retomar a direção do Clube, através de um movimento que se denominou Cruzada Democrática.

Não podendo utilizar as dependências do Clube, as reuniões da Cruzada foram realizadas, inicialmente, na Federação de Escoteiros do Brasil e, posteriormente, na sede do Clube dos Oficiais Reformados e da Reserva das Forças Armadas, na Praça da República, 197, no Rio de Janeiro: a Casa de Deodoro.

(...)

Em meados de 1962, nos reuníamos rotineiramente às quartas-feiras à noite, na Casa de Deodoro, participando das reuniões da Cruzada Democrática, as quais compareciam muitos oficiais da reserva e da ativa (General Bina Machado, Coronel Sebastião Chaves, Tenente-Coronel João Baptista de Oliveira Figueiredo etc.).

(...)

Fazíamos reuniões com outros companheiros, no porão do edifício residencial da Praia Vermelha e na Vila Militar, em Marechal Hermes, numa academia de judô.

Conseguimos, enfim, realizar a tão esperada assembleia no Clube Militar, em 3 de julho de 1963, na presença de quase dois mil sócios. Os comunistas, cerca de sessenta pessoas, em sua maioria oficiais, audaciosamente, tentaram tumultuar a reunião inscrevendo-se para falar e abordando assuntos contrários aos nossos objetivos. Foi preciso que um companheiro, o Tenente-Coronel Aviador Coqueiro, mais tarde Brigadeiro, tomasse o microfone das mãos de um esquerdista para que toda a assembleia, aos gritos, os expulsassem do recinto.

Nessa assembleia, os irmãos Torres de Melo (Artur de Freitas Torres de Melo e José Ramos Torres de Melo Filho) falaram de forma incisiva em defesa dos postulados democráticos e da dignidade da classe militar. No dia seguinte, esses companheiros foram presos: Artur, no Forte de São João, e o José, no Forte Rio Branco” (Coronel Edgar Maranhão Ferreira, Tomo 6, pg. 107-108).

“Inicialmente muito tímido, o Clube Militar, com o tempo, foi-se encorajando, graças, em grande parte, à presença de oficiais-alunos da EsAO, do IME e da ECEME e, juntamente com o Clube Naval e o Clube da Aeronáutica, teve um papel de grande relevância na preparação do Movimento de 1964. Havia uma ala conhecida como ‘Cruzada Democrática’, que reunia muitos oficiais que pensavam igualmente sobre aquele momento nacional. Entre esses oficiais, incluíamo-nos eu e meu irmão Artur Torres de Melo, então major, e outros bem conhecidos, como os então coronéis Arnizaut de Matos, Sebastião Chaves e João Baptista Figueiredo. Aí confabulávamos sobre a situação do País, sobre o que deveria ser feito e como. Motivado pela ‘Cruzada Democrática’, no dia 3 de julho de 1963, o Clube Militar promoveu uma grande reunião, com mais de três mil oficiais, presidida pelo General Magessi da Cunha Pereira, seu presidente. Capitão e aluno do 3º. ano do IME, compareci a essa reunião juntamente com o Artur, e fizemos, cada qual, um pronunciamento contra o estado de coisas reinante, imputando as responsabilidades ao Ministro da Guerra e ao Presidente da República. Os dois discursos, por sua veemência, valeram-nos trinta dias de prisão para cada um, dados pelo Ministro da Guerra, General Jair Dantas Ribeiro. Mas nós, os oficiais mais jovens, não arrefecemos e continuamos nessa batalha, sem sabermos qual o pensamento dos nossos chefes” (Major José Ramos Torres de Melo Filho, Tomo 4, pg. 236-237).

 

ARCA DE NOÉ

“Idealizada pelo então capitão dos Portos [do Ceará], o Comandante Fernando Cavalcante, que aos sábados reunia-se com pessoas de todas as classes sociais, na Capitania. A ‘Arca de Noé’ tinha como objetivo a união de todas as categorias, exatamente o contrário do movimento comunista, que preconizava a luta de classes para a tomada do poder. Tínhamos representantes de todas as classes sociais: estivadores, militares, advogados, juízes, industriais, todos em harmonia, inclusive os representantes de sindicatos patronais e de empregados. As reuniões da ‘Arca de Noé’ tiveram início em 1961. Em 1963, a ‘Arca de Noé’ passou à condição de pessoa jurídica. Seu objetivo era o de promover a união entre todas as classes sociais e o combate ao comunismo internacional” (Tenente-Coronel Silvio de Magalhães Sampaio - Tomo 4, pg. 226).

“Por intermédio da Associação ‘Arca de Noé’, colaboramos com importante trabalho de conscientização anticomunista em instituições locais.

No mês de fevereiro de 1964, fui preso pelo Cmt da 10ª. RM (amigo do Presidente João Goulart) por vinte dias, no quartel do 23º. BC, e transferido, a bem da disciplina, por ter determinado a distribuição de folheto, divulgando informações de trabalho anticomunista em algumas instituições. O fato teve grande repercussão na cidade e em várias guarnições do Exército. Antes de seguir destino, recebi várias homenagens de militares e civis, voltando mais tarde para receber os títulos de cidadão cearense e fortalezenense, qua guardo até hoje” (General-de-Brigada Helio Duarte Pereira de Lemos, Tomo 1, pg. 240). Como Chefe de Gabinete do SNI, o general Lemos participou da apuração dos fatos realizados pela PF contra o governador de Goiás, Mauro Borges, que foi deposto depois de o STF dar habeas corpus ao político, por unanimidade.

“No Ceará, participamos de algo muito interessante: um grupo, constituído por Antônio Guimarães, que já morreu – quase todos já morreram – Hélio Lemos, o Comandante do 23º. BC, o Coronel Diegues, eu e outros, fundou um clube, chamado ‘Arca de Noé’. Todos os sábados nos reuníamos com o pessoal dos sindicatos e a gente conversava, tomava uns aperitivos e almoçava. Dessa forma, fomos nos preparando e trocando idéias. O resultado é que, em 1964, quando eclodiu a Revolução, o único Estado brasileiro em que não houve greve foi o Ceará. Os sindicalistas compreenderam que o Brasil não podia continuar com a anarquia existente, consequência daquela ação psicológica desenvolvida com o objetivo de conscientizar a opinião pública” (General-de-Divisão Francisco Batista Torres de Melo, Tomo 4, pg. 57).

“Destaco, também, a Arca de Noé, cujo significado pré-revolucionário pouca gente conhece. Não era a Arca de Noé bíblica, que reuniu todos os bichos da Terra, mas uma Arca de Noé que acolhia, harmonicamente, os sindicalistas, os patrões e os empregados, pessoas de diversas procedências, mas com um só pensamento: a defesa da Pátria! A ela se deve, por exemplo, a imunização dos portuários cearenses às idéias anarquistas vindas de fora. Estas, portanto, são reminiscências de um período vivido, pouco antes da eclosão do Movimento Revolucionário de 1964” (General-de-Brigada Manoel Theóphilo Gaspar de Oliveira Neto, Tomo 4, pg. 90).

“Quando o Sr. João Goulart assumiu a Presidência da República, os oficiais que aqui serviam, por não concordarem com o procedimento adotado pelo Poder Executivo, de seguir fielmente o movimento comunista, chegaram a lançar um Manifesto, que lhes custou prisão e transferência. No 10º. Grupo de Obuses 105 mm (10º. GO 105), a totalidade dos seus componentes não se intimidou diante das ameaças. Eu estava servindo lá, nessa época. O Grupo, sob o comando do Coronel Hélio Lemos, antecipou-se aos acontecimentos, junto com a sociedade, preparando-se materialmente e com pessoal para combater o governo central. Foi criada, nessa época, uma entidade civil chamada ‘Arca de Noé’, idealizada pelo então Capitão dos Portos, o Comandante Fernando Cavalcante, que, aos sábados, reunia-se com pessoas de todas as classes sociais, na Capitania. A ‘Arca de Noé’ tinha como objetivo a união de todas as categorias, exatamente o contrário do movimento comunista, que preconizava a luta de classes para a tomada do poder. Tínhamos representantes de todas as classes sociais: estivadores, militares, advogados, juízes, industriais, todos em harmonia, inclusive os representantes de sindicatos patronais e de empregados. As reuniões da ‘Arca de Noé’ tiveram início em 1961. Em 1963, a ‘Arca de Noé’ passou à condição de pessoa jurídica. Seu objetivo era o de promover a união entre todas as classes sociais e o combate ao comunismo internacional” (Tenente-Coronel Silvio de Magalhães Sampaio, Tomo 4, pg. 226).

 

GRUPO ÁGUIA BRANCA E “OPERAÇÃO MARIMBONDO”

“Muito pouco contato tive com o General Mourão; convivi mais com o Bragança – o Coronel Bragança – que teve um irmão assassinado em 1935. Esse não era anticomunista, ele era mais do que anticomunista; a coisa era pessoal, era uma declaração integral contra o comunismo, porque perdera...

Perdera o irmão em 1935? Era tenente o irmão dele? [entrevistador]

Era tenente, assassinado pelos comunistas. O Bragança nunca esqueceu esse fato. Ele foi, realmente, um elemento de ação – foi contra o populismo do Getúlio, foi contra o Juscelino, foi contra o João Goulart – um anticomunista sistemático. O Bragança, na década de 1960, uniu-se a uma rapaziada, formada de estudantes de Belo Horizonte, o grupo dos ‘Águia Branca’, participando de uma série de episódios para calar os comunistas na base da pancadaria.

O Brizola e seu pessoal queriam realizar um comício em Belo Horizonte, mas o Governador Magalhães Pinto, a polícia, não autorizavam comícios. Fizeram, então, uma reunião, uma famosa assembleia, no auditório da Secretaria de Administração, alguma coisa assim, lá em Belo Horizonte. Era um auditório muito grande para a época, e o certo é que o Bragança e seu grupo entraram lá e bateram no Brizola, bateram na mulher do Brizola, foi um inferno, acabaram com a tal a Assembleia ‘a tapa’.

Depois disso, marcou-se um comício com presença do Jango – interessante, aqui no Rio, o Comício da Central do Brasil. Lá, em Belo Horizonte, antes, realizaram um comício na Praça da Estação. O Jango chegou de trem para o tal comício. E a turma Águia Branca fez a Operação Marimbondo, que consistiu em levar, em sacos plásticos, marimbondos que foram soltos na hora do comício, dispersado a turba que viera para participar do comício. Isso é coisa que entra para o folclore político, mas que aconteceu realmente.

O Mourão, promovido a general, foi outro que, em todos os lugares por onde passou, fez uma campanha sistemática anticomunista. Ele falava diretamente aos seus oficiais, aos seus subordinados, em todos os lugares onde comandou” (Coronel Luiz Carlos Carneiro de Paula, Tomo 9, pg. 300).

 

CLUBES DE MÃES

“D. Iedda: (...)

Naquela época, visitei favelas, todo o ABCD; fui a vários lugares. Tínhamos total consciência da existência de um terreno fértil para aquelas ideias enganosas do comunismo; conhecíamos perfeitamente a semente e o terreno onde seria semeada. Não tomamos nenhuma atitude movida por impulso, mas por grande conscientização.

Estávamos muito bem acompanhadas de pessoas como Carlos Lacerta, que tinha sido comunista e que havia se desencantado com essa ideologia e punha a público o que eles faziam e os maus intentos deles; Padre Calazans, Senador, e o Padre Godinho, Deputado Federal, sempre nos elucidando e ensinando. Insisto que não foi um impulso de ‘patriotada’. Foi um movimento consciente, com maturidade, de dever cívico e dever de mãe.

D. Maria Lucia: Foi bom você lembrar que nós trabalhávamos na periferia.

D. Iedda: Você se lembra o que se fundou em decorrência da camanha política?

D. Maria Lucia: Os Clubes de Mães e chegamos a ter 15 Clubes de Mães, cada um com trinta mulheres.

Ensinando inclusive a cuidar do bebê. [entrevistador]

D. Maria Lucia: Não só a cuidar do bebê, mas também de toda a família.

D. Iedda: Foi algo que deu resultado. Esses Clubes de Mães começaram em 1965 e existem até hoje. Várias das atuais professoras foram nossas alunas e ficamos amigas; fazíamos chás em nossas casas, havia uma comunicação de culturas. O resultado foi excelente não só para elas, assim como para nós. Recebemos, também, muitíssimo. Aprendi muito com aquelas senhoras de outra cultura, de comunidades extremamente carentes, e fico gratificada de pensar que estávamos mais devolvendo do que entregando.

Mas, penso que a Marcha da Família simboliza a nossa atuação, na Revolução (Doutora Iedda Borges Falzoni e Doutora Maria Lucia Whitaker Vidigal, Tomo 7, pg. 359).

Obs.:

Em 2003, a Doutora Maria Lucia Whitaker Vidigal era a presidente da Liga das Senhoras Católicas, onde prestava assistência a mais de 4.500 pessoas. Trabalhou na TV Cultura como produtora e apresentadora, durante vinte anos.

F. M.

 

RADIOAMADORES: O WHATSAPP DA ÉPOCA

“D. Iedda: Meu filho tinha entre 13 e 14 anos; morávamos em frente ao Palácio do Governo e quando saí disse:

- Henrique, você fica tomando conta da casa e o revólver está aqui; defenda a sua casa.

O meu marido era radioamador e o Exército perdera a confiança em alguns graduados, naquele momento. Então foram convocados os radioamadores para que fossem feitos os contatos; é bom lembrar que não havia esse boom de comunicação, como hoje. Os radioamadores, como qualquer empresa de radiofonia, receberam uma licença para operar. Eles não foram convidados, mas convocados para ajudar. Muitos, porém, se omitiram, alegando que seu equipamento não estava bom.

Lembro-me de meu marido até de madrugada transmitindo mensagens sigilosas, que ele não me deixava ouvir. Foi uma atuação muito grande. A Revolução levou só dois dias para vencer, mas devo dizer que foram dois dias de intensa vivência. Definiram um momento histórico que deve ser lembrado, constantemente” (Doutora Iedda Borges Falzoni, Tomo 7, pg. 358).

“Tivemos, também, o apoio dos radioamadores. Durante o deslocamento, o Coronel Faceda montou um PDR de radioamadores em Juiz de Fora e durante todo o deslocamento uma rede montada atuou como informante. Tínhamos informações de todo o movimento do Destacamento Cunha de Melo através dessa rede. Uma série de providências administrativas foram tomadas através da rede, por exemplo, alguns fogões de campanha não estavam funcionando a gasolina e sim com botijão de gás e, naquela época, variava conforme a empresa. E se fez o levantamento do tipo de botijão de gás etc., através dos radioamadores da rede e, daí, se pedia a subsistência: um caminhão com tantos botijões de gás de tal tipo para atender ao suprimento de tais Companhias. É interessante assinalar que isso em combate seria um caos. Se a linha de suprimento de fogões funcionava a gasolina e o subtenente macetoso botou o botijão de gás, que realmente era muito mais confortável, mas, em situação de campanha, qual era o gás? Como é que seria suprido? Isso é um ensinamento que tem que ser levado sempre em consideração” (Coronel Amaury Friese Cardoso, Tomo 10, pg. 359).

 

 

 

Obs.

Me ocorre o trabalho feito por jornais editados por militares aposentados, nas últimas décadas, como Letras em Marcha, Ombro a Ombro, Inconfidência – além de grupos similares como o Grupo Guararapes, Grupo Estácio de Sá, Grupo Anhanguera, Quero-Quero, Associação dos Militares da Reserva e Reformados (ASMIR) etc., que iniciaram um trabalho de conscientização da população nos tempos revanchistas dos governos FHC, Lula e Dilma, culminando na obra de Olavo de Carvalho, os quais tiveram o mérito de enfrentar o “pensamento único” das esquerdas nas universidades, nos meios artísticos, na mídia cada vez mais militante de esquerda – uma luta ainda longe para se chegar a um mero empate.

A trilogia de Olavo de Carvalho “A Nova Era e a Revolução Cultural: Fritjof Capra & Antonio Gramsci” (1994), “O Jardim das Aflições: de Epicuro à Ressurreição de César” (1995) e “O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais Brasileiras” (1996),  junto com “O Mínimo Que Você Precisa Saber Para Não Ser Um Idiota” (2013) - 193 artigos de Olavo escritos entre os anos de 1997 e 2013, e organizados pelo jornalista Felipe Moura Brasil - é fundamental para se entender os últimos 50 anos do Brasil, em termos culturais, de pregação marxista em todos os setores da sociedade brasileira.

F. M.

 

 

PARA OS ENTREVISTADOS, OS ANTECEDENTES MEDIATOS E IMEDIATOS DO MOVIMENTO DE 1964 FORAM:

 

ANTECEDENTES MEDIATOS OU INDIRETOS

Intentona Comunista de 1935

“A maioria dos que se dedicam ao assunto crê, no entanto, que o Movimento de 1964 vem do repúdio ao comunismo no meio militar, nascido em 1935, pelos crimes perpetrados pelos marxistas-leninistas, na Intentona Comunista, levante armado que irrompeu em Natal, Recife e no Rio de Janeiro, financiado e determinado pelo Komintern – a Internacional Comunista -, fundada em 1919 por Lênin, para propagar o comunismo, e aproveitada por Stálin para promover os interesses da política exterior da União Soviética.

A Intentona, conduzida por Luís Carlos Prestes, que entrou no País com passaporte falso para chefiá-la, contou com 23 estrangeiros para a sua preparação e execução, dos quais apenas nove foram presos no Brasil após o fracasso do movimento. Ficou, no seio do Exército e das Forças Armadas, a revolta contra aquela infame Intentona, na qual os comunistas mataram covardemente seus companheiros de farda, enquanto dormiam” “General-de-Brigada Geraldo Luiz Nery da Silva, Tomo 10, pg. 196).

 

RENÚNCIA DE JÂNIO QUADROS:

“OPERAÇÃO MOSQUITO”, UMA OPERAÇÃO QUE NUNCA EXISTIU

Crise surgida após a renúncia de Jânio Quadros, em 1961:

“É oportuno que se relate, neste momento, a fim de deixar claro, o sub-reptício e ardiloso comportamento dos políticos, em Brasília: o episódio ocorrido, pessoalmente, conosco, fruto de manobras e falsas versões articuladas pelos partidários ideológicos do senhor João Goulart.

Na condição de Oficial de Gabinete do Ministro da Aeronáutica, Brigadeiro Grüm Moss, e mais antigo presente em Brasília, recebemos ordem expressa do Ministro de interditar os aeroportos de acesso à Capital da Repúbica, a fim de impossibilitar o pouso de qualquer aeronave, civil ou militar, que conduzisse o Vice-Presidente, João Goulart. Cumprimos estritamente as ordens recebidas, através das providências normais, de bloqueios das pistas de pouso, interditando-as com obstáculos.

Logo, os políticos, senadores e deputados, aliados do senhor João Goulart, reagiram à ordem e às medidas tomadas, através de declarações amplamente divulgadas pela imprensa do País, denunciando a existência de um plano que passaram a chamar de ‘Operação Mosquito’, operação militar com o objetivo de atacar e derrubar qualquer aeronave, civil ou militar, que conduzindo o Vice-Presidente, tentasse pousar na Capital da República.

A verdade é que a ‘Operação Mosquito’ nunca existiu, nem foi cogitada. A interdição dos aeroportos foi, porém, executada, com rigor, sobre a nossa orientação, e em obediência às ordens superiores” (Brigadeiro-do-Ar Marcio Cesar Leal Coqueiro, Tomo 10, pg. 92).

“A renúncia de Jânio Quadros foi a causa remota da Revolução de 31 de março de 1964. O governo foi cair, então, nas mãos de um homem cuja história pessoal não o colocava como amante da democracia representativa. Ao contrário, vinha cevado dos valores de Julio de Castilhos, Borges de Medeiros e Getúlio Vargas, positivistas que, por muitos anos, governaram com mão de ferro o Rio Grande do Sul, pouco preocupados com ‘democracia e liberdade’. Assim que assumiu como presidente de um regime parlamentarista, João Goulart começou a lutar pelo restabelecimento do presidencialismo. Tão logo conseguiu plenos poderes através de um plebiscito, iniciou a campanha pelas suas ‘reformas de base’ que faziam do Brasil um república sindicalista chefiada por um caudilho. Como a isso se opunha o Congresso Nacional, essa república só poderia ser implantada por golpe de estado” (Engenheiro Roberto Nogueira Médici, Tomo 14, pg. 186).

Obs.:

O engenheiro Roberto Médici é filho do General-de-Exército Emílio Garrastazu Médici, Presidente do Brasil de outubro de 1969 a março de 1974.

F. M.

 

A partir de 1961, já havia a infiltração de cubanos comunistas no Brasil, para aquisição de campos de treinamento de guerrilheiros, em PE, BA, GO, AC.

As Ligas Camponesas de Francisco Julião, o qual havia feito curso de guerrilha em Cuba, promoviam o terror no meio rural, especialmente em Pernambuco, colocando fogo nos canaviais e destruindo equipamentos industriais em usinas de cana-de-açúcar (um MST avant la letre); ao mesmo tempo, havia cartilhas comunistas sendo distribuídas pelo MEC, contrapondo o “odioso” usineiro ao “miserável” trabalhador rural – trabalho de massa que os comunistas sabem fazer como ninguém, especialmente o “mestre” Paulo Freire.

A título de informação, há um livro ilustrativo do fato histórico, escrito por Denise Rollemberg, O Apoio de Cuba à Luta Armada no Brasil – o treinamento guerrilheiro.

Obs.:

A revista Veja", de 24/01/2001, sob o título "Qué pasa compañero?", faz uma análise centrada na tese de doutorado da pesquisadora Denise Rollemberg, da UFRJ, a qual afirma que "o primeiro auxílio de Fidel foi no Governo João Goulart, por intermédio do apoio às Ligas Camponesas, lendário movimento rural chefiado por Francisco Julião. (...) O apoio cubano concretizou-se no fornecimento de armas e dinheiro, além da compra de fazendas em Goiás, Acre, Bahia e Pernambuco, para funcionar como campos de treinamento”. Em sua língua de pau, Rollemberg se refere a incêndios a canaviais, verdadeiros atos terroristas, como um “lendário movimento rural”. Após a Contrarrevolução de 1964, as Ligas Camponesas foram dissolvidas e Julião obteve asilo no México.

Sobre o assunto, leia “Guerrilha Comunista no Brasil", de minha autoria, em https://portalconservador.com/guerrilha-comunista-no-brasil/

ou http://www.aman75-83.com.br/terror_comunanobr.htm.

F. M.

 

“No Brasil, a UNE, a CGT, a SUPRA [Superintendência da Reforma Agrária], a Frente Parlamentar Nacionalista, o Grupo dos Onze, as Ligas Camponesas, alguns Ministros de Estado, os Governadores do Rio Grande do Sul, Pernambuco, Goiás e Sergipe e alguns Chefes Militares pressionaram o então Presidente, exigindo reformas de cunho comunista.

Nas Forças Armadas, a disciplina, base e alicerce primordial das Instituições Militares, foi solapada, numa tentativa de jogarem praças contra oficiais” (Coronel do Exército Márcio Matos Viana Pereira, in “O Direito de Opinar”, Editerra Editorial, Brasília, DF, 1987, pg. 18).

É importante citar a célebre frase do chefe comunista Luis Carlos Prestes, em janeiro de 1964: “Nós, os comunistas, estamos no Governo, só nos falta o Poder.” Em viagem a Moscou, Prestes deu ciência a Kruschev sobre a subversão comunista no Brasil e recebeu o sinal verde para implantar o golpe.

 

Campanha psicológica de Brizola no RS

“O ano de 1961 mexeu com os brios do Rio Grande do Sul: ‘Com a difusão de que o Rio Grande do Sul seria invadido, que as nossas famílias seriam presas e violentadas pelas tropas que vinham do Norte’. Isso contribuiu para que houvesse um chamamento grande em todo o Rio Grande do Su. Não digo somente na minha Unidade, porque o Brizola fez a campanha psicológica que foi a única que vi no meu Exército ao longo dos meus quase cinquenta anos de vida militar e sei que não verei outra campanha que venha a envolver tão intensamente todo um poro, porque o Brizola colocou nos porões do seu palácio os transmissores da Rádio Guaíba e, através dela, arregimentou todo o povo gaúcho, organizando-o em forças militares.

Eram batalhões de operários metalúrgicos, eram batalhões de operários têxteis, eram batalhões de operários da indústria civil, era a cavalaria através dos Centros de Tradição Gaúcha (CTGs). Enfim, todo o Rio Grande do Sul foi motivado e distribuiu as armas que tinha. Com isso, a decisão do III Exército foi tardia, muito tardia. O nosso Comandante do III Exército na época custou a tomar a sua decisão de aderir às forças, aderir ao Governo Brizola, mas o fez para impedir também lá dentro quase que um massacre, pois o Exército ficaria sozinho face ao seu povo” (Generao-de-Exército Luiz Gonzaga Schroeder Lessa, Tomo 10, pg. 50).

 

A infiltração política dos comunistas dentro dos quartéis, especialmente na Marinha e na Aeronáutica, pregando a separação de praças e oficiais

Várias vezes, Brizola conclamou os sargentos a prender e matar os oficiais, e se apoderar dos quartéis

“A partir de 1960, as forças de esquerda persistiram nas tentativas de infiltração no meio militar, voltando-se para os quadros subalternos, buscando dividir e corroer o organismo militar, através da cisão entre oficiais e praças.

Na Aeronáutica, o Brigadeiro Francisco Teixeira, então Cmt da Zona Aérea, dirigia essa infiltração. A eleição do Clube de Oficiais, vencida pelas esquerdas, graças a certas facilidades, foi uma luta de caráter ideológico. O Chefe do EM da Aeronáutica, Brigadeiro Correia de Melo, por ter dado difusão a uma publicação anticomunista, foi punido.

Na Marinha, mantinha-se o mesmo clima de agitação e o Clube de Suboficiais era um verdadeiro foco de propaganda comunista.

No Exército, o Gen Osvino, Cmt do I Exército, cercado de elementos ditos progressistas e nacionalistas, deixava a subversão alastrar-se nos quartéis.

Por todo o Brasil, nas organizações militares, criou-se um clima de desconfiança entre oficiais e sargentos. Os comunistas conseguiram êxito nessa primeira fase, e foi esse clima que ensejou a rebelião de sargentos, de 12 a 13 de setembro de 1963, em Brasília, sufocada, principalmente, por tropas do Exército” (General-de-Exército Sebastião José Ramos de Castro, Tomo 1, pg. 121).

“Importa também registrar que, ainda no Comando de Oswaldo de Mello Loureiro [2º. RO 105, Itu-SP], todos os subtenentes e sargentos foram chamados a São Paulo para conversar, pessoalmente, com o Presidente João Goulart a respeito de aquisição de casa própria. Recordo-me de que estava toda a Linha de Fogo em plena instrução visando ao tiro do Grupo, quando a sessão foi interrompida para que todos os sargentos se apresentassem imediatamente para viajar a São Paulo, onde o Presidente da República os receberia. A instrução prosseguiu comigo, com os cabos e soldados, sem os chefes de peça. Veja que absurdo!... Os próprios sargentos foram apanhados de surpresa e tiveram dificuldade, em termos de uniforme de passeio, para cumprir, de pronto, aquela ordem que veio diretamente da Casa Militar da Presidência, o que soubemos posteriormente.

Esse fato mostrou claramente como o Presidente da República buscava a aproximação com os graduados, sonhando valer-se dos mesmos mais tarde para neutralizar os oficiais, quando do desencadeamento da revolução comunista, para a qual passou a trabalhar, com o máximo empenho, após ter conseguido o retorno do País ao regime presidencialista” (General-de-Brigada Geraldo Luiz Nery da Silva, Tomo 10, pg. 202).

“O outro fato, único episódio negativo durante toda a participação do Grupo [2º. GO 105], deu-se pouco antes da Revista do Recolher (21h) do dia 31 de março. O Subtenente Rubens, da 1ª Bia O, surpreendeu a todos, quando, ao se ver sozinho com os cabos e soldados da Bateria, fez um rápido discurso a favor das reformas de base de João Goulart e do seu sindicalismo. Disse-lhes que o Regimento não podia colocar-se contra o movimento dos trabalhadores porque, no futuro, eles, cabos e soldados, seriam os trabalhadores.

O Capitão Luís Gonzaga Camargo, S/2 do Regimento, ao ser informado do fato, efetuou, pessoalmente, a sua prisão. Esse subtenente era, desde o tempo do Coronel Loureiro, o Presidente do Grêmio de Subtenentes e Sargentos do Regimento, tendo lidado, com certa frequência, com aquele Coronel, com quem nós, tenentes, o vimos, várias vezes, conversando nas imediações do Gabinete do Comando. Coube-lhe conduzir os graduados a São Paulo ao encontro com o Presidente da República, anteriormente citado” (General-de-Brigada Geraldo Luiz Nery da Silva, Tomo 10, pg. 209-210).

“Cheguei a Brasília, em janeiro de 1964 e encontrei, no Batalhão da Guarda Presidencial, um ambiente pior ainda, pois, embora a Revolta tivesse ocorrida em Brasília e, praticamente, dela não participaram os sargentos do Exército – os praças graduados e soldados da Marinha e da Aeronáutica foram, realmente, os que fizeram o Movimento – mesmo assim, persistia uma desconfiança total com relação aos nossos graduados do Batalhão da Guarda Presidencial, a maior Unidade, na época, em Brasília. Existiam, também, na guarnição, uma bateria de Artilharia Antiaérea, comandada pelo Major Stockler, considerado de esquerda; uma Companhia de PE, embrião do Batalhão da Polícia do Exército de hoje e um Esquadrão, o 3º. Esquadrão C Mec (Cavalaria Mecanizada), que havia vindo do Rio de Janeiro, de Campinho, para Brasília, por ocasião da Revolta dos Sargentos.

No ar, o clima de desconfiança entre oficiais e sargentos. Tínhamos ordem de andar sempre armados com a pistola engatilhada’ (Coronel Carlos Fernando Freitas Almeida, Tomo 5, pg. 286-287).

“Paralelamente a esses fatos [infiltração esquerdista no MEC e nas universidades], ocorreu o problema da inelegibilidade dos sargentos, levando a agitação para a área militar, o que, em fevereiro [1963], torna-se manifesto. Cerca de seis mil graduados realizaram uma passeata em São Paulo, em apoio à posse dos companheiros de farda eleitos. O Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), dominado por elementos esquerdistas, procurava atrair os subtenentes e sargentos com palestras e cursos nos círculos e clubes militares. Em 6 de março, foi realizada uma nova passeata de militares em São Paulo, desta vez com os integrantes da Força Pública de São Paulo e da Aeronáutica, comparecendo fardados. Os aniversários dos ‘generais do povo’ passaram a ser comemorados com a presença maciça de graduados e com extremados discursos nacionalistas.

(...)

Ante os fatos sinteticamente narrados, não se constitui em grande surpresa a rebelião dos sargentos, em Brasília, em 12 de setembro de 1963. Tanto assim é que providências tomadas impediram a participação dos graduados do Exército. Embora o movimento fosse controlado em poucas horas, foi grande a sua repercussão no País e no Exterior” (General-de-Divisão Agnaldo Del Nero Augusto, Tomo 5, pg. 99).

 

ISEB – doutrinação comunista

“Em 1958, fui transferido para o Rio de Janeiro para fazer o curso de Defesa Antiaérea. O ambiente que encontrei na Escola era o mesmo de Santa Maria. Estávamos divididos entre azuis e vermelhos.

Nos primeiros dias de aula, fui procurado por um colega de curso, um 1º. Tenente, oficial muito inteligente, segundo de sua turma de formação e que acabou sendo o primeiro da turma do curso que íamos fazer. Este oficial, que posteriormente foi cassado pelo Ato Institucional no. 1 (AI-1), certo dia perguntou-me se pretendia fazer concurso para a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Disse-lhe que sim. Ele então me falou sobre um curso muito bom, gratuito, com aulas sempre aos sábados. Falou-se também da competência dos seus professores. Fiquei interessado e passei a frequentar as aulas do ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros). Eu e mais alguns colegas assistimos a umas quatro ou cinco aulas e quase todos nos retiramos quando sentimos que estávamos sendo doutrinados para apoiar a política de esquerda que vinham pregando” (Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, Tomo 5, pg. 218).

 

O empastelamento do jornaleco Binômio

“Aqui, em Minas, há um fato, um episódio muito importante, do qual pouco se fala. Foi a quebra do jornaleco chamado Binômio. O Binômio era um jornal panfletário que explorava as pessoas, exigindo dinheiro para não divulgar notícias que lhes fossem adversas. Esse jornal, certo dia, publicou uma matéria que era degradante para o Comandante da Infantaria Divisionária da 4ª. Divisão (ID/4) – na época, General Punaro Bley. Ele teve a coragem de ir à redação do Binômio e tirar satisfação. Foi acompanhado do motorista. Este ficou na rua, no carro, esperando, e o general subiu e foi enfrentar a direção do jornal. Destratado e agredido, saiu de lá ferido, machucado. Voltou para o QG (Quartel-General). Um companheiro, um oficial que estava de serviço, viu o estado do General e comunicaou aos comandantes de Unidades que, basicamente, naquela época, eram o 12º. RI, o Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR) e mais a Base Aérea, que ficava, exatamente, junto ao aeroporto da Pampulha.

Os comandantes de Unidades do Exército resolveram ir ao jornal impedir que a próxima edição saísse, porque, fatalmente, publicaria coisas desagradáveis contra o General, inclusive fotos. Reuniram oficiais, somente oficiais e sargentos, pegaram um ônibus da Aeronáutica que ficava sempre no pátio do 12º. RI e foram ao jornal Binômio. Era o final de 1961.

Quando lá chegaram, foram recebidos de forma muito agressiva. Os militares, então, resolveram o seguinte: ‘Vamos impedir a saída da edição de amanhã e de qualquer outra edição; vamos empastelar o jornal.’ A ordem era não deixar nada inteiro que tivesse mais do que 20 cm. Tudo que tivesse mais de 20 cm deveria ser quebrado. E assim foi feito. Oficiais e sargentos dessa gloriosa guarnição assim agiram e destruíram o jornaleco Binômio, que nunca mais circulou em Belo Horizonte ou em lugar nenhum, graças a Deus.

(...)

A única punição que sobrou foi a transferência dos Comandantes do 12º. e do CPOR para outra guarnição, e, também, do Comandante da Base Aérea. Ninguém mais foi punido. Mas esse fato gerou uma coesão muito grande no meio militar de Minas Gerais; somado a uma série de outros, fez com que as tropas de Minas tivessem fortalecido o espírito revolucionário, levando-as à eclosão da Revolução de 1964”  (Tenente-Coronel Pedro Cândido Ferreira Filho, Tomo 3, pg 349).

“Esse jornalista do Binômio, de nome José Maria Rabelo, era um dos homens fortes do Brizola, que nunca conseguiu se eleger para coisíssima nenhuma, mas acabou premiado com uma vice-presidência do Banerj, quando o Brizola se elegeu Governador aqui no Rio” (Coronel Carlos Alberto Guedes, Tomo 9, pg. 261).

“Este oficial-general [Punaro Bley], quando tenente, fora interventor do Espírito Santo, onde há um estádio com seu nome, e, com esse passado político da década de 1930, a imprensa, especificamente um jornal chamado Binômio, começou a escrever artigos tentando desmoralizá-lo e culminou com, em dezembro de 1961, quando, além de chamá-lo de ‘gorila’, era o de menos, chamou-o de desonesto em artigo violentíssimo, que atentava contra a sua honra pessoal; sentindo-se ofendido moralmente, foi tomar satisfações com o então redator do jornal.

O Binômio começou, em Minas, fazendo oposição ao Governo Juscelino Kubitschek em 1955; algumas gozações, algumas brincadeiras e, com o tempo, ele foi descambando, inclusive veio a se constituir em um dos jornais daqueles que nós chamamos de imprensa marrom.

Ele passou a viver de ataques a pessoas honradas, a firmas que não forneciam propaganda para a manutenção do jornal, assacar contra a honra de empresários, contra filhas de empresários e lançavam tudo aquilo no tabloide, ao mesmo tempo em que, quando havia um desmentido, era muito pequeno e muito discreto, mas o mal já estava feito.

Essa reportagem do jornal Binômio sobre o General Bley fez com que ele pessoalmente numa manhã, vésperas de vir para o Rio – ele ia entrar de férias – fosse tomar satisfações com esse jornalista que assacara contra a sua honra pessoal, independente do achaque ao comandante da guarnição. Ele foi sozinho, com um capitão que estava de serviço na ID/4, que ficou esperando embaixo, na Rua Curitiba, onde se localizava o escritório do Binômio, que não era impresso lá, e sim nas oficinas do Diário de Notícias do Rio de Janeiro.

Ele subiu e, ao ser recebido por esse jornalista, Rabelo [José Maria Rabelo] e outros mais, fizeram uma armação e ele acabou – quando viram que estava sozinho – sendo agredido por esse jornalista, que o fez até descer sangrando no elevador do prédio em que se localizava o jornal Binômio.

O capitão ajudante-de-ordens dele, que passava pelo local, vendo o capitão que estava de serviço lá, aguardando no carro, procurou saber onde estava o general e foi atrás dele, mas quando chegou no prédio, o general já estava deixando o elevador, sangrando, com o uniforme com manchas de sangue que saíam do seu nariz, fruto da agressão que sofrera.

Isso causou uma revolta muito grande na guarnição federal de Belo Horizonte, inclusive porque, pela idade do general, estava já com 63 anos, e o seu aspecto físico, franzino, contrapôs-se esse jornalista, no vigor dos seus quarenta e poucos anos, que não titubeou em agredi-lo.

Na ocasião, eu era 1º. Tenente, servia no 12º. RI, onde exercia a função de Secretário, tendo como comandante o Coronel Itiberê Gouveia do Amaral.

No nosso quartel, houve uma reunião, era pouco antes do almoço, em que os oficiais do CPOR (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva), que era a Unidade vizinha ao 12º. RI, foram se encontrar conosco e, inclusive, o pessoal da Base Aérea; o Coronel Luna, que comandava a Base, também revoltado com a repercussão do fato e a afronta ao general, mandou um ônibus para o 12º. RI com alguns oficiais – naquele tempo nós chamávamos aquele tipo de ônibus de papa-fila.

O Coronel Itiberê foi chamado ao gabinete do General Punaro Bley, que proibiu qualquer ação contra o jornalista que provocara o incidente com ele, porque era um problema pessoal, e que ele iria, depois das férias, resolver da melhor maneira possível, mas não queria que se fizesse nada.

Quando o Coronel Itiberê voltou ao 12º. RI, já encontrou a tropa praticamente preparada para sair, à sua revelia, é verdade, indignada com aquele acontecimento. Digo por mim, que era 1º. Tenente – andava-se fardado nessa época – era até universitário em Belo Horizonte, além do meu curso na Academia Militar, fazia, na Faculdade de Ciências Econômicas de Minas Gerais, Administração de Empresas, e frequentava aquele meio universitário normalmente, como aluno.

Imaginava-me saindo do quartel, muitas vezes fardado, indo para a aula, sem tempo de trocar a  roupa – o curso era noturno – ser recebido por outros elementos com chacota ou com agressão. Não se agride um general – era o que passava pela minha cabeça de 1º. Tenente, que estava, ali, estudando, cumprindo uma outra atividade, vamos dizer assim, extracarreira, sem prejuízo da mesma.

Então, houve uma revolta muito grande no meio da tropa, e o Coronel Itiberê, quando chegou ao quartel e viu o espírito, ele disse apenas o seguinte: ‘Não, se a tropa vai, não quero soldado metido nisso...’. Apenas os oficiais e sargentos é que tinham se movimentado, não foi nenhum recruta.

Inclusive, porque já estávamos num período de desincorporação, o efetivo era pequeno, o que não vem ao caso, mas não se queria envolvimento de soldado. Ele falou assim: ‘Não, eu também sou contra, vou descumprir a ordem que recebi do General Punaro Bley, mas vocês vão me dar licença, que vou ao Quartel-General da ID/4 dizer a ele que o pessoal vai sair para uma ação efetiva, e eu, por ser o mais antigo, é quem vai comandar’.

Ele não abriu mão de comandar e organizar o efetivo, para que não fosse uma tropa desorganizada, fosse uma tropa com um comando. Veio, também, o Comandante do CPOR, Coronel Roberto Gonçalves, e o Coronel Luna, que comandava a Base Aérea.

Depois disso, nos deslocamos e chegamos ao local em que se situava a sede do Binômio – até então muita gente, nem eu sabia, que o jornal não era impresso em Belo Horizonte – e, para surpresa nossa, havia apenas lá um retrato muito grande do Che Guevara, atrás da mesa do Diretor do Binômio, que já não estava lá.

Obviamente, ele já tinha saído, tinha procurado se esconder; depois, fugiu até vestido de padre, essa é que é a realidade, para se exilar durante algum tempo enquanto os ânimos se acalmavam. A única coisa que se fez foi o que se chama de ‘empastelamento’, do que havia pela frente.

Era máquina de escrever, eram cadeiras, esse retrato, que foi quebrado, e o dono do jornal que, na ocasião era o Deputado Euro Arantes, apareceu para emprestar solidariedade e acabou sendo um dos elementos que foram conduzidos à Base Aérea – inicialmente, todo mundo apanhado lá foi encaminhado à Base Aérea – para que se pudesse ouvir o que tinham a dizer.

Logo depois, por interferência do Governador Magalhães Pinto, todos foram liberados e esse fato gerou um inquérito policial militar, ao qual respondi, assumindo a responsabilidade pela minha participação. Esse acontecimento, por uma coincidência muito grande, provocou o retorno de meu pai [General Carlos Luís Guedes] ao Comando da ID/4, em Belo Horizonte.

(...)

Com relação, ainda, ao jornal Binômio, o fato ali ocorrido trouxe até uma satisfação muito grande à população civil de Belo Horizonte, porque era uma imprensa marrom declarada e os que o patrocinavam, seja por pressão, seja por qualquer outro motivo, dando dinheiro para o Binômio, ficaram livres dessa obrigação” (Coronel Carlos Alberto Guedes, Tomo 9, pg. 235-238).

Obs.

O Coronel Carlos Alberto Guedes, às páginas 251 a 253 do Tomo 9, transcreve o editorial de O Globo, no Jornal do Brasil, do dia 27 de dezembro de 1961, “Para preservar a verdade”, relatando os motivos do empastelamento do pasquim Binômio.

F.M.

 

O sargento panfleteiro comunista da Central do Brasil

“Recebo o Comando da 4ª. Bateria de Canhões de um 1º. Tenente que já conheci pelo seu passado e sabia que estava comprometido com o pessoal de esquerda. (...) Formei a Bateria e fiz a chamada. Faltava um sargento. Procurei saber, então, onde é que estava esse sargento.

Informaram-me de que ele faltava ao quartel porque, diariamente, ia para a Central do Brasil – estação ferroviária de passageiros, no centro do Rio de Janeiro -, onde estacionava uma Kombi do Partido Comunista, junto do qual ele ficava, com o microfone na mão, fazendo propaganda para o partido. Verifiquei que isso era verdade, coloquei-o no pernoite e dei parte de ausência. Quando ele estava para passar a desertor, apresentou-se. Chegou num estado deplorável, com um uniforme todo sujo, barbudo, uma bota – nem coturno usava – uma bota ‘natal’, com uma faca, eu me lembro, no cano da bota; mandei que ele fosse arrumar-se, cortar o cabelo, fazer a barba... Ele saiu e não o vi mais. Soube que ele tinha baixado ao hospital, naquele mesmo dia, e que, do nosocômio militar, saía todos os dias para fazer a propaganda junto à Kombi, em frente à Central do Brasil. Esse sargento foi cassado pelo AI-1.

Da mesma forma, e logo em seguida, no primeiro ou no segundo dia, fui fazer uma inspeção para receber a carga do material bélico da Bateria e constatei que faltava muito armamento e munição. Procurei saber onde ele se encontrava. Procura daqui, procura dali...

- O armamento está nessa sala, aqui na frente.

- Mas, com quem está a chave? Onde ela está?

A chave e a sala eram utilizadas pelo sargento que estava na Central, fazendo propaganda do Partido Comunista. Mandei, então, arrombar a dependência, retirar o armamento e a munição que lá estavam e retoná-los à sala de material bélico da Bateria, local adequado à guarda desse material” (Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, Tomo 5, pg. 220).

 

A vil situação salarial dos militares

Nos anos que antecederam o Movimento de 1964, os militares tinham vencimentos aviltantes. Assim, muitos aumentavam seus orçamentos domésticos fora do expediente, trabalhando como professor, escrevendo para jornais, ou fazendo serviços diversos, como motorista de táxi. O próprio general Castello Branco escrevia artigos com o pseudônimo de “Mister X” e “Mister Y”.

Devido a essa penúria financeira, quando eram transferidos para regiões distantes de suas famílias, muitos militares viajavam sozinhos, deixando a mulher e filhos com algum familiar, como pai ou sogro, só voltando de tempos em tempos.

“Em 1952, ele [Castello Branco] foi promovido a General-de-Brigada pelo Getúlio Vargas, em 1958, a Divisão, pelo Juscelino e, em 1962, a General-de-Exército, pelo João Goulart. Na promoção a General-de-Divisão, foi nomeado para o Comando da 8ª. Região Militar, em Belém, castigo imposto por causa de suas críticas, usando os codinomes Mister X ou Mister Y, ao episódio em que o Marechal Lott (Henrique Baptista Duffles Teixeira Lott) foi agraciado com uma espada de ouro.

Na chegada à capital paraense, ainda no aeroporto, esposas das autoridades do Exército, Marinha e Aeronáutica, ofertaram à D. Argentina uma espada pequena, de ouro, cravejada de brilhantes. Mais tarde, depois da morte da esposa – faleceu nos braços de Arminda – o General Castello deu-a de presente à Arminda. Minha esposa nunca a usou, mantendo-a guardada” (Coronel Anysio Alves Negrão, Tomo 15, pgl 327).

“Naquela ocasião, a bem da verdade, todos os integrantes do Exército viviam uma quadra bastante estressante; muitos companheiros tinham dificuldade para sustentar a própria família, por isso se dedicavam, além dos estudos da Escola [ECEME], ao exercício do magistério em vários estabelecimentos de ensino. Outros trabalhavam como redatores em jornal. Fui convidado para empregar-me como redator auxiliar no Jornal do Brasil; não aceitei porque, com família muito grande – tinha cinco filhos – o pouco tempo de que dispunha seria mais bem aproveitado para cuidar da prole” (Coronel Gabriel Antônio Duarte Ribeiro, Tomo 6, pg. 78).

“A deterioração da autoridade do Governo começava a refletir-se nas Forças Armadas, mais precisamente na guarnição do Rio de Janeiro, então o palco de maior ressonância no País. Houve, ainda, especulação de que os militares teriam se engajado com maior ímpeto no movimento revolucionário, viabilizando-o, em função das péssimas condições salariais que viviam na ocasião. É possível.

Para dar uma noção do quadro salarial que vivíamos na época, exemplifico com o meu caso. Era Segundo-Tenente e chefiava 120 funcionários civis. Apenas seis deles ganhavam menos do que eu. Todos os outros 114 ganhavam mais. E eram funcionários nível motorista, carpinteiro etc. Só ganhavam menos do que eu os que não tinham qualquer habilitação. Não sei avaliar o peso dessa situação e como ela influenciou na decisão dos chefes militares que montaram e deflagraram a Revolução. Mas é fácil imaginar que era impossível ficar insensível aos diferentes movimentos que espocavam pelo País, pedindo o fim daquela conjuntura, daquela vergonha” (General-de-Brigada Álvaro Nereu Klaus Calazans, Tomo 8, pg. 300-301).

“... A fila do arroz, a fila do feijão, a fila do açúcar, a falta de energia. Uma greve por semana. Às vezes, duas ou três, eram as greves de solidariedade. O quadro era de inépcia e de crescente subversão.

Uma outra coisa: tenho que falar o que eu vivi. Lembro-me, segundo-tenente, tinha o meu filho com dois anos, o mais velho, que teve um problema no pé, sendo obrigado a engessá-lo. Fui ao médico, paguei a consulta e tive que empenhar uma joia. Entrei na Caixa Econômica Federal e empenhei um anel para pôr um gesso e pagar uma consulta de um médico. E depois? Não tinha mais dinheiro. Fui ao cabo enfermeiro do quartel e disse para ele: ‘Ensina-me como fazer’. ‘Tenente, o senhor vai à farmácia e compre atadura gessada – é barato e o senhor não vai mais precisar gastar’. Passei a engessar o pé do meu filho, porque não tinha dinheiro para pagar! Essa era a situação de um tenente paraquedista que ganhava 90% a mais do que os outros. A nossa gratificação era de 90% para saltar de paraquedas e para ter a coluna lesionada como tenho hoje. Atualmente, a gratificação caiu para 20%, houve uma deterioração” (General-de-Brigada Durval Antunes Machado Pereira de Andrade Nery, Tomo 10, pg. 182).

“A coisa vinha em ebulição. Era 1º. Tenente e ganhava menos do que o salário mínimo da época. Quem tinha dado aquele salário mínimo grande? Tinha sido o João Goulart. Nós, militares, estávamos sempre sendo amesquinhados. Ticamos impressionados ao ver a Polícia do Exército tomar conta de um comício contra o próprio Governo e contra o Exército. Ele, João Goulart, pregando contra ele mesmo e contra as suas Forças Armadas!” (Coronel João Franco Pontes Filho, Tomo 11, pg. 131).

 

O medo generalizado dos oficiais, que desconfiavam dos praças quando tiravam serviço de oficial-de-dia, devido às incitações de Brizola

O “esquema militar”, alardeado pelo Chefe da Casa Militar de Jango, general Assis Brasil, de colocar praças das Forças Armadas contra oficiais, trouxe funestas consequências. A desconfiança era total. O oficial-de-dia da Unidade não dormia, ficava a noite toda fazendo ronda, com a arma engatilhada, com medo de ser assassinado enquanto dormia no seu quarto (Lembrai-vos de 1935!). Os “laranjeiras” também não tinham sossego. Era um clima de terror, não se sabia em quem confiar.

“ ‘Lisbôa, tome cuidado. Ainda existem aqui no quartel algumas alamedas sem nome’. Novo na Unidade, procurei informar-me e fiquei ciente de que as alamedas tinham o nome de militares mortos em serviço... A partir daí, recordando-me dos ensinamentos de 1935, tirava serviço a cada três dias, mas não me recolhia durante a noite para o quarto destinado ao oficial-de-dia, localizado no corpo da guarda. Agindo com mais cautela, passei a andar pelo quartel atento a tudo e, quando exausto, entrava na boléia de qualquer viatura para dar uma breve ‘cochilada’.

O ambiente era tenso. Os tenentes passaram a concorrer a outra escala de serviço, a de Comandante de Pelotão de Choque, devendo estar preparados para serem empregados, particularmente nas estações da Estrada de Ferro. Algumas vezes desloquei-me para Deodoro, ocupei a estação com os meus soldados e, pelo menos em duas ocasiões, deparei-me com a difícil situação de ter que me confrontar com badernistas que tentavam quebrar os trens. Na missão, quase sempre indefinida que recebia de meus superiores, apesar de inquirir a respeito, nunca me foi dada explicitamente a ordem de ‘quando atirar’. A idéia que tinha era de que estava ali como uma espécie de ‘bucha de canhão’, com a finalidade de permitir criar uma situação difícil e incômoda, envolvendo o pessoal militar que, na realidade, atendesse a outros objetivos não claramente explícitos.

(...)

Certa vez fui à 3ª. Bateria (os mais perigosos estavam reunidos nas 1ª. E 3ª. Baterias) procurar o Tenente Amorim. Ele era o Diretor do Curso de Formação de Cabos (CFC) e, intencionalmente, não coordenava a instrução com os tenentes das Baterias. Certamente, agia assim na tentativa de desestabilizar a Unidade e estava conseguindo o seu objetivo, pois a instrução de cabo era um verdadeiro caos... Encontrei-o na reserva dos sargentos recebendo, de um deles, detalhada orientação sobre ‘ordens’ que deveriam ser seguidas. Perplexo, observei que o referido tenente estava sendo enquadrado pelo sargento, em flagrante inversão de todos os valores hierárquicos que conhecia. Compreendi, naquele momento, que alguma coisa de grave estava para acontecer...” (Coronel José Carlos Lisbôa da Cunha, Tomo 3, pg. 340).

“Em 1922, fundou-se o Partido Comunista Brasileiro, cujo chefe maior foi Luís Carlos Prestes. Daí para frente, os comunistas brasileiros, orientados pela III Internacional Comunista – Komintern – e apoiados por Moscou, começaram a articular um movimento para implantar no Brasil o regime comunista. Este movimento se desencadeou em novembro de 1935, começando em Natal-RN, com a deposição e prisão de autoridades, com assaltos, sequestros, estupros e todo tipo de violência. Estendeu-se para o Recife, onde houve confrontos e mortes entre as forças da ordem e bandos comunistas armados. Tornou-se mais grave no Rio de Janeiro. Na noite de 27 de novembro de 1935, foram atacados vários quartéis e mortos 28 militares, enquanto dormiam em seus alojamentos. O mais brutal desses ataques ocorreu no 3º. RI, na Praia Vermelha. Essa Intentona Comunista de 1935, por suas características de traição e perversidade, traumatizou a alma brasileira e vacinou o nosso militar contra essa ideologia malsã. Foi, portanto, um marco deplorável na vida nacional e o antecedente preponderante da Revolução de 1964” (General-de-Brigada Manoel Theóphilo Gaspar de Oliveira Neto, Tomo 4, pg. 94).

“De um modo geral, nos quartéis, existia sempre uma minoria muito atuante, cooptada para implantar uma espécie de um processo de insubordinação. Havia um ambiente de muita insegurança e, pior, de desconfiança, uma coisa que nunca vira anteriormente. Havia uma desconfiança um do outro. Ninguém sabia quem era quem ali, ou seja, quem era a quinta-coluna, que ali estava para gerar a indisciplina. O quadro fazia-nos lembrar a Intentona de 1935, na qual os comunistas, obcecados pela sua ideologia descabida, mataram seus colegas dormindo. O postulado que eles obedecem cegamente é aquele que volto a salientar – os fins justificam os meios” (Coronel Audir Santos Maciel, Tomo 11, pg. 147).

 

FAKE NEWS? TAMBÉM TINHA, COM A RÁDIO MAYRINK VEIGA, PORTA-VOZ DE BRIZOLA

Malas de dinheiro, já havia naquela época...

“Agora me lembrei de um pequeno episódio. O Brizola conhecia bem o poder da mídia, ele prestava muita atenção a esse lado. Veio para o Rio trazendo uma mala de dinheiro, porque ele não assinava cheque, cuja origem naturalmente não era possível traçar, e comprou a Rádio Mayrink Veiga.

Essa rádio falava bem do Jango e mal dos militares. Lá no Sul, ele tinha a Rádio Farroupilha, uma outra estação, com a mesma finalidade, assim como em vários outros pontos do Brasil ele tinha estações de radiodifusão. Vivia fazendo propaganda a favor do comunismo.

O Lacerda, antes de o Brizola ser o dono, tinha conseguido umas horas na Rádio Mayrink Veiga. Um dia o Lacerda ia saindo da Rádio, quando foi interceptado por dois ou três capangas do Mendes de Moraes, que lhe deram uma surra, a primeira surra da vida dele, na calçada da Mayrink Veiga” (Coronel-Aviador Gustavo Eugenio de Oliveira Borges, Tomo 10, pg. 301).

“Dia 31 começamos a ouvir, tarde da noite, notícias sobre a movimentação conduzida pelo Mourão que, como se sabe, saiu intempestivamente. O próprio Castello ainda tentou fazer com que ele voltasse – já não dava – quando, então, o Magalhães Pinto decidiu o início do processo revolucionário. Não tínhamos informação segura, era tudo precário demais. Comunicação quase nenhuma, ouvir o rádio, uma dificuldade enorme. Escutava-se a rádio Mayrink Veiga, noticiando que o Castello estava preso e outras coisas mais, um monte de inverdades. Mas eu tinha uma ligação com São Paulo com São Paulo, através de radioamador. Eu era radioamador. Tínhamos um grupo clandestino com o Coronel Sebastião.

Dia 31, à noite, passamos em prontidão rigorosa [26º. BC, Belém]. Os oficiais – todos os oficiais menos dois – eram partidários de um movimento, que nós chamávamos de ‘vamos almoça-los, antes que nos jantem’. Essa era a expressão. Os adversários estavam prontos para dar um golpe e nós queríamos nos antecipar. Esse era o ambiente que dominava: somente dois oficiais do Estado-maior faziam restrições, não chegando a serem contra” (Senador Jarbas Gonçalves Passarinho, Tomo 5, pg. 65-66).

 

A atuação desestabilizadora das Ligas Camponesas, de Francisco Julião, principalmente em PE, com apoio de Miguel Arraes, e dos Grupos dos Onze, de Brizola, principalmente no Sul do Brasil.

“Esse homem, Francisco Julião, inclusive foi eleito deputado federal, aproveitou a situação existente e veio a criar, naquela região, as ‘Ligas Camponesas’, espécie de quistos, perigosos e difíceis de controlar. O Governo do Estado de então, Miguel Arraes, estava de acordo com isso tudo e, também, o Professor Paulo Freire, organizador de uma cartilha que ensinava a ler assim: ‘Letra ‘f’ – ‘f’ de fome. O Brasil tem fome” (General-de-Brigada Ruy Leal Campello, Tomo III, pg. 60).

“As Ligas Camponesas foram criadas em 1958 por Francisco Julião. Até 1961, a proposta ressaltada por Julião era decididamente correta, pois recomendava a utilização de instrumentos legais para reivindicar, organizar e atribuía papel privilegiado aos advogados. Em 1961, já existiam federações das Ligas em dez Estados e foi fundado o Conselho Nacional das Ligas Camponesas, com representação em 13 estados. Mas, nesse ano, Julião visita Cuba e de lá retorna com o pensamento impregnado pelas ideias locais. Abandona a orientação seguida até então e passa a pregar uma concepção socialista coletivizante de reforma agrária, passando as Ligas a representarem os focos de atração do movimento camponês. Julião se manifesta, nacionalmente, através das Ligas e, em 1963, procura ampliar a ação das mesmas criando o Movimento Unificado da Revolução Brasileira (MURB), que englobaria, numa frente única, os setores radicais da subversão. Embora Julião mantivesse estreitas ligações com o PCB, o seu movimento inspirava-se nas ideias da China Popular e de Cuba. Já em 1962, no dia 21 de abril, lançava, em Ouro Preto, o Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT) e pregava a reforma agrária, ‘na lei ou na marra’. Comprou fazendas e nelas instalou campos de treinamento de guerrilhas. Essa maneira de agir veio enfraquecer o movimento das Ligas. O MURB contava com o apoio de elementos treinados em Cuba, na União Soviética e na República Popular da China e poderia ter-se transformado em executor de uma ação armada de guerrilha rural de vulto, não fora o Movimento de 1964.

Em outubro de 1961, foi lançada, em Goiânia, a Frente de Libertação Nacional, sob a liderança dos governadores estaduais Leonel Brizola, Mauro Borges e Miguel Arraes, e de Francisco Julião; Barbosa Lima Sobrinho, Bento Gonçalves e várias outras pessoas, escolhidas para mascarar a nítida orientação comunista, estavam presentes. A Frente era uma tentativa  de formação de uma frente única, de caráter amplo, inspirada no nacionalismo e fundamentada nos motivos de emancipação econômica do País. Ressurgia, assim, até com semelhança no nome, a Frente Democrática de Libertação Nacional, lançada por Prestes em 1950, por intermédio do Manifesto de Agosto, coo é conhecido. A Frente não era inteiramente ligada ao PCB, porque nela predominavam as tendências chinesa e cubana” (General-de-Exército Sebastião José Ramos de Castro, Tomo 1, pg. 120-121).

“Francisco Julião esteve em Cuba, fez curso de guerrilha rural, e todos nós sabíamos disso. Peguei essa fase em 1961, 1962, aqui em Pernambuco, quando aconteceu aquela greve geral dos estudantes secundaristas, em 1961, e o Governo Federal mobilizou tropas do Exército.

Do Rio de Janeiro veio a tropa paraquedista, veio tropa da Marinha, e tropa da Paraíba...

A greve geral foi estimulada por quem? Pelos ativistas comunistas e teve todo o apoio do Governo do Estado, que não mobilizou a Polícia para reprimi-la. O Exército é que foi para a rua acabar com a greve” (Coronel Clidenor de Moura Lima, Tomo 6, pg. 116).

“As ligas camponesas, aqui no Nordeste, particularmente na Paraíba e em Pernambuco, faziam, talvez, pior do que o MST de hoje, porque ameaçavam diretamente com invasões armadas e apregoavam o  apoio que recebiam de Cuba. Sabíamos que era real, não era sonho, porque tínhamos informações e conhecíamos perfeitamente o mecanismo que usavam. Isso nos preocupava profundamente, a tal ponto de o comandante da Base Aérea – o Coronel Hipólito, que também participava dessas reuniões – querer derrubar o avião do Jango, aproveitando-se de uma viagem dele para apoiar as ‘Ligas Camponesas’, na Paraíba. Mais calmos, o comandante do 23º. BC, eu e o Dr. Armando Falcão convencemo-l0 de que aquilo era inoportuno, já que o Sr. João Goulart, depois, seria endeusado” (Tenente-Coronel Idalécio Nogueira Diógenes, Tomo 4, pg. 179).

“Muito superficialmente, as Ligas Camponesas foram herdeiras naturais das primeiras tentativas feitas no campo para mostrar força e poder, pressionando os órgãos do Governo que tratavam do setor de terras. Lembro-me de que começaram no Estado do Rio de Janeiro. A Fábrica Nacional de Motores (FNM) foi invadida sob o comando do falso Padre Aníbal. No campo agrário propriamente considerado, foram frequentes os distúrbios e invasões chefiados pelo Deputado Francisco Julião. Realizaram marchas sobre engenhos e fazendas, especialmente no Nordeste. O primeiro nome das Ligas foi Bloco Operário Camponês. Invasões semelhantes foram levadas a cabo, também, no Rio Grande do Sul.; depois, realizou-se em Goiânia, o Congresso dos Camponeses Sem Terra para estabelecer os objetivos do Movimento.

Quanto ao ‘grupo dos onze’, sob liderança de Leonel Brizola, jamais chegou a tornar público os estatutos desta organização. Todas as sextas-feiras, utilizando o rádio, apresentava ideias sobre os grupos que chamava de Comandos Nacionalistas ou ‘grupo dos onze’. Deixava transparecer que a eles caberiam tipos específicos de missão: uma ofensiva, em qualquer caso de golpe, fosse qual fosse sua origem. Se eles fossem dar um golpe, poderiam contar com a participação desses grupos, como também nas medidas preliminares de defesa.

Em 30 de novembro de 1963, afirmou Brizola: ‘Estes grupos não estão sendo organizados para fazer crochê, jogar cartas ou tomar chá. Estão sendo organizados para a ação’. Mas era voz corrente que o mais importante dessas ações seria a neutralização por ou mesmo a destruição dos chefes militares. O grosso desses grupos era constituído por comunistas militantes ou por simpatizantes das três Forças Armadas, principalmente, graduados e soldados” (Coronel Hernani D’Aguiar, Tomo 9, pg. 175-176).

“Tanto as ‘Ligas Camponesas’ de Francisco Julião, que agiam no Nordeste, particularmente em Pernambuco, com a tolerância do Governador Miguel Arraes, quanto os ‘grupos dos onze’, cuja formação, em todo o País, era fomentada pelo Governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, para agirem como uma milícia paramilitar, estavam no contexto da preparação da tomada do Poder e implantação no Brasil de uma República Popular Sindical.

Além desses, podemos citar:

O Movimento Cultural Popular (MCP), organizado em Pernambuco por Gregório Bezerra, notório comunista, egresso de 1935, com o objetivo de conscientizar os estudantes com relação aos jargões comunistas; o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), braço sindical a serviço de Jango, como arma para a implantação da tal república sindicalista” (General-de-Exército Carlos Tinoco Ribeiro Gomes, Tomo 10, pg. 33).

“Posso dizer que as ‘Ligas Camponesas’ e os ‘grupos dos onze’, na verdade, foram blefes. Eram usados pela imprensa, faziam estardalhaço, mas sentir a existência... e a ação... Não houve nenhuma, absolutamente. Apenas no interior de Goiás foram apreendidos uns caixotes com armas que eram destinadas ao ‘grupo dos onze’, mas o pessoal fugiu e nunca mais apareceu. Havia um oficial amigo do Jango, Coronel Seixas, responsável pela repressão, e que, ao invés de mandar aquelas armas para o Exército, enviou para a Presidência da República. As armas tinham vindo de Cuba” Coronel Renato Brilhante Ustra, Tomo 5, pg. 256).

“A partir desses quatro ou cinco dias após o 31 de março, começaram a ocorrer aqui alguns inquéritos. Prenderam muitas pessoas envolvidas com terrorismo, outras com guerrilhas e corrupção. Trabalhei num inquérito do Banco do Brasil. Também participei, nesse período, até o final do ano, da prisão do Francisco Julião. Muito inteligente, nunca tentou esconder nada, sempre se confessou esquerdista, comunista convicto, e que não iria mudar a posição dele. Era uma conversa muito interessante. Durante um serviço que tirei no Batalhão, Como oficial de dia, solicitou a Bíblia, porque não tivera tido oportunidade, na vida, de ler o Livro Sagrado” (Coronel Carlos Fernando Freitas Almeida, Tomo 5, pg. 293).

“Existia um médico comunista em Goiânia que reuniu um pessoal das ‘Ligas Camponesas’ e começou a marcar as portas e janelas das casas daqueles que concordavam com a Revolução e não eram a favor do comunismo. Isso aconteceu antes e nos primeiros momentos após o 31 de Março; esse pessoal, dizia-se na cidade de Goiânia, seria fuzilado!” (Coronel Gabriel Antônio Duarte Ribeiro, Tomo 6, pg. 82).

“Na Paraíba, o Governador Pedro Gondim não era de confiança dos militares, em virtude de suas atitudes populistas; os integrantes das Ligas Camponesas faziam passeatas armados de foices, principalmente nas cidades próximas das usinas (de açúcar); os portuários, também, em Cabedelo, faziam comícios agressivos, procuravam o apoio das Ligas do Francisco Julião.

Se um militar chegasse fardado na região portuária de Cabedelo, eles mostravam seu desapreço, eram acintosos.

(...)

Antes da Revolução de Março de 1964, houve casos de invasão de usinas. Em Goiana, PE, redundou na morte de empregados e policiais, assassinados pelos camponeses revoltados.

A cidade de Cabedelo, PB, foi invadida por camponeses armados que ocuparam até prédios públicos, como a prefeitura; o povo se escondeu daquela massa, isso a cerca de 18 km de João Pessoa” (Coronel Expedito Bandeira de Araújo, Tomo 6, pg. 154-155).

“O senhor tem conhecimento de alguma atividade que estaria prevista par o dia 1º. de maio de 1964?

Aqui em Recife, um desfile das célebres ‘Ligas Camponesas’ e de trabalhadores rurais. Já existia até uniforme: um macacão, faltando apenas um bordado que seria colocado na lapela, estampando a foice e o martelo. Estive com esse uniforme em minhas mãos.

Como chegou às suas mãos?

Por ser intendente, conhecia o pessoal que fabricou o macacão. Não me lembro do nome da firma, da confecção que os fez, mas localizava-se na Rua da Matriz; não sei se apenas ela” (Coronel Clycio D’Azevedo, Tomo 6, pg. 145).

“Os fatores internos começaram muito antes de 1964. Já em 1961 o manual de guerrilha do Che Guevara era distribuído no Brasil pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB) e no Nordeste foram implantadas as ‘Ligas Camponesas’. Tudo uma repercussão ou consequência interna de um fator externo, a guerra fria grassava no mundo da época. A União Soviética e todos os seus satélites – Alemanha Oriental, Checoslováquia, Cuba etc. exportavam revoluções para os países do Terceiro Mundo. Dissidentes apenas sobre os métodos a serem adotados, também a China e seus aliados buscavam a tomada do Poder e a implantação do socialismo, em escala mundial, através de movimentos revolucionários” (General-de-Brigada Daniel Lomando Andrade, Tomo 8, pg. 235).

“Para se ter uma ideia da situação antes do Movimento Democrático, as ‘Ligas Camponesas’, chefiadas por Francisco Julião, invadiam fazendas, desrespeitando o direito de propriedade. O presidente da Superintendência da Reforma Agrária (SUPRA), João Pinheiro Neto, pregava as invasões de terras, a violação do direito de propriedade, incêndio de lavouras, matança de gado, enfim a quebra do setor produtivo agrícola. Numa dessa pregações, em Curvelo, o povo da cidade o expulsou a tiros para fora de Minas” (Doutor Carlos Eduardo Guimarães Lousada, Tomo 7, pg. 348).

“As ‘Ligas Camponesas’ nada mais foram do que uma instrumentalização feita em homens bons, em homens que estão precisando de ajuda ainda hoje. Sou nordestino, não tenho nada que ser contemporizador com a mentalidade dominante de certa camada do Nordeste, que conheço muito bem, que sufoca, que priva da dignidade o ser humano. Mas não é reduzir isso somente para o usineiro. Não é só o usineiro, somos todos nós.

Então, resumiria assim: esse absurdo de não ter havido – não chamo a reforma agrária – o desenvolvimento agrário no Brasil, capaz de solucionar o problema das demandas dessa gente, que precisa de terra ainda hoje. E isso foi, entre outras bandeiras sociais, assumidas pelo senhor Francisco Julião, que as transformou através de cartilhas que foram apreendidas – e eu li algumas delas, em instrumento da subversão comunista, no campo. Então, ninguém precisa me ensinar essas coisas. Cartilhas ensinando a violência e armamento foram apreendidos nos aparelhos das ‘Ligas Camponesas’. Em Minas Gerais, em 1962, foi apreendido um ônibus da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Minas Gerais que estava se deslocando lá para o Nordeste com um carregamento de armas.

(...)

No seu discurso de posse, ele [Castello Branco] foi até o Estatuto da Terra, que ainda hoje é o melhor documento que existe no Brasil sobre isso. Pois bem, aonde existia a possibilidade de compatibilizar este objetivo a ser atingido – não digo nem ideal – com a reforma agrária na marra, na violência, na usurpação, na loucura, na cegueira, no fanatismo, inspirado no exemplo de Cuba, que muito encantava os nossos líderes socialistas? Essas ‘Ligas Camponesas’ nada mais eram do que braços políticos que estavam sendo transformados em braços armados da guerrilha rural” (Coronel Francimá de Luna Máximo, Tomo 11, pg. 222-223).

“Entendo bastante do ‘grupo dos onze’ porque fui designado para fazer um IPM (Inquérito Policial Militar) desses grupos. Sobre as ‘Ligas Camponesas’, sei que elas foram criadas e eram chefiadas pelo Francisco Julião, mas elas cresceram mais no Nordeste e pretendiam, sob orientação cubana, fazer a reforma agrária ‘na marra’, como eles diziam. (...)

Quanto ao ‘grupo dos onze’, disse que fui designado para fazer o IPM. Era a milícia ‘brizolista’. Com ela, o Brizola pretendia se opor às Forças Armadas em apoio ao ‘cunhado-presidente’ e depois em benefício próprio, porque ele já teria, naquela época, pretensões de chegar ao Palácio do Planalto. Eles assumiram a Rádio Mayrink Veiga, que era uma estação do Rio de Janeiro, de certo renome, e ali instalaram o seu quartel-general. O seu chefe de estado-maior na  rádio era um cidadão chamado Paulo Shilling, cuja filha, extremista de esquerda, foi presa e não sei se desapareceu ou não no Uruguai, onde andou exercendo atividades terroristas. O ‘grupo dos onze’ se propôs a criar uma milícia à imagem de uma equipe de futebol – onze jogadores – pois achavam que aquilo tinha um chamamento místico sobre a população: futebol, onze jogadores, onze integrantes. Na noite da Revolução – noite de 31 de março – eles tentaram convocar a sua milícia, mas não conseguiram” (General-de-Brigada Celso dos Santos Meyer, Tomo 10, pg. 133).

“O ‘grupo dos onze’ era uma espécie de formação de guerrilheiros: eram grupos pequenos, armados, com 11 integrantes, efetivo de um grupo de combate, para proteger o Brizola. Isso era coisa do Brizola. Dias antes da Revolução, ele publicou num tabloide de Porto Alegre – e nós tínhamos lá em São Paulo um exemplar – um artigo concitando os sargentos a matarem os oficiais e a assumirem os comandos.

Esse homem ia para a Rádio Mayrink Veiga com aquela mala de dinheiro na mão – ele não pagava com cheque não, era mal de dinheiro – para pagar as horas em que ficava pregando a subversão” (General-de-Brigada Augusto Cid de Camargo Osório, tomo 14, pg. 124).

 

“Os seguintes fatos demonstraram essa realidade: aceleração do processo de sindicalização do País; tentativas de cisões no seio das Forças Armadas; criação das ‘Ligas Camponesas’ e dos ‘grupos dos onze’; distribuição velada de armamento no meio operário.

Em Juiz de Fora, numa ocasião, foi visto uma viatura passar cheia de metralhadoras para os operários da época, ali na minha cidade, nas nossas barbas, porque eu estava em Juiz de Fora.

E também, manifestações culturais, induzindo à revolta popular. Exemplo foi a encenação de uma peça teatral chamada ‘Cristo Total’, onde eles mostravam que Cristo encarnava o povo que estava sendo agredido, morrendo na cruz, com o intuito de levar o nosso povo a se revoltar, como se o povo do Brasil fosse o Cristo. Queriam que o povo se rebelasse e adotasse o regime comunista que ia libertá-lo. Isso é o que eles queriam. Quem não viu isso é porque não quis ver ou porque não interessava ver!” (Coronel Reynaldo de Biasi Silva Rocha, Tomo 3, pg. 320).

“... quando o Jango estava em Porto Alegre fugindo para o Uruguai, ele se encontrou com o Brizola e com o comandante do III Exército, e o Brizola começou a preconizar a resistência: ‘Temos que resistir, vou ser o Ministro da Justiça e ‘fulano de tal’ Ministro da Guerra. O General Ladário, que estava lá, era adepto daquilo. Está tudo aqui no livro...

O Brizola diz textualmente que eles tinham que reagir e que diante da ponderação de um dos generais que estava presente, de que a maioria dos oficiais estava contra Jango e, portanto, querendo aderir à Revolução, ele disse: ‘Não tem problema, tenho um sargento ao lado de cada oficial e esse sargento está instruído para matar o oficial e assumir o comando, assumir a posição dele” (Coronel-Aviador Gustavo Eugenio de Oliveira Borges, Tomo 10, pg. 290).

“Mas, antes de prosseguir enfocando esse Movimento, que salvou o Brasil e seu povo de uma verdadeira catástrofe, impõe-se caracterizar a índole perversa da mais perigosa entidade atuante no meio comuno-janguista, que eram os ‘grupos dos onze’, criados por Leonel Brizola (naquela época, estimava-se em cerca de 1.300 grupos). Um documento de cinco a seis folhas, apreendido pelo Exército logo após a Revolução, na célula comunista de Niterói, dedica um capítulo ao papel dos ‘grupos dos onze’ na guarda e julgamento de prisioneiros. Por oportuno, dele transcrevo o que se segue:

‘Devemos instruir os grupos dos onze companheiros para missões especiais de prisão, guarda e julgamento sumário de prisioneiros de guerra. Os reféns deverão ser sumária e imediatamente fuzilados, a fim de que não denunciem os seus aprisionadores e não lutem posteriormente para sua condenação. Os grupos dos onze serão como foi a guarda vermelha da Revolução Socialista de 1917, na União Soviética, da qual seguirão o vitorioso exemplo’ (Coronel Luciano Moreira de Souza, Tomo 4, pg. 123).

 

Adendo: não consta da História Oral do Exército/1964

Guerrilha de Dianápolis, Goiás

“De todos os núcleos das Ligas, o mais importante, o mais expressivo e o de maior efetivo foi o de Sapé, na Paraíba. Esse núcleo congregaria 10.000 membros.

Em 1960 e 1961, as Ligas organizaram comitês regionais em 10 Estados e criaram o jornal A Liga, porta-voz do movimento, que circulava entre seus militantes. Também nesse ano tentou criar um partido político chamado Movimento Revolucionário Tiradentes – MRT (Movimento que atuou na luta armada, no período pré e pós-revolucionário de 1964).

No plano nacional, Francisco Julião reuniu, em torno das Ligas, estudantes, idealistas, visionários e alguns intelectuais, como Clodomir dos Santos Morais, advogado, deputado, militante comunista e um dos organizadores de um malogrado movimento de guerrilha em Dianápolis/Goiás em 1962” (“A Verdade Sufocada”, pg. 69).

“Em 04;12;1962, o jornal O Estado de S. Paulo noticiou a existência de áreas de guerrilha e anunciou a prisão de membros das Ligas Camponesas, em Dianápolis, no interior de Goiás, hoje Tocantins.

No local foram apreendidos retratos e textos de Fidel Castro, bandeiras cubanas, manuais de instrução de combate, planos de sabotagem e armas, além da contabilidade da ajuda financeira enviada por Cuba e dos planos das Ligas Camponesas em outros Estados do País. O responsável por esse centro de treinamento guerrilheiro era Carlos Montarroyo. Vinte e quatro militantes foram presos. Também foram decretadas as prisões de Clodomir dos Santos Morais, Tarzan de Castro e Amaro Luiz de Carvalho.

João Goulart era presidente do País, o que prova que essas guerrilhas foram iniciadas antes da Contrarrevolução de 1964, portanto a motivação do movimento guerrilheiro não era a luta contra nenhuma ditadura” (“A Verdade Sufocada”, pg. 138-139).

 

Brizola, o carbonário

“O Brizola foi o primeiro político brasileiro que entrou em ligação com Fidel Castro e mandou gente fazer curso em Cuba. Inclusive esse Diógenes que andou se complicando há pouco tempo em uma Comissão Parlamentar de Inquérito. O atual Vice-Governador do Rio Grande, Miguel Rosseto, também andou por lá e é coronel honorário do exército cubano. Estes dois são das primeiras turmas encaminhadas a Cuba pelo Brizola. Como Governador e Deputado, o Brizola colocou as manguinhas de fora e os cubanos circulavam por aqui. Sabíamos da presença em Porto Alegre de três cubanos. Fui um dos que saíram para a rua e andavam à cata de agitadores estrangeiros que circulavam por aqui. Além do mais, o Brizola agitava o País com seus célebres discursos das sextas-feiras, uma pura ameaça à sociedade organizada. Foram criados os ‘grupos dos onze’, o Brasil estava cheio deles. Estimávamos que existiam cerca de cinco mil Grupos, um efetivo de quase sessenta mil homens. E quem fazia o proselitismo e os unia em termos nacionais era a Rádio Mayrink Veiga. Sintonizávamos aquela emissora à noite e ouvíamos:

- Alô, alô Santo Ângelo, comando revolucionário número trinta e quatro, alô doutor Fulano...

A mensagem para o correligionário informava o número do grupo, a sua localização e convocava os responsáveis para a transmissão de ordens ou transmitia alguma instrução. Isso era feito o dia inteiro. Belo exemplo de sigilo nas operações...

(...)

Aqui no Estado, onde houve a maior resistência à Revolução? [entrevistador]

Creio que foi aqui mesmo em Porto Alegre. O Brizola fez um discurso na Praça da Prefeitura em que instigou os sargentos a arrancarem os olhos dos oficiais com os dedos. Imaginem a reação! Isso ninguém me contou, eu fui lá para ver e ouvir. Acho até que o Gusmão estava comigo. Éramos dois ou três oficiais assistindo ao comício. Ele falou claramente que os oficiais eram golpistas e que os sargentos não deviam cumprir as ordens dos gorilas.

- Ataquem, ataquem esta gente e arranquem os olhos deles nem que seja com os dedos.

Ele disse isso. A resistência era coordenada por ele que dispunha de um staff – inclusive já citei o nome de alguns dos integrantes desse grupo – para lhe municiar das informações necessárias” (General-de-Brigada Léo Guedes Etchegoyen, Tomo 8, pg. 178-179).

“Sobre aquele discurso [de Leonel Brizola] não me falaram, eu mesmo o ouvi em uma emissora comercial. A rede-rádio da 2ª. DC nos ligava com todas as Unidades. A 3ª. Seção sintonizou nossa rede na emissora que transmitia a agressão verbal do agitador. Através dessa escuta ouvíamos e transmitíamos o Brizola vociferar:

- Fuzilem os oficiais! Matem esses gorilas!

Ele estava aqui em Porto Alegre e bem que tentou conter a Revolução mas não conseguiu. Fugiu de avião, dizem que travestido de padre!” (General-de-Brigada Léo Guedes Etchegoyen, Tomo 8, pg. 206).

“Ficava, portanto, no rádio, acompanhando a tal cadeia da legalidade, com o Brizola insuflando: ‘Passa a mão nesses gorilas, mata, agora vai correr sangue’, aquele jeito dele de falar, instigando a Nação contra o movimento revolucionário que eclodira. O Tenente-Coronel Raposo me disse: ‘Coloca isso no alto-falante para todo mundo do quartel ouvir’. O nosso quartel era do lado do 8º. BC, e, à noite, aquele silêncio, todo mundo ouviu tanto no Grupo de Artilharia, como no Regimento de Cavalaria, o Brizola dizendo: ‘Matem os oficiais, passem fogo neles, ainda não correu sangue’, o que trouxe uma revolta geral dentro dos quartéis diante daquelas palavras insanas de ordem. O tiro saiu pela culatra. Até o povo nas ruas ficou indignado com aquele tipo de mensagem voltado para a completa quebra da hierarquia e da disciplina, uma mensagem diabólica, do líder daqueles que queriam instalar, em nosso País, uma ‘república sindicalista’, tão falada naquele Comício da Central do Brasil, no dia 13 de março” (Tenente-Coronel Carlos Claudio Miguez Suarez, Tomo 9, pg. 384-385).

Obs.:

Um pouco sobre a carreira política do carbonário Leonel Brizola pode ser visto em “Brizola, o Último dos Maragatos” - http://felixmaier1950.blogspot.com/2020/07/brizola-o-ultimo-dos-maragatos-por.html

Sobre os “Grupos dos Onze”, veja “Documentos Revelados”, do ex-guerrilheiro e amigo de Lamarca, Aluizio Palmar – link http://www.documentosrevelados.com.br/repressao/grupo-dos-onze-companheiros-movimento-liderado-por-brizola-para-barrar-o-golpe-e-avancar-com-as-reformas-parte-3/ .

F. M.  

 

A Aliança para o Progresso

“A crise continuava, e deu-se em 1962 o meu segundo ‘entrevero’ com o ex-Governador Brizola.

O Embaixador Lincoln Gordon, americano, ia ao Recife e a Natal, a fim de inaugurar umas tantas obras que tinham sido feitas em cooperação com as autoridades americanas.

Estava eu numa reunião, que não me lembro qual, com o Governador Aluízio e ele me disse:

- General Muricy, vamos ter aborrecimento.

- Por quê?

- Porque o Prefeito Djalma Maranhão disse que não vai tomar conhecimento da vinda do Embaixador americano.

- Mas como? Ele é o dono da casa, e o Embaixador é o representante de uma potência, de uma nação amiga, como é que ele não toma conhecimento?

- Não, ele disse nenhuma; que eu é que me virasse.

- Bem, vamos nos preparar para os aborrecimentos que vêm – respondi.

Foi quando o Governador resolveu desmoralizar o Djalma Maranhão e publicou no jornal A Tribuna, de Natal, um retrato dele, Djalma Maranhão, pedindo dinheiro à ‘Aliança para o Progresso’, que era uma instituição americana. Natal inteiro riu do Djalma Maranhão: ‘Então esse é o homem que ataca os americanos e vai lá para pedir dinheiro? Que moral tem ele?’

O Djalma Maranhão ficou sem sabe o que fazer e pediu socorro aqui no rio para as ligações dele, e quem foi lá para apoiá-lo foi Leonel Brizola, então Deputado e já agitando o Brasil, na preparação do ‘grupo dos onze’ e seu movimento revolucionário reformista, que não era comunista, mas de agitação revolucionária populista; mas cooperava para criar o ambiente para a guerra revolucionária comunista.

O Deputado foi a Natal no dia exatamente em que o Embaixador americano fazia a visita protocolar. (...)

(...)

No dia seguinte, depois de levar o Embaixador ao aeroporto, fui para o Quartel-General, ouvi a gravação do discurso que o Brizola havia feito na véspera. O discurso era francamente subversivo. Entre as coisas que ele disse, lembro-me do seguinte: ‘É preciso deixar estourar esta panela de pressão para que possamos fazer alguma coisa pelo povo brasileiro. É preciso...’ e por aí afora. Brizola pregou um ‘movimento revolucionário’ naquela noite em plena praça pública. Esta gravação deve estar ainda lá em Natal, se não jogaram fora.

A seguir, houve a manifestação de apoio a minha pessoa. Recebi oficiais do Exército, da Marinha e da Polícia Militar (o Governador me apoiou completamente e, depois, mandou imprimir a conferência que eu tinha feito sobre a guerra revolucionária). E eu fiz o meu pronunciamento, aceitando a manifestação de desagravo que teve larga repercussão.

Por coincidência, estava em Natal o jornalista do Correio da Manhã, Fernando Luiz Cascudo, filho do meu velho amigo Câmara Cascudo. E o Fernando pegou minha documentação, mandou para o Rio e, no mesmo dia, foi publicado em todos os jornais daqui (lembro-me que O Globo colocou como manchete a frase: ‘Basta de agitação!’, que era um trecho do que eu tinha dito). Essa minha resposta a Brizola encontra-se impressa, por iniciativa do General Antonio Jorge Corrêa numa Coletânea de escritos sob o título: ‘Palavras de um Soldado’, editado pelo Ministério do Exército.

(...)

Ainda em Natal, outro episódio.

Estava um dia no Quartel-General, quando me avisaram: ‘O Deputado Sargento Garcia vem a Natal.’ São coisas do passado. Quem era o Deputado Sargento Garcia? Era um sargento que tinha sido eleito deputado federal e que corria o Brasil pregando a subversão contra os oficiais para, dentro do princípio da guerra revolucionária, dissolver ou tentar fazer com que as Forças Armadas perdessem substância.

No dia marcado, lá estava ele, que tinha ido pregar a união dos sargentos. Precisavam ‘se unir’, para enfrentar a ‘autocracia’ dos oficiais etc. No dia seguinte, estava eu no QG quando entrou o Dr. Aluízio Alves: ‘General Muricy, ontem foi ao Palácio o Deputado Sargento Garcia e ele, julgando que eu era de sua corrente de opinião, abriu-se e disse que estão preparando a subversão e que já há postes escolhidos para pendurar os Chefes que a ela se opuserem; inclusive o senhor, já tem poste escolhido’. Isto é para os senhores sentirem o ambiente daquela época” (Generall-de-Exército Antonio Carlos da Silva Muricy, Tomo 14, pg. 31-34).

Obs.

Além da Aliança para o Progresso (https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/06/em-1961-jfk-cria-alianca-para-o_17.html), os EUA mantinham um apoio às cooperativas canavieiras do Nordeste, por meio da The Cooperative League of the USA (CLUSA) - Cfr. https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/06/the-cooperative-league-of-usa-clusa-e-o.html.

F. M.

 

“Capacete Verde”, chefe do “Grupo dos Onze” em Xerém, RJ - Companhia paraquedista foi usada como tropa pretoriana

Ainda em 1961, na Brigada Paraquedista:

“Meu comandante de Companhia me chama às 7h da manhã, início de uma jornada, ainda, na Companhia de Petrechos Pesados, da qual eu era o subcomandante. ‘Nery, nós temos uma missão, agora, muito importante – prontidão’. Perguntei-lhe: ‘O que é?’ O problema era com um ‘grupo dos onze’, lembra – grupos com formação guerrilheira. Um ‘grupo dos onze’ estava atuando em Xerém, aqui no Estado do Rio de Janeiro, invadindo terras nos moldes das ‘Ligas Camponesas’. Tinha um comandante que era chamado pelo codinome de ‘Capacete Verde’. Não sei o nome do indivíduo, muito em evidência na imprensa na época. Em Xerém, aqui! ‘Ele está criando problemas e nós vamos com a Companhia. A ordem foi do capitão’. Vamos eliminar este ‘grupo dos onze’. A missão é do General Santa Rosa. ‘Está bem. A gente cumpre – missão não se discute’. A missão veio do comandante. Partimos. Eu com a companhia. Primeira surpresa” Ocupamos umas cinco viaturas, todos armados. Eu, ao lado do motorista, na ‘boleia’ da viatura, e o capitão, no jipe, puxando o comboio pela Avenida Brasil. Assim, fomos na direção de Xerém. Num dado momento, ele entrou ao lado do caminhão e fez um sinal para que eu prosseguisse. ‘Cumpra a missão. Vou aparecer depois – não espere por mim’. Entendi, prontamente – estava sozinho e, assim, iria cumprir a missão.

Chegamos em Xerém no ponto exato previsto na carta. Tínhamos feito um estudo de situação, antes de sair do quartel. Quando percebi que ali era o local que deveríamos desembarcar e penetrar na selva de Xerém, fomos emboscados pelo grupo a comando do ‘Capacete Verde’ – ‘grupo dos onze’. Abriram fogo contra nós! Imediatamente, fim um sinal, a tropa desembarcou pelo lado direito da viatura e ficamos protegidos. Olhei e vi a seguinte cena: na orla da selva, num mastro estava sendo hasteada uma bandeira que não deu para identificar. Não era a brasileira. O líder estava com um capacete, realmente típico daquele caçador inglês dos filmes de caçadas na África, uma bermuda cáqui e um casaco, também, cáqui e armado. Após a emboscada, eles imediatamente retraíram para a selva. Entramos, vasculhamos, fizemos prisioneiros e não foi preciso atirar. Recolhemos farto material. Bastante material de propaganda marxista-leninista, treinamento de guerrilha, todos oriundos de Cuba, bem como armamento ‘zero  quilômetro’. Peguei aquilo tudo e levei para o comando da Brigada onde recebi ordem para entregar ao ajudante-de-ordens do então comandante General Santa Rosa. Assim o fiz. Escrevi o meu relatório e retornei ao meu quartel. Fui encontrar o capitão, no dia seguinte, que me perguntou: ‘Como é que foi?’ Como é que foi? Eu lhe disse: ‘Tudo bem, capitão, foi bem’.

Dois dias depois, descobri o objetivo da missão – a Companhia tinha sido usada como tropa pretoriana! Acontece que o local era um loteamento do Automóvel Clube do Brasil e seus sócios, alguns membros da sua diretoria, tinham comprado terrenos naquela área. Um dos donos de terreno era o General Santa Rosa, que havia assumido o cargo de Presidente do Automóvel Clube do Brasil. Fui usado e a minha tropa também. Fomos usados para tirar de cima do terreno dele o ‘grupo dos onze’ que fazia aquilo que ele pregava – ocupava terras dos outros indiscriminadamente, segundo o modelo empregado pelas ‘Ligas Camponesas’ no Nordeste e no Centro-Oeste. Que decepção! Uma decepção muito grande. Não foi para isso que fui formado, não foi para isso que recebemos a nossa instrução, a nossa formação moral. Uma decepção! E, aí, nos envolvemos com mais determinação ainda de impedir, primeiro, a ação do  soviético dentro do território brasileiro” (General-de-Brigada Durval Antunes Machado Pereira de Andrade Nery, Tomo 10, pg. 160-162).

 

O sistema de promoções de altas patentes militares era de acordo com o apoio que o militar dava ostensivamente ao presidente Goulart

Afinal, era o Presidente João Goulart, e não o Alto Comando, que promovia os coronéis a generais. Os que não se enquadravam nessa ordem de capachos do regime eram “queimados” e transferidos para a fronteira ou para Unidade sem tropa, como as CR (Central de Recrutamento), atuais CSM (Circunscrição do Serviço Militar).

O próprio general Castello Branco ficou “queimado” como comandante do IV Exército (Nordeste), e foi transferido para a Chefia do Estado-Maior do Exército, devido à pressão do governador Miguel Arraes.

Essas ações de subjugar militares faziam parte do “Esquema Militar” do general Assis Brasil, chefe da Casa Militar de Jango, além da dominação de amplos setores da administração pública, sindicatos dominados por esquerdistas e comunistas, a Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT), a União Nacional dos Estudantes (UNE), a União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES).

 

Foi desencadeada a Operação Mata Lacerda (ver “Carlos Lacerda – um capítulo à parte”)

A tropa paraquedista teve por missão prender e matar o governador da Guanabara, Carlos Lacerda. A ordem foi dada pelo próprio presidente João Goulart, num apartamento do Copacabana Palace, com o aval dos ministros da Guerra e da Justiça. Graças ao coronel Boaventura, comandante do Grupo de Obuses Aeroterrestre, a ordem criminosa não foi cumprida, ao mesmo tempo em que Lacerda foi avisado sobre a tentativa de atentado, antecipando sua visita ao Hospital Miguel Couto, onde seria morto.

 

Oficiais e praças alinhados com o governo Goulart tinham preferência para aquisição da casa própria via Caixa, assim como a aquisição de automóvel

O Fusca e o Gordini eram o sonho de consumo na época.

Os sargentos levavam pessoalmente os contratos para financiamento de compra de casa ou automóvel ao Presidente Goulart, que assinava no ato.

Imagine, hoje, o presidente Jair Messias Bolsonaro colocando sua Bic em funcionamento, com longa fila de sargentos paraquedistas gritando “Mito, Mito, Mito”...

“Vivíamos numa situação financeira muito complicada. Precisávamos de dinheiro para deixar com a esposa e para sobrevivermos no Rio, e os vencimentos extremamente baixos. O Presidente João Goulart fazia alguns acenos para captar a simpatia, principalmente dos paraquedistas, que recebiam financiamento para comprar carro, normalmente um Gordini, o carro apropriado do momento, o carro se que se podia ter, desde que se estivesse do lado do governo. Mas vivíamos numa verdadeira miséria: sábado e domingo, de manhã, à tarde e à noite, íamos para o rancho da EsAO porque não tínhamos o recurso necessário para fazer um lanche na rua. Era, de fato, uma situação revoltante. Na Vila, também mantínhamos contatos com outros oficiais, todos numa angústia muito séria e determinados a fazer alguma coisa, mas sempre, contidos pelos chefes. Além disso, a EsAO obrigava-nos a uma dedicação muito grande, pois o curso nos exigia bastante. Mesmo assim, dávamos umas escapulidas para o Clube Militar, onde a efervescência era grande: reuniões, debates e tudo mais” (General-de-Exército Domingos Miguel Antonio Gazzineo, Tomo 4, pg. 34).

Obs.:

Quando fui promovido a 3º. Sargento do Exército e classificado, como cinegrafista, no Campo de Provas da Marambaia, em Guaratiba, RJ, em fevereiro de 1972, a situação financeira dos militares era bem melhor do que nos tempos em que o General Gazzineo fazia a EsAO. Com meus vencimentos, eu aluguei um quarto em Campo Grande, RJ, me matriculei numa faculdade de Economia e comecei a pagar a poupança para a entrega de um apartamento no Engenho Novo, que foi entregue em 1976, passando a pagar, daí em diante, prestações bancárias durante 25 anos. Ao mesmo tempo, ainda sobrou dinheiro para entrar num consórcio de automóvel, para aquisição de um Fusca zero km.

A situação financeira, para os militares, começou a se degradar novamente durante o Governo Geisel. Tanto é que tive que vender um Fusca velho para mobiliar o apartamento.

F.M.

 

Greves frequentes na indústria, no comércio e nos meios de transporte, provocando o caos nas grandes cidades

“Olha, só vendo o que nós sofremos neste País, onde imperava o caos. Basta lembrar, aqui, no Rio de Janeiro: a greve do pessoal do gás, obrigando-nos a ter que comprar ‘fogãozinho’ de querosene para confeccionar as refeições; a greve dos coveiros do Cemitério São João Batista e lembro, acerca dessa paralisação, um episódio. Indo ao cemitério, com o General Castello, para o enterro do pai do General Adhemar Villela dos Santos – o General Castello era amicíssimo dele, por ligações desde Realengo e do 12º. Regimento de Infantaria, de Belo Horizonte – vimos os caixões colocados na entrada do cemitério, pois, em virtude da greve, o sepultamento não era realizado.

Faltavam feijão, arroz e outros tipos de suprimentos. Não havia transporte para chegar ao trabalho e sei muito bem disso porque enfrentei esse problema, num período mais recuado, dentro dos pródromos da Revolução, quando era major, adjuto da 4ª. Seção da Zona Militar Leste (posteriormente I Exército e, atualmente, Comando Militar do Leste), e tínhamos que atualizar o planejamento para assegurar o transporte da cidade, no caso da greve dos bondes” (General-de-Brigada Ruy Leal Campello, Tomo III, pg. 57-58).

“Sabíamos que era meia dúzia de líderes sindicais que tumultuavam o País. A grande massa dos trabalhadores não queria saber disso, o que ficou claro com o desencadeamento do Movimento revolucionário.

Os agitadores se valiam da massa. Eram sempre as mesmas pessoas que já conhecíamos bem. Dentre eles, Dante Pelacani, Clodomith Riani, Oswaldo Pacheco (líder da CGT), Hércules Correia (Deputado Federal), os Ministros Abelardo Jurema e Amauri Silva e outros mais, figuras extremamente atuantes no processo de tumultuar, permanentemente, a vida nacional” (Coronel Everton da Paixão Curado Fleury, Tomo 3, pg. 230).

“Paravam o transporte no Rio e ninguém conseguia deslocar-se para o trabalho, ou se interrompiam durante o dia, prejudicavam o regresso para o lar, e isso se repetia continuamente, toda a semana. Entre outras, greves de hospitais, houve até greve de coveiros, impedindo que pessoas enterrassem seus mortos, então a situação era de desordem incontrolada. E falei do Rio de Janeiro como um exemplo expressivo, mas era assim no Brasil todo, sobretudo nas grandes cidades” (Coronel Gustavo Petito, Tomo 7, pg. 238).

“Em agosto desse ano, 1962, o Comando Geral de Greve transformou-se em Comando Geral dos Trabalhadores, o famoso CGT. Com a eleição do comunista Clodsmidt Rianni para a presidência do mesmo, o PCB coroava sua hegemonia sobre os sindicatos, conquistando um poderoso instrumento de pressão, permanentemente dom ameaças de greve geral.

Em novembro desse ano, as Forças Armadas desarticularam vários campos de treinamento de guerrilha. Em 27 de novembro de 1962, a queda de um Boeing da Varig, no Peru, proporcionou comprometedoras informações sobre o apoio de Cuba às ‘Ligas Camponesas’. Esses documentos caíram nas mãos do Governador Carlos Lacerda que, naturalmente, os difundiu à imprensa e criou uma grande celeuma a respeito desse apoio direto de Cuba às ‘Ligas Camponesas’ ” (General-de-Divisão Agnaldo Del Nero Augusto, Tomo 5, pg. 98).

“Outra situação, que visava nos desgastar e antagonizar com a população, pois sentíamos perfeitamente que era essa a finalidade, consistia nas missões de segurança das estações da Estrada de Ferro Central do Brasil. Com as constantes greves, frequentemente recebíamos a missão de ocupar as estações e protege-las de depredação. No entanto, tal encargo era muito mais um pano de fundo para o verdadeiro objetivo, que era o desgaste. Determinava-se que apenas dois soldados permanecessem no local para avisar que não havia trem circulando. As pessoas ficavam revoltadas” (General-de-Brigada Oacyr Pizzotti Minervino, Tomo 7, pg. 110-111).

“Foi um período muito tenso. A situação de prontidão era permanente. Parecia haver um propósito de desgastar não só o militar, mas também a sua família. Parecia que as próprias autoridades desejavam atingir a nossa base familiar, que ficava também intranquila; a esposa saía para o trabalho e não sabia se lá chegaria; nós vínhamos para casa e a esposa não havia retornado, os filhos tinham ficado presos na escola por conta de fatos os mais diversos, por conta de greves-relâmpago e outros tipos de distúrbios civis que nós conhecemos” (Coronal Luiz Carlos Carneiro de Paula, Tomo 9, pg. 287).

“Somente no Estado de São Paulo, no ano de 1961, realizaram-se 1.700 greves, conforme registrou Luiz Jover Telles, um dos elementos radicais da Comissão Executiva do Partido Comunista Brasileiro (PCB), em seu artigo O Movimento Operário em 1961, o que está mencionado no livro ‘A Grande Mentira’, do General Agnaldo Del Nero Augusto. Eles realmente paravam o País” (Coronel Nelson Roberto Bianco, Tomo 14, pg. 319).

 

Infiltração comunista no meio artístico, no MEC, na Cultura, nos sindicatos, nas escolas, nas universidades – via UNE

“Meu primeiro desafio, em 1945 ou 1946, ainda adolescente. Em Santos, onde morava, concluída a apuração das eleições, passou a ser dominada completamente pelos comunistas, tanto a Câmara Municipal como, também, os organismos sindicais e estudantis da cidade. O marxismo para mim, a rigor, representa a negação do Cristianismo, a negação das minhas convicções religiosas.

Convidei um amigo, de apenas 13 anos, a iniciarmos um trabalho a fim de mudar o quadro do setor estudantil. Pensamos que seria bom conversar com Dom Idílio José Soares, Bispo local, pois a natureza do nosso impulso era religiosa. Ele nos disse que via com bons olhos o fato de os cristãos assumirem suas responsabilidades na vida do País e que, portanto, ele não se oporia se procurássemos organizá-los para enfrentar os comunistas, nos centros estudantis de Santos. Sem entrar em detalhes, conseguimos organizar uma chapa, visitamos todos os colégios católicos e ganhamos as eleições, para surpresa dos comunistas. Fizemos um trabalho de inteligência, de disfarce. Os comunistas controlavam os mecanismos de movimentação dos estudantes, mas conseguimos que nossos eleitores chegassem a serem percebidos.

Repetimos a mesma estratégia nas eleições da União Estadual dos Estudantes (UEE), naquele tempo presidida pelo Almino Alves Afonso, e o derrotamos. Mais tarde, José Gregório quis ser presidente e também o derrotamos. Posteriormente, fizemos uma mobilização a nível nacional com os estudantes udenistas e de outros partidos e conseguimos derrubar a chapa comunista na União Nacional dos Estudantes (UNE). Nesse tempo, já era presidente do Departamento Estudantil da União Democrática Nacional (UDN)” (Doutor José Carlos Graça Wagner, Tomo 7, pg. 366).

“Seguindo a orientação nacional, o Sindicato dos Estivadores paralisou o porto de Manaus e mandou colocar barricadas por toda a cidade, inclusive na entrada do 27º. BC. O Governador era Gilberto Mestrinho, um oportunista aliado de Jango, que ficou indiferente àquele estado de coisas. (...) Em situação semelhante estavam os pilotos da FAB, que não podiam ter acesso aos aviões. Neste caso, alguns soldados desimpediam o acesso, jogavam as pedras no rio e os pilotos decolavam com seus aviões. Diariamente se armava uma confusão em Manaus, provocada por ‘pelegos’ e outros, que só prejudicava a população. Fechavam o mercado e ninguém podia fazer sua feira” (General-de-Brigada Manoel Theóphilo Gaspar de Oliveira Neto, Tomo 4, pg. 95)

 

Comando dos Trabalhadores Intelectuais

“As causas vêm de longe: desde a década de 1930, o Partido Comunista organizou em células, sindicatos e agremiações de fachada, os ‘trabalhadores intelectuais’ – conceito surrealista que reunia sambistas a físicos nucleares, professores primários a banqueiros em transe poético, sem outro vínculo que não a uniformidade do discurso ideológico, travestida em representatividade cultural. As defecções após o relatório Kruschev, a preferência crescente da esquerda pelas modalidades de adesão informais e discretas, não mudaram em nada a solidariedade de fundo, que sustenta ainda hoje o espírito do unanimismo.

Essa unidade postiça manteve-se à força de exclusões inconcebíveis. Em 1964, pelo menos quatro das maiores figuras da nossa inteligência, Manuel Bandeira, Gilberto Freyre, Augusto Frederico Schmidt e Miguel Reale, tomaram partido do novo regime. Sua opinião foi imediatamente excluída do rol das ideias significativas, para criar a impressão de que a inteligência nacional estava à esquerda, de que no outro lado só havia a força bruta de sargentões iletrados. Mentira grossa. Farsa comparável, só o pathos democrático nos discursos de servidores, não raro profissionais, da ditadura cubana” (Olavo de Carvalho, “O Imbecil Coletivo”, pg. 404).

“Em 1963, a subversão, até então conduzida mais ou menos na clandestinidade, aflorou. Como não havia certeza do seu sucesso e até como uma forma de pressão, começou a colocar-se à luz do dia. Nesse ano, foi criado o Comando dos Trabalhadores Intelectuais. Esse Comando, reunindo nomes como Dias Gomes, Jorge Amado e Ênio Silveira, constituiu-se num baluarte da propaganda esquerdista. A infiltração comunista se derramou sobre o ensino em todos os níveis, com a orientação e apoio do próprio Ministério da Educação e Cultura. A UNE criou centros populares de cultura que submeteram a população a uma intensa propaganda esquerdista. A UNE, além de receber vultosos subsídios do Ministério da Educação e Cultura, recebia subsídios financeiros e propaganda da União Internacional de Estudantes (UIE), uma entidade de fachada do Movimento Comunista Internacional onde a UNE tinha um representante: um dos vice-presidentes dessa UIE era da UNE, um brasileiro.

(...)

Atendendo uma específica orientação da Internacional Comunista, o PCB realizou, em Niterói – O Governador da Guanabara [Carlos Lacerda] negou a permissão para a realização do evento em seu Estado – um encontro de solidariedade a Cuba com a presença de representantes de mais de oitenta países. Apesar das mensagens de solidariedade enviadas para esse encontro pela União Soviética e pela China, a vedete do encontro foi Prestes. Este, entre outras pregações revolucionárias, profetizou que o Brasil teria o privilégio de ser a segunda nação Latino-Americana, onde o socialismo seria implantado” (General-de-divisão Agnaldo Del Nero Augusto, Tomo 5, pg. 98-99).

Obs.:

Assim como Prestes, que desencadeou a Intentona Comunista em 1935, a UNE também recebeu o “Ouro de Moscou” – cfr. http://felixmaier1950.blogspot.com/2020/07/ouro-de-moscou.html.

F. M.

 

Ameaça de enforcamentos na Fábrica Nacional de Motores

“Um fato me chamou a atenção, logo depois da vitória do movimento. Eu vi, ninguém me contou. Foi na antiga Fábrica Nacional de Motores (FNM), que funcionava em Xerém, arredores do Rio de Janeiro, a única fábrica de veículos brasileiros, os famosos ‘Fenemê’. De serviço, com uma tropa, o que vi lá foi estarrecedor; nos postes havia escrito o seguinte: ‘Nesse poste será enforcado o engenheiro tal, nesse poste será enforcado fulano de tal, nesse poste será fuzilado sicrano de tal.’ Os nomes das pessoas estavam escritos pelos comunistas que dominavam a fábrica e pensavam, um dia, tomar conta de tudo e assassinar os desafetos. Na FNM, a mais nítida demonstração de qual era a situação brasileira; as pessoas já tinham local certo e tipo de morte escolhida, se era enforcamento ou fuzilamento” (General-de-Brigada Ozcyr Pizzotti Minervino, Tomo 7, pg. 121-122).

 

Pelegos ligados ao Governo João Goulart

“Os pelegos – líderes sindicais ligados ao Governo – faziam comício em lugar proibido, faziam depredações, ocupações do tipo dos sem teto hoje e invasões de terras, estas sob o comando das ‘Ligas Camponesas’, que hoje se chamam de Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), mas fazem a mesma coisa, e o governo, naquela época, convivia com a desordem por eles promovida, exatamente como acontece hoje [Governo FHC].

Sabe o que o CGT e o PUA faziam com os desafetos? Eles agarravam à força as pessoas e com barras de ferro quebravam as pernas das pessoas, esses sindicalistas, esses extremistas do PUA e do CGT quebravam as pernas de quem não rezava pela cartilha deles.

O PUA inventou uma arma terrível, e o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) apreendeu várias delas antes e depois da Revolução. Eles pegavam toco de cabo de aço usado em atracação de navio, amarravam numa ponta, fazendo uma espécie de uma empunhadura de espada e a outra ponta eles desfiavam para ficar ouriçado e usavam aquilo como chicote, como rebenque para cortar qualquer recalcitrante. O sujeito queria romper a greve, então tomava uma rebencada, que rasgava o sujeito todo e ia parar no pronto-socorro. Era assim que eles agiam, na ‘democracia’ ” (Coronel-Aviador Gustavo Eugenio de Oliveira Borges, Tomo 10, pg. 293).

“Os Ministros, inclusive os militares, temiam o CGT, o Comando Geral dos Trabalhadores, que mandava mesmo, tendo como secretário-geral Dante Pelacani, cujas ordens faziam curvar-se o Ministro do Trabalho, Amauri Silva, que não realizava nenhuma nomeação para cargo de direção sem a aprovação de Pelacani” General-de-Exército Mario Orlando Ribeiro Sampaio, Tomo 11, pg. 32-33).

 

Movimento de Cultura Popular

“Além disso, o Movimento de Cultura Popular, que foi uma criação do Miguel Arraes, do Gregório Bezerra, que era o homem que mandava nesse negócio, fazendo cartilhas preparadas no sentido de ‘fazer a cabeça’ daquela juventude; inclusive, uma das publicações dessa cartilha se chamava ‘O Tijolo’, e nela constava o seguinte: ‘Como é que é feito o tijolo? É tirado da terra, a terra é do agricultor, que é pobre. E esse tijolo é feito por quem? É feito pelos operários, pobres. E para quê? Para fazer a casa dos ricos’. É tudo uma sequência para ‘colocar na cabeça’ dos pobres que eles estavam sendo explorados pelos ricos; então, o exemplo era o tijolo, as coisas eram concebidas dessa forma” (General-de-Exército Mario Orlando Ribeiro Sampaio, Tomo 11, pg. 33).

 

Ligação criminosa do apátrida Prestes com Moscou

“Em março [1964], houve um fato importante. Prestes voltou a Moscou e foi encontrar-se novamente com Kruschev, com Suslov e, agora, com Brejnev, que viria a substituir Kruschev e apresentou o que ele tinha feito nesses dois anos: o trabalho de massa, inclusive a infiltração nas Forças Armadas. Veio de lá com a aprovação da União Soviética, inclusive com a proposta de financiamento para a Usina de Itaipu, que já era cogitada, naquela época. Ele relatou o seu encontro para o Goulart. No dia 13 de março de 1964, realizou-se o primeiro desses comícios no Rio de Janeiro, na Praça da República, entre o prédio do Ministério da Guerra e a estação da Central do Brasil. Valendo-se de transportes oferecidos por órgãos estatais [como a Petrobras] e do natural afluxo de pessoas no final da trade em direção à estação da Central do Brasil, o chamado ‘comício da reforma’ reuniu cerca de cem mil pessoas. No comício, faixas pela organização do Partido Comunista, distribuição de armas ao povo etc. e tal; e a situação de agitação já criava uma ansiedade, uma instabilidade na população” (General-de-Divisão Agnaldo Del Nero Augusto, Tomo 5, pg. 100-101).

 

Jango fazia questão de desprestigiar as Forças Armadas

“Quando o Presidente chegou mais ou menos na testa da Academia, as pessoas postadas nas sacadas e janelas dos edifícios situados no outro lado da Avenida começaram a aplaudi-lo e a jogar papel picado. Ele passou a AMAN em revista ficando o tempo todo de costas para nós, respondendo e agradecendo os aplausos e acenos da população. E aqueles cadetes de todos os cursos que estavam ali em forma – na maioria do terceiro e último ano – ficaram descontentes com a atitude e o pouco respeito do nosso Comandante Supremo para com a Academia.

Este fato nos causou uma indignação muito grande. Talvez até tenha sido algo pequeno e irrelevante, mas os comentários entre os cadetes se prolongaram ao longo dos meses, até o final do ano. A revolta por ele ter passado de costas para nós fundamentou, na grande maioria da turma de 1963, até mesmo naqueles que tinham uma tendência de esquerda, uma forte aversão ao Jango. Ficamos inconformados com a atitude dele” (General-de-Brigada Flávio Oscar Maurer, Tomo 8, pg. 307).

 

Desabastecimento geral de gêneros alimentícios; o Exército passou a distribuir feijão e arroz no Rio de Janeiro

“Ultrapassado o período da renúncia de Jânio Quadros, passamos a viver momentos difíceis, sacrificados mesmo. Por exemplo, o GO 155, e outras Unidades, como o Primeiro Regimento de Obuses 105 (1º. RO 105, sistematicamente ocupavam as estações de trem, a fim de manter a ordem; a todo instante irrompiam os ‘quebra-quebras’ que as gente chamava de ‘quebra-quebra feijão’. Chegou a ponto de as Forças Armadas serem incumbidas de comercializar gêneros alimentícios nas ruas. Saíamos com uma viatura de cinco toneladas, abarrotada de arroz para vender à população, por força de determinação do governo. Isso acontecia em São João de Meriti, em Nova Iguaçu, em Nilópolis, sempre enfrentando sérios problemas. O povo sofrido queria o produto e nós – um 2º. Tenente, um sargento, um cabo motorista e um soldado – tínhamos que fazer das ‘tripas coração’ para conseguir controlar a multidão” (Coronel Hahenderson Vieira, Tomo 5, pg. 276).

“Houve uma ocasião em que o Governo João Goulart bloqueou a saída de arroz do Sul do País, impedindo-o de chegar a São Paulo e Rio de Janeiro. O Governo culpava os plantadores do Rio Grande do Sul e os capitalistas pela falta de arroz, mas, na verdade, sabíamos do bloqueio que era feito. Numa jogada demagógica, fomos obrigados, por determinação de Goulart, a utilizar os caminhões militares para distribuir na rua o pouco arroz que chegava. Formavam-se filas intermináveis. Alguns sargentos mais jovens, muitas vezes, quando iam entregar o arroz, viam uma moça bonita e para namorar a jovem acabavam facilitando a entrega. Tal procedimento, como era de se esperar, provocava tumulto e confusões terríveis, envolvendo o Exército” (General-de-Brigada Oacyr Pizzotti Minervino, Tomo 7, pg. 110).

Obs.

Na enchente de 1983, em Santa Catarina, eu soube que na região de Joaçaba uma moça se tornou amante de um oficial da PM, e sua família passou a receber produtos não perecíveis que dava até a próxima enchente.

F.M.

 

INÍCIO DA INSTRUÇÃO DE GUERRA REVOLUCIONÁRIA (G REVO)

 

Célula comunista na AMAN

O general-de-Exército Antonio Jorge Corrêa destaca que, quando assumiu as funções de Comandante do Corpo de Cadetes, na AMAN, deparou-se “com uma situação que, em síntese, era a clara descaracterização do ambiente e da sistemática de formação e de ensino de uma Academia Militar. Destaco que o Regulamento de 58 contemplava o ensino, então chamado universitário, com carga horária maior que o dobro da que se destinava ao ensino militar, numa manifestação específica da Academia, pretendendo fazer daquele Centro uma universidade leiga e indiferente às suas origens e finalidades. Os reflexos destes dispositivos regulamentares foram desastrosos do ponto de vista da formação dos oficiais: impediam a disciplina que se espera de uma Academia Militar.(...) Por outro lado, o aspecto ideológico que se difundia na Academia se tornara comprometedor a ponto de criar-se uma célula comunista, que operava, abertamente, sobretudo na Cadeira de Português; destaquem-se aqui as ligações francas desta célula com a UNE, do Rio de Janeiro. Tão logo se comprovou este triste e inédito quadro, foram tomadas necessárias providências que abortassem sua continuação: substituiu-se o Cel Prof Manoel Cavalcante Proença, identificando-se e afastando os participantes, do que resultou o desmantelamento do sistema” (Tomo 1, pg. 31-32).

“Em 1960, após inspecionar a AMAN, o general Castello Branco mandou que se instalasse uma Comissão, para elaboração de novo Regulamento para a Academia: “Revogado o nefasto Regulamento de 58 e com a aplicação de novas diretrizes, foi possível, nos decênios de 1961 e 1962, restabelecer-se o primado da profissão militar, da hierarquia, da disciplina, do culto dos nossos heróis e do civismo genuíno. Nos meados de 1962, equipes selecionadas de todos os Estabelecimentos de Ensino do Exército participaram de estágios realizados na DGE [Diretoria Geral do Ensino], destinados à preparação e à padronização de procedimentos na execução de planos e programas de Guerra Revolucionária, previstos na Nota de Instrução baixada pelo Estado-Maior do Exército” (idem, pg. 32).

A partir de então, passou-se a ministrar G Revo em todas as Unidades do Exército, com ênfase para as escolas militares.

“O Chefe do Estado-Maior do Exército Brasileiro, onde estava presente o General Castello, que não era o titular nessa ocasião, organizou um curso de Guerra Revolucionária: Ação Educativa Contra a Guerra Revolucionária, que recebi quando Chefe do Estado-Maior da 8ª. Região Militar, no Pará. Um trabalho do próprio Estado-Maior do Exército, quase clandestino e todos eram informados de que deveria ser reservado. No Pará, recebíamos os fascículos (o Senador Passarinho exibiu um exemplar do documento), nos quais estavam incluídos todos os ensinamentos sobre a guerra revolucionária e a forma pela qual progrediam e conquistavam seus objetivos; inclusive sobre a guerra psicológica preparatória da guerra revolucionária” (Senador Jarbas Gonçalves Passarinho, Tomo 5, pg. 52).

“Particularmente interessante, naquela época [1963], o fato de a carga horária da instrução estar dividida quase meio a meio: uma parte era a regular de Artilharia [I/7º. RO 105, no Recife], e a outra, por influência da guerra do Vietnam e da conjuntura internacional, era absorvida pela instrução de guerra revolucionária – guerrilha, controle de tumultos etc.

A instrução foi muito intensificada, no início de 1964, coincidentemente com a chegada à Unidade de um oficial superior que passou a desempenhar as funções de S/3, o Major Hugo Caetano Coelho de Almeida, especialmente se comparada com a do ano anterior.

(...)

Em um exercício realizado no Forte de Pau Amarelo, local onde havia muito mato, foi feita a limpeza a fim de balizar no terreno um arruado para a prática de instrução de controle de tumulto em área urbana. Um repórter do Diário de Pernambuco assistiu ao exercício e, no final – quem estava no comando era o Major João José Cavalcanti de Albuquerque, pois o Coronel Ivan Ruy Andrade de Oliveira estava de férias – o Major Hugo disse ao repórter:

- Com esse tipo de treinamento somos capazes de controlar cerca de seis mil pessoa na rua, sem que seja necessário disparar um único tiro (Coronel Osman Godoy, Tomo 6, pg. 192-193).

“Ainda como subsídio para nos prepararmos contra a subversão, recebíamos o Mensário de Cultura Militar, da Escola Superior de Guerra, que publicava periodicamente artigos de coronéis franceses que lutaram na Argélia e enfrentaram a guerra revolucionária e também artigos sobre a guerra dos portugueses na África. Alguns brasileiros escreveram artigos sobre o assunto. Além dos nossos, a Suzanne Lebin publicou o livro Il Est Moin Cinq e ainda o Curzio Malparte – um autor italiano – publicou La Tchnique du Coup d’État (A Técnica do Golpe  de Estado” (General-de-Divisão Léo Guedes Etchegoyen, Tomo 8, pg. 178).

Obs.:

Durante o governo militar, foram criados Programas-Padrão de Instrução, voltados para a instrução militar de recrutas e alunos das Escolas Militares, que incluíam o Movimento de 1964 e a Intentona Comunista de 1935.

Quando fui monitor fotocinegrafista na Escola de Instrução Especializada (EsIE), na Seção de Meios Auxiliares, projetei no Auditório muitas vezes esses audiovisuais, compostos por slides e som em fita K-7, após o horário de expediente, para instrução dos alunos e recrutas da Escola, ainda no período de internato.

Sobre as vítimas da Intentona Comunista, acesse https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/06/vitimas-da-intentona-comunista-de-1935.html.

 F. M.

 

Panfletagem comunista dos capitães Chuay e Suzano

“Nessa época, estava eu como instrutor da Escola de Artilharia de Costa, sediada em prédio próximo à Escola Superior de Guerra (ESG), no interior da Fortaleza de São João.

Existia, durante esse tempo, uma rede de rádio interligando o Quartel-General da Artilharia de Costa da 1ª. RM (QG ACos/1ª. RM), com sede junto ao Forte Copacabana, com seus dois Grupamentos e suas OM subordinadas, da qual a EsACos fazia parte como ouvinte.

Atento à manobras daquele Governo e sabedores de que no QG da A Cos havia alguns oficiais declaradamente comunistas, como o Capitão Eduardo Chuay e o Capitão Suzano, permanecíamos na escuta, a fim de surpreender diálogos que viessem a confirmar nossos informes e, ao mesmo tempo, colher outros indícios que fossem de posterior valia.

O Capitão Chuay, ainda na Academia Militar, como cadete, já defendia com veemência a doutrina marxista, exercendo forte influência sobre aqueles companheiros que não possuíam uma acendrada convicção democrática. Através de ampla bibliografia voltada para seus interesses, distribuía livros a esses companheiros que se deixavam entusiasmar por essa literatura espúria. Isto explica o fato de que a sua turma de formação tenha sido aquela com o maior número de cassados.

Voltemos ao ano de 1963, quando, fiel aos seus pensamentos de jovem cadete, o Capitão Chuay, já com livre trânsito junto à Presidência da República, usava de sua influência na Caixa Econômica Federal para conseguir financiamento para aquisição da casa própria para seus pares que, desta forma, se deixavam levar por suas ideias, passando a defender suas convicções” (Coronel Luiz Mario Portocarrero de Castro Sá Freire, Tomo 11, pg. 164).

“A América ficou assustada com a vitória da revolução cubana. A família militar brasileira ainda mais, pela recordação do sacrifício de 1935, a conhecida Intentona Comunista. O General Castello Branco, quando Diretor Geral de Ensino, tomou a iniciativa de introduzir nos cursos das escolas a matéria Movimentos Revolucionários. Que me lembre, foi o primeiro chefe militar brasileiro a preocupar-se com o estudo desses movimentos que se expandiam pelo mundo.

(...)

(...) Essa preocupação com a questão do comunismo continuou na chefia do EME.

Ele estava bem consciente? [entrevistador]

Estava bem consciente. Quando assumiu o EME, sua preocupação foi intensificar o estudo do Movimento Comunista Internacional (MCI) nas escolas e comandos militares. Na ECEME, mais tarde, foi instrutor da Área 1 – Segurança Interna – passamos a fazer traduções de manuais de guerrilha dos Estados Unidos escritos à época da Guerra da Coreia (Coronel Anysio Alves Negrão, Tomo 15, pg. 321).

 

O ensino da Guerra Revolucionária (G Revo)

O ensino de Guerra Revolucionária (G Revo) foi previsto em Nota de Instrução baixada pelo Chefe do EME, general Castello Branco. Um trabalho exemplar sobre G Revo foi feito na AMAN, cujo comandante era o general Médici.

A esquerda diz que a G Revo era decorrente da influência americana no Brasil, principalmente por meio da Escola das Américas, localizada no Panamá. Queria ela que nossos estudos sobre G Revo fossem influenciados pela Universidade de Amizade dos Povos Patrice Lumumba, sediada em Moscou?

 “A guerra fria influiu poderosamente, e é preciso ver uma coisa muito importante, que precisa ser caracterizada: as lições das guerras da Indochina, do Vietnã, de Angola e da Argélia fizeram com que surgisse toda uma literatura sobre a guerra subversiva, sobre a guerra insurrecional.

Lembro de um grande autor francês, Gabriel Bonnet, que escreveu um livro sobre guerras insurrecionais, interessantíssimas. Também existia um militar português, com grandes obras, todas desenvolviam essas idéias. Eis que surgiu, então, a doutrina da guerra revolucionária. Essa doutrina – as pessoas confundem um pouco – pois pensam que foi trazida da Escola das Américas e dos Estados Unidos. A Escola das Américas contribuiu muito, ajudou em outros aspectos, sobretudo nos ligados à repressão e ações policiais, mas esse clima da guerra revolucionária foi importado da Escola Superior de Guerra de Paris, que passou a desenvolver a teoria da guerra revolucionária. Recordo-me claramente, estava na Escola de Estado-Maior, como instrutor, e as conferências da Escola Superior de Guerra versavam sobre guerra revolucionária. Havia aquelas famosas ‘cinco fases da Guerra Revolucionária” (General-de-Divisão Octávio Pereira da Costa, Tomo 2, pg. 59-60).

Obs.:

O ex-guerrilheiro, amigo de Lamarca, Aluizio Palmar, no blog “Documentos Revelados”, apresenta a relação dos alunos brasileiros que frequentaram a Escola das Américas – cfr. em http://felixmaier1950.blogspot.com/2020/07/relacao-de-militares-que-frequentaram.html.

F. M.

“As medidas tomadas pelo Estado-Maior do Exército (EME), a fim de instruir os quadros – oficiais e sargentos – sobre a doutrina de guerra revolucionária foram oportunas e acertadas. O EME produziu uma série de documentos que facilitavam o entendimento do assunto. Passamos a dominá-lo e, como tal, a reconhecer nos fatos que corriam a existência de uma guerra revolucionária em andamento. A sensibilidade do EME permitiu a inclusão, nos currículos dos estabelecimentos de ensino militares, o assunto Guerra Revolucionária.

O próprio General Castello, que era o chefe do EME, quando proferiu a aula inaugural do ano letivo de 1964, no mês de fevereiro, na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO), teve o ensejo, como chefe, de deixar uma mensagem para a reflexão dos capitães, sobre o assunto” (General-de-Divisão César Montagna de Souza, Tomo III, pg. 42).

“Chegamos, então, à década de 1960 e às causas próximas do Movimento de 1964. Naquela ocasião, o Movimento Comunista Internacional conseguira lançar uma cunha no território americano: Cuba, no Caribe, com a subida de Fidel Castro, em 1959, e a implantação do regime comunista, trampolim para a Revolução Bolchevista nos países em desenvolvimento. Nessa época, surgiu a guerra revolucionária. E em 1961, foi feito o primeiro exercício de guerrilha rural. Eu era Cadete de Infantaria. Colocaram-nos em grupos e nos mandaram para o campo em trajes civis. Era uma coisa assim meio diferente, pois, até então, estávamos acostumados com a instrução padrão, o Batalhão no ataque e a Companhia na defesa, e de repente nos colocam à paisana e de barba crescida, para fazer um exercício” (General-de-Divisão Théo Espindola Basto, Tomo 12, pg. 127-128).

“Se não nos apressássemos, iríamos pegar a revolução deles – comunistas – já iniciada e em franca evolução. Acredito que todos chegamos à mesma conclusão: enfrentar uma revolução em que eles tomaram a iniciativa. E, em guerra, tomar a iniciativa é essencial. Estaríamos limitados, possivelmente, a uma atuação igual à do Vietnã, em que as duas partes externas tomaram o controle da guerra. Seríamos a bucha de canhão. Cuba estava, preparada, através da Rússia, financeira e materialmente, para desembarcar armamento no Brasil, onde já contava com alguma coisa e com elementos por ela infiltrados. E os Estados Unidos, tranquilamente, não iam deixar sua retaguarda à mercê dos comunistas. E numa hora dessas, de desespero, aceitaríamos ajuda. Nunca pedimos, mas aceitaríamos ajuda dos Estados Unidos ou da Argentina, de alguém que nos fornecesse armamento. Porque, quando chega o desespero, ninguém pode avaliar. Foi esse desespero que, felizmente, as Forças Armadas, basicamente, o Exército, enxergaram antecipadamente. Pelo próprio preparo, talvez pelo exemplo do Vietnã, anteciparam-se na ação e, com o apoio do povo, conquistaram a vitória, em menos de vinte e quatro horas” (Tenente-Coronel Idalécio Nogueira Diógenes, Tomo 4, pg. 181).

“Agora estou certo de que essa vitória da Revolução, até porque a história é controversa, no meu entender, foi uma vitória no plano internacional, porque representou a maior derrota do expansionismo soviético no mundo. Um dia será reconhecida não só por ter livrado a população brasileira dos horrores do comunismo, mas também por ter limitado ou atenuado o avanço do comunismo no mundo. (...)

Não tenho dúvida de que haveria intervenção, no ambiente da guerra fria em que vivíamos; haveria intervenção dos Estados Unidos, da União Soviética e iríamos sofrer as consequências da disputa entre eles pela hegemonia no mundo” (General-de-Divisão Agnaldo Del Nero Augusto, Tomo 5, pg. 102-103).

Obs.:

Em 1971, quando fiz o curso de sargentos na Escola de Instrução Especializada (EsIE), período básico, depois fui para a Escola de Comunicações – Es Com, também havia ensino de G Revo, um manual de mais de 200 páginas.

F. M.

 

Plano Junção

 

“A preparação da Revolução foi coordenada e minuciosa ou seu desencadeamento foi espontâneo? [entrevistador]

 

Eu diria que foram as duas coisas. Em parte, foi coordenado, porque o Estado-Maior do Exército (EME) publicava uns folhetos sobre a Guerra Revolucionária. Então os tenentes, capitães e mesmo outros militares de postos mais elevados nos indagavam:

 

- Coronel? Estamos na primeira ou na segunda fase?

 

Houve essa coordenação. Falando sobre isso, temos o caso da nossa Divisão: ela foi sui generis, talvez no âmbito do Brasil, porque foi comandada pelo General Mourão (Olympio Mourão Filho) e temos que dar mérito a quem o tem. Sou testemunha porque fui seu Chefe de Estado-Maior. Ele já estava preocupado com a situação desde á muito, e todos os meses um oficial do Estado-Maior visitava as Grandes Unidades e Unidades subordinadas, às vezes de quinze em quinze dias, para verificar se estava tudo bem. O General fazia ligações com o Governador Ildo Meneghetti e com outras autoridades, expondo sua preocupação. Foi o grande batalhador da causa.

 

Tentei servi no Rio, fiquei três meses lá e voltei para Santa Maria. No meu retorno, o General estava aborrecido com o Chefe do Estado-Maior interino, pois queria elaborar um planejamento revolucionário e o camarada estava relutando. Isso aconteceu alguns dias antes da minha chegada. Assim que me apresentei, ele me falou sobre o assunto. Então me dediquei ao ‘Plano Junção’ que, após ser desenvolvido, foi assinado. Era o seguinte: se fechassem o Congresso, como prometiam – há provas irrefutáveis sobre isso – a 3ª. DI sairia campo afora, não sei para onde nem por onde, mas sairia.

 

Tempos depois, o Mourão foi transferido para São Paulo e, ao passar pelo Rio, declarou que eu fora um Chefe de Estado-Maior leal e revolucionário. E era verdade. Agíamos muito, mas em sigilo absoluto, porque se algo transpirasse, seríamos transferidos. O Adolpho João (Adlopho João de Paula Couto) foi transferido para uma Circunscrição de Recrutamento (CR), em Mato Grosso. Na CR de Santa Maria, havia o Coronel Edmundo (Edmundo da Costa Neves), que depois foi promovido a general.

 

Eram mandados normalmente para uma CR. [entrevistador]

 

Porque aquelas Unidades não dispunham de tropa.

 

Lembro que, em 1963, quase todas as CR eram comandadas por excelentes coronéis: heróis da FEB, oficiais de Estado-Maior, todos brilhantes. [entrevistador]

 

Pois é, nós éramos transferidos e o pessoal que atuava no outro lado era prestigiado. Havia um sargento deputado – se não me engano de nome Antônio Garcia Filho – que percorria as Unidades, falando e doutrinando os sargentos e subtenentes. Esteve em Santa Maria e entrou em duas Unidades. Naquela ocasião, eu comandava interinamente o 7º. RI e fiquei sabendo. Ordenei que se ele aparecesse, não o deixassem entrar e se por um motivo qualquer ele burlasse a vigilância, que o prendessem no xadrez. Não apareceu mais. O pessoal da esquerda era favorecido, haja vista o Castello Branco, que foi removido de Pernambuco porque estava atrapalhando o Arraes” ( General-de-Brigada Ramão Menna Barreto, Tomo 13, pg. 138-139).

 

                                                     

O contragolpe dos militares contra Jango estava marcado para ocorrer no dia 3 ou 4 de abril de 1964, segundo muitos dos entrevistados

Depoimentos de vários militares nesta obra “História Oral do Exército – 1964” se referem a essas datas. A data foi antecipada para 31 de março devido ao levante de Minas Gerais, feito pelo General Olympio Mourão Filho.

Já cientes do golpe de Jango em marcha, a cúpula militar conspiratória havia marcado a data do contragolpe para 3 ou 4 de abril de 1964; mas, como é do conhecimento de todos, o general Mourão Filho antecipou o levante em Minas Gerais para o dia 31 de Março de 1964 e o resto é história; a ECEME já se considerava sublevada desde o dia 30 de março, segundo o depoimento do Coronel Hélio Lourenço Ceratti; houve movimentação de tropas do Rio para Minas e para São Paulo, de Mato Grosso e de Minas para Brasília, de São Paulo para o Rio – com a disposição dos cadetes da AMAN na  Via Dutra, além de muita movimentação no RS; felizmente, não houve enfrentamento bélico, assim como não houve em 1961.

“Sabemos que, dentre os nossos princípios de guerra, está um muito aplicado por Napoleão: a surpresa. Então a surpresa foi decisiva, aquilo aniquilou qualquer tentativa de uma reação ordenada. Lembro-me de uma das capas da Revista Petrobras que continha o desenho camuflado de fuzis e armas de uma possível revolução comunista, que iria se manifestar em maio de 1964. A Petrobras estava completamente infiltrada de comunistas a ponto de apresentar em sua revista oficial um sinal claro do estava por vir” (Coronel Reynaldo de Biasi Silva Rocha, Tomo 3, pg. 322).

“No dia 30 [de março de 1964], mais ou menos às 8h30m da manhã, o nosso diretor de ano, Coronel Cesário (Luiz Cesário da Silva), pai do General que hoje chefia o Centro de Comunicação Social do Exército (CComSEx), chegou a nossa sala e suspendeu a aula em curso. Informou que a Escola estava rebelada e que a partir daquele momento só obedeceria às ordens do Chefe do Estado-Maior do Exército, General Castello Branco.

Só para confirmar, a data é importante, este posicionamento da ECEME ocorreu no dia 30 de março? [entrevistador]

Confirmo, foi no dia 30 de março de 1964. Quem estava ministrando a aula interrompida pelo Coronel Cesário era o Paiva Chaves (Carlos Alfredo Malan de Paiva Chaves). No fim da reunição chegiada pelo Coronel Cesário, os oficiais sabidamente ligados ou simpáticos ao Governo Jango foram convidados para uma conversa no gabinete do diretor de ano. Eram uns quatro ou cinco colegas que não mais retornaram ao nosso convívio.

Os que permaneceram na sala foram distribuídos em vários grupos, com missões específicas. Uns foram ocupar os Fortes da Zona Sul, onde só atuariam para assumir o comando de Unidades ou dar assessoramento aos comandantes revolucionários. O encargo de um desses foi o de coordenar a segurança do Governador Carlos Lacerda no Palácio das Laranjeiras” (Coronel Hélio Lourenço Ceratti, Tomo 13, pg. 183).

“Quando o General Castello Branco tomou conhecimento das linhas gerais do planejamento feito, repetiu: ‘Qualquer movimento armado deveria partir de Minas Gerais e não de São Paulo, porque todos se voltam contra São Paulo’. Ele não queria a repetição do que aconteceu em 1932” (General-de-Brigada Rubens Resstel, Tomo 7, pg. 97).

“O povo brasileiro, irmanado em três raças fortes, base da sua formação, em perfeita harmonia com suas Forças Armadas, iria reagir à ideologia comunista estimulada pelas apátridas declarações do Sr. Luís Carlos Prestes. A primeira delas foi quando Prestes, numa discussão no Senado com o ex-interventor da Bahia, Juraci Magalhães, declarou que, em caso de guerra entre o Brasil e a Rússia, combateria ao lado da Rússia. A segunda declaração, já em março de 1964, foi no Recife, ao fazer o seguinte pronunciamento: ‘Nós, os comunistas, já estamos no governo, só nos falta o Poder’. Por aí a gente vê e confirma o grau de infiltração e de comandamento comunista no Governo Jango” (Empresário Francisco Martins de Lima, Tomo 4, pg. 266).

“Esses três episódios [dias 13, 26 e 30 de março de 1964] mostravam o avanço das ações comunistas na direção da tomada do Poder, a ponto de Luís Carlos Prestes, o chefe maior de todos os comunistas do Brasil, pronunciar, no Recife, a seguinte frase: ‘Nós, os comunistas, já estamos no Governo, só nos falta o Poder’. Esse pronunciamento confirma a intenção comunista da tomada do Poder que, aliás, estava prevista para o dia 1º. De maio de 1964, Dia do Trabalho, conforme indicava a documentação da cúpula comunista apreendida na época. Então, esses três eventos, associados ao ‘1º de maio’ e ao estímulo das Marchas da Família com Deus pela Liberdade, apressaram o desencadeamento da Revolução e precipitaram o seu eclodir para 31 de março de 1964” (Tenente-Coronel Idalécio Nogueira Diógenes, Tomo 4, pg. 186).

 “No fim do ano de 1963 – setembro de 1963 – o General Castello Branco assume a Chefia do EME e, interessante registrar, vai encontrar um grande número de oficiais completamente engajados no processo revolucionário. O EME era tratado como se fosse um ‘depósito de pessoal’: quem não estivesse concordando com o governo, iria para o Estado-Maior do Exército” (General-de-Brigada Ruy Leal Campello, Tomo III, pg. 55).

“Eu, como tenente, desconhecia que algo estivesse sendo feito, para dar um fim a essa situação. A única vez em que tive alguma pista, algum sinal, e não entendi absolutamente nada do que foi dito. Foi em uma determinada prontidão, quando um tenente comprou um vinho branco da marca Castelo. Os oficiais sentados à mesa, eu ponderava sobre todos esses fatos que estavam acontecendo e afirmava que não aguentava mais e que estava pensando em sair do Exército. O Tenente Porto Alegre (Jorge Carlos Porto Alegre Rosa), que depois chegou a general-de-brigada, interveio:

- Pizzotti, fique calmo porque este vinho ‘Castelo’ vai nos salvar.

Sinceramente, não entendi coisa alguma e, ainda, tentei questionar. Ele insistiu:

- É o vinho que vai nos salvar; tome dele que você vai ser salvo” (General-de-Brigada Oacyr Pizzotti Minervino, Tomo 7, pg. 113).

“Naquele quadro político que emergiu após a Legalidade, era de se presumir que o Governo colocasse pessoal de sua confiança nos comandos importantes. Mas na hora ‘H’ o que se viu foi o esquema todo ruir. O General Luiz Tavares da Cunha Mello que comandou a Divisão que partiu na direção de Minas foi um dos poucos que conseguiram mobilizar tropas para a defesa do Governo. Mesmo assim, no primeiro confronto com as tropas do General Mourão houve a rumorosa defecção do Regimento Sampaio e de outras Unidades. No Rio, praticamente, foi só o General Cunha Mello que se definiu claramente em favor do Governo.

Aqui no Sul, o General Ladário Pereira Telles assumiu o Comando da 6ª. DI e depois o do III Exército, mas não conseguiu exercê-los. Os oficiais da 6ª. DI e os do III Exército não cumpriam as ordens dele contrárias à Revolução.

(...)

Uma cena que não esqueço: quando correu a notícia de que o Jango fugira, ou viajara para o Uruguai, olhávamos do Forte [Duque de Caxias] e era uma festa só em Copacabana: desfile, carros, buzinaço, velas e lençóis brancos nas janelas, o povo todo na rua e foguetes por todo o Rio de Janeiro. Foi realmente um espetáculo inesquecível a homenagem às forças que haviam derrubado o Jango. Um exemplo de apoio popular impressionante que muitos insistem em esquecer” (General-de-Brigada Egêo Corrêa de Oliveira Freitas, Tomo 8, pg. 218).

 

Suspensão do licenciamento dos soldados em Novembro de 1963

“Estudávamos guerra revolucionária, terrorismo, guerrilha urbana, tudo isso os cursos ensinavam. Agora, em nenhum dos cursos que fiz, nem nas áreas de quartéis-generais onde servi, nunca ouvi dizer que isso fosse especificamente dirigido para um determinado movimento como se formou em 1964.

Então vou entrar na sua ‘chave’. Primeiro: acredito que o Estado-Maior do Exército agiu, naquela época, com uma precisão notável até o último momento. O golpe fatal foi suspenderem a baixa dos soldados em novembro. Aquilo foi de uma perspicácia enorme.

É a primeira vez que ouço isso. [Entrevistador]

Quando março chegou, não tínhamos recrutas, só soldados adestrados, inclusive para controle de tumultos. Isso é mais um aspecto a ressaltar. Acho que o Estado-Maior do Exército foi quem visualizou e conduziu esses caminhos que a EsAO e a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) adotaram e que propiciaram ao Exército estar em plenas condições para atuar, como ocorreu em 1964” (Tenente-Coronel Alexandre Máximo Chaves Amêndola, Tomo 8, pg. 393).

“Meu pai [General Carlos Luís Guedes], muito tempo depois, contou um episódio do então General Ademar de Queiroz, Ministro da Guerra, já na época do Castello Branco, o qual dizia que, no QG, neste QG que hoje pertence ao Comando Militar do Leste, nos corredores, nos banheiros, já se conspirava contra aquilo que estava acontecendo no País. E havia tentativas concretas de se fazer alguma coisa.

Minas apenas saiu na vanguarda, porque meu pai dizia o seguinte: ‘Ou nós começamos ou eles [os comunistas] começam; se nós começarmos nós conseguiremos a redemocratização e não deixaremos o País ir para o comunismo porque, se o comunismo vier, aí vai demorar uma eternidade para se voltar à democracia e vai correr muito sangue’. Essa era uma das mensagens dele.

Aquela reunião no Acaiaca colocou o civil na rua, e os movimentos, então, começaram a ser mais claros, até o próprio rompimento do Governador Magalhães Pinto com o Presidente João Goulart.

Faço um parênteses quando falo no Governador Magalhães Pinto, porque ele era governador de um grande Estado, e precisava do apoio do Presidente. Mesmo assim, em 1962, ele uniu a Polícia Militar (PM) e colocou sob o comando do Exército. Aí, aparece o Coronel José Geraldo, Comandante da PM, um dos grandes chefes revolucionários, e que pensava da mesma forma do meu pai; lembro que a PM tinha 18 mil homens na ocasião e que as tropas de Minas não passavam de três mil.

Então, a união com a PM era muito importante para nós, e isso é que fez com que Minas partisse, finalmente, unida. Foi a partir desse episódio, que o Magalhães foi num crescendo, num crescendo mesmo. No início ele dizia que não podia mostrar a sua face revolucionária, porque o Governo de Minas é que seria prejudicado, verbas não viriam, o Governo seria afetado, enfim, a dependência do Estado de Minas ao Governo Federal era um fato inegável.

Mas, em 30 de março de 1964, ele fez um manifesto, no qual ele rompia publicamente com o Governo Federal, expondo as mazelas que vinham sendo praticadas a olho nu, como se dizia: todo mundo via, mas ninguém falava.

Daí, a aceleração das providências visando à partida do Movimento de 31 de Março de 1964, antes que fossem destruídas todas as bases daquilo que estava sendo organizado, volto a dizer, praticamente desde 1962, inclusive, porque a ideia inicial do movimento não era apenas derrubar o Presidente – nem se sabia se iríamos conseguir uma coisa dessas – mas criar, dentro do Brasil, um Estado que permitisse a quem não fosse comunista vir ao seu encontro” (Coronel Carlos Alberto Guedes, Tomo 9, pg. 241-242).

“Sabemos que o então Coronel Figueiredo, mais tarde Presidente da República, era da ECEME e na época organizou um grupo de oficiais para pressionar, trabalhar e conspirar contra o Governo. Sabíamos também que Castello Branco era um homem extremamente legalista; isso faz parte da sua biografia e ele só se decide pelo Movimento de 1964 praticamente no seu deflagrar.

(...)

Diria mais que o Dutra entrou nisso, há evidências do Dutra nessa coisa. De todos, temos mais a falar do General Mourão Filho e do General Carlos Guedes, que foram os homens que botaram a cabeça na guilhotina, porque foram os chefes que saíram lá das Minas Gerais, com forças fraquíssimas, mas moralmente potentes para vir ao Rio deflagrar e consagrar o Movimento armado, juntamente com o Comandante da coluna – o General Muricy, que marchou à frente das tropas mineiras” (General-de-Exército Luiz Gonzaga Schroeder Lessa, Tomo 10, pg. 63).

“É como eu disse: o Mourão quis ser, e foi o estopim, provocou, deu o primeiro passo. É aquela história dos ratos, da assembleia dos ratos para se defender dos gatos: os ratos estavam preocupados, pois vinham sendo comidos pelos gatos e aí convocaram uma assembleia. Lá se discutiu isso e aquilo – como se discute coisas inúteis em assembleia – até que um rato disse: ‘Vamos colocar um guizo no rabo do gato e toda a vez que ele se mexer, o guizo toca e nós nos escondemos’. Foi aplaudido, aprovada a moção por unanimidade. Então, um outro rato perguntou: ‘E quem é que vai botar o guizo no rabo do gato?’ O Mourão pôs o guizo no ‘rabo do gato’. Ele criou o problema. Porque o que havia muito... Eu estava perto do General Penha Brasil (quatro estrelas), vivia ‘batendo papo’, digamos, assim como o Castello e os outros e nos mantinham relativamente bem informados. Ninguém estava falando em colocar o guizo. E os quatro estrelas? O Amaury Kruel vacilou até a última hora, custou muito a se definir. O Âncora estava do outro lado. Os generais estavam divididos. O Osvino era nitidamente do Governo e o Jair Dantas Ribeiro uma péssima figura. Estava disposto a fazer o que quiser que fosse para ser ministro, como foi. Havia essas simpatias. O Kruel, na madrugada de 31 de março para 1º. de abril, telefonou para o Médici na AMAN, informando-lhe que decidira pela Revolução e solicitava o apoio de Médici, no que fosse possível, e o Médici hipotecou-lhe solidariedade.

Foi daí que ele partiu de São Paulo para a AMAN – na tarde do dia 1º., quando parte de suas tropas já havia chegado a Resende – para a reunião com o Âncora, que foi do Rio e estava respondendo pelo Ministério – o Jair estava no hospital. O Médici promoveu o encontro dos dois, no qual chegaram a um consenso. Vale lembrar que o Médici já havia ocupado, com o Corpo de Cadetes, uma posição defensiva frente às forças do I Exército que viriam para São Paulo. O Âncora, após o encontro com o Kruel, retornou e entregou o comando para os generais que já estavam reunidos no Palácio Duque de Caxias, no Rio, aguardando o final das tratativas na Academia. Se tivesse sido diferente, poderia ter acontecido um problema muito sério, porque a situação da tropa não estava ainda definida totalmente” (General-de-Brigada Celso dos Santos Meyer, Tomo 10, pg. 139-140).

 

Estrangeiros infiltrados na Faculdade Nacional de Filosofia

“Vários estrangeiros estavam infiltrados, plantados na sociedade brasileira. Como exemplo, citamos o casal russo Sônia e Ivan, conhecidos, no Brasil, por Stela e Heinz, fazendo-se passar por alemães.

A Faculdade Nacional de Filosofia era sempre frequentada por um senhor de idade, estrangeiro, que se dizia alemão e que todos os dias ia àquele educandário para jogar xadrez. Quando eclodiu o movimento revolucionário, ele desapareceu e ninguém até hoje sabe nada a respeito dele.

No dia 30 de março de 1964, véspera do Movimento 31 de Março de 1964, o estudante Antônio Carlos Silveira Alves foi ferido, acidentalmente, por um tiro quando recebia instrução de uso de arma de fogo dentro de uma das salas de aula da Faculdade Nacional de Filosofia, o que pode caracterizar bem que a revolução comunista se encontrava em andamento. No início do fato do tiro acidental, o membro do Partido Comunista e também aluno Antônio Carlos Faria Pinto Peixoto, que ministrava a instrução, se opôs a que o ferido recorresse a um hospital, para que não denunciasse e não desse informação a respeito do assunto.

Só no dia seguinte é que ele foi atendido no Hospital Miguel Couto, sendo que correu um boato muito forte de que ele tinha morrido, sem ter sido atendido. Isso é prova suficiente que Alfredo Sirkis está errado ao dizer que tudo começou com a morte do estudante Edson Luís de Lima Souto no restaurante do Calabouço, no Rio de Janeiro, em 28 de março de 1968.

O Calabouço era um núcleo tremendo de comunistas e mantinha ligação com a Faculdade Nacional de Filosofia, cuja atuação tinha um âmbito enorme, muito vasto, alcançava vários pontos aqui do Rio de Janeiro, mantendo ligação permanente com várias outras faculdades.

Em alguns dias daquele ano, quando estava no Rio, a serviço, assisti àquela turba de estudantes no Centro da Cidade, quebrando tudo por onde passavam. Inclusive lojas comerciais que não tinham tido tempo de fechar as suas portas. Era uma multidão incontida, raivosa, verdadeiras hordas.

(...)

 

Clube da cueca

Dentro das normas gerais de ação adotadas pelos comunistas num primeiro estágio, deviam procurar fazer com que o aluno quebrasse os seus vínculos com a família e, por esse motivo, o membro do partido comunista Pedro Celso Uchoa Cavalcante Neto, anterior inclusive ao inquérito da Faculdade Nacional de Filosofia, mas que levantamos na época, fundou o ‘clube da cueca’, que nada mais era do que um apartamento para encontros com a finalidade de alunos da Faculdade Nacional de Filosofia realizarem relações sexuais de acordo com quem estivesse lá disponível.

Alguns anos depois, quando aquele aluno comunista saiu da Faculdade, foi então criado pelo aluno membro do PCB (Partido Comunista Brasileiro), Antônio Carlos Faria Pinto Peixoto, o ‘clube do amor livre’, que funcionava de maneira ideêntica ao ‘clube da cueca’ ” (Tenente-Coronel Orestes Raphael Rocha Cavalcanti, Tomo 11, pgl 284-285).

 

Chineses com muitos dólares e canetas-revólveres

“Quando eclodiu o Movimento de 31 de Março de 1964, foram detidos vários chineses. Muita gente também não se lembra disso. Eles estavam de posse de muitos dólares e canetas-revólveres calibre 32. Estive com essas canetas na minha mão, na época que estava à disposição do inquérito policial militar da Faculdade Nacional de Filosofia e andava sempre em contato íntimo com o SNI e, através do SNI, cheguei a manusear essas canetas.

Eram canetas como essa aqui, como uma caneta comum. Tinha percussor que ficava travado, era do tipo dessa técnica que é usada com essas canetas multicores, que a gente abaixa uma e prende. Servia para fazer a eliminação seletiva, atividade em que era muito usada. A pseudocaneta-tinteiro era muito empregada no terrorismo seletivo.

Quando eclodiu o Movimento de 31 de Março, estavam cheios de dólares e com essas canetas, e a única coisa que aconteceu na época é que eles foram expatriados, recambiados lá para a China, foram expulsos do País” (Tenente-Coronel Orestes Raphael Rocha Cavalcanti, Tomo 11, pg. 298).

 

Na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará, comunistas ameaçam professores no “paredão de fuzilamento”

“Na Faculdade de Direito, onde exercia o cargo de professor: era um professor jovem, um desportista atuante, e, por conta disso, tinha boa convivência com os jovens universitários e depois, junto ao 10º. GAC, onde estagiava. Na Faculdade de Direito, realmente, pude sentir violentar ameaças que motivaram, inclusive, a necessidade da ocupação daquele estabelecimento de ensino, para que a ordem fosse restaurada. E quero dizer que, naqueles momentos, muitos professores foram constrangidos a assinarem manifesto comunista. Os que se recusaram a tanto foram violentamente ameaçados de morte no ‘paredão de fuzilamento’, quando os comunistas vencessem a batalha. Eu, certamente, fui um desses tantos, mas não me quebrei sob as ameaças e reagi” (Procurador de Justiça Meton César de Vasconcelos, Tomo 12, pg. 323).

Obs.:

O Procurador de Justiça Meton fez CPOR, com estágio de segundo-tenente, no 10º. Grupamento de Obuses 105, atual 10º. GAC.

F. M.

 

ANTECEDENTES IMEDIATOS OU DIRETOS

 

Corrupção generalizada

“A Alfândega de Santos era o exemplo da instituição da corrupção no âmbito governamental pela ‘máfia’ ligada ao janguismo e pela ‘burguesia-pelega’ da época. Inspetores, conferentes, despachantes, constituindo verdadeiras quadrilhas, não raro com o beneplácito de elementos do Judiciário, como advogados e juízes, forjando mandados de segurança, oficializando o contrabando.

Na ponta do fio, os despachantes patrocinavam ‘andorinhas’, pessoas de todo o tipo, desde garçons a vendedores de loja, com passaporte, viagens e estadas pagas nos Estados Unidos. Dessas viagens, tão ‘ilustres’ passageiros importavam Impalas – automóveis de último tipo da época – com porta-malas lotados de muamba com destino ao Paraguai, em trânsito por Santos, como ‘bagagem desacompanhada’. Chegavam a Santos Impalas e mais Impalas que, através de ‘mandados de segurança’, impetrados pelos ‘viajantes’ – isto é, despachantes – eram liberados no Porto de Santos e negociados de imediato por figurões da época que já aguardavam a ‘mercadoria’.

Tudo forjado, falsificado, contrabandeado, enriquecendo a burguesia pelega da época. Fui designado encarregado de Inquérito Policial Militar (IPM) para apurar a corrupção latente, o que realizei a duras penas, desmascarando a máfia e apontando à Justiça os envolvidos” (Coronel Antonio Erasmo Dias, Tomo 7, pg. 136-137).

 

Sublevação de sargentos no 18º. RI, no 19º. RI e na Companhia de Guardas – 29 para 30 de agosto de 1961

“Na época, servia no 18º. Regimento de Infantaria (18º. RI) e comandava um dos seus Batalhões. O Comandante do Regimento, Coronel Ottomar (Ottomar Soares de Lima), teve que assumir interinamente a Infantaria Divisionária da 6ª. Divisão de Intantaria (ID/6). (...) Nesse tempo, aconteceu um movimento comunista dentro do 18º. Coincidência ou não, no mesmo momento eclodia algo semelhante em outras duas Unidades do III Exército: na Companhia de Guardas, comandada pelo Pedro Américo Leal, e no 19º. RI. Consta, não confirmei nunca, que houve até um sargento ferido lá. Se não me engano, servia lá um comunista notório, o Nunes (Oswaldo Nundes).

Para meu azar, quando me informaram que os sargentos haviam se sublevado, o Comandante estava fora do quartel; tinha sido chamado ao Qaurtel-General e não regressara. Os sargentos estavam reunidos em uma subunidade do quartel e pretendiam prender o Peri quando ele voltasse. Instruí meus oficiais do Estado-Maior para que permanecessem a postos, mantendo o pavilhão de comando em condições de receber o Comandante do Regimento. Disse:

- Se os sargentos tentarem qualquer ação, revidem porque trarei o Coronel.

Uma das Companhias do meu Batalhão – eu era Subcomandante eventual – a 1ª., era comandada por um grande Capitão, o Erydson (Erydson Pereira Magalhães). Simultaneamente, determinei a ele que preparasse um Pelotão de confiança e fosse buscar o Comandante onde ele estivesse, porque iria assumir o Comando do Regimento. E mandei os oficiais garantirem a posse.

Decidi abordá-los e quando entrei na sala, deparei-me com uma porção de sargentos na minha frente, todos armados. Era de madrugada. Pensei comigo: ‘estou roubado’. Aí fiz uma peroração:

- Como é que vocês se arvoram no direito de abandonar suas Unidades e se reunirem aqui como desordeiros.

Disse o que tinha vontade de dizer, porque, nessa hora, mesmo não sendo de falar muito, a palavra vem fácil, é uma coisa interessante. Falei com naturalidade, mas forte. E terminei dizendo:

- Não tenho medo de vocês, tanto é que vim aqui sozinho, se quiserem me fazer alguma coisa, façam. Mas saibam que vou reagir.

Eu atirava muito bem de metralhadora de mão – era até convencido.  Nos estandes de tiro das Companhias, utilizava uma metralhadora de mão INA, de minha propriedade, e enchia o alvo. Era demagogia, porque apenas queria mostrar que também sabia atirar, mas naquela ocasião na Legalidade, me serviu.

Era uma sala pequena e estava com a minha metralhadora atravessada. Quando terminei de dizer: ‘(...) mas saibam que vou reagir’, vi todos os olhares convergirem para trás de mim e pensei comigo: ‘estou cercado’. Virei-me rápido e me deparei com um punhado de oficiais que estavam ali oferecendo solidariedade e proteção para mim. Fiquei muito comovido.

Embora tenha conseguido amainar a revolta dos sargentos, eu não me sentia tranquilo, pois o movimento ainda não tinha terminado. Disseram que a guarda do quartel estava com as armas voltadas para nós e que há haviam prendido o Capitão Alencastro (Sérgio Pêgas de Alencastro). Saí brabo e fui ao corpo da guarda para ver o que estava ocorrendo. Cheguei, desarmei a guarda e prendi os sargentos. Voltei para o pavilhão de comando, mas sem saber o que poderia ocorrer ali em diante.

Embora o movimento estivesse aparentemente debelado, poderia ressurgir a qualquer hora. Não sabiam quem estava no comando da sublevação. Quando conversei com os sargentos que iam prender o Comandante, eles disseram que o líder não era sargento, era um oficial. Como eu confiava nos meus oficiais, não me contive e disse:

- Quero o nome desse traidor porque vou matá-lo!

No relatório que mandei para o QG, escrevi que não permitiria que continuasse vivo em nosso Regimento um traidor.

Um dos sargentos, o Mader, disse que daria o nome do oficial. Não sei por que, ele teve uma crise, começou a chorar enquanto os sargentos diziam:

- Não diz! Não diz!

Nesse instante, ouvi um tiro fora da sala e saí correndo na direção do corpo da guarda. O Capitão Einloft (Oscar Carlos Einloft) surgiu atrás de mim, vindo na minha direção, indagando: ‘O senhor está bem, Coronel?’ Ele pensou que tivessem atirado em mim.

Por fim, tudo acalmou. Este fato ocorreu na noite de 29 para 30 de agosto de 1961. E aqui está o resultado desse movimento, são doze folhas do meu relatório, feito no dia 11 de setembro. O Major Péricles Augusto de Machado Neves) foi quem movimentou o Regimento contra nós. Era comunista. Isso está aqui escrito.

Major Péricles. Ele era de que turma? [entrevistador]

Foi meu cadete na Escola Preparatória nos idos de 1943 ou 1944. Uma cabeça privilegiada, falava vários idiomas, era professor de psicologia, fazia clínica de psiquiatria. Infelizmente, foi ele que promoveu esse movimento no 18º. RI.

O senhor disse que houve outros movimentos em duas outras Unidades. [entrevistador]

Na Companhia de Guardas e no 19º. Agora, em nenhuma, com a mesma intensidade. Aquela noite eu pensei que ia morrer. Sentimos que o movimento viera de fora para dentro, porque nos cortaram a luz e o telefone. Eu via a Vila São José iluminada e no quartel tudo escuro” (General-de-Brigada José Mattos de Marsillac Motta, Tomo 13, pg. 99-101).

 

REVOLTA DOS SARGENTOS EM BRASÍLIA

Mas ali havia também oficiais, deputados, quiçá generais.

“Com esse Sargento Prestes de Paula e com o fotógrafo foi capturado um documento, ao qual tive acesso e li. Por que li? Porque o Capitão José Fernandes Santana Andrade, Comandante da Companhia, disse: ‘Máximo, você vai levar para o Regimento [Santos Dumont], no Rio, esse documento que é da máxima importância, que é o planejamento da revolta.’ Esclareço que chamam de revolta dos sargentos, mas ali havia oficiais.

Vamos ouvir bem esse trecho do depoimento do nosso Coronel, porque é da maior importância. [entrevistador]

Veja bem, li, tomei conhecimento, o Capitão Fernandes leu para todos nós, e eu considero aquilo um trabalho de estado-maior. Os sargentos não poderiam fazer aquilo sem terem generais, oficiais de estado-maior, comprometidos com essa causa comunista no País, seja por oportunismo, seja por convicção ideológica, ou seja, por fisiologismo, fazendo aquele jogo. Então, pude me deter na leitura e considero um documento de peso, que tem aspectos que jamais me esqueci.

Antes de trazê-lo para o Rio, como uma missão dada pelo Capitão Fernandes, senti-me tentado a tirar cópias, coisa que lamento muito hoje não tê-lo feito. Mas aquele rigor, aquela nossa formação o impedia, porque era um documento confidencial, já tinha tomado conhecimento. De qualquer maneira, hoje também estaria privado de fazê-lo. Espero que ele exista, em algum lugar porque o entreguei ao Coronel José Aragão Cavalcante, meu Comandante, que levou para o quartel-general e, de lá foi encaminhado para a 1ª. DE. Por isso, não sei mais onde se encontra, e esta cópia eu não tenho. Ele dizia claramente, as ações estavam previstas, como se uma ordem de operações fosse, em uma delas havia um item: ‘pelotão de fuzilamento dos oficiais considerados irrecuperáveis para o regime’. Que regime?

Vou repetir essa frase, esse título da ordem de operações, que jamais esquecerei: ‘pelotão de fuzilamento dos oficiais irrecuperáveis para o regime’. Logo a seguir: ‘Comandante do pelotão de fuzilamento: sargento Dantas, fuzileiro naval’! São passados 38 anos, e isso foi tão fortemente marcado na minha consciência, na minha visão de oficial diante daquela balbúrdia, que o nome por eles escolhido não esqueci. Depois, ‘local das execuções’ – é algo que tem um certo refinamento, e sem dúvida um apuro na escolha por parte desses mentores, porque foi selecionado um local adequado, que eram os porões do prédio das torres de televisões de Brasília. E, realmente, ali é uma espécie de garagem enorme. Tive o cuidado de ir lá, depois de passados os acontecimentos, é um lugar bem adequado para fuzilamentos, sobretudo para um grande número de pessoas. Eles tiveram esse requinte” (Coronel Francimá de Luna Máximo, Tomo 11, pg. 207-208).

“Em setembro de 1963, em Brasília, a fim de contrapor-se a uma resolução do Supremo Tribunal Federal sobre questão de inelegibilidade, os sargentos rebelaram-se. Quase tomaram conta de tudo, não o fazendo por mero acaso. Ocuparam a Base Aérea, a Base Naval, os quartéis do Exército, sujeitaram os ministérios da Aeronáutica e da Marinha. Não foram tomados o Ministério do Exército, cuja guarda reagiu, e o BGP.

Tomaram o BPE, prenderam os oficiais e os levaram para a Base Aérea.

Por que não tomaram o BGP? Quando o motorista do Comandante da Base Aérea, após ter deixado o Coronel em casa, chegou à noite na Base, encontrou uma grande agitação. Perguntou o que estava havendo e lhe responderam: ‘É a Revolução! Pega o seu fuzil!’ Ele se esgueirou, pegou o carro de novo e foi para a casa do Coronel avisar-lhe o que estava acontecendo na Base Aérea. O Coronel, já de madrugada, ligou para o Comandante do BGP. Não sei se propositadamente ou não, o Presidente estava ausente; o Comandante da Região Militar também. Estavam todos viajando, restando presente como maior autoridade o Coronel Raymundo. O Comandante da Base disse o que tinha acontecido.

O Comandante, imediatamente, ligou para alguns oficiais do quartel, um deles fui eu, por acaso tinha telefone. Ele me ordenou para apanhar os companheiros que pudesse e me dirigir para o quartel, porque havia problemas. Não disse mais nada. Pois bem, ele saiu, foi para o quartel e quando entrou no Corpo da Guarda, disse:

- Sargento, coloca a Guarda em forma!

Ele não sabia que aquele sargento estava ali para imobilizar a Guarda. Mas, diante da ordem de supetão, o sargento a cumpriu. Assim ele evitou a surpresa.

O Oficial de Dia mandou o Adjunto fazer uma ronda nos fundos do quartel e ele foi preso pelo pessoal da Aeronáutica que já estava cercando o aquartelamento, com uma boa quantidade de armamento e munição, muito mais novo do que o nosso. Mas o Adjunto teve presença de espírito e disse:

- Calma, também sou sargento. Esperem aí que vou lá e aviso aos companheiros que vocês estão chegando.

De volta, relatou tudo para o Oficial de Dia, que acordou algumas subunidades; o pessoal começou a armar-se e a fazer os preparativos. Quando chegamos de carro, por volta das 2h30min ou 2h40min da manhã, assumimos o comando dos pelotões de recrutas e saímos para romper o cerco do quartel. Houve tiros, prendemos muita gente e recuperamos as viaturas, a munição e o armamento que eles tinham. Rechaçamos o cerco do quartel.

A partir daí o combate aos rebeldes foi planejado. Um pelotão foi designado para reforçar a guarda do Ministério do Exército, sob o comando de um companheiro, Tenente André, que foi caçado juntamente com seu pelotão na Esplanada dos Ministérios, pelo pessoal dos ministérios da Marinha e da Aeronáutica. Era fogo cerrado em cima e ele com um pelotão de recrutas, mas só ele e os sargentos respondiam ao fogo, pois os recrutas não sabiam atirar direito. Conseguiram progredir e se abrigaram no prédio do Ministério, mas as rajadas de metralhadora estilhaçavam os vidros e as persianas caíam sobre eles; foi difícil.

O Comandante Raymundo Netto Corrêa assumiu o comando de toda operação. Organizou três colunas: uma partiu para a Esplanada dos Ministérios, a fim de retomar os ministérios da Marinha e da Aeronáutica; uma foi para a Base Aérea e a outra coluna para a Base Naval. Cercamos esses locais, os revoltosos se renderam e foram todos enviados para uma prisão na Baía de Guanabara.

Apurou-se que haviam documentos com os nomes de todos os companheiros que eram contra eles, relacionados para serem fuzilados debaixo da grande torre de TV, de Brasília, onde havia uma plataforma de concreto. Isso já serviu de ensinamento, mais adiante, e aconteceu em setembro de 1963.

Os fatos se sucederam cada vez mais graves. Tínhamos ciência da existência do que seria o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) daquela época, a chamada Polícia da Boa Vontade, comandada por um cidadão de nome Raulino, na cidade satélite de Taguatinga. A sede era lá, mas eles vinham em direção a Brasília, fechavam os acessos e reivindicavam isto ou aquilo. Quando a polícia se aproximava para tentar liberar a via e retirar os manifestantes, chegava a ordem do Palácio do Planalto para deixá-los. O Governo era conivente com aquela situação, mais ou menos parecida com que se vê hoje com relação ao MST. Aceita-se violência da parte deles” (Coronel Marnio José Signorelli Teixeira Pinto, Tomo 7, pg. 211-212).

 

Ainda sobre a Polícia da Boa Vontade, após o Movimento de 31 de Março

“Notícias nos davam conta de que seriam 15 mil candangos armados que atacariam o quartel, destruiriam o Congresso e saqueariam os supermercados. Essa resistência em Brasília seria montada com a tal Polícia da Boa Vontade armados pelo General Fico [General Nicolau Fico, Comandante da Região Militar] e que este teria desistido da ideia ao saber que o BGP estava revoltado” (Coronel Marnio José Signorelli Teixeira Pinto, Tomo 7, pg. 216).

 

PM do RN e do PI se solidarizaram com a Revolta dos Sargentos em Brasília

“Em setembro de 1963, os sargentos de Brasília, a maioria da Aeronáutica, revoltaram-se. Com isso, duas polícias militares, do Rio Grande do Norte e do Piauí, resolveram, digamos, apoiar aquela revolta e fizeram uma greve. Nessa época, disputava o campeonato de basquete do Exército, no Rio de Janeiro e, ao regressar, fui designado para reorganizar a Polícia Militar do Rio Grande do Norte. Para a Polícia Militar do Piauí, seguiu o Coronel Torres de Melo (Francisco Batista T. de Melo). Assumi o comando, em Natal, no dia 1º de outubro de 1963, e dei início ao meu trabalho. Foi instaurado um inquérito para apurar as causas daquela situação de anormalidade da Polícia Militar.

 

A missão ordenada pelo General Pinheiro, se fosse cumprida, geraria um massacre de paraquedistas

“Entra o General Pinheiro – Comandante do Núcleo da Divisão Aeroterrestre, indagando: ‘Qual é a Companhia que vai cumprir a missão?’ ‘A 1ª. Companhia’. ‘Quem é o Comandante?’ ‘Tenente Nery’. ‘Tenente, aqui’. Fiquei em pé, ao lado dele. Ele abriu em cima daquela mesa grande, no cassino dos oficiais, local da reunião, a carta de Brasília. Quando olhei, entendi o que já sabíamos durante a noite. Tinha havido uma rebelião em Brasília, a Base Aérea foi tomada, alguns quartéis já estavam tomados, alguns oficiais presos e a cidade estava na mão de uma rebelião. Só não sabíamos a extensão do problema, naquele momento. Mas era sério. O Presidente, os ministros e as principais autoridades estava propositadamente fora de Brasília. Na verdade, foi tudo planejado. Inclusive, deputados participaram daquele levante. O General Pinheiro disse: ‘Tenente, não está acontecendo nada em Brasília. Você vai levar a sua tropa, desembarca, vai desarmado. Você vai fazer um desfile semelhante ao de Sete de Setembro, no Dia da Pátria, na Alameda dos Ministérios’.

Sabíamos que não era aquilo. Acabáramos de ouvir na rádio – estávamos atentos, ligados, tínhamos informações. A realidade era outra. Brasília estava sublevada, era a rebelião dos sargentos, a maioria da Marinha e da Aeronáutica. Obedeciam a um intelectualizado comando civil, não se restringia apenas a Brasília e devia estender-se por todo o País. Da chefia da rebelião, participaram os Deputados Neiva Moreira, do PSP-MA, Hércules Correia, Marco Antonio, do PCB-GB, e Max da Costa Santos, do PSB-GB, sob a liderança de Leonel de Moura Brizola. Pela ordem, os revoltosos pretendiam: depor o Presidente da República; fechar o Congresso; acabar, sumariamente, com o Supremo Tribunal Federal, classificado como órgão inútil e dispensável; desvirtuar o regime e implantar uma república (ditadura) socialista; transformação total das Forças Armadas.

Os prédios dos Ministérios da Marinha e da Aeronáutica estavam ocupados e os revoltosos já estavam no terraço, na cobertura, no telhado dos pavilhões nos esperando. Sabiam que a tropa paraquedista ia saltar. Seríamos eliminados como pombos. Íamos saltar e desfilar desarmados. Disse para o General: ‘General, não é isso...’ Não completei a frase! Quando ia começar a falar, levei uma ‘botinada’, por debaixo da mesa. Eu estava em pé e os outros oficiais do Estado-Maior do Regimento, sentados. O Oficial de Operações, Major Giácomo Jannuzzi Neto, me deu um pontapé. Eu entendi. Era para ficar calado. Calei-me e ouvi a missão – desfilar desarmado.

Ao sair dali, fui falar com o Major Jannuzzi. Ele me disse: ‘Nery, é rebelião, se você for desarmado, você vai morrer, sua tropa vai ser eliminada. É guerra! Eles ocuparam Brasília e já leram o manifesto de criação da República Sindicalista Comunista do Brasil’. Eu pergunto: ‘Como é que eu vou, Major?’ ‘Vá armado, claro! Você vai para a guerra’. ‘Qual é a minha missão?’ ‘Você vai saltar para libertar Brasília’. Saltar, para libertar Brasília das mãos dos revoltosos, ou seja, conquistar Brasília. Essa foi a missão. ‘Onde estão os revoltosos?’ ‘Ocupando os prédios dos ministérios militares. Já existem oficiais presos. Você tem que libertá-los – descobrir onde eles estão e libertá-los’.

Naquele momento, minha maior preocupação era armar a Companhia – duzentos homens. E a munição? Veio a informação de que tinham trancado a munição. O Oficial de Munições do Regimento, Tenente Eglair Barcelos Alves, disse: ‘Nery, vou me virar. Deixa comigo’. E saiu, para conseguir a munição. Comecei a pegar o armamento, quando chegou uma parte da munição. Tinha que ‘enfardar’. Dei ordem para colocar a munição no carregador e leva-la também no cinto. O grosso da munição seria acondicionado em um cunhe-te, com um paraquedas em cima para ser lançado do avião. Após o salto, você sai correndo para procurar a munição, pegá-la e leva-la com você. Sabendo que precisava de muitos paraquedas, mandei busca-los. Chegou a informação: o major encarregado dos paraquedas fechou a ‘baiúca’ – como nós chamamos o local de acondicionamento dos mesmos – e não vai distribuir os paraquedas para você, por ordem do general – o paraquedas da munição! Na hora, imediatamente, dei a ordem para que os cunhetes fossem abertos. Mandei distribuir a munição pelos bolsos. Iríamos saltar com a munição dentro do bolso, em quantidade. Aí, surgiu um problema. Soubemos que a rebelião era dos sargentos de Brasília, com o foco principal na Marinha e na Aeronáutica.

Em virtude daqueles acontecimentos de 1961, quando o General Santa Rosa, Comandante dos paraquedistas, elogiou os sargentos por não terem cumprido ordem de seus superiores hierárquicos, e do Governador Brizola mandando os sargentos matarem seus oficiais, criou-se um ambiente de mal-estar dentro da tropa. Aquilo foi sendo alimentado numa sequência, agora essa rebelião em Brasília, era o dia 12 de setembro de 1963. Apesar de preocupado, mandei distribuir a munição para os sargentos. Não podia duvidar da lealdade dos sargentos. Paguei para ver.

Estávamos em pleno aprestamento, tínhamos que preparar a munição, preparar os fardos. O subtenente, aquele homem mais antigo, aquele sargento que foi alçado à função de subtenente, o administrador da carga da Companhia, chegou para mim e disse: ‘Capitão, preciso falar com o senhor, aliás, todos os sargentos querem falar com o senhor’. Eu disse: ‘Bom, o que houve? Vou lá’. Eles estavam numa sala, reunidos. O subtenente iniciou: ‘Capitão, o senhor mandou distribuir a munição para todos nós, sargentos. O senhor confia nos sargentos da Companhia?’ Chamei a atenção dele: ‘Em algum momento, desconfiei de vocês? Em algum momento, pensei isso? Não estou entendendo o que vocês estão falando’. ‘Capitão, a reunião é para agradecer a confiança. Conte conosco. Em nenhum momento, o senhor deixará de contar com a nossa lealdade. Conte conosco’.

Assim, fui para Brasília. Eram 14 aviões. Até aeronave em manutenção decolou. Os antigos aviões C-82 voavam de porta aberta. Cruzando a serra de Petrópolis e Teresópolis, e seguindo para Brasília, fazia muito frio, eu sentado ao lado da porta, olhando o voo em formação, vi um avião pegar fogo – o avião do Tenente Maia Martins. Retornou para os Afonsos. Mais adiante, o avião do Valporto, também, pega fogo e pronto, o efetivo estava se reduzindo. Depois, eles chegaram a Brasília -  dois dias depois – não houve problema.

A nossa viagem foi longa. Foi aquilo que eu disse: dentro do avião, você olha para o soldado e ele está lhe olhando, você vai para lá e ele olha para lá, você vem para cá e ele olha para cá. E eu me dei contra de que eu tinha dado a ordem, antes de decolar: ‘Nós vamos saltar na Alameda dos Ministérios. O suposto inimigo está ocupando os telhados dos quatro prédios e vai atirar em nós. Todos os oficiais e sargentos deverão tirar a arma do invólucro e durante a queda atirar em tudo o que se mover’. Eu, como comandante, tinha que dar uma ordem que protegesse a minha tropa e que permitisse o cumprimento da missão. Sabia que, com duzentos homens, tinha que libertar Brasília. O que é isso? A cabeça não funcionava. Qual a verdadeira dimensão disso. Brasília é muito grande. Aonde eu iria procurar esse pessoal? A ordem estava dada.

Durante o voo, fiquei pensando: vou chegar em Brasília às 5h da tarde, o expediente está terminando, os funcionários estão cruzando a Alameda dos Ministérios. São pessoas que vão estar se movimentando. Vamos atirar? Muita gente vai morrer, muita gente inocente. O mestre de salto, o comandante em cada avião, vai com o fone no ouvido, escutando os pilotos. Eu ouvia a conversa dos pilotos. Não ia haver combustível para prosseguir o voo depois de Brasília. Eles diziam: ‘Vamos pousar em qualquer lugar’. A situação era difícil e preocupava. Confesso que, sozinho – não tinha ninguém para conversar, eu era o único oficial no meu avião, os outros tenentes estavam nas demais aeronaves – fiquei preocupado, muito preocupado.

Aí, me veio a história de um outro livro – o emprego de paraquedistas belgas no Congo – quando houve um levante e muitos reféns, mais de 1.500 reféns. A tropa paraquedista foi empregada com sucesso – eles não saltaram em cima do objetivo. Você, na sua introdução, falou na nossa EsAO, não foi? A Escola que aplica a doutrina no seu laboratório, que é o campo, associando tática e técnica com tiro real, o mestrado do oficial, a última escola onde aprendemos e aplicamos a tática da Arma. É errado, no planejamento paraquedista, você traçar a zona de lançamento em cima do objetivo – você não salta em cima do inimigo. Ah! Que felicidade! No avião, lembrei-me disso. Então, me veio aquela sensação de satisfação – não devo saltar em frente aos ministérios – tenho que saltar longe. Fazer como os paraquedistas belgas: pegaram tudo o que andava, tudo o que tivesse roda e foram correndo para o objetivo e libertaram os homens que estavam presos, seus patrícios.

Então, imaginei: vou saltar em outro lugar, assim vamos evitar atirar em tudo o que se mova. Tudo que se mova seriam os funcionários terminando o expediente, saindo de Brasília. Adquiri confiança e disse para o Comandante da aeronave – ele me avisaria vinte minutos antes, com um toque de sirene dentro do avião: ‘Comandante, determine a entrada em formação cerrada – para as aeronaves se aproximarem – dê uma rasante em cima da alameda dos Ministérios. Depois, vou dar a final para você’. Nós íamos saltar, eu tinha decidido saltar depois da Alameda dos Ministérios, bem distante. Preferia ir a pé, correndo, para o objetivo.

Quando ele cerrou, dez minutos antes de chegar em Brasília, o meu ala esquerda – eu via, a distância é curta – o meu ala esquerda estourou o motor e pegou fogo. Era, justamente, a aeronave do Tenente Brandão. Pegou fogo no motor. Aquilo foi imediato! Mudei a missão! Eu disse para o Comandante da Aeronave: ‘Mande que siga direto para o aeroporto’. O aeroporto estava nas mãos dos revoltosos. ‘Mande-o seguir direto para o aeroporto e vamos todos para lá, vamos desembarcar’. Salto de viatura em movimento – nós sabíamos fazer isso. Quando a aeronave tocar no chão, nós saltamos sem paraquedas, ou seja, salta e rola. É claro que nós íamos ter baixas com isso, mas estávamos treinados. Saltávamos de viatura em movimento até na Avenida Brasil. Fazíamos esse adestramento. Ele falou: ‘O aeroporto está nas mãos dos revoltosos’. Porém, eu sabia que um pelotão de Goiânia já estava se dirigindo para lá – uma Companhia de Goiânia – sob o comando do então Tenente Machado Borges, o mesmo que chegou a General. Quando a primeira aeronave, que era a do Brandão, tocou a pista, ele comandou o salto. Todo mundo pulou da aeronave – joga a arma e salta feito um fardo, feito uma roda. Você encolhe todo o corpo e sai girando, pois machuca menos. Posamos em seguida.

Mas houve uma ocorrência. Realmente, o aeroporto ainda estava nas mãos dos sargentos revoltosos. Um deles, ao ver o avião pegando fogo no motor, comentou que aquele ali já está sendo destruído pelo fogo e que ele iria acabar com ele, jogando uma granada. E correu na diração do avião para jogar a granada. Acontece que ele estava perto da cerca e parece que o estacionamento dos táxis, no aeroporto de Brasília. Os motoristas ouviram aquilo e pularam a cerca, começando a correr atrás dele. Foi uma cena inusitada. Os motoristas se abraçaram com aquele sargento que tinha uma granada na mão, enquanto ele gritava: ‘Vou soltar a granada’. Quando o Brandão chegou, com alguns homens, a granada não tinha nem mais grampo. Estava sendo presa pelo capacete, na mão, e o sargento já com medo de soltar a granada. Após ser preso, ele confirmou que ia jogar a granada para destruir a aeronave, que sabia ser da tropa paraquedista.

Neste ínterim, desembarcamos, corremos para frente do aeroporto e pegamos todas as viaturas, carros, caminhões e ônibus que apareceram por ali. Desloquei-me em comboio com a minha tropa – duzentos homens – chegamos na Alameda dos Ministérios, do outro lado dos ministérios militares. Fiz o sinal para parar e logo a seguir o de avançar. Não falei mais nada. Desembarcamos correndo, tomamos de assalto os ministérios, fomos do primeiro piso até o último e fizemos setecentos prisioneiros. Todos estavam armados.

É preciso lembrar que ocorrera uma ação de um pelotão da Polícia do Exército-PE, na véspera. Naquela noite, o Tenente era o Uchoa. Mas o que houve com ele? Acontece que no momento do ataque dos sublevados ao Ministério da Aeronáutica, ele estava com o pelotão guarnecendo e resistiu ao ataque. Foram disparados muitos tiros contra o pelotão dele. Que era composto de ‘catarinas’, lembra? Naquela época,  a Polícia do Exército incorporava somente soldados do Sul do Brasil – os ‘barrigas-verdes’ catarinenses – os ‘catarinas’. Ele deu ordem de fogo, porque tinha que impedir o ataque – era um ataque mesmo. Nenhum soldado atirou, nenhum soldado atirou. Ele tomou o fuzil de um soldado e atrás de uma coluna gastou a munição, rolou para outra coluna – todos os soldados estavam atrás das colunas do ministério. Ele foi de soldado em soldado e resistiu ao ataque sozinho, atirando, porque os soldados não o fizeram.

A Biblioteca do Exército tem um livro, de 1958, ‘Homens ou Fogo’. Eu li muito esse livro e se eu não me engano é do General Omar Bradley que fez um inquérito na Segunda Guerra Mundial sobre o porquê do homem não atirar, quando está em combate. Após uma operação nas ilhas do Pacífico, ele colocou dois ou três regimentos de ‘quarentena’, vamos dizer assim, numa ilha do Pacífico e ouviu do comandante ao último soldado. Onde você estava na hora do ataque? O que houve? Por que você não atirou? Etc... E concluiu, dizendo o seguinte: ‘O fator psicológico’. Ele tem uma referência interessante: o jovem, principalmente – é o nosso caso, que incorporamos recrutas – o jovem é criado para não maltratar até os animais. É aquele negócio, não amarrem uma lata no rabo do gato, não maltratem o animal e de uma hora para outra, dos dezessete para os dezoito anos ele se apresenta no quartel e nós vamos ensiná-lo a atirar para matar.

Disse isso, quando estava na Academia Militar das Agulhas Negras: ‘Estamos aqui para ensinar vocês a matar, mas a matar em defesa da Pátria’. O Tenente Uchoa ficou abismado. Como é que o soldado não atirava – não houve jeito dele atirar! No livro, Omar Bradley diz: ‘O maior índice de aproveitamento de tropas na Segunda Guerra Mundial foi com a tropa paraquedista e de comandos’. Os paraquedistas russos chegavam a ter 18% dos que atiram, no máximo 20%. Ou seja: de cada grupo de combate de infantaria só dois homens atiram quando se deparam com o inimigo, mesmo quando ele está correndo a dez metros de distância. Um grupo de combate tem um sargento e um cabo. Se, dos dez integrantes, dois atiram, somente o sargento e o cabo atiravam. Os soldados, não. Os recrutas não atiram, é preciso muito treinamento. Uma prova foi o que ocorreu com o Tenente Uchoa.

Com a tropa paraquedista, o rendimento é maior, mas chegamos ao último andar dos quatro prédios dos ministérios e fizemos setecentos prisioneiros. Quantos tiros demos? Nenhum; Prendemos a todos, depois de tomarmos de assalto o  local. Foram colocados num andar e ficamos no outro andar, embaixo. Durante 45 dias, nós ficamos ali guarnecendo. Dormíamos no chão. Eles dormiam no andar de cima, também, no chão, o mesmo espaço, as mesmas condições sanitárias – estávamos no andar de baixo e eles sabiam que não podiam descer, eram sargentos.

Já à noite, reorganizei minha tropa. Veio uma informação rápida: acabaram de entrar num bloco de apartamentos, em uma superquadra e cortaram os pulsos da esposa de um oficial, porque queriam prender o marido. Ela foi salva pelos vizinhos. Cortaram os dois pulsos porque ela não dizia onde estava o marido. Ela também não sabia. Ele tinha saído para ir ao quartel. Ela nem sabia se ele já estava preso. Queriam o seu marido. Era um oficial do Exército, um capitão, e cortaram os pulsos dela. Fiquei com medo, porque aquilo poderia representar para a tropa uma reação maior, a partir dali. Graças a Deus, não foi preciso.

Outra informação: na rodoviária de Brasília, a última passagem, a mais baixa, naquela época de 1963 – a rodoviária não estava concluída, ainda estava em obra -, fora fechada pelos revoltosos. Eles fecharam de um lado e do outro. Deixaram uma porta e escreveram no muro – Paredão – e colocaram, em posição, um pelotão da tropa de fuzileiros navais, com metralhadoras. Iam começar o fuzilamento dos oficiais que já estavam presos. Peguei um grupo e mandei ao comando do Tenente Valporto, para a rodoviária. Prendemos todo o pelotão, com as metralhadoras em posição, prontas para fuzilar os oficiais. Essa foi a minha vivência em 1964 e antes de 1964, em 1963. Prendemos o pelotão e abriu-se um inquérito. Fizemos até um comentário, porque o inquérito foi feito na Marinha. A maioria dos sublevados era da Marinha. Conversando com o encarregado do inquérito, lhe disse: ‘Comandante, daqui a 15 dias vão estar todos de volta, como se nada tivesse ocorrido’. Esses presos foram trazidos de avião, por nós, para o Rio de Janeiro. Ficaram no navio-prisão.

Há um fato que gostaria de acrescentar. Quatro ou cinco dias depois, chegou a Brasília um Batalhão do Regimento Santos Dumont. Não trazia munição. O general [Pinheiro] não tinha deixado. Passaria a integrá-lo. O negócio estava quente, porque, ainda, estávamos fazendo a limpeza de Brasília. Informei ao major que havia reunido toda a munição que trouxera, em uma sala do pavilhão do ministério. ‘Tem suficiente?’ perguntou. Respondi: ‘Tenho munição para um batalhão, por um ano’. A nossa corrida, a proibição de sair armado! Foi tanta gente levando munição, ao sairmos do Rio! O Barcelos, Eglair Barcelos Alves – Oficial de Munições. Lembro-me de que, já com todas as aeronaves ‘taxiando’, motor ligado, ele chegou com a viatura e foi jogando os cunhetes pela porta dos aviões. Os pilotos ficaram preocupadíssimos. Tinha muita munição, o Batalhão cumpriu a sua missão e nós retornamos para o Rio.

O Comandante do Batalhão, Major Giácomo Jannuzzi Neto, chamou-se, aqui no Rio, depois da operação e disse: ‘Nery, você fai fazer uma relação dos militares que vão receber condecoração, por bravura, nesta operação, você faz isso?’ ‘Claro, indico os homens da minha Companhia que merecem a medalha’. Chamei o meu sargenteante e pedi que ele me desse o mapa da força – o manifesto do voo de lançamento dos paraquedistas, para que todos fossem incluídos, todos os militares que foram para Brasília comigo, que tomaram Brasília de assalto e que tinham consciência de que libertaram Brasília. Entreguei ao Major Jannuzzi, Comandante do Batalhão, a relação de toda a Companhia. Ele disse: ‘O que é isso? Pedi para você o nome daqueles que merecem...’ Eu lhe disse: ‘Major, todos nós fizemos a mesma coisa. O que um fez, o outro fez também. Todos fomos além do dever’. Palavras dele: ‘Nery, só vou indicar você, porque condecorar duzentos por ato de bravura vai desmoralizar a medalha’. Sendo assim, somente eu seria indicado. ‘Major, essa eu não vou receber. O senhor me desculpe – ou concede para todos ou não me mantenha na relação’. E realmente, foi isso que ocorreu. Aqueles que estavam em Brasília, foram condecorados. Os tenentes, sargentos e soldados paraquedistas que, numa ação enérgica e eficaz, sufocaram um movimento revolucionário que pregava uma ampla indisciplina contra a hierarquia militar e contra a autoridade e a legitimidade do Poder Judiciário, representado pelo tribunal mais alto, que é o Supremo Tribunal Federal, não foram reconhecidos. Essa era a situação vivida naquela época, que levou à eclosão da Revolução de 1964” (General-de-Brigada Durval Antunes Machado Pereira de Andrade Nery, Tomo 10, pg. 169-176).

 

General Pinheiro, o “Faz Tudo”, era acrobata e promovia festanças em Brasília

“Recordo-me de que o NuDAet teve uma fase sob o comando do General Pinheiro, apelidado de ‘Faz Tudo’. Ele era um homem da ‘corte’, mas causava admiração por sua figura de paraquedista. Ele tinha uns cacoetes que encantavam os mais jovens. Por exemplo: por vezes, ao receber a apresentação da tropa em plena forma física, lépido, se antecedia com um salto mortal e recebia a apresentação, como se fosse um desses ases das equipes de saltos ornamentais. Coisas assim, consideradas um pouco deslumbrantes para os capitães, tenentes e para os sargentos. No entanto, ele era um homem da absoluta e irrestrita confiança do Presidente João Goulart, tendo desempenhado o cargo de Comandante do Batalhão da Guarda Presidencial (BGP) e, segundo comentava-se durante nossa permanência naquela cidade, organizava festas, recepções íntimas e orgias planaltinas para devaneio da alta cúpula do poder, em Brasília” (Coronel Francimá de Luna Máximo, Tomo 11, pg. 212).

Obs.:

Durante a rebelião em Brasília, além de alguns feridos, foram mortos o fuzileiro naval Divino Dias dos Anjos (rebelde) e o motorista civil Francisco Moraes (cfr. “A Verdade Sufocada”, pg. 65).

F. M.




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