MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

O fim da inocência da ONU - por Félix Maier

 


Crianças nasceram deformadas no Iraque devido a bombas dos EUA com urânio depletado


sábado, 14 de setembro de 2013

O fim da inocência da ONU

Por Félix Maier

Vários textos foram escritos para lembrar os 10 anos sem o diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello, que faleceu no dia 19 de agosto de 2003, junto com mais 21 funcionários da ONU, após explosão da sede da entidade que ele comandava em Bagdá.

Vieira de Mello havia realizado trabalhos importantes na Organização, como as atividades para imposição da paz nos Bálcãs e no Timor Leste. Por isso, seu nome era certo para ser aclamado futuro secretário-geral da ONU.

No dia 25 de agosto de 2013, o Ph.D. José Flávio Sombra Saraiva, professor da Universidade de Brasília (UnB), escreveu para o Correio Braziliense um texto sobre Vieira de Mello, cujo título é “O dia do fim da inocência da ONU”. Chamou minha atenção a palavra “inocência”, justamente na semana em que eu estava lendo o livro de Robert Fisk, A grande guerra pela civilização - A conquista do Oriente Médio, um calhamaço de 1495 pág. lançado pela Planeta em 2007. E o livro de Fisk, um veterano correspondente de guerra, que chegou a entrevistar Osama bin Laden, apresenta fatos envolvendo a ONU que não são nada inocentes.

Refiro-me às sanções feitas pela Organização ao Iraque após a I Guerra do Golfo (1991), conduzida pelos EUA e aliados, quando centenas de milhares de crianças e adultos morreram por inanição e por falta de medicamentos - um verdadeiro crime contra a humanidade.

Antes das sanções propriamente ditas da ONU, a I Guerra do Golfo destruiu centros vitais do Iraque, ocasionando um verdadeiro genocídio: “Em 1991, os aliados haviam inutilizado as centrais elétricas e bombardeado intencionalmente as instalações de tratamento de águas potáveis e residuais, uma decisão que causaria uma catástrofe humanitária na população civil. (...) O índice de mortalidade havia quase quintuplicado entre as crianças menores de cinco anos, que aproximadamente um milhão de crianças sofria de desnutrição e que cerca de 100 mil morriam de inanição. A investigação descobriu que 46.700 crianças menores de cinco anos haviam falecido pelos efeitos combinados da guerra e das sanções nos sete primeiros meses de 1991” (FISK, 2007: 961).

Vale lembrar que a I Guerra do Golfo teve como objetivo libertar o Kuwait, invadido pelas tropas de Saddam Hussein - além de defender os verdadeiros interesses americanos no Oriente Médio: o petróleo. No entanto, os ataques não se restringiram ao território do Kuwait e entorno, mas atingiram todo o Iraque. A destruição da infraestrutura desse país - além das instalações militares - foi quase total, provocando um atraso que levará décadas ou séculos para o país vencer. 

Mal comparando, é como se o Brasil tivesse tido um litígio com a “República Ianomâmi” - perfeitamente possível depois que o Brasil assinou a Declaração dos Direitos dos Povos Indígenas -, e a ONU autorizasse os EUA a atacar e destruir toda a infraestrutura brasileira, como as refinarias e as plataformas de petróleo, instalações militares, centrais elétricas, a Embraer, a Base de Lançamentos de Alcântara e outros ativos estratégicos. Afinal, se ontem o ataque da “polícia do mundo” foi contra o Iraque (em 1991 e 2003) e a Líbia (2011), se hoje pode ser contra a Síria, por que amanhã não pode ser contra o Brasil, um país sem nenhuma estrutura de defesa?

Como a I Guerra do Golfo ficou pelo meio do caminho, pois o regime de Saddam não foi deposto, uma intifada contra o ditador foi fomentada pela CIA, através do rádio, e houve rebeliões dos curdos no Norte e dos xiitas no Sul, porém não houve suporte bélico dos países aliados. O resultado foi um massacre ainda maior do que havia ocorrido antes, quando Saddam utilizou até armas químicas contra vilarejos curdos. A ONU, não contente com a desgraça iraquiana, aprovou sanções extremas ao país, proibindo a venda de petróleo e a compra de alimentos e medicamentos. Foi uma catástrofe humanitária como nunca havia ocorrido no país. “Em 1996, estima-se que meio milhão de crianças havia falecido como resultado das sanções” (FISK, 2007: 961). “Se a substancial redução da taxa de mortalidade infantil observada no Iraque durante a década de 1980 houvesse se prolongado durante a década de 1990, teria havido meio milhão de falecimentos a menos de crianças menores de cinco anos de idade no intervalo de oito anos compreendido entre 1991 e 1998” (idem, pág. 966).

Na mesma época, muitos iraquianos, que haviam sobrevivido à fome, morreram devido à irradiação ocasionada pelas bombas americanas e inglesas que utilizavam urânio depletado (enfraquecido). “Esse tipo de projétil era fabricado a partir de dejetos da indústria militar; são de uma liga mais resistente que o tungstênio, que se inflama e forma uma ‘nuvem’ incandescente de urânio depois que o projétil perfura a blindagem dos tanques e veículos” (pág. 995). “Era cada vez mais evidente que uma praga química desconhecida estava se difundindo pelo sul da Mesopotâmia, uma trilha angustiante de leucemias e cânceres de estômago que ceifava a vida de milhares de crianças e adultos iraquianos que viviam perto das áreas de guerra do conflito de 1991” (pág. 995). Segundo dados do Ministério da Saúde do Iraque, confirmados pela ONU, 50 a 75% dos casos de leucemia ocorreram com crianças.

A utilização de mísseis com urânio depletado também foi feita pela OTAN - vale dizer “o cérebro inglês e o músculo americano” - contra a Bósnia (1995) e o Kosovo (1998). Mais de 300 refugiados de um bairro de Sarajevo atacado por aviões da OTAN em 1995 morreram de câncer. Segundo a revista alemã Der Spiegel, também foi usado urânio depletado pelos EUA em sua intervenção na Somália, em 1993, sob o comando da ONU. E tem gente que fica surpresa com ataques “terroristas” islâmicos contra alvos americanos, como o visto em Boston, em 2012.

Atualmente, Barack Obama ameaça atacar a Síria, devido a denúncias ainda não comprovadas de que o governo de Bashar al-Assad tenha usado armas químicas contra sua população. É muito cinismo do comandante das Forças Armadas do país que enterrou, com equipamentos pesados de engenharia, entre 8.000 e 10.000 soldados iraquianos vivos, que estavam abrigados em trincheiras durante a I Guerra do Golfo, e matou milhares de pessoas utilizando as tais armas radiológicas com urânio depletado.

Obviamente, a ONU já realizou importantes missões de paz ao redor do mundo. No entanto, essa Organização não perdeu sua inocência com a morte de Vieira de Mello, como afirma aquele professor da UnB. Vale lembrar que a criação da ONU, em substituição à Liga das Nações, é uma tentativa de estabelecimento de um “governo mundial”, limitando a soberania das nações, “tendo a Fundação Rockefeller, então dirigida por Raymond Fosdick, doado o terreno e 8,5 milhões de dólares, em dezembro de 1946, para o estabelecimento da sede da organização, em Nova York” (CARRASCO, 2013: 69).

E nada foi dito por mim sobre a II Guerra do Golfo, o covarde ataque americano contra o Iraque, em 2003, com a desculpa esfarrapada da procura por armas de destruição de massa, que nunca foram encontradas. Precisa ser dito?

Notas:

CARRASCO, Lorenzo; PALACIOS, Silvia. Quem manipula os povos indígenas contra o desenvolvimento do Brasil - Um olhar nos porões do Conselho Mundial de Igrejas. Capax Dei, Rio, 2013.

FISK, Robert. A Grande Guerra pela Civilização - A Conquista do Oriente Médio. Planeta, São Paulo, 2007 (Tradução de Sandra Martha Dolinsky).



Criança da "Hiroshima Iraquiana"



Câncer Como Arma: A Guerra Radioativa De Poppy Bush Contra O Iraque

por Jeffrey St. Clair | Tradução de Leonardo Justino para a Revista Opera.

No final da Primeira Guerra do Golfo, Saddam Hussein foi denunciado como um vilão feroz por ordenar que suas tropas em retirada destruíssem os campos petrolíferos do Kuwait, poluindo o ar com venenosas nuvens de fumaça negra e saturando o solo com pântanos de petróleo cru. Foi chamado justamente como um crime ambiental de guerra.

Porém meses de bombardeios no Iraque por aviões e mísseis de cruzeiro norte-americanos e britânicos deixaram para trás um legado ainda mais mortal e insidioso: toneladas de cartuchos, balas e fragmentos de bomba com urânio empobrecido. Ao todo, os EUA atingiram o Iraque com mais de 970 bombas e mísseis radioativos.

Levou menos de uma década para que as consequências na saúde vindas desta campanha de bombardeio radioativo surgissem. E elas são terríveis, de fato. Médicos iraquianos chamam de “a morte branca”- leucemia. Desde 1990, a taxa de incidência de leucemia no Iraque cresceu mais de 600%. A situação é agravada pelos isolamentos forçados do Iraque e o regime sádico de sanções, recentemente descrita pelo secretário geral da ONU, Kofi Annan, como uma “crise humanitária”, que torna a detecção e tratamento dos cânceres ainda mais difícil.

“Nós temos provas de traços de urânio empobrecido presentes em amostras para análises e isto é realmente ruim para aqueles que afirmam que os casos de câncer têm crescido por outras razões”, disse o Dr. Umid Bubarak, Ministro da Saúde do Iraque.

Mubarak sustenta que o medo dos EUA em enfrentar as consequências ambientais e de saúde da sua campanha de bombardeio com urânio empobrecido se dá em parte por não cumprirem seus compromissos sob um acordo que permitiria o Iraque vender parte de suas vastas reservas de petróleo em troca de alimentos e suprimentos médicos.

“A poeira do deserto carrega a morte”, dise o Dr. Jawad Al-Ali, oncologista e membro da England’s Royal Society of Physicians. “Nossos estudos indicam que mais de 40% da população em torno de Basra terá câncer. Estamos vivendo outra Hiroshima”.

A maior parte das vítimas de leucemia e câncer não são soldados. São civis. E muitos deles são crianças. O comitê de Sanções Iraquianas, dominado pelos EUA em Nova Iorque, negou repetidos pedidos do Iraque para remédios e equipamentos para tratamento do câncer, até mesmo analgésicos como a morfina. Como resultado, hospitais superlotados em cidades como Basra são obrigados a tratar os pacientes com aspirina.

Isto é apenas parte de um horror ainda maior infligido a um Iraque que tem 180 crianças morrendo todos os dias, de acordo com os dados de mortalidade compilados pela UNICEF, de um catálogo de doenças do século XIX : Cólera, disenteria, tubercolose, E. coli, caxumba, sarampo e influenza.

Iraquianos e kuwaitianos não são os únicos que apresentam sinais de contaminação e doenças pelo urânio. Foram também encontrados nos veteranos da Guerra do Golfo, afetados por uma série de doenças, traços de urânio no seu sangue, fezes, urina e sêmen.

Urânio empobrecido é um nome um tanto benigno para Urânio-238, subproduto de elementos residuais deixados para trás quando o material fissionável é extraído do Urânio-235 para o uso em reatores e armas nucleares. Por décadas, este resíduo fora um incômodo radioativo, acumulando-se em fábricas de processamento de plutônio ao longo dos EUA. No final dos anos 1980, existia por volta de 1 bilhão de toneladas do material.

Então os projetistas de armas do Pentágono vieram com uma ideia para o uso destes resíduos: eles poderiam ser moldados em munições e bombas. O material estava livre e abundante. O urânio também é um metal pesado, mais denso que o chumbo, e isto teria o uso perfeito em armas que penetrassem blindagem, projetadas para destruir tanques, veículos blindados e bunkers.

Quando bombas anti-tanque explodem, o urânio empobrecido se oxida em fragmentos microscópios que flutuam pelo ar como poeira cancerígena, carregada pelos ventos do deserto por décadas. A poeira letal é inalada, adere às fibras dos pulmões e, por fim, começa a destruir o corpo: tumores, hemorragias, sistema imunológico devastado e leucemia.

Em 1943, os homens do juízo final associados ao Projeto Manhattan especularam que urânio e outros materiais radioativos poderiam se espalhar por largas faixas de terra para conter exércitos inimigos. General Lesli Grove, líder do projeto, afirmou que armas de urânio poderiam causar “danos pulmonares permanentes”. No final dos anos 1950, o pai de Al Gore, senador do Tennesse, propôs encharcar a zona desmilitarizada da Coreia com urânio como uma defesa barata e à prova de falhas contra um ataque dos norte-coreanos.

Após a  Guerra do Golfo, os planejadores de guerra do Pentágono estavam tão satisfeitos com o desempenho de suas armas radioativas que encomendaram um novo arsenal, e sob as ordens de Bill Clinton foram usadas nas posições sérvias na Bósnia, Kosovo e Sérvia. Mais de 100 bombas de urânio empobrecido foram utilizadas nos Balcãs nos últimos seis anos.

Equipes médicas na região detectaram grupos de câncer próximo dos locais das bombas. A taxa de leucemia em Saravejo, atingidas por bombas norte-americanas em 1996, triplicou nos últimos 5 anos. Mas não são apenas os sérvios que estão adoecendo e morrendo. Forças de paz da ONU e da OTAN na região também estão com câncer. Em 23 de Janeiro, 8 soldados italianos que serviram na região morreram de leucemia.

O Pentágono fez uma variedade de justificativas e desculpas. Na primeira, o Departamento de Defesa desmereceu preocupações a respeito do uso de urânio empobrecido como teoria da conspiração de ativistas da paz, ambientalistas e propagandistas do Iraque. Quando os aliados da OTAN exigiram que os EUA divulgassem as propriedades químicas e metálicas de suas munições, o Pentágono recusou. Também foi negada a realização de testes em soldados dos EUA baseados no Golfo e nos Balcãs.

Se os EUA mantiveram o silêncio, os britânicos não. Em 1991, um estudo da Autoridade de Energia Atômica do Reino Unido previu que se menos de 10% das partículas liberadas pelas armas de urânio empobrecido usadas no Iraque e no Kuwait fossem inaladas, poderiam resultar em prováveis “300.000 mortes”.

A estimativa dos britânicos supunha que o único ingrediente radioativo das bombas lançadas no Iraque era o urânio. E não foi. Um novo estudo dos materiais de dentro dessas armas as descreve como um “coquetel nuclear”, contendo um misto de materiais radioativos, incluindo plutônio e outros altamente radioativos isótopos de urânio-236. Esses elementos são 100 mil vezes mais perigosos que o urânio empobrecido.

Tipicamente, o Pentágono tentou jogar para escanteio a culpa no manuseio desleixado do Departamento de Energia de suas fábricas de produção de armas. Foi assim que o porta-voz do Pentágono, Craig Quingley, descreveu a situação de forma pedante, digna de uma história de Joseph Heller: “A fonte da contaminação que melhor podemos entender agora, foi de que as próprias plantas produziram o urânio empobrecido durante 20 anos, período de tempo que o urânio empobrecido foi produzido.”

Na verdade, os problemas nas instalações nucleares do Departamento de Defesa e a contaminação de seus trabalhadores e contratados são bem conhecidos desde os anos 1980. Um memorando do Departamento de Energia de 1991 relata que “durante o processo de fabricação de combustível para reatores nucleares e elementos para armas nucleares, a instalação de difusão gasosa de Paducah…criou urânio empobrecido contendo potencialmente neptúnio e plutônio”.

Mas tais desculpas, na ausência de qualquer ação para resolver a situação, estão se tornando cada vez mais pueris. Doug Rokke, o físico de saúde do Exército dos EUA que supervisionou a limpeza parcial de fragmentos de bombas de urânio empobrecido no Kuwait, agora está doente. Seu corpo registra 5000 vezes o nível de radiação considerado “seguro”. Ele sabe onde colocar a culpa. “Não há dúvida sobre isso”, disse Rokke ao jornalista australiano John Pilger. “Como resultado do metal pesado e do veneno radiológico do urânio empobrecido, as pessoas no sul do Iraque estão passando por problemas respiratórios, problemas renais, cânceres. Membros da minha própria equipe morreram ou estão morrendo de câncer.”

O urânio empobrecido tem a meia-vida de mais de 4 bilhões de anos, aproximadamente a vida do planeta Terra. Milhares de acres de terra nos Balcãs, Kuwait e no sul do Iraque foram contaminados para sempre. Se George H. W. Bush, Dick Cheney, Colin Powell e Bill Clinton ainda então buscando um legado, há um sombrio que permanecerá por toda a eternidade.

*Este artigo foi adaptado do livro Been Brown So Long, It Looked Like Green to Me.

 

**Nota da tradução: Poppy é uma referência a papoula, apelido de George H. W. Bush. Também é um trocadilho em inglês com “Papai Bush.”

Fonte: Ópera

Fonte: http://www.baixadadefato.com.br/cancer-como-arma-guerra-radioativa-de-poppy-bush-contra-o-iraque/


As Crianças da "Hiroshima Iraquiana"

Conversamos com o Karlos Zurutuza sobre as partículas radiativas da Guerra do Iraque e seus efeitos nas crianças de Falluja.
https://www.vice.com/pt_br/article/wne75m/as-criancas-da-hiroshima-iraquiana

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