MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

TIO ARNO PREIS E OS HERDEIROS DE ANTÍGONA: A LUTA PELO DIREITO DE ENTERRAR OS MORTOS - por Elaine Angela Bogo Pavani

HERDEIROS DE ANTÍGONA: A LUTA PELO DIREITO DE ENTERRAR OS MORTOS



Elaine Angela Bogo Pavani

Universidade Estadual de Maringá

Considerada o berço da civilização ocidental, a civilização grega antiga nos permite recorrer a temas e aspectos enriquecedores da cultura clássica, permeando questões legais, políticas, artísticas, filosóficas. Entre uma das mais importantes obras literárias e da dramaturgia grega se encontra a tragédia “Antígona”, de Sófocles. Neste artigo, busca-se entender a inter-relação entre a personagem sofocliana Antígona e as personagens reais envolvidas na luta com o Estado ditatorial militar. A peculiaridade deste estudo está na verificação de uma situação que ultrapassa a ficção teatral e adentra o cenário político do Brasil no século XX. Antígona, a personagem que nomeia a tragédia em questão, empenha-se obstinadamente contra o decreto do estado, emitido pelo rei Creonte, no intento de prestar honras fúnebres ao irmão morto em confronto. De outro lado, grupos de familiares iniciaram a luta na década de 70 no Brasil, denunciando a morte de parentes ocorrida em circunstâncias não esclarecidas e exigindo o acesso aos restos mortais sepultados indevidamente.

Sófocles, ao escrever a tragédia “Antígona”, evidenciou a complexa relação que se estabelece entre tirania e direito, entre moralidade e poder, conduzindo o público a profundas reflexões acerca da política, da moral, da religião e do direito. Escrita no ano de 444 a.C, “Antígona” apresenta uma problemática que envolve a existência humana: o homem é definido antes de tudo como um ser mortal. A morte complementa a vida e portanto não é considerada de forma simplista como marco final de um processo mas como um ritual de passagem que concede à vida um novo significado.

Nascida de um matrimônio condenado pelo incesto, Antígona é filha (e irmã) de Édipo. Na história, os irmãos de Antígona, Etéocles e Polínices, também filhos do rei Édipo e de Jocasta, eram herdeiros do trono de Tebas. Os irmãos estabeleceram um acordo em que cada um exerceria o poder por um ano, revezando-se com o outro. Etéocles, porém, encerrou seu primeiro ano de governo e negou a sucessão a Polínices. Indignado pela violação de seus direitos, Polínices alia-se ao rei de Argos, rival dos tebanos, e decide lutar com o irmão pelo trono. Durante o violento confronto que envolveu os sete chefes tebanos e o exército de Argos, Etéocles e Polínices morrem em combate, um pelas mãos do outro. Com a morte dos irmãos, quem assume o trono é Creonte, irmão de Jocasta. Ao saber da tragédia, Antígona, que está no exílio, retorna a Tebas juntamente com sua irmã Ismene. O novo rei de Tebas ordena que Etéocles seja sepultado com todas as honras devidas pois morrera defendendo a cidade de Tebas. Simultaneamente, acusa Polínices de traição e proclama um edito decretando ser “terminantemente proibido honrá-lo com um túmulo, ou lamentar sua morte; que seu corpo fique insepulto, para que seja devorado por aves e cães, e se transforme em objeto de horror”.(Sófocles, 2001, p.16) Quem violasse o decreto real seria morto. Para Antígona, permitir que seu irmão fosse privado dos rituais fúnebres e tivesse o cadáver exposto às aves e animais de rapina era inaceitável. Antígona se rebela contra a lei de Creonte, enfrenta os soldados e enterra o corpo de Polínices.

A tragédia se desenrola por um caminho conflituoso entre as leis divinas e as leis humanas. Antígona e Creonte protagonizam a trama, defendendo posições antagônicas e bem definidas a partir de seus valores pessoais: a primeira representa as leis sagradas e universais e Creonte, as leis temporais e o poder estabelecido. O rei defende a sua posição autoritária, justificada pela necessidade de manutenção do poder e relega a segundo plano as relações familiares e os sentimentos pessoais.

Quem, por orgulho e arrogância, queira violar a lei, e sobrepor-se aos que governam, nunca merecerá meus encômios. O homem que a cidade escolheu para chefe deve ser obedecido em tudo, quer seus atos pareçam justos, quer não. Quem assim obedece, estou certo, saberá tão bem executar as ordens que lhe forem dadas, como comandar, por sua vez; e será, na guerra, um aliado valoroso e fiel. Não há calamidade pior do que a rebeldia; ela é que arruína os povos, perturba as famílias, e causa a derrota dos aliados em campanha. Ao contrário, o que garante os povos, quando bem governados, é a voluntária obediência. (Sófocles, 2001, p. 44 e 45)

Antígona foi condenada à morte sob o argumento da isonomia que vigorava em Tebas. O rei Creonte declarava-se justo e correto diante da cidade e de seu povo e proferia em seus discursos que as leis do Estado destinavam-se a todos os cidadãos, independente dos laços familiares ou de sentimentos pessoais. Antígona recorre ao Direito Natural e insiste que a proclamação do edito está em desacordo com a vontade dos deuses e com os costumes.

Em “Antígona”, encontramos uma amostra das complexas relações estabelecidas entre moralidade e poder, incidindo sobre as esferas pública e privada. Ao assumir a luta pelo resgate da memória do irmão ultrajado e pelo direito de proporcionar-lhe um sepultamento honrado, Antígona desafia o Estado e concede ao conflito político estabelecido um caráter puramente humano. A idéia de que é direito tudo aquilo que é instituído em nome do Estado é corajosamente questionada por Antígona que fundamenta sua defesa invocando os direitos de origem natural ou divina.

O rei Creonte personifica o Estado como fonte única de direito, com poder para interferir em todas as esferas da vida humana. Nada é permitido fora do Estado e nem contra o Estado. Polínices, acusado de traição política, perde o direito ao funeral e à sepultura, segundo a lei da cidade. Na história dos povos, os mortos sempre mereceram lugar de destaque e, ao redor da morte, desenvolveram-se inúmeros rituais para o culto e despedida da memória dos falecidos. A morte e o sagrado mantêm relações muito íntimas. Assim, Antígona decidiu ignorar as ordens do poderoso Creonte para realizar o ritual por piedade fraternal, desafiando as leis escritas da cidade e revelando a importância dos direitos familiares e afetivos, das leis dos costumes e crenças.

Sem o ritual fúnebre e o sepultamento, Polínices não teria o direito a outra vida. E nesse ponto o significado da morte atinge a esfera social pois morrer compreende não só estar privado de uma vida física mas também, estar privado de uma vida social no seio da pólis. Os rituais são as formas através das quais se pode conceber uma segunda identidade de morto. Ferida pela tragédia familiar e pela postura do Estado, Antígona questiona se a condição de traidor é razão suficiente para impedir que um cidadão da cidade receba sepultamento digno.

Sim, porque não foi Júpiter que a promulgou; e a Justiça, a deusa que habita com as divindades subterrâneas jamais estabeleceu tal decreto entre os humanos; nem eu creio que teu édito tenha força bastante para conferir a um mortal o poder de infringir as leis divinas, que nunca foram escritas, mas são irrevogáveis; não existem a partir de ontem, ou de hoje; são eternas, sim! e ninguém sabe desde quando vigoram! (Sófocles, 2001, p. 30)

As discussões levantadas por Sófocles são tão atuais quanto pertinentes como fonte para debate das questões morais e sagradas. Os laços familiares são mais fortes que os contratos humanos? Nesse sentido, o mito grego transfigura-se em drama universal vivido em diferentes perspectivas e transcende o classicismo, servindo como objeto de reflexão sem que para isso existam condicionamentos a tempos ou a lugares. Maria Fernanda Aragão Ponzio afirma em suas análises que atacar a injustiça e mostrar os abusos de um poder que se firma sob a égide do medo e da anulação de direitos são pontos que permitem e requisitam o paralelo em relação a vários conflitos presentes na sociedade atual. O drama vivido pela família Preis aproxima-se de Antígona em vários aspectos: a dor pelo parente desaparecido por uma causa política; a violação do direito sagrado; o corpo que teve negado o direito de sepultura digna e o autoritarismo do Estado.

A análise comparativa dessas figuras evidencia conflitos que se estabelecem para ilustrar a precariedade acerca da condição humana, imersa em períodos marcados pelas tiranias do silêncio e da obediência. São fragmentos da história pessoal e familiar de homens e mulheres que tiveram suas vidas confundidas, muitas vezes de forma dolorosa, com a realidade política do país.

No caso de Arno, durante duas décadas o irmão João Preis lutou para realizar os rituais fúnebres e sepultá-lo conforme o costume. Séculos separam a história dos Preis e dos Labdácidas mas a indignação movida pela dor e sentimento fraternal os aproxima. Arno Preis foi morto em 1972. Oficialmente sua morte ocorreu após troca de tiros com policiais em Paraíso do Norte de Goiás. No inquérito instaurado para apuração dos fatos, consta que, na troca de tiros, Arno Preis matou o policial Luzimar. Preis é citado como subversivo e conspirador. Os soldados foram promovidos por cumprirem seu dever e citados como heróis, bravos e corajosos.

I – Seja solicitado ao Exmº Sr. Cel. Cmt. Geral da Policia Militar, promoção à graduação imediata do 3º Sgt José de Ribamar Santos, Soldados Edmilson Almeida Cruz, Soldado Antônio Mendes da Silva, Gentil Ferreira Mano e Pós-Morte ao Ex-soldado PM Luzimar Machado de Oliveira, pela coragem, bravura e heroísmo por haverem eliminado da Pátria brasileira mais um conspirador da mesma; II – Seja solicitada ao Exmº Sr. Secretário de Segurança Pública do Estado, promoção à graduação imediata, dentro de sua categoria de Policial - Civil Benedito Luiz de Paiva por ter sido o mesmo um herói na perigosa missão citada no item anterior [...]”. (Escrito pelo Comandante do 3º BPM Ten. Cel. Jorge Correa, publicado em BI n° 53, de 16/03/1972).

O soldado morto no confronto recebeu homenagem pós–morte e a praça central da cidade recebeu seu nome: Luzimar Machado de Oliveira.

Arno fora enterrado com nome falso e o corpo dado como desaparecido. As informações contidas nos depoimentos, nos laudos e em notícias são, ora superficiais, ora contraditórias. Os familiares não foram comunicados oficialmente e tomaram conhecimento do fato através da Folha de São Paulo. A notícia publicada vinte dias depois como versão oficial do governo, significou o início de um calvário para a família. Preis foi identificado como líder terrorista, morto ao tentar fugir depois de matar um policial e ferir outro. Félix Maier sobrinho de Arno, relata em artigo como ele e outros familiares souberam da morte de Arno.

"Após eu fazer o curso de sargento do Exército no Rio de Janeiro, em 1971, fui designado para servir, como fotógrafo, no Campo de Provas da Marambaia. Certo dia, lá pelo final de fevereiro de 1972, lendo distraidamente um jornal carioca, deparo com a notícia da morte de Tio Arno, ocorrida no dia 15 daquele mês, na cidade de Paraíso do Norte, GO (hoje, Estado de Tocantins). (...) Minha primeira providência foi escrever para Tio João, em Maringá, PR, relatando a morte de Tio Arno, ao mesmo tempo em que perguntava se meus avós maternos já sabiam do ocorrido. A carta foi mandada com certa apreensão, pois naquela época, com atentados terroristas ocorrendo a todo momento, eu, de certa forma, também me expunha, pois sabia que, durante o governo revolucionário, muitas cartas eram abertas pelos órgãos de Segurança. Assim, se minha carta fosse interceptada pelos órgãos de repressão, muita dor de cabeça eu poderia ter até explicar que focinho de porco não é tomada. Tio João, porém, já havia sido informado da tragédia familiar e junto dos demais parentes foi combinado que nada seria dito aos avós. De fato, a trágica morte de Tio Arno foi escondida da oma (avó) e do opa (avô) Preis durante muitos anos, até que um dia alguém da família deu com a língua nos dentes, quando os avós faziam uma visita a Forquilhinha, SC." (Maier, 2007)

João Preis relata que foram dias muito difíceis para a família. Indignação e dor se alternavam com a esperança de que o irmão estivesse vivo. Decidiram não comunicar o fato aos pais, já idosos porque não havia a confirmação oficial da morte e as incertezas latejavam na lembrança dos familiares. Como explicar para a mãe, católica fervorosa, que o filho educado de forma rígida, não seria velado, pranteado e sepultado em lugar escolhido pelos seus? O culto aos mortos é uma tradição que já existia entre os povos primitivos e os rituais especiais para tratar dos corpos sem vida de seus entes queridos fazem parte de quase todas as religiões. Trata-se de uma deferência a quem se ama e, também, à própria morte. As histórias de vida constituem os alicerces que estruturam os rituais de evocação dos mortos. Lembrar do morto, falar sobre ele, relatar seus feitos, seus amores, suas obras inacabadas, é evocar sua passagem pela vida. No mundo dos vivos, a evocação dos mortos adquire muito sentido quando a lembrança permite a recriação do passado em função de valores atuais.

A crítica presente na tragédia de Sófocles ecoa desde o século V antes de Cristo: por que as leis de Creonte não se inspiravam nas leis divinas? O autoritarismo do rei de Tebas foi empregado para que o horror inibisse outros pretendentes ao trono enquanto a ação de Antígona se traduz aa representação da religião familiar, privada, centrada na tradição.

Em 1980, Ivo Sooma, advogado e amigo pessoal de Arno Preis, decidiu investigar as circunstâncias de sua morte. Durante a investigação autônoma, Sooma conseguiu localizar o coveiro Milton Gomes que realizou o sepultamento de Arno Preis. Milton Gomes relatou que os policiais entregaram-lhe um corpo enrolado em lona preta e ordenaram: “Enterra de qualquer jeito. Isto é um porco”. Gomes, no entanto, ao final do sepultamento ergueu uma pequena pirâmide de concreto e fincou nela uma cruz de madeira considerando que, um dia, alguém procuraria aquele corpo.

Os conflitos ocorridos no período militar envolveram principalmente cidadãos e o próprio Estado. Assim, os direitos e deveres que cada um dos lados envolvido dispunha, não deveriam se confundir com a causa que acreditavam ser justa. A militância na guerrilha ou a inclusão no exército ou na polícia não afasta o sujeito histórico da pátria, da nação e muito menos rompe os laços familiares ou afetivos.

Assim como Lamarca, Marighella e tantos outros, Arno Preis ousou lutar com arma em punho. E sobre tal postura não deve haver consenso ou aplausos. Não se trata de heroísmo nem tão pouco de traição ou terrorismo. Esses homens agiram com precipitação e talvez não fosse o momento propício ou a melhor forma da resistência obter sucesso? Talvez. Mas como ignorar que foram até as últimas conseqüências, entraram de corpo e alma, literalmente, por uma causa coletiva? Apostaram alto, dedicaram a vida e até a própria morte sem nenhum exagero poético.

Arno Preis representa o rebelde que enfrentou a ditadura não reconhecida por ele e por seu grupo como Estado de Direito, assim como Polínices. O descaso das autoridades com seus restos mortais e principalmente com o direito dos familiares de saber as reais circunstâncias de sua morte e de poder conceder um rito fúnebre conforme os costumes religiosos e culturais, consistiu numa violação de direitos que extrapola o Direito Constitucional. Nesse sentido, uma questão deve ser levantada: o que dá legitimidade a lei? Qual o limite entre governantes e governados?

O debate grego se aprofunda quando Sófocles coloca em cena o filho de Creonte e noivo de Antígona, Hémon. Creonte personifica o tirano, parecendo injusto para os tebanos. Hémon vem à presença de seu pai preocupado com o destino da mulher amada mas também com a imagem do rei, que está começando a ser mal visto pela população. No contexto de fortes elucubrações do herdeiro do trono de Tebas ressalta-se a importância da democracia e do uso da razão. Razão esta que consiste em ouvir outras opiniões arrazoadas, não tomar apenas a opinião própria como a única correta. A oratória de Hémon revela que a opinião do povo deve ser levada em consideração, não demonstrando preocupação com a opinião dos deuses ou com os costumes. O embate entre Creonte e o filho simboliza a disputa entre democracia e tirania, de forma que os argumentos de Hémon são mais fortes mas não conseguem se sobrepor ao autoritarismo e à teimosia.

Certamente essa é uma discussão tão antiga quanto problemática no que diz respeito aos impasses entre justiça e direito, ordem pública e vida privada, sagrado e profano. No entanto, a postura de Hémon demonstra maior politização e consciência ao entender que a discussão entre direito natural e o poder do Estado se esvaziam quando estão calcados em bases democráticas pois já estará de acordo com a religião, a moral e os costumes da sociedade e será um direito instituído pelo povo para um determinado Estado. Se a sociedade for organizada nessas bases, cria-se um contexto no qual os conflitos são expressos e negociados de forma que as leis divinas persistam e se aperfeiçoem na forma de leis escritas. Em outras palavras, a sociedade será essencialmente democrática quando as leis divinas fornecerem a base para as leis escritas e que essas sejam observadas e efetivamente respeitadas.

Maria Fernanda Ponzio afirma que a tragédia traz à tona relações complexas que envolvem os cidadãos e evidenciam a importância da participação política consciente e de reflexões sérias sobre as questões éticas para que se organize uma sociedade preocupada com problemas coletivos e não de pequenos grupos. Há, nessa perspectiva, a existência de uma política racional e um Estado democrático que garanta espaços para a liberdade, igualdade e não-violência. Entretanto, ao pensarmos nos quadros que compõem a realidade brasileira, nos deparamos com governos autoritários, ditatoriais e manipuladores que não garantem aos seus cidadãos os elementos básicos que lhes permitam acreditar em sua condição de cidadania. Com a promulgação da Constituição de 1988 retomamos legalmente a odisséia pela construção democrática que dura mais de cinco séculos. Ao longo da história se multiplicam as insatisfações em relação às políticas socioeconômicas desastrosas escritas na história de um povo que tem na resistência a única maneira de recuperar sua memória censurada e mutilada.

Segundo Matteucci, o autoritarismo pode qualificar as estruturas de um sistema político como também as concepções psicológicas acerca do poder ou as ideologias políticas. No primeiro caso, privilegia-se a autoridade governamental em detrimento do consenso. O poder é exercido por uma pessoa ou um órgão e qualquer outra forma de participação política, instituição coletiva e principalmente de oposição é combativa, neutralizada ou aniquilada.

No aspecto psicológico, considera-se uma personalidade autoritária, que apresenta traços característicos de obediência inquestionável em relação aos superiores ou a disposição em tratar com arrogância e desprezo os que são hierarquicamente inferiores. Já as ideologias autoritárias, procuram validar o poder com base na crença de uma suposta superioridade, negando qualquer principio ou discurso de igualdade. O exercício do poder justifica-se pela virtuosidade exaltada do líder. Nesse sentido, a obediência incondicional e os princípios de hierarquia e desigualdade entre os homens caracterizam o autoritarismo.

Os familiares de Arno Preis conseguiram somente em 1993 localizar os restos mortais, com o apoio da Comissão Externa da Câmara Federal, presidida pelo então deputado Nilmário Miranda. O corpo foi exumado e as ossadas identificadas no IML de Brasília. Após homenagens por ocasião do traslado na Câmara Federal, na USP, em São Paulo e na Assembléia Legislativa de Florianópolis, os parentes conseguiram assegurar um direito primordial ao ser humano: o de enterrar seus mortos. Após 22 anos de incertezas, Arno foi oficialmente sepultado em Forquilhinha, (SC) sua cidade natal. A mãe de Arno morreu com 94 anos e durante muito tempo esperou o filho voltar para casa em segurança.

A família ficou marcada para toda vida, afirma João Preis. A luta do irmão foi incansável na busca pelo corpo de Arno. Mas a procura era dificultada pela repressão da época e pela semelhança física dos irmãos. As fotos de Arno remetiam à figura do terrorista, inimigo do estado. Os militantes eram considerados subversivos, baderneiros, terroristas e comunistas: indivíduos de alta periculosidade. Enquanto para o Estado, a tortura, as prisões, os assassinatos eram práticas indispensáveis para garantir a ordem e fortalecer o regime, brasileiros fortaleciam a resistência transformando a luta contra a ditadura em ideal de vida. São fragmentos da história pessoal e familiar de homens e mulheres que tiveram suas vidas confundidas, muitas vezes de forma dolorosa, com a realidade política do país. João Preis não considera a tarefa terminada. Ele ainda sustenta a luta pelo resgate histórico da militância do irmão e pretende esclarecer as circunstâncias reais de sua morte.

O estudo dessas personagens é uma via aberta para abordar dramas de pessoas que foram marcados por conflitos semelhantes: compartilha-se da mesma dor por parentes que desapareceram por uma causa política ou corpos aos quais se negou o direito de sepultura digna. Pessoas alheias às lutas políticas não se deixaram calar e questionam a rigidez do Estado gritando por um direito que lhes foi negado. Trata-se de um texto que não envelhece porque os tiranos e os ditadores vêm e vão, eles estão aí. Porém sempre haverá aqueles que resistirão: Antígona e seus herdeiros.


1. Édipo, desconhecendo sua origem, matou Laio, seu pai e casou-se com a própria mãe Jocasta, com quem teve quatro filhos. Inconformado com o destino, Édipo cegou-se e Jocasta enforcou-se. Édipo deixou Tebas, partindo para um exílio na cidade de Colona, acompanhado pela filha Antígona.

2. João Preis é empresário em Maringá onde reside atualmente. Disputou o cargo de prefeito em 1988 e foi deputado pelo Paraná

3. Dinastia que fundou e reinou sobre a cidade de Tebas.

4. Félix Maier é militar da reserva e ensaísta. Escreve para Usina de Letras, Usina das Palavras, Ternuma, Digestivo Cultural e é também articulista de Mídia Sem Máscara. Sobrinho de Arno e João Preis, filho de Marina Preis e Hilário Maier, conviveu com Arno a maior parte da sua infância em SC. Relato integrante do Artigo “Tio Arno Preis”.

5. Podemos citar como exemplo a Declaração Universal dos Direitos Humanos, documento básico das Nações Unidas assinado em 1948.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


Dossiê dos mortos e desaparecidos políticos a partir de 1964. / Comissão responsável Maria do Amparo Almeida Araújo...et al., prefácio de Dom Paulo Evaristo Arns, Apresentação de Miguel Arraes de Alencar. Recife: CEPE, 1995.

JOSÉ, Emiliano. Carlos Marighella: o inimigo número um dia da ditadura militar. São Paulo: Sol Chuva, 1997.

MAIER, Félix. Tio Arno Preis. 11/07/2007. Usina de Letras: acesso em 12 de novembro 2007

MATTEUCCI, Nicola. “Autoritarismo” In BOBBIO, N., MATTEUCCI, N., PASQUINO, G. (orgs.) Dicionário de Política. Brasília, UnB, 1986.

MIRANDA, Nilmário. TIBÚRCIO, Carlos. Dos filhos deste solo: mortos e Desaparecidos políticos durante a ditadura miliatr: a responsabilidade do Estado. São Paulo: Boitempo: Perseu Abramo, 1999.

PONZIO. Maria Fernanda de Aragão. No Olvidaremos, Ni Perdonaremos: Um diálogo entre Antígona e as mães da Plaza de Mayo XI Encontro Regional da ABRALIC 2007. USP - São Paulo. Disponível em acesso em: 05 de setembro 2008

REIS, Daniel Aarão. O Golpe e a Ditadura Militar. EDUSC, 2004

SÓFOCLES, Antígona. L&PM, 2001

TELES, Janaína. Mortos e Desaparecidos Políticos: reparação ou impunidade? (org) 2ed. São Paulo, Humanitas, USP, 2001.



Fonte: https://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.php?cod=66217&cat=Ensaios&vinda=S

Obs.: O texto da Professora Elaine Pavani me foi enviado por e-mail pela minha prima Teresinha Preis, também Professora da Universidade Estadual de Maringá (F. Maier).



18/10/2008 - Tio Arno Preis: Carta a meus leitores


Por Félix Maier           

Cara prima Teresinha, 
Inicialmente, parabéns a você e a todos os professores do Brasil pelo seu dia, o Dia do Professor! Obrigado pelo texto enviado sobre Tio Arno. Gostaria de fazer alguns comentários. Como diria o esquartejador, vamos por partes:
O ensaio da professora de História da Universidade Estadual de Maringá, Elaine Pavani, é um tanto pesado, com 50% de introdução sobre a história relacionada a Antígona, de Sófocles, até, enfim, engrenar no tema em questão, que foi a morte de tio Arno. O paper de Pavani, além de ter uma pomposidade despropositada (talvez inspirado no texto de Maria Fernanda de Aragão Ponzio - Cfr. "Referências bibliográficas"), apresenta pelo menos dois erros lamentáveis:

1) Não existe relação da morte de tio Arno com o relato de Antígona, porque Arno não ficou insepulto, com o corpo jogado aos abutres. Ele foi enterrado em local certo e sabido, como foi publicado pelos jornais, tanto de São Paulo, quanto do Rio de Janeiro.

2) Arno Preis não foi enterrado com nome falso, dando a entender que a ditadura fez isso de propósito, para dificultar a localização de seu corpo. Arno foi enterrado com o nome do documento que portava na ocasião, Patrick McBundy Comick, nome que foi falsificado por ele mesmo, para melhor executar seus atos terroristas e não ser pego pelas autoridades. Seu verdadeiro nome foi logo elucidado pelas autoridades, tanto isso é verdade que em seguida todo mundo já sabia de quem se tratava, como noticiaram os jornais.

A pergunta que fica é a seguinte: por que os familiares diretos de tio Arno não foram atrás do corpo logo após sua morte? Por que somente em 1993 seu corpo foi exumado e seus restos mortais levados para sua terra natal, Forquilhinha, SC? Medo das autoridades? Desinteresse? Para mim, isto ainda não foi esclarecido.

A Profª. Pavani achou estranho que militares envolvidos na morte de tio Arno tivessem sido promovidos, inclusive post mortem - caso do Sd Luzimar Machado de Oliveira, morto por tio Arno. Ora, isso é uma prática comum nas corporações militares, é previsto em lei e não há nada a estranhar. O que se deve repudiar é a promoção post mortem de Luiz Carlos Prestes e Carlos Lamarca a coronel, feitos recentemente, com provimentos de general-de-brigada para seus descendentes. Isto foi um ato ilegal, como são muitos os atos do governo dos petralhas. Ambos os militares, Prestes e Lamarca, desertaram do Exército, portanto, abandonaram a Força por sua própria vontade. Nunca houve nenhum tipo de perseguição para que deixassem a caserna para se bandear, um, a soldo de Moscou, outro, a soldo de Cuba. Se eles não fizeram a EsAO, como poderiam ter sido promovidos a oficial superior?

Quanto à abordagem do tema geral em si - "militantes políticos" x Forças Armadas - não se sabe onde termina a alienação da Profª. Pavani e onde começa o embuste. Qualquer idiota que tenha pelo menos dois neurônios sabe muito bem que o grupo terrorista ao qual pertenceu Arno Preis, comandando por Carlos Marighela, era um dos mais radicais e sanguinários que existiram no Brasil. Eles combateram, sim, a ditadura militar, de armas nas mãos, mas não para que a democracia retornasse. O que eles queriam era instalar no Brasil uma ditadura sanguinária, muito pior que a dos militares, que é a ditadura comunista de Cuba, que ocasionou mais de 130 mil mortos, entre os fuzilados e os que foram comidos pelos tubarões do Caribe, quando tentaram fugir do paraíso cubano cantado em verso e prosa por Frei Betto et caterva.

Nada Pavani diz sobre os atos praticados por tio Arno e seu grupo, como o assalto ao trem-pagador Santos-Jundiaí, em 1968, nem dos assaltos a bancos, supermercados e casas d`armas. Nada é dito dos inocentes covardemente executados pela gangue de Marighela, autor de O Minimanual do Guerrilheiro Urbano, que foi a bíblia de muitos grupos terroristas também no exterior, como as Brigadas Vermelhas, da Itália, e o Baader-Meinhof, da Alemanha. Como se vê, vivemos negros tempos do embuste, onde a verdade não tem vez, porque "é um conceito pequeno-burguês", como já dizia Lênin.

No Brasil de hoje, fazer uma análise objetiva de qualquer fato político é sempre uma temeridade, principalmente se for a respeito do "regime militar" pós-64. Ou você comunga com as mentiras sistemáticas das esquerdas, ou você é taxado de nazifascista. Não existe lógica, nem espaço para a argumentação. Só embuste. Já fui criticado por parentes por apenas dizer a verdade como ela é: os terroristas de esquerda das décadas de 1960 e 70 - aí incluído tio Arno - não eram os anjinhos que a Profª. Pavani apresenta idilicamente. Eram assassinos frios de uma ideologia que no século XX matou 110.000.000 de pessoas em todo o mundo, segundo O Livro Negro do Comunismo.

Não se pode negar a coragem de tio Arno em empunhar uma arma para "derrubar a ditadura". Ótimo tenor, que encantava seus amigos, ele sempre foi um sujeito muito valente, mas era temerário, pois não tinha medo de nada. Olavo de Carvalho me escreveu certa vez que tio Arno, em seus tempos de estudante, em São Paulo, chegou a enfrentar no tapa um militar armado. E não foi por problema político, mas por causa de um rabo de saia... Se tio Arno quisesse colocar no lugar da ditadura militar brasileira um governo do tipo dos sociais-democratas da Europa, como a Alemanha, ele teria todo meu respeito e apoio. Mas, ao empunhar a bandeira vermelha dos comunistas, ele se perdeu totalmente, e a História já provou que aquela ideologia não tinha como se sustentar, com o colapso da URSS. Hoje, nem a China quer ser comunista. Eles estão atrás de dinheiro, ou seja, do velho capitalismo. Só por aqui, nestas republiquetas bananeiras da América Latina é que tipos como Fidel, Lula, Chávez, Evo Cocales e Corrêa ainda fazem sucesso.

Não há como apoiar a atitude de tio Arno, de querer escravizar uma nação inteira sob o império da Peste Vermelha. Que você me diz sobre os números da ditadura cubana, país onde tio Arno foi fazer seu curso de graduação terrorista?

Abraços,

Félix



Jornal O Estado do Paraná, 22/03/1972
Noticia a morte de Arno Preis e os
assaltos que praticou



Tio Arno Preis


por Félix Maier (*)

("Anotações" inicialmente publicadas no site Usina de Letras - Ensaios-->Tio Arno Preis -- 05/06/2003 - 17:46 (Félix Maier) )

Meu tio Arno Preis morreu no dia 15 de fevereiro de 1972, em um confronto com a polícia de Goiás. Militante do Movimento de Libertação Popular (Molipo) (1) – o mesmo grupo terrorista ao qual também pertencera José Dirceu, atual Ministro-Chefe da Casa Civil da Presidência –, Arno foi um dos tantos jovens brasileiros que se deixaram seduzir pelo hipnótico canto da sereia comunista, que desgraçou a vida de centenas de jovens idealistas brasileiros nas décadas de 1960 e 70.

Mas, como isso foi acontecer com Tio Arno?

Arno era filho de Edmundo Preis e Paulina Back Preis, e tinha doze irmãos: Adelina (a primogênita, 80 anos completados no dia 14 Out 2002), Josefina, Marcos, Elza, Marina (minha mãe), Ana, Bruno, João, Tecla, Matilde, Helga e Renato. Arno foi o 8º filho, nasceu depois de Tio Bruno. Todos meus 13 tios maternos nasceram em Forquilhinha, antigo Distrito de Criciúma, SC. Além de Arno, que morreu com 33 anos de idade, já faleceram também meus tios Tecla (com 2 meses de idade), Bruno, Renato e Marcos (este último, em 2002).

Em 1946, a família Preis deslocou-se de Forquilhinha para a colônia da Linha Nogueira, então Distrito de Luzerna, Município de Joaçaba, SC. (Atualmente, Luzerna está emancipada, sendo um dos mais novos municípios do Estado.) A mudança foi penosa, dois dias de viagem em um velho caminhão, que passou por Vacaria, RS, com direito a pernoite, depois seguiu por Lages, Curitibanos, Campos Novos, até o destino final. Na época, minha mãe tinha 17 anos; Tio Arno, 12.

Na roça, o trabalho dos Preis era duro, seja atrás do arado, seja capinando o inço nas plantações, seja lidando com o gado ou com a criação de abelhas. Do serviço pesado não escapava ninguém, sequer os mais novos, que recebiam de presente uma enxada antes da cartilha escolar.

Em 1948, minha mãe casa-se com Hilário Maier, filho de José Maier e Escolástica Freiberger Maier, vizinho de frente, no outro lado do vale da Linha Nogueira. Meu pai Hilário comprou um terreno de 8 alqueires, 2 vizinhos abaixo do terreno de meu avô paterno, onde nascemos eu (o primogênito) e meus 5 irmãos: Sílvia, Fernando, Válter, Ivone e Günther. Eu nasci em 1950 e, em 1957 – ano em que nasceu o irmão caçula –, quando comecei a estudar no Grupo Escolar Padre Nóbrega, em Luzerna, meu pai mudou-se com toda a família para o Município de Herval d’Oeste, na colônia da Linha Pinheirinho. Nesse local, meu pai veio a falecer no dia 4 de dezembro de 2001.

Nos tempos em que morávamos na Linha Nogueira, lembro-me das muitas vezes em que Tio Arno visitava nossa casa. Incansável, irrequieto, dinâmico, audaz, não ficava um minuto sossegado. Ajudava nas lidas das roça e no cuidado com a criação, especialmente durante a época em que minha mãe estava de resguardo. Na verdade, praticamente não havia quarentena para minha mãe, como ocorria com a quase totalidade das mulheres daquela época. O duro e duplo serviço da roça e dos afazeres de casa não permitiam esse luxo.

Quando Tio Arno completou o antigo primário (4ª Série), entrou no Seminário Franciscano de Luzerna, para fazer o Admissão ao Ginásio. (Eu, em 1961, com 11 anos, segui seus passos, até os 19.) Completado o Admissão, Tio Arno seguiu para o Seminário de Rio Negro, PR, onde cursou os dois primeiros anos do Ginásio. Posteriormente, em Agudos, SP, completou o Ginásio e o Científico, abandonando, a seguir, o caminho do sacerdócio para cursar a Faculdade de Direito no Largo de São Francisco, na Capital de São Paulo, onde se formou bacharel, obtendo o primeiro lugar em sua turma.

Mesmo nos anos em que estudava no seminário, Tio Arno nunca esquecia de nos visitar, tendo sempre a mesma disposição física para com o uso da enxada no combate contra as guanxumas e os milhãs que sempre proliferaram como praga na roça de meu pai.

- Adam und Eva! Foi assim que falou Tio Arno a minha mãe, em alemão, quando nos pegou, eu e minha irmã Sílvia, ainda bem pequeninos, tomando banho, nus, debaixo de um chuveiro improvisado, junto à janela em que minha mãe lavava a louça da cozinha.

Certo dia, época em que eu deveria ter uns 5 ou 6 anos de idade, eu estava em frente de nossa casa na Nogueira, quando ouvi um estrondo. A seguir, vejo nosso gato correndo em disparada em direção às capoeiras. Logo em seguida, atrás do bicho, meu Tio Arno corria com uma espingarda, certamente para tentar uma mira mais certeira. Por que Tio Arno havia feito aquilo?

Noutra ocasião, já na casa da Linha Pinheirinho, Tio Arno acompanhava eu e meus irmãos numa pescaria no riacho que corre perto, em frente da residência. À certa altura, Tio Arno pega meu irmão Válter pelo pescoço e afunda sua cabeça na água, onde mantém durante certo tempo. Meu irmão Válter, então com uns 8 anos de idade, lívido de medo, pede que meu Tio não faça isso de novo, pois, dizia, “sofro do coração!” Tio Arno achou engraçada a tirada de meu irmão, soltando uma larga gargalhada... Lembrei-me do caso da perseguição do gato e achei que meu Tio Arno tinha uma boa dose de sadismo e violência incontida para agir daquela forma. Por que havia assustado meu irmão com uma brincadeira sem graça, de extremo mau gosto? Seriam esses dois fatos, o do gato e do meu irmão, indícios do que iria ocorrer com Tio Arno mais tarde, quando se bandeou para a organização de Carlos Marighela?

Decisão era o que não faltava para meu Tio Arno. Certa vez, como havia alguns problemas com um vizinho, na Nogueira, o qual era um tanto encrenqueiro com todo mundo, Tio Arno e um de seus irmãos pegaram o arado do vizinho e o amarraram no alto de uma árvore...

Em 1960, quando Tio Arno cursava a Faculdade de Direito, ele me mandou de presente um cavaquinho, e para minha irmã Sílvia, um vestido. Minha irmã teve mais sorte, recebeu o presente, o meu até hoje ainda não chegou... É uma pena, pois, quem sabe, quão grande cavaquinista o Brasil não tenha perdido? Mas há um grande consolo para todos os brasileiros: escaparam de conhecer mais um pagodeiro na TV... Minha irmã e eu éramos os xodós de Tio Arno, o que acarretava algum ciúme por parte de muitos primos nossos. O mesmo ciúme da parentada apareceu também quando fui morar com meu padrinho e avô paterno, em Luzerna, no primeiro ano em que comecei a estudar, em 1957. A vantagem em morar com meu avô era que eu não precisava caminhar diariamente uns 6 km para ir à escola, e outro tanto para a volta, comendo poeira durante a seca, amassando barro com os pés durante as chuvas. Para evitar cobranças, já que outros primos meus moravam também na roça, meu avô não teve outra alternativa senão me mandar de volta para casa no segundo ano primário, então já na Pinheirinho.

Em 1964, quando eu cursava o 2º ano do Ginásio, no seminário de Rio Negro, ocorreu a Contra-revolução, que depôs o demagógico e fracassado governo de Jango; Castelo Branco, um dos maiores estadistas que o Brasil já teve, começou a dar novamente um rumo a nosso País. Um padre-professor nos colocou a par da situação revolucionária e o que mais me chamou a atenção durante a preleção foi saber que o Grupo dos Onze (2), de Leonel Brizola, pretendia assassinar lideranças civis, militares e eclesiásticas que não estavam afinadas com sua ideologia incendiária.

Quase no final da década de 1960, quando eu já estudava o Científico no seminário de Agudos, SP, próximo a Bauru, eu vim a saber, através de meus pais, que Tio Arno, já bacharel em Direito, tinha se tornado um terrorista. Jornais e TVs da época relatavam seus feitos junto à ALN (3) de Carlos Marighela, participando de assaltos a bancos e carros-fortes, na cidade de São Paulo, ocasionando a morte de muitas pessoas, às vezes assassinadas friamente, sem motivo nenhum senão o de causar terror entre a população. Foi um golpe muito duro para toda nossa família

Em 1970, quando eu servia no Exército, em Apucarana, minha avó materna, em Maringá, me mostrou um cartão que Tio Arno havia enviado de Roma. Não me lembro se meus avós maternos sabiam o que Tio Arno andava aprontando, mas foi uma alegria incrível para eles quando tiveram finalmente notícias do filho. Todos os outros parentes sabiam que Tio Arno havia feito curso de guerrilha em Cuba, que era um dos principais auxiliares de Marighela e que praticava assaltos em São Paulo para arrecadar fundos para seu grupo terrorista. Por isso, vivíamos sobressaltados, todo o dia esperando que fosse ocorrer o pior.

E, infelizmente, esse dia chegou. Após eu fazer o curso de sargento do Exército no Rio de Janeiro, em 1971, fui designado para servir, como fotógrafo, no Campo de Provas da Marambaia. Certo dia, lá pelo final de fevereiro de 1972, lendo distraidamente um jornal carioca, deparo com a notícia da morte de Tio Arno, ocorrida no dia 15 daquele mês, na cidade de Paraíso do Norte, GO (hoje, Estado de Tocantins). Segundo a reportagem do jornal, Tio Arno havia chegado num baile carnavalesco, aproximara-se do bar e pedira uma bebida. Num movimento de braços, ajeitando a camisa, deixou a descoberto a arma que portava na cintura. Visto por populares, avisaram a polícia, que o convidou a comparecer na Delegacia Policial. Pressentindo o perigo de ser descoberto, tentou fugir, abrindo fogo contra policiais, matando o soldado da PM/GO, Luzimar Machado de Oliveira, e ferindo gravemente outro militar, Gentil Ferreira Mano. Fugindo até uma mata próxima, Tio Arno foi caçado pela polícia e por outras pessoas que também se encontravam armadas. Morto com mais de uma dezena de tiros no corpo, constatou-se que Tio Arno portava documentos falsos, com o nome de Patrick McBundy Comick. Foi fácil para os órgãos de Inteligência da época descobrir o verdadeiro nome de meu Tio – como relatado na reportagem citada. Tio Arno, que nessa época pertencia ao MOLIPO, foi enterrado na mesma localidade em que faleceu, em Paraíso do Norte.

Minha primeira providência foi escrever para Tio João, em Maringá, PR, relatando a morte de Tio Arno, ao mesmo tempo em que perguntava se meus avós maternos já sabiam do ocorrido. A carta foi mandada com certa apreensão, pois naquela época, com atentados terroristas ocorrendo a todo momento, eu, de certa forma, também me expunha, pois sabia que, durante o governo revolucionário, muitas cartas eram abertas pelos órgãos de Segurança. Assim, se minha carta fosse interceptada pelos órgãos de repressão, muita dor de cabeça eu poderia ter até explicar que focinho de porco não é tomada.

Tio João, porém, já havia sido informado da tragédia familiar e junto dos demais parentes foi combinado que nada seria dito aos avós. De fato, a trágica morte de Tio Arno foi escondida da “oma” (avó) e do “opa” (avô) Preis durante muitos anos, até que um dia alguém da família deu com a língua nos dentes, quando os avós faziam uma visita a Forquilhinha, SC.

Graças a Deus, essa situação de eu ser sobrinho de um terrorista nunca me prejudicou durante os 32 anos em que servi o Exército, de onde saí em fevereiro de 2002, no posto de capitão. Nunca notei ninguém me vigiando de perto, nem mesmo quando ia ao Museu de Arte Moderna e na Associação Brasileira de Imprensa (ABI) para assistir a clássicos do cinema, como Encouraçado Potenkin, Ivã o Terrível, Ano Passado em Marienbad e outros. Às vezes, na saída da ABI, eu recebia alguns panfletos de militantes de esquerda, porém nunca tive problemas com a polícia. Aliás, a liberdade nos anos 70 era muito maior do que apregoa hoje a fanatizada esquerda. A partir do Governo Geisel, os jornais já publicavam o que queriam (eu só lia o JB, jornal de oposição), assistia-se a quaisquer filmes (com exceção de Je vous salue, Marie; Garganta Profunda; e Último Tango em Paris), nas universidades nunca se estudou tanto Marx como naqueles tempos. Em um cursinho que freqüentei, em 1976, o professor, ao se referir ao AI-5, dava um gritinho um tanto “aviadado”, jogando a bunda de banda, dizendo, “Ai, cinco!”... Onde, pois, estava a repressão tão alardeada pelos comunas? Onde a perseguição à população trabalhadora? Durante o governo Médici ocorreu o pico dos atos terroristas, com atentados cada vez mais violentos. O que os comunas terroristas queriam? Que Médici os recebesse com bombons e flores?

A reação foi dura, à altura do que aquele momento exigia, e, graças ao patriotismo e à abnegação dos integrantes dos órgãos de repressão, hoje demonizados pelos zés dirceus da vida, o Governo conseguiu, enfim, trazer de volta a paz à Nação brasileira. Houvesse o Governo fraquejado, houvesse o Governo dado ouvido aos sociólogos de araque, que hoje pipocam nas ONGs cariocas e paulistas, provavelmente ainda estaríamos enfrentando uma guerra civil continental. FHC, ao passar o Governo a Lula-laite, com certeza estaria também passando uma nova “agenda de conversações” com a Guerrilha do Araguaia, um novo encontro para discutir a paz com “el comandante” José “Tirofijo” Genoíno...

Em 1986, quando eu viajei a trabalho para Belo Horizonte, aproveitei para visitar Tio Bruno em Contagem. Lá comentei sobre uma reportagem que havia saído no Jornal do Brasil, em que Tio Bruno acusava o Cardeal de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, de ser um dos que contribuíram para que Tio Arno entrasse na clandestinidade e, em conseqüência, fosse ao encontro da morte. O Cardeal havia ameaçado processar Tio Bruno, porém ficou apenas na ameaça. Posteriormente, remeti a Tio Bruno o jornal com a dita reportagem.

O Cardeal Arns, que é primo em segundo grau de minha avó Paulina Preis Back, sempre teve ódio dos militares que impediram que nosso País fosse tomado pelos comunas. Não consta que Dom Arns tenha rezado alguma missa pela alma do soldado Mário Kozel Filho, que foi explodido pela gangue terrorista da VPR (4) de Carlos Lamarca, em 1968, no QG do antigo II Exército, em São Paulo, quando tirava serviço de sentinela. Porém, nestes últimos anos, sempre no dia de Finados, o rancoroso bispo vermelho reza missa pelas ossadas de Perus, as quais, segundo espalha a esquerda, pertenceriam a “desaparecidos políticos”.

O site da ONG Tortura Nunca Mais (www.torturanuncamais.org.br) publica a relação de terroristas, mortos ou não, que infernizaram o Brasil nas décadas de 1960 e 70. Todos eles são tratados como heróis. Nas biografias desses militantes do terror, só aparecem boas ações, como se todos esses filhotes de Fidel Castro e Mao Tsé-Tung fossem inocentes anjinhos massacrados pelos órgãos de Segurança.

A Tortura, criada e mantida por militantes comunistas, com apoio pecuniário do Governo Federal (outra safadeza!), também traz um breve histórico sobre Tio Arno. Segundo depoimento de Tio João, Tio Arno “estudou no Seminário dos padres Franciscanos em Santa Catarina e, em São Paulo, formou-se em Direito pela USP. Brilhante, inteligente, entusiasta, queria ser Diplomata. Falava 12 idiomas. Mas os tempos eram duros. A pátria vivia sob um regime ditatorial militar e Arno, como centenas de jovens, decidiu que primeiro era necessário derrubar a ditadura para depois realizar seus sonhos”.

No mesmo site de Tortura lemos um depoimento de Derlei de Lucca, “professora e companheira de militância política” de Tio Arno, que escreveu no Jornal da Manhã, de 03 de maio de 1994: “Carta Aberta ao Arno Preis. Criciúma, 29 de abril de 1994. Arno, Você não ia acreditar mas Nelson Mandella é o favorito nas eleições presidenciais da África do Sul. Acusado de terrorista, subversivo, como tu, cumpriu 29 anos de cadeia. Isak Shamir acusado de subversivo e terrorista pelos ingleses é Primeiro Ministro em Israel. Yasser Arafat o líder da OLP acusado de terrorista e subversivo foi recebido pelo Presidente dos Estados Unidos, em dezembro do ano passado, e é recebido na ONU como chefe de Estado. Forquilhinha já é município e está orgulhosa de ti. Lurdes, Zilda, tia, sobrinhas e primas, estão mobilizando a cidade pra te levar flores. Existe um aparelhinho chamado FAX. Em questão de segundos a gente se comunica com o mundo, mandando documentos. Meu filho estuda automação na UFSC. Dulcinha, Amelinha, Suzana estão tristes com a confirmação da tua morte, mas firmes organizando as homenagens. O Ivo Sooma foi heróico. Realmente quem tem um amigo tem um tesouro. Ivo é o teu tesouro. Nilmário, Genoíno, Zé Dirceu são deputados federais, Brizola é governador do Rio. Tem um operário do ABC candidato a Presidente da República. Betinho renegou a luta armada, mas dirige uma campanha linda contra a fome e a miséria. Mobilizou o país todo. Tu fazes muita falta. Serias nosso Ministro das Relações Exteriores, brilhante, defendendo as posições do Brasil no mundo. Ia esquecendo: o Brasil reatou relações diplomáticas com Cuba. Eu já voltei lá algumas vezes com passaporte e tudo, legalmente. A gente não diz mais “turma”, diz “galera”. Fumar não é mais moda, é cafona, coisa de Boko Moko. Nada melhor do que um dia depois do outro. Seja feliz no céu protegendo a nossa terra. Aqui tu não serás esquecido”.

De Ivo Sooma, advogado e amigo de Arno Preis, lemos em Tortura o seguinte texto: “Foi ele morto no dia 15 de fevereiro de 1972, em confronto com policiais militares e civis da então Paraíso do Norte de Goiás, e enterrado no cemitério local, sem guia de sepultamento, nem lavratura de óbito. À época, policiais entregaram seu corpo ao coveiro, dizendo-lhe: ‘Enterra de qualquer jeito. Isto é um porco’. O coveiro, Milton Gomes, pensou consigo: ‘Isto não é um porco. Este é um homem. Alguém um dia virá procurar por ele’. Tomou então o cuidado de, junto ao local do sepultamento, erguer uma pequena pirâmide de concreto, sobre a qual fincou uma cruz de madeira, o que iria facilitar sua posterior localização, diferentemente do que ocorreu com muitos desaparecidos políticos. Uns dez dias depois, enorme aparato policial militar cercou o cemitério, que não tinha muros e levou um dos braços do corpo de Arno para identificação. O próprio governo reconheceu sua morte, segundo notícias publicadas nos jornais, em março de 1972, com a versão oficial de morto ao tentar fugir. Seu corpo e atestado de óbito não foram entregues à família até 1994. Foi enterrado com o nome de Patrick McBund Cornik. Identificado, em 22 de março de 1972, a imprensa noticiou sua morte como a de um líder terrorista. Pertencera ele à ALN, fundada sob a liderança de Carlos Marighella, estivera em Cuba e retornara integrando o MOLIPO. Quem era Arno Preis antes de entrar na guerrilha? Conheci-o em 1957, quando, sendo eu secundarista, ingressou ele na Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Chamou-me a atenção a maneira determinada com que perseguia seus objetivos. Pretendia ele prestar concurso no Itamaraty e seguir a carreira diplomática. Vocacionado para uma carreira de diálogos e negociações, acabou por empunhar armas e morrer em cidade do interior de Goiás. Tomados de indignação cívica, centenas de jovens dobraram as folhas de seus livros, uniram-se a pessoas de outras origens que também deixaram suas rotinas e foram enfrentar o sacrifício. Muitos, o martírio. Não fosse o fechamento de todos os canais de comunicação entre a Nação e o Estado, o Brasil não teria amargado a perda de muitos de seus mais dignos e generosos filhos. Arno Preis, como tantos outros, dobrou uma folha do livro da História e imolou-se no sertão de Goiás, passando a ser parte da própria História. Compete a nós, agora, retomar a sua leitura, a partir das novas páginas que foram escritas. Passados 22 anos, familiares e amigos localizaram o seu corpo com o apoio e o respaldo dado pela Comissão Externa da Câmara Federal, presidida pelo deputado Nilmário Miranda, que acompanhou a exumação e a identificação das ossadas e seu sepultamento oficial em 9 de abril de 1994 na cidade de Forquilhinha. Em 15 de outubro de 1993 seus restos mortais foram exumados do Cemitério de Tocantins e levados para o IML/Brasília. No traslado ele recebeu várias homenagens: na Câmara Federal em Brasília, em São Paulo, na Assembléia Legislativa de Florianópolis e em Criciúma, sua terra natal, onde teve um enterro digno”.

No site http://www.resgatehistorico.com.br/resistencia_03.htm, há trecho do livro 'Dos Filhos Deste Solo', de Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio, editora Boitempo:

“MOLIPO - Movimento de Libertação Popular

Assassinatos em série

O Movimento de Libertação Popular (Molipo) originou-se de uma dissidência da ALN, em 1971, composta inicialmente de militantes que foram fazer treinamento de guerrilha em Cuba. Integravam a maioria do denominado '3º Exército' da ALN ou 'Grupo dos 28', ou 'Grupo da Ilha', que depois ganhou a adesão de outros integrantes da organização em Cuba e no Brasil.

Onze militantes do Molipo, ou a ele ligados, foram mortos seqüencialmente e um desapareceu entre 4 de novembro de 1971 e 27 de fevereiro de 1972. Um outro, Boanerges de Souza Massa, também desapareceu, mas não se sabe exatamente quando; outros dois foram mortos em outubro de 1972; e ainda três desapareceram, sendo dois em maio de 1973 e um em 4 de novembro de 1974. Jane Vanini morreu no Chile, em 1975.

Dois documentos encontrados nos arquivos do Dops/SP ajudam a entender como o Molipo foi impiedosamente dizimado. São documentos que trazem informações de uma pessoa infiltrada desde Cuba. Eles revelam que os órgãos repressivos controlavam o Molipo desde a sua formação. Sabiam quem eram, quando retornariam ao país, conheciam o esquema do retorno, e para que parte do Brasil iriam. O informante também voltava ao país e prestava informações sobre as pessoas que aqui se vinculavam ao Molipo.

Os órgãos de segurança decidiram pela eliminação de todo o grupo que veio de Cuba, e praticamente alcançaram o seu intento. Poucos conseguiram escapar. O primeiro documento tem duas partes: uma elaborada pelo CIE, CIE-S/103 (Terroristas com curso em Cuba, situação em 21 de junho de 1972), dando conta das turmas de militantes - a seguir, com os nomes em ordem alfabética - que fizeram curso de guerrilha naquele país. A segunda parte, com timbre da Secretaria de Segurança de São Paulo, do Deops (Divisão de Ordem Social), Setor de Análise, Operações, Informações (SOI), tem por título 'Grupo dos 28', e pelas informações que traz deve ter sido elaborada entre 7 e 10 de novembro de 1971.

O outro documento é o Rio/GB, de 3 de abril de 1972, do Ministério do Exército, Informação nº. 674/72-II, assunto: 'Grupo da Ilha, origem CIE (informante)'.

Eis os trechos mais elucidativos dos dois documentos, no que diz respeito ao Molipo:

Neste Grupo dos 28, dentre os elementos da ALN começou a idéia de dissidência informal com Ruy Carlos Vieira Berbert e Boanerges de Souza Massa, depois ampliada por Carlos Eduardo Pires Fleury e Jeová Assis Gomes. Desta dissidência, com o grupo que já retornou ao Brasil, constituiu-se o que hoje se conhece como o 'Grupo da Ilha', todos oriundos da ALN, mas já dissidentes desde a partida de Cuba.

Os primeiros a chegar a São Paulo conseguiram contato com a ALN, mas não fizeram a fusão, continuando dissidentes. Conseguiram aliciar para o 'Grupo' Hiroaki Torigoe.

Dividiram-se, inicialmente, em dois grupos, sendo um encarregado da obtenção de fundos, ficando em São Paulo, onde realizavam várias ações de expropriação (Aylton Adalberto Mortatti, Flávio Carvalho Molina, Francisco José de Oliveira, João Carlos Cavalcanti Reis, José Roberto Arantes, Márcio Beck Machado, Maria Augusta Tomaz, Natanael de Moura Girardi) e o outro grupo internou-se no interior do Brasil, particularmente no noroeste de Minas Gerais, região centro-oeste da Bahia e norte de Goiás (Boanerges de Souza Massa, Arno Preis, Ruy Carlos Vieira Berbert, Otávio Angelo, Jane Vanini, Sérgio Capozzi, Carlos Eduardo Pires Fleury).”

Marco Frenetti assim escreve na Revista dos Bancários (http://www.spbancarios.com.br/rb69/rb1.htm):

“Outro ponto considerado crucial para o esclarecimento de casos de assassinato e localização dos restos mortais das vítimas é a abertura dos arquivos das forças armadas, da Polícia Federal e do antigo SNI. Sempre que a sociedade civil teve acesso a parte desses documentos houve esclarecimentos, a exemplo de 1992, quando o governador Roberto Requião, do Paraná, abriu o Arquivo do Dops, a partir do qual a Comissão Nacional de Familiares, juntamente com o deputado Nilmário Miranda (PT-MG), encontrou o corpo do militante político Arno Preis, em Tocantins, em outubro de 1993. Segundo informações do advogado e amigo de Arno, Ivo Sooma, ele foi morto no dia 15 de fevereiro de 1972 em “confronto com policiais militares e civis da então Paraíso do Norte de Goiás”. Enterrado no cemitério local sem guia de sepultamento, os policiais teriam entregado o corpo ao coveiro com a seguinte recomendação: ‘Enterra de qualquer jeito. Isto é um porco’.”

Em http://premioclaudia.abril.com.br/ingles/1996/greco.html, lemos o trabalho da “militante de direitos humanos” Helena Greco junto ao Governo de Minas, do qual extraímos o trecho abaixo:

“Debates were also organized by the coordination office to clarify the Aids issue and, over the last two years, important national campaigns were developed:
• against accepting former torturor Roberto Blanco dos Santos as a police officer in Rio de Janeiro in 1994;
• for the dismissal of former torturor Ricardo Agnese Faiad from the 2nd Subdirection of Health of the Army, and for the annulment of his promotion to Brigadier General in 1994;
• for the criminal accusation of Reserve General Adyr Fiúza, former chief of the Army Intelligence Department, due to his declarations in favor of torture;
• against concession of the title of Honorary Citizen of Rio de Janeiro to the Fire Department Colonel José Halfed Filho, an agent for the oppression of the military regime; in 1994;
• for the recognition of the assassination of: Hamilton Fernando Cunha, Arno Preis, Carlos Marighella and Carlos Lamarca, by Gover-nment officials during the military regime.”

No site www.personnas.jor.br/comitecatarinense/comite6.html, do Comitê Catarinense de Direitos Humanos, coordenado pela “militante política” da antiga Ação Popular (AP), Derlei Catarina de Lucca, lê-se:

“Memória de Arno Preis (I)

Os acadêmicos do curso de Ciências Jurídicas da Unesc escolheram, em dezembro passado, o nome do Núcleo de Prática Jurídica, que a partir deste ano será implantado pela Unesc para prestar atendimento gratuito à comunidade. Ele será chamado Arno Preis, levando o nome de um dos personagens catarinenses da resistência democrática durante o negro período do regime militar. Preis é natural de Forquilhinha e foi torturado e morto durante a ditatura. Seu nome teve concorrência com outros nomes de peso como o cardeal emérito de São Paulo e seu conterrâneo, Dom Paulo Evaristo Arns.

Memória de Arno Preis (II)

A homenagem a Preis agradou aos membros do Comitê Pró Memória dos Mortos e Desaparecidos Políticos de Santa Catarina e também despertou interesse em pessoas preocupadas com os direitos humanos. É o caso da advogada chilena Mirna Olmos, que presta assessoria jurídica ao Ministério de Justiça do Chile. Acompanhada da filha, Andréa, que é estudante de Direito, e da jornalista paulista Márcia Aquino (doutoranda pela USP), ela fez uma visita à Unesc para conhecer o projeto social de atendimento jurídico da instituição. E foi atendida pelo coordenador do curso de Ciências Jurídicas, professor Daniel Cerqueira, quando também obteve maiores detalhes sobre a escolha do nome escolhido para o núcleo.

In: 2/2000, Jornal da UNESC – Universidade do Extremo Sul Catarinense (www.unesc.rct-sc.br/unesc.htm).

Arno foi assassinado em Paraíso do Norte, atual Tocantins, pela repressão em 1972, sem qualquer direito de defesa. Era militante do MOLIPO”.

A escolha do nome de Arno, para o Núcleo de Prática Jurídica, ocorreu em dezembro de 1999. A morte de Tio Arno não ocorreu sob tortura, como fantasia o site coordenado pela Sra. De Lucca. As circunstâncias de sua morte já foram descritas acima. Convém acrescentar que a Comissão dos Desaparecidos Políticos, acertadamente, negou indenização aos familiares de Tio Arno (5 votos contra a indenização, 2 a favor – um deles de Nilmário Miranda), decisão que não teria ocorrido se o mesmo tivesse sido morto sob tortura. O motivo foi simples: “confronto com a polícia”. Não tortura seguida de morte, como quer a Sra. De Lucca.

É verdade que Tio Arno falava ou entendia umas 10 ou mais línguas. Só no seminário, no currículo comum, ele aprendeu Latim, Grego, Inglês e Francês – assim como eu também estudei esses idiomas mais tarde. No internato, deve ter aprendido também Alemão e Italiano em turmas extras, à noite, como era comum, ministrados por padres-professores alemães e italianos. Por conta própria, Tio Arno deve ter aprendido Russo, Japonês e Chinês – além do Espanhol, que aprendeu em Cuba durante o curso de guerrilha. Além de poliglota, Tio Arno também era músico, fazia parte da banda do seminário de Agudos, onde tocava clarineta. E tinha uma voz de tenor adorável, como atesta minha mãe, Marina. Em família, todos entoavam lindas canções folclóricas e sacras, inclusive alemãs, a quatro vozes!

Certa vez, ao passar pela antiga Rodoviária de São Paulo, então localizada no Centro da cidade, um livro me chamou a atenção. Era Midway, escrito por dois almirantes japoneses, que retrata a épica batalha do Pacífico, entre os EUA e o Japão, durante a II Guerra Mundial. A tradução da obra foi feita por Tio Arno, não sei se do original japonês ou de alguma outra versão. Comprei um exemplar para doar à minha mãe, que guarda a obra com orgulho até hoje.

No site http://www.an.com.br/2003/jul/04/0ger.htm lemos:

“Reportagem

‘Isso não é um porco e será enterrado como gente’

Arno Preis, filho do Sul do Estado, abandonou o seminário para entrar na luta armada, que acreditava ser o caminho para a revolução

Luis Fernando Assunção

Policiais chegaram ao coveiro Milton Gomes com um corpo embrulhado em uma lona de plástico preta. Gomes era o responsável pelos sepultamentos no cemitério da pequena Paraíso do Norte, interior de Goiás. ‘Enterra de qualquer jeito. Isto é um porco’, disseram os policiais ao coveiro, que retrucou: ‘isto não é um porco. É um homem. Alguém um dia virá procurar por ele’. O coveiro tomou então um cuidado: junto ao local da cova, ergueu uma pequena pirâmide de concreto, sobre a qual fincou uma cruz de madeira. Dez dias depois, um aparato policial cercou o cemitério, enquanto alguns policiais retiravam um braço do corpo enterrado. O ‘porco’ era o advogado Arno Preis, catarinense de Forquilhinha, integrante do Movimento de Libertação Popular (Molipo). Só foi enterrado como ‘gente’ em 15 de outubro de 1993, depois de seus restos mortais serem encontrados a partir da cruz de madeira idealizada pelo coveiro Gomes.

Arno Preis nasceu em Forquilhinha em 8 de julho de 1934. Filho de descendentes de alemães, teve uma educação rígida. Estudou durante boa parte da infância e adolescência em seminários católicos. Desistiu da batina meses antes da ordenação. Além de ter facilidade nos estudos, aprendia rapidamente a falar outros idiomas. Ainda na faculdade em São Paulo - para onde se transferiu depois de sair do seminário - dominava fluentemente as línguas inglesa, grega, italiana, espanhola, francesa, romena, alemã, russa, latina e até a japonesa. Traduziu três livros do japonês para o português: Kamikaze, Cruz Vermelha e Iwo Jima.

Arno era o oitavo filho de Edmundo e Paulina Preis e desde os sete anos estava no seminário, primeiro no Franciscano de Luzerna e depois no Seminário de Agudos, em São Paulo. Antes de ser ordenado, decidiu seguir outro caminho e matriculou-se no curso de direito da Universidade de São Paulo, na faculdade de São Francisco. Profundo conhecedor da cultura popular brasileira, Arno dominava a capacidade de dialogar para solucionar impasses. Seu sonho: prestar concurso para o Itamaraty e ser diplomata. Também dominava instrumentos musicais, em especial a flauta.

Foi em São Paulo que Arno conheceu os movimentos populares contrários ao regime militar pós-64. Inicialmente pertencente à Ação Libertadora Nacional (ALN), viajou até Cuba para treinamento em guerrilha e, voltando ao Brasil, integrou o Molipo. ‘Não fosse o fechamento de todos os canais de comunicação entre a nação e o Estado, o Brasil não teria amargado a perda de muitos de seus mais dignos e generosos filhos’, diz o amigo advogado Ivo Sooma, o primeiro a chegar até o local do sepultamento do corpo, no interior de Goiás.

A versão da morte de Arno ainda é contraditória. Oficialmente ele teria sido morto após troca de tiros com policiais em Paraíso do Norte. Depoimentos colhidos a partir da década de 80 pela Comissão Externa de Desaparecidos Políticos da Câmara dos Deputados comprovaram que os policiais teriam se precipitado ao ver Arno com uma pasta debaixo do braço. No momento do crime ele carregava uma maleta com dinheiro que seria utilizada para as operação do Molipo na região. A pasta de dinheiro foi encontrada vazia perto do local onde Arno foi morto. Até hoje a família luta pelo reconhecimento da culpabilidade do Estado e pelo direito à indenização a mortos políticos.

Família foi perseguida por abrigar ‘terrorista’

Forquilhinha - De tempos em tempos dona Elza Preis Backes visita o cemitério da cidade. Faz questão de manter limpa a capelinha da família, onde se encontra com destaque a foto do irmão Arno. Mas nem sempre foi assim. Por longos anos a família Preis foi discriminada na região. O pai Edmundo e a mãe Paulina se calaram. Recusaram-se a falar do filho com medo de perseguições e represálias dos policiais. Chegaram a ser intimidados por conta das visitas clandestinas de Arno aos familiares. ‘Eram tempos difíceis’, reconhece dona Elza.

Descendentes de alemães, Arno e os 12 irmãos tiveram uma educação rígida. O único divertimento eram as festas ao som de sanfona que o pai costumava organizar de tempos em tempos. Arno sempre se destacou. ‘Era muito inteligente e se movimentava muito. Não parava quieto’, relembra a irmã. A mãe morreu aos 94 anos e por muito tempo nutriu a esperança de ver o filho de volta para casa, são e salvo. Na época da morte de Arno, os jornais destacavam que ‘mais um terrorista’ morria nas mãos da polícia. ‘Foi muito doído tudo. Sabíamos que o Arno era decente’, diz ela. ‘Nossa família sofreu com isso. Quando algum militante sumia, havia certeza de que seria morto’, conta João Preis, 67 anos, irmão de Arno e ex-deputado estadual pelo Paraná.

‘Isso marcou nossa família para a vida inteira. Todos nós sofremos com tudo’, garante Preis. Forquilhinha ficou conhecida por ser a terra natal da família Arns, em especial o ex-cardeal dom Paulo Evaristo Arns. Ele foi um dos religiosos que mais deu guarida aos perseguidos políticos e isso a cidade nunca esqueceu. No começo dos anos 80, Arns organizou uma missa e um churrasco para os moradores locais. Na missa, muitas famílias compareceram, mas o churrasco pouca gente teve a coragem de prestigiar.
O irmão João e o amigo Ivo Sooma foram incansáveis na busca pelo corpo de Arno. Mas a procura era dificultada pela repressão da época. ‘Todas as vezes que ia para São Paulo, por causa da semelhança com meu irmão, tinha dificuldades. O rosto dele estava em cartazes de procurado por toda a parte. Ele foi caçado como um animal’, recorda. ‘Meu irmão estava certo. O que ele previa está acontecendo. As dificuldades por que passa o País são heranças daquele regime’, finaliza Preis. (LFA)”

No texto acima, de Luis Fernando Assunção, há muito palpite e muita chutometria. Tio Arno saiu do seminário para estudar Direito em São Paulo, não para “entrar na luta armada”, como fantasia Assunção. A família Preis nunca foi perseguida devido aos atos terroristas de Tio Arno. Nunca ouvi nenhum de meus familiares comentar algo a respeito. Quanto aos meus avós (pais de Arno), eles já haviam saído há muitos anos de Forquilhinha, primeiro para Luzerna, depois para Maringá – como já foi escrito acima. Portanto, policiais intimidando a “Oma” e o “Opa” em Forquilhinha, para obter alguma informação sobre Tio Arno, não passa de uma alucinação de Assunção. A não ser que os policiais estivessem atrás dos fantasmas de Oma e Opa Preis...

No site http://www.acle.com.br/derlei/cronica08.htm lê-se:

“Academia Criciumense de Letras (ACLE)
Crônicas
Derlei Catarina De Luca

Luta Perdida é a Abandonada
São de domínio público e conhecimento histórico, os assassinatos e desaparecimentos de centenas de brasileiros durante o período da Ditadura Militar (1964-1984).
É de domínio público também a luta dos familiares, companheiros e amigos em recuperar a memória e os corpos destes brasileiros.
Em 1995 foi criada no Congresso Nacional a Lei nº 9140/95 que criou a Comissão Especial para analisar os casos. Em dois anos de trabalho, esta Comissão analisou 497 processos e considerou que a grande maioria das mortes era realmente responsabilidade do Estado provocada por motivação política.
Dos processos analisados 33 foram indeferidos. Na sua grande maioria, mortes ocorridas na rua, como foi o caso do catarinense Arno Preis.
A próxima etapa dos trabalhos da Comissão Especial reveste-se de importância maior, pois trata-se da localização dos copos dos militantes assassinados e do esclarecimento das circunstâncias de seus desaparecimentos.
Consideramos importante este trabalho na luta pelo esclarecimento da verdade histórica, pois muitas versões oficiais da Ditadura como mortes em tiroteios, atropelamentos e mesmo suicídios foram demonstradas serem falsas.
Para atingir os objetivos, a Comissão deverá contar com o empenho do Governo Federal nas questões orçamentárias, técnico-científicas e, particularmente, na disposição política em abrir os arquivos das Forças Armadas, Polícia Federal e do antigo S. N. I. - Serviço Nacional de Investigação. Somente tais arquivos poderão fornecer as respostas sobre a localização dos restos mortais, que procuramos a mais de vinte anos.
Uma nação só se torna grande quando reconhece as suas feridas e trata de curá-las. Uma democracia madura não pode ter medo da verdade. Volta e meia abre-se uma fresta do porão e algum esqueleto aparece. Por que o Exército Brasileiro não pode abrir seus arquivos?
Os Estados Unidos, nação que o Exército Brasileiro tanto admira, abre seus arquivos depois de um prazo determinado. Em 1995, pediu desculpas públicas pela Guerra do Vietnã, reconhecendo o erro. Na Argentina os militares reconheceram os assassinos. A Alemanha, mesmo 53 anos após a Segunda Guerra Mundial, continua buscando a verdade sobre os desatinos de Hitler. A Suíça pediu desculpas públicas aos judeus e busca seus descendentes para devolver-lhes o dinheiro da Segunda Guerra. Até o Papa e Igreja Católica têm a grandeza de reconhecerem seus erros, retirando a excomunhão de Galileu e pedindo desculpas aos judeus. Na África do Sul, a Comissão de Reconciliação Nacional interrogou inclusive a esposa de Nelson Mandella, Winnie Mandella. Nos Estados Unidos o próprio Presidente é investigado.
Por que o Exército brasileiro não pode abrir seus arquivos?
Por que o Exército brasileiro não puniu os responsáveis pelas mortes?
Aqui no nosso país o Poder Executivo é investigado e punido. O Poder Legislativo é investigado e não tem medo de cortar a própria carne.
Por que só Exército brasileiro é intocável?
A única luta que se perde é a que se abandona! Por uma pátria da qual tenhamos orgulho!
Derlei Catarina De Luca
Revista Acadêmica I”

O Exército Brasileiro não é intocável, como afirma a Sra. De Luca. Um dia, com certeza, os arquivos sobre a repressão contra os comunistas serão abertos.

“Por que o Exército brasileiro não puniu os responsáveis pelas mortes?” – pergunta a Sra. De Luca. Ora, porque houve uma Lei da Anistia, que vale para os dois lados, não somente para os terroristas, embora, com o revanchismo constatado nos últimos anos, somente familiares de terroristas tenham sido regiamente recompensados com dinheiro público. E os familiares daqueles que tombaram combatendo o terrorismo, quando é que vão receber algum tipo de indenização?

Por questões óbvias, o site de Tortura não enumera nenhum ato terrorista que meu Tio praticou. O mesmo ocorre com a obra Brasil Nunca Mais (5), publicada por comunistas, com apoio da Arquidiocese de São Paulo, encabeçada pelo Cardeal Arns. Isso ocorre com todas as organizações de esquerda, que tentam tapar o sol com a peneira – e, incrível!, conseguem essa proeza com estrondoso sucesso. Os terroristas são apresentados como heróis, a exemplo de Lamarca e Marighela, enquanto que os integrantes dos órgãos de Segurança, que impediram a comunização do Brasil, são perseguidos até hoje pelos assassinos de ontem, em um ato de revanchismo que não tem fim nunca, como visto durante o Governo FHC, em que familiares de terroristas receberam vultosas quantias de dinheiro público. Em nosso País, com a mídia dominada pelos esquerdizóides de todos os matizes, com a desinformatzia (6) sendo difundida diuturnamente, a conta-gotas, dentro da estratégia stalinista-gramsciana, a verdade se tornou mentira, a mentira um dogma sem contestação.

Mas, aos poucos, a Grande Mentira comunista começa a ser desmascarada. A outra face da moeda começa a ser limpada com Kaol, para que a verdade possa brilhar cada vez mais, ofuscando a outra face, enferrujada pela mentirosa versão apresentada à população brasileira nos últimos anos. Àqueles que querem conhecer o que foram os “anos de dinamite” de 1960 e 70 – apelidado de “anos de chumbo” pelos micos amestrados da mídia atual –, têm hoje a oportunidade de acessar o site Terrorismo Nunca Mais (www.ternuma.com.br), para conhecer a verdade sobre a história recente de nosso País, não a mitologia propagandeada pela esquerda. Duas publicações recentes sobre o período dos governos militares, “A Grande Mentira” (7) e “Guerrilha do Araguaia” (8), são leitura obrigatória para quem honestamente quer conhecer, falar e escrever sobre aquele conturbado período.

Em 2002, o jornalista Élio Gáspari publicou um artigo no jornal O Globo (9), em que o fantasma do terrorista Marighela vinha à Terra para azucrinar a vida de um antigo companheiro, o Ministro da Justiça do Governo FHC, Aloysio Nunes Ferreira Filho. O texto inicia assim: “Repassa-se aqui o teor de uma mensagem recebida de carlosmarighella@aln.org endereçada ao ministro Aloysio Nunes Ferreira”. Em certo momento, o “fantasma” de Lamarca fala a “Mateus”: “Lembras do Arno Preiss? Também expropriou o trem pagador. Foi para Cuba e voltou ao Brasil. Mataram-no numa emboscada em Goiás, em 1972. Ele estava naquela turma que voltou para o Brasil, inteiramente vendida. Terrível história essa. Aqui onde eu estou sabe-se de tudo, mas não se pode contar”. “Emboscada”: mais uma das muitas mentiras de Élio “Parmesão” Gáspari. O assalto ao trem-pagador Santos Jundiaí, em 1968, foi realizado por Aloysio “Ronald Biggs” Nunes Ferreira (que fugiu para Paris com passaporte falso), Arno Preis, “Diógenes do Dinamite” (o “PC Farias” do ex-governador Olívio Dutra) e outros menos conhecidos.

Como se sabe, Tio Arno mudou-se da ALN de Marighela para o MOLIPO, que teve entre seus quadros estrelas que hoje brilham no céu petista, a exemplo de José Dirceu. Durante a campanha presidencial, em 2002, a revista Veja (10) publicou um longo artigo sobre o Rasputin da atual “República dos Barbudinhos”, José Dirceu. No eloqüente texto, ficamos sabendo que José Dirceu, pertencente outrora aos quadros secretos de Fidel Castro e, para não ser descoberto no Brasil pelos órgãos de repressão comunista, fez plástica no nariz em Cuba, botou uma barba que hoje é a marca do Governo Lula-laite, e arranjou uma ótima estória-cobertura (11): em meados de 1975, estabeleceu-se na cidade de Cruzeiro do Oeste, PR, com o nome de Carlos Henrique Gouvêa de Melo, vivendo como se fosse um empresário judeu, onde casou com Clara Becker, com quem teve um filho, José Carlos. Clara só veio a conhecer o verdadeiro marido 4 anos depois, quando foi promulgada a Lei da Anistia.

No texto de Veja, sabe-se que José Dirceu teve um contato, vale dizer, a “cobertura” de uma pessoa em Cruzeiro do Oeste, para que pudesse desempenhar seu papel sem suspeitas. Presumo que esse contato possa ter sido o de meu tio Renato, caçula da família Preis, que na época era Chefe de Seção do Banco do Brasil local. Minha mãe, certa vez, me falou que Tio Renato tinha dito a ela que, se não tivesse família, teria acompanhado Tio Arno na aventura terrorista. Como Tio Renato já faleceu, resta perguntar a José Dirceu para que revele quem foi esse “contato” em Cruzeiro do Oeste.

Hoje, no meio de meus familiares, Tio Arno é visto por alguns como herói. Por outros, é visto apenas como um terrorista a mais dentre outros. Tornou-se famoso. Tem seu nome emprestado a praças e a ruas em Santa Catarina. A meu ver, Tio Arno não é herói nem vilão, embora tenha cometido alguns crimes que desgraçaram famílias brasileiras. Ele foi um dos tantos jovens idealistas das décadas de 1960 e 70, que se deixaram seduzir pela utopia comunista, a mais ensandecida ideologia que já apareceu sobre a face da Terra, que ocasionou a morte de aproximadamente 110 milhões de pessoas (12) em todo mundo. No século XX, por onde passou o cérbero demoníaco totalitário – Comunismo, Fascismo e Nazismo –, só deixou desgraça em sua terrífica passagem. Por mais que a ideologia comunista pregue o igualitarismo entre as pessoas, por mais simpática que possa parecer a milhares de iludidos, que ainda hoje esperam implantar tal regime em nosso País, embora conheçam as atrocidades cometidas por tal ideologia na União Soviética, na China, na Coréia do Norte, no Camboja, em Cuba e por onde mais passou esse totalitarismo satânico, o Comunismo sempre deverá ser execrado e combatido por todas as pessoas que acreditam no livre arbítrio, no livre empreendimento, na liberdade religiosa e na liberdade de cada pessoa poder expressar suas próprias convicções.

Tio Arno, portanto, foi vítima da insânia comunista, não vítima dos “vilões” militares, como prega a esquerda. É preciso deixar bem claro, principalmente aos brasileiros mais jovens, que os vários movimentos comunistas existentes no Brasil nunca tiveram como objetivo implantar a democracia, como costumam alardear. Combatendo os governos militares, instalados no Brasil durante duas décadas, o que os comunistas queriam (e irão querer sempre!) era simplesmente implantar em nosso País um regime que ainda hoje tiraniza populações inteiras, como ocorre em Cuba desde 1959, ilha-prisão do ditador mais antigo em atividade no mundo, Fidel Castro, que merece todos os aplausos e afagos de nosso Presidente Lula, seu amigo íntimo.

Tio Arno, hoje, se vivo fosse, quem sabe não seria nosso Ministro das Relações Exteriores do Governo Lula da Silva? Afinal, se o “Ronnie Von” das esquerdas, José Dirceu, a quem se poderia chamar de “James Bond do Caribe” (13), é o atual Chefe da Casa Civil da Presidência, por que Tio Arno não poderia ser o Chefe da Casa de Rio Branco?


Notas:

(1) MOLIPO - Movimento de Libertação Popular: grupo terrorista de linha castrista, surgiu de uma dissidência dentro da Ação Libertadora Nacional (ALN), em 1971, e foi fundado pelo Serviço Secreto de Cuba. José Dirceu, ex-Presidente do Partido dos Trabalhadores e atual Chefe da Casa Civil do Governo Lula da Silva, foi um de seus integrantes. O MOLIPO era formado em sua maioria por integrantes do chamado “III Exército da ALN”, ou seja, de militantes com curso de guerrilha em Cuba. No dia 5 Jan 1972, ao ser montado pelos Órgãos de Segurança uma “campana” junto a um carro roubado num estacionamento de Santa Cecília, centro de São Paulo, um homem de origem japonesa, ao receber ordem de prisão, reagiu e foi morto. Sua identidade era falsa, com o nome de Massahiro Hakamura; após buscas nos arquivos datiloscópicos, a polícia descobriu que era Hiroaki Torigoe, um dos membros do Comando Nacional do MOLIPO. Em janeiro foram neutralizados dois pontos de apoio do MOLIPO: em Vanderlândia, GO, e em Santa Maria da Vitória, que estava sendo “trabalhado”. No dia 18 de janeiro, 3 militantes do MOLIPO, fugindo de uma caçada policial, roubaram um outro carro para prosseguir na fuga, matando seu ocupante, o 1º sargento da PM/SP, Thomas Paulino de Almeida. Na cidade de Paraíso do Norte, GO, no dia 15 Fev 1972, foi morto outro militante do MOLIPO, Arno Preis, que portava documentos falsos, com o nome de Patrick McBundy Comick, o qual matou, quando convidado a comparecer na Delegacia Policial, o soldado PM/GO, Luzimar Machado de Oliveira, ferindo gravemente outro militar, Gentil Ferreira Mano. Na clandestinidade, Arno Preis utilizava diversos codinomes, como “Ariel” e “Alemão”. No dia 27 de fevereiro, Lauriberto José R. e Alexandre José I. V. travaram tiroteio com a polícia em Tatuapé, São Paulo, matando o funcionário aposentado Napoleão Felipe Biscalde, e sendo mortos pela Polícia.

(2) G-11 - Grupo dos Onze, ou Grupo dos Onze Companheiros: “comandos nacionalistas”, que foram formados em todo o Brasil em 1963, a mando do ex-governador gaúcho Leonel Brizola. Os G-11 seriam o embrião do Exército Popular de Libertação (EPL). Um documento do Grupo afirmava que os G-11 seriam a “vanguarda do movimento revolucionário, a exemplo da Guarda Vermelha da Revolução Socialista de 1917 na União Soviética.” (Prova a ignorância de Brizola, pois em 1917 havia apenas a Rússia, não a URSS.) “... os reféns deverão ser sumária e imediatamente fuzilados, a fim de que não denunciem seus aprisionadores e não lutem, posteriormente, para sua condenação e destruição”. Quando ocorreu a Contra-revolução de 1964, havia centenas desses Grupos espalhados em todo o País e tinham como missão eliminar fisicamente todas as autoridades do Brasil – civis, militares e eclesiásticas, como se pode ler nas “Instruções secretas” do EPL e seus G-11, no item 8, “A guarda e o julgamento de prisioneiros”: “Esta é uma informação para uso somente de alguns companheiros de absoluta e máxima confiança, os reféns deverão ser sumária e imediatamente fuzilados, a fim de que não denunciem seus aprisionadores e não lutem, posteriormente, para sua condenação e destruição” (cfr. Del Nero, in “A Grande Mentira”, pg. 112).

(3) ALN - Ação Libertadora Nacional. Somente no início de 1968, o Agrupamento Comunista de São Paulo (AC/SP) passaria a utilizar a denominação Ação Libertadora Nacional (ALN); o AC/SP havia sido criado em 1967 pelo terrorista Carlos Marighela, após este ser expulso do PCB, depois da Conferência da OLAS, em Cuba. Sua obra “Minimanual do Guerrilheiro Urbano” foi traduzida para vários idiomas e foi o “livro de cabeceira” dos grupos terroristas “Brigadas Vermelhas”, da Itália, e “Baader-Meinhoff, da Alemanha (“... os “tiras” e policiais militares que têm sido mortos em choques sangrentos com os guerrilheiros urbanos, tudo isto atesta que estamos em plena guerra revolucionária e que a guerra só pode ser feita através de meios violentos.” - trecho do “Minimanual”). No dia 10 Ago 1968, a ALN assaltou o trem-pagador Santos-Jundiaí, levando NCr$ 108 milhões, ação que consolidou a entrada da ALN na luta armada; nesse assalto, participou o Secretário-Geral do Governo Fernando Henrique Cardoso (depois Ministro da Justiça), Aloysio Nunes Ferreira Filho, que fugiu em seguida para Paris com sua esposa Vera Trude de Souza, com documentos falsos. Junto com o grupo terrorista MR-8, de Fernando Gabeira, a ALN seqüestra o embaixador norte-americano Charles Elbrick, no Rio de Janeiro, em 4 Set 1969, por cujo resgate foram libertados 15 terroristas (entre os quais estavam Vladimir Palmeira e José Dirceu). Marighela foi morto pela polícia em São Paulo, no dia 4 Nov 1969: após o seqüestro do embaixador americano, as prisões de terroristas tiveram seqüência: no dia 1º de outubro foi preso em São Sebastião, SP, o coordenador do setor de apoio, Paulo de Tarso; no dia 2 Nov foram presos no Rio de Janeiro os Freis Fernando e Ivo; no dia 3 Nov, já em São Paulo, Frei Fernando “abriu” o restante da rede de apoio, sendo presos os Freis Tito e Jorge, um ex-repórter da Folha da Tarde, responsável pelas fotos dos documentos falsos, e um casal de ex-diretores do mesmo Jornal; Frei Fernando foi quem levou ao “ponto” com Marighela, no dia 4 Nov, após revelar duas senhas, pois era o responsável pela coordenação das atividades dos dominicanos com Marighela, desde a saída de Frei Osvaldo de São Paulo, em junho daquele ano; combinado o encontro com Frei Fernando, Marighela resistiu à ordem de prisão quando entrava no carro de Frei Fernando, sacando um revólver, quando foi morto pelos policiais; a morte de Marighela repercutiu no Brasil e no exterior; com a morte de Marighela, assumiu o comando Joaquim Câmara Ferreira, o “Toledo”, que viajou a Cuba com Zilda Xavier para receber instruções de Fidel Castro, país em que um dos fundadores da ALN, Agonalto Pacheco, estava em choque com as autoridades locais, especialmente o comandante Manuel Piñero, o “Barbarroxa”, acusado de desvirtuar as iniciativas do AC/SP. Câmara Ferreira foi preso no dia 23 Out 1970, em São Paulo; cardíaco, sofreu enfarte na viatura policial, vindo a falecer; Carlos Eugênio Paz, em seu livro “Viagem à Luta Armada”, fantasia a história, dizendo que “Toledo” foi torturado até a morte pelo delegado Fleury; essa versão é negada por Luís Mir (“A Revolução Impossível”, pg. 560); em um bolso de “Toledo”, foi encontrada carta de Frei Osvaldo Rezende, onde constavam contatos internacionais, projetos políticos e ligações com os Governos cubano e argelino; o Governo brasileiro denunciou à ONU a ingerência em seus assuntos de países que não respeitavam o direito internacional – o que não teve nenhuma conseqüência prática. Em 23 Mar 1971, a ALN faz o “justiçamento” de um “quadro”, Márcio Leite de Toledo; Carlos Eugênio Paz, em seu livro “Viagem à Luta Armada”, afirma que foi co-autor desse “justiçamento”. Junto com o Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT), a ALN assassina o industrial Henning Albert Boilesen, diretor do Grupo Ultra, no dia 16 Abr 1971 (Sebastião Camargo, da empresa Camargo Correia, era também alvo para seqüestro e “justiçamento”, mas prevaleceu a escolha de Boilesen, porque era considerado “espião da CIA” e patrocinador da OBAN). Terroristas da VAR-Palmares, da ALN e do PCBR assassinam o marujo da flotilha inglesa que visita o Rio de Janeiro, David A. Cuthbert, de 19 anos, no dia 08 Jan 1972; nos panfletos, os terroristas afirmaram que a ação era em solidariedade à luta do IRA contra os ingleses. Em 1971, a ALN divide-se em duas facções: o Movimento de Libertação Nacional (MOLIPO), fundado pelo serviço secreto cubano (José Dirceu, Chefe da Casa Civil da Presidência durante o Governo Lula,, era um dos integrantes), e a Tendência Leninista (TL). Em 1972, a ALN/SP assassina o gerente da firma F. Monteiro S/A, Valter Cesar Galatti, ferindo ainda o subgerente Maurílio Ramalho e o despachante Rosalino Fernandes; em 1972, terroristas da ALN/GB, do MOLIPO e da ALN/SP assassinam o investigador Mário Domingos Pazariello, o soldado da PM/GO, Luzimar Machado de Oliveira e o cabo da PM/SP, Sylas Bispo Feche; a ALN/GB assassina em 1972 Íris do Amaral. No dia 21 Fev 1973, a ALN formou um grupo de execução, integrado por 3 terroristas, que assassinaram o proprietário do Restaurante Varela, o português Manoel Henrique de Oliveira, acusado de ter denunciado à polícia, no dia 14 Jun 1972, a presença de 4 terroristas que almoçavam em seu Restaurante, 3 dos quais morreram logo após (na verdade, os terroristas mortos estavam sendo seguidos pelo DOI-CODI). No dia 25 Fev 1973, terroristas da ALN, da VAR-Palmares e do PCBR assassinaram em Copacabana o Delegado Octávio Gonçalves Moreira Júnior. Pelo extenso “currículo” de Marighela, seus familiares receberam mais de 100 mil dólares de “indenização”, outorgada pela famigerada “Comissão dos desaparecidos políticos”, criada no primeiro Governo FHC. Além de Marighela, outro terrorista de destaque foi Carlos Eugênio Sarmento da Paz, que confessou ter praticado em torno de 10 assassinatos. Jessie Jane Vieira de Souza, outra “militante” da ALN, que participou do seqüestro de um avião, é hoje diretora do Arquivo Público do Rio de Janeiro. Com o auxílio do Movimento Comunista Internacional (MCI) e de padres dominicanos, como Frei Beto, a ALN tinha um sistema de propaganda no exterior, a FBI.

(4) VPR - Vanguarda Popular Revolucionária: originou-se da fusão de remanescentes do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR) com dissidentes paulistas da POLOP. Teve como líder maior o ex-capitão do Exército, Carlos Lamarca, que desertou do 4º RI, em Quitaúna, Osasco, SP, em 1969, roubando 63 FAL, 5 metralhadoras INA, revólveres e muita munição da Companhia onde comandava. O plano era levar mais 500 FAL do depósito de armamento do Batalhão, o que não ocorreu porque Lamarca teve que antecipar seu plano. No dia 22 Jul 1968, a VPR já havia roubado 9 FAL do Hospital Militar do Cambuci, em São Paulo. Em 26 Jun de 1968, a VPR explodiu um posto de sentinela do QG do então II Exército, em São Paulo, matando o sentinela, soldado Mário Kozel Filho. Em 12 Out 1968, a VPR assassinou o capitão do Exército dos EUA, Charles Chandler, projetando-se perante as organizações terroristas nacionais e internacionais. Em 1970, a organização terrorista seqüestrou diplomatas estrangeiros: o Cônsul-Geral do Japão em São Paulo, Nobuo Okuchi, no dia 11 Mar 1970, para libertação do terrorista “Mário Japa”; o Embaixador da República Federal da Alemanha no Brasil, Ehrenfried Anton Theodor Ludwig von Holleben, no dia 11 Jun 1970; o Embaixador suíço no Brasil, Giovanni Enrico Bucher, em 07 Dez 1970, libertado em troca de 70 presos terroristas enviados ao Chile do Presidente marxista Salvador Allende (24 desses terroristas eram da VPR), onde foram recebidos de braços abertos no dia 13 Jan 1971. Nesse seqüestro, participaram Carlos Lamarca e Alfredo Sirkis; Lamarca desfechou 2 tiros à queima-roupa contra o agente Hélio Carvalho de Araújo, que veio a falecer no dia 10 Dez 1970. O seqüestro durou 40 dias e seria o último realizado por organizações terroristas no País. Uma das ações mais covardes desta organização foi o assassinato a golpes de fuzil do tenente da PM/SP, Alberto Mendes Júnior, em Registro, SP, depois que o mesmo se entregou como refém a um grupo de terroristas, em troca da vida dos soldados de seu pelotão (10 Mai 1970). No mês de setembro, descoberto o crime, a VPR emitiu um comunicado 'ao povo brasileiro', onde tenta justificar o frio assassinato, no qual aparece o seguinte trecho: 'A sentença de morte de um tribunal revolucionário deve ser cumprida por fuzilamento. No entanto, nos encontrávamos próximos ao inimigo, dentro de um cerco que pôde ser executado em virtude da existência de muitas estradas na região. O tenente Mendes foi condenado e morreu a coronhadas de fuzil, e assim o foi, sendo depois enterrado'. No início de 1971, a VPR tinha mais militantes no exterior (Cuba, Chile e Argélia – banidos e foragidos) do que no Brasil. Carlos Lamarca morreu em Brotas de Macaúbas, interior da Bahia, em 17 de setembro de 1971, ao resistir à prisão. Como recompensa por estes e muitos outros atos criminosos, a família de Lamarca, embora já recebesse pensão do Exército Brasileiro, foi “presenteada” com uma indenização de mais de 100 mil dólares (11 Set 1996), doada pela famigerada “comissão dos desaparecidos políticos”, criada no primeiro Governo FHC. Com essa ignomínia, o 11 de setembro deveria ser instituído como o “dia da traição”, como já sugeriu o Deputado Jair Bolsonaro. Um dos principais terroristas da VPR foi Diógenes de Oliveira, hoje “Diógenes do PT”, o “PC” da campanha de Olívio Dutra (PT/RS) para Governador. Outro “militante” da VPR foi Henri Phillipe Reichstul, Presidente da Petrobrás durante o Governo FHC (sua irmã francesa, Pauline, também “militante” da VPR, morreu em um tiroteio no Recife, em janeiro de 1973, depois de fazer um curso de guerrilha em Cuba e tentar a reestruturação da VPR no Brasil). Militante da VPR e da VAR-Palmares foi também o Secretário do Trabalho do Rio de Janeiro, Jaime Cardoso, (Governo Garotinho), que teve como Chefe de Gabinete Rafton Nascimento Leão, antigo “militante” da VAR-Palmares. A fusão da VPR com o COLINA resultou na VAR-Palmares.

(5) Brasil, Nunca Mais - Relatório elaborado pela Arquidiocese de São Paulo, sob a direção do Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, onde constam os nomes das vítimas da ditadura militar (mortos e desaparecidos) e são relacionados nomes de supostos torturadores. Semelhante à Comissão Sábato (Argentina), que elaborou o Relatório “Nunca Más”, a obra “Brasil, Nunca Mais” peca por não relacionar os crimes cometidos pelos grupos extremistas de esquerda (assassinatos, assaltos a bancos, seqüestros, atentados a bombas, “justiçamentos” - assassinatos de próprios companheiros), que provocaram a morte de mais de 100 pessoas. Isso não causa estranheza, porque o Relatório foi elaborado pelos próprios comunistas, com as bênçãos de Dom Arns. Leia os livros “Brasil, Nunca Mais” e “Brasil, Sempre!”, de Marco Pollo Giordani, e acesse Terrorismo Nunca Mais (Ternuma - www.ternuma.com.br) e Tortura Nunca Mais (www.torturanuncamais-rj.org.br), para separar o mito do “Tortura” dos fatos do “Ternuma”.

(6) Desinformatsya - Termo russo, significa “desinformação”. Concebido pelo Komintern para designar o uso sistemático de informações falsas como instrumento de desestabilização de regimes políticos. 'A desinformação leva as instituições ao completo descrédito, induzindo a opinião pública a transferir aos agentes da desinformação a confiança que depositamos no Estado, nas leis e nos costumes tradicionais' (Olavo de Carvalho). Um antecedente milenar foi Sun-Tsu, que afirmou: “Todo esforço de guerra baseia-se no engodo”. Se a espionagem é a 2ª mais antiga profissão do mundo, a desinformação é a 3ª. Nos EUA, o Governo George W. Bush criou o Departamento de Influência Estrangeira, subordinado ao Pentágono, logo após os atentados de 11 Set 2001, para difusão de informações no Oriente Médio, Ásia e até Europa Ocidental, inclusive falsas. Críticos afirmam que ações desse tipo prejudicam a credibilidade do Pentágono. Uma das unidades encarregada do programa do novo Departamento é o Comando de Operações Psicológicas (PsyOp), do Exército. Na década de 1980, o PsyOp transmitiu programas de rádio e TV para a Nicarágua, para minar o Governo sandinista de Daniel Ortega. Nos anos 1990, o PsyOp estimulou o apoio aos americanos nos Bálcãs. Leia o livro “Dezinformatsia”, de Richard H. Shultz e Roy Godson, Berkley Books, NY, 1986.

(7) AUGUSTO, Agnaldo Del Nero. A Grande Mentira. Biblioteca do Exército Editora, Rio de Janeiro, 2001.

(8) SOUZA, Aluísio Madruga Moura e. Guerrilha do Araguaia – Revanchismo. Abc BSB Gráfica e Editora Ltda., Brasília, DF, 2002.

(9) Artigo de Elio Gaspari, Mensagem de Marighella ao ministro ‘Mateus’, publicado no jornal O Globo, edição de 22 de janeiro de 2002.

(10) “José Dirceu – o homem que faz a cabeça de Lula”, revista Veja, edição nº 1770, de 25 de setembro de 2002.

(11) Estória-cobertura - Muito utilizada por espiões, terroristas e criminosos em geral, para encobrir as reais intenções, seja dentro ou fora do país. Consiste em simular uma atividade, p. ex., abrir um comércio, para encobrir a verdadeira atividade. Um exemplo clássico foi o caso de Olga Benário, que deixou o marido B. P. Nikitin na Rússia e acompanhou Luis Carlos Prestes ao Brasil, como se fosse sua mulher: “Olga Bergner Vilar”, casada com “Antônio Vilar”, para promover a Intentona Comunista, em 1935.

(12) Livro Negro do Comunismo, O - Le livre Noir du Communisme, escrito por 6 historiadores europeus, com acesso a arquivos russos, relata o Holocausto Vermelho que assolou todo o planeta no século XX, com mais de 100 milhões de mortos (muito superior ao holocausto nazista): China: 65 milhões de mortos; União Soviética: 20 milhões; Coréia do Norte: 2 milhões; Camboja: 2 milhões; África: 1,7 milhão, distribuído entre Etiópia, Angola e Moçambique; Afeganistão: 1,5 milhão; Vietnã: 1 milhão; Leste Europeu: 1 milhão; América Latina: 180 mil entre Cuba, Nicarágua, Colômbia e Peru (este último número, já de há muito superado, devido à continuação da matança feita pelas FARC e pelo ELN, na Colômbia); Movimento Comunista Internacional (MCI) e Partidos Comunistas no poder: 10 mil. Veja, ainda, “Museu do comunismo” em www.gmu.edu/departments/economics/bcaplan, criado pelo Professor Bryan Caplan, PhD em Economica pela Universidade de Princeton, EUA, e o site de Olavo de Carvalho (www.olavodecarvalho.org/), que tem artigos e links sobre o Comunismo.

(13) Como se sabe, José Dirceu, outrora membro do MOLIPO, era conhecido mais por suas façanhas dom-juanescas do que por ações violentas. Porém, ao contrário do que afirma a revista “Veja” (nº cit.), José Dirceu teve codinome, sim: era “Daniel”, assim como outros políticos da atualidade, ligados a antigos grupos terroristas, a exemplo de José Genoíno (“Geraldo”), Aloysio Nunes Ferreira (“Mateus”), Nilmário Miranda (“Augusto”, “Gustavo”), Bete Mendes (“Rosa”), Tarso Genro (“Carlos”, “Rui”), Raul Pont (“Renê”) etc. Antigo membro do serviço secreto de Cuba, José Dirceu, em animada conversa com o ditador Fidel Castro, por ocasião da posse de Lula, deu a entender que o crachá de “secreta” ainda não foi devolvido ao Governo cubano...


Obs.: Para melhor entendimento do que foram os “anos de dinamite” das décadas de 1960 e 70, veja em Usina de Letras (www.usinadeletras.com.br), “Arquivos ‘I’ – uma história da Intolerância”, [link atualizado 
http://felixmaier1950.blogspot.com/2020/06/arquivos-i-uma-historia-da-intolerancia_78.html], de minha autoria, os verbetes AI-5, Andorinha, Araponga, Brizoleone, CEIAL, Centro Tricontinental, Clero progressista, Códigos Venona, COLINA, Contra-revolução de 1964, Desaparecidos políticos, Dissidentes, Escolas de subversão e espionagem, Falsificação de Pankov, Folhetos cubanos, Foquismo, Frades dominicanos, Frente Brasileira de Informações (FBI), Guerra Fria, Guerrilha do Araguaia, Gulag, Hospitais psiquiátricos, Instituto 631, Intentona Comunista, Justiçamento, Kmer Vermelho, Komintern, Ligas Camponesas, Libro Blanco, Lubianka, M3G, Macartismo, MEP, MNR, OCLAE, OLAS, Operação carta de amor perfumada, Operação Drogas, Operação Registro, Operação Thomas Mann, Organizações subversivas brasileiras, OSPAAAL, PCB, PCBR, Pinar del Río, POLOP, Revolução Cubana, Revolução de 1968, Revolução Russa, Seqüestros de aviões, Síndrome de Nova York, Sistema métrico da intolerância, STASI, Tortura, Tricontinental, UAPPL, ULTAB e Violência estudantil, e acesse o site www.olavodecarvalho.org/textos/sseal.htm.

(*) O autor, natural de Luzerna, SC, é ensaísta e articulista de Mídia Sem Máscara (www.midiasemmascara.org) [atual www.midiasemmascara.net

ttacitus@hotmail.com [felix.maier50@gmail.com]



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P.S 1.: E-mail recebido de Olavo de Carvalho, no dia 12/06/2003:

“Prezado Félix,

Que surpresa, saber que você é sobrinho do Arno! Ele foi meu amigo. Eu gostava muito dele e o admirava. Ele era um homem culto, inteligentíssimo e de uma valentia física notável. Uma vez desarmou e surrou um policial que havia disparado contra ele, bem na frente da Casa do Estudante, em São Paulo (nada de coisa política, foi questão de mulher). Não me parecia ter convicção marxista muito séria – seguia as ordens do Partidão para acompanhar os amigos. Tinha bom coração e era generoso. Cantava trechos de ópera e hinos sacros com uma bela voz de tenor, fazendo duetos impressionantes com João Leonardo da Silva Rocha, barítono. De vez em quando entrava em depressões, bebia e arrumava brigas, mas em geral era bem humorado e tranqüilo. Comigo, sempre foi exemplar. Ele foi uma verdadeira perda para a nossa geração.

Um abração do Olavo de Carvalho”


P.S. 2: E-mail recebido de Matias Barboza Batista no dia 17 de setembro de 2003:

'Brasília, 15 de setembro de 2003

Meu caro Félix Maier

Fiquei emocionado ao encontrar na internet e ler, ontem, o ensaio “Tio Arno Preis”.

Em recente carta que escrevi ao jornal Correio Braziliense, contando fatos ocorridos na minha cidade à época da Guerrilha do Araguaia, tomei como episódio principal um caso envolvendo um homem desconhecido de nome Patrick, que, para minha surpresa, era esse seu tio.

A essa carta eu dei o seguinte título: “Perdôo Quem Me Deu Esta Cruz”.

Apesar desses fatos serem contados com a visão de quem, naquela época, tinha apenas 15 anos de idade, tive o cuidado de evitar as informações que o tempo já transformou em dúvidas.

O ano era 1972. Nessa época Paraíso do Norte, ainda pertencente a Goiás, tornou-se um ponto de descanso para as tropas do exército que iam combater os revolucionários comunistas nas matas de Xambioá, extremo norte do Estado.

Havia um clima de revolução e terror no País. Cartazes, com fotografias de pessoas consideradas subversivas ao regime, estavam colados em vários pontos da cidade, principalmente, na estação rodoviária. O que mais chamava a atenção nesses impressos era aquela frase sinistra: “PROCURA-SE”.

Filas de caminhões e jipes esquisitos, pintados com as cores do cerrado, iam se formando na pequena praça, no centro da cidade. Deles desciam muitos soldados armados e vestidos para guerra. Havia armas de tudo quanto era jeito.

Os soldados sentavam nas calçadas e passavam o tempo brincando de enfincar facas no chão, contando histórias ou flertando com curiosas e desconfiadas mocinhas, que por ali passavam.

Para o pernoite, as tropas acampavam no pátio do DNER, onde armavam muitas barracas de lona verde.

Num certo dia, bem cedo da manhã, o comandante observou que um dos seus homens não havia retornado de um breve passeio; de imediato reuniu a tropa e deu uma ordem severa a um grupo deles: -...“Revistem casa por casa”... Naquele momento senti um frio na barriga e pensei, comigo mesmo, meu Deus!... Vão invadir nossas casas!...A ordem foi clara; era para invadir todas as casas a procura do fugitivo. Felizmente, não demorou muito, chegaram com o tal soldado; ao que parecia, estava atônito e com aspecto de quem havia passado a noite no prostíbulo vizinho ao acampamento. O infeliz levou uma bronca terrível e ainda teve de ficar de castigo. Lembro-me, até hoje, das últimas palavras do oficial, em tom bastante enraivecido: -“....ou você vai por bem, ou por mal!”

Nesse caminho, Paraíso do Norte não foi apenas um lugar de descanso para as forças do exército: Lá aconteceu um fato horrendo e lastimável, que colocou aquela pequena cidade diante da verdadeira face do terror e, por conseqüência, na história da Guerrilha do Araguaia.

Tudo aconteceu numa noite desse mesmo ano de 1972 - o mês já não me lembro mais -, quando um homem, típico sulista, desceu de um ônibus interestadual na pequena estação rodoviária, que ficava na mesma praça, bem no centro da cidade. Portava uma pequena maleta de mão que, segundo comentários de rua, tinha muito dinheiro dentro. Por algum motivo ele chamou a atenção da Polícia Militar. Ao ser abordado pelos PMs, o viajante sacou de uma arma – não sei qual era o tipo – e atirou contra os policiais Luzimar, que morreu na hora, e Gentil, que ficou gravemente ferido em uma das mãos.

Ao tentar fugir por ruas escuras, o misterioso homem foi perseguido com a ajuda de alguns táxis, que iluminavam as ruas por onde ele seguia. Em pouco tempo, o sujeito foi encurralado no quintal de uma casa, ainda próxima à rodoviária. De imediato, homens da Polícia Militar, portando armas mais pesadas, trazidas às presas da Delegacia local, atacaram o fugitivo, que morreu ali mesmo atingido por tiros de fuzil.

Na manhã do dia seguinte a notícia se espalhou rapidamente pela cidade. Um misto de tristeza, silêncio e horror pairava no ar, contagiando a todos. O PM que morreu e o que foi baleado eram bem conhecidos pela grande maioria da população. Luzimar foi meu colega de ginásio. Gentil faleceu há dois anos, lá mesmo em Paraíso.

Naquele clima horrível, de profundo desalento e consternação geral, milhares de curiosos se aglomeravam nas ruas e na porta da Delegacia de Polícia. Entre 9 e 10 horas, fui à Delegacia e lá, por uma janela, vi um corpo estendido no chão. Era de um homem magro, bem branco, alto e cabelos lisos. Pelos aspectos físicos, parecia ser mesmo de algum Estado do Sul. Se não me engano, o corpo estava sem camisa, ou pelo menos estava desabotoada, de forma que se via claramente a barriga e o tórax muito brancos e pálidos. Mas não me lembro de ter visto nele sinais de perfuração de bala. Na calça havia um cinto traspassado que bem se destacava.

Todos ali queriam saber o nome daquela pessoa, o motivo e a forma como tudo aconteceu. As versões dos fatos eram todas iguais, as diferenças ficavam por conta de pequenos detalhes.

Dias depois saiu uma notícia num jornal de Goiânia, confirmando que se tratava de um dos terroristas procurados pelo polícia. Os documentos encontrados e o nome seriam falsos. Acho que o jornal publicou o suposto nome verdadeiro. Só me lembro de que ouvi falar em dois nomes: um lá na delegacia e outro que alguém leu no jornal. Um deles eu sei que era Patrick.

A praça, onde ficava a estação rodoviária e onde as tropas descansavam, foi batizada com o nome de Praça Cabo Luzimar, em reverência à memória do PM morto.

Não muito longe dali, no cemitério local, uma sepultura chamava atenção de quem a olhava. Nela havia uma pequena cruz de madeira sem o nome do falecido. No lugar do nome alguém escreveu uma comovente e pesarosa inscrição: “Perdôo quem me deu esta Cruz”.

É de se lamentar profundamente que esse fato tenha sido a causa do sofrimento, sem fim, de duas famílias que perderam seus filhos queridos. Penso que aquela cruz, cravada em meio a tantas outras pelo coveiro Milton Gomes, sinalizava o trágico fim de um falso sonho dourado, que fez incutir, em muitos jovens, inteligentes, um ideário ilusório e infeliz, levando-os, infelizmente, a sacrificar a própria vida.

Matias Barboza Batista'

***

Mensagem recebida de meu primo Walter Backes,
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2004 18:51:20 Para : ttacitus@hotmail.com Assunto : Usina de Letras -- Contato do Leitor

Mensagem referente ao texto Tio Arno Preis - Ensaios. Primo Feliz, Eu me chamo Walter Backes, filho de Elza Preis Backes, irmã do Tio arno, natural de Forquilhinha/SC. Ao tomar conhecimento, através de outros primos nossos, desta tua coluna, resolvi ler o conteúdo da mesma para me certificar se realmente se tratava de uma ' versa ofical' , conforme foi informado. Realmente constatei, ao ler esta tura coluna, que trata-se de uma versão, no mínimo, parcial e, de certa forma, denegrindo a imagem do tio Arno. Os dois lados cometeram abusos, porém, relatar somente os erros do lado, que voce por dever de ofício combatia, fica prejudica a sua posição perante a sociedade. Somente mais uma observação: nomeia o parente que deu com a língua nos dentes em Foruqilhinha e contou aos meus avós que o tio foi morto. Pois, a minha mãe vive até hoje naquele município e não merece figurar entre os suspeitos de tal ato. No mais não tenho nada contra a vossa pessoa, mesmo porque não te conheço pessoalmente, diferentemente do teu irmão Günter e a tua mãe que eu tive o prazer de conhecê-los e são pessoas admiráveis. Um abraço e espero um dia te falar pessoalmente.

*

Brasília, 27 de fevereiro de 2004

Caro primo Walter,

Fiquei feliz (sem trocadilhos com meu nome!) em receber sua mensagem. Essa Internet é uma maravilha! Tenho recebido e-mails de outros primos distantes, muitos dos quais nem conheço – como você.

Há alguns anos, passei a desenvolver a escrita, publicando, principalmente, em Usina de Letras – onde você acessou o texto sobre Tio Arno. Também tenho publicado em Mídia Sem Máscara, você conhece esse novo site, criado pelo filósofo e escritor Olavo de Carvalho? Meu sonho maior é escrever um romance histórico, uma trilogia, tendo como pano de fundo a história de SC, começando pelos imigrantes alemães e italianos, passando pela Guerra do Contestado e prosseguindo até os dias atuais. Já estou fazendo pesquisas a respeito. Minha mãe trouxe de Forquilhinha dois livros, dos “Lehrers” Arns e Back, que me têm sido muito úteis, para conhecer como eram as vilas nos primórdios da colonização alemã. Se você tiver algo a respeito e puder me mandar pela Internet, ficaria muito grato.

Vamos ao assunto levantado por você. Discordo quando você afirma que eu apresentei uma “versão oficial” a respeito do Tio Arno. Eu não apresentei a versão de ninguém, nem oficial, nem da esquerda, nem da direita, nem de cima, nem debaixo. Essa história de “versão” é coisa de embusteiro, de mentiroso, não de historiador sério que procura a verdade. Apenas fiz (e continuo fazendo) uma pesquisa séria a respeito da vida de nosso Tio, e pronto. Tanto isso é verdade que inseri, em meu escrito, vários textos, de vários autores, publicados em vários jornais e sites da Internet, de modo a poder tirar uma média do que realmente aconteceu com Tio Arno. Isso se chama trabalho sério, sem mistificações e “embromações”, que todo historiador deveria ter em mente quando escreve sobre algum fato histórico. Aliás, já era lema do grande historiador romano Tácito: “sine ira et studio” (sem ódio e preconceito). Ou seja, para historiar algo, não se deve escrever sob o impulso da raiva e do preconceito. Esse é também meu lema, tanto é que escolhi o nome do historiador romano para meu e-mail: ttacitus@hotmail.com. Não é apenas “tacitus”, com um só “t”, porque já havia alguém que havia se antecipado a mim.

O que eu sei diretamente sobre nosso Tio e escrevi na Internet foi o que li num jornal carioca, em 1972, que tratava de uma reportagem sobre as circunstâncias da morte de Tio Arno, o nome falso que então portava, os soldados que matou e feriu. Essa “versão” então apresentada não difere muito daquela de Matias Barboza Batista, amigo do soldado morto por Tio Arno, testemunho importante que inseri no final do texto, após a bela mensagem de Olavo de Carvalho.

Minha crítica a respeito do que se escreve atualmente é sobre a mistificação de terroristas, venham eles de nossas famílias ou não. A pura verdade é que todos eles estavam equivocados: queriam derrubar a ditadura militar e impor uma muito pior, a ditadura comunista, fosse ela de linha russa, chinesa ou cubana. Toda a esquerda, hoje, mente, quando diz que esses terroristas, que explodiam pessoas como hoje fazem os “kamicazes” islâmicos, queriam implantar a democracia em nosso País. Uma coisa é você afirmar que FHC, Lula, Montoro, Serra lutaram pela democratização de nosso País. Isso é verdade. Coisa bem diferente é afirmar que Lamarca, Marighela, José Dirceu, José Genoíno e tantos outros terroristas queriam a mesma democratização.

Outra coisa que eu critico são esses presentes milionários recebidos por familiares de terroristas. Uma coisa é você indenizar alguém que foi morto em dependências policiais, como ocorreu com o jornalista Wladimir Herzog. Nada mais justo. Coisa bem diferente é você premiar familiares de Lamarca, que morreu em combate no sertão baiano, e de Marighela, que morreu em tiroteio com a polícia no centro de São Paulo. Não sou contra a indenização a perseguidos políticos, sou contra a farra ora em andamento, que começou no Governo FHC. E aqueles que morreram combatendo terroristas, como ficaram suas famílias? Sem um centavo no bolso. A Lei da Anistia foi jogada no lixo.

Tudo o que escrevi sobre Tio Arno em nada o denigre – como você afirmou. Se há algo que o denigre foram os atos que ele mesmo cometeu em vida, não algumas palavras que eu escrevi na Internet. E você sabe muito bem que ele cometeu vários crimes, além daquele soldado abatido junto com ele em Goiás, atual Estado do Tocantins. Tio Arno participou de assaltos a bancos, assaltos a carros-fortes, assalto ao trem-pagador Santos-Jundiaí (1968), atentados esses destinados a auferir dinheiro para a organização de Marighela. Tio Arno fez curso de guerrilha em Cuba, fez parte do Movimento de Libertação Popular (Molipo), criado pelo serviço secreto cubano, movimento do qual também participou o atual “Rasputin” do regime, José “Daniel” Dirceu. Tudo isso é história, não há nada que possa ser modificado a respeito, por mais que você, eu e todos os nossos parentes queiramos. A História pode se repetir, sim, ao contrário do que afirmou Karl Marx, que dizia que ela se repete apenas como farsa. Não, a história se repete sempre, seja como drama, comédia ou tragédia. Só uma coisa é certa: a História não tem volta.

Uma coisa, Walter, você pode ter certeza: eu não compactuo com a mentira e o embuste, a exemplo de ONGs como Tortura Nunca Mais, que apresentam uma versão deturpada de fatos ocorridos em passado recente. Apresentar assaltantes e assassinos como heróis é uma prática bastante difundida atualmente, corriqueira em todos os jornais. A explicação é simples: a esquerda tomou de assalto todos os órgãos de comunicação social, nossas universidades, a CNBB, tudo, nada escapou. Até as Forças Armadas, hoje, estão intoxicadas pelo veneno vermelho.

Não sei quem deu com a língua nos dentes, aí em Forquilhinha, ocasião em que Oma e Opa Preis ficaram sabendo da morte de Tio Arno. Mas fique sossegado, ninguém está apontando o dedo para ninguém, muito menos para sua mãe Elza. Mesmo se eu soubesse, não iria dedurar. Não é do meu feitio.

Quanto à história recente de nosso País, especialmente aquela relacionada à “ditadura militar”, sugiro que você dê uma espiada no site Terrorismo Nunca Mais (www.ternuma.com.br), que serve de contraponto aos embustes e à mitologia difundidos pelo Tortura Nunca Mais. Lá você poderá encontrar um pouco da verdade que ultimamente anda escassa por esses planaltos e por esses pampas.

Espero continuar esse contato ora iniciado. Um abraço a você e sua família, à tia Elza, ao Werner e esposa. Espero um dia podermos bater um papo “tête-à-tête”.

Félix

P.S.: Para você conhecer um pouco mais sobre meus escritos, sugiro que acesse os títulos abaixo, também disponíveis em Usina de Letras:

- A TV Lumumba e o AI-5
- Guerrilha Desarmada
- As Libélulas da USP
- Uma radiografia do MST
- El Cóndor pása (e os urubus tapam o nariz)
- Prá não dizer que não pedi perdão
- Bantustões Brasileiros
- Argos, o ET de 100 olhos
- Kamarada Kaganovich e o calendário universal
- Praça Michelle
- Lula: governo bicombustível
- As vestais grávidas do PT
- Sionismo e resistência palestina
- Nacionalismo e esquerdismo nas Forças Armadas
- Pedofilia: último orgulho gay?
- NY: navalha na cara
- Fundamentalismo Islâmico
- Internacional Islamita do Terror
- etc...

***

O historiador Carlos Ilich Santos Azambuja escreveu em 27 de agosto de 2004:

Kamaradas

A festa com o nosso dinheiro continua! Interessante é que Maria Auxiliadora Lara Barcelos, banida do território nacional, cometeu o suicídio, na Alemanha.

Azambah

Aprovadas indenizações para vítimas da ditadura

BRASÍLIA. A Comissão de Mortos e Desaparecidos aprovou ontem seis pedidos de indenização para parentes de militantes de esquerda mortos durante o regime militar. Entre os beneficiados estão os parentes de Arno Preis, ex-integrante do Movimento de Libertação Popular (Molipo), grupo guerrilheiro do qual também participou o hoje chefe da Casa Civil, José Dirceu.

Preis morreu em 1972 no interior de Goiás. Ele era o único integrante do Molipo que ainda não tinha tido sua morte reconhecida oficialmente como de responsabilidade do Estado brasileiro. Foram aprovados ainda outros cinco processos, movidos pelas famílias de Benedito Pereira Serra, Antônio Sérgio de Mattos, Carlos Schirmer, Mário de Souza Prata e Maria Auxiliadora Lara Barcelos. A maior parte desses pedidos já havia sido julgada e indeferida antes da nova lei. As indenizações, que variam de R$ 100 mil a R$ 150 mil, foram aprovadas com base na nova lei que estende o benefício às famílias dos mortos.

***

O coronel do Exército, Carlos Alberto Brilhante Ustra (“CABU”), antigo integrante da Operação Bandeirantes (Oban) e autor do livro “Rompendo o Silêncio”, escreveu em 27 de agosto de 2004 11:57:42:

“Eu , CABU, acrescento:

Vejam como morreu Arno Preiss, segundo eles enquanto ‘estava sob a responsabilidade do Estado brasileiro’:

O terrorista Arno Preiss encontrava-se na cidade de Paraíso do Norte, que estava incluída dentro de esquema de trabalho de campo do MOLIPO. Usava o nome falso de Patrick McBundy Comick. Arno tentou entrar com sua documentação falsa no baile carnavalesco do clube social da cidade. Sua documentação levantou suspeita nos policiais, que o convidaram a comparecer à delegacia local. Ao deixar o clube, julgando-se desmascarado, Arno sacou seu revólver e disparou à queima roupa contra os policiais, matando o PM Luzimar Machado de Oliveira e ferindo gravemente o outro PM que o conduzia, Gentil Ferreira Mano.

Protegido pela escuridão, Arno homiziou-se num matagal, sendo entretanto localizado por populares que, indignados, auxiliavam a polícia. Arno travou, ainda, intenso tiroteio com seus perseguidores, antes de tombar sem vida. Com dificuldade, a polícia impediu a violação do corpo.

Em tempo: A família do soldado PM Luzimar Machado de Oliveira, não recebeu nenhuma indenização do governo federal, assim como o Soldado PM Gentil Ferreia Mano, ferido no tiroteio com Arno Preiss.”

***

Observação feita por Félix Maier, em 14/09/2004:

Uma coisa não se pode negar ao Rasputin da República dos Barbudinhos, José “Daniel” Dirceu, Ministro da Casa Civil do governo Lula da Silva: ele não se esquece dos amigos do antigo “clube de escoteiros”, o Molipo. Para quem não sabe, o Molipo foi um grupo terrorista criado por Manuel Piñero Losada, o “Barbarossa”, antigo chefe do serviço secreto de Cuba. O Companheiro Daniel conseguiu a aprovação de uma indenização, não só para si e outros colegas terroristas, mas também para a família de meu tio Arno Preis.

As idas e vindas, ainda hoje, do “secreta” cubano-brasileiro Daniel à “Ilha do Dr. Castro”, onde vai periodicamente renovar a validade de seu crachá de espião, infelizmente não causam nenhuma estranheza em nossa mídia. Muito mais grave do que a antiga traição do calabar Daniel, que queria implantar no Brasil uma ditadura nos moldes cubanos, é a subserviência dele ao tirano ainda nos dias atuais, mesmo sendo o segundo homem mais importante do governo Lula. (Muitos dizem que o “Primeiro-Ministro” Daniel é mais importante do que o próprio Lula.) E, mais grave que tudo, é nossa imprensa achar isso tudo muito natural. Imagina se algum integrante do governo Sarney, por exemplo, tivesse pertencido aos quadros da CIA, o bafafá que isso iria provocar.

E ainda dizem que o capitalismo venceu o comunismo...

Gostaria que meus familiares (tios?) devolvessem a indenização de Tio Arno aos cofres públicos, pois se trata de dinheiro do povo brasileiro, não da República dos Barbudinhos. Muito antes de meus familiares terem algum tipo de direito em receber esse dinheiro tingido de sangue, os familiares dos policiais (1 morto e 1 ferido por Tio Arno) merecem muito mais. É uma vergonha que até hoje o Estado comunofascista brasileiro não tenha concedido nenhum tipo de indenização aos mortos fardados.

Tio Arno não morreu sob a guarda do Estado, na prisão, mas em confronto direto com a polícia. O risco que assumiu era todo dele. Não procede indenização de espécie alguma. Anita Leocádia Prestes, filha de Luiz Carlos Prestes e Olga Benário, comportou-se como uma pessoa honrada ao não aceitar a “piñata” (*) distribuída à companheirada comunista, conforme publicação feita pelo jornal O Globo, transcrita abaixo. Espero que meus tios tenham a mesma honradez.

Carta publicada na Coluna dos Leitores -
Jornal O Globo, de 27/08/2004

“Indenização doada

Diante da informação publicada nesse jornal de que a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça me concedeu indenização de R$ 100 mil, devo esclarecer que discordo dos critérios adotados pela Lei de Anistia atualmente em vigor. De acordo com a mesma, graves injustiças são cometidas tanto em relação a grande número de anistiados políticos, quanto em relação à maioria do povo brasileiro, cuja situação de miséria é bem conhecida de todos. Esta a razão por que a referida indenização será por mim doada ao Instituto Nacional do Câncer.

ANITA LEOCÁDIA PRESTES

(26/8), Rio”

Obs.: Anita Leocádia Prestes é filha do comunista Luiz Carlos Prestes e da agente do serviço secreto militar soviético Olga Benário. Olga deixou em Moscou o marido russo B. P. Nikitin para acompanhar Prestes no desencadeamento da Intentona Comunista no Brasil, em 1935, que deixou um saldo de 28 mortos – fato “esquecido” por Jayme Monjardim em seu filmeco de quinta categoria, “Olga” (**).

(*) La Piñata - Conflito causado pela “expropriação” de cerca de 5.000 propriedades de nicaragüenses e estrangeiros, na Nicarágua, durante o Governo sandinista de Daniel Ortega (1979-1990), quando os guerrilheiros transferiram bens confiscados durante a Revolução para si próprios, a exemplo de Daniel Ortega, que se apropriou de uma mansão de US$ 1,5 milhão. O termo “piñata” refere-se à tradição mexicana de distribuição de presentes no fim das festas de crianças. O Brasil também criou sua “piñata”, ao retirar do erário centenas de milhões de reais para “doar” a familiares de terroristas mortos ou desaparecidos – e a muitos ainda vivinhos da silva, como José “Geraldo” Genoíno e José “Daniel” Dirceu.

(**) Quem realmente foi Olga, que teve sua vida romanceada em livro de Fernando Moraes, que deu origem ao filme de Jayme Monjardim? Quem pode dizer algo consistente a respeito é o jornalista William Waack, autor de “Camaradas” (Companhia das Letras, 1993), a melhor obra até hoje escrita sobre a Intentona Comunista, com pesquisas nos arquivos de Moscou:

“As tragédias de Olga

WILLIAM WAACK

São quase lugar-comum livros e filmes que romanceiam figuras da História, tornando-as maiores do que o foram em vida. Espantoso no caso do filme ‘Olga’, baseado em livro do mesmo nome, é que a figura real de Olga Benário foi diminuída, especialmente a tragédia que ela viveu.

Não importa aqui o fato de que as versões romanceadas de Olga Benário baseiam-se em biografia e fatos manipulados (com exageros, omissões e invenções) pela propaganda do extinto Partido Comunista da extinta Alemanha Oriental, preocupada em formar a imagem de uma heroína encaixada na ‘linha correta’ determinada por burocratas frios e medíocres. Todo responsável por versões romanceadas tem o direito de construir como quiser seus personagens, mesmo sabendo que está assumindo distorções criadas por outros.

A Olga que realmente existiu é muito superior à personagem Olga das telas, e nem mesmo um diretor talentoso como Jayme Monjardin conseguiu fugir à armadilha preparada pelo roteiro. O mundo em que a Olga real viveu não era preto-e-branco — ali os vilões nazistas, aqui os mocinhos comunistas. Ao contrário, uma parcela vigorosa de militantes do PC alemão (aliás, os que representavam as melhores tradições intelectuais do partido) já fora expurgada nos anos vinte por se opor ao corrosivo domínio do próprio partido alemão exercido As pelos serviços secretos e polícia política soviéticos. Olga, uma militante de precária formação e pouco interesse por teorias, fazia parte do ‘aparato M’, a estrutura policial interna do PC alemão diretamente comandada por soviéticos. Um dos ‘expurgados’ nas lutas internas, Arthur Ewert, seria, aliás, um dos seus chefes no Rio.

Para milhares de militantes políticos daquela época (mas não só), a ‘causa’ pela qual acreditavam lutar, com maior ou menor dose de romantismo e entusiasmo, teve de ser sacrificada aos interesses e ditames do Partido, e essa foi a primeira tragédia na qual Olga se meteu. Ela jamais duvidou de ordens superiores e jamais as discutiu — ao contrário de Arthur Ewert, que ao lidar com as previsíveis desastradas conseqüências da aventura de Luís Carlos Prestes no Rio, em novembro de 1935, sabia que estava agindo contra a própria consciência (Ewert foi vítima de uma triste ironia da História: levado à loucura pela tortura infligida pela polícia de Getúlio e, sem nunca mais recuperar a consciência, passou os últimos anos de sua vida sendo mencionado como exemplo vivo de martírio, na Alemanha Oriental, pelos colegas de Partido que o haviam feito cair em desgraça).

A segunda tragédia na qual Olga se envolveu foi acreditar na capacidade de liderança, sabedoria política e perícia militar de Luís Carlos Prestes. A extraordinária incompetência do comandante do movimento de 35 está registrada em Moscou em todos os seus fascinantes detalhes — mas a culpa, tiveram de assumir, ou foi atribuída aos subordinados na cadeia de comando, e aos companheiros de Olga que conseguiram escapar da polícia brasileira e foram fuzilados ao retornar à União Soviética.

Os chefes nunca erram, o que talvez explique por que militantes brasileiros, agindo sob as ordens de Prestes (e apoiado por Olga), concordaram em assassinar uma moça inocente, Elza, que o chefe do aparato soviético clandestino no Rio, um agente da polícia política de Stalin, achava que poderia comprometer os “estrangeiros” participando da operação de 35, entre eles a militante alemã — mais uma tragédia.

Nada disso diminui a tragédia pessoal que se abateu sobre Olga, ao ser presa, deportada e entregue à Gestapo. Diante do velho inimigo, ela mostrou a coragem e a conduta que se esperava de militantes disciplinados como ela (suas cartas a Prestes eram primeiro enviadas a Moscou). Por estar presa, talvez Olga não soubesse do destino que Stalin reservara para quase todos seus ex-comandantes, soviéticos e alemães, além de dezenas de camaradas com quem conviveu no célebre Hotel Lux: a morte.

Os soviéticos nem responderam aos pedidos de D. Leocádia, mãe de Prestes, para que tentassem a troca de Olga por algum prisioneiro. Só muito mais tarde soube-se a razão: os soviéticos, naquele mesmo momento (final da década dos trinta), estavam entregando comunistas alemães para a Gestapo, impedindo que Getúlio ficasse sendo o único a mandar comunistas para os braços dos nazistas.

Uma das amigas de Olga, alemã exilada em Moscou, e que estava sendo preparada para substituí-la no Brasil, ainda a encontrou no campo de concentração no qual foi assassinada em 1942 — a amiga de Olga, como dezenas de outros, fizera parte de uma das ‘entregas’ da NKWD (a polícia política soviética) para a Gestapo.

Não sabemos o que Olga teria dito se tivesse vivido para ver o marido e pai de sua filha, apenas dez anos depois, no mesmo palanque do homem que a mandou deportar. Foi a última tragédia envolvendo Olga, o fato de as razões políticas do partido terem feito Prestes, na prática, perdoar em público o algoz de sua mulher.

Aí está o significado atual, a mensagem que as tragédias de Olga trazem para o Brasil de hoje. Não é a mensagem do ‘ímpeto romântico pelas causas sociais’, deturpada no caso de Olga por máquinas burocráticas que reduziram seus integrantes a meras engrenagens. É o fato de que o princípio da ação é a consciência, a própria consciência, e que a liberdade de cada um, para terminar usando uma frase da grande figura trágica da esquerda alemã, Rosa Luxemburgo, termina onde começa a do próximo.”

*

Obs.: Como a vida de Olga Benário mostrada no livro de Moraes e no filme de Monjardim, a Comissão brasileira que concede indenizações a “perseguidos políticos” não passa de um gigantesco embuste, apoiado em uma roubalheira sem fim do erário, transformando a MENTIRA, a COVARDIA, o ASSASSINATO e a TRAIÇÃO em ações e sentimentos dignos do ser humano. A nossa República dos Bandidos está em mãos certas.


***

Brasília, 13 de setembro de 2006
Mensagem recebida de Graça Salgueiro:

De: Graça Salgueiro
Enviado: quarta-feira, 13 de setembro de 2006 15:13:30
Para: Cel Lício
Cc: Félix Maier
Assunto: O homem que prendeu José Genoíno

Estimado Cel Lício,

Estou encaminhando sua mensagem ao amigo Félix, pois acho que o sr. e ele poderão trocar excelentes figurinhas!

Lembro de um briga feia que peguei na rede com um milico safado e detrator dos Combatentes, um tal de 'Flávio Figueiredo' que desgraçadamente é coronel do EB, por ter 'tomado suas dores' sobre aquele depoimento na Câmara. Por conta disso, este infeliz de mente porca e degenerada, passou a difamar-me pela rede inteira rotulando-me de 'Gracinha batalhão', alegando que eu lhe defendia por ter saudade dos tempos em que 'passava todo um batalhão' numa noitada. A difamação foi tão torpe e grosseira porque o infeliz sequer sabia que em 64 eu era apenas uma menininha... Estávamos em sua defesa contra este animal eu, o Azambah e o Cel Sávio, meu dois muito queridos kamaradas e companheiros de front. Mas, valeu a pena porque ficamos sabendo que há Militares e milicos e este flávio é um deles.

Aguardo ansiosa o livro do Cel Madruga, com quem já fiz contato porque não posso ir à Brasília para o lançamento. E o seu, quando sai do forno? :-))

Abração aos dois amigos,

MG (Obs.: MG significa 'Miss Grace', ou seja, Graça Salgueiro. F.M.)

PS. O e-mail do Félix é esse: ttacitus@hotmail.com


***

Graça - respondi, em comentários, ao espaço colocado por Felix Mayeir, sobre o que falei no Congresso; não tenho o e-mail dele.

Recomendado: O homem que prendeu José Genoíno por Félix Maier 
Comentários (Obs.: site Usina das Palavras. F.M.)
Licio Maciel liciomaciel@ig.com.br

Prezado jornalista, escritor e advogado Felix Maier - não tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente, mas sou seu admirador pelos inúmeros artigos seus que tenho lido. Sua sinceridade e sua coragem são colocadas em verdadeira grandeza nos seus artigos. O que mais me impressionou, dentre vários, foi 'O meu tio Arno Preis'; sua colocação é digna de elogios e sua coragem é impressionante. Lembor muito bem; estávamos na área, nos primórdios da guerrilha rural. O Molipo se dispunha nos pontos estratégicos da Belém-Brasília e pretendia explodir os postos de combustíveis ao longo da estrada. Todos eles, do Molipo de Zé Caroço, tinham retornado de Cuba, após cursos de destruições, explosivos e guerrilhas, com as missões já delineadas, inclusive o Arno Preis. Todos os 23
componentes do Molipo que retornaram clandestinamente ao Brasil, foram presos e muitos mortos, pois não se entregavam, não atendiam à voz de prisão. Esses 23 'molipianos' foram traídos vergonhosamente por um dos componentes em Cuba, que os 'entregavam de bandeja'. Assim, cairam Jeová, Boanerges, outros dois na PA-70 que não me lembro dos nomes e o resto nas cidades. O Arno Preis foi morto em Paraíso, mas antes matou
traiçoeiramente dois militares. Por aí, você pode ver que a luta foi prolongada, constante e sangrenta.

Tudo que falei até hoje está confirmado nos documentos dos chefes dos comunas: João Amazonas, Angelo Arroio, Pomar, Maurício Grabois e muitos livros já escritos pelos jornalistas-comunas, que distorcem os fatos na tentativa de tapar o sol com peneira e também dos livros escritos por jornalistas íntegros e por alguns militares participantes da luta. O documento mais importante, o diário do velho, foi esmiuçado no livro do jornalista Hugo Studart, baseado também no dossiê elaborado por militares honestos e que participaram da luta; o Coronel Madruga acaba de lançar seu segundo livro sobre o Araguaia; o Coronel Ustra lançou seu livro sobre a guerrilha urbana, rompendo a barreira do revanchismo e assim por diante, a verdade aflorando, revelando a mentira deslavada dos comunistas que tomaram conta desse governo desmoralizado, como estamos vendo presentemente.

Encontrei esse seu artigo casualmente, navegando na WEB. É a transcrição exata do que falei na Câmara, resumo de minha atuação contra os bandidos. Muitos militares da minha equipe estão vivos, muitos parentes dos militares mortos estão vivos, inclusive a viúva do Cabo Rosa, irmãos, pais e tios, um grande número de pessoas que poderiam prestar exclarecimentos. Mas os jornalistas sem caráter e vendidos só interrogam os bandidos. O irmão do pobre rapaz que foi trucidado, o João Pereira, ainda está vivo, o Antonio Pereira Filho; é o maior trunfo de algum jornalista que pretenda escrever sobre o assunto. E não pode perder tempo, senão vão apagá-lo, como fizeram com Celso Daniel e muitos outros. E será o último 'furo', pois o assunto está chegando aos extertores, não há mais novidades no que nos interessa (apenas o achado dos restos mortais fica em espectativa). Se quizerem achar o Antonio Pereira, eu me disponho a ir até lá para convencê-lo a falar e, naturalmente, dar-lhe um forte e sentido abraço.

Fonte: Ensaios-->Tio Arno Preis -- 05/06/2003 - 17:46 (Félix Maier) - https://www.usinadeletras.com.br/


Leia, ainda, sobre Arno Preis em 

http://comissaodaverdade.al.sp.gov.br/mortos-desaparecidos/arno-preis

Arno Preis
Seminário de Santo Antônio
Agudos - SP


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