MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

quarta-feira, 31 de março de 2021

Livro revela que 7 guerrilheiros do Araguaia negociaram com militares e sobreviveram - Por Euler de França Belém

Livro revela que 7 guerrilheiros do Araguaia negociaram com militares e sobreviveram

    Por Euler de França Belém    

O jornalista Hugo Studart, mestre e doutor em História pela UnB, reabre, com seu mais recente livro, a história da Guerrilha do Araguaia, sugerindo que nem mesmo o PC do B valorizou os camponeses que participaram da batalha, e exibe a cadeia de comando militar que devastou a organização comunista

A Guerrilha do Araguaia passou por um processo de “reforma agrária” e não é mais propriedade privada exclusiva do Partido Comunista do Brasil. Durante anos, o PC do B se comportou como dono da história da batalha, enquanto os militares fingiam que nada tinham a ver com os fatos acontecidos no Sul do Pará e Norte de Goiás (Tocantins), entre 1972 e 1974. Aos poucos, pesquisadores acadêmicos e jornalistas não vinculados à organização de esquerda começaram a apresentar estudos rigorosos e objetivos — e não relatórios partidarizados — a respeito do confronto. Os melhores livros são de responsabilidade de jornalistas, como Eumano Silva, Taís Morais, Elio Gaspari, Luiz Maklouf de Carvalho, Leonencio Nossa e Hugo Studart, que, na prática, são historiadores. Studart defendeu dissertação de mestrado na Universidade de Brasília, que resultou no livro “A Lei da Selva — Estratégias, Imaginário e Discurso dos Militares Sobre a Guerrilha do Araguaia” (Geração Editorial, 383 páginas, de 2006). Agora, lança em livro sua tese de doutorado “Borboletas e Lobiso­mens — Vidas, Sonhos e Mortes dos Guerrilheiros do Araguaia” (Francisco Alves, 660 páginas).

No livro, que vai além da tese de doutorado, há o imbricamento do historiador rigoroso com a perspicácia do jornalista investigativo e a fluência do escritor que, sim, Studart é. Seus dois livros são cruciais àqueles que querem entender a Guerrilha do Araguaia de maneira mais ampla e matizada. Não há a preocupação de criar vilões e tampouco mocinhos, e sim a de apresentar um quadro nuançado do que aconteceu na região do Araguaia. O pesquisador contempla as visões dos contendores, guerrilheiros e militares, e apresenta sua interpretação — equilibrada e objetiva. De certa maneira, “reabre” a história da guerrilha. O capítulo 19, “Sonata para Carmen”, apresenta uma história que, por vezes, não agrada à esquerda — que tende a apresentar uma guerrilha que, de tão heroica, deixa a impressão de que saiu “vencedora” e defendia a democracia. O pesquisador descobriu, e relata os casos de maneira abrangente — sem julgamentos morais toscos ou ideologizados —, que ao menos sete guerrilheiros, dados como mortos, inclusive por suas famílias e militares, estão vivos. Fizeram acordos e ganharam novas identidades.

Pouco antes de entrar para o PC do B e para a guerrilha, o estudante de farmácia e bioquímica Hélio Luiz Navarro de Magalhães, da Univer­sidade Federal do Rio de Janeiro, compôs uma música e a tocou no piano para sua mãe, Carmen Navarro Rivas. Depois, desapareceu e sua mãe nunca mais o viu. Há alguns anos, um repórter do Jornal Opção publicou uma reportagem — entre as fontes estava um guerrilheiro do Araguaia, Micheas Gomes de Almeida, o Zezinho do Araguaia —, na qual se informava que Hélio Navarro, o Edinho, havia sido visto no Mato Grosso, onde teria chegado a trabalhar com garimpo. Dias após a publicação da matéria, uma mulher, S. L., ligou na redação e ameaçou: “A mãe do Hélio Navarro, a sra. Carmen Navarro, ficou chateada com o texto publicado e pode processar o jornal”. Curiosamente, a família não moveu ação judicial contra o jornal.

Luíza Augusta Garlipe, a Tuca; Hélio Luiz Navarro de Magalhães, o Edinho; Maria Célia Corrêa, a Rosinha; Luiz Renê Silveira, o Duda; Antônio de Pádua Costa, o Piauí, e Tobias Pereira Júnior, o Josias, foram capturados pelo Exército e poupados pelos oficiais do Exército

Hiato de poder

No livro, Studart apresenta evidências, com fartura de informações, de que Hélio Navarro e pelo menos mais seis (quatro são mais mencionados) guerrilheiros sobreviveram depois de capturados — o que era raro, sobretudo no fim dos combates. Havia uma ordem do ministro do Exército do governo de Emílio Médici, Orlando Geisel — “Não sai ninguém da área” —, que, numa tradução realista, significa: “Matem todos”. O ministro, antes de conversar com o presidente da República, discutiu o assunto com Milton Tavares, chefe do Centro de Informações do Exército (CIE), e o tenente-coronel Carlos Sérgio Torres, do CIE. De fato, militares começaram a matar guerrilheiros capturados e que não representavam nenhum perigo para eles e para a sociedade. Entretanto, a partir de certo momento, na transição do governo de Médici para o governo do presidente Ernesto Geisel, um “ditobrando” que às vezes era “ditoduro”, houve uma mudança.

Hélio Navarro era filho de Hélio Gerson Menezes de Magalhães, capitão de mar e guerra da Marinha, e sobrinho do almirante Gualter Meneses de Magalhães, anticomunista visceral e chefe do estado-maior da Armada. Por isso, o Centro de Informações da Marinha (Cenimar) pedia informações ao Exército sobre o guerrilheiro, pois o queria vivo. O tenente-coronel Leo Frederico Cinelli, do CIE, havia sido amigo de Carmen Navarro na juventude e era a ponte entre o Exército e Marinha.

Cinelli “assumiu a missão de tentar” entregar Hélio Navarro aos pais. Em fevereiro de 1974, o militante do PC do B, depois de ferido de raspão, é preso. Ele estava com Luiz Renê Silveira, o Duda, e gritou: “Não quero morrer, chama meu pai, que é oficial da Marinha”. “Desde o início, Edinho e Duda mostraram-se dispostos a colaborar”, anota Studart. Antônio de Pádua Costa, o Piauí, resistiu, mas cedeu. Duda “guiou patrulhas militares na caça aos companheiros” e Piauí serviu de guia.

Correu entre os militares que o “filho do almirante” (na verdade, Gualter era tio do esquerdista) havia sido capturado e a informação foi levada à cúpula do Exército em Brasília. O guerrilheiro chegou a citar Cinelli, que, avisado pelo major Leônidas Soriano Caldas, o dr. Ribamar, contatou o Cenimar. “O almirante Fernando Rocha Paranhos, chefe do Cenimar, designou o comandante Lameira, à época capitão de corveta, para a missão de resgatar o filho do colega.” Como a esquerda tinha o hábito de justiçar “desertores” e “traidores” da causa, oficiais do Exército e da Marinha temiam pela vida de Hélio Navarro.

Em fevereiro de 1974, militares prenderam a “esquelética” Maria Célia Corrêa, a Rosinha, que havia sido namorada dos guerrilheiros João Carlos Wis­nesky, o Paulo, e Divino Ferreira de Souza, o Nunes (goiano). Grávida de Nunes, submeteu-se a um aborto, sob pressão do comandante guerrilheiro Zé Carlos (André Grabois). Fa­min­ta, delirava. Oficiais concluíram que não oferecia qualquer “perigo” e decidiram deixá-la viva. O pesquisador repara que havia o precedente de Marcos José de Lima, o Ari Armeiro, que, preso em setembro de 1972, passou a servir aos militares, chegou a ser infiltrado na guerrilha e sobreviveu. Edinho pediu aos militares que poupassem a vida de Duda e Piauí. A enfermeira Luíza Augusta Garlipe, a Tuca, formada pela USP, foi presa com a famosa guerrilheira e geóloga Dina (Dinalva Conceição Oli­vei­ra Teixeira). Como não era “perigosa”, foi poupada. Tobias Pereira Júnior, o Josias, também escapou.

Studard afirma que, com o novo governo, o de Geisel, houve, num certo momento, um “hiato de poder”. O general Confúcio de Paula Avelino, novo chefe do CIE, “decidiu discutir a pertinência de uma operação para poupar a vida de alguns guerrilheiros”. O tenente-coronel Cinelli concordava com seu superior e o tenente-coronel Carlos Sérgio Torres era refratário à ideia.

Dinalva Conceição Oliveira, a Dina; Dinaelza Soares Santana Coqueiro, a Maria Diná; e Lúcia Maria de Souza, a Sônia, do PC do B, eram guerrilheiras de grande coragem. Elas combateram duramente as forças do Exército

Os mortos-vivos

A ideia de trocar a identidade dos guerrilheiros “arrependidos” foi do tenente-coronel Flávio Demarco, o Tio Caco, coordenador-geral da Operação Marajoara. Os “arrependidos” seriam considerados, para os registros oficiais, como “mortos”. Eram os “mortos-vivos”.

A “operação mortos-vivos”, classificada como “secreta”, foi planejada e organizada em Brasília pelo major Ronaldo Lira, do CIE, sob coordenação do tenente-coronel Cyro Etchegoyen. Ele recebeu o apoio do comandante Lameira, do Cenimar. “No Araguaia, a execução ficou a cargo do major Leônidas Soriano Caldas.” O sargento José Reis, o Régis, era seu assistente direto. O capitão Sebastião Rodrigues de Moura, que passou à história como Major Curió, não foi avisado da operação. Porque defendia a execução dos prisioneiros.

Para disfarçar a operação, inclusive ludibriando militares de certa relevância hierárquica, o sargento Régis simulou que os guerrilheiros Edi­nho, Duda e Piauí haviam sido executados. Na verdade, foram transferidos para Brasília. O sargento Remo simulou a execução de Rosinha. Tobias Pereira Júnior foi retirado de automóvel do cenário da guerrilha.

Aos 24 anos, Hélio Navarro, o mais protegido, foi o primeiro a ser levado para Brasília. Seguiram-no Duda, de 22 anos, Piauí, de 30 anos, Rosinha, de 29 anos, Josias, de 24 anos, e Luiza Augusta Garlippe. Na capital, foram levados para a Polícia Federal — o general Antônio Bandeira era seu diretor — mas ficaram sob a responsabilidade do CIE.

Sob proteção do almirante Gualter, Hélio Navarro conseguiu emprego no hipermercado Carrefour, em São Paulo. Tobias Pereira “recomeçou a vida no Mato Grosso”. Sua família, sintomaticamente, não pediu indenização ao governo federal e não fala com historiadores e jornalistas.

Luiz Renê, Antônio de Pádua e Rosinha ganharam empregos em Brasília, arranjados pelo coronel Jarbas Passarinho, que era ministro da Educação. O objetivo era “lavar” a nova identidade, forjar currículos. Tanto que, depois, os três deixaram o Ministério da Educação. (Studart não conta, pois não é objeto de sua pesquisa, mas Passarinho conseguiu empregos para ex-esquerdistas goianos que se apresentaram como “arrependidos”. Dois moram em Brasília e um em Goiânia. Um deles se aposentou pela Universidade Federal de Goiás.

Em 1980, Hélio Navarro foi visto por Elza Monerat, no Rio de Janeiro. Ele casou-se e tem dois filhos. “Com o falecimento de seu pai, em 1999, Hélio Luiz se apresentou à Receita Federal em 8 de agosto de 2001, com sua verdadeira identidade, a fim de regularizar o CPF e liberar inventário.” Em seguida, desapareceu. Não há registro de que tenha procurado a mãe e sua irmã, Aglaé. Certa vez, Carmen Navarro enviou uma carta, por intermédio de um militar, e o ex-guerrilheiro a leu e chorou muito. Mas não há registro de que tenha feito algum contato. Luiz Renê também não procurou sua família.

Paixão na guerrilha

O livro de Studart sugere que a Guerrilha do Araguaia, vista como movimento unicamente do PC do B — com a participação majoritária de pessoas que frequentaram universidades —, deve ser reavaliada. Trata-se de um movimento mais popular do que parece, que contou com ação de vários camponeses, que participaram direta, como guerrilheiros, e indiretamente, como base de apoio. Vários camponeses foram torturados e mortos. “34 camponeses restaram mortos ou desaparecidos durante os conflitos. Há outros 43 camponeses que deram apoio à guerrilha.” Setenta e sete camponeses participaram da luta ao lado dos militantes do PC do B — além de “outros 142 chefes de família apontados como simpatizantes”. O pesquisador “coloca-os” na história — uma história “ignorada” inclusive pelos comunistas —, apresentando seus nomes. Os militares que dirigiram o combate aos militantes da esquerda são mencionados por nomes completos, além dos codinomes. São arrolados, entre os outros, o coronel Gilberto Airton Zenkner, o tenente-coronel Carlos Sérgio Torres, o major Leônidas Soriano Caldas, o capitão Roberto Amorim Gonçalves, o major Lício Augusto Ribeiro Maciel (que aparece em vários livros), o major Roberto Sampaio Loureiro, o major Thauma­tur­go, o major Diprimio, o major Othon do Rêgo Monteiro Filho (Otto), o major Nilton de Albu­querque Cerqueira (o Faixa Branca), o major Celso Seixas Marques Ferreira (dr. Brito), o tenente-coronel Leo Frederico Cinelli, o tenente-coronel Wilson Brandi Romão (dr. Zico), o tenente-coronel Flávio Demarco, o tenente-coronel Hydino Sardenberg Filho e o major José Brant Teixeira. Desmitifica-se o Major Curió, que, apesar da fama (disseminada por jornais e pelo militar), não era um personagem central e cuja autonomia era menor do que se costuma pensar.

Adepto da foquismo — focos guerrilheiros instalados notadamente no campo —, o PC do B acreditava que, a partir das matas, do campo, se poderia cercar as cidades e derrotar a ditadura. Paradoxal­mente, os militares usaram a cidade, com sua fartura de homens, armas e aviões, para cercar o campo e destruir a guerrilha. O maoísmo do partido era mais produto de uma fé, fanática, do que de uma análise criteriosa e realista da correlação de forças. Só com muita boa vontade é possível admitir que a maioria dos estudantes que foram lutar no Araguaia era de fato guerrilheira. Eles eram jovens criados em cidades, é provável que muitos nunca tinham visitado uma fazenda e tiveram dificuldade de se adaptar à vida na mata — a maior parte jamais se adaptou e, no geral, vivia doente. Alguns, quando puderam, escaparam.

Há um segredo de polichinelo: em 1974, um dos líderes da guerrilha, Ângelo Arroyo, escapou do Araguaia — tendo Micheas Gomes de Almeida como guia —, ao lado de um terceiro homem. Zezinho do Araguaia não revela o nome; garante que não se lembra. Há a suspeita de que tenha sido João Amazonas. Mas o “guia” afirma que era um homem mais alto.

Ao contrário de outros livros, que são sisudos, o de Studart aventura-se, por vezes, por assuntos da vida privada. Dina, a borboleta (era difícil pegá-la, diziam os camponeses), era casada com Antônio Carlos Mon­teiro Teixeira, mas era apaixonada por Pedro Gil. Para a camarada Lúcia, que sugeria que não era possível amar na floresta, ela disse: “Você tem de entender que a mata é nossa casa, nossa vida. Precisamos ser felizes aqui”. Alguns guerrilheiros, como Francisco Chaves e Áurea Eliza Pereira Valadão, tinham interesse nas artes dos terecozeiros. Áurea chegou “a se consultar com um espião-terecozeiro”. Era um agente disfarçado. Certa feita, ao ser traído por uma viúva, de quem era amante, Osvaldão Orlando Costa expropriou seu castanhal. O camponês Raimundo Severino, o Raimundinho da Pedrinha, não deixou por menos: “Osvaldo trocou o chifre pelo castanhal”.

No livro “Autópsia do Medo — Vida e Morte do Delegado Sérgio Paranhos Fleury” (Globo, 650 páginas), de Percival de Souza, há a revelação de que uma irmã do jornalista Raimundo Rodrigues, ex-editor da “Veja” e do jornal “Movimento”, havia sido amante do delegado que torturou dezenas de militantes da esquerda. Studart revela outra história parecida. Criméia Alice de Almeida, guerrilheira do Araguaia, teve um relacionamento afetivo com o sargento Joaquim Artur Lopes de Souza, o Ivan — o militar que matou Dina.

Há a terrível história de Maria Lúcia Petit, que, ferida gravemente, teria sido enterrada viva. Rosalindo Cruz Souza, o Mundico, foi justiçado pelos guerrilheiros — teria sido assassinado por Dina. A tese mais aceita é que mantinha relacionamento com Áurea Valadão, que era casada com Arildo Valadão, e o adultério, talvez sobretudo o feminino, não era aceito. Studart apresenta outra informação: ele queria sair da guerrilha — e isto era considerado um crime pelo qual se pagava com a vida.

As mulheres guerrilheiras, como Dinalva Conceição Oliveira Teixeira, a Dina, Dinaelza Soares Santana Coqueiro, a Maria Diná, Helenira Rezende de Souza Nazareth, a Fátima Preta, e Lúcia Maria de Souza, a Sônia (feriu o major Lício Augusto Ribeiro e o major Curió e disse: “Guerrilheiro não tem nome, tem causa”), demonstraram uma coragem impressionante — que chegou a assustar oficiais e soldados.

Um cabo do Exército infiltrado no PC do B, durante a guerrilha, continuou como militante até morrer. Joaquim Arthur, o Ivan, infiltrou-se no Destacamento B, o de Osvaldão Orlando Costa. Em 1972, revela Studart, o general Antônio Bandeira infiltrou no Araguaia um antigo militante da VAR-Palmares. “Ele era de Goiânia” e tinha “entre 35 e quarenta anos”, era “mulato, magro, trabalhador”. Atuou no destacamento de Osvaldão.

O livro de Studart abre, para quem quiser, as portas para novas pesquisas. É um manancial de ganchos para aqueles que planejam escrever dissertações de mestrado, teses de doutorado ou mesmo reportagens. O que se comentou aqui não representa 10% da obra, que, ao ampliar horizontes, é fundamental para a compreensão da Guerrilha do Araguaia. A obra é incontornável para pesquisadores e leitores comuns.


Fonte: https://www.jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/imprensa/livro-revela-que-7-guerrilheiros-do-araguaia-negociaram-com-militares-e-sobreviveram-130621/?unapproved=61665&moderation-hash=03000488d3b869925a6ed831a49f6382#comment-61665


Pronunciamento histórico de Cid Moreira sobre 31 de março de 1964



Pronunciamento histórico de Cid Moreira, ao  anunciar que os militares salvaram o Brasil de ser comunista, em 1964 


https://www.youtube.com/watch?v=q_g52-Bci38

https://www.facebook.com/felixmaier1950/posts/3119705991592494

https://mail.google.com/mail/u/0?ui=2&ik=bacae0cc40&attid=0.1&permmsgid=msg-a:r4450933095856396147&th=17885dcb0fc4b435&view=att&disp=safe&realattid=17885dd25fcb98d3b991


terça-feira, 30 de março de 2021

AS NOVAS CABEÇAS-DE-PONTE DO KREMLIN NA AMÉRICA LATINA - Por André F. Falleiro Garcia

Militares russos na Venezuela


AS NOVAS CABEÇAS-DE-PONTE DO KREMLIN NA AMÉRICA LATINA

André F. Falleiro Garcia

Ano: 2008

Alguns leitores pediram mais dados com relação à nota aqui publicada com o título 'A escalada da presença militar russa na América Latina'. Oxalá se sintam plenamente atendidos com o panorama histórico-político que agora será descortinado.

De fato, a Rússia solicitou sua admissão, na qualidade de observadora, no Conselho de Defesa Sul-Americano da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), como informou o Ministério de Defesa da Argentina em comunicado de imprensa divulgado em 14 de outubro de 2008. O pedido foi feito pelo Secretário do Conselho de Segurança russo, Nikolay Patruscev, durante uma reunião em Buenos Aires com a ministra da Defesa, Nilda Garré. [1]Teme-se que o pedido seja aceito, o que agravaria muito a situação no hemisfério sul.

A delegação russa também pediu a inclusão da Rússia na Associação Latino-Americana de Centros de Treinamento para Operações de Paz (Alcopaz). Especialistas em defesa russos e argentinos se encontrarão previamente em 4 de novembro de 2008 e depois participarão da reunião da Comissão Mista de Cooperação Técnico-Militar em 17 e 18 do mesmo mês. Estão em andamento tratativas para a compra de helicópteros pesados russos especialmente valiosos para missões antárticas, segundo o comunicado.

É extremamente grave a admissão da presença russa em organismos de defesa sul-americana, bem como a intensificação do fornecimento de material bélico. Para que os leitores avaliem melhor a nova conjuntura sul-americana, será apresentado a seguir um quadro de conjunto.


UNASUL, novo instrumento para a propulsão da revolução continental

A UNASUL (União de Nações Sul-Americanas) é uma organização internacional criada formalmente em 23 de maio de 2008 em Brasília, com o objetivo de realizar a coordenação política, econômica e social dessa região. Possui 12 membros: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai, Venezuela. Dois países comparecem como observadores: México e Panamá.


China, Unasur e Partido Socialista Chileno: será mera casualidade a semelhança de cores e símbolos nessas bandeiras?

Em matéria econômica, tem em vista estabelecer uma zona de livre comércio continental abrangendo o Mercosul e a Comunidade Andina de Nações, além do Chile, Guiana e Suriname. A orientação ideológica da maioria dos governantes da região é contrária aos Estados Unidos e à ALCA (iniciativa norte-americana de criação de uma Área de Livre Comércio das Américas que exclui Cuba). Sob direção da esquerda, está em curso a construção de um amplo bloco econômico socialista na América do Sul.

Sua sede será estabelecida em Quito, Equador; o seu banco (Banco do Sul), em Caracas, Venezuela; o seu parlamento, em Cochabamba, Bolívia. Exatamente as nações cujos governantes - Rafael Correa, Hugo Chávez e Evo Morales - são considerados os maiores propulsores da revolução comunista continental, juntamente com os dirigentes cubanos.

A presidência provisória da entidade no momento cabe à presidente socialista do Chile, Michelle Bachelet. A reunião de cúpula realizada no mês passado em Santiago - o primeiro teste de eficiência da nova entidade - contou com a presença de 9 presidentes, que declararam apoio unânime a Evo Morales no conflito político interno boliviano, que envolve os departamentos que buscam maior autonomia em relação ao governo central. A primeira atuação política da UNASUL, em sintonia com os interesses ideológicos do Foro de São Paulo, fortaleceu Evo em detrimento de seus opositores. [2]

A idéia da criação do Conselho de Defesa da América do Sul foi apresentada oficialmente pelo Brasil na reunião de fundação da UNASUL em Brasília e rejeitada apenas pela Colômbia. O Conselho, que está em formação, terá como função a elaboração de políticas de defesa conjunta, intercâmbio de pessoal entre as diversas Forças Armadas continentais, realização de exercícios militares conjuntos, participação em operações de paz da ONU, troca de análises sobre os cenários mundiais e integração das indústrias de material bélico. A primeira atuação do Conselho no campo da defesa militar, poderá ser justamente a admissão da presença russa, em detrimento da influência norte-americana na região.


A cabeça-de-ponte russa na Venezuela

Novas compras de armamentos: Nicolay Patrushev (esq.) e o General venezuelano Francisco Carmago Duque

O relacionamento na área militar entre o governo venezuelano e o russo já é um fato consumado. Hugo Chávez já gastou US$ 4 bilhões para a compra de 24 jatos Sukhoi, 50 helicópteros e 100.000 fuzis russos. Pretende adquirir também cerca de dez a vinte sistemas antiaéreos Tor-M1, novos mísseis, de 100 a 500 tanques e submarinos.

Em sua recente viagem à Rússia, Hugo Chavez defendeu a formação de uma aliança estratégica para defender seu país supostamente ameaçado pelos Estados Unidos. Nessa ocasião, o presidente russo, Dmitri Medvedev, declarou a Hugo Chávez que a ativa cooperação entre Moscou e Caracas 'se transformou em um dos fatores fundamentais da segurança regional' na América Latina. [3]


A tentativa russa durante a Guerra das Malvinas

Agora, a Rússia estreita relações político-militares com a Argentina e, por meio dela, com a UNASUL. Manifesta-se, mais uma vez, o seu interesse em se servir desse país para intervir na América do Sul. Nos últimos anos, a política russa justifica temores crescentes de que estamos assistindo à consolidação de um poder coletivista, totalitário e imperialista.

Coluna britânica avança nas Malvinas

Sua tentativa anterior fracassou, por ocasião da Guerra das Malvinas em 1982, quando ensaiou sem sucesso a intervenção militar, numa aliança com a Junta Militar argentina que foi abortada e não se efetivou. Nessa ocasião, tentou se aproveitar da necessidade argentina de ajuda militar para enfrentar a armada britânica.

Documentos secretos já revelados e depoimentos expressivos comprovam o envolvimento russo. Durante o conflito, foram freqüentes as visitas do embaixador russo à Chancelaria argentina e cresceu a atuação do serviço secreto russo em Buenos Aires. Os radares espaciais russos forneceram informes sobre a movimentação britânica e submarinos nucleares soviéticos se moviam em águas próximas. Fidel Castro ofereceu tropas cubanas e até contingentes internacionais para a luta contra os ingleses.

Conforme publicou o jornal O Estado de São Paulo, 'o governo brasileiro monitorou com preocupação a ajuda militar soviética prestada à Argentina em 1982'. Na ocasião, houve da parte das autoridades brasileiras intranqüilidade 'com a aproximação da Argentina com os países de regime comunista ou próximos politicamente da União Soviética, especialmente por causa do abastecimento de armas, disponibilidade de bases aéreas e entrega de urânio enriquecido'. Por via indireta, através da Líbia dirigida por Khadafi, a Argentina recebeu 120 mísseis soviéticos Sam-7. [4]

Além disso, mais de 170 documentos secretos do Departamento de Estado norte-americano vieram recentemente a público, a pedido do diário argentino La Nación.[5] Comprovam que o então presidente Ronald Reagan e o Departamento de Estado temiam o expansionismo russo a propósito das Malvinas, que poderia resultar numa conflagração mundial. Por isso, os Estados Unidos não formalizaram apoio à Inglaterra, para não dar pretexto à intervenção russa.

O general russo Nikolai Sergeievitch Leonov, 79 anos, que à época do conflito nas Malvinas era o diretor do Departamento Analítico-Informativo da KGB e principal especialista em América Latina, confirmou à Folha de São Paulo os contatos entre o adido soviético e a Chancelaria argentina.

Confessou o general Leonov, que também fez declarações análogas ao diário Russian Mirror, de Londres: 'Inicialmente, queríamos fornecer armamentos diretamente, mas os argentinos se recusavam a algo entre governos diretamente. Queriam algo no nível de empresas'. 'Estávamos dispostos a ir muito longe, muito mais do que se pensa. Eles precisavam de mísseis terra-ar, ar-mar e mar-mar, mas não se atreveram a comprar armamento soviético. Então fornecemos imagens de satélite da movimentação da Força Expedicionária Britânica no Atlântico, mas acho que eles desconfiaram dos dados que nós enviamos e os contatos morreram'. [6]


O contexto sul-americano e a articulação comunista na Guerra Fria

Carter e Brejnev assinam em 1979 o acordo Salt II. Durante a Guerra Fria, a 'distensão' foi entremeada de aventuras russas como a das Malvinas

Durante o longo período da Guerra Fria houve o embate entre o bloco comunista liderado pela União Soviética e o bloco ocidental encabeçado pelos Estados Unidos. Ao descontentamento interno no mundo soviético e seus satélites se somava o impasse em que estava mergulhado o movimento comunista internacional, pressagiando a crise que resultou na queda do Muro de Berlim e na mudança de regime. Tal impasse se devia ao fracasso da estratégia comunista clássica, seja o recurso à ação subversiva violenta, seja a disputa eleitoral democrática, ou ainda, o proselitismo doutrinário.

A saída encontrada foi a intensificação da guerra psicológica revolucionária, na qual teve grande papel a aplicação da doutrina de Gramsci. A 'psy war' tinha em vista tirar do adversário a vontade de lutar, desestimulando, neutralizando ou desmoralizando aqueles que mais estavam em atitude de resistência e luta no Ocidente. A estratégia gramscista objetivava a conquista da sociedade e não apenas do poder político. Para alcançar o domínio sócio-cultural e modificar as mentalidades, era preciso primordialmente neutralizar o maior bastião de luta anticomunista, a Igreja Católica, e depois transformá-lo em propulsor dos objetivos revolucionários. Durante longa parte do século XX, as nações do Ocidente e a Igreja Católica foram vítimas da aplicação dessas táticas.

A América do Sul se revelou uma 'praça de guerra' oportuna para o movimento comunista internacional. De fato, no início dos anos 70, a ascensão do socialista Salvador Allende pela via eleitoral, com a cumplicidade do Partido Democrata Cristão e o apoio do Cardeal Silva Henríquez, reacendeu as esperanças comunistas. Mas a queda de Allende e a proliferação de ditaduras militares sul-americanas de sentido anticomunista representaram um duro golpe nesse sinistro projeto.

Surgiu para o regime soviético, no início dos anos 80, a possibilidade de expansão na América Latina, a partir da Guerra das Malvinas. De um lado, a entrada dos comunistas russos no conflito abriria as portas da nação argentina. Uma vez ali estabelecidos, dificilmente sairiam; estaria instalado um foco de 'vietnamização' atraindo a intervenção norte-americana. De outro lado, a constatada presença de uma força naval soviética na área, incluindo submarinos atômicos, transformaria a região num possível epicentro de uma conflagração nuclear de proporções mundiais; esse fator de intimidação teria grande peso para a fixação da 'cabeça-de-ponte'.

O patriotismo argentino vibrou com a possibilidade de recuperar uma parte do país perdida para os ingleses no século XIX. Mas em certo momento esse ânimo arrefeceu. A divulgação pública dessa maquinação soviética provocou o desgaste da Junta Militar e jogou por terra a possibilidade de aliança com os comunistas.

Um manifesto, publicado em importantes jornais de Buenos Aires e nas principais capitais do mundo, inclusive Londres e Washington colocou para a opinião pública argentina, majoritariamente católica e conservadora, a questão crucial:

- 'Se nos atrevemos a enfrentar a Inglaterra por amor às Malvinas, não nos atreveremos a recusar as solicitações da Rússia comunista por amor de Deus?'.

- 'se a Argentina vier a se aliar com a Rússia ou a aceitar o apoio militar russo, teremos perdido muito mais do que ganho, pois a intenção óbvia da Rússia consiste em impor, cedo ou tarde, um governo títere em nossa Pátria'. [7]

O efeito dessa ação de esclarecimento público das então pujantes associações Tradição, Família, Propriedade, mediante campanhas de ruas, faixas, publicações nos jornais, envio de cartas públicas às mais altas autoridades sul-americanas, foi reconhecido pelo general Leonov em sua entrevista à Folha de São Paulo: 'Efetivamente, à época da guerra os britânicos localizaram barcos e submarinos soviéticos perto das águas do conflito, e bastou essa insinuação de apoio, que nada teve a ver com as negociações secretas em Buenos Aires, para que grupos - como a Tradição, Família e Propriedade - argentinos fossem às ruas para criticar o até então popular governo em guerra.'

Também deve ser lembrada e ressaltada a ação corajosa de Plinio Corrêa de Oliveira, aconselhando a entidade TFP da Argentina, publicando artigos na Folha de São Paulo, enviando carta pública às autoridades brasileiras e dirigindo campanha pública de esclarecimento que marcou na época o centro de São Paulo.


Renascem as esperanças russas no atual contexto sul-americano

Em vista do crescente perigo representado pela nova política russa, essas ações de rua foram aqui lembradas para destacar a dramática situação em que estamos neste momento: a grande ausência de movimentos anticomunistas organizados e capazes de galvanizar a opinião pública sul-americana em manifestações de rua, e também o estado de apatia generalizado da população. Por exceção, no início do ano houve o caso colombiano, em que milhões de pessoas foram espontaneamente às ruas para protestar contra as Farcs. Mas não há mais, na indolente Argentina atual, a reatividade anticomunista que houve na época da Guerra das Malvinas. No caso das resistências populares nos departamentos que reivindicam maior autonomia na Bolívia, ou dos ruralistas que protestaram contra o governo Kirchner, tem-se a impressão de que as sadias reações foram prejudicadas por uma inábil tática de luta que enfrentou o caos usando as mesmas armas do caos, e não as que são conformes à ordem.


Evo Morales e o gestual comunista

Passados 25 anos do fim da Guerra das Malvinas, verificamos que nesse período não cessou o desenvolvimento da guerra psicológica revolucionária nem a aplicação prática do gramscismo. Intensificou-se a quebra psicológica das resistências ao comunismo e ao socialismo.

Após os acontecimentos do início da década de 90 no mundo soviético, que deram a impressão de uma desmontagem do comunismo, formou-se na América Latina o famigerado Foro de São Paulo, com a intenção de recuperar aqui o que foi perdido no Leste Europeu. Em menos de 20 anos, conseguiu que seus membros chegassem ao poder em mais de uma dezena de nações sul-americanas. A recente criação da UNASUL, na medida em que sirva aos desígnios desse Foro, representa um crescimento sem precedentes do perigo vermelho para o continente.

As novas cabeças-de-ponte do Kremlin na América Latina pressagiam um futuro conturbado e repleto de graves interrogações. Com certeza a presença russa produzirá grande impacto na linha de desestimular as reações ao comunismo e ao socialismo. Haverá um reacender dos anseios nacionalistas com a nova aproximação político-militar entre a Rússia e a Argentina? Estaria sendo preparado um novo foco de conflito internacional na Argentina, concretizando as ameaças de Hugo Chávez com relação à formação de 'vários Vietnãs' sul-americanos? A transformação da América do Sul num teatro de operações para as forças militares norte-americanas, inglesas e russas é uma hipótese tormentosa, que não favorece a idéia de que à distância assistiremos com tranqüilidade às conflagrações do novo milênio.


NOTAS

1 - Conforme despacho da agência France Press, de 14 de outubro de 2008.

2 - Sobre o Foro de São Paulo, ver o carta de Alejandro Peña Esclusa:

3 - Despacho da agência EFE, Moscou, 22 de julho de 2008.

4 - O Estado de São Paulo, 12 de novembro de 2006.

5 - Cfr. El Mercurio, Santiago do Chile, 2-4-2002.

6 - FolhaOnline, domingo, 13 de janeiro de 2008, 'Russo fala sobre como financiou comunistas na América do Sul', por Igor Gielow.

7 - O manifesto da TFP argentina, La independencia de la Argentina católica ante la efectividad de la soberania en un territorio insular, publicado originalmente no diário 'La Nación', em 13-4-1982, e depois em 'Clarín', ambos de Buenos Aires, foi ainda reproduzido em jornais de Washington e Nova York (EUA), Londres, São Paulo, Caracas, Bogotá e Cartagena (Colômbia), Quito e Guayaquil (Equador) e Santiago do Chile, sendo também difundido na Espanha. Foi retransmitido pela BBC de Londres. São dados extraídos da revista Catolicismo, outubro de 2002.

 [8] Nota postada em 05/03/2009: Informações recentes fornecidas pelas companhias petrolíferas que exploram as águas em volta das ilhas Malvinas, estimam em 18 bilhões de barris as reservas de petróleo ali localizadas. Representam 4 bilhões de barris a mais que as do pré-sal brasileiro. É o que noticiou no dia 29/01/2009 um extenso artigo do diário britânico The Guardian, informando que as empresas que operam na zona planejam iniciar as perfurações ainda este ano. É claro que a descoberta do "ouro negro", também noticiada pelo jornal Clarín, não arrefece a disputa em torno da soberania das Malvinas.

Fonte:


http://www.sacralidade.com/mundo2008/0029.cabeca_de_ponte.html

segunda-feira, 29 de março de 2021

O pesadelo de Paulo Freire - Por Miguel Nagib

Paulo Freire

O pesadelo de Paulo Freire

Agosto 2, 2020

“Justificar a doutrinação pela inexistência da neutralidade é como tentar justificar o roubo pela existência da cobiça.” Artigo de autoria do advogado Miguel Nagib, fundador do ESP.

Conta-se que, durante o exílio, Paulo Freire teria tido um pesadelo cuja lembrança o atormentou até o fim dos seus dias.

Sonhou que estava numa sala de cirurgia, pronto para ser operado. Viu, então, a seu lado, um homem que parecia haver saído de um chiqueiro, sujo dos pés à cabeça, segurando um bisturi.

‒ Quem é o senhor?, perguntou o futuro Patrono da Educação brasileira.

‒ Sou o médico que vai operá-lo, disse o homem.

‒ Mas o senhor está imundo, suas mãos estão imundas, o bisturi está imundo. O senhor não vai nem se lavar?

E o médico respondeu, enquanto riscava a barriga do paciente com o bisturi:

‒ Lamento, Sr. Paulo, seria inútil. Não existe ambiente que seja livre de contaminação.

Se o leitor já passou pela desagradável experiência de se dirigir à escola de um filho para reclamar do professor de Geografia que usa suas aulas para demonizar o agronegócio e glamourizar o MST; ou do professor de História que não perde uma oportunidade de falar do “golpe de 2016”; ou da professora de Português que obriga os alunos a ler artigos tendenciosos sobre gênero e feminismo, é muito provável que tenha recebido a seguinte resposta: “Ô, pai/mãe, não existe neutralidade!”

“Não existe neutralidade” é o salvo-conduto do professor-militante; a escusa padrão para justificar a pregação ideológica e a propaganda político-partidária em sala de aula.

De fato, se não existe neutralidade, não só não é possível exigir do professor que seja neutro, como é inútil fazê-lo, já que ele nunca o será. O que mais um militante disfarçado de professor precisaria escutar para ceder à ‒ humana ‒ tentação de fazer a cabeça dos alunos?

A dose de má-fé embutida nesse raciocínio é gigantesca. O fato de o conhecimento ser vulnerável à distorção ideológica deveria servir de alerta para que os professores adotassem as precauções necessárias para reduzir a contaminação. Em vez disso, os militantes o utilizam para justificar a doutrinação.

Ora, que a neutralidade não existe, isto é apenas um fato. A questão é saber que atitude devemos tomar diante desse fato.

Devemos relaxar e dar livre curso às nossas paixões, preferências, inclinações e preconceitos? Ou devemos fazer um esforço sincero para controlar e diminuir, tanto quanto possível, a influência desses fatores? Devemos aproveitar que os alunos estão ali, à nossa disposição, sem poder sair da sala, sob a nossa autoridade, dependendo da nossa avaliação, obrigados a nos escutar, a ler o que os mandamos ler e a estudar o que os mandamos estudar, para fagocitá-los ideologicamente, para que abracem nossas causas e votem nos nossos candidatos? Ou devemos fazer o possível para respeitar sua liberdade de consciência e de crença, e auxiliá-los de forma desinteressada na busca do conhecimento?

Como se vê, a questão não se situa na esfera do ser, mas na do dever ser. Não é um problema epistemológico, mas ético e jurídico. Justificar a doutrinação pela inexistência da neutralidade é como tentar justificar o roubo pela existência da cobiça.

Pode ser impossível eliminar totalmente a influência do fator ideológico; mas fazer um esforço metódico para reduzir e controlar essa influência é perfeitamente possível. Um cidadão comum não está obrigado a empreender tal esforço, mas um professor está; assim como um cirurgião, mesmo sabendo ou acreditando que não existe ambiente cirúrgico livre de contaminação, está obrigado a fazer uma assepsia rigorosa antes de abrir a barriga de um paciente.

Fonte: https://www.escolasempartido.org/blog/o-pesadelo-de-paulo-freire/