Jorginho, o menino que enfrentou
os chifres de uma vaca ainda
na barriga da mãe
Félix Maier
A
história aparece na narrativa pessoal de Jorginho como uma espécie de prólogo
de sua vida. Sua mãe, grávida, havia ido tirar leite de uma vaca quando o
animal a atacou. O episódio teria provocado problemas na gestação e contribuído
para que o menino viesse ao mundo antes da hora, com apenas sete meses. A parte
da prematuridade encontra confirmação em registros biográficos e reportagens
sobre sua vida: Jorginho dos Santos Mello nasceu em Ibicaré, SC, em 15 de julho
de 1956, e veio ao mundo pequeno, prematuro, a ponto de o diminutivo Jorginho
acabar se tornando seu nome definitivo.
Não
se sabe o que teria pensado aquela vaca depois do episódio. Talvez nada. Vacas,
ao contrário dos políticos, não costumam dar entrevistas para explicar suas
decisões. Talvez ela simplesmente tenha entendido que estava defendendo o leite
que considerava seu e que a mulher grávida havia chegado perto demais. O certo
é que, se o animal pretendia assustar a família, conseguiu. Se pretendia
impedir o nascimento daquele menino, fracassou completamente.
Jorginho
nasceu. E, aparentemente, nasceu com pressa. Essa pressa haveria de
acompanhá-lo pela vida inteira.
O
menino que chegou aos sete meses não demoraria muito para chegar a Herval
d’Oeste, à escola, ao trabalho, à política e, décadas mais tarde, ao governo de
Santa Catarina. Quando ainda era rapazote, ninguém poderia imaginar que aquele
menino franzino, que aprenderia a vender pé-de-moleque na Estação ferroviária,
trabalhar no frigorífico do Pagnoncelli e estudar no Colégio Melo e Alvim,
acabaria atravessando o longo caminho que separava uma pequena cidade do
Meio-Oeste catarinense dos gabinetes de Brasília e, finalmente, do Centro
Administrativo do Estado.
Mas
a vida política, quando contada depois que tudo aconteceu, parece uma estrada
previamente traçada. Na realidade, não é. Para o rapaz que vendia doce na
Estação, o futuro ainda era apenas uma palavra sem endereço.
Ibicaré, Herval e o começo da caminhada
Jorginho
nasceu em Ibicaré, naquele meio-oeste catarinense onde as cidades pequenas
pareciam viver em permanente diálogo com a roça, com as serrarias, com as
pequenas propriedades, com o Rio do Peixe e com a ferrovia. A região tinha seus
próprios ritmos. O dia começava cedo, o trabalho começava cedo e, para muita
gente, a vida começava a exigir responsabilidades antes que a infância tivesse
tempo de terminar.
A
família acabou se mudando para Herval d’Oeste, município vizinho, onde Jorginho
viveria uma parte decisiva de sua juventude. A cidade, ligada intimamente a
Joaçaba e ao movimento do Vale do Rio do Peixe, tinha uma característica que
hoje talvez seja difícil imaginar: a ferrovia era uma presença concreta na vida
cotidiana. Não era apenas um traço no mapa. Era barulho, fumaça, apito, carga,
passageiro, comércio e movimento.
A
Estação ferroviária de Herval d’Oeste era uma espécie de praça coberta onde a
vida passava sobre trilhos. Ali se encontravam os que chegavam e os que
partiam, os que tinham dinheiro e os que precisavam ganhá-lo, os viajantes de
passagem e os moradores que conheciam cada funcionário pelo nome. Havia
carregadores, engraxates, vendedores, curiosos, pequenos comerciantes e os
moleques que pareciam ter nascido sabendo que, onde houvesse um passageiro,
poderia haver algum trocado.
Jorginho
conheceu esse mundo ainda jovem. E não foi simplesmente para olhar. Foi para
trabalhar. Para ajudar sua mãe, vendia na Estação o pé-de-moleque feito com doce
de leite, transformado em uma guloseima que, nas mãos do rapaz, ganhou nome
próprio: pé-de-granfino. A palavra ficou como ficam certas expressões do
interior: ninguém sabe exatamente quando nasceram, mas todo mundo sabe de quem
são.
Pé-de-granfino era
uma palavra com sabor de infância, mas também tinha gosto de trabalho. A mãe
preparava. O filho vendia. O passageiro comprava. O dinheiro voltava para casa.
E a vida seguia mais leve.
Hoje,
quando se fala em empreendedorismo juvenil, aparecem palavras como startup,
inovação, plano de negócios, mercado, estratégia e marketing. Naquele tempo, um
garoto com uma bandeja de doces na Estação não precisava de nenhuma dessas
palavras. Tinha apenas um produto, alguns compradores e a necessidade de
vender.
Talvez
tenha sido a primeira escola de economia de Jorginho. E talvez tenha sido
também sua primeira escola de política. Porque vender doce para viajante exige
alguma habilidade.
É
preciso saber abordar sem incomodar, elogiar o produto sem exagerar, perceber
quem tem dinheiro, quem está com pressa, quem está disposto a comprar e quem
apenas pergunta o preço para depois desaparecer. É preciso conhecer gente. Jorginho
aprenderia isso cedo.
A escola dos larfiudos
A
Estação tinha ainda outra escola, menos respeitável, mas provavelmente não
menos instrutiva. Era a escola dos moleques. Ali circulavam os meninos que
faziam pequenos trabalhos como carregadores e engraxates, aqueles que sabiam
onde ficava cada canto da plataforma, quem chegaria no trem seguinte e qual
passageiro costumava dar gorjeta. Eram meninos que aprendiam cedo a se virar. E
tinham uma língua própria, a larfiagem.
Não
se tratava exatamente de um idioma no sentido acadêmico da palavra, porque não
havia gramática, dicionário ou professor formado. Era uma linguagem de rua, de
molecada, feita de palavras inventadas, deformadas, trocadas e adaptadas, que
consistia basicamente em embaralhar as sílabas, para zarquiar da
polícia.
Quem
frequentava a Estação ferroviária de Herval d’Oeste aprendia. Jorginho, ao que
tudo indica, também aprendeu. E talvez tenha sido uma experiência importante. Porque,
quem aprende a entender uma linguagem diferente, aprende, ao mesmo tempo, que
as pessoas nem sempre dizem exatamente aquilo que parecem dizer. Há códigos,
intenções, ironias, disfarces, sinais e silêncios. Na política, muitos anos
depois, essa habilidade não seria inútil.
A larfiagem
talvez tenha sido apenas uma brincadeira de meninos. Mas era também um
exercício de observação social. Naquela pequena universidade sem diploma, o
professor era a rua. O quadro-negro era a plataforma da Estação. E os alunos
eram aqueles moleques que aprendiam a sobreviver entre malas, vagões,
engraxates, carregadores, passageiros e pequenos furtos.
Alguns
talvez tenham se perdido pelo caminho. Outros ficaram na memória. Jorginho saiu
dali para outras escolas. Mas, com certeza, não esqueceu a primeira.
O Melo e Alvim
No
início dos anos 1970, Jorginho estudava no Colégio Melo e Alvim, em Herval
d’Oeste. Era o tempo em que a cidade ainda tinha aquele jeito de lugar onde
praticamente todo mundo conhecia todo mundo ou, pelo menos, conhecia alguém que
conhecia todo mundo.
Foi
ali que Sílvia Maier, irmã de Félix Maier, conviveu com o rapazote de Ibicaré. O
colégio era outro mundo.
Se a
Estação ensinava a vida de maneira prática, o Melo e Alvim tentava organizá-la
em cartilhas, cadernos, provas, horários e disciplina. Era preciso estudar,
copiar, responder, decorar e passar de ano. Mas nenhum colégio consegue impedir
que os alunos sejam jovens. E os alunos daquela época também tinham seus
interesses muito além das matérias escolares.
Havia
as amizades. As brincadeiras. As paqueras. As matinês. E havia o frio. O frio
do Meio-Oeste catarinense, especialmente nos invernos mais rigorosos, não era
detalhe decorativo. Entrava pelas mangas, atravessava as calças e fazia
qualquer casaco parecer insuficiente.
Jorginho,
porém, tinha uma solução. O sobretudo. Um sobretudo inesquecível. Naquele
ambiente, o rapaz aparecia bem-apanhado, vestido com uma peça que lhe dava ares
de lorde inglês. Talvez Londres nunca tivesse ouvido falar dele, mas Herval
d’Oeste certamente ouviu.
Para
os meninos, aquilo podia parecer um exagero. Para as meninas, aparentemente,
era outra história. O sobretudo chamava atenção. E, nas matinês dançantes,
Jorginho não passava despercebido, era muito disputado.
Era
uma época em que a juventude tinha seus próprios rituais. As matinês eram
importantes. Dançar era importante. Saber se vestir era importante. Saber quem
estaria no salão era importantíssimo. E um rapaz de sobretudo, vindo da
Estação, trabalhando e estudando, parecia ter alguma coisa que o destacava.
Talvez
fosse apenas a roupa. Talvez fosse o jeito. Talvez fosse a mistura de confiança
e ambição que já começavam a aparecer. Ou talvez as meninas simplesmente
gostassem de um rapaz bem-vestido. A história não precisa de explicação
científica. Basta a memória.
O rapaz do frigorífico
Mas
o sobretudo tinha hora. Na escola e nas matinês, podia representar elegância.
No trabalho, não servia para muita coisa. Jorginho trabalhou no frigorífico de
Attilio Pagnoncelli, ligado ao abate de suínos, numa época em que o trabalho
industrial era uma das portas de entrada para jovens que buscavam alguma
independência.
Aquele
ambiente tinha pouco de lorde inglês. Ali havia trabalho. Havia horário. Havia
responsabilidade. Havia o mundo real. E o rapaz que queria se destacar
precisava mostrar que também sabia cumprir obrigações.
Essa
passagem pelo trabalho ajuda a compreender a diferença entre o personagem
lembrado pelas matinês e o jovem que construía sua própria trajetória. O
sobretudo não era toda a história. Era apenas a parte mais visível. Por baixo
dele havia um rapaz trabalhando. E trabalhando desde muito cedo.
A
vida de Jorginho foi marcada por essa combinação: aparência cuidada por fora e
disposição para trabalhar por dentro. Mais tarde viria o BESC. Aí o mundo
mudaria novamente.
No
Banco do Estado de Santa Catarina, Jorginho começou como funcionário e
construiu uma carreira que o levaria a gerente e diretor. Os registros da
Assembleia Legislativa indicam sua passagem pelo BESC entre 1975 e 2002.
Era
outro aprendizado. A Estação ensinara a lidar com gente. O frigorífico ensinara
a lidar com trabalho. O colégio ensinara a lidar com livros. O banco ensinaria
a lidar com papéis, números, responsabilidades e estruturas administrativas. E
a política já estava à espreita.
Vereador aos dezoito
Aos
dezoito anos, Jorginho foi eleito vereador de Herval d’Oeste. Aos dezoito. Isso
merece repetição porque, naquela idade, a maioria dos rapazes ainda estava
tentando descobrir como funcionava a própria vida. Jorginho já estava tentando
descobrir como funcionava a vida pública.
A
eleição ocorreu em 1976, pela Arena, e a Memória Política de Santa Catarina
registra que ele foi, entre 1977 e 1978, o mais jovem presidente de Câmara do
Brasil. Era o rapazote do Melo e Alvim entrando na política. Talvez alguns dos
colegas tenham pensado que aquilo era apenas mais uma aventura juvenil. Mas não
era. A vereança seria o primeiro degrau de uma escada longa. E é curioso
imaginar aquele jovem ocupando uma cadeira na Câmara Municipal depois de ter
circulado pela Estação vendendo pé-de-granfino.
No
mundo da política, ele descobriria que vender doce era relativamente simples. O
cliente podia dizer não. O passageiro podia ir embora. A conta era fácil. Na
Câmara, nada era tão simples. Ali havia opiniões, interesses, disputas,
discursos, alianças e desentendimentos. O rapaz teria de aprender rapidamente. E
aprendeu.
A
política municipal, porém, não seria ainda seu destino definitivo. Depois
daquele começo, ele se afastaria temporariamente da vida eletiva e construiria
sua carreira no BESC. Só mais tarde retornaria à política em escala maior. Isso
também é importante. Porque mostra que sua trajetória não foi uma ascensão
contínua, como às vezes parecem sugerir as biografias resumidas.
Houve
espera. Houve trabalho. Houve preparação. Houve uma vida profissional entre uma
eleição e outra. O jovem vereador não virou deputado imediatamente. Precisou
viver.
O tempo do BESC
O
BESC foi uma longa etapa. Foram décadas em que Jorginho esteve ligado à
instituição, começando em 1975 e chegando à direção. Nesse intervalo, também
estudou. Formou-se em Estudos Sociais e, posteriormente, em Direito. Aquele
rapaz que saíra da Estação ferroviária estava acumulando ferramentas. Talvez
sem saber exatamente para que serviriam todas elas. Mas acumulava.
Experiência
de rua. Experiência de trabalho. Experiência bancária. Formação acadêmica. Experiência
política. É assim que se constroem certas carreiras.
Não
há um momento único em que tudo acontece. Há pequenas aquisições. Uma
competência aqui. Uma amizade ali. Um conhecimento acolá. Uma eleição vencida. Uma
derrota a lamentar, como a presidência da ALESC, em 2001. Uma oportunidade. Uma
porta aberta. Outra fechada. É a vida, tchó!
E,
quando a pessoa olha para trás, percebe que aquilo que parecia disperso formava
uma trajetória.
De Herval para Florianópolis
Quando
Jorginho retornou à política eleitoral em meados dos anos 1990, já não era o
rapaz do sobretudo. Era um homem experiente.
Em
1994, foi eleito deputado estadual e assumiu em 1995. Depois, seria reeleito
sucessivamente, completando quatro mandatos na Assembleia Legislativa. A partir
daí, sua trajetória ganhou outra escala. Herval d’Oeste já não era o único
horizonte. O mundo agora era Santa Catarina. Mas o Oeste continuava dentro da
biografia.
Porque
uma pessoa pode sair de uma cidade pequena, mas raramente consegue sair
completamente dela. Carrega o sotaque. Carrega as lembranças. Carrega os
amigos. Carrega as histórias. Carrega os apelidos. Carrega até as palavras dos larfiudos
da Estação que aprendeu quando era moleque.
Talvez
por isso a figura do pé-de-granfino seja tão persistente. Ela lembra
que, antes de qualquer cargo, havia uma necessidade familiar. Antes do
gabinete, havia a Estação. Antes do discurso, havia a venda. Antes do voto,
havia o trabalho.
O caminho para Brasília
Depois
de quatro mandatos como deputado estadual, Jorginho chegou à Câmara dos
Deputados em 2011. Foi eleito em 2010 e reeleito em 2014, permanecendo na
Câmara até 2019.
Brasília
era outro universo. O rapaz que aprendera a larfiagem na Estação agora
circulava pelos corredores do Congresso Nacional. É uma dessas mudanças que
parecem quase absurdas quando colocadas lado a lado. De um lado, o menino
vendendo doce; de outro, o parlamentar discutindo leis. E, pelo caminho,
Jorginho logo descobriu que, em Brasília, também havia larfiudos —
talvez mais bem vestidos, mais letrados e muito mais habilidosos nas palavras
—, dos quais precisaria aprender a se defender e até a reconhecer à distância.
Afinal, a larfiagem mudara de cenário, mas não tinha desaparecido:
apenas trocara a plataforma da Estação pelos corredores do Congresso.
A
política brasileira é cheia de homens que começaram em lugares muito diferentes
daqueles em que terminaram. E o Oeste catarinense produziu muitos personagens
cuja história se mistura com trabalho, agricultura, indústria e pequenas
cidades. Jorginho levou consigo essa origem.
Em
2018, ele foi eleito senador por Santa Catarina. A trajetória estava se
tornando nacional. O garoto de Ibicaré chegava ao Senado. E ainda faltava o
último capítulo daquela escalada.
A eleição para governador
Em
2022, Jorginho Mello foi eleito governador de Santa Catarina. A Assembleia
Legislativa registra a sequência: vereador aos 18 anos, carreira no BESC,
quatro mandatos como deputado estadual, dois como deputado federal, senador e,
finalmente, governador eleito.
Quando
chegou ao governo, o rapazote de Ibicaré já era personagem da história política
oficial. Seu nome aparecia nos jornais. Sua fotografia estava nos cartazes. Seu
rosto era reconhecido em todo o Estado.
Mas,
para quem o conhecera nos corredores do Melo e Alvim, para quem o vira na
Estação, para quem lembrava do sobretudo, das matinês, do trabalho no
frigorífico e do pé-de-granfino, existia outra imagem. Uma imagem menor
e, justamente por isso, mais humana. A imagem do garoto. O governador podia ser
conhecido por milhões. Mas o rapazote ainda pertencia a Herval d’Oeste.
A cidade que ficou dentro dele
Herval
d’Oeste não foi apenas uma etapa administrativa na vida de Jorginho. Foi o lugar onde ele se tornou
jovem. E isso é diferente. Uma pessoa pode nascer em uma cidade e tornar-se
outra pessoa em outra cidade. Foi em Herval que Jorginho trabalhou, estudou,
vendeu doces, participou de matinês e entrou na política.
Foi
ali que seu nome começou a ganhar circulação. Foi ali que ele deixou de ser
apenas o menino de Ibicaré. E talvez seja por isso que a memória hervalense
tenha uma relação particular com ele.
Para
quem o viu circular pelos corredores do Melo e Alvim, trabalhar no frigorífico
e brilhar nas matinês, permanecia também a imagem mais íntima e humana: a de um
jovem bem-vestido, ambicioso no melhor sentido, carregando no corpo magro e no
olhar atento a semente de um destino que começara ali, entre larfiudos escorregadios,
pés-de-granfino, livros, danças, frio serrano e sonhos ainda sem nome.
A
cidade guarda o personagem antes da fama. É uma espécie de fotografia sem
retoque. Nela, não aparece o governador. Aparece o rapaz. E o rapaz estava
bem-vestido. Isso é importante. Porque a memória gosta de detalhes.
Ninguém
se lembra de uma pessoa apenas porque ela ocupou um cargo. Lembra-se porque ela
usava determinada roupa, falava de determinada maneira, frequentava determinado
lugar, tinha determinado hábito. O sobretudo é mais memorável do que muitos
discursos. O pé-de-granfino é mais saboroso do que um currículo. A
Estação é mais concreta do que uma biografia oficial.
Talvez
haja uma pequena filosofia escondida naquele doce. O pé-de-granfino era
feito em casa. Era levado à rua. Era oferecido. Era vendido. E dependia da
aceitação de quem estava do outro lado.
A
política também é assim, embora em escala muito maior. O candidato oferece uma
proposta. O eleitor decide. Um aceita. Outro rejeita. Outro desconfia. Outro
compra a ideia. Outro vai embora.
O
vendedor precisa insistir sem exagerar. O político precisa convencer sem
parecer desesperado. O vendedor precisa conhecer o freguês. O político precisa
conhecer o eleitor. O vendedor precisa voltar amanhã. O político precisa voltar
na próxima eleição. Talvez Jorginho tenha aprendido alguma coisa sobre isso na
Estação de Herval. Não porque estivesse fazendo política. Mas porque estava
aprendendo a lidar com pessoas. E essa é uma das escolas mais difíceis.
A lenda da vaca
Com
o passar dos anos, a história da vaca ganhou uma qualidade que todas as boas
histórias de família possuem: quanto mais se conta, mais interessante fica.
A
cena original é simples. Uma mulher grávida. Uma vaca leiteira. A ordenha. O
ataque. O susto. A gestação prejudicada. O nascimento prematuro.
Mas,
quando colocada diante do restante da biografia, a história ganha um aspecto
quase lendário. A vaca surge como a primeira antagonista. Não é uma adversária
política. Não é uma concorrente eleitoral. Não é um deputado de oposição. É uma
vaca. E uma vaca não negocia. Não faz acordo de bancada. Não pede reunião. Não
apresenta requerimento. Não pede emenda parlamentar. Porém, quando decide
avançar, avança.
Talvez
seja por isso que a imagem tenha tanta força. O menino ainda nem havia nascido
e já estava envolvido em uma crise. E saiu dela. Nasceu. Vingou. Cresceu.
A
frase que aparece em relatos sobre sua prematuridade — de que o pai chegou a
achar que o menino não vingaria — torna a história ainda mais expressiva. O pai
rendeu uma homenagem a um amigo próximo, o Jorjão, colocando seu nome no
documento do batismo, mas como Jorginho, de tão miúdo que o filho era.
Porque,
olhando para trás, fica impossível não perceber a ironia. O menino vingou. E
vingou bastante, como vingou!
Epílogo — O menino ainda está lá
Quando
os anos passam, a memória costuma fazer uma coisa curiosa: mistura o passado
com o presente. O governador de hoje se encontra, na lembrança, com o rapaz de
ontem.
O
homem com alguns cabelos grisalhos aparece novamente usando o sobretudo
imaginário do adolescente. O senador se encontra com o vendedor de pé-de-granfino.
O deputado se encontra com o aluno do Melo e Alvim. O político experiente se
encontra com o rapaz que aprendia larfiagem na Estação.
E,
no começo de tudo, antes de todos eles, está o pequeno Jorginho, ainda no
ventre da mãe, surpreendido por uma vaca que provavelmente jamais suspeitou do
tamanho do adversário que tinha diante dos chifres.
A
história poderia terminar dizendo que ele venceu a vaca. Mas seria pouco. A
verdade é que ele venceu muitas outras coisas chifrudas depois. Venceu o
tamanho pequeno com que nasceu. Venceu as incertezas da infância. Venceu as
dificuldades do trabalho precoce. Venceu a distância entre uma pequena cidade e
os grandes centros de decisão. Venceu a eleição para vereador.
Depois
do trabalho no BESC, voltou. Tentou novamente. E venceu. Da Estação de Herval
d’Oeste aos corredores da Assembleia Legislativa. Dos corredores da ALESC ao
Congresso. Da Câmara dos Deputados ao Senado. Do Senado ao governo de Santa
Catarina. Nesse tempo, casou-se e teve dois filhos.
E,
olhando tudo de longe, parece quase possível enxergar o caminho inteiro como
uma linha contínua. Mas não era. Era feito de pedaços. Um pedaço de Ibicaré. Um
pedaço de Herval. Um pedaço de Joaçaba. Um pedaço de escola. Um pedaço de
frigorífico. Um pedaço de banco. Um pedaço de política. Um pedaço de família. Um
pedaço de acaso.
E,
no começo de tudo, um pedaço de medo diante dos chifres de uma vaca. Talvez
seja por isso que a história tenha graça e, ao mesmo tempo, alguma ternura. Porque
o governador que hoje aparece nos palanques e nas solenidades já foi um garoto
que precisava vender doce para ajudar a mãe.
Já
foi o rapaz que chegava ao Melo e Alvim com um sobretudo que parecia grande
demais para a cidade. Já foi o jovem que disputava as atenções das meninas nas
matinês. Já foi o vereador de dezoito anos. E já foi, antes de tudo isso,
aquele pequeno ser que resolveu chegar ao mundo aos sete meses, depois que uma
vaca decidiu participar da história da família.
No
fim, a vaca ficou para trás. O trem passou. A Estação fechou. O colégio mudou. O
frigorífico mudou. O BESC desapareceu. Herval d’Oeste cresceu. Joaçaba mudou,
tem o Monumento a Frei Bruno. Santa Catarina mudou. E o garoto também. Mas
algumas coisas não desaparecem. Ficam na memória. Fica o pé-de-granfino.
Fica a larfiagem. Fica o sobretudo. Ficam as matinês. Fica a Estação. Fica
o rapazote de Ibicaré que, antes mesmo de conhecer o mundo, já havia enfrentado
os chifres de uma vaca.
E
fica, sobretudo, a pergunta que o tempo costuma fazer quando transforma um
menino em personagem da história: quem haveria de imaginar, naquele tempo, que
aquele pequeno Jorginho, chegado ao mundo aos sete meses e quase por encomenda
de uma vaca mal-humorada, um dia percorreria o caminho que vai de Ibicaré e
Herval d’Oeste até o governo de Santa Catarina?
Talvez
ninguém. Nem a família, que o recebeu tão pequeno; nem os colegas do Melo e
Alvim; nem as meninas das matinês, que disputavam o rapaz do sobretudo; nem os larfiudos
da Estação, que o conheceram vendendo pé-de-granfino. E muito menos a
vaca, que naquele dia, sem saber, acabou entrando para a história.
Se
soubesse o que vinha pela frente, talvez tivesse guardado os chifres para outra
ocasião. Mas já era tarde. O menino nascera antes da hora, e parece que levou a
pressa para a vida inteira.
Depois daquele primeiro susto, Jorginho nunca mais chegou tarde a lugar nenhum. Está sempre com pressa, com muita pressa. Especialmente nestes tempos em que ele tenta a reeleição para governador.







