MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Uma radiografia do MST - Por Félix Maier

 


Uma radiografia do MST

 (24/02/2003)

O jornalista Nelson Barreto, em palestra realizada para membros do Instituto Liberal de Brasília, no dia 20 de fevereiro do ano em curso, discorreu sobre uma tese de mestrado que defendeu perante a Universidade de Brasília (UnB), no curso de jornalismo, que trata da reforma agrária brasileira, mais especificamente, o MST.

Para tal trabalho, Barreto viajou mais de 20 mil km pelo Brasil, do Nordeste ao Rio Grande do Sul, visitando muitos acampamentos e assentamentos tidos como “modelos”.

Iniciou o apresentador dizendo que a primeira reforma agrária ocorreu no México, em 1915, seguido da Rússia, em 1917. Reformas agrárias foram também implantadas em todos os países comunistas do Leste europeu, na China comunista, na Colômbia, no Peru (feita pelos militares), no Chile. Todos esses projetos fracassaram rotundamente. Em 1999, o Egito revogou a reforma agrária iniciada por Gamal Abdel Nasser, no início da década de 1950.

No Brasil, a reforma agrária, como a conhecemos, tem sido apoiada por todos os últimos presidentes, a começar por Tancredo Neves, e continuando por Sarney, FHC e, agora, Lula. O movimento agrário começou a tomar vulto com o MST, a partir de 1985, com o apoio da ala progressista da Igreja Católica, especialmente a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs).

“Toda revolução deve se basear na reforma agrária” - sentenciou Ernesto Che Guevara, patrono do MST. O sistema em que se baseia o MST - o minifúndio - está em decadência no mundo inteiro. Nas últimas décadas, o avanço tecnológico no campo reduziu drasticamente o número de agricultores, que hoje produzem muito mais com muito menos pessoal. No Brasil, há ainda em torno de 5,5 milhões de propriedades. Os EUA, um dos maiores produtores de gêneros alimentícios do mundo, devido à sua alta tecnologia, têm menos de 2% de sua força de trabalho ocupada na agricultura. Naquele país havia 6 milhões de propriedades, hoje existem apenas 1 milhão.

O INCRA, ao cadastrar as propriedades brasileiras, muitas vezes emite dados incorretos, com erros grosseiros, pois se baseia em cartórios com documentos desatualizados ou falsos. Por exemplo, pôde ser constado um erro grave em São Paulo, Estado que tinha, segundo o INCRA, uma área duas vezes maior do que a realidade. Os tais 32 “latifúndios” que o INCRA dizia existirem no Estado nunca foram encontrados...

Durante o Governo FHC, 30 mil produtores rurais entregaram um manifesto ao Ministro da Agricultura, Andrade Vieira, para estudar os resultados da reforma agrária em andamento e corrigir o sistema, ou mesmo acabar com tal reforma, já que não vinha dando o retorno esperado, apesar das altas somas de verbas empregadas no projeto.

Durante os dois mandatos de FHC, foram assentadas 600 mil famílias, ao custo de aproximadamente R$ 20 bilhões (!!!), em uma área de 20 milhões de hectares (200.000 km²), mais do que toda a área do Estado do Paraná (199.323,9 km²), ou quase 5 vezes a área do Estado do Rio de Janeiro (43.653,3 km²). O MST tornou-se, assim, o maior latifundiário do Brasil, depois dos indígenas, também assentados em vastas reservas. Por exemplo, os Ianomâmis, com uma população pouco acima de 10 mil pessoas, têm um Portugal inteiro à sua disposição - o maior latifúndio do planeta.

Mostrou Barreto um slide de uma manchete do jornal Correio Braziliense, “Reforma agrária rende R$ 120 milhões por ano”. Na verdade, o CB apenas estava fazendo uma propaganda enganosa, já que apenas 6,5% das famílias conseguem auferir uma renda de R$ 250,00 por mês. Para provar que o atual sistema de reforma agrária é o mais acabado fracasso já havido em nosso País, basta dizer que o MST, com todas as terras ocupadas equivalentes a um Paraná inteiro, praticamente nada produz, ao contrário daquele Estado progressista, cujos produtores, fora do esquema da “reforma agrária” do MST, ocupando 1/3 da área do Estado, produzem 20% de toda a produção agrícola do País, ajudando o Brasil neste difícil momento a obter preciosas divisas no exterior.

Nos 4.000 assentamentos do MST hoje existentes no País, 80% dessas famílias somente sobrevivem graças à ajuda do Governo. São os novos “funcionários públicos”, como dizia FHC, com direito a receber sua “pensão”, que está se tornando vitalícia, já que nunca conseguem sua emancipação. A verba que o Governo FHC destinou a cada família assentada, a título de auxílio-habitação e despesas iniciais para o plantio, foi em torno de R$ 50.000,00. Porém, essa verba foi desviada, por muitos assentados, para outros fins, como a aquisição de uma TV e de uma parabólica! Casas de alvenaria, que começaram a aparecer nos assentamentos durante o Governo FHC, ainda são uma raridade. O dinheiro foi torrado, porém a maioria dos barracos continuam com lona e barro batido, não há mesas nem cadeiras em muitas residências, poucas plantações são realizadas.

Os créditos destinados aos “agricultores” do MST, provenientes do Banco do Brasil, normalmente não são honrados. Mesmo quando há parecer técnico contrário à liberação de mais verbas para os assentados com dívidas, vem uma ordem do escalão superior, para que mais dinheiro seja drenado para o ralo sem fundo do MST. Afinal, os “acantonamentos” em frente aos bancos, ou invasão dos mesmos feita pela horda furiosa que empunha foices e facões, é uma pressão que Governo estadual nenhum se permite contrariar.

Ao PROCERA, igualmente, ninguém paga. Somente 1 entre 1.000 (0,1%) honra seu compromisso. E o dinheiro do contribuinte continua fluindo para o ralo.

“O boi expulsa o homem do campo” - diz uma ladainha do “messetê”. Os líderes do MST associam a criação do gado a “coisa de latifundiário”, portanto, algo que deve ser combatido como a peste. Porém, chegou-se à conclusão de que, em muitos acampamentos, são as poucas vaquinhas existentes que garantem o leite das crianças.

A propaganda feita pelo MST e o INCRA sobre assentamentos “modelos” é eficaz, pois todos acreditam que são um paraíso na terra, a “Canaã” prometida por frei Betto, um dos principais assessores do movimento. E a imprensa contribui para que todos acreditem nessa mentira. Porém, a mais inquebrantável fé acaba com uma simples visita a qualquer desses acampamentos.

Por exemplo, há um assentamento “modelo” no Rio Grande do Sul, de Annoni (nome do antigo proprietário, José Ernesto Annoni), que já inspirou um filme, “Terra de Rose”, ganhando até um prêmio da CNBB. Porém, ao conhecer a realidade, Barreto afirmou que apenas 11% das famílias daquela antiga fazenda ficaram com o “filé mignon”, pois têm cooperativa, máquinas agrícolas modernas e até um mercado, tudo adquirido com dinheiro do INCRA. O restante dos assentados está na miséria, vivendo na maior favela rural da América Latina. A principal fonte de renda desses miseráveis é a extração indiscriminada de madeira, promovendo uma devastação sem limites. Caminhões com toras foram vistos por Barreto, cujos colonos fugiram quando viram a máquina fotográfica. O tal supermercado, propagandeado pelo MST e pelo INCRA como uma espécie de “Pão de Açúcar” rural, com gôndolas e tudo, na verdade não passa de um armazém precário, num espaço de 6x6 metros, com os produtos expostos em precárias prateleiras.

Na Fazenda São Joaquim, no Ceará, Barreto viu uma devastação ainda maior. Um pomar de 5.000 pés-de-laranja foi colocado abaixo para fazer lenha. Os coqueiros foram cortados, para colher o coco. “Não sabemos se vamos ficar aqui mesmo...” - justificou um assentado. Das 140 vacas que havia no assentamento, a metade já morreu ou virou churrasco, pois a área é precária em vegetação para as reses.

Em um assentamento da Bahia, há também devastação florestal para fazer carvão, que é carregado em sacos no lombo de jegues até o comércio. O galpão do assentamento, que seria para guardar a produção colhida no assentamento, está vazio – como ocorre na maior parte dos assentamentos do MST. Mas, como disse um assentado, o galpão tem a sua utilidade, pois serve “pra dar uma sombrinha”. As casas dos agricultores são verdadeiras taperas, porém não falta a antena parabólica. Meninos foram vistos trabalhando nas carvoarias do acampamento.
Em Promissão, SP, há um assentamento que leva o nome do Padre Josimo, assassinado por pistoleiros há alguns anos. A miséria campeia solta no local, a produção é nula, porém existe um forte intercâmbio com Cuba.

A FAO, órgão da ONU para a agricultura, fez, em 1991, um estudo em 44 assentamentos do MST, em que participaram veterinários, agrônomos e PhDs. A organização afirmou que a média de renda das famílias era de cinco a seis salários-mínimos, e que no assentamento São Pedro, perto de Porto Alegre, a renda era de doze salários. A empulhação da FAO foi desmascarada pelos próprios assentados de São Pedro, que disseram a Barreto que mal conseguem sobreviver, nem energia elétrica há no local.

A “agroindústria” do MST também é alardeada pelo movimento e pelo INCRA como coisa de primeiro mundo. Porém, o que Barreto viu in loco foi um sistema de africanização de muitos assentamentos, que aliam a devastação a um sistema de indústria primitivo, sem valor econômico. Por exemplo, no Nordeste, muitas “indústrias” de doce de leite não passam de alguns galpões precários, com pequenos tachos enegrecidos pelo fogo. O mesmo ocorre em Santa Catarina, com tachos semelhantes para fazer açúcar mascavo ou rapadura.

No Pontal do Paranapanema, foi tentada uma criação de bicho-da-seda, que seria um projeto formidável, destinado inclusive à exportação. Devido à falta de conhecimento do assunto, o projeto fracassou e foi abandonado, mais dinheiro público foi para o ralo da incompetência. Aliás, a região do Pontal, outrora rica em produção agrícola, hoje está em plena decadência, com terras perdendo seguidamente o valor, devido às seguidas invasões do MST.

Disse Barreto que Tancredo já brandia seu discurso, “justiça para os posseiros”. O que se vê em muitas fazendas tomadas por assentados é o líder ocupar a casa-sede, muitas vezes um palacete com dois andares, enquanto o resto mora em barracos miseráveis. É a dacha destinada à “nova nomenklatura brasileira”.

A titulação de terras praticamente nunca é feita aos assentados, já que não conseguem se emancipar, pois, como vimos, 80% deles não conseguem sequer arcar com a própria sobrevivência, dependentes eternos que são do Estado assistencialista. Muitos dos assentados, desiludidos, estão chegando à amarga conclusão de que nada valeram dez, quinze anos de invasões, marchas e manifestações, pois não possuem nenhum patrimônio, enquanto parentes, que partiram para o trabalho por conta própria, hoje estão em situação muito melhor, trabalhando as suas próprias terras. A maioria dos assentados arrendam as terras a fazendeiros, ou trabalham para estes, desvirtuando completamente o destino das terras desapropriadas. Porém, os parcos recursos que recebem como “boias-frias” é o que garante o sustento de muitas famílias assentadas.

Acrescentou Barreto, à guisa de informação, que nas favelas brasileiras a média de permanência do favelado é de cinco anos. Nesse tempo, o favelado já saiu da favela para uma casa decente, ou, no mínimo, conseguiu fazer benfeitorias consideráveis em seu “barraco”. Nas favelas do MST, sem garantia da titulação da terra, o rancho em decadência apenas aumenta a agonia do assentado, cuja permanência naquele inferno parece ser eterna. Um slide de Barreto mostrou uma menina com uma tristeza infinita, denunciada pela sua boca caída, envelhecida precocemente, com o olhar alienado, traumatizada por viver naqueles quintos dos infernos.

A miséria existente na maioria dos assentamentos traz um ônus muito grande para as prefeituras locais, que são obrigadas a arcar com despesas variadas, como escolas, saúde e até alimentação, sem que haja qualquer tipo de ajuda financeira por parte dos assentados ou do Governo Federal.

Os empregados das fazendas, que não são do MST, normalmente, ficam ao lado dos patrões quando há uma invasão. Os invasores são trazidos de fora pelas lideranças do movimento, normalmente desempregados e desocupados que moram na periferia das cidades. “Não vou me juntar com esses vagabundos do MST” - dizem muitos trabalhadores rurais, solidários com os proprietários de terras.

Nos assentamentos, é proibido prosperar. Quem progride, construindo uma casa com mais conforto, ou adquire implementos agrícolas ou um veículo, é perseguido pela liderança do MST. “O sujeito quer virar fazendeiro! Não passa de um pequeno-burguês!”. Enquanto isso, os líderes do movimento fazem suas carreiras políticas, elegendo dois, três ou mais vereadores em muitos municípios.

“Nosso regime é de ditadura e escravidão” - afirmou uma assentada do Pontal. Ditadura, porque os assentados não podem progredir economicamente, como dito acima, submetidos que são aos rigorosos regulamentos dos chefetes do MST, com base na ideologia marxista, que acaba nivelando todos por baixo, na mais completa miséria; escravidão, porque ficam “amarrados” ao MST, pois, se saírem do assentamento, os trabalhadores perdem a última esperança, a de que algum dia possam receber a escritura de um pedaço de terra.

O Jornal do Brasil fez uma reportagem sobre assentados na região de Promissão, SP, afirmando que “fulano de tal vira agricultor”, exaltando o rápido progresso do colono, que em pouco tempo já tinha parabólica em casa e uma caminhonete na garagem. Porém, era apenas mais um ato de desinformação, como normalmente ocorre com nossa mídia, hoje totalmente dominada pelas esquerdas. O tal “assentado” já tinha sua propriedade há muito tempo, sequer pertencia ao MST.

A TV Globo, para não ficar atrás na prática do embuste, filmou em Pirituba uma plantação imensa, um tapete verde a perder de vista, dizendo que eram “terras da reforma agrária”. Descobriu-se, depois, que tais terras pertenciam a filhos de holandeses, brasileiros natos, que passaram, depois da reportagem, a enfrentar também o problema de invasões do MST.

Barreto mostrou um slide em que havia uma placa comemorativa de inauguração de um assentamento, com dezenas de nomes. Hoje, somente seis assentados ficaram para contar o que houve.

Para se fazer um censo da reforma agrária, foram gastos R$ 3 milhões. A grande descoberta foi que apenas 57% dos assentados possuem enxadas... Aliás, a primeira imagem de alguém com foice, Barreto foi ver na “Terra de Rose”, no Rio Grande do Sul...

Com Lula, o atual projeto de reforma agrária dificilmente será alterado, pois 50% dos postos do INCRA já foram entregues a líderes do MST, indicando que nada irá mudar para melhor. A primeira providência de Miguel Rossetto, Ministro da Reforma Agrária - que sempre foi a favor das invasões de terras do MST - foi acabar com o Banco da Terra, implantado por FHC, que tinha como objetivo fazer empréstimos monetários a pequenos produtores rurais, com prazo de 20 anos para pagar. Ou seja, o objetivo do Ministro é idêntico ao dos líderes do MST, ou seja, não tem o mínimo interesse em resolver o problema fundiário, pois o objetivo do MST é um só: “A nossa política não é dar terra. É conquistar o poder”. Ninguém poderia ter sido melhor escolhido para o atual “petisterio” do que Rossetto...

Em um assentamento do MST, há uma “Pousada do Colono”. Um assentado sustenta a família alugando boias (pneus de carros) a “turistas” que visitam o local. Plantar feijão, que seria “bão”, nada.

Em outro assentamento, um colono não plantou, mas torrou todo o dinheiro emprestado pelo Governo. “Não gastei na plantação, não. Previ que ia chover muito”...Em uma publicação do INCRA, feita em conjunto com a FAO, “A maior reforma agrária do mundo contemporâneo”, são analisadas as causas da evasão dos assentamentos. A pergunta, segundo o próprio INCRA, está errada, pois deveria ser “por que ainda há pessoas que continuam assentadas?”.


No final de sua exposição, Barreto afirmou que a maior parte das terras agrícolas do Brasil, situadas no cerrado, geralmente são bastante pobres, ácidas, porém, com correção feita com calcário, que é abundante em nosso País, e com técnicas modernas, consegue-se obter alta produtividade, entre as maiores do mundo. Além da produtividade, o clima, com muito sol o ano todo, favorece duas ou até três safras por ano, dependendo do produto agrícola plantado, o que não ocorre nas regiões frias do planeta, que normalmente têm terras mais férteis, porém quase metade do ano é coberta por neve. Já há muitos estrangeiros, como americanos, comprando terras no Brasil, devido às vantagens acima citadas.

Técnicas genuinamente brasileiras são adquiridas, muitas vezes, de forma empírica, porém não menos úteis. Por exemplo, descobriu-se que um tipo de besouro faz buracos na terra, verdadeiros túneis sem fim, por onde escoa a água da chuva, evitando enxurradas e a consequente erosão das terras. Chegou-se à conclusão que isso ocorre em terras que estejam a no máximo 600 metros de alguma mata ou bosque. Desta forma, muitos proprietários rurais passaram a criar faixas de matas a intervalos de 1.200 metros, conseguindo, assim, diminuir drasticamente a erosão do solo.

E são essas terras, altamente produtivas, que atualmente salvam o Brasil, dólares decisivos são auferidos com a exportação, cuja balança pendeu a nosso favor, não só com a valorização do dólar, mas também com a agroindústria que tanto se desenvolveu nos últimos anos. Da iniciativa particular, incluindo os “latifundiários”, não do MST.

Aliás, o MST, em sua origem, tinha inegável apelo social, por querer “terra para quem quer produzir”. O antigo lema “ocupar, resistir, produzir” foi substituído, posteriormente, por um contínuo enfrentamento da ordem pública, pois seus líderes desejam assumir o poder para lançar uma revolução comunista no Brasil. Che Guevara, Mao Tsé-Tung, Marighela, Marx têm seus nomes ou retratos em todos os acampamentos, incluindo escolas - aliás, Che Guevara é o patrono do MST, como já foi dito.

Segundo Barreto, a estratégia do MST é criar “enclaves” em todo o Brasil, que estão se espalhando rapidamente como erisipela, de tal forma que o movimento, revolucionário em sua essência, possa sufocar todo o empreendedorismo rural nacional, causando a paralisia, a miséria e a desordem em nosso País, objetivo final para o início da revolução comunista. Para isso, o MST está posicionado em assentamentos estratégicos, que ladeiam as mais importantes rodovias federais, redes de alta tensão, usinas hidrelétricas e outros pontos sensíveis. Ao MST não interessa resolver o problema agrário, pois o movimento perderia sua finalidade inicial.

Finalizando, o jornalista Barreto deu-nos preciosas informações de como andam muitas das cabeças pensantes da UnB e, por extensão, de nossas universidades. O professor-orientador de sua tese acolheu de bom grado o trabalho acadêmico, porém outros, que participaram da banca examinadora, teceram severas críticas ao trabalho. Um deles, marxista convicto, afirmou que a tese era “sem valor acadêmico”, simplesmente porque o autor havia feito uma citação de Plínio Corrêa de Oliveira, ferrenho anticomunista, fundador da organização católica de direita, a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP), criada em 1960. Sem rebater os fatos apresentados, o marxista disse que “a intenção oculta do trabalho é arrasar a reforma agrária”. Acrescentou o indignado professor que não era contra alguém que dissertasse sobre tais temas, porém “é um pecado ter essas ideias dentro da UnB”...

A monografia de Barreto será publicada em abril. Torcemos todos para que o trabalho se torne um livro a ser distribuído por todo o Brasil, para provar que o atual projeto de reforma agrária não passa de um embuste, um fracasso total, que tem como único fim promover uma revolução comunista no Brasil.

E a mídia, o que tem a dizer sobre o trabalho de Barreto? Com a palavra a TV Globo, o Jornal do Brasil, o Correio Braziliense e todos os importantes órgãos de comunicação deste imenso Brasil, que aos poucos vai-se “balcanizando” como a antiga Iugoslávia e a Palestina, com “bantustões” indígenas e “sem-terra” espalhados em todo o território nacional, formando Estados à parte do Estado brasileiro. 

P. S.: O trabalho de Barreto, apresentado aos membros do Instituto Liberal de Brasília, foi convertido em livro, Reforma agrária: o mito e a realidade, editado pela Artpress. Barreto também escreveu A Revolução Quilombola e Tribalismo Indígena, entre outros livros.



 

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Jorginho, o menino que enfrentou os chifres de uma vaca ainda na barriga da mãe - Por Félix Maier

 


Jorginho, o menino que enfrentou

os chifres de uma vaca ainda

na barriga da mãe

Félix Maier        

Há gente que chega ao mundo sem fazer muito barulho, como quem pede licença para entrar. Há outros que parecem nascer já anunciando que não vieram para passar despercebidos. Jorginho Mello pertence, pelo menos segundo a história que ele próprio costuma contar, à segunda categoria. Antes de abrir os olhos para a luz, antes de aprender a falar, antes de dar os primeiros passos e muito antes de descobrir que um dia seria governador de Santa Catarina, o menino já havia enfrentado, ainda no ventre materno, uma adversária de respeito: uma vaca de mau humor, munida de chifres e pouco disposta a colaborar com a ordenha.

A história aparece na narrativa pessoal de Jorginho como uma espécie de prólogo de sua vida. Sua mãe, grávida, havia ido tirar leite de uma vaca, ocasião em que o animal a atacou. O episódio teria provocado problemas na gestação e contribuído para que o menino viesse ao mundo antes da hora, com apenas sete meses. A parte da prematuridade encontra confirmação em registros biográficos e reportagens sobre sua vida: Jorginho dos Santos Mello nasceu em Ibicaré, SC, em 15 de julho de 1956, e veio ao mundo pequeno, prematuro, a ponto de o diminutivo Jorginho acabar se tornando seu nome definitivo.

Não se sabe o que teria pensado aquela vaca depois do episódio. Talvez nada. Vacas, ao contrário dos políticos, não costumam dar entrevistas para explicar suas decisões. Talvez ela simplesmente tenha entendido que estava defendendo o leite que considerava seu e que a mulher grávida havia chegado perto demais. O certo é que, se o animal pretendia assustar a família, conseguiu. Se pretendia impedir o nascimento daquele menino, fracassou completamente. Jorginho nasceu. E, aparentemente, nasceu com pressa. Essa pressa haveria de acompanhá-lo pela vida inteira.

O menino que chegou aos sete meses não demoraria muito para chegar a Herval d’Oeste, à escola, ao trabalho, à política e, décadas mais tarde, ao governo de Santa Catarina. Quando ainda era rapazote, ninguém poderia imaginar que aquele menino franzino, que aprenderia a vender pé-de-moleque na Estação ferroviária, trabalhar no frigorífico do Pagnoncelli e estudar no Colégio Melo e Alvim, acabaria atravessando o longo caminho que separava uma pequena cidade do meio-oeste catarinense dos gabinetes de Brasília e, finalmente, do Centro Administrativo do Estado.

Mas a vida política, quando contada depois que tudo aconteceu, parece uma estrada previamente traçada. Na realidade, não é. Para o rapaz que vendia doce na Estação, o futuro ainda era apenas uma palavra sem endereço.

Ibicaré, Herval e o começo da caminhada

Jorginho nasceu em Ibicaré, naquele meio-oeste catarinense onde as cidades pequenas pareciam viver em permanente diálogo com a roça, com as serrarias, com as pequenas propriedades, com o Rio do Peixe e com a ferrovia. A região tinha seus próprios ritmos. O dia começava cedo, o trabalho começava cedo e, para muita gente, a vida começava a exigir responsabilidades antes que a infância tivesse tempo de terminar.

A família acabou se mudando para Herval d’Oeste, município vizinho, onde Jorginho viveria uma parte decisiva de sua juventude. A cidade, ligada intimamente a Joaçaba e ao movimento do Vale do Rio do Peixe, tinha uma característica que hoje talvez seja difícil imaginar: a ferrovia era uma presença concreta na vida cotidiana. Não era apenas um traço no mapa. Era barulho, fumaça, apito, carga, passageiro, comércio e movimento.

A Estação ferroviária de Herval d’Oeste era uma espécie de praça coberta onde a vida passava sobre trilhos. Ali se encontravam os que chegavam e os que partiam, os que tinham dinheiro e os que precisavam ganhá-lo, os viajantes de passagem e os moradores que conheciam cada funcionário pelo nome. Havia carregadores, engraxates, vendedores, curiosos, pequenos comerciantes e os moleques que pareciam ter nascido sabendo que, onde houvesse um passageiro, poderia haver algum trocado.

Jorginho conheceu esse mundo ainda jovem. E não foi simplesmente para olhar. Foi para trabalhar. Para ajudar sua mãe, vendia na Estação o pé-de-moleque feito com doce de leite, transformado em uma guloseima que, nas mãos do rapaz, ganhou nome próprio: pé-de-granfino. A palavra ficou como ficam certas expressões do interior: ninguém sabe exatamente quando nasceram, mas todo mundo sabe de quem são.

Pé-de-granfino era uma palavra com sabor de infância, mas também tinha gosto de trabalho. A mãe preparava. O filho vendia. O passageiro comprava. O dinheiro voltava para casa. E a vida seguia mais leve.

Hoje, quando se fala em empreendedorismo juvenil, aparecem palavras como startup, inovação, plano de negócios, mercado, estratégia e marketing. Naquele tempo, um garoto com uma sacola de doces na Estação não precisava de nenhuma dessas palavras. Tinha apenas um produto, alguns compradores e a necessidade de vender.

Talvez tenha sido a primeira escola de economia de Jorginho. E talvez tenha sido também sua primeira escola de política. Porque vender doce para viajante exige alguma habilidade para agradar, negociar e, sobretudo, convencer. É preciso saber abordar sem incomodar, elogiar o produto sem exagerar, perceber quem tem dinheiro, quem está com pressa, quem está disposto a comprar e quem apenas pergunta o preço para depois desaparecer. É preciso conhecer gente. Jorginho aprenderia isso cedo.

A escola dos larfiudos

A Estação de Herval d’Oeste tinha ainda outra escola, menos respeitável, mas provavelmente não menos instrutiva. Era a escola dos moleques. Ali circulavam os meninos que faziam pequenos trabalhos como carregadores e engraxates, aqueles que sabiam onde ficava cada canto da plataforma, quem chegaria no trem seguinte e qual passageiro costumava dar gorjeta. Eram meninos que aprendiam cedo a se virar. E tinham uma língua própria, a larfiagem.

Não se tratava exatamente de um idioma no sentido acadêmico da palavra, porque não havia gramática, dicionário ou professor formado. Era uma linguagem de rua, de molecada, feita de palavras inventadas, deformadas, trocadas e adaptadas, que consistia basicamente em embaralhar as sílabas, para zarquiar da polícia.

Quem frequentava a Estação ferroviária de Herval d’Oeste aprendia. Jorginho, ao que tudo indica, também aprendeu. E talvez tenha sido uma experiência importante. Porque, quem aprende a entender uma linguagem diferente, aprende, ao mesmo tempo, que as pessoas nem sempre dizem exatamente aquilo que parecem dizer. Há códigos, intenções, ironias, disfarces, sinais e silêncios. Na política, muitos anos depois, essa habilidade não seria inútil.

A larfiagem talvez tenha sido apenas uma brincadeira de meninos. Mas era também um exercício de observação social. Naquela pequena universidade sem diploma, o professor era a rua, o quadro-negro era a plataforma da Estação e os alunos eram aqueles moleques que aprendiam a sobreviver entre malas, vagões, engraxates, carregadores, passageiros e pequenos furtos.

Alguns talvez tenham se perdido pelo caminho. Outros ficaram na memória. Jorginho saiu dali para outras escolas. Mas, com certeza, não esqueceu a primeira.

O Melo e Alvim

No início dos anos 1970, Jorginho estudava no Colégio Melo e Alvim, em Herval d’Oeste. Era o tempo em que a cidade ainda tinha aquele jeito de lugar onde praticamente todo mundo conhecia todo mundo ou, pelo menos, conhecia alguém que conhecia todo mundo. Foi ali que Sílvia Maier, irmã de Félix Maier, conviveu com o rapazote de Ibicaré. O colégio era outro mundo.

Se a Estação ensinava a vida de maneira prática, o Melo e Alvim tentava organizá-la em cartilhas, cadernos, provas, horários e disciplina. Era preciso estudar, copiar, responder, decorar e passar de ano. Mas nenhum colégio consegue impedir que os alunos sejam jovens. E os alunos daquela época também tinham seus interesses muito além das matérias escolares.

Havia as amizades. As brincadeiras. As paqueras. As matinês. E havia o frio. O frio do meio-oeste catarinense, especialmente nos invernos mais rigorosos, não era detalhe decorativo. Entrava pelas mangas, atravessava as calças e fazia qualquer casaco parecer insuficiente. Jorginho, porém, tinha uma solução. O sobretudo. Um sobretudo inesquecível. Naquele ambiente, o rapaz aparecia bem-apanhado, vestido com uma peça que lhe dava ares de lorde inglês. Talvez Londres nunca tivesse ouvido falar dele, mas Herval d’Oeste certamente ouviu.

Para os meninos, aquilo podia parecer um exagero. Para as meninas, era outra história. O sobretudo chamava a atenção. E, nas matinês dançantes, Jorginho não passava despercebido, era muito disputado. Era uma época em que a juventude tinha seus próprios rituais. As matinês eram importantes. Dançar era importante. Saber se vestir era importante. Saber quem estaria no salão era importantíssimo. E um rapaz de sobretudo, vindo da Estação, trabalhando e estudando, parecia ter alguma coisa que o destacava.

Talvez fosse apenas a roupa. Talvez fosse o jeito. Talvez fosse a mistura de confiança e ambição que já começavam a aparecer. Ou talvez as meninas simplesmente gostassem de um rapaz bem-vestido. A história não precisa de explicação científica. Basta a memória.

O rapaz do frigorífico

Mas o sobretudo tinha hora. Na escola e nas matinês, podia representar elegância. No trabalho, não servia para muita coisa. Jorginho trabalhou no frigorífico de Attilio Pagnoncelli, ligado ao abate de suínos, numa época em que o trabalho industrial era uma das portas de entrada para jovens que buscavam alguma independência.

Aquele ambiente tinha pouco de lorde inglês. Ali havia trabalho duro. Havia horário rigoroso. Havia responsabilidade. Havia o mundo real. E o rapaz que queria se destacar precisava mostrar que também sabia cumprir obrigações. Essa passagem pelo trabalho ajuda a compreender a diferença entre o personagem lembrado pelas matinês e o jovem que construía sua própria trajetória. O sobretudo não era toda a história. Era apenas a parte mais visível. Por baixo dele havia um rapaz trabalhando. E trabalhando desde muito cedo.

A vida de Jorginho foi marcada por essa combinação: aparência cuidada por fora e disposição para trabalhar por dentro. Mais tarde viria o BESC. Aí o mundo mudaria novamente. No Banco do Estado de Santa Catarina, Jorginho começou como funcionário e construiu uma carreira que o levaria a gerente e diretor. Os registros da Assembleia Legislativa indicam sua passagem pelo BESC entre 1975 e 2002.

Era outro aprendizado. A Estação ensinara a lidar com gente. O frigorífico ensinara a lidar com trabalho. O colégio ensinara a lidar com livros. O banco ensinaria a lidar com papéis, números, responsabilidades e estruturas administrativas. E a política já estava à espreita.

Vereador aos dezoito

Aos dezoito anos, Jorginho foi eleito vereador de Herval d’Oeste. Aos dezoito. Isso merece repetição porque, naquela idade, a maioria dos rapazes ainda estava tentando descobrir como funcionava a própria vida. Jorginho já estava tentando descobrir como funcionava a vida pública.

A eleição ocorreu em 1976, pela Arena, e a Memória Política de Santa Catarina registra que ele foi, entre 1977 e 1978, o mais jovem presidente de Câmara do Brasil. Era o rapazote do Melo e Alvim entrando na política. Talvez alguns dos colegas tenham pensado que aquilo era apenas mais uma aventura juvenil. Mas não era. A vereança seria o primeiro degrau de uma escada longa. E é curioso imaginar aquele jovem ocupando uma cadeira na Câmara Municipal depois de ter circulado pela Estação vendendo pé-de-granfino.

No mundo da política, ele descobriria que vender doce era relativamente simples. O cliente podia dizer não. O passageiro podia ir embora. A conta era fácil. Na Câmara, nada era tão simples. Ali havia opiniões, interesses, disputas, discursos, alianças, traições e desentendimentos. O rapaz teria de aprender rapidamente. E aprendeu.

A política municipal, porém, não seria ainda seu destino definitivo. Depois daquele começo, ele se afastaria temporariamente da vida eletiva e construiria sua carreira no BESC. Só mais tarde retornaria à política em escala maior. Isso também é importante. Porque mostra que sua trajetória não foi uma ascensão contínua, como às vezes parecem sugerir as biografias resumidas.

Houve espera. Houve trabalho. Houve preparação. Houve uma vida profissional entre uma eleição e outra. O jovem vereador não virou deputado imediatamente. Precisou viver.

O tempo do BESC

O BESC foi uma longa etapa. Foram décadas em que Jorginho esteve ligado à instituição, começando em 1975 e chegando à direção. Nesse intervalo, também estudou. Formou-se em Estudos Sociais e, posteriormente, em Direito. Aquele rapaz que saíra da Estação ferroviária estava acumulando ferramentas. Talvez sem saber exatamente para que serviriam todas elas. Mas acumulava. Experiência de rua. Experiência de trabalho. Experiência  bancária. Formação acadêmica. Experiência política. É assim que se constroem certas carreiras.

Não há um momento único em que tudo acontece. Há pequenas aquisições. Uma competência aqui. Uma amizade ali. Um conhecimento acolá. Uma eleição vencida. Uma derrota a lamentar, como a presidência da ALESC, em 2001. Uma oportunidade. Uma porta aberta. Outra fechada. É a vida, tchó!

E, quando a pessoa olha para trás, percebe que aquilo que parecia disperso formava uma trajetória.

De Herval para Florianópolis

Quando Jorginho retornou à política eleitoral em meados dos anos 1990, já não era o rapaz do sobretudo. Era um homem experiente.

Em 1994, foi eleito deputado estadual e assumiu em 1995. Depois, seria reeleito sucessivamente, completando quatro mandatos na Assembleia Legislativa. A partir daí, sua trajetória ganhou outra escala. Herval d’Oeste já não era o único horizonte. O mundo agora era Santa Catarina. Mas o Oeste continuava dentro da biografia.

Porque uma pessoa pode sair de uma cidade pequena, mas raramente consegue sair completamente dela. Carrega o sotaque. Carrega as lembranças. Carrega os amigos. Carrega as histórias. Carrega os apelidos. Carrega até as palavras dos larfiudos da Estação que aprendeu quando era moleque.

Talvez por isso a figura do pé-de-granfino seja tão persistente. Ela lembra que, antes de qualquer cargo, havia uma necessidade familiar. Antes do gabinete, havia a Estação. Antes do discurso, havia a venda. Antes do voto, havia o trabalho.

O caminho para Brasília

Depois de quatro mandatos como deputado estadual, Jorginho chegou à Câmara dos Deputados em 2011. Foi eleito em 2010 e reeleito em 2014, permanecendo na Câmara até 2019.

Brasília era outro universo. O rapaz que aprendera a larfiagem na Estação agora circulava pelos corredores do Congresso Nacional. É uma dessas mudanças que parecem quase absurdas quando colocadas lado a lado. De um lado, o menino vendendo doce; de outro, o parlamentar discutindo leis. E, pelo caminho, Jorginho logo descobriu que, em Brasília, também havia larfiudos — talvez mais bem vestidos, mais letrados e muito mais habilidosos nas palavras —, dos quais precisaria aprender a se defender e até a reconhecer à distância. Afinal, a larfiagem mudara de cenário, mas não tinha desaparecido: apenas trocara a plataforma da Estação pelos corredores do Congresso.

A política brasileira é cheia de homens que começaram em lugares muito diferentes daqueles em que terminaram. E o Oeste catarinense produziu muitos personagens cuja história se mistura com trabalho, agricultura, indústria e pequenas cidades. Jorginho levou consigo essa origem.

Em 2018, ele foi eleito senador por Santa Catarina. A trajetória estava se tornando nacional. O garoto de Ibicaré chegava ao Senado. E ainda faltava o último capítulo daquela escalada.

A eleição para governador

Em 2022, Jorginho Mello foi eleito governador de Santa Catarina. A Assembleia Legislativa registra a sequência: vereador aos 18 anos, carreira no BESC, quatro mandatos como deputado estadual, dois como deputado federal, senador e, finalmente, governador eleito.

Quando chegou ao governo, o rapazote de Ibicaré já era personagem da história política oficial. Seu nome aparecia nos jornais. Sua fotografia estava nos cartazes. Seu rosto era reconhecido em todo o Estado de Santa Catarina.

Mas, para quem o conhecera nos corredores do Melo e Alvim, para quem o vira na Estação, para quem lembrava do sobretudo, das matinês, do trabalho no frigorífico e do pé-de-granfino, existia outra imagem. Uma imagem menor e, justamente por isso, mais humana. A imagem do garoto. O governador podia ser conhecido por milhões. Mas o rapazote ainda pertencia a Herval d’Oeste.

A cidade que ficou dentro dele

Herval d’Oeste não foi apenas uma etapa administrativa na vida de  Jorginho. Foi o lugar onde ele se tornou jovem. E isso é diferente. Uma pessoa pode nascer em uma cidade e tornar-se outra pessoa em outra cidade. Foi em Herval que Jorginho trabalhou, estudou, vendeu doces, participou de matinês e entrou na política.

Para quem o viu circular pelos corredores do Melo e Alvim, trabalhar no frigorífico e brilhar nas matinês, permanecia também a imagem mais íntima e humana: a de um jovem bem-vestido, ambicioso no melhor sentido, carregando no corpo magro e no olhar atento a semente de um destino que começara ali, entre larfiudos escorregadios, pés-de-granfino, livros, danças, frio serrano e sonhos ainda sem nome.

Ninguém se lembra de uma pessoa apenas porque ela ocupou um cargo. Lembra-se porque ela usava determinada roupa, falava de determinada maneira, frequentava determinado lugar, tinha determinado hábito. O sobretudo é mais memorável do que muitos discursos. O pé-de-granfino é mais saboroso do que um currículo. A Estação é mais concreta do que uma biografia oficial.

Talvez haja uma pequena filosofia escondida naquele doce. O pé-de-granfino era feito em casa. Era levado à rua, era oferecido, era vendido. Dependia da aceitação de quem estava do outro lado. A política também é assim, embora em escala muito maior. O candidato oferece uma proposta. O eleitor decide. Um aceita. Outro rejeita. Outro desconfia. Outro compra a ideia. Outro vai embora.

O vendedor precisa insistir sem exagerar. O político precisa convencer sem parecer desesperado. O vendedor precisa conhecer o freguês. O político precisa conhecer o eleitor. O vendedor precisa voltar amanhã. O político precisa voltar na próxima eleição. Talvez Jorginho tenha aprendido alguma coisa sobre isso na Estação de Herval. Não porque estivesse fazendo política. Mas porque estava aprendendo a lidar com pessoas. E essa é uma das escolas mais difíceis.

Com o passar dos anos, a história da vaca ganhou uma qualidade que todas as boas histórias de família possuem: quanto mais se conta, mais interessante fica. A cena original é simples. Uma mulher grávida. Uma vaca leiteira. A ordenha. O ataque. O susto. A gestação prejudicada. O nascimento prematuro.

Mas, quando colocada diante do restante da biografia, a história ganha um aspecto quase lendário. A vaca surge como a primeira antagonista. Não é uma adversária política. Não é uma concorrente eleitoral. Não é um deputado de oposição. É uma vaca. E uma vaca não negocia. Não faz acordo de bancada. Não pede reunião. Não apresenta requerimento. Não pede emenda parlamentar. Porém, quando decide avançar, avança. Talvez seja por isso que a imagem tenha tanta força. O menino ainda nem havia nascido e já estava envolvido em uma crise. E saiu dela. Nasceu. Vingou. Cresceu.

A frase que aparece em relatos sobre sua prematuridade — de que o pai chegou a achar que o menino não vingaria — torna a história ainda mais expressiva. O pai rendeu uma homenagem a um amigo próximo, o Jorjão, colocando seu nome no documento do batismo, mas como Jorginho, de tão miúdo que o filho era. Olhado para trás, fica impossível não perceber a ironia. O menino vingou. E vingou bastante, como vingou!

E, no começo de tudo, antes de todos eles, está o pequeno Jorginho, ainda no ventre da mãe, surpreendido por uma vaca que provavelmente jamais suspeitou do tamanho do adversário que tinha diante dos chifres.

E fica, sobretudo, a pergunta que o tempo costuma fazer quando transforma um menino em personagem da história: quem haveria de imaginar, naquele tempo, que aquele pequeno Jorginho, chegado ao mundo aos sete meses e quase por encomenda de uma vaca mal-humorada, um dia percorreria o caminho que vai de Ibicaré e Herval d’Oeste até o governo de Santa Catarina?

Talvez ninguém. Nem a família, que o recebeu tão pequeno, nem os colegas do Melo e Alvim, nem as meninas das matinês, que disputavam o rapaz do sobretudo, nem os larfiudos da Estação, que o conheceram vendendo pé-de-granfino. E muito menos a vaca, que naquele dia, sem saber, acabou entrando para a história.

Depois daquele susto inaugural, a vida de Jorginho virou um cronômetro eterno. O menino que desafiou o tempo no parto fez da urgência o seu norte: nunca mais se atrasou para um compromisso e, agora, corre contra o relógio para garantir mais quatro anos de governo. Para quem começou a vida rompendo prazos, a campanha atual é só mais uma linha de chegada que ele pretende cruzar antes de todo mundo. 



quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Sobre vachinas e jacarés - Por Félix Maier

 


Sobre vachinas e jacarés

Félix Maier

Durante a pandemia da Covid-19, quando o Brasil parecia ter entrado num daqueles pesadelos em que ninguém encontra a saída porque cada porta dá para outra porta, o Presidente Jair Bolsonaro, o Imbroxável, e o governador de São Paulo, João Doria, conhecido nas rodas políticas como BolsoDoria, travaram uma batalha de proporções épicas para decidir qual vacina deveria salvar a pátria: a CoronaVac, produzida pelo Butantan, com licença da chinesa Sinovac Biotech, ou a AstraZeneca, de um consórcio sueco-britânico, fabricada no Brasil pela Fiocruz.

Era uma discussão aparentemente científica, mas com a delicadeza intelectual de dois adolescentes discutindo no banheiro quem tinha o bilau mais comprido. De um lado, o governador paulista defendia a CoronaVac, que tinha sua produção de vacinas feita com o IFA (Ingrediente Farmacêutico Ativo) vindo da China. Do outro, o presidente defendia a vacina AstraZeneca, produzida pela Fiocruz. Não sabia o Imbroxável que o princípio ativo de sua vacina também vinha da China.

— Essa vachina aí — dizia o Imbroxável, fazendo uma pausa dramática — vem daquele país dos olhinhos puxados!

E, como quem revela um segredo de Estado, acrescentava:

— E eu não vou dizer o que pode acontecer depois!

Não precisava dizer. O presidente já havia deixado no ar a sua famosa profecia: quem tomasse aquela vacina poderia acabar virando jacaré.

A frase, naquele tempo, provocou risos, indignação, memes, discussões de botequim e uma quantidade respeitável de desenhos de jacarés usando máscara. Houve quem dissesse que era apenas uma metáfora. Houve quem jurasse que era uma advertência científica. Houve até quem, mais prudente, começasse a olhar com desconfiança para os próprios cotovelos.

Ninguém, porém, levou em consideração a possibilidade mais perigosa de todas: a profecia pegar. E pegou.

João Doria havia surgido na política como uma espécie de satélite brilhante da constelação presidencial. Era a época em que Bolsonaro e Doria trocavam afagos públicos, elogios protocolares e fotografias em que ambos sorriam como se tivessem descoberto juntos a cura para a política brasileira. Chamavam-no, então, de BolsoDoria. Era um apelido útil, porque explicava, numa única palavra, uma proximidade política que, em certos momentos, parecia mais íntima que um aperto de mão e mais conveniente que um casamento.

Mas a política brasileira possui uma curiosa propriedade química: alianças que parecem indestrutíveis podem evaporar com a mesma rapidez de álcool em dia quente. Não demorou para que o BolsoDoria deixasse de ser BolsoDoria e voltasse a ser simplesmente Doria. Depois passou a ser adversário, depois inimigo, depois crítico e, finalmente, tornou-se uma dessas criaturas políticas que, quando aparecem na televisão, fazem o eleitor procurar o controle remoto por instinto.

O mesmo fenômeno ocorreu com Joice Hasselmann e Alexandre Frota. Os dois haviam sido eleitos sob a sombra luminosa — ou sombria, conforme o ponto de vista — do fenômeno Bolsonaro. Eram tempos em que vestir a camisa do capitão parecia suficiente para garantir uma espécie de passaporte para Brasília. Joice era uma máquina parlamentar de frases, vídeos, acusações e indignações. Frota carregava para a política a experiência de quem já conhecera vários palcos, inclusive alguns que Brasília jamais deveria conhecer em horário eleitoral.

Ambos, contudo, fizeram aquilo que políticos brasileiros fazem com admirável frequência: mudaram de lado antes que o lado percebesse. A partir daí, a antiga fraternidade virou guerra. O que antes era abraço tornou-se cotovelada; o que antes era elogio virou denúncia; o que antes era mito passou a ser autoritarismo. E, como costuma acontecer nesses casos, ninguém mais se lembrava de ter estado do outro lado.

Foi justamente nessa época que começou o estranho fenômeno dos desaparecimentos. Primeiro, ninguém deu muita importância. Um jacaré apareceu num lago. Depois outro. Depois uma jacaroa. Aos poucos, surgiram rumores de que certos políticos haviam sido vistos rastejando pelas margens dos rios, escondendo-se nos manguezais, tomando sol sobre pedras e demonstrando uma irritação incomum com jornalistas. A princípio, parecia apenas coincidência. Até que alguém encontrou uma velha inscrição num muro de Brasília:

VOCÊ VAI VIRAR JACARÉ.

Abaixo, alguém escrevera, com tinta vermelha de batom:

E NÃO ADIANTA RECORRER AO STF.

Foi então que a coisa ficou séria. O primeiro caso confirmado ocorreu com BolsoDoria. Num fórum internacional organizado pelo LIDE (Grupo de Líderes Empresariais), em Nova York, não em Miami, como era costume, pois havia a participação ilustre de ministros do STF — Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes, Luís Roberto Barroso e Dias Toffoli —, o ex-governador de São Paulo começou a sentir uma coceira no pescoço. A princípio, atribuiu aquilo ao ar-condicionado. Depois, à alergia.   

De volta a Miami, a coceira aumentou e vieram as escamas: primeiro pequenas, depois médias e, por fim, enormes.

O assessor que estava diante dele deixou cair o celular.

— Governador...

— Ex-governador — corrigiu Doria, automaticamente.

— Não. Quero dizer...

O homem apontou para o pescoço. Doria olhou para o espelho. Seu rosto continuava reconhecível, mas começava a adquirir um aspecto desagradavelmente reptiliano.

— Isso é um absurdo!

A boca se alongou.

— Vou processar o Bolsonaro!

Os dentes cresceram.

— Isso não pode estar acontecendo!

As mãos encolheram. A pele ficou verde. E, antes que pudesse chamar o advogado, BolsoDoria desapareceu dentro de uma poça de água decorativa existente no jardim do hotel.

O segurança viu apenas duas coisas: um grande rabo batendo na água e uma etiqueta de grife flutuando na superfície.

A transformação de Frota foi mais dramática. Ele estava numa reunião política quando começou a sentir uma necessidade irresistível de ficar perto da água.

— Preciso de um lago — disse.

— Um lago?

— Um lago.

— Temos uma piscina.

— Não serve.

— Por quê?

Frota olhou para o horizonte.

— Não sei. Meu instinto manda procurar um pântano.

Cinco minutos depois, já não havia mais político na sala. Havia um jacaré. O animal atravessou o corredor, ignorou os seguranças, passou pela garagem e entrou num carro oficial. Quando o motorista viu o bicho sentado no banco traseiro, perguntou:

— Para onde, excelência?

O jacaré respondeu:

— Para onde houver água.

O motorista, que já tinha visto coisas mais estranhas em Brasília, não fez perguntas.

Com Joice Hasselmann, a transformação foi ainda mais peculiar. Ela estava diante de uma câmera quando percebeu que alguma coisa estava errada. Começou a falar, como sempre, sobre a situação do país, mas interrompeu para olhar a própria mão. Havia escamas. Olhou para a outra. Escamas também.

— Isso é uma montagem!

A cauda apareceu.

— Isso é fake news!

A boca começou a se alongar.

— Isso é perseguição política!

A pele ficou verde.

— Isso é uma tentativa de me silenciar!

E então, em vez de terminar a frase, soltou um:

— Croc!

A câmera caiu. O cinegrafista saiu correndo. Quando voltou, encontrou apenas uma cadeira vazia, um microfone no chão e uma jacaroa escondida atrás da cortina. Ela ainda tentou explicar alguma coisa, mas agora toda frase terminava em croc.

A notícia espalhou-se rapidamente. Em Brasília, ninguém queria admitir que acreditava na história, mas todo mundo acreditava. Deputados passaram a olhar com desconfiança para os colegas que permaneciam tempo demais diante do espelho. Senadores evitavam lagos. Ministros recusavam convites para pescarias. Governadores mandavam instalar cercas ao redor de piscinas. Em certos gabinetes, retiraram até aquários.

Um deputado chegou a pedir que sua assessoria fizesse um levantamento de todos os rios, córregos, represas, banhados e açudes existentes num raio de quinhentos quilômetros de Brasília.

— Para quê? — perguntou a secretária.

— Prevenção.

— Prevenção contra quê?

O deputado olhou para os lados antes de responder, quase num sussurro:

— Crocodilagem.

Foi então que apareceu o professor Hipólito de Albuquerque, especialista em fenômenos inexplicáveis e autor de um tratado obscuro chamado Metamorfoses Políticas da República Tropical. Segundo ele, o fenômeno não tinha relação direta com vacina alguma.

— O jacaré — explicou — é um animal politicamente simbólico.

— Por quê?

— Porque passa muito tempo parado, de boca aberta, esperando que alguma coisa caia nela.

O jornalista anotou.

— Isso é uma crítica aos políticos?

— Não. É uma observação zoológica.

— Mas o senhor está dizendo que políticos podem virar jacarés?

— Não.

— Então o que está dizendo?

O professor ajeitou os óculos.

— Estou dizendo que talvez alguns jacarés já tenham virado políticos.

A frase causou enorme repercussão. No dia seguinte, os jornais publicaram manchetes anunciando que um professor afirmava haver jacarés infiltrados na política. O professor passou o dia inteiro negando o que havia dito, mas já era tarde. Na política brasileira, uma frase mal compreendida tem mais pernas que uma verdade bem explicada.

Enquanto isso, BolsoDoria instalou-se na Flórida. Escolheu um banhado discreto, longe dos turistas, mas suficientemente próximo dos bairros ricos para manter alguma dignidade social. De vez em quando, era visto tomando sol sobre um píer. Continuava preocupado com negócios. Mesmo com quatro patas e uma cauda monumental, mantinha hábitos empresariais.

Mandara imprimir cartões de visita:

JOÃO DORIA

Empresário, Líder Empresarial e Réptil Estratégico

No verso:

LIDE — Grupo de Líderes Empresariais

E, em letras menores:

Atendimento mediante agendamento

O jacaré havia descoberto uma vantagem extraordinária na nova condição: ninguém mais lhe pedia explicações sobre política. Quando um jornalista se aproximava, ele simplesmente mergulhava. Quando alguém perguntava sobre o futuro do Brasil, mergulhava. Quando perguntavam sobre candidatura presidencial, mergulhava. Quando perguntavam sobre negócios, levantava apenas os olhos.

Certa vez, um repórter perguntou:

— O senhor ainda pretende voltar à política?

BolsoDoria abriu a boca.

O jornalista recuou.

— Era só uma pergunta!

O jacaré mergulhou.

BolsoFrota teve destino diferente. Foi parar nos pântanos da Louisiana, perto de Nova Orleans, onde encontrou uma comunidade de crocodilos que o recebeu com desconfiança. Um velho crocodilo perguntou de onde ele vinha.

— Do Brasil.

— E o que fazia lá?

Frota hesitou.

— Política.

Os crocodilos se entreolharam.

— Então você é perigoso.

— Por quê?

O velho crocodilo mostrou os dentes.

— Aqui, pelo menos, os crocodilos só mordem.

BolsoFrota considerou a frase. Não sabia se aquilo era elogio ou crítica. Acabou ficando. Rapidamente descobriu que os crocodilos americanos eram menos ideológicos que os políticos brasileiros. Não discutiam esquerda e direita. Discutiam apenas território. E, quando terminavam a discussão, mordiam. Frota achou aquilo estranhamente honesto.

BolsoJoice, por sua vez, tomou outro caminho. Durante o dia, escondia-se nas águas da Marginal Pinheiros. À noite, segundo relatos nunca confirmados, transformava-se numa criatura meio jacaroa, meio sereia. Os motoristas que passavam pela avenida diziam ouvir uma voz feminina saindo da água:

— Pare!

Alguns paravam.

— Venha cá!

Alguns chegavam mais perto.

— Tenho uma denúncia!

Aí corriam. Ninguém queria ouvir denúncia de uma sereia-jacaroa às duas da manhã.

Um pescador jurou que certa noite ela lhe perguntou:

— Você acredita em liberdade de expressão?

O homem respondeu:

— Acredito.

— Então me explique por que ninguém pode mais pescar aqui!

O pescador olhou para a água e respondeu:

— Porque a senhora está espantando os peixes.

A jacaroa pensou. Era a primeira vez que alguém lhe respondia sem medo. Desde então, passou a respeitar o pescador.

A lenda, entretanto, não terminou ali. Começaram a aparecer outros jacarés. Uns eram verdes; outros, pardos; alguns tinham dentes muito brancos; outros usavam gravata. Um deles apareceu em Brasília usando terno azul-marinho e sapatos italianos. Ninguém sabia de onde vinha. Entrava nos restaurantes mais caros, sentava-se à mesa, abria o cardápio e esperava. Quando o garçom perguntava o que desejava, respondia:

— O prato do dia.

— Para beber?

— Água.

— Com gás?

— Sem gás.

Depois ficava em silêncio.

Certa noite, um deputado perguntou:

— O senhor é político?

— Não.

— Empresário?

— Também não.

— Magistrado?

O jacaré demorou a responder.

— Depende do preço.

O deputado levantou-se imediatamente e saiu apressado.

A partir daí, a população começou a suspeitar de que a profecia do Imbroxável não fosse apenas uma piada. Talvez ele tivesse, sem querer, descoberto uma lei secreta da política brasileira: quem se aproxima demais do poder acaba mudando de pele. Primeiro vem o entusiasmo; depois, o rompimento; depois, a troca de discurso; depois, a televisão; depois, as redes sociais; e, finalmente, o pântano.

Era uma espécie de ciclo natural. Como a chuva. Como as enchentes. Como a troca de partido. Como o político que jura fidelidade numa segunda-feira e descobre, na quarta, que sempre fora adversário.

O próprio Imbroxável começou a desconfiar. Certa manhã, diante do espelho, examinou os próprios braços. Nada. Olhou os dedos. Normais. Examinou o rosto. Ainda humano. Respirou aliviado.

— Ainda bem.

Foi então que ouviu um barulho vindo do banheiro.

— Croc!

O presidente congelou.

— Quem está aí?

Silêncio.

— Tem alguém aí?

— Croc!

Abriu a porta. Não havia ninguém. Apenas um pequeno jacaré dentro da banheira. O animal olhou para ele. O presidente olhou para o animal. Os dois permaneceram imóveis.

— Você veio me buscar?

O jacaré piscou.

— Eu sabia — disse o presidente.

O animal abriu a boca.

— Croc!

— Não precisa explicar.

Naquela noite, depois de tocar o réptil até o Lago Paranoá, o Imbroxável dormiu mal. Sonhou que caminhava por Brasília e encontrava antigos aliados transformados em répteis. Uns nadavam no Lago Paranoá; outros tomavam sol na grama diante do Congresso Nacional; alguns usavam toga. Um deles segurava um martelo. Outro carregava uma faixa presidencial. No sonho, todos diziam a mesma coisa:

— A política é um grande pântano.

Quando acordou, estava suando. Olhou para o relógio: cinco da manhã. Foi até o banheiro, lavou o rosto e levantou os olhos para o espelho. Por um instante, teve a impressão de que havia duas pupilas verticais olhando para ele. Piscou. Tudo voltou ao normal.

— Deve ser a idade.

Anos se passaram. A pandemia terminou. As vacinas contra covid continuam sendo aplicadas, anualmente, junto com a da influenza e outras.

No Brasil, muitas vacinas contra a Covid-19 foram depois descartadas, permanecendo apenas as da Pfizer, Moderna e Serum/Zalika. Xô Coronavac/Butantan! Xô AstraZeneca/Fiocruz! Para tristeza de BolsoDoria e do Imbroxável. A Pfizer é dona de um comprimido azul com vitamina T (Tesão), o Viagra que faz a alegria dos velhinhos. Levanta o bilau quem nunca tomou o produto milagroso...

Os jacarés continuam existindo. E os antigos aliados continuam se atacando, agora com a distância segura que só a política e o fundo eleitoral proporcionam.

BolsoDoria permaneceu nos banhados da Flórida, preocupado em preservar seu patrimônio, sua imagem empresarial e seu bronzeado reptiliano. BolsoFrota tornou-se uma espécie de celebridade dos pântanos de Nova Orleans, onde concede entrevistas antes de nadar como o Michael Phelps e buscar um mergulho nas águas menos quentes do Golfo da América — assim rebatizado por Trump, porque até os jacarés precisavam se adaptar à nova geografia do Golfo do México. BolsoJoyce continua aparecendo ocasionalmente na Marginal Pinheiros, sobretudo em noites de lua cheia. Diz-se que, ao se transformar, ainda conservava a capacidade de fazer discursos de quarenta minutos. O problema é que ninguém mais entendia.

— Croc, croc, croc.

Um antigo assessor resumiu a situação:

— Antes ela falava demais. Agora pelo menos fala em língua réptil.

Quanto ao ex-presidente, continuava repetindo, antes de ser trancado na prisão domiciliar imposta por ministros petistas do STF, que nunca havia dito exatamente aquilo que todos diziam que ele havia dito.

— Eu não disse que a pessoa viraria jacaré!

— Mas disse que poderia virar.

— É diferente.

— Qual a diferença?

— Uma coisa é virar. Outra coisa é poder virar.

O jornalista ficou em silêncio.

— E os seus antigos aliados?

— Problema deles.

— O senhor acredita na maldição?

O presidente sorriu.

— Não.

— Então por que há tantos jacarés?

Ele apontou para o Lago Paranoá, atrás do Palácio da Alvorada:

— Pergunte a eles.

O jornalista olhou. Havia três jacarés imóveis na margem. Um deles usava gravata. Outro parecia sorrir. O terceiro tinha uma expressão de quem conhecia segredos demais.

O jornalista aproximou-se dos répteis.

— Vocês foram políticos?

Os três permaneceram calados.

— Foram aliados do presidente?

Silêncio.

— Viraram adversários?

Nada. Então o maior dos jacarés abriu lentamente a boca e disse:

— Croc.

O jornalista anotou.

Desde então, quando alguém pergunta se a profecia do Imbroxável era verdadeira, os habitantes das margens do Rio Pinheiros, do Lago Paranoá e dos pântanos de Miami e da Flórida costumam responder com cautela.

Ninguém sabe se vacina transforma gente em jacaré. A ciência jamais confirmou. Mas a política brasileira já demonstrou que consegue transformar aliados em inimigos, amigos em desafetos, admiradores em acusadores e companheiros de palanque em adversários ferozes com uma rapidez que nenhum laboratório conseguiu explicar.

Talvez tenha sido por isso que, certa madrugada, um velho pescador encontrou três jacarés descansando à margem de um rio. O primeiro tinha um jeito de empresário. O segundo parecia ter vindo do cinema. A terceira mantinha um olhar de comentarista político.

O pescador observou os três por algum tempo e finalmente perguntou:

— Vocês não eram gente?

Os três se entreolharam. Depois olharam para a lua. E, como se houvessem ensaiado durante anos a resposta, abriram a boca simultaneamente:

— Croc!

O pescador ajeitou o chapéu.

— Pois é. Política é assim mesmo.

E foi embora.

Atrás dele, os três jacarés continuaram imóveis, tomando banho de lua. Talvez arrependidos. Talvez satisfeitos. Ou talvez apenas esperando a próxima eleição.

Porque, no Brasil, até os jacarés aprenderam uma regra fundamental da política: nunca se sabe quando é hora de trocar de lado. Mas é bom saber nadar.