O dia em que Alexandre
mandou
prender Moraes
No
Brasilistão — país tropical onde o absurdo tira RG e causídico não passa em concurso, mas acaba
nomeado para cargo vitalício — aconteceu algo que nem os cronistas de realismo
mágico como Gabriel García Márquez teriam coragem de inventar: o dia em que
Alexandre mandou prender Moraes.
Não
foi metáfora. Não foi alegoria. Foi despacho.
A
sessão começou às nove da manhã na Suprema Corte, um edifício imponente onde as
colunas de mármore sustentam não apenas o teto, mas também uma certa
elasticidade conceitual do direito desde que o Ogro de Nove Dedos e a
Estocadora de Vento aparelharam o STF com sete líderes do PT.
No
centro da mesa, com a gravidade de quem carrega o peso da Constituição e
algumas condenações surpreendentes, como a do Presidente Jair Bolsonaro (sejam
criativos! sempre diz a seus subordinados), estava o excelentíssimo
ministro Alexandre.
Do
outro lado, ajustando a toga e alisando a careca com expressão contrariada,
estava o réu do processo: o excelentíssimo ministro Moraes.
Ambos
se entreolharam por alguns segundos.
O
ministro Moraes havia dispensado os 12 advogados da banca de sua esposa, que iriam
defendê-lo, deixando-os à toa na sala do tribunal. Ele mesmo iria fazer sua
defesa.
—
Ministro Moraes — disse o ministro Alexandre, abrindo um calhamaço de papéis —
o senhor está sendo acusado de uma série de irregularidades bastante…
criativas.
Moraes
pigarreou.
—
Criativas em que sentido?
— Em
vários sentidos — respondeu Alexandre. — Financeiro, logístico, etílico e,
segundo consta nos autos, também turístico.
Um capinha
colocou sobre a mesa de Alexandre três volumes encadernados.
Volume
I: Banco Master e as alquimias bancárias envolvendo empresa advocatícia de Viviane
Barci de Moraes.
Volume
II: Viagens pedagógicas regadas a uísque em Londres.
Volume
III: Eventos culturais com loiras nórdicas em Trancoso, Lisboa, Sicília e
Caribe, e iluminação temática na Alameda Lorena, em Sampa.
Moraes
recebeu e folheou rapidamente o terceiro volume.
—
Excelência, isso aqui está muito mal redigido.
— Em
que ponto, exatamente?
—
Aqui diz Festança digna das Mil e Uma Noites com DJ escandinavo e dançarinas
vindas de Oslo, em Trancoso. Eu jamais contrataria DJ de Oslo. Musicalmente,
são muito frios.
Alexandre
fez uma anotação.
—
Fica registrado o protesto do réu quanto à qualidade do DJ, escolha mal feita
por Daniel Vorcaro.
O
escrivão assentiu.
—
Registrado.
Alexandre
continuou:
—
Passando ao primeiro ponto. O Banco Master.
— Ah
— disse Moraes, cruzando os braços — já começaram as narrativas: Bolsomaster para
um lado, Lulamaster para outro. A verdade é que há personagens da extrema
direita à extremidade da esquerda radical. Ideologicamente, tudo muito harmonioso, como convém a
um Estado democrático de direito.
—
Segundo os autos, houve reuniões discretas, encontros reservados e pelo menos
três jantares institucionais em que a conta milionária foi paga por um
banqueiro extremamente generoso. Na Sicília, diz a mídia, houve festança de
quatro dias num condomínio de luxo, ao custo de 200 milhões de reais, com
participação de artistas como Coldplay, Andrea Bocelli, Michael Bublé e o DJ
David Guetta. O tenor Andrea Bocelli aproveitou para cantar Nesun Dorma.
Que ninguém durma. Muito espirituoso, esse Bocelli...
—
Excelência — respondeu Moraes — jantar não é crime. Nem ouvir tenor italiano
cantando ária da ópera Turandot, de Giacomo Puccini. A propósito, nem
estive na Itália.
—
Concordo. Vejo que você gosta de óperas, eu também gosto. Roberto Jefferson
também gostava de cantar essa ária de Puccini no banheiro, em Brasília, na
época do Mensalão, depois de dizer ao José Dirceu, o Zé do Caroço, quando era
chefe da Casa Civil: Zé Dirceu, se você não sair daí rápido, você vai fazer
réu um homem inocente que é o presidente Lula.
—
Uísque também não é crime.
—
Depende da quantidade.
— E
networking financeiro é parte da vida republicana.
— E
os 129 milhões envolvendo o escritório de advocacia de sua esposa junto ao
Banco Master?
— O
que eu tenho a ver com isso? Isso é misoginia! Uma mulher não pode ter sucesso
financeiro, só homem? Um escritório de primeira grandeza cobra caro,
excelência. Lembra do advogado Thomaz Bastos? Carlinhos Cachoeira, um Zé
Ninguém, teve que desembolsar 15 milhões. Sabe quanto cobra o Kakay?
Alexandre
folheou outro documento.
— O
problema não é o networking. É quando ele vira master working jurídico de alta
rentabilidade, misturando interesses cruzados de vossa excelência e da banca de
advogados de sua mulher com o dono do Banco Master.
O
silêncio na sala ficou espesso.
Um dos 12 advogados do escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes teve um mal
súbito, desmaiou e foi levado para o Hospital de Base.
Um
estagiário deixou cair o notebook, depois de derramar um copo d’água.
Alexandre
prosseguiu:
—
Temos registro de voos para Londres, em 2024, para o Fórum Jurídico “Brasil de
Ideias”, onde constam nomes como de vossa excelência, Dias Toffoli, Ricardo
Lewandovski, Hugo Motta e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
Até o Paulo Gonet, o Procurador que Não Procura, estava lá. E Benedito Gonçalves, o Bochechinha
do Lula, que cochichou no seu ouvido, missão dada é missão cumprida, deu
também uma escapadinha nesse clube privado em Mayfair, ao custo de R$ 31 milhões.
—
Conferências jurídicas, como o nome indica: Fórum Jurídico.
— Em
clube privado.
—
Ambiente acadêmico alternativo.
—
Com degustação de single malt.
—
Pesquisa comparada de jurisprudência.
— Às
três da manhã.
—
Horário em que os precedentes vinculantes britânicos ficam mais claros.
Alexandre
levantou os olhos lentamente.
—
Ministro Moraes, o senhor está dificultando sua própria defesa.
Moraes
suspirou.
—
Excelência… sejamos francos. No Brasilistão, o que seria exatamente uma defesa
adequada?
Alexandre
pensou por um momento.
— Para
começar, algo que não envolvesse planilhas de uísque 30 anos.
—
Aquilo foi erro de contabilidade.
— O
senhor chamou 48 garrafas de Macallan Double Cask, R$ 57.000,00 a
unidade, de material de estudo.
—
Eram notas de degustação jurídica.
O
escrivão, com os olhos arregalados, voltou a escrever depois de uma pequena
pausa.
Nesse
momento, outro capinha entrou na sala trazendo um grande envelope
lacrado.
—
Excelência, chegou novo material probatório.
Alexandre
abriu.
Dentro
havia fotos. Muitas fotos. Trancoso. Lisboa. Caribe. Sicília. Alameda Lorena, em Sampa, iluminada como se fosse réveillon em Dubai.
Em
várias delas aparecia Moraes, sorrindo com a naturalidade do Papa dando a bênção
urbi et orbi na janela do Vaticano, na hora do Angelus dominical.
Alexandre
levantou uma sobrancelha.
—
Ministro Moraes… quem são essas pessoas?
Moraes
olhou rapidamente.
—
Intercâmbio cultural.
—
Todas loiras, em Trancoso?
— Mudança
climática.
—
Vindas da Rússia, da Ucrânia e da Noruega?
—
Países amigos. Um brasileiro-norueguês até nos deu um ouro nas Olimpíadas de
Inverno Milano-Cortina.
Alexandre
virou outra foto.
—
Aqui o senhor está vestido de sultão.
—
Festa temática.
—
Aqui está numa jacuzzi com empresários, regada a uísque.
—
Reunião líquida, para limpar os poros do corpo, depois de longa viagem de avião.
—
Aqui está brindando com o banqueiro Daniel Vorcaro.
—
Cooperação institucional. Cada país tem o Jeffrey Epstein que consegue bancar.
—
Aqui o senhor está dançando lambada com uma violinista sueca. E um senador está
com uma loira no colo, e uísque na mão.
Moraes
coçou o queixo.
— Intercâmbio
cultural.
O
silêncio voltou a dominar a sala.
Alexandre
respirou fundo. Por fim, perguntou:
— No
dia em que Vorcaro foi preso, ele mandou uma mensagem enigmática para vossa
excelência: conseguiu bloquear? Era para bloquear o quê? O que o senhor
tem a dizer?
— É fake
news, espalhada pela jornalista Malu Gaspar. Não sei por que a Globo
não nos está apoiando, como sempre fazia.
—
Ministro Moraes, o senhor percebe que a situação é muito grave? Que estão
pedindo seu impeachment no Senado?
—
Percebo.
— Há
indícios de favorecimento financeiro, viagens suspeitas e uma vida noturna
incompatível com a sobriedade de um magistrado.
—
Excelência, o senhor fala como se nunca tivesse sido jovem.
— Eu
fui jovem.
— E
nunca foi a Trancoso?
—
Fui.
— E
nunca bebeu uísque em Londres?
—
Bebi.
— E
nunca dançou com escandinavas?
Alexandre
ficou pensativo por um instante. E respondeu:
—
Isso é irrelevante para o processo. Sou eu que faço as perguntas aqui, e você
responde.
Moraes
inclinou-se para frente.
—
Excelência… sejamos honestos.
—
Estamos sendo.
—
Somos a mesma pessoa.
O
escrivão parou de escrever.
Os
advogados tossiram em seco.
O
ar-condicionado fez um ruído nervoso e suspeito.
Alexandre
ajeitou a toga.
— No
Brasilistão, isso não constitui impedimento processual.
— Eu
sei.
—
Pelo contrário. Demonstra profundo conhecimento do investigado.
—
Isso é verdade.
Alexandre
folheou o último documento.
—
Diante de tudo isso, resta apenas uma pergunta.
—
Qual?
— O
senhor tem algo a declarar em sua defesa final?
Moraes
pensou por alguns segundos. Depois respondeu com serenidade:
—
Apenas que, se eu for condenado, quem assume o caso sou eu mesmo.
Alexandre
refletiu.
—
Isso cria um precedente curioso.
—
Mas eficiente.
— E
quem julga o recurso?
—
Nós dois.
Alexandre
bateu levemente o martelo imaginário, com aquele sorriso sinistro de Lord
Voldemort conhecido de todos.
—
Muito bem!
Ele
endireitou os papéis e leu solenemente:
— Considerando
os fatos, as fotos, os recibos de uísque escocês, as notas fiscais de DJs
nórdicos, e os depoimentos dos vigias de Trancoso e das violinistas suecas…
Fez
uma pausa dramática.
— ...
este tribunal decide, por unanimidade absoluta de mim mesmo…
Mais
uma pausa.
— …
mandar prender o ministro Moraes...
Uma
pausa mais longa.
—
... por 12 anos...
Outra
pausa longa.
— ... na Papuda.
Moraes
assentiu com dignidade.
— É
justo. Papuda é um bom lugar, tem boa comida e bom atendimento médico. O
Bolsonaro nunca mais reclamou.
— O
senhor aceita a decisão?
—
Aceito.
—
Pretende recorrer?
—
Naturalmente. Para reduzir a dosimetria, para 2 anos, de modo a poder usufruir
o benefício de sursis e ficar livre como o coronel Mauro Cid.
— Vai
ser difícil, porque o Fux queria te dar 27 anos. Caso não consiga a sursis,
vossa excelência pretende fazer delação premiada?
—
Claro. Você não tem ideia do que eu tenho pra contar...
— Vai
recorrer a quem?
Moraes
sorriu o sorriso sinistro de sempre.
— Ao
ministro Alexandre.
Alexandre
fechou o processo.
—
Então está resolvido.
E
apertaram as mãos, com a gravidade que a ocasião exigia.
O
escrivão perguntou:
—
Excelências… quem lavra a ata?
Alexandre
respondeu:
—
Nós dois. Alexandre e Moraes.
E
assim terminou o mais extraordinário julgamento da história do Brasilistão,
nunca antes visto neste País.
Um
processo em que acusador, réu, juiz, carrasco, tribunal e instância recursal
eram, essencialmente, a mesma pessoa — prova definitiva de que, em certas
latitudes tropicais, a realidade não apenas supera a ficção. Ela a processa. A
condena.
E, quando
convém (sempre convém!), assina o próprio alvará de soltura.





