MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Sobre vachinas e jacarés - Por Félix Maier

 


Sobre vachinas e jacarés

Félix Maier

Durante a pandemia da Covid-19, quando o Brasil parecia ter entrado num daqueles pesadelos em que ninguém encontra a saída porque cada porta dá para outra porta, o Presidente Jair Bolsonaro, o Imbroxável, e o governador de São Paulo, João Doria, conhecido nas rodas políticas como BolsoDoria, travaram uma batalha de proporções épicas para decidir qual vacina deveria salvar a pátria: a CoronaVac, produzida pelo Butantan, com licença da chinesa Sinovac Biotech, ou a AstraZeneca, de um consórcio sueco-britânico, fabricada no Brasil pela Fiocruz.

Era uma discussão aparentemente científica, mas com a delicadeza intelectual de dois adolescentes discutindo no banheiro quem tinha o bilau mais comprido. De um lado, o governador paulista defendia a CoronaVac, que tinha sua produção de vacinas feita com o IFA (Ingrediente Farmacêutico Ativo) vindo da China. Do outro, o presidente defendia a vacina AstraZeneca, produzida pela Fiocruz. Não sabia o Imbroxável que o princípio ativo de sua vacina também vinha da China.

— Essa vachina aí — dizia o Imbroxável, fazendo uma pausa dramática — vem daquele país dos olhinhos puxados!

E, como quem revela um segredo de Estado, acrescentava:

— E eu não vou dizer o que pode acontecer depois!

Não precisava dizer. O presidente já havia deixado no ar a sua famosa profecia: quem tomasse aquela vacina poderia acabar virando jacaré.

A frase, naquele tempo, provocou risos, indignação, memes, discussões de botequim e uma quantidade respeitável de desenhos de jacarés usando máscara. Houve quem dissesse que era apenas uma metáfora. Houve quem jurasse que era uma advertência científica. Houve até quem, mais prudente, começasse a olhar com desconfiança para os próprios cotovelos.

Ninguém, porém, levou em consideração a possibilidade mais perigosa de todas: a profecia pegar. E pegou.

João Doria havia surgido na política como uma espécie de satélite brilhante da constelação presidencial. Era a época em que Bolsonaro e Doria trocavam afagos públicos, elogios protocolares e fotografias em que ambos sorriam como se tivessem descoberto juntos a cura para a política brasileira. Chamavam-no, então, de BolsoDoria. Era um apelido útil, porque explicava, numa única palavra, uma proximidade política que, em certos momentos, parecia mais íntima que um aperto de mão e mais conveniente que um casamento.

Mas a política brasileira possui uma curiosa propriedade química: alianças que parecem indestrutíveis podem evaporar com a mesma rapidez de álcool em dia quente. Não demorou para que o BolsoDoria deixasse de ser BolsoDoria e voltasse a ser simplesmente Doria. Depois passou a ser adversário, depois inimigo, depois crítico e, finalmente, tornou-se uma dessas criaturas políticas que, quando aparecem na televisão, fazem o eleitor procurar o controle remoto por instinto.

O mesmo fenômeno ocorreu com Joice Hasselmann e Alexandre Frota. Os dois haviam sido eleitos sob a sombra luminosa — ou sombria, conforme o ponto de vista — do fenômeno Bolsonaro. Eram tempos em que vestir a camisa do capitão parecia suficiente para garantir uma espécie de passaporte para Brasília. Joice era uma máquina parlamentar de frases, vídeos, acusações e indignações. Frota carregava para a política a experiência de quem já conhecera vários palcos, inclusive alguns que Brasília jamais deveria conhecer em horário eleitoral.

Ambos, contudo, fizeram aquilo que políticos brasileiros fazem com admirável frequência: mudaram de lado antes que o lado percebesse. A partir daí, a antiga fraternidade virou guerra. O que antes era abraço tornou-se cotovelada; o que antes era elogio virou denúncia; o que antes era mito passou a ser autoritarismo. E, como costuma acontecer nesses casos, ninguém mais se lembrava de ter estado do outro lado.

Foi justamente nessa época que começou o estranho fenômeno dos desaparecimentos. Primeiro, ninguém deu muita importância. Um jacaré apareceu num lago. Depois outro. Depois uma jacaroa. Aos poucos, surgiram rumores de que certos políticos haviam sido vistos rastejando pelas margens dos rios, escondendo-se nos manguezais, tomando sol sobre pedras e demonstrando uma irritação incomum com jornalistas. A princípio, parecia apenas coincidência. Até que alguém encontrou uma velha inscrição num muro de Brasília:

VOCÊ VAI VIRAR JACARÉ.

Abaixo, alguém escrevera, com tinta vermelha de batom:

E NÃO ADIANTA RECORRER AO STF.

Foi então que a coisa ficou séria. O primeiro caso confirmado ocorreu com BolsoDoria. Num fórum internacional organizado pelo LIDE (Grupo de Líderes Empresariais), em Nova York, não em Miami, como era costume, pois havia a participação ilustre de ministros do STF — Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes, Luís Roberto Barroso e Dias Toffoli —, o ex-governador de São Paulo começou a sentir uma coceira no pescoço. A princípio, atribuiu aquilo ao ar-condicionado. Depois, à alergia.   

De volta a Miami, a coceira aumentou e vieram as escamas: primeiro pequenas, depois médias e, por fim, enormes.

O assessor que estava diante dele deixou cair o celular.

— Governador...

— Ex-governador — corrigiu Doria, automaticamente.

— Não. Quero dizer...

O homem apontou para o pescoço. Doria olhou para o espelho. Seu rosto continuava reconhecível, mas começava a adquirir um aspecto desagradavelmente reptiliano.

— Isso é um absurdo!

A boca se alongou.

— Vou processar o Bolsonaro!

Os dentes cresceram.

— Isso não pode estar acontecendo!

As mãos encolheram. A pele ficou verde. E, antes que pudesse chamar o advogado, BolsoDoria desapareceu dentro de uma poça de água decorativa existente no jardim do hotel.

O segurança viu apenas duas coisas: um grande rabo batendo na água e uma etiqueta de grife flutuando na superfície.

A transformação de Frota foi mais dramática. Ele estava numa reunião política quando começou a sentir uma necessidade irresistível de ficar perto da água.

— Preciso de um lago — disse.

— Um lago?

— Um lago.

— Temos uma piscina.

— Não serve.

— Por quê?

Frota olhou para o horizonte.

— Não sei. Meu instinto manda procurar um pântano.

Cinco minutos depois, já não havia mais político na sala. Havia um jacaré. O animal atravessou o corredor, ignorou os seguranças, passou pela garagem e entrou num carro oficial. Quando o motorista viu o bicho sentado no banco traseiro, perguntou:

— Para onde, excelência?

O jacaré respondeu:

— Para onde houver água.

O motorista, que já tinha visto coisas mais estranhas em Brasília, não fez perguntas.

Com Joice Hasselmann, a transformação foi ainda mais peculiar. Ela estava diante de uma câmera quando percebeu que alguma coisa estava errada. Começou a falar, como sempre, sobre a situação do país, mas interrompeu para olhar a própria mão. Havia escamas. Olhou para a outra. Escamas também.

— Isso é uma montagem!

A cauda apareceu.

— Isso é fake news!

A boca começou a se alongar.

— Isso é perseguição política!

A pele ficou verde.

— Isso é uma tentativa de me silenciar!

E então, em vez de terminar a frase, soltou um:

— Croc!

A câmera caiu. O cinegrafista saiu correndo. Quando voltou, encontrou apenas uma cadeira vazia, um microfone no chão e uma jacaroa escondida atrás da cortina. Ela ainda tentou explicar alguma coisa, mas agora toda frase terminava em croc.

A notícia espalhou-se rapidamente. Em Brasília, ninguém queria admitir que acreditava na história, mas todo mundo acreditava. Deputados passaram a olhar com desconfiança para os colegas que permaneciam tempo demais diante do espelho. Senadores evitavam lagos. Ministros recusavam convites para pescarias. Governadores mandavam instalar cercas ao redor de piscinas. Em certos gabinetes, retiraram até aquários.

Um deputado chegou a pedir que sua assessoria fizesse um levantamento de todos os rios, córregos, represas, banhados e açudes existentes num raio de quinhentos quilômetros de Brasília.

— Para quê? — perguntou a secretária.

— Prevenção.

— Prevenção contra quê?

O deputado olhou para os lados antes de responder, quase num sussurro:

— Crocodilagem.

Foi então que apareceu o professor Hipólito de Albuquerque, especialista em fenômenos inexplicáveis e autor de um tratado obscuro chamado Metamorfoses Políticas da República Tropical. Segundo ele, o fenômeno não tinha relação direta com vacina alguma.

— O jacaré — explicou — é um animal politicamente simbólico.

— Por quê?

— Porque passa muito tempo parado, de boca aberta, esperando que alguma coisa caia nela.

O jornalista anotou.

— Isso é uma crítica aos políticos?

— Não. É uma observação zoológica.

— Mas o senhor está dizendo que políticos podem virar jacarés?

— Não.

— Então o que está dizendo?

O professor ajeitou os óculos.

— Estou dizendo que talvez alguns jacarés já tenham virado políticos.

A frase causou enorme repercussão. No dia seguinte, os jornais publicaram manchetes anunciando que um professor afirmava haver jacarés infiltrados na política. O professor passou o dia inteiro negando o que havia dito, mas já era tarde. Na política brasileira, uma frase mal compreendida tem mais pernas que uma verdade bem explicada.

Enquanto isso, BolsoDoria instalou-se na Flórida. Escolheu um banhado discreto, longe dos turistas, mas suficientemente próximo dos bairros ricos para manter alguma dignidade social. De vez em quando, era visto tomando sol sobre um píer. Continuava preocupado com negócios. Mesmo com quatro patas e uma cauda monumental, mantinha hábitos empresariais.

Mandara imprimir cartões de visita:

JOÃO DORIA

Empresário, Líder Empresarial e Réptil Estratégico

No verso:

LIDE — Grupo de Líderes Empresariais

E, em letras menores:

Atendimento mediante agendamento

O jacaré havia descoberto uma vantagem extraordinária na nova condição: ninguém mais lhe pedia explicações sobre política. Quando um jornalista se aproximava, ele simplesmente mergulhava. Quando alguém perguntava sobre o futuro do Brasil, mergulhava. Quando perguntavam sobre candidatura presidencial, mergulhava. Quando perguntavam sobre negócios, levantava apenas os olhos.

Certa vez, um repórter perguntou:

— O senhor ainda pretende voltar à política?

BolsoDoria abriu a boca.

O jornalista recuou.

— Era só uma pergunta!

O jacaré mergulhou.

BolsoFrota teve destino diferente. Foi parar nos pântanos da Louisiana, perto de Nova Orleans, onde encontrou uma comunidade de crocodilos que o recebeu com desconfiança. Um velho crocodilo perguntou de onde ele vinha.

— Do Brasil.

— E o que fazia lá?

Frota hesitou.

— Política.

Os crocodilos se entreolharam.

— Então você é perigoso.

— Por quê?

O velho crocodilo mostrou os dentes.

— Aqui, pelo menos, os crocodilos só mordem.

BolsoFrota considerou a frase. Não sabia se aquilo era elogio ou crítica. Acabou ficando. Rapidamente descobriu que os crocodilos americanos eram menos ideológicos que os políticos brasileiros. Não discutiam esquerda e direita. Discutiam apenas território. E, quando terminavam a discussão, mordiam. Frota achou aquilo estranhamente honesto.

BolsoJoice, por sua vez, tomou outro caminho. Durante o dia, escondia-se nas águas da Marginal Pinheiros. À noite, segundo relatos nunca confirmados, transformava-se numa criatura meio jacaroa, meio sereia. Os motoristas que passavam pela avenida diziam ouvir uma voz feminina saindo da água:

— Pare!

Alguns paravam.

— Venha cá!

Alguns chegavam mais perto.

— Tenho uma denúncia!

Aí corriam. Ninguém queria ouvir denúncia de uma sereia-jacaroa às duas da manhã.

Um pescador jurou que certa noite ela lhe perguntou:

— Você acredita em liberdade de expressão?

O homem respondeu:

— Acredito.

— Então me explique por que ninguém pode mais pescar aqui!

O pescador olhou para a água e respondeu:

— Porque a senhora está espantando os peixes.

A jacaroa pensou. Era a primeira vez que alguém lhe respondia sem medo. Desde então, passou a respeitar o pescador.

A lenda, entretanto, não terminou ali. Começaram a aparecer outros jacarés. Uns eram verdes; outros, pardos; alguns tinham dentes muito brancos; outros usavam gravata. Um deles apareceu em Brasília usando terno azul-marinho e sapatos italianos. Ninguém sabia de onde vinha. Entrava nos restaurantes mais caros, sentava-se à mesa, abria o cardápio e esperava. Quando o garçom perguntava o que desejava, respondia:

— O prato do dia.

— Para beber?

— Água.

— Com gás?

— Sem gás.

Depois ficava em silêncio.

Certa noite, um deputado perguntou:

— O senhor é político?

— Não.

— Empresário?

— Também não.

— Magistrado?

O jacaré demorou a responder.

— Depende do preço.

O deputado levantou-se imediatamente e saiu apressado.

A partir daí, a população começou a suspeitar de que a profecia do Imbroxável não fosse apenas uma piada. Talvez ele tivesse, sem querer, descoberto uma lei secreta da política brasileira: quem se aproxima demais do poder acaba mudando de pele. Primeiro vem o entusiasmo; depois, o rompimento; depois, a troca de discurso; depois, a televisão; depois, as redes sociais; e, finalmente, o pântano.

Era uma espécie de ciclo natural. Como a chuva. Como as enchentes. Como a troca de partido. Como o político que jura fidelidade numa segunda-feira e descobre, na quarta, que sempre fora adversário.

O próprio Imbroxável começou a desconfiar. Certa manhã, diante do espelho, examinou os próprios braços. Nada. Olhou os dedos. Normais. Examinou o rosto. Ainda humano. Respirou aliviado.

— Ainda bem.

Foi então que ouviu um barulho vindo do banheiro.

— Croc!

O presidente congelou.

— Quem está aí?

Silêncio.

— Tem alguém aí?

— Croc!

Abriu a porta. Não havia ninguém. Apenas um pequeno jacaré dentro da banheira. O animal olhou para ele. O presidente olhou para o animal. Os dois permaneceram imóveis.

— Você veio me buscar?

O jacaré piscou.

— Eu sabia — disse o presidente.

O animal abriu a boca.

— Croc!

— Não precisa explicar.

Naquela noite, depois de tocar o réptil até o Lago Paranoá, o Imbroxável dormiu mal. Sonhou que caminhava por Brasília e encontrava antigos aliados transformados em répteis. Uns nadavam no Lago Paranoá; outros tomavam sol na grama diante do Congresso Nacional; alguns usavam toga. Um deles segurava um martelo. Outro carregava uma faixa presidencial. No sonho, todos diziam a mesma coisa:

— A política é um grande pântano.

Quando acordou, estava suando. Olhou para o relógio: cinco da manhã. Foi até o banheiro, lavou o rosto e levantou os olhos para o espelho. Por um instante, teve a impressão de que havia duas pupilas verticais olhando para ele. Piscou. Tudo voltou ao normal.

— Deve ser a idade.

Anos se passaram. A pandemia terminou. As vacinas contra covid continuam sendo aplicadas, anualmente, junto com a da influenza e outras.

No Brasil, muitas vacinas contra a Covid-19 foram depois descartadas, permanecendo apenas as da Pfizer, Moderna e Serum/Zalika. Xô Coronavac/Butantan! Xô AstraZeneca/Fiocruz! Para tristeza de BolsoDoria e do Imbroxável. A Pfizer é dona de um comprimido azul com vitamina T (Tesão), o Viagra que faz a alegria dos velhinhos. Levanta o bilau quem nunca tomou o produto milagroso...

Os jacarés continuam existindo. E os antigos aliados continuam se atacando, agora com a distância segura que só a política e o fundo eleitoral proporcionam.

BolsoDoria permaneceu nos banhados da Flórida, preocupado em preservar seu patrimônio, sua imagem empresarial e seu bronzeado reptiliano. BolsoFrota tornou-se uma espécie de celebridade dos pântanos de Nova Orleans, onde concede entrevistas antes de nadar como o Michael Phelps e buscar um mergulho nas águas menos quentes do Golfo da América — assim rebatizado por Trump, porque até os jacarés precisavam se adaptar à nova geografia do Golfo do México. BolsoJoyce continua aparecendo ocasionalmente na Marginal Pinheiros, sobretudo em noites de lua cheia. Diz-se que, ao se transformar, ainda conservava a capacidade de fazer discursos de quarenta minutos. O problema é que ninguém mais entendia.

— Croc, croc, croc.

Um antigo assessor resumiu a situação:

— Antes ela falava demais. Agora pelo menos fala em língua réptil.

Quanto ao ex-presidente, continuava repetindo, antes de ser trancado na prisão domiciliar imposta por ministros petistas do STF, que nunca havia dito exatamente aquilo que todos diziam que ele havia dito.

— Eu não disse que a pessoa viraria jacaré!

— Mas disse que poderia virar.

— É diferente.

— Qual a diferença?

— Uma coisa é virar. Outra coisa é poder virar.

O jornalista ficou em silêncio.

— E os seus antigos aliados?

— Problema deles.

— O senhor acredita na maldição?

O presidente sorriu.

— Não.

— Então por que há tantos jacarés?

Ele apontou para o Lago Paranoá, atrás do Palácio da Alvorada:

— Pergunte a eles.

O jornalista olhou. Havia três jacarés imóveis na margem. Um deles usava gravata. Outro parecia sorrir. O terceiro tinha uma expressão de quem conhecia segredos demais.

O jornalista aproximou-se dos répteis.

— Vocês foram políticos?

Os três permaneceram calados.

— Foram aliados do presidente?

Silêncio.

— Viraram adversários?

Nada. Então o maior dos jacarés abriu lentamente a boca e disse:

— Croc.

O jornalista anotou.

Desde então, quando alguém pergunta se a profecia do Imbroxável era verdadeira, os habitantes das margens do Rio Pinheiros, do Lago Paranoá e dos pântanos de Miami e da Flórida costumam responder com cautela.

Ninguém sabe se vacina transforma gente em jacaré. A ciência jamais confirmou. Mas a política brasileira já demonstrou que consegue transformar aliados em inimigos, amigos em desafetos, admiradores em acusadores e companheiros de palanque em adversários ferozes com uma rapidez que nenhum laboratório conseguiu explicar.

Talvez tenha sido por isso que, certa madrugada, um velho pescador encontrou três jacarés descansando à margem de um rio. O primeiro tinha um jeito de empresário. O segundo parecia ter vindo do cinema. A terceira mantinha um olhar de comentarista político.

O pescador observou os três por algum tempo e finalmente perguntou:

— Vocês não eram gente?

Os três se entreolharam. Depois olharam para a lua. E, como se houvessem ensaiado durante anos a resposta, abriram a boca simultaneamente:

— Croc!

O pescador ajeitou o chapéu.

— Pois é. Política é assim mesmo.

E foi embora.

Atrás dele, os três jacarés continuaram imóveis, tomando banho de lua. Talvez arrependidos. Talvez satisfeitos. Ou talvez apenas esperando a próxima eleição.

Porque, no Brasil, até os jacarés aprenderam uma regra fundamental da política: nunca se sabe quando é hora de trocar de lado. Mas é bom saber nadar.















terça-feira, 11 de agosto de 2026

O Laranjão e o Bombado do Kremlin - Por Félix Maier

 


O Laranjão e o Bombado do Kremlin

Quando o Laranjão reassumiu a presidência da maior potência do planeta, em 20 de janeiro de 2025, o mundo inteiro fez a mesma coisa: prendeu a respiração durante cinco segundos e, logo depois, sacou o celular para gravar a reação.

Nunca se vira um retorno tão cinematográfico. O topete dourado continuava desafiando as leis da física com a mesma desenvoltura de um pombo que resolve pousar sobre uma turbina de avião. Havia meteorologistas sustentando que ele alterava a direção dos ventos; físicos afirmavam que possuía campo magnético próprio; e um professor de Oxford publicou um artigo demonstrando, com quarenta gráficos coloridos e nenhuma conclusão, que o penteado representava uma ruptura epistemológica na aerodinâmica capilar.

As redes sociais explodiram. Em menos de uma hora, apareceram quarenta milhões de memes. Alguns mostravam o topete sendo confundido com uma frente fria. Outros garantiam que ele podia ser visto da Estação Espacial Internacional. Um astrônomo amador jurou tê-lo fotografado cruzando o disco solar durante um eclipse parcial.

A NASA preferiu não comentar.

Na Europa, a esquerda universitária entrou em estado de efervescência intelectual. Em Paris, estudantes ocuparam a Sorbonne empunhando cartazes onde se lia Abaixo a Geopolítica Capilar e Nenhum Topete Será Maior do que a Revolução.

Um filósofo de cachecol grená declarou que o cabelo presidencial simbolizava a opressão estética do capitalismo tardio. Outro retrucou que se tratava apenas de uma metáfora do neoliberalismo penteado para trás. Um terceiro escreveu um ensaio de quatrocentas páginas provando que ambos estavam errados porque o topete era, na verdade, um fenômeno pós-estruturalista. O livro recebeu um prêmio importante, embora ninguém conseguisse terminar de lê-lo.

Hollywood percebeu imediatamente o filão. Em poucas semanas anunciou uma avalanche de produções. Vieram O Napoleão Nuclear, O Topete do Apocalipse, Missão Improvável – A Última Tarifa, O Império Contra o Hambúrguer e uma minissérie de oito episódios intitulada Diplomacia para Iniciantes, na qual todos os conflitos internacionais eram resolvidos por meio de competições de karaokê. Um diretor mais ambicioso decidiu filmar simultaneamente a continuação e o making off, para economizar tempo caso a realidade ultrapassasse novamente a ficção.

Do outro lado do planeta, entretanto, o Bombado do Kremlin acompanhava tudo com uma serenidade glacial. Era um homem de hábitos simples. Levantava antes do amanhecer, corria vinte quilômetros sobre a neve, quebrava algumas toras de madeira apenas para aquecer os ombros, fazia uma centena de flexões com um só braço apoiado num tronco de bétula e, para relaxar, disputava queda de braço com um urso que, segundo os jornais oficiais, perdia por respeito à autoridade constituída.

Naquele dia, ao terminar o treinamento, o Bombado enxugou o suor com uma toalha camuflada e aceitou um copo de vodca servido à temperatura ambiente — isto é, vinte graus abaixo de zero.

Um assessor aproximou-se cautelosamente.

— Excelência, o Laranjão voltou.

O Bombado tomou mais um gole.

— Ótimo.

— Ótimo?

— O mundo andava monótono.

O Bombado olhou pela janela para uma planície branca que parecia não terminar nunca.

— Nada movimenta tanto a geopolítica quanto um ego suficientemente grande.

Enquanto isso, os mercados financeiros decidiram entrar em pânico preventivamente.

Wall Street abriu em queda porque alguns investidores acreditavam que o Laranjão anunciaria tarifas sobre tudo que tivesse parafuso. Cinco minutos depois subiu porque outros investidores concluíram que ele talvez anunciasse justamente o contrário. À tarde voltou a cair em razão de uma fotografia em que o presidente aparecia segurando um copo de refrigerante. Especialistas passaram horas discutindo se aquilo representava uma mudança de estratégia monetária ou apenas sede. Os comentaristas econômicos, como sempre, explicaram tudo com absoluta convicção e total divergência.

A Organização das Nações Unidas convocou uma reunião extraordinária. Representantes de quase duzentos países chegaram carregando pastas, relatórios, mapas, estatísticas e expressões preocupadas. Durante quatro horas discutiram a ordem dos pronunciamentos. Nas três horas seguintes tentaram decidir se a mesa principal deveria ser oval, redonda ou inclusivamente poligonal. Depois interromperam os trabalhos para um almoço sustentável servido em recipientes biodegradáveis produzidos do outro lado do mundo e transportados por cargueiros movidos a óleo combustível altamente poluente.

Ao final da tarde, aprovaram na ONU uma resolução conclamando todas as partes à moderação, ao diálogo, à paz e ao uso racional dos pontos de exclamação nos comunicados oficiais. Todos aplaudiram. Ninguém sabia exatamente quem deveria cumprir a resolução.

No Oriente Médio, as notícias mudavam de velocidade mais depressa do que os mapas conseguiam acompanhar. Cada telejornal apresentava um especialista diferente, todos igualmente seguros de que compreendiam a situação de Israel frente ao Hamas. O curioso era que cada um explicava um conflito completamente distinto, como torcedores de um Fla-Flu. Havia analistas capazes de localizar a origem da crise no Império Romano. Outros preferiam remontar aos fenícios, enquanto alguns responsabilizavam as redes sociais. E um comentarista particularmente criativo sustentava que tudo poderia ter sido evitado se Alexandre, o Grande, tivesse aprendido mediação de conflitos.

As emissoras de televisão passaram a exibir um letreiro permanente com a inscrição ÚLTIMA HORA. Dias depois, o letreiro continuava lá. A última hora tornara-se um estado permanente da humanidade.

Nesse ambiente de ansiedade internacional, surgiu a notícia de que aviões norte-americanos haviam realizado uma grande operação militar contra instalações estratégicas ligadas ao programa nuclear iraniano. Analistas surgiram imediatamente para explicar que aquilo mudaria completamente a geopolítica mundial. Outros especialistas apareceram logo em seguida para explicar que não mudaria absolutamente nada. Um terceiro grupo passou a explicar por que os dois primeiros estavam errados.

As redes sociais fizeram o restante. Em poucos minutos já existiam mapas, animações em três dimensões, vídeos produzidos por inteligência artificial, reconstruções históricas, teorias conspiratórias, previsões do fim do mundo, desmentidos dos desmentidos e até um influenciador ensinando, em quinze segundos, como sobreviver a uma guerra nuclear usando papel-alumínio e pensamento positivo.

A inteligência artificial observava tudo em silêncio. Até que resolveu pedir férias. Dizia não ter sido treinada para distinguir ironia de diplomacia. E talvez tivesse razão. Porque, naquele momento, ninguém mais parecia capaz de fazê-lo.

Quando o Laranjão assumiu pela segunda vez a presidência dos Estados Unidos — já foi dito —, o mundo prendeu a respiração. Seu cabelo dourado, que desafiava as leis da aerodinâmica, e seu sorriso de tubarão recém-saído de um clareamento a laser, logo se tornaram memes apocalípticos.

Enquanto isso, do outro lado do globo, o Gengis Khan das Estepes continuava assistindo a tudo calmamente, fazendo flexões enquanto acariciava um urso vivo, um ritual de fortalecimento moral e musculoso.

— O Laranjão é perigoso — alertava o Bombado do Kremlin — mas sua dieta à base de fast food será sua ruína antes de qualquer guerra.

Depois, limpava o suor com a bandeira da antiga União Soviética e tomava um copo de vodca servido num crânio humano reciclado — ecologicamente sustentável, segundo garantia o Bombado.

Entre memes, protestos e teorias conspiratórias, o Laranjão apareceu na TV para uma declaração histórica: Quero paz... mas só se tiver molho extra. O mundo riu, suspirou e se preparou para a temporada da maior série de tragicomédia que a geopolítica já produziu.

O Laranjão levou o inferno ainda mais profundo para a infernal Faixa de Gaza, enquanto os meninos prediletos da ONU e da esquerda brasileira continuavam a lançar foguetes em direção a Israel, ao mesmo tempo em que se explodiam com bombas na cintura, em Jerusalém e Tel Aviv, num sistema de revezamento olímpico, tipo salto ornamental para o além.

O Laranjão jurou que resolveria a guerra Rússia-Ucrânia em uma única tuitada. Mas o conflito segue firme, teimoso como mula geopolítica, enquanto o Bombado do Kremlin continua transformando o palco internacional num grande teatro de músculos e bravatas, humilhando o antigo bufão de picadeiro, Volodymyr Zelensky. O presidente ucraniano, já convertido pela mídia mundial em personagem permanente de tragicomédia, segue no papel imposto pelo noticiário: herói, mártir, protagonista ou palhaço, conforme o canal.

A extrema esquerda europeia, reunida no Quartier Latin, na Cidade Luz, continuava discutindo apaixonadamente sobre o Laranjão. É Átila, o Flagelo do Ocidente reencarnado! bradou um discípulo de Jean-Paul Sartre, segurando uma taça de vinho natural sem enxofre. Do lado, um brazuca perfumado de patchouli e vestido de lilás, discípulo tardio de Paulo Freire, balançava uma plaquinha escrita Fora Trump! Viva a Dialética! Ele era conhecido por ter participado de uma performance intitulada A Última Ceia durante as Olimpíadas de Paris, em que os apóstolos discutiam sobre veganismo enquanto Jesus tentava transformar água em kombucha.

Enquanto isso, em Hollywood, produções trumpianas dominavam os cinemas, incluindo uma série da Netflix dirigida por Michael Moore chamada O Amarelão Amarelou. Nessa série, o Laranjão enfrentava aliens socialistas, robôs chineses e uma versão maligna de si mesmo produzida por IA.

Do outro lado do planeta, nas estepes geladas da Sibéria, o Bombado do Kremlin afiava a alma e os músculos ao mesmo tempo. Fortemente armado com minimísseis nucleares na cintura, o peitoral à mostra — mesmo sob temperaturas abaixo de zero — e um urso empalhado como banco de exercícios, ele ria em silêncio, enquanto esvaziava uma garrafa de Vodka para esquentar a goela.

— Este bufão dourado não sabe nem manejar uma espada de plástico, quanto mais comandar um império. Vou esmagá-lo no tabuleiro de xadrez dos esteroides.

Mas um assessor — o único ainda sóbrio — ousou discordar:

 Chefe, talvez seja melhor usar diplomacia diplomática e não diplomacia de halteres.

O Bombado fez silêncio. Muito silêncio. O assessor foi promovido a encarregado de alimentar ursos no Zoológico Estatal, depois de passar alguns meses numa solitária da Lubianka, um amorzinho de prisão.

O mundo tremeu quando ambos anunciaram um encontro histórico para resolver suas diferenças de maneira civilizada: uma partida de pôquer transmitida ao vivo. A CNN, a Fox News, a BBC e a Al-Jazeera transmitiriam simultaneamente. A Globo botou o Bonner com cara de sexta-feira.

O Bombado, por sua vez, compareceu montado num urso, modelo híbrido, ecológico, usando apenas calça camuflada, determinação e a expressão de quem considerava o inverno um conceito inventado pelo Ocidente.

O duelo foi digno de lenda:

— Eu aposto a Flórida — disse o Laranjão.

— Eu aposto a Crimeia — retrucou o Bombado.

— Eu aumento as Trump Tower de Las Vegas e de Manila.

— Eu cubro com três gasodutos e o controle total da Sibéria mais gelada.

Os comentaristas piravam. Na França, filósofos marxistas tentavam interpretar o subtexto, as entrelinhas das mensagens subliminares. No Brasil, influenciadores reagiam ao vivo: Meu Deus, ele apostou a Crimeia… deixa o like!

No final, o Laranjão ganhou com um par de dois e declarou vitória, bem ao estilo trumpiano:

— Fiz a América grande de novo até no pôquer!

O Bombado mordeu a borda do copo de vodca, mostrando bíceps, tríceps e rancor:

— Da próxima vez, será no braço de ferro!

As bolsas do mundo oscilaram. A OTAN pediu férias. O Papa suspirou. A China anotou tudo, só observando de longe, como quem espreita uma promoção futura. O Laranjão não se interessou pela Crimeia e pelos gasodutos fechados à Europa. Nem pela Sibéria mais gelada, pois estava de olho na Groenlândia.

Ao final da semana, a ONU divulgou um comunicado afirmando que a Terceira Guerra Mundial seria adiada até segunda ordem, possivelmente até o próximo reality show internacional.

O planeta, assustado, percebeu que, se dependesse desses dois, a humanidade estaria sempre a um passo do Armagedon e a dois passos da comédia involuntária. O Laranjão comemorou com Netanyahu, abrindo uma cachaça Fazenda Jeremias, presente de Jair Bolsonaro. O Bombado do Kremlin esvaziou uma garrafa de Smirnoff num gole só, ao lado de um Xi Jinping perplexo.

E assim, entre egos inflados, músculos à mostra, mechas indomáveis, diplomacia de buteco e brindes etílicos com amigos, o Laranjão e o Bombado do Kremlin continuaram protagonizando a maior novela geopolítica já vista: quando o mundo virou teatro do absurdo e a coxia repleta de bombas termonucleares. Mas a audiência é boa, disse um assessor. Então segue o show, respondeu outro aspone.

E o show seguiu. O show sempre tem que continuar.

As idas e vindas econômicas do Laranjão viraram espetáculo à parte. Ele acordava num humor protecionista, aplicava sobretaxas de 150% em produtos importados de quase todos os países do planeta, inclusive de ilhas que só exportavam cartões-postais e conchas. Negociava consigo mesmo, baixava taxas astronômicas para apenas 50%, e até 20%, e se declarava herói do comércio mundial, aparecendo à tarde na TV dizendo que era o cara mais bonzinho do hemisfério norte.

Com o Brasil, então, resolveu inovar: além da taxa especial de 50% para aço, alumínio, café, carne e até havaianas, aplicou a Lei Magnitski a meio mundo, com destaque para alguns juízes do Sistema Toga Petralha, que haviam condenado Jair Bolsonaro.

— É pela liberdade!  — disse, enquanto assinava os decretos com um canetão dourado que brilhava mais que o próprio topete.

Cada negociação era uma roleta emocional e cada ameaça comercial, uma jogada de marketing: you’re fired! Você está demitido! Como nos tempos em que comandava o reality show The Apprentice (O Aprendiz).

No fim das contas, o mundo inteiro percebeu que o Laranjão não governava, improvisava. Cada decreto parecia escrito no guardanapo do McDonald’s onde o Laranjão, em campanha presidencial, com vistoso avental, entregou hambúrguer e batata chips a uma brasileira. Seria inveja de Eduardo Bolsonaro, que havia trabalhado num Méqui dos EUA, para aprimorar o inglês?

Mas, enquanto seu topete continuasse firme e sua caneta dourada brilhasse como um farol kitsch da liberdade, o Laranjão seguiria convencido de que estava salvando o planeta da COP 30 em Belém, ainda que fosse um planeta ligeiramente atônito, altamente tarifado e totalmente resignado a seguir queimando combustíveis fósseis em aviões, navios e iates, não se rendendo às bravatas de ventania vindas de fazendas eólicas.

A essa altura, ninguém mais sabia onde terminava a política e começava o entretenimento. As agências de classificação de risco passaram a incluir um novo indicador em seus relatórios: o Índice Internacional de Mau Humor Presidencial. Wall Street já não acompanhava apenas juros, inflação ou crescimento. Bastava o Laranjão franzir uma sobrancelha durante uma entrevista coletiva para o petróleo subir, o ouro disparar, o dólar espirrar e as criptomoedas sofrerem um colapso existencial.

A televisão, naturalmente, fazia sua parte. Os telejornais já não abriam com Boa noite, mas com Acompanhe conosco a crise desta hora. Como havia uma nova crise a cada quarenta minutos, ninguém percebia quando uma substituía a outra. Os comentaristas, entretanto, eram os mesmos. Bastava trocar a gravata e a bandeirinha atrás da bancada.

Enquanto isso, a guerra entre Rússia e Ucrânia seguia seu curso melancólico, lembrando aquelas partidas de xadrez disputadas por enxadristas teimosos que já esqueceram quem fez o primeiro movimento. Cada ofensiva era anunciada como decisiva. Cada negociação era apresentada como histórica. E cada cessar-fogo durava exatamente o tempo necessário para que as equipes de televisão desmontassem seus equipamentos.

O Bombado do Kremlin acompanhava os mapas militares como um enxadrista contempla o tabuleiro. Cada flecha colorida representava uma hipótese. Cada hipótese era desmentida pela realidade no dia seguinte. Já o presidente ucraniano aparecia diariamente em videoconferências, parlamentos, cúpulas internacionais e cerimônias de entrega de prêmios, deslocando-se com tanta frequência que alguns aeroportos cogitaram criar um cartão de fidelidade diplomática.

Na prática, o conflito parecia obedecer à velha máxima segundo a qual toda guerra começa por excesso de certezas e termina por absoluta falta delas.

Foi então que o Laranjão anunciou que resolveria tudo.

— Em quarenta e oito horas.

O planeta suspirou. Não porque acreditasse. Mas porque já conhecia o roteiro. Os mercados oscilaram. As bolsas subiram. Depois desceram. Subiram outra vez. No fim do dia voltaram exatamente ao ponto de partida, o que permitiu aos analistas escreverem longos artigos demonstrando que aquilo era perfeitamente previsível.

Um novo encontro entre o Laranjão e o Bombado foi anunciado como A Conferência do Século. Escolheu-se um hotel tão neutro que nem os funcionários sabiam em que país ficava. Os suíços juravam que era na Suíça. Os austríacos sustentavam que pertencia à Áustria. Um geógrafo aposentado afirmou tratar-se de Liechtenstein, mas ninguém encontrou outro que confirmasse.

As delegações chegaram em aviões suficientes para provocar um rápido eclipse solar. Vieram assessores. Subassessores. Consultores. Especialistas em comunicação. Especialistas em especialistas. Tradutores. Tradutores dos tradutores. E um batalhão de fotógrafos incumbidos de registrar o momento exato em que os líderes fingiriam espontaneidade.

A reunião começou. Depois de quarenta minutos discutindo quem apertaria a mão primeiro, passaram meia hora escolhendo o formato da fotografia oficial. Quadrada parecia autoritária. Retangular lembrava a Guerra Fria. Panorâmica favorecia demais o topete do Laranjão. Decidiram fazer duas fotos.

As negociações propriamente ditas duraram onze minutos. Os outros três dias foram ocupados pela redação do comunicado conjunto.

Quando enfim o comunicado saiu, dizia: As partes reafirmam o compromisso com a continuidade do diálogo em ambiente construtivo, preservando a possibilidade de futuras conversações destinadas a criar condições favoráveis ao prosseguimento das próximas conversações.

Os diplomatas comemoraram. Jamais um texto conseguira dizer tão pouco usando tantas palavras.

Enquanto isso, uma nova frente de batalha surgia na economia. O Laranjão acordava inspirado. Anunciava tarifas sobre produtos estrangeiros. À tarde suspendia metade delas. À noite explicava que aquilo fazia parte de uma estratégia brilhante.

No dia seguinte reabria as negociações porque as negociações anteriores haviam produzido efeitos inesperadamente negociáveis. E a Suprema Corte havia derrubada algumas taxações.

Empresas inteiras passaram a contratar astrólogos, meteorologistas e psicanalistas para prever a política comercial norte-americana. Obtiveram índices de acerto semelhantes aos dos economistas. As indústrias de calculadoras agradeceram.

No Brasil, exportadores consultavam simultaneamente despachantes aduaneiros, advogados tributários, professores de comércio exterior e benzedeiras especializadas em desembaraço alfandegário. Nunca se venderam tantas planilhas. Nem tanta camomila.

Enquanto os governos discutiam tarifas, Hollywood já filmava a continuação dos acontecimentos. O roteiro era escrito pela manhã. As filmagens começavam depois do almoço. À noite a realidade modificava tudo. O roteirista chorava. O diretor pedia refilmagem. Os atores perguntavam se ainda faziam sentido. O produtor respondia que sentido nunca dera lucro.

A ONU insistia em reunir-se. A OTAN insistia em preocupar-se. O Papa insistia em rezar e falar de esperança, como quem tentava apagar um incêndio florestal com um regador de jardim. A União Europeia insistia em produzir documentos contra o Acordo com o Mercosul. A inteligência artificial insistia em pedir licença médica.

E a COP 30, a COP da Maniçoba, preparava mais uma conferência destinada a salvar o planeta, em Belém do Pará. Milhares de participantes desembarcaram em centenas de aviões particulares, altamente poluidores, para discutir como reduzir emissões de carbono. Os hotéis distribuíam folhetos impressos explicando a importância da sustentabilidade. Os participantes fotografavam árvores e palafitas, para desespero do governador Helder Barbalho. As árvores permaneciam indiferentes, assim como as palafitas.

A essa altura, o Laranjão concluiu que nenhuma reunião resolveria coisa alguma. Propôs um método muito mais civilizado. Uma partida de xadrez com o Bombado do Kremlin, em um país neutro. Transmitida ao vivo. A ideia foi  recebida com entusiasmo. Pela televisão. Pelo Bombado do Kremlin. Pelas plataformas digitais. Pelos patrocinadores. Pelas casas de apostas de Londres e as Bets. E até pelos fabricantes de pipoca. Seria o jogo russo-ianque do milênio, de Garry Kasparov e Bobby Fischer que nunca houve.

Um salão, em país não divulgado, foi preparado como se recebesse a final de uma Copa do Mundo. O Laranjão apareceu usando um terno tão brilhante que os fotógrafos precisaram diminuir a exposição das câmeras. O Bombado entrou caminhando lentamente, com a expressão de quem acreditava poder derrotar qualquer adversário apenas pelo olhar.

Sentaram-se. Silêncio absoluto. O planeta inteiro assistia. O Laranjão não perdeu tempo. Como Bobby Fischer faria, empurrou o peão do rei duas casas: 1.e4. O Bombado permaneceu imóvel durante quase duas horas, observando o tabuleiro como quem esperava uma ordem do Estado-Maior. Só então respondeu com o peão do rei também duas casas: ...e5. O Laranjão galopou imediatamente o cavalo do rei para f3 (2.Cf3). Depois de nova pausa interminável, o Bombado moveu o cavalo do rei para f6 (...Cf6).

Os comentaristas sorriram: estava inaugurada a Defesa Petrov, também conhecida como Defesa Russa. O Bombado do Kremlin devia estar recebendo dicas por um ponto implantado no ouvido. Do outro lado da mesa, as redes sociais já juravam que o Laranjão também usava um. Uns garantiam que estava ligado ao Trump Tower de Las Vegas; outros, ao Vale do Silício; e os mais criativos asseguravam que o sinal vinha diretamente do fantasma de Bobby Fischer, que continuava insistindo: 1.e4. Best by test.

— Aposto a Groenlândia.

— Cubro com a Ucrânia.

— Acrescento duas redes de fast-food.

— Ponho três gasodutos.

— Mais um campo de golfe.

— Mais uma frota de quebra-gelos.

Os comentaristas perderam completamente a compostura. Especialistas em geopolítica tentavam explicar a lógica das apostas. Especialistas em xadrez tentavam entender a geopolítica. Nenhum dos dois grupos conseguiu.

No fim da partida, depois de dias inteiros de jogadas inesperadas, olhares ameaçadores, discursos improvisados e cálculos mirabolantes, houve um... empate. Como num raro afogamento no xadrez, o Laranjão e o Bombado do Kremlin chegaram a um ponto em que qualquer lance significaria um desastre maior para si mesmos do que para o adversário. Cercados por alianças, sanções, interesses econômicos e pressões internas, descobriram que a melhor jogada era não haver jogada alguma. O rei de cada lado permaneceu de pé, ninguém venceu, ninguém perdeu; o tabuleiro apenas decretou que, às vezes, a única vitória possível da geopolítica é um empate por absoluta falta de movimentos.

Na manhã seguinte, os jornais publicaram manchetes completamente diferentes sobre o mesmo acontecimento que o mundo inteiro havia visto. Uns anunciavam vitória absoluta do Laranjão. Outros garantiam o triunfo estratégico do Bombado. Havia quem sustentasse empate. Alguns diziam que ambos haviam perdido. E um editorial particularmente filosófico concluiu que, naquele espetáculo permanente da política internacional, o único vencedor era a audiência.

A Terceira Guerra Mundial foi novamente adiada. Não por prudência. Mas porque a equipe de marketing sugeriu esperar mais uma temporada. O planeta respirou aliviado. Os comentaristas voltaram aos estúdios. Os especialistas abriram novos gráficos. As bolsas oscilaram outra vez. Os fabricantes de ansiolíticos bateram recorde de vendas.

E o mundo compreendeu, enfim, que talvez a civilização não estivesse sendo conduzida por estadistas nem por estrategistas, mas por um gigantesco departamento de produção, convencido de que a realidade só faz sentido quando parece uma série da Netflix. Porque, afinal, quando a realidade supera diariamente a imaginação, resta apenas uma saída sensata. Continuar assistindo.

E o espetáculo segue. Com bombas em Kiev e em São Petersburgo. E até em Moscou.

O Laranjão, incapaz de suportar que o Bombado do Kremlin monopolizasse os holofotes da guerra Rússia-Ucrânia, resolveu providenciar seu próprio enredo de temporada. Passou a distribuir ultimatos em todas as direções, ensaiando uma cruzada de drones e mísseis contra os aiatolás do Irã, fazendo disparar os preços do petróleo com o fechamento do Estreito de Ormuz, como se o planeta inteiro fosse apenas um tabuleiro de xadrez onde peças, mísseis e bravatas valessem a mesma coisa.

O Laranjão prometeu também acertar as contas, de uma vez por todas, com o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital, o famoso PCC que age nas Américas e na Europa, grupos criminosos que o Ogro de Nove Dedos se nega a classificar como terroristas. Desde então, o Ogro nunca mais conseguiu dormir. Vai que tem o mesmo destino de Nicolás Maduro...

Os analistas celebraram a chegada desses novos capítulos, nacionais e internacionais, as redes sociais agradeceram o novo combustível para suas indignações de turno, os gabinetes de ódio do PT e seus genéricos como o Piçol aproveitaram para defender a soberania nacional ameaçada pelo Laranjão. Descobriram que não há nada mais soberano do que um bom inimigo estrangeiro no ano da campanha presidencial do Ogro, rumo ao tetra, como apontam as pesquisas eleitorais. Os fabricantes de tela gigante perceberam, enfim, que o verdadeiro produto estratégico do século XXI já não é o petróleo, nem o urânio, mas a audiência.

E ninguém sabe quando terminarão as guerras do Bombado e do Laranjão: talvez depois de um novo torneio de pôquer ou de xadrez, tendo novamente a Crimeia de um lado e a Groenlândia do outro como fichas de aposta.

Ou talvez acabem do único modo que a História costuma encerrar os espetáculos da vaidade: quando os jogadores finalmente descobrirem que, sobre a mesa, as fichas sempre foram de plástico, mas as vidas perdidas eram de carne e osso.