MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

quarta-feira, 4 de março de 2026

Félix Maier

 


Boa tarde

Meu currículo pode ser visto em https://felixmaier1950.blogspot.com/2021/04/felix-maier-curriculum-vitae.html

Há 26 anos, eu faço publicações na internet, inicialmente no site Usina de Letras, depois também em Digestivo Cultural e outros sites e blogs. Já fui articulista do site Mídia Sem Máscara, criado em 2002 por Olavo de Carvalho.

Anteriormente, eu já tinha alguns artigos e algumas cartas (miniartigos) publicados em jornais e revistas, como Jornal do Brasil, Correio Braziliense, Veja.

 

Minhas obras mais importantes estão à disposição dos leitores, em forma de e-book.

Boa leitura!

Publicações virtuais: 

 1. Egito - uma viagem ao berço de nossa civilização, Thesaurus Editora, Brasília, 1995.

https://drive.google.com/file/d/1wXkdYmX0DBYW1aHo0Fads8HKbGHgSKlT/view

 2. A LÍNGUA DE PAU - Uma história da intolerância e da desinformação

https://drive.google.com/file/d/1wDHV0YJFOZSoBwlJSSrHdl68CfJokMmf/view

 3. Três em Um - Artigos, humor e alguma poesia

https://drive.google.com/file/d/1AVrblAPdxL8NmHCezZUEQKRZ7ab7nGua/view

 4. ARNO PREIS E OS IDOS DE MARÇO DE 1964

https://drive.google.com/file/d/1qlly7cvMHL0ia6NjXBD9Oqq22Z81Xlm9/view

 5. As Covíadas: amor e ódio nos tempos do corona

https://drive.google.com/file/d/1YgloEnwmOMnCNCvV-pDSCXg2ZwEHfeJ0/view

 6. Lira dos Setent’Anos

https://drive.google.com/file/d/1EdgwHXtR-fW3pP-enGAWEvubu5akrYmY/view

 7. Contos infantojuvenis

https://drive.google.com/file/d/1MAOgw6pJcroGicuE2JnaPCeOXkbWt6nd/view

8. Causos de Milico

https://drive.google.com/file/d/1_xTmEEsQyoGUaUCqMlUx99p1HlpwY7KA/view

9. MEMORIAL DE LUZERNA, A PÉROLA DO RIO DO PEIXE – Uma saga teuto-brasileira. Tagore Editora, Brasília, 2025.

https://drive.google.com/file/d/1GhVU3Ke-LPfGSl19uInXTmVxb4QLQDRR/view

10. CONTOS RISONHOS - ENTRE RISOS E SONHOS (E ALGUNS PESADELOS)

https://drive.google.com/file/d/1KJgjPzaxTvBruRsfuYE65Cngz8dd3MGj/view

11. HOMEM É FUSCA, MULHER É PORSCHE

https://drive.google.com/file/d/1EVkxXuU0cLXoWSWuYGg1r_x4iJRcxbV4/view

12. DIÁLOGO DE DOIS BAGOS - COM INTERVENÇÃO DA ESTROVENGA

https://drive.google.com/file/d/1vWCDMQ1K8K0hEFSsRV3JvyblffQIj5Ft/view

 

Obras também disponíveis no Clube de Autores, para compra:

https://clubedeautores.com.br/books/search?where=books&what=Félix+Maier

A segunda infância - Por Félix Maier

 

A segunda infância

Félix Maier

Dizem que a vida é um círculo. Se for, o avô já está quase fechando a roda e voltando para o ponto de partida. De preferência com carrinho de rolimã, joelho ralado e uma chupeta na boca.

Ele detesta quando alguém fala em melhor idade. Melhor idade é o cacete! resmunga, enquanto tenta levantar da poltrona como se estivesse descolando um transatlântico do cais. Melhor idade só se for a do reumatismo organizado, do joelho bichado que faz previsão do tempo melhor que meteorologista, e do mijo que virou sprinkler automático — irrigação por gotejamento fora de controle. A avó, fiscal sanitária da privada, vive reclamando da tampa molhada. Isso aqui não é o chafariz da praça!

Ele nunca se conformou com esse rótulo açucarado. Melhor idade foi invenção de algum publicitário otimista, provavelmente jovem, com os dois meniscos intactos. O avô diz que, se souber quem foi, ainda dá um soco no nariz do besta, desde que o besta venha até ele e espere sentado, porque correr atrás já não dá.

Mas há algo que ninguém esperava: o velho está ficando cada vez mais criança.

Não é metáfora, não. É literal.

Outro dia estava no chão da sala, montando um forte de Lego com os netos, planejando uma resistência estratégica contra a invasão bárbara da sala de jantar. O plano incluía um bombardeio de pipoca e uma retirada honrosa para debaixo da mesa. Ele comandava a operação com seriedade militar — herança talvez de algum sargento antigo que conheceu na vida — mas, no meio da batalha, esqueceu que o quadril não foi projetado para rastejar sob sofás do século XXI. Levantou-se em três etapas, como foguete da NASA: impulso inicial, estágio intermediário com gemido e desacoplamento final com um ai, meu Deus! que ecoou pela casa.

Os netos adoram.

Para eles, o avô é um híbrido raro: mistura de super-herói cansado com palhaço involuntário. É ele quem os leva ao cinema para ver Bob Esponja, mesmo achando que aquela esponja amarela deve ter algum problema de tireoide para ser tão elétrica. No escuro da sala, ri mais alto que as crianças. Não porque entenda todas as piadas — muitas ele não entende mesmo — mas porque acha que rir alto é uma forma de protesto contra o silêncio definitivo que um dia virá.

Depois do cinema, ritual sagrado: sorvete no Chiquinho e, se a farra estiver completa, um lanche no Méqui, com sotaque de quem desconfia da globalização, mas se lambuza com o cheeseburger. A avó torce o nariz. Diz que aquilo não é comida. Ele responde que, na idade dele, tudo é experiência científica: Se não matou até agora, não mata mais.

A segunda infância tem dessas ousadias.

O curioso é que o avô, a vida inteira, foi homem contido. Engoliu opiniões, segurou palavrões, acatou decisões, cumpriu horários no trabalho. Pagou contas em dia, compareceu a velórios com gravidade sóbria, votou sem entusiasmo e trabalhou como se a eternidade fosse uma poupança rendendo juros discretos, mas crescentes.

Agora não.

Agora o tic-tac da vida está mais baixo, quase um sussurro. E quando o relógio começa a cochichar, o homem resolve falar alto.

Outro dia, na mesa do almoço, soltou uma palavra indevida, daquelas que fazem a avó arregalar os olhos e as crianças perguntarem o significado. A avó deu-lhe uma cotovelada pedagógica. Ele apenas sorriu e disse:

— Aprendam cedo. O mundo não é feito só de diminutivo.

A filha tentou repreender. Ele levantou o dedo trêmulo e declarou:

— Passei setenta anos sendo prudente. Agora quero ser interessante.

Foi também depois do nascimento do netinho mais novo que o fenômeno se agravou. O bebê apareceu em casa com seu arsenal: mamadeira, mantinha, carrinho, chupeta. O avô observava tudo com curiosidade científica, como quem estuda tecnologia de ponta.

Até que, numa tarde qualquer, pegou a chupeta do pequeno, esterilizada e reserva, e colocou na própria boca.

Silêncio na sala.

A avó levou a mão ao peito. A filha arregalou os olhos. Os netos mais velhos explodiram em gargalhada.

O avô, impassível, mascava a chupeta com ar contemplativo.

— Calmante natural — explicou. — Devia ter usado isso em 1999.

Desde então, criou gosto. Não o tempo todo, claro, ele tem reputação a zelar na padaria. Mas, em casa, vez ou outra surge com a chupeta pendurada no peito, dizendo que ajuda a organizar os pensamentos. A avó ameaça fotografar e levá-lo ao médico.

E como a vida gosta de ironias simétricas, veio também outra coincidência geracional: as fraldas.

Ou melhor, o fraldão.

Com a idade avançada e o tal sprinkler fora de sincronia, o avô resolveu aderir à praticidade moderna.

— Economia doméstica — justificou. — Menos cueca para lavar, menos calça, menos lençol. Sustentabilidade hídrica.

A avó não achou graça. Mas reconheceu, pragmaticamente, que a pilha de roupa suja diminuiu.

Agora, às vezes, estão os dois — o netinho e o avô — cada qual com sua versão do mesmo acessório, um engatinhando rumo ao futuro, outro caminhando devagar na direção oposta, ambos dependentes de tecnologia absorvente embaixo e chupeta em cima. A cena é de uma poesia meio debochada, quase uma concepção artística sobre o ciclo da vida.

O curioso é que o velho não se envergonha.

— Se começo e fim se parecem, é porque a vida escreve em versos circulares.

É nessa fase que ele também começa a cismar com projetos impraticáveis. Semana passada anunciou, com a convicção de um navegador português a serviço do Infante Dom Henrique:

— Vou aos Alpes suíços.

Assim mesmo.

Disse Alpes suíços com aquele brilho no olho de quem nunca viu neve de verdade, só geada na lavoura e raspadinha de groselha. Falou em esqui, em trenó, em cachecol ao vento. A família inteira fez silêncio respeitoso, o mesmo que se faz quando alguém muito idoso decide aprender mandarim.

Alguém lembrou, delicadamente, que os joelhos não colaboram mais. Ele respondeu que os joelhos nunca colaboraram com nada, desde os tempos de futebol society, mas sempre foram obrigados a participar.

No fundo, ele sabe que talvez não vá à Suíça. Ou, se for, irá como turista contemplativo, sentado num café alpino, tomando chocolate com leite quente, olhando jovens descerem montanhas com pernas que ainda não rangem. Mas o importante é desejar. A segunda infância não vive de prudência; vive de capricho.

Há dias em que o avô acorda com disposição de menino levado. Esconde o controle remoto. Troca os nomes dos netos de propósito. Ensina palavras antigas que ninguém mais usa. Conta histórias da época em que telefone tinha fio e respeito tinha peso.

E há dias em que ele acorda silencioso, olhando para as próprias mãos como quem examina um mapa antigo. As veias saltadas parecem rios secos. A pele tem a textura de papel-jornal já lido muitas vezes. Ele sabe — claro que sabe! — que há uma data de validade invisível impressa em algum lugar do corpo. Talvez no coração, talvez no pulmão, talvez naquela memória que começa a falhar como lâmpada piscando.

Mas, enquanto a etiqueta de validade não é anunciada, ele brinca.

Brinca com carrinho, com bola, com peteca, com palavras. Brinca com a própria imagem no espelho, fazendo caretas que fariam corar o adolescente que foi um dia. Brinca com a ideia da morte, chamando-a de a visita inconveniente.

— Quando ela vier — diz — espero que traga chocolate.

Os netos riem sem entender completamente. Para eles, o avô é eterno. Ou, no mínimo, resistente como sofá antigo.

A avó, prática, organiza os remédios para ele em caixinhas coloridas. Ele chama aquilo de kit de sobrevivência. Reclama das dores, mas não perde uma chance de inventar moda. Semana passada tentou andar de skate com o neto. Não andou. Apenas subiu e desceu do skate segurando na parede da garagem, o que já foi suficiente para provocar aplausos infantis e uma bronca conjugal.

— Você não tem juízo! Podia quebrar os quadris!

— Juízo é artigo de luxo — respondeu. — E eu já vendi o meu faz tempo.

Talvez a segunda infância seja isso: a liberdade tardia de ser inconveniente, de falar o que pensa, de rir do próprio tropeço. De usar chupeta sem pedir licença e fraldão sem drama. É quando o homem percebe que não precisa mais impressionar chefes, vizinhos ou compadres. Só precisa impressionar os netos e, para isso, basta uma careta bem-feita, um sorvete duplo ou uma fala absurda na hora errada.

Há uma ternura meio escrachada no velho. Ele fala palavrão, mas segura a mão do pequeno ao atravessar a rua. Reclama da dor nas costas, mas se abaixa para ouvir segredo contado ao pé do ouvido. Diz que melhor idade é conversa fiada de quem quer promover dança dos velhinhos, mas reconhece, em silêncio, que há algo melhor, sim: o tempo de não dever satisfações ao futuro.

Porque o futuro, para ele, já não é promessa, É boletim médico.

Então ele vive o presente como quem mastiga devagar um doce proibido, soltando a dentadura na boca, ou então com uma chupeta filosófica entre os dentes. Saboreia o riso alto no cinema. A lambança do sorvete que escorre. A bagunça da pipoca e das almofadas. Até a bronca da avó tem gosto familiar, quase carinho em forma de repreensão.

No fim das contas, talvez a segunda infância não seja regressão. É síntese. O homem volta a ser menino, mas um menino que sabe demais. Que já perdeu amigos, já errou feio, já amou torto, já engoliu orgulho. Um menino com cicatrizes, agora de fraldão e dignidade intacta, que resolve usar o pouco tempo restante como se fosse o último recreio.

E se, de repente, ele falar algo impróprio na frente das crianças, que falem. Se decidir ir aos Alpes com joelhos trêmulos, que tremam. Se molhar a tampa do vaso, que a avó reclame. É a prova de que ainda há água correndo no encanamento.

O tic-tac está mais baixo, é verdade. A contagem regressiva é irreversível. Mas enquanto houver som, por mínimo que seja, ele vai brincar com os netos fora do ritmo.

Porque a segunda infância, para esse avô, não é a melhor idade. É a última chance de ser, enfim, o moleque que a vida adulta tentou domesticar — e não conseguiu.


terça-feira, 3 de março de 2026

Diálogo de Dois Bagos - Com intervenção da Estrovenga - Por Félix Maier

 


DIÁLOGO DE DOIS BAGOS

COM INTERVENÇÃO DA ESTROVENGA


Félix Maier


sinopse

 

Diálogo de Dois Bagos Com intervenção da Estrovenga é uma comédia filosófica sobre o tempo, narrada a partir do ponto de vista mais improvável do corpo humano.

Ao longo de quinze crônicas, Primeiro e Segundo Bago, com a participação sempre altiva da Estrovenga, e sob a supervisão involuntária do Portador, discutem os altos e baixos da vida masculina: da exuberância juvenil às panes ocasionais, da temida falha técnica ao medo solene dos exames médicos depois dos quarenta. Entre consultas constrangedoras, videocolonoscopias com pólipo de lembrança e assembleias internas sobre desempenho, o trio transforma o drama fisiológico em metafísica de bolso.

Há a crise da meia-idade, quando se suspeita que o espelho virou inimigo. Há a nostalgia dos vinte e um anos, fase em que a memória começa a competir com o presente. Surge a era do comprimido azul, com seus encontros planejados e desencontros inevitáveis, e madrugadas em que a biologia resolve agir fora do expediente conjugal. Depois vem a aposentadoria dos impulsos, quando se descobre que frequência não é sinônimo de felicidade.

E, por fim, a filosofia do saco murcho: reflexão inesperadamente profunda sobre dignidade, gravidade e a arte de continuar comparecendo, mesmo quando o corpo já trocou exuberância por experiência.

Escrito com humor à la Veríssimo, diálogos cortantes e uma boa dose de autoironia, Diálogo de Dois Bagos é menos um livro sobre sexo do que sobre passagem do tempo, cumplicidade e aceitação. Entre risos, pequenas tragédias íntimas e incontinências ocasionais, revela-se o que realmente sustenta a vida conjugal: não a rigidez dos impulsos, mas a elasticidade do afeto.

Um livreto com muita tesão, no duplo sentido: energia vital e vontade de viver.

 

Brasília, verão-outono jorrante de 2026.


Baixe o livrito em:

https://drive.google.com/file/d/1vWCDMQ1K8K0hEFSsRV3JvyblffQIj5Ft/view



Homem é Fusca, Mulher é Porsche - Por Félix Maier


HOMEM É FUSCA, MULHER É PORSCHE

Félix Maier

SINOPSE

Homem é Fusca, Mulher é Porsche não é um livro sobre carros. É sobre um casal. Sobre como seguimos juntos mesmo quando o GPS discorda, a estrada piora e o motor já não responde como antes. Sobre o amor que envelhece sem perder valor de mercado, mantendo a Tabela Fipe, e que apenas muda de marcha.

Porque no fim, não importa quem dirige melhor. Importa quem se sentou ao lado desde o começo.

Homens e mulheres não são iguais. Ainda bem.

Neste livrito, ninguém vence discussões, não há manuais infalíveis nem finais espetaculares. Há convivência. Diferenças de engenharia. Afeto testado no dia a dia.

Homem é Fusca, Mulher é Porsche reúne crônicas curtas, bem-humoradas e profundamente humanas sobre amor, rotina, convivência, tempo, perdas e permanências, essa arte imperfeita de dividir a vida com alguém diferente de nós. Tudo aquilo que só se aprende depois de muitos quilômetros rodando juntos.

Com humor delicado, ironia afetuosa e observação cotidiana, o autor transforma o relacionamento humano numa metáfora automobilística que funciona razoavelmente bem.

Aqui estão o namoro, o casamento, as brigas pequenas, os silêncios longos, o sexo que acontece (e o que não acontece), os filhos, os netos, o envelhecimento, a memória, as perdas e o legado. Tudo contado sem tese, sem militância e sem sentimentalismo excessivo.

É um livro sobre aprender a andar junto. Sobre saber quando acelerar, quando frear e quando simplesmente ficar parado, com o motor ligado no ponto morto.

Um livro para rir, reconhecer-se e, talvez, entender que amar não é encontrar o carro perfeito: é fazer uma boa viagem com o que se tem.

É um livro autônomo, que anda sobre as próprias rodas, sem motorista.

 

Brasília, outono crepuscular de 2026.


Baixe o livrito em:

https://drive.google.com/file/d/1EVkxXuU0cLXoWSWuYGg1r_x4iJRcxbV4/view




De Mary Corner de Palocci às beldades de Vorcaro - Por Félix Maier

 

De Mary Corner de Palocci

às beldades de Vorcaro

 Félix Maier

Há países que exportam tecnologia, outros exportam petróleo, outros exportam cultura. O Brasil exporta escândalos e, quando o mercado interno está aquecido, consome tudo aqui mesmo, com direito a buffet, champanhe francês e nota fria.

Durante muito tempo, nossas orgias político-empresariais foram quase artesanais. Havia certa rusticidade na corrupção festiva. Nada de Instagram (até porque celular não existia), nada de influenciadora fitness, nada de experiência sensorial premium. Era tudo mais... digamos... raiz.

Foi nesse cenário bucólico que surgiu a lendária mansão de Brasília, administrada por Jeany Mary Corner — nome que parece personagem de filme noir rodado por Zé do Caixão no Cemitério da Lapa, em Sampa. Ali, segundo denúncias da época, políticos — com destaque para o ministro da Fazenda Antônio Palocci — frequentavam encontros que misturavam prazer, lobby e articulações pouco republicanas. Não era apenas um espaço de confraternização carnal: era também, como se dizia nos corredores, a Casa do Lobby.

O Brasil sempre teve essa capacidade de juntar Eros e Erário na mesma sala.

Quem desmontou o teatro foi o caseiro Francenildo dos Santos Costa, um homem simples que ousou falar demais numa terra onde o silêncio costuma ser remunerado. Após reportagem de O Estado de S. Paulo e depoimento na CPI dos Bingos, instalada em 2005, o país descobriu que o caseiro sabia mais sobre a intimidade do poder do que muito cientista político.

Como prêmio por sua sinceridade cívica, teve o sigilo bancário quebrado. Porque no Brasil, meu caro leitor, o problema nunca é o escândalo. É quem fala dele.

A revista Época ainda levantou a hipótese de que os R$ 25.000,00 depositados na conta de Francenildo teriam vindo de adversários políticos interessados em constranger Palocci e o PT. A Polícia Federal, contudo, desmontou a versão quando o caseiro apresentou extratos comprovando que o dinheiro vinha do pai biológico, empresário no Piauí. Moral da história: quando o enredo é complexo demais, geralmente a verdade é mais simples do que a ficção petralha.

Comprovado o crime da quebra ilegal de sigilo, Palocci pediu demissão do Ministério da Fazenda. Foi indiciado, mas não condenado naquele episódio. O Brasil sempre foi generoso com seus corruPTos. Anos depois, Palocci voltaria à cena no lamaçal da Operação Lava Jato, onde chegou a ser preso por um tempo. Mas isso já era outra temporada da mesma série de maracutaias.

Se a era Mary Corner foi a fase analógica da libertinagem institucional, o que veio depois foi a era digital da depravação com upgrade de luxo.

Entramos, então, no capítulo Vorcaro.

Daniel Vorcaro, presidente do Banco Master, elevou o conceito de confraria político-empresarial a um novo patamar. Nada de mansão discreta em Brasília. Agora falamos de festas semanais que, segundo relatos, custariam algo em torno de R$ 400 mil por edição, na Alameda Lorena, em São Paulo — a Disneylândia do luxo paulistano.

O cardápio em Sampa incluía políticos, empresários, lobistas e modelos internacionais da Rússia, Ucrânia e Croácia – às vezes também beldades suecas, norueguesas, holandesas, suíças -,  com cachês que fariam corar jogador brasileiro da Premier League respondendo na Justiça por assédio sexual. Porque, veja bem, se é para fazer maracutaia, que seja com padrão europeu. Havia, ainda, a vantagem de as beldades não falarem português, evitando vazamentos.

Havia também versões itinerantes da farra: Trancoso, resorts paradisíacos, encontros blindados em Nova York, Lisboa, Capri, St. Barts (no Caribe). A regra era clara: proibido celular. O Brasil pode não ter controle fiscal eficiente, mas tem protocolo rígido de confidencialidade orgíaca.

Enquanto isso, o Banco Master se envolvia em operações que levantaram sobrancelhas no mercado financeiro, especialmente nas relações com o Banco de Brasília. Dívidas, estruturas financeiras criativas, engenharia contábil digna de prêmio de arquitetura barroca. Tudo muito técnico, tudo muito sofisticado — como as festas.

No entorno da narrativa aparecem nomes que fariam qualquer roteirista suar frio. O ministro do STF Dias Toffoli foi mencionado em reportagens por sua proximidade com personagens do enredo, inclusive com participação societária em resort de luxo no Paraná, o Tayayá Aqua Resort. E viagem para assistir à Libertadores no Peru de avião privado, porque nada combina mais com futebol sul-americano do que jatinho executivo.

E, no mesmo universo, a esposa de Alexandre de Moraes advogando para o Banco Master, em contratos que envolveriam cifras da ordem de R$ 130 milhões. O Brasil é um país onde tudo é possível, especialmente quando envolve muitos zeros.

Naturalmente, cada um apresenta sua versão, sua defesa, sua narrativa técnica. E a imprensa publica, os advogados respondem, as notas oficiais circulam. No fim, o cidadão comum apenas tenta entender como um país com déficit fiscal permanente consegue manter tamanha vitalidade festiva no topo da pirâmide.

A comparação entre Mary Corner e as modelos internacionais do circuito Vorcaro é quase sociológica.

Mary representava a fase romântica da promiscuidade política: encontros discretos, personagens folclóricos, valores quase modestos perto dos padrões atuais. Havia algo de novela das oito (as antigas, as atuais são piores que o enredo Master), de Brasília provinciana tentando ser cosmopolita.

Já as festas contemporâneas parecem spin-off de série da HBO. Modelos globais, cachês estratosféricos, locações instagramáveis (ainda que sem Instagram), logística de evento corporativo. Se antes era casa do lobby, agora é experiência imersiva de networking estratégico.

A corrupção brasileira, como o vinho, envelheceu e ganhou notas amadeiradas.

Mas o fio condutor permanece o mesmo: poder, dinheiro e silêncio. Muito silêncio.

No fundo, Mary Corner e as modelos do Vorcaro são personagens secundárias de uma trama maior. Elas orbitam o poder. O verdadeiro protagonista é o sistema, essa engrenagem que permite que escândalos surjam, explodam, indignem e, depois, evaporem como champanhe aberto demais.

O Brasil não inventou a orgia política. Mas conseguiu dar a ela um toque tropical, criativo e, nos últimos anos, altamente sofisticado. Nada de networking, mas coworking com muita beldade nórdica no colo e champagne na mão.

De mansões discretas em Brasília a festas blindadas na Alameda Lorena, de depósitos suspeitos em conta de caseiro a contratos milionários em bancas de advocacia, seguimos evoluindo. Não em educação básica, não em saneamento, mas em glamourização da maracutaia.

No fim das contas, o que se vê no caso do Banco Master é um silêncio que não é ausência de barulho: é engenharia acústica de alto padrão.

Fala-se aqui, cochicha-se ali, promete-se apuração, insinua-se uma possível CPI. Mas a CPI, essa ave que costuma cantar alto quando sente cheiro de palanque eleitoral, parece ter entrado em hibernação preventiva. Não por falta de assunto — assunto é o que não falta neste país —, mas talvez por excesso de currículo dos envolvidos.

Porque, convenhamos, quando o suprassumo nacional da política e do empresariado frequenta as mesmas mesas, os mesmos jantares, os mesmos camarotes e, ao que tudo indica, as mesmas festas blindadas, cria-se uma espécie de pacto tácito de autopreservação. Não é preciso combinar nada explicitamente. Basta que todos saibam demais sobre todos.

É o famoso modelo brasileiro de governança: um lava a mão do outro — e, em versões mais francas, um lava a bunda suja do outro, com água morna e toalha felpuda.

A eventual CPI ameaça nascer, mas logo alguém lembra que há contratos, relações, escritórios de advocacia, sociedades cruzadas, amizades antigas, fotos inconvenientes (sempre aparece um celular), viagens compartilhadas e favores acumulados. E, quando o rabo de muita gente está preso no mesmo portão, ninguém tem pressa de puxar a corda.

Assim, o que se desenha não é necessariamente absolvição, nem condenação — é diluição. O caso vai sendo administrado. Uma nota aqui, uma reportagem ali, uma explicação técnica acolá. O noticiário gira. Surge outro escândalo, depois outro. O Brasil é pródigo em escândalos substitutos.

E, no meio do turbilhão, a estratégia mais eficiente continua sendo a mais antiga: esperar. Esperar que a próxima crise seja mais barulhenta. Que o próximo vídeo, a próxima operação, a próxima delação ocupe o horário nobre. Que a indignação nacional, tão intensa quanto breve, encontre novo alvo.

Mary Corner teve sua temporada. Palocci teve a sua. A Operação Lava Jato teve várias, até que foi enterrada por Dias Toffoli. Agora, o enredo do Master parece entrar naquela fase em que todos olham para o teto e assobiam.

No Brasil, a maracutaia não costuma morrer, apenas troca de manchete.

E, enquanto o país aguarda o próximo escândalo para esquecer o anterior, as luzes da festa seguem acesas. Sem celulares. Sem atas. Sem CPI.

Apenas com memória curta, essa sim, a mais eficiente blindagem institucional já inventada por estas bandas.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

2016: Sonho de uma noite de verão - Por Félix Maier

 


2016: Sonho de uma noite de verão

Félix Maier

Houve um ano em que o Brasil acordou leve. Não completamente sóbrio — nunca fomos —, mas com aquela ressaca boa, quando a dor de cabeça vem acompanhada da certeza de que a festa acabou e que, finalmente, alguém vai pagar a conta.

Esse ano foi 2016.

O sol parecia mais amarelo, as panelas soavam afinadas, e o cidadão comum, esse ser historicamente humilhado pela burocracia e pela retórica, teve a impressão inédita de que a Justiça havia decidido trabalhar. A Lava Jato avançava, políticos suavam frio, delações brotavam como cogumelos depois da chuva, e o verbo prender passou a ser conjugado com gente importante como sujeito.

Era um verão shakespeariano: Sonho de uma noite de verão, com direito a fadas togadas, duendes do Ministério Público e vilões finalmente sem capa de invisibilidade.

No início daquele ano, a blogueira Christina Fontenelle  publicou um vídeo-homenagem no Facebook. Um gesto simples, quase ingênuo, mas carregado de simbolismo: reconhecer publicamente pessoas que haviam se exposto — algumas com elegância, outras com fúria — para denunciar a roubalheira petralha e o avanço das pautas socialistas travestidas de virtude moral. Uma colcha de retalhos humana: liberais, conservadores, jornalistas, youtubers, escritores, briguentos profissionais e patriotas de fim de semana.

Estávamos todos ali, meio sem saber como, meio sem saber por quê, mas com a convicção de que algo tinha mudado. Que a engrenagem finalmente havia emperrado. Que o Brasil, esse adolescente institucional, talvez tivesse aprendido alguma coisa.

O impeachment de Dilma Rousseff veio como um suspiro coletivo. Não foi festa, foi alívio. O país não comemorou; desabafou. Como quem tira um sapato apertado depois de horas de tortura estética. O processo começou em dezembro de 2015 e terminou em agosto de 2016, mas, emocionalmente, pareceu um parto de dez anos.

A sensação era clara: acabou!

Acabou o projeto.

Acabou a quadrilha.

Acabou o encantamento.

Doce ilusão.

Hoje sabemos: aquilo não foi uma vitória. Foi intervalo, entre um sonho de uma noite de verão e a volta do velho pesadelo.

O roteiro era outro. Enquanto o país acreditava ter virado a página, o livro estava apenas sendo trocado de capa. Em abril de 2021, o Supremo Tribunal Federal — esse órgão que não erra, apenas reinterpreta a realidade — decidiu que tudo aquilo fora um grande mal-entendido jurídico. Três instâncias, nove votos a zero, 580 dias de cadeia? Um detalhe processual. Um erro de CEP. Um problema de endereço metafísico.

O condenado virou descondenado — essa criatura jurídica que só existe no Brasil, terra onde até a gramática penal é criativa. E o Ogro de Nove Dedos voltou ao jogo, elegível, reabilitado, ungido, mais limpo que bumbum de nenê lavado na banheira, com talquinho. O passado foi lavado com OMO institucional.

Em 2022, com ajuda logística, narrativa bem calibrada e uma democracia conduzida no modo missão dada, missão cumprida, o Ogro de Nove Dedos retornou à Presidência. Pela terceira vez. O Brasil não apenas perdoou: aplaudiu.

Sessenta milhões de votos depois, a pergunta ficou no ar, incômoda como mosquito em quarto escuro: foram idiotas úteis ou patifes assumidos?

Talvez um pouco de cada. O Brasil sempre gostou de misturas.

O mais cruel, porém, foi perceber que o 8 de janeiro de 2023 não surgiu do nada. Não brotou espontaneamente da insanidade coletiva. Ele foi gestado antes, em silêncio, a partir de 15 de abril de 2021 — a data da Traição Suprema, quando a Justiça decidiu que a verdade era negociável e que a história podia ser rebobinada com uma canetada.

Sem aquela decisão, não haveria quebra-quebra. Não haveria fúria cega. Não haveria vandalismo. O 8 de janeiro foi consequência, não causa. Foi o vômito tardio de um organismo institucional intoxicado.

Até o sempre ponderado Marco Aurélio Mello, antigo ministro do STF — um homem que jamais confundiu frieza com covardia — apontou o óbvio: houve crime de omissão. Houve falha grotesca de segurança. Houve alertas ignorados. Houve gente demais olhando para o lado certo demais.

O governador do DF, o ministro da Justiça, o chefe do GSI: todos avisados, todos preparados para nada fazer. O resultado foi um cenário perfeito para a narrativa perfeita. Palácios depredados, imagens repetidas à exaustão, vilões prontos, heróis improvisados.

E, como sempre, a conta caiu no colo de quem estava mais perto da farda. Coronéis da PMDF viraram bodes expiatórios de um teatro maior. Os verdadeiros diretores da peça assistiram da coxia, atrás de cortinas, com ar grave e discursos sobre democracia. Uma minuta do golpe sem assinatura foi tratada como prova de uma cogitação criminosa e serviu de base para processos e condenações severas a fardados e paisanos. Generais e o próprio presidente Jair Bolsonaro foram alçados à condição de réus simbólicos de um golpe que nunca passou do papel. O roteiro dispensou atos, dispensou comandos e dispensou execução; bastou a narrativa. E, mais uma vez, quem pagou o ingresso mais caro foi quem vestia farda, enquanto os autores do script saíam pela porta dos fundos, aplaudidos como defensores da democracia.

Mas voltemos a 2016.

O que mais dói, hoje, não é o fracasso. O Brasil está acostumado a falhar. O que dói é a memória do otimismo. A lembrança daquele breve período em que acreditamos — sinceramente — que o país havia amadurecido. Que instituições serviam ao povo. Que a lei não tinha partido político.

Foi um verão curto. Uma noite quente. Um sonho bonito.

Mas, acordamos suados, confusos, e com a sensação estranha de que alguém havia mexido na casa enquanto dormíamos.

Talvez seja essa a lição final daquele ano de 2016: no Brasil, quando o cidadão acha que venceu, é porque o sistema apenas mudou de tática.

O ano de 2016 não foi o fim dos petralhas. Foi apenas o momento em que eles fingiram cair para ver quem baixava a guarda.