A
Chuva
Félix Maier
Durante
sete dias e sete noites, a chuva não parou. A água caía do céu como se o
firmamento tivesse se rompido por completo. Não era uma chuva comum, dessas que
acalmam ou revigoram a terra depois do calor. Era uma ira líquida, uma torrente
interminável, como se o próprio Deus, ou alguma coisa muito antiga e ressentida,
tivesse despejado sobre o Estado do Rio de Janeiro o conteúdo de mil oceanos.
No
primeiro dia, o povo ainda filmava da janela, alegre da vida. Os apresentadores
da televisão falavam em evento climático extremo, expressão limpa demais
para o que estava começando.
No
segundo dia, bairros inteiros ficaram sem luz. Havia vídeos engraçados nas
redes sociais, crianças nadando nas ruas de Campo Grande, surfistas tentando
deslizar pelas avenidas alagadas da Barra da Tijuca e do Recreio dos
Bandeirantes. No terceiro dia, faltou sinal de telefone em quase toda a cidade
do Rio. No quarto dia, os helicópteros da imprensa desapareceram dos céus
cinzentos. No quinto dia, já não havia previsão do tempo, apenas rumores.
Diziam que o mar invadira as galerias do metrô e os túneis do Rebouças, de
Santa Bárbara, os de Copacabana, de Noel Rosa, da Grota Funda e o da
TransOlímpica. Diziam que dezenas de cadáveres boiavam pela Avenida Brasil, na
altura do Complexo da Maré. Diziam que em São Gonçalo um pastor pregava sobre o
teto de um ônibus, cercado de fiéis que cantavam hinos dentro d’água até o
pescoço.
No
sexto dia, até os cães haviam parado de latir. E no sétimo, o Rio de Janeiro
parecia uma cidade submersa havia séculos. Caixas d’água de PVC flutuavam
carregando famílias inteiras nos subúrbios e na Baixada Fluminense. Geladeiras
viradas de lado serviam de barco. Canoas improvisadas feitas de tábuas e boias
infláveis cruzavam o que antes eram ruas.
Em
alguns bairros, a enchente subira tantos metros que apenas os fios dos postes
indicavam onde existira uma avenida ou uma praça. Ninguém mais sabia onde
terminava Nova Iguaçu e começava Duque de Caxias. Tudo era um só lago marrom e
fétido, coberto de lixo, móveis, cadáveres, brinquedos infantis e garrafas pet,
muitas garrafas pet girando lentamente na correnteza.
Em
Belford Roxo, uma mulher dera à luz sobre o telhado de uma escola inundada. Em
São João de Meriti, um cavalo morto permanecia preso nos fios elétricos,
balançando ao vento como um presságio medieval. Em Queimados, homens pescavam
tilápias dentro de uma igreja tomada pela água barrenta.
Na
serra, a tragédia assumira proporções bíblicas. As montanhas pareciam derreter.
Em Petrópolis, Teresópolis, Serra das Araras e Angra dos Reis, encostas
inteiras escorriam morro abaixo como manteiga quente. Rochas enormes rolavam
esmagando pousadas, carros e casas. Algumas residências deslizavam inteiras
pelas encostas, ainda iluminadas pela chama vacilante de velas, como pequenos
presépios sendo arrastados para o inferno. A BR-040, que liga o Rio a Brasília,
estava interditada em muitos pontos, com lama, pedras gigantescas e água
brotando nas montanhas de Petrópolis, em Itaipava, até Juiz de Fora.
O
Dedo de Deus, na Serra dos Órgãos, aparecia e desaparecia entre nuvens negras,
gigantesco e silencioso, como um profeta cansado observando a ruína dos homens.
Os
morros das comunidades cariocas também derretiam, com pedras rolando como se um
Ciclope nervoso tivesse acordado de um sono de milênios e resolvesse aprontar
das suas. Favelas como a Rocinha, o Morro dos Macacos, o Morro da Providência
(com seu Elevador), o Morro de Santa Marta, os Morros do Pavão e do Pavãozinho
(com seu Elevador), os Morros da Babilônia e Chapéu Mangueira, o Complexo do
Alemão e o Morro do Vidigal praticamente deixaram de existir, tudo vindo abaixo
com lama, água, tijolo, madeira, fiações diversas e até os teleféricos. Não era
fiação urbana que existia nas favelas do Rio, mas uma tese de doutorado sobre
desordem aplicada: décadas de improviso entrelaçadas em cobre, plástico, malandragem
e gatonet haviam formado uma civilização aérea tão precária que um único
alicate poderia mergulhar metade da cidade nas trevas digitais e elétricas.
No
Méier, a água invadia prédios com a impaciência de um cobrador atrasado,
escalando escadas e elevadores como se tivesse endereço marcado em cada
apartamento.
Na
Tijuca, automóveis boiavam de lado, girando lentamente como peixes metálicos
exaustos em um aquário enlameado.
O Centro transformara-se numa Atlântida improvisada, onde placas, bancas de
jornal, mesas de bar e lixeiras navegavam sem rumo e sem capitão.
Em
Copacabana e Ipanema, ondas barrentas atravessavam avenidas e calçadas,
carregando consigo árvores arrancadas dos morros, geladeiras, motocicletas e o
destino de milhares de desconhecidos. Os morros do Cantagalo e Pavão e
Pavãozinho não existiam mais.
O
Leblon perdeu suas esquinas sob uma massa escura que misturava água, pedras,
galhos e toda espécie de detrito urbano. Com o oceano invadindo o continente, a
Lagoa Rodrigo de Freitas transbordara e a lama subia por andares inteiros,
entrando pelas janelas como uma visita monstruosa que não precisava tocar
campainha. Sofás, televisores, portas, bicicletas e pedaços de telhado passavam
flutuando diante de varandas atônitas.
Alguns
observavam tudo em silêncio, incapazes de compreender se aquilo era uma
enchente ou uma lenta dissolução da cidade.
Sirenes já não gritavam mais, helicópteros deixaram de riscar o céu pesado e as
luzes haviam desaparecido bairro após bairro.
Era
como se o Estado do Rio de Janeiro tivesse sido entregue, como castigo, a
forças antigas e mal-humoradas da natureza. E no meio daquele cenário
apocalíptico, a chuva continuava caindo com uma serenidade insultante. Era como
se, depois de destruir tudo, o dilúvio ainda estivesse apenas começando.
Na
capital, o caos tinha algo de grotesco. Na Barra da Tijuca, rapazes musculosos,
cobertos de tatuagens e fantasiados de MCs de funk, com grossas pulseiras e
correntes de ouro no pescoço, gritavam nas varandas em crise de abstinência. Os
motoboys haviam desaparecido havia dias. Não chegava cocaína, não chegava
maconha, não chegava fast food. Os fortões choravam abraçados a potes de whey
protein molhados, enquanto belas influencers digitais com botox e olhos
espichados faziam transmissões ao vivo cada vez mais desesperadas.
Uma
dessas influencers permaneceu onze horas seguidas transmitindo da cobertura de
um prédio alagado em Jacarepaguá, até a bateria sobressalente acabar. Seu
último vídeo mostrava apenas a chuva batendo nos vidros e chegando a seus pés, e
sua voz repetindo, já rouca:
—
Gente… isso não pode estar acontecendo…
A
internet morreu poucos minutos depois. Sem sinal, sem GPS, sem bancos, sem zap,
sem Instagram, sem Pix, o Rio de Janeiro retornou à Idade da Pedra.
Foi
nesse cenário que dois homens subiam os degraus escorregadios do Museu
Nacional, na Quinta da Boa Vista. A água já invadira parte do terreno, e o
velho prédio restaurado das cinzas de gigantesco incêndio surgia
entre a tempestade como um navio fantasma.
Um
deles era Francisco, católico de longas missas, terços gastos em muitas
procissões e imagens de santos espalhadas pela casa, no Méier. Ex-professor de
História, viúvo havia três anos, carregava no rosto uma tristeza mansa que a
idade transformara em serenidade.
O
outro chamava-se Calvino. Ex-policial militar, solteiro, morador do Grajaú, convertido
fervoroso da Assembleia de Deus, presbítero do Pastor Jonas, tinha voz de
trovão e uma Bíblia cheia de marcações fluorescentes. Falava das Escrituras
como quem segura uma espada. Seu sonho era ter sua própria igreja, em Quintino,
ao lado da via férrea da Central do Brasil, para facilitar a chegada de fiéis.
Eles
tinham se conhecido dois dias antes, num bote improvisado que recolhia
sobreviventes na Tijuca e no Maracanã. Desde então caminhavam juntos, embora
discordassem sobre quase tudo. Calvino olhou o céu escuro e murmurou:
—
Irmão Francisco… isto aqui é o Juízo Final. Está escrito. Nos últimos dias os
céus se abrirão em pranto e a terra tremerá.
Francisco
apoiou-se num corrimão coberto de ferrugem antes de responder:
—
Pode ser, Calvino… mas por que Deus mandaria tamanha dor ao povo fluminense? Os
nordestinos ao menos rezam por chuva. Nós não pedimos nada disso.
—
Porque o povo se afastou de Deus! — respondeu Calvino, exaltado. — Idolatria,
carnaval, adultério, drogas do Comando Vermelho, venda ilegal de terrenos e
apartamentos feita pelas milícias, pedágios pagos pelos comerciantes
para criminosos, micro-ondas para facções inimigas (queima de pessoas
vivas em pilha de pneus com gasolina), novelas e BBB da TV Globo, Robauto de
Acari, jogo do bicho, roubo de cargas na Avenida Brasil, corrupção de
governadores, rachadinhas de deputados, vícios inconfessáveis! Nem Sodoma ousou
tanto!
Francisco
suspirou:
—
Sempre sobra para o samba...
— O
Senhor já destruiu cidades por menos!
— E
as crianças? — retrucou Francisco. — E os velhinhos do asilo de Magé? E a
creche de Belford Roxo? Que pecado cometeram?
Calvino
abriu a boca, mas hesitou antes de responder. Pela primeira vez desde que se
conheceram, sua certeza pareceu vacilar.
— O
Senhor faz cair chuva sobre justos e injustos.
Francisco
ficou em silêncio por alguns segundos. Depois murmurou:
—
Então talvez isso não seja castigo. Talvez seja abandono.
A
palavra ecoou no ar pesado por alguns segundos. Abandono.
E
nada foi falado sobre os governadores presos por pouco tempo, apesar de
condenações que somavam vários séculos, a exemplo de Sérgio Cabral; e tantos outros:
Moreira Franco, Anthony e Rosinha Garotinho, Luiz Fernando Pezão, Wilson Witzel,
Cláudio Castro. E as rachadinhas na
ALERJ, com R$ 49 milhões desviados pelo seu presidente André Ceciliano – para
variar, um petista -, e até Flávio Bolsonaro, com R$ 1,3 milhão na conta, e
ninguém foi processado. Condenado a 425 anos e 20 dias de prisão, Cabral
cumpriu apenas 6 anos e 22 dias em regime fechado.
Nos
últimos tempos, Sérgio Cabral matava a saudade de seus 50 mil seguidores, postando
um vídeo
sobre filmes de sua preferência, como se fosse o crítico Pablo Villaça, no
terraço de um prédio com piscina, tendo o Pão de Açúcar ao fundo. Será que Cabral
também foi levado pelas águas, ou apenas perdido seus óculos escuros?
Naquele
instante, a terra inteira tremeu. Os degraus do Museu Nacional rangeram
violentamente. O chão vibrou como um tambor colossal, e um ruído monstruoso
atravessou o Estado do Rio de Janeiro. Na Serra dos Órgãos, o Dedo de Deus
desabou. A formação rochosa de gnaisse moldada por milhões de anos de erosão,
contendo fraturas expostas, tombou da montanha com um estrondo tão terrível que
as nuvens se abriram por um instante, revelando um clarão pálido de sol.
Pessoas em Niterói jurariam, tempos depois, ter visto a montanha cair em câmera
lenta.
Então
a escuridão voltou. E junto dela veio um som estranho. Não parecia trovão. Parecia
um rugido.
— O
que foi isso?! — gritou Francisco, agarrando-se ao corrimão.
Calvino
girou a cabeça, assustado.
—
Leão?… Ou o Diabo em carne viva?
Então
ouviram vidro quebrando dentro do Museu. Passos pesados. Respiração animal. Um
leão do BioParque
do Rio, antigo Zoológico da Quinta da Boa Vista, libertado pela
enchente, vagava pelos corredores do prédio histórico que havia sido morada de
um rei e de dois imperadores. Essa construção fora doada a Dom João VI pelo
comerciante de escravos negros luso-libanês Elias Antônio Lopes, ganhando o
título de Comendador da Ordem de Cristo. Molhado, faminto e magnífico, o leão caminhava
entre fósseis indígenas e o meteorito de Bendegó como um rei antigo visitando
ruínas. Ainda bem que não era algum fugitivo do Galpão da Boa Vista, presídio
de São Cristóvão encostado no fundo da Quinta.
Os
dois amigos voaram corredor adentro até encontrarem uma antiga sala de
arqueologia egípcia. Francisco puxou a tampa semiaberta de uma tumba de
alabastro, e os dois se esconderam lá dentro, espremidos ao lado de uma múmia
ressequida que havia sido salva do incêndio.
O
rugido do leão ecoou tão perto que pareceu vibrar dentro dos ossos deles. Por
alguns instantes, ficaram imóveis, ouvindo apenas a chuva martelando o teto e o
som das patas do leão sobre o mármore.
Foi
então que Francisco começou a rir. Primeiro, baixo. Depois, mais forte. Calvino
arregalou os olhos.
—
Ficou louco?!
Francisco
tentava conter o riso nervoso.
— Eu
só estava pensando… o Egito enfrentou pragas, abriu o Mar Vermelho… e eu vou
morrer abraçado a uma múmia dentro do Museu Nacional…
Calvino
tentou permanecer sério, mas acabou rindo também. E durante alguns segundos,
escondidos dentro do sarcófago enquanto o mundo desmoronava lá fora, os dois
homens riram como crianças. Talvez porque o medo extremo enlouqueça as pessoas.
Ou talvez porque Deus ainda permita pequenos acessos de humor antes do capítulo
final do Apocalipse.
Quando
finalmente saíram da tumba, o silêncio parecia ainda mais assustador. A água já
invadira o térreo do Museu, e peixes nadavam pelos corredores históricos.
Do
lado de fora, milicianos e traficantes de drogas, a exemplo do Comando Vermelho
(CV), Terceiro Comando Puro (TCP) e Amigos dos Amigos (ADA), haviam perdido
qualquer distinção. Saqueavam bancos, mercados, farmácias e depósitos de água.
Homens armados disputavam sacos de arroz como animais famintos. A polícia
desaparecera. Os prefeitos do Rio e da Baixada Fluminense também. Assim, os
bandidos que já tomavam conta de mais da metade do município do Rio de Janeiro
agora eram donos de tudo, inclusive da Baixada.
Mas
havia bondade em meio ao caos. Uma senhora dividia bolachas encharcadas com
desconhecidos. Um médico fazia curativos à luz de velas. Um rapaz tatuado,
provavelmente ladrão horas antes, carregava uma criança nos ombros através da
enchente. O fim do mundo misturava o melhor e o pior da humanidade numa mesma
lama.
—
Escute aqui, Calvino — cochichou Francisco, olhando para os lados, ao saírem do
Museu, — dizem que havia um túnel secreto saindo do Palácio da Quinta da Boa
Vista.
—
Túnel para quê? Fugir de revolução? Esconder ouro? — perguntou Calvino,
arregalando os olhos.
—
Que nada. Juram que era para levar D. Pedro I discretamente aos braços de
Domitila de Castro, a Marquesa de Santos, no Paço de São Cristóvão.
Calvino
coçou a cabeça, franziu a testa e soltou uma risada.
—
Veja só a engenharia imperial: enquanto o povo abria estradas com enxada e
picareta, Sua Majestade queria encurtar distâncias sentimentais...
—
Claro! — disse Francisco. — Independência do Brasil em cima, independência do
coração embaixo.
Calvino
balançou a cabeça:
— O Imperador
foi uma criatura curiosa... proclama Independência ou Morte! no riacho
do Ipiranga e depois atravessa túnel escondido para declarar Dependência e
Amor! em particular.
Sob
as pedras e a solenidade das construções coloniais, o Rio antigo parecia
guardar uma segunda cidade, feita não de ruas e sobrados, mas de sombras,
segredos e passos abafados. No Centro, há vários exemplos de túneis, hoje
desativados, que já foram rota para encontros furtivos. No Convento das Freiras
Franciscanas Nossa Senhora da Ajuda, que funcionava onde hoje fica o Palácio
Pedro Ernesto, sede da Câmara dos Vereadores, existia um labirinto subterrâneo.
Contam as más línguas que as próprias religiosas cavaram os túneis. O motivo
faria corar a madre superiora: elas buscavam, segundo o historiador Milton
Teixeira, uma rota segura para encontros amorosos e para escapar dos rigores do
claustro. Enquanto acima ecoavam orações e formalidades, abaixo corria uma
geografia silenciosa de suspiros, mistérios e urgências humanas. O subsolo
carioca parecia provar que até a pedra sabe guardar calor.
Uma
coisa é certa: o Rio de Janeiro nasceu com vocação para túneis: uns atravessam
montanhas para ligar a Zona Norte às praias;
outros atravessam prudências para ligar corações a encontros seguros e
furtivos.
Cachoeiras
d’água haviam se formado em todas as montanhas cariocas e fluminenses,
deslizando sobre pedras nuas como se fossem imensos toboáguas. Depois de
prosear sobre as fugidas noturnas de Dom Pedro I, Francisco e Calvino chegaram
à sacada do Museu Nacional. Foi então que ouviram um estampido distante vindo
da direção da Floresta da Tijuca. Os dois olharam para o Corcovado. E viram. O
Cristo Redentor começava a se inclinar lentamente. Primeiro, quase
imperceptível. Depois mais. E mais. Então a montanha cedeu. A estátua veio
abaixo junto com pedras, árvores e lama, desaparecendo numa avalanche
monstruosa. Um grito coletivo pareceu atravessar toda a cidade.
Francisco
caiu de joelhos. Calvino perdeu a fala. A visão do Cristo destruído parecia
impossível, como se a própria alma do Rio tivesse sido arrancada do alto do
Corcovado.
E
então aconteceu algo ainda mais estranho. A chuva cessou. Não aos poucos, como
costuma acontecer. Parou de repente. Como se alguém tivesse fechado uma
gigantesca torneira invisível. O silêncio que veio em seguida era insuportável.
Nenhum vento. Nenhuma gota d’água. Nenhum pássaro.
As
águas ficaram imóveis. O mundo parecia ter prendido a respiração. Então o céu
se abriu. E o sol apareceu.
Não
era o sol agressivo e abafado do Rio 40 graus do filme e da realidade
carioca. Era um sol suave, quase triste, como a luz de uma manhã antiga de
domingo. Seu brilho dourado refletiu sobre os escombros, sobre os postes
tombados, sobre os telhados que ainda flutuavam.
Foi
então que algo começou a emergir lentamente das águas. Cadáveres. Centenas
deles. Milhares deles. Homens, mulheres, crianças. Corpos subindo à superfície
em silêncio, girando devagar como lembranças que o mundo tentara esconder.
Francisco
começou a rezar em voz baixa. Calvino tremia. Mas o mais assustador ainda
estava por vir. Todos os corpos pareciam voltados para a mesma direção. O mar.
Um
som grave surgiu ao longe, como um coral vindo das profundezas. A Baía de
Guanabara começou a recuar lentamente. Peixes debatiam-se na lama. Navios
inclinavam perigosamente no Cais do Porto, onde alguns contêineres ainda
flutuavam antes de afundar. O Museu do Amanhã surgiu das profundezas, como uma
enorme adaga futurista cravada na Baía da Guanabara. O oceano inteiro parecia
estar sendo puxado para trás. A ponte Rio-Niterói havia sobrevivido.
—
Meu Deus… — murmurou Francisco.
Então
eles viram. No horizonte, algo gigantesco começava a erguer-se das águas. Não
era um navio. Nem uma ilha. Era escuro demais. Grande demais. E estava vivo.
Uma
espinha colossal rompeu a superfície. Depois vieram olhos enormes, do tamanho
de uma bola de basquete. Calvino caiu de joelhos.
—
Leviatã…
A
criatura permaneceu parcialmente emergida, imóvel, observando o mundo
devastado. Parecia antiga demais para pertencer à Terra. Parecia existir desde
antes dos homens aprenderem a rezar.
Então,
vindo de uma casa semi-submersa, ouviu-se uma música. Uma velha vitrola
começara inexplicavelmente a funcionar. Uma canção de Clara Nunes ecoou sobre
as águas silenciosas. A monstruosa criatura moveu lentamente a cabeça. E
desapareceu no oceano. Sem ondas. Sem violência. Como um animal obediente
retornando às profundezas.
Francisco
chorava sem perceber. Calvino olhava para o horizonte com a fé destruída e
reconstruída ao mesmo tempo.
Foi
então que uma menina surgiu entre eles. Magra, descalça, enrolada num cobertor
rasgado. Carregava nos braços um pequeno gato branco tremendo de frio. Mas
havia algo estranho nela.
A
menina estava completamente seca. Nem uma gota de água tocava sua pele. Ela
olhou para os dois homens e perguntou com simplicidade:
—
Vocês são padres?
—
Não exatamente — respondeu Francisco.
—
Mas falam com Deus?
Calvino
engoliu em seco.
—
Tentamos.
A
menina ergueu os olhos para o céu limpo. Depois olhou para os cadáveres. Depois
para o mar. E murmurou:
—
Diz pra Ele que pode parar agora. Já lavou tudo.
Então
ela começou a caminhar. Francisco percebeu algo impossível: onde seus pés
descalços tocavam a lama, pequenas flores amarelas começavam a brotar.
—
Espera! — gritou ele.
A
menina virou-se lentamente. E os dois viram seus olhos. Não havia pupilas. Apenas
luz. Uma luz dourada, calma e antiga como o próprio tempo. Calvino começou a
chorar convulsivamente.
—
Quem… quem é você? É um anjo?
A
menina sorriu com doçura.
— Já
me chamaram de muitas coisas.
Então
ela desapareceu. Não correu. Não se afastou. Simplesmente deixou de existir sob
a luz dourada do sol, como se tivesse evaporado.
O
gatinho permaneceu ali, miando baixinho. Os dois homens ficaram imóveis. Até
que, ao longe, no alto de uma torre de igreja milagrosamente intacta, um galo
cantou. Três vezes. Como se estivesse se lembrando do Apóstolo Pedro.
Francisco
segurou o terço. Calvino fechou os olhos. E ambos compreenderam algo terrível e
belo ao mesmo tempo: o mundo não terminara. O verdadeiro julgamento começava
agora. Porque sobreviver seria mais difícil do que morrer.
Ao
longe, pessoas começavam lentamente a sair dos telhados. Algumas choravam seus
mortos. Outras apenas olhavam para o céu, incapazes de compreender por que
ainda estavam vivas.
O
sol subia devagar sobre o Rio de Janeiro devastado. E pela primeira vez em
muitos anos, a cidade parecia nua. Sem carnaval. Sem bate-bola. Sem trânsito. Sem
música. Sem máscaras. Sem praias. Apenas seres humanos atônitos e tontos,
perambulando sem destino no lamaçal.
E,
enquanto a luz da manhã revelava as cicatrizes abertas da cidade, cada um
parecia procurar não apenas a casa perdida de sua família ou o rosto
desaparecido de um vizinho, mas também algum vestígio da vida que existira uma
semana atrás. O Rio continuava ali, entre morros, túneis e mar, mas sua alma
parecia suspensa no ar pesado daquele amanhecer escabroso. Restavam o silêncio,
a memória e a estranha certeza de que, depois de certas tragédias, o amanhã já
não chega da mesma forma que antes. E só então se descobriu que a alma da
cidade nunca havia morado nos cartões-postais, mas nos sobreviventes que
continuavam caminhando rumo ao nada.
Francisco
olhou o horizonte enlameado e perguntou baixinho:
— E
agora?
Calvino
demorou alguns segundos antes de responder. Quando falou, sua voz já não tinha
raiva, nem fanatismo, nem trovão. Tinha apenas cansaço. E humildade.
—
Agora… a gente aprende de novo a ser gente.






