MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Jorginho, o menino que enfrentou os chifres de uma vaca ainda na barriga da mãe - Por Félix Maier

 


Jorginho, o menino que enfrentou

os chifres de uma vaca ainda

na barriga da mãe

Félix Maier

         Há gente que chega ao mundo sem fazer muito barulho, como quem pede licença para entrar. Há outros que parecem nascer já anunciando que não vieram para passar despercebidos. Jorginho Mello pertence, pelo menos segundo a história que ele próprio costuma contar, à segunda categoria. Antes de abrir os olhos para a luz, antes de aprender a falar, antes de dar os primeiros passos e muito antes de descobrir que um dia seria governador de Santa Catarina, o menino já havia enfrentado, ainda no ventre materno, uma adversária de respeito: uma vaca de mau humor, munida de chifres e pouco disposta a colaborar com a ordenha.

A história aparece na narrativa pessoal de Jorginho como uma espécie de prólogo de sua vida. Sua mãe, grávida, havia ido tirar leite de uma vaca quando o animal a atacou. O episódio teria provocado problemas na gestação e contribuído para que o menino viesse ao mundo antes da hora, com apenas sete meses. A parte da prematuridade encontra confirmação em registros biográficos e reportagens sobre sua vida: Jorginho dos Santos Mello nasceu em Ibicaré, SC, em 15 de julho de 1956, e veio ao mundo pequeno, prematuro, a ponto de o diminutivo Jorginho acabar se tornando seu nome definitivo.

Não se sabe o que teria pensado aquela vaca depois do episódio. Talvez nada. Vacas, ao contrário dos políticos, não costumam dar entrevistas para explicar suas decisões. Talvez ela simplesmente tenha entendido que estava defendendo o leite que considerava seu e que a mulher grávida havia chegado perto demais. O certo é que, se o animal pretendia assustar a família, conseguiu. Se pretendia impedir o nascimento daquele menino, fracassou completamente.

Jorginho nasceu. E, aparentemente, nasceu com pressa. Essa pressa haveria de acompanhá-lo pela vida inteira.

O menino que chegou aos sete meses não demoraria muito para chegar a Herval d’Oeste, à escola, ao trabalho, à política e, décadas mais tarde, ao governo de Santa Catarina. Quando ainda era rapazote, ninguém poderia imaginar que aquele menino franzino, que aprenderia a vender pé-de-moleque na Estação ferroviária, trabalhar no frigorífico do Pagnoncelli e estudar no Colégio Melo e Alvim, acabaria atravessando o longo caminho que separava uma pequena cidade do Meio-Oeste catarinense dos gabinetes de Brasília e, finalmente, do Centro Administrativo do Estado.

Mas a vida política, quando contada depois que tudo aconteceu, parece uma estrada previamente traçada. Na realidade, não é. Para o rapaz que vendia doce na Estação, o futuro ainda era apenas uma palavra sem endereço.

Ibicaré, Herval e o começo da caminhada

Jorginho nasceu em Ibicaré, naquele meio-oeste catarinense onde as cidades pequenas pareciam viver em permanente diálogo com a roça, com as serrarias, com as pequenas propriedades, com o Rio do Peixe e com a ferrovia. A região tinha seus próprios ritmos. O dia começava cedo, o trabalho começava cedo e, para muita gente, a vida começava a exigir responsabilidades antes que a infância tivesse tempo de terminar.

A família acabou se mudando para Herval d’Oeste, município vizinho, onde Jorginho viveria uma parte decisiva de sua juventude. A cidade, ligada intimamente a Joaçaba e ao movimento do Vale do Rio do Peixe, tinha uma característica que hoje talvez seja difícil imaginar: a ferrovia era uma presença concreta na vida cotidiana. Não era apenas um traço no mapa. Era barulho, fumaça, apito, carga, passageiro, comércio e movimento.

A Estação ferroviária de Herval d’Oeste era uma espécie de praça coberta onde a vida passava sobre trilhos. Ali se encontravam os que chegavam e os que partiam, os que tinham dinheiro e os que precisavam ganhá-lo, os viajantes de passagem e os moradores que conheciam cada funcionário pelo nome. Havia carregadores, engraxates, vendedores, curiosos, pequenos comerciantes e os moleques que pareciam ter nascido sabendo que, onde houvesse um passageiro, poderia haver algum trocado.

Jorginho conheceu esse mundo ainda jovem. E não foi simplesmente para olhar. Foi para trabalhar. Para ajudar sua mãe, vendia na Estação o pé-de-moleque feito com doce de leite, transformado em uma guloseima que, nas mãos do rapaz, ganhou nome próprio: pé-de-granfino. A palavra ficou como ficam certas expressões do interior: ninguém sabe exatamente quando nasceram, mas todo mundo sabe de quem são.

Pé-de-granfino era uma palavra com sabor de infância, mas também tinha gosto de trabalho. A mãe preparava. O filho vendia. O passageiro comprava. O dinheiro voltava para casa. E a vida seguia mais leve.

Hoje, quando se fala em empreendedorismo juvenil, aparecem palavras como startup, inovação, plano de negócios, mercado, estratégia e marketing. Naquele tempo, um garoto com uma bandeja de doces na Estação não precisava de nenhuma dessas palavras. Tinha apenas um produto, alguns compradores e a necessidade de vender.

Talvez tenha sido a primeira escola de economia de Jorginho. E talvez tenha sido também sua primeira escola de política. Porque vender doce para viajante exige alguma habilidade.

É preciso saber abordar sem incomodar, elogiar o produto sem exagerar, perceber quem tem dinheiro, quem está com pressa, quem está disposto a comprar e quem apenas pergunta o preço para depois desaparecer. É preciso conhecer gente. Jorginho aprenderia isso cedo.

A escola dos larfiudos

A Estação tinha ainda outra escola, menos respeitável, mas provavelmente não menos instrutiva. Era a escola dos moleques. Ali circulavam os meninos que faziam pequenos trabalhos como carregadores e engraxates, aqueles que sabiam onde ficava cada canto da plataforma, quem chegaria no trem seguinte e qual passageiro costumava dar gorjeta. Eram meninos que aprendiam cedo a se virar. E tinham uma língua própria, a larfiagem.

Não se tratava exatamente de um idioma no sentido acadêmico da palavra, porque não havia gramática, dicionário ou professor formado. Era uma linguagem de rua, de molecada, feita de palavras inventadas, deformadas, trocadas e adaptadas, que consistia basicamente em embaralhar as sílabas, para zarquiar da polícia.

Quem frequentava a Estação ferroviária de Herval d’Oeste aprendia. Jorginho, ao que tudo indica, também aprendeu. E talvez tenha sido uma experiência importante. Porque, quem aprende a entender uma linguagem diferente, aprende, ao mesmo tempo, que as pessoas nem sempre dizem exatamente aquilo que parecem dizer. Há códigos, intenções, ironias, disfarces, sinais e silêncios. Na política, muitos anos depois, essa habilidade não seria inútil.

A larfiagem talvez tenha sido apenas uma brincadeira de meninos. Mas era também um exercício de observação social. Naquela pequena universidade sem diploma, o professor era a rua. O quadro-negro era a plataforma da Estação. E os alunos eram aqueles moleques que aprendiam a sobreviver entre malas, vagões, engraxates, carregadores, passageiros e pequenos furtos.

Alguns talvez tenham se perdido pelo caminho. Outros ficaram na memória. Jorginho saiu dali para outras escolas. Mas, com certeza, não esqueceu a primeira.

O Melo e Alvim

No início dos anos 1970, Jorginho estudava no Colégio Melo e Alvim, em Herval d’Oeste. Era o tempo em que a cidade ainda tinha aquele jeito de lugar onde praticamente todo mundo conhecia todo mundo ou, pelo menos, conhecia alguém que conhecia todo mundo.

Foi ali que Sílvia Maier, irmã de Félix Maier, conviveu com o rapazote de Ibicaré. O colégio era outro mundo.

Se a Estação ensinava a vida de maneira prática, o Melo e Alvim tentava organizá-la em cartilhas, cadernos, provas, horários e disciplina. Era preciso estudar, copiar, responder, decorar e passar de ano. Mas nenhum colégio consegue impedir que os alunos sejam jovens. E os alunos daquela época também tinham seus interesses muito além das matérias escolares.

Havia as amizades. As brincadeiras. As paqueras. As matinês. E havia o frio. O frio do Meio-Oeste catarinense, especialmente nos invernos mais rigorosos, não era detalhe decorativo. Entrava pelas mangas, atravessava as calças e fazia qualquer casaco parecer insuficiente.

Jorginho, porém, tinha uma solução. O sobretudo. Um sobretudo inesquecível. Naquele ambiente, o rapaz aparecia bem-apanhado, vestido com uma peça que lhe dava ares de lorde inglês. Talvez Londres nunca tivesse ouvido falar dele, mas Herval d’Oeste certamente ouviu.

Para os meninos, aquilo podia parecer um exagero. Para as meninas, aparentemente, era outra história. O sobretudo chamava atenção. E, nas matinês dançantes, Jorginho não passava despercebido, era muito disputado.

Era uma época em que a juventude tinha seus próprios rituais. As matinês eram importantes. Dançar era importante. Saber se vestir era importante. Saber quem estaria no salão era importantíssimo. E um rapaz de sobretudo, vindo da Estação, trabalhando e estudando, parecia ter alguma coisa que o destacava.

Talvez fosse apenas a roupa. Talvez fosse o jeito. Talvez fosse a mistura de confiança e ambição que já começavam a aparecer. Ou talvez as meninas simplesmente gostassem de um rapaz bem-vestido. A história não precisa de explicação científica. Basta a memória.

O rapaz do frigorífico

Mas o sobretudo tinha hora. Na escola e nas matinês, podia representar elegância. No trabalho, não servia para muita coisa. Jorginho trabalhou no frigorífico de Attilio Pagnoncelli, ligado ao abate de suínos, numa época em que o trabalho industrial era uma das portas de entrada para jovens que buscavam alguma independência.

Aquele ambiente tinha pouco de lorde inglês. Ali havia trabalho. Havia horário. Havia responsabilidade. Havia o mundo real. E o rapaz que queria se destacar precisava mostrar que também sabia cumprir obrigações.

Essa passagem pelo trabalho ajuda a compreender a diferença entre o personagem lembrado pelas matinês e o jovem que construía sua própria trajetória. O sobretudo não era toda a história. Era apenas a parte mais visível. Por baixo dele havia um rapaz trabalhando. E trabalhando desde muito cedo.

A vida de Jorginho foi marcada por essa combinação: aparência cuidada por fora e disposição para trabalhar por dentro. Mais tarde viria o BESC. Aí o mundo mudaria novamente.

No Banco do Estado de Santa Catarina, Jorginho começou como funcionário e construiu uma carreira que o levaria a gerente e diretor. Os registros da Assembleia Legislativa indicam sua passagem pelo BESC entre 1975 e 2002.

Era outro aprendizado. A Estação ensinara a lidar com gente. O frigorífico ensinara a lidar com trabalho. O colégio ensinara a lidar com livros. O banco ensinaria a lidar com papéis, números, responsabilidades e estruturas administrativas. E a política já estava à espreita.

Vereador aos dezoito

Aos dezoito anos, Jorginho foi eleito vereador de Herval d’Oeste. Aos dezoito. Isso merece repetição porque, naquela idade, a maioria dos rapazes ainda estava tentando descobrir como funcionava a própria vida. Jorginho já estava tentando descobrir como funcionava a vida pública.

A eleição ocorreu em 1976, pela Arena, e a Memória Política de Santa Catarina registra que ele foi, entre 1977 e 1978, o mais jovem presidente de Câmara do Brasil. Era o rapazote do Melo e Alvim entrando na política. Talvez alguns dos colegas tenham pensado que aquilo era apenas mais uma aventura juvenil. Mas não era. A vereança seria o primeiro degrau de uma escada longa. E é curioso imaginar aquele jovem ocupando uma cadeira na Câmara Municipal depois de ter circulado pela Estação vendendo pé-de-granfino.

No mundo da política, ele descobriria que vender doce era relativamente simples. O cliente podia dizer não. O passageiro podia ir embora. A conta era fácil. Na Câmara, nada era tão simples. Ali havia opiniões, interesses, disputas, discursos, alianças e desentendimentos. O rapaz teria de aprender rapidamente. E aprendeu.

A política municipal, porém, não seria ainda seu destino definitivo. Depois daquele começo, ele se afastaria temporariamente da vida eletiva e construiria sua carreira no BESC. Só mais tarde retornaria à política em escala maior. Isso também é importante. Porque mostra que sua trajetória não foi uma ascensão contínua, como às vezes parecem sugerir as biografias resumidas.

Houve espera. Houve trabalho. Houve preparação. Houve uma vida profissional entre uma eleição e outra. O jovem vereador não virou deputado imediatamente. Precisou viver.

O tempo do BESC

O BESC foi uma longa etapa. Foram décadas em que Jorginho esteve ligado à instituição, começando em 1975 e chegando à direção. Nesse intervalo, também estudou. Formou-se em Estudos Sociais e, posteriormente, em Direito. Aquele rapaz que saíra da Estação ferroviária estava acumulando ferramentas. Talvez sem saber exatamente para que serviriam todas elas. Mas acumulava.

Experiência de rua. Experiência de trabalho. Experiência  bancária. Formação acadêmica. Experiência política. É assim que se constroem certas carreiras.

Não há um momento único em que tudo acontece. Há pequenas aquisições. Uma competência aqui. Uma amizade ali. Um conhecimento acolá. Uma eleição vencida. Uma derrota a lamentar, como a presidência da ALESC, em 2001. Uma oportunidade. Uma porta aberta. Outra fechada. É a vida, tchó!

E, quando a pessoa olha para trás, percebe que aquilo que parecia disperso formava uma trajetória.

De Herval para Florianópolis

Quando Jorginho retornou à política eleitoral em meados dos anos 1990, já não era o rapaz do sobretudo. Era um homem experiente.

Em 1994, foi eleito deputado estadual e assumiu em 1995. Depois, seria reeleito sucessivamente, completando quatro mandatos na Assembleia Legislativa. A partir daí, sua trajetória ganhou outra escala. Herval d’Oeste já não era o único horizonte. O mundo agora era Santa Catarina. Mas o Oeste continuava dentro da biografia.

Porque uma pessoa pode sair de uma cidade pequena, mas raramente consegue sair completamente dela. Carrega o sotaque. Carrega as lembranças. Carrega os amigos. Carrega as histórias. Carrega os apelidos. Carrega até as palavras dos larfiudos da Estação que aprendeu quando era moleque.

Talvez por isso a figura do pé-de-granfino seja tão persistente. Ela lembra que, antes de qualquer cargo, havia uma necessidade familiar. Antes do gabinete, havia a Estação. Antes do discurso, havia a venda. Antes do voto, havia o trabalho.

O caminho para Brasília

Depois de quatro mandatos como deputado estadual, Jorginho chegou à Câmara dos Deputados em 2011. Foi eleito em 2010 e reeleito em 2014, permanecendo na Câmara até 2019.

Brasília era outro universo. O rapaz que aprendera a larfiagem na Estação agora circulava pelos corredores do Congresso Nacional. É uma dessas mudanças que parecem quase absurdas quando colocadas lado a lado. De um lado, o menino vendendo doce; de outro, o parlamentar discutindo leis. E, pelo caminho, Jorginho logo descobriu que, em Brasília, também havia larfiudos — talvez mais bem vestidos, mais letrados e muito mais habilidosos nas palavras —, dos quais precisaria aprender a se defender e até a reconhecer à distância. Afinal, a larfiagem mudara de cenário, mas não tinha desaparecido: apenas trocara a plataforma da Estação pelos corredores do Congresso.

A política brasileira é cheia de homens que começaram em lugares muito diferentes daqueles em que terminaram. E o Oeste catarinense produziu muitos personagens cuja história se mistura com trabalho, agricultura, indústria e pequenas cidades. Jorginho levou consigo essa origem.

Em 2018, ele foi eleito senador por Santa Catarina. A trajetória estava se tornando nacional. O garoto de Ibicaré chegava ao Senado. E ainda faltava o último capítulo daquela escalada.

A eleição para governador

Em 2022, Jorginho Mello foi eleito governador de Santa Catarina. A Assembleia Legislativa registra a sequência: vereador aos 18 anos, carreira no BESC, quatro mandatos como deputado estadual, dois como deputado federal, senador e, finalmente, governador eleito.

Quando chegou ao governo, o rapazote de Ibicaré já era personagem da história política oficial. Seu nome aparecia nos jornais. Sua fotografia estava nos cartazes. Seu rosto era reconhecido em todo o Estado.

Mas, para quem o conhecera nos corredores do Melo e Alvim, para quem o vira na Estação, para quem lembrava do sobretudo, das matinês, do trabalho no frigorífico e do pé-de-granfino, existia outra imagem. Uma imagem menor e, justamente por isso, mais humana. A imagem do garoto. O governador podia ser conhecido por milhões. Mas o rapazote ainda pertencia a Herval d’Oeste.

A cidade que ficou dentro dele

Herval d’Oeste não foi apenas uma etapa administrativa na vida de  Jorginho. Foi o lugar onde ele se tornou jovem. E isso é diferente. Uma pessoa pode nascer em uma cidade e tornar-se outra pessoa em outra cidade. Foi em Herval que Jorginho trabalhou, estudou, vendeu doces, participou de matinês e entrou na política.

Foi ali que seu nome começou a ganhar circulação. Foi ali que ele deixou de ser apenas o menino de Ibicaré. E talvez seja por isso que a memória hervalense tenha uma relação particular com ele.

Para quem o viu circular pelos corredores do Melo e Alvim, trabalhar no frigorífico e brilhar nas matinês, permanecia também a imagem mais íntima e humana: a de um jovem bem-vestido, ambicioso no melhor sentido, carregando no corpo magro e no olhar atento a semente de um destino que começara ali, entre larfiudos escorregadios, pés-de-granfino, livros, danças, frio serrano e sonhos ainda sem nome.

A cidade guarda o personagem antes da fama. É uma espécie de fotografia sem retoque. Nela, não aparece o governador. Aparece o rapaz. E o rapaz estava bem-vestido. Isso é importante. Porque a memória gosta de detalhes.

Ninguém se lembra de uma pessoa apenas porque ela ocupou um cargo. Lembra-se porque ela usava determinada roupa, falava de determinada maneira, frequentava determinado lugar, tinha determinado hábito. O sobretudo é mais memorável do que muitos discursos. O pé-de-granfino é mais saboroso do que um currículo. A Estação é mais concreta do que uma biografia oficial.

Talvez haja uma pequena filosofia escondida naquele doce. O pé-de-granfino era feito em casa. Era levado à rua. Era oferecido. Era vendido. E dependia da aceitação de quem estava do outro lado.

A política também é assim, embora em escala muito maior. O candidato oferece uma proposta. O eleitor decide. Um aceita. Outro rejeita. Outro desconfia. Outro compra a ideia. Outro vai embora.

O vendedor precisa insistir sem exagerar. O político precisa convencer sem parecer desesperado. O vendedor precisa conhecer o freguês. O político precisa conhecer o eleitor. O vendedor precisa voltar amanhã. O político precisa voltar na próxima eleição. Talvez Jorginho tenha aprendido alguma coisa sobre isso na Estação de Herval. Não porque estivesse fazendo política. Mas porque estava aprendendo a lidar com pessoas. E essa é uma das escolas mais difíceis.

A lenda da vaca

Com o passar dos anos, a história da vaca ganhou uma qualidade que todas as boas histórias de família possuem: quanto mais se conta, mais interessante fica.

A cena original é simples. Uma mulher grávida. Uma vaca leiteira. A ordenha. O ataque. O susto. A gestação prejudicada. O nascimento prematuro.

Mas, quando colocada diante do restante da biografia, a história ganha um aspecto quase lendário. A vaca surge como a primeira antagonista. Não é uma adversária política. Não é uma concorrente eleitoral. Não é um deputado de oposição. É uma vaca. E uma vaca não negocia. Não faz acordo de bancada. Não pede reunião. Não apresenta requerimento. Não pede emenda parlamentar. Porém, quando decide avançar, avança.

Talvez seja por isso que a imagem tenha tanta força. O menino ainda nem havia nascido e já estava envolvido em uma crise. E saiu dela. Nasceu. Vingou. Cresceu.

A frase que aparece em relatos sobre sua prematuridade — de que o pai chegou a achar que o menino não vingaria — torna a história ainda mais expressiva. O pai rendeu uma homenagem a um amigo próximo, o Jorjão, colocando seu nome no documento do batismo, mas como Jorginho, de tão miúdo que o filho era.

Porque, olhando para trás, fica impossível não perceber a ironia. O menino vingou. E vingou bastante, como vingou!

Epílogo — O menino ainda está lá

Quando os anos passam, a memória costuma fazer uma coisa curiosa: mistura o passado com o presente. O governador de hoje se encontra, na lembrança, com o rapaz de ontem.

O homem com alguns cabelos grisalhos aparece novamente usando o sobretudo imaginário do adolescente. O senador se encontra com o vendedor de pé-de-granfino. O deputado se encontra com o aluno do Melo e Alvim. O político experiente se encontra com o rapaz que aprendia larfiagem na Estação.

E, no começo de tudo, antes de todos eles, está o pequeno Jorginho, ainda no ventre da mãe, surpreendido por uma vaca que provavelmente jamais suspeitou do tamanho do adversário que tinha diante dos chifres.

A história poderia terminar dizendo que ele venceu a vaca. Mas seria pouco. A verdade é que ele venceu muitas outras coisas chifrudas depois. Venceu o tamanho pequeno com que nasceu. Venceu as incertezas da infância. Venceu as dificuldades do trabalho precoce. Venceu a distância entre uma pequena cidade e os grandes centros de decisão. Venceu a eleição para vereador.

Depois do trabalho no BESC, voltou. Tentou novamente. E venceu. Da Estação de Herval d’Oeste aos corredores da Assembleia Legislativa. Dos corredores da ALESC ao Congresso. Da Câmara dos Deputados ao Senado. Do Senado ao governo de Santa Catarina. Nesse tempo, casou-se e teve dois filhos.

E, olhando tudo de longe, parece quase possível enxergar o caminho inteiro como uma linha contínua. Mas não era. Era feito de pedaços. Um pedaço de Ibicaré. Um pedaço de Herval. Um pedaço de Joaçaba. Um pedaço de escola. Um pedaço de frigorífico. Um pedaço de banco. Um pedaço de política. Um pedaço de família. Um pedaço de acaso.

E, no começo de tudo, um pedaço de medo diante dos chifres de uma vaca. Talvez seja por isso que a história tenha graça e, ao mesmo tempo, alguma ternura. Porque o governador que hoje aparece nos palanques e nas solenidades já foi um garoto que precisava vender doce para ajudar a mãe.

Já foi o rapaz que chegava ao Melo e Alvim com um sobretudo que parecia grande demais para a cidade. Já foi o jovem que disputava as atenções das meninas nas matinês. Já foi o vereador de dezoito anos. E já foi, antes de tudo isso, aquele pequeno ser que resolveu chegar ao mundo aos sete meses, depois que uma vaca decidiu participar da história da família.

No fim, a vaca ficou para trás. O trem passou. A Estação fechou. O colégio mudou. O frigorífico mudou. O BESC desapareceu. Herval d’Oeste cresceu. Joaçaba mudou, tem o Monumento a Frei Bruno. Santa Catarina mudou. E o garoto também. Mas algumas coisas não desaparecem. Ficam na memória. Fica o pé-de-granfino. Fica a larfiagem. Fica o sobretudo. Ficam as matinês. Fica a Estação. Fica o rapazote de Ibicaré que, antes mesmo de conhecer o mundo, já havia enfrentado os chifres de uma vaca.

E fica, sobretudo, a pergunta que o tempo costuma fazer quando transforma um menino em personagem da história: quem haveria de imaginar, naquele tempo, que aquele pequeno Jorginho, chegado ao mundo aos sete meses e quase por encomenda de uma vaca mal-humorada, um dia percorreria o caminho que vai de Ibicaré e Herval d’Oeste até o governo de Santa Catarina?

Talvez ninguém. Nem a família, que o recebeu tão pequeno; nem os colegas do Melo e Alvim; nem as meninas das matinês, que disputavam o rapaz do sobretudo; nem os larfiudos da Estação, que o conheceram vendendo pé-de-granfino. E muito menos a vaca, que naquele dia, sem saber, acabou entrando para a história.

Se soubesse o que vinha pela frente, talvez tivesse guardado os chifres para outra ocasião. Mas já era tarde. O menino nascera antes da hora, e parece que levou a pressa para a vida inteira.

Depois daquele primeiro susto, Jorginho nunca mais chegou tarde a lugar nenhum. Está sempre com pressa, com muita pressa. Especialmente nestes tempos em que ele tenta a reeleição para governador. 

Que obtenha sucesso, pois você merece, Jorginho!


quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Sobre vachinas e jacarés - Por Félix Maier

 


Sobre vachinas e jacarés

Félix Maier

Durante a pandemia da Covid-19, quando o Brasil parecia ter entrado num daqueles pesadelos em que ninguém encontra a saída porque cada porta dá para outra porta, o Presidente Jair Bolsonaro, o Imbroxável, e o governador de São Paulo, João Doria, conhecido nas rodas políticas como BolsoDoria, travaram uma batalha de proporções épicas para decidir qual vacina deveria salvar a pátria: a CoronaVac, produzida pelo Butantan, com licença da chinesa Sinovac Biotech, ou a AstraZeneca, de um consórcio sueco-britânico, fabricada no Brasil pela Fiocruz.

Era uma discussão aparentemente científica, mas com a delicadeza intelectual de dois adolescentes discutindo no banheiro quem tinha o bilau mais comprido. De um lado, o governador paulista defendia a CoronaVac, que tinha sua produção de vacinas feita com o IFA (Ingrediente Farmacêutico Ativo) vindo da China. Do outro, o presidente defendia a vacina AstraZeneca, produzida pela Fiocruz. Não sabia o Imbroxável que o princípio ativo de sua vacina também vinha da China.

— Essa vachina aí — dizia o Imbroxável, fazendo uma pausa dramática — vem daquele país dos olhinhos puxados!

E, como quem revela um segredo de Estado, acrescentava:

— E eu não vou dizer o que pode acontecer depois!

Não precisava dizer. O presidente já havia deixado no ar a sua famosa profecia: quem tomasse aquela vacina poderia acabar virando jacaré.

A frase, naquele tempo, provocou risos, indignação, memes, discussões de botequim e uma quantidade respeitável de desenhos de jacarés usando máscara. Houve quem dissesse que era apenas uma metáfora. Houve quem jurasse que era uma advertência científica. Houve até quem, mais prudente, começasse a olhar com desconfiança para os próprios cotovelos.

Ninguém, porém, levou em consideração a possibilidade mais perigosa de todas: a profecia pegar. E pegou.

João Doria havia surgido na política como uma espécie de satélite brilhante da constelação presidencial. Era a época em que Bolsonaro e Doria trocavam afagos públicos, elogios protocolares e fotografias em que ambos sorriam como se tivessem descoberto juntos a cura para a política brasileira. Chamavam-no, então, de BolsoDoria. Era um apelido útil, porque explicava, numa única palavra, uma proximidade política que, em certos momentos, parecia mais íntima que um aperto de mão e mais conveniente que um casamento.

Mas a política brasileira possui uma curiosa propriedade química: alianças que parecem indestrutíveis podem evaporar com a mesma rapidez de álcool em dia quente. Não demorou para que o BolsoDoria deixasse de ser BolsoDoria e voltasse a ser simplesmente Doria. Depois passou a ser adversário, depois inimigo, depois crítico e, finalmente, tornou-se uma dessas criaturas políticas que, quando aparecem na televisão, fazem o eleitor procurar o controle remoto por instinto.

O mesmo fenômeno ocorreu com Joice Hasselmann e Alexandre Frota. Os dois haviam sido eleitos sob a sombra luminosa — ou sombria, conforme o ponto de vista — do fenômeno Bolsonaro. Eram tempos em que vestir a camisa do capitão parecia suficiente para garantir uma espécie de passaporte para Brasília. Joice era uma máquina parlamentar de frases, vídeos, acusações e indignações. Frota carregava para a política a experiência de quem já conhecera vários palcos, inclusive alguns que Brasília jamais deveria conhecer em horário eleitoral.

Ambos, contudo, fizeram aquilo que políticos brasileiros fazem com admirável frequência: mudaram de lado antes que o lado percebesse. A partir daí, a antiga fraternidade virou guerra. O que antes era abraço tornou-se cotovelada; o que antes era elogio virou denúncia; o que antes era mito passou a ser autoritarismo. E, como costuma acontecer nesses casos, ninguém mais se lembrava de ter estado do outro lado.

Foi justamente nessa época que começou o estranho fenômeno dos desaparecimentos. Primeiro, ninguém deu muita importância. Um jacaré apareceu num lago. Depois outro. Depois uma jacaroa. Aos poucos, surgiram rumores de que certos políticos haviam sido vistos rastejando pelas margens dos rios, escondendo-se nos manguezais, tomando sol sobre pedras e demonstrando uma irritação incomum com jornalistas. A princípio, parecia apenas coincidência. Até que alguém encontrou uma velha inscrição num muro de Brasília:

VOCÊ VAI VIRAR JACARÉ.

Abaixo, alguém escrevera, com tinta vermelha de batom:

E NÃO ADIANTA RECORRER AO STF.

Foi então que a coisa ficou séria. O primeiro caso confirmado ocorreu com BolsoDoria. Num fórum internacional organizado pelo LIDE (Grupo de Líderes Empresariais), em Nova York, não em Miami, como era costume, pois havia a participação ilustre de ministros do STF — Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes, Luís Roberto Barroso e Dias Toffoli —, o ex-governador de São Paulo começou a sentir uma coceira no pescoço. A princípio, atribuiu aquilo ao ar-condicionado. Depois, à alergia.   

De volta a Miami, a coceira aumentou e vieram as escamas: primeiro pequenas, depois médias e, por fim, enormes.

O assessor que estava diante dele deixou cair o celular.

— Governador...

— Ex-governador — corrigiu Doria, automaticamente.

— Não. Quero dizer...

O homem apontou para o pescoço. Doria olhou para o espelho. Seu rosto continuava reconhecível, mas começava a adquirir um aspecto desagradavelmente reptiliano.

— Isso é um absurdo!

A boca se alongou.

— Vou processar o Bolsonaro!

Os dentes cresceram.

— Isso não pode estar acontecendo!

As mãos encolheram. A pele ficou verde. E, antes que pudesse chamar o advogado, BolsoDoria desapareceu dentro de uma poça de água decorativa existente no jardim do hotel.

O segurança viu apenas duas coisas: um grande rabo batendo na água e uma etiqueta de grife flutuando na superfície.

A transformação de Frota foi mais dramática. Ele estava numa reunião política quando começou a sentir uma necessidade irresistível de ficar perto da água.

— Preciso de um lago — disse.

— Um lago?

— Um lago.

— Temos uma piscina.

— Não serve.

— Por quê?

Frota olhou para o horizonte.

— Não sei. Meu instinto manda procurar um pântano.

Cinco minutos depois, já não havia mais político na sala. Havia um jacaré. O animal atravessou o corredor, ignorou os seguranças, passou pela garagem e entrou num carro oficial. Quando o motorista viu o bicho sentado no banco traseiro, perguntou:

— Para onde, excelência?

O jacaré respondeu:

— Para onde houver água.

O motorista, que já tinha visto coisas mais estranhas em Brasília, não fez perguntas.

Com Joice Hasselmann, a transformação foi ainda mais peculiar. Ela estava diante de uma câmera quando percebeu que alguma coisa estava errada. Começou a falar, como sempre, sobre a situação do país, mas interrompeu para olhar a própria mão. Havia escamas. Olhou para a outra. Escamas também.

— Isso é uma montagem!

A cauda apareceu.

— Isso é fake news!

A boca começou a se alongar.

— Isso é perseguição política!

A pele ficou verde.

— Isso é uma tentativa de me silenciar!

E então, em vez de terminar a frase, soltou um:

— Croc!

A câmera caiu. O cinegrafista saiu correndo. Quando voltou, encontrou apenas uma cadeira vazia, um microfone no chão e uma jacaroa escondida atrás da cortina. Ela ainda tentou explicar alguma coisa, mas agora toda frase terminava em croc.

A notícia espalhou-se rapidamente. Em Brasília, ninguém queria admitir que acreditava na história, mas todo mundo acreditava. Deputados passaram a olhar com desconfiança para os colegas que permaneciam tempo demais diante do espelho. Senadores evitavam lagos. Ministros recusavam convites para pescarias. Governadores mandavam instalar cercas ao redor de piscinas. Em certos gabinetes, retiraram até aquários.

Um deputado chegou a pedir que sua assessoria fizesse um levantamento de todos os rios, córregos, represas, banhados e açudes existentes num raio de quinhentos quilômetros de Brasília.

— Para quê? — perguntou a secretária.

— Prevenção.

— Prevenção contra quê?

O deputado olhou para os lados antes de responder, quase num sussurro:

— Crocodilagem.

Foi então que apareceu o professor Hipólito de Albuquerque, especialista em fenômenos inexplicáveis e autor de um tratado obscuro chamado Metamorfoses Políticas da República Tropical. Segundo ele, o fenômeno não tinha relação direta com vacina alguma.

— O jacaré — explicou — é um animal politicamente simbólico.

— Por quê?

— Porque passa muito tempo parado, de boca aberta, esperando que alguma coisa caia nela.

O jornalista anotou.

— Isso é uma crítica aos políticos?

— Não. É uma observação zoológica.

— Mas o senhor está dizendo que políticos podem virar jacarés?

— Não.

— Então o que está dizendo?

O professor ajeitou os óculos.

— Estou dizendo que talvez alguns jacarés já tenham virado políticos.

A frase causou enorme repercussão. No dia seguinte, os jornais publicaram manchetes anunciando que um professor afirmava haver jacarés infiltrados na política. O professor passou o dia inteiro negando o que havia dito, mas já era tarde. Na política brasileira, uma frase mal compreendida tem mais pernas que uma verdade bem explicada.

Enquanto isso, BolsoDoria instalou-se na Flórida. Escolheu um banhado discreto, longe dos turistas, mas suficientemente próximo dos bairros ricos para manter alguma dignidade social. De vez em quando, era visto tomando sol sobre um píer. Continuava preocupado com negócios. Mesmo com quatro patas e uma cauda monumental, mantinha hábitos empresariais.

Mandara imprimir cartões de visita:

JOÃO DORIA

Empresário, Líder Empresarial e Réptil Estratégico

No verso:

LIDE — Grupo de Líderes Empresariais

E, em letras menores:

Atendimento mediante agendamento

O jacaré havia descoberto uma vantagem extraordinária na nova condição: ninguém mais lhe pedia explicações sobre política. Quando um jornalista se aproximava, ele simplesmente mergulhava. Quando alguém perguntava sobre o futuro do Brasil, mergulhava. Quando perguntavam sobre candidatura presidencial, mergulhava. Quando perguntavam sobre negócios, levantava apenas os olhos.

Certa vez, um repórter perguntou:

— O senhor ainda pretende voltar à política?

BolsoDoria abriu a boca.

O jornalista recuou.

— Era só uma pergunta!

O jacaré mergulhou.

BolsoFrota teve destino diferente. Foi parar nos pântanos da Louisiana, perto de Nova Orleans, onde encontrou uma comunidade de crocodilos que o recebeu com desconfiança. Um velho crocodilo perguntou de onde ele vinha.

— Do Brasil.

— E o que fazia lá?

Frota hesitou.

— Política.

Os crocodilos se entreolharam.

— Então você é perigoso.

— Por quê?

O velho crocodilo mostrou os dentes.

— Aqui, pelo menos, os crocodilos só mordem.

BolsoFrota considerou a frase. Não sabia se aquilo era elogio ou crítica. Acabou ficando. Rapidamente descobriu que os crocodilos americanos eram menos ideológicos que os políticos brasileiros. Não discutiam esquerda e direita. Discutiam apenas território. E, quando terminavam a discussão, mordiam. Frota achou aquilo estranhamente honesto.

BolsoJoice, por sua vez, tomou outro caminho. Durante o dia, escondia-se nas águas da Marginal Pinheiros. À noite, segundo relatos nunca confirmados, transformava-se numa criatura meio jacaroa, meio sereia. Os motoristas que passavam pela avenida diziam ouvir uma voz feminina saindo da água:

— Pare!

Alguns paravam.

— Venha cá!

Alguns chegavam mais perto.

— Tenho uma denúncia!

Aí corriam. Ninguém queria ouvir denúncia de uma sereia-jacaroa às duas da manhã.

Um pescador jurou que certa noite ela lhe perguntou:

— Você acredita em liberdade de expressão?

O homem respondeu:

— Acredito.

— Então me explique por que ninguém pode mais pescar aqui!

O pescador olhou para a água e respondeu:

— Porque a senhora está espantando os peixes.

A jacaroa pensou. Era a primeira vez que alguém lhe respondia sem medo. Desde então, passou a respeitar o pescador.

A lenda, entretanto, não terminou ali. Começaram a aparecer outros jacarés. Uns eram verdes; outros, pardos; alguns tinham dentes muito brancos; outros usavam gravata. Um deles apareceu em Brasília usando terno azul-marinho e sapatos italianos. Ninguém sabia de onde vinha. Entrava nos restaurantes mais caros, sentava-se à mesa, abria o cardápio e esperava. Quando o garçom perguntava o que desejava, respondia:

— O prato do dia.

— Para beber?

— Água.

— Com gás?

— Sem gás.

Depois ficava em silêncio.

Certa noite, um deputado perguntou:

— O senhor é político?

— Não.

— Empresário?

— Também não.

— Magistrado?

O jacaré demorou a responder.

— Depende do preço.

O deputado levantou-se imediatamente e saiu apressado.

A partir daí, a população começou a suspeitar de que a profecia do Imbroxável não fosse apenas uma piada. Talvez ele tivesse, sem querer, descoberto uma lei secreta da política brasileira: quem se aproxima demais do poder acaba mudando de pele. Primeiro vem o entusiasmo; depois, o rompimento; depois, a troca de discurso; depois, a televisão; depois, as redes sociais; e, finalmente, o pântano.

Era uma espécie de ciclo natural. Como a chuva. Como as enchentes. Como a troca de partido. Como o político que jura fidelidade numa segunda-feira e descobre, na quarta, que sempre fora adversário.

O próprio Imbroxável começou a desconfiar. Certa manhã, diante do espelho, examinou os próprios braços. Nada. Olhou os dedos. Normais. Examinou o rosto. Ainda humano. Respirou aliviado.

— Ainda bem.

Foi então que ouviu um barulho vindo do banheiro.

— Croc!

O presidente congelou.

— Quem está aí?

Silêncio.

— Tem alguém aí?

— Croc!

Abriu a porta. Não havia ninguém. Apenas um pequeno jacaré dentro da banheira. O animal olhou para ele. O presidente olhou para o animal. Os dois permaneceram imóveis.

— Você veio me buscar?

O jacaré piscou.

— Eu sabia — disse o presidente.

O animal abriu a boca.

— Croc!

— Não precisa explicar.

Naquela noite, depois de tocar o réptil até o Lago Paranoá, o Imbroxável dormiu mal. Sonhou que caminhava por Brasília e encontrava antigos aliados transformados em répteis. Uns nadavam no Lago Paranoá; outros tomavam sol na grama diante do Congresso Nacional; alguns usavam toga. Um deles segurava um martelo. Outro carregava uma faixa presidencial. No sonho, todos diziam a mesma coisa:

— A política é um grande pântano.

Quando acordou, estava suando. Olhou para o relógio: cinco da manhã. Foi até o banheiro, lavou o rosto e levantou os olhos para o espelho. Por um instante, teve a impressão de que havia duas pupilas verticais olhando para ele. Piscou. Tudo voltou ao normal.

— Deve ser a idade.

Anos se passaram. A pandemia terminou. As vacinas contra covid continuam sendo aplicadas, anualmente, junto com a da influenza e outras.

No Brasil, muitas vacinas contra a Covid-19 foram depois descartadas, permanecendo apenas as da Pfizer, Moderna e Serum/Zalika. Xô Coronavac/Butantan! Xô AstraZeneca/Fiocruz! Para tristeza de BolsoDoria e do Imbroxável. A Pfizer é dona de um comprimido azul com vitamina T (Tesão), o Viagra que faz a alegria dos velhinhos. Levanta o bilau quem nunca tomou o produto milagroso...

Os jacarés continuam existindo. E os antigos aliados continuam se atacando, agora com a distância segura que só a política e o fundo eleitoral proporcionam.

BolsoDoria permaneceu nos banhados da Flórida, preocupado em preservar seu patrimônio, sua imagem empresarial e seu bronzeado reptiliano. BolsoFrota tornou-se uma espécie de celebridade dos pântanos de Nova Orleans, onde concede entrevistas antes de nadar como o Michael Phelps e buscar um mergulho nas águas menos quentes do Golfo da América — assim rebatizado por Trump, porque até os jacarés precisavam se adaptar à nova geografia do Golfo do México. BolsoJoyce continua aparecendo ocasionalmente na Marginal Pinheiros, sobretudo em noites de lua cheia. Diz-se que, ao se transformar, ainda conservava a capacidade de fazer discursos de quarenta minutos. O problema é que ninguém mais entendia.

— Croc, croc, croc.

Um antigo assessor resumiu a situação:

— Antes ela falava demais. Agora pelo menos fala em língua réptil.

Quanto ao ex-presidente, continuava repetindo, antes de ser trancado na prisão domiciliar imposta por ministros petistas do STF, que nunca havia dito exatamente aquilo que todos diziam que ele havia dito.

— Eu não disse que a pessoa viraria jacaré!

— Mas disse que poderia virar.

— É diferente.

— Qual a diferença?

— Uma coisa é virar. Outra coisa é poder virar.

O jornalista ficou em silêncio.

— E os seus antigos aliados?

— Problema deles.

— O senhor acredita na maldição?

O presidente sorriu.

— Não.

— Então por que há tantos jacarés?

Ele apontou para o Lago Paranoá, atrás do Palácio da Alvorada:

— Pergunte a eles.

O jornalista olhou. Havia três jacarés imóveis na margem. Um deles usava gravata. Outro parecia sorrir. O terceiro tinha uma expressão de quem conhecia segredos demais.

O jornalista aproximou-se dos répteis.

— Vocês foram políticos?

Os três permaneceram calados.

— Foram aliados do presidente?

Silêncio.

— Viraram adversários?

Nada. Então o maior dos jacarés abriu lentamente a boca e disse:

— Croc.

O jornalista anotou.

Desde então, quando alguém pergunta se a profecia do Imbroxável era verdadeira, os habitantes das margens do Rio Pinheiros, do Lago Paranoá e dos pântanos de Miami e da Flórida costumam responder com cautela.

Ninguém sabe se vacina transforma gente em jacaré. A ciência jamais confirmou. Mas a política brasileira já demonstrou que consegue transformar aliados em inimigos, amigos em desafetos, admiradores em acusadores e companheiros de palanque em adversários ferozes com uma rapidez que nenhum laboratório conseguiu explicar.

Talvez tenha sido por isso que, certa madrugada, um velho pescador encontrou três jacarés descansando à margem de um rio. O primeiro tinha um jeito de empresário. O segundo parecia ter vindo do cinema. A terceira mantinha um olhar de comentarista político.

O pescador observou os três por algum tempo e finalmente perguntou:

— Vocês não eram gente?

Os três se entreolharam. Depois olharam para a lua. E, como se houvessem ensaiado durante anos a resposta, abriram a boca simultaneamente:

— Croc!

O pescador ajeitou o chapéu.

— Pois é. Política é assim mesmo.

E foi embora.

Atrás dele, os três jacarés continuaram imóveis, tomando banho de lua. Talvez arrependidos. Talvez satisfeitos. Ou talvez apenas esperando a próxima eleição.

Porque, no Brasil, até os jacarés aprenderam uma regra fundamental da política: nunca se sabe quando é hora de trocar de lado. Mas é bom saber nadar.















terça-feira, 11 de agosto de 2026

O Laranjão e o Bombado do Kremlin - Por Félix Maier

 


O Laranjão e o Bombado do Kremlin

Quando o Laranjão reassumiu a presidência da maior potência do planeta, em 20 de janeiro de 2025, o mundo inteiro fez a mesma coisa: prendeu a respiração durante cinco segundos e, logo depois, sacou o celular para gravar a reação.

Nunca se vira um retorno tão cinematográfico. O topete dourado continuava desafiando as leis da física com a mesma desenvoltura de um pombo que resolve pousar sobre uma turbina de avião. Havia meteorologistas sustentando que ele alterava a direção dos ventos; físicos afirmavam que possuía campo magnético próprio; e um professor de Oxford publicou um artigo demonstrando, com quarenta gráficos coloridos e nenhuma conclusão, que o penteado representava uma ruptura epistemológica na aerodinâmica capilar.

As redes sociais explodiram. Em menos de uma hora, apareceram quarenta milhões de memes. Alguns mostravam o topete sendo confundido com uma frente fria. Outros garantiam que ele podia ser visto da Estação Espacial Internacional. Um astrônomo amador jurou tê-lo fotografado cruzando o disco solar durante um eclipse parcial.

A NASA preferiu não comentar.

Na Europa, a esquerda universitária entrou em estado de efervescência intelectual. Em Paris, estudantes ocuparam a Sorbonne empunhando cartazes onde se lia Abaixo a Geopolítica Capilar e Nenhum Topete Será Maior do que a Revolução.

Um filósofo de cachecol grená declarou que o cabelo presidencial simbolizava a opressão estética do capitalismo tardio. Outro retrucou que se tratava apenas de uma metáfora do neoliberalismo penteado para trás. Um terceiro escreveu um ensaio de quatrocentas páginas provando que ambos estavam errados porque o topete era, na verdade, um fenômeno pós-estruturalista. O livro recebeu um prêmio importante, embora ninguém conseguisse terminar de lê-lo.

Hollywood percebeu imediatamente o filão. Em poucas semanas anunciou uma avalanche de produções. Vieram O Napoleão Nuclear, O Topete do Apocalipse, Missão Improvável – A Última Tarifa, O Império Contra o Hambúrguer e uma minissérie de oito episódios intitulada Diplomacia para Iniciantes, na qual todos os conflitos internacionais eram resolvidos por meio de competições de karaokê. Um diretor mais ambicioso decidiu filmar simultaneamente a continuação e o making off, para economizar tempo caso a realidade ultrapassasse novamente a ficção.

Do outro lado do planeta, entretanto, o Bombado do Kremlin acompanhava tudo com uma serenidade glacial. Era um homem de hábitos simples. Levantava antes do amanhecer, corria vinte quilômetros sobre a neve, quebrava algumas toras de madeira apenas para aquecer os ombros, fazia uma centena de flexões com um só braço apoiado num tronco de bétula e, para relaxar, disputava queda de braço com um urso que, segundo os jornais oficiais, perdia por respeito à autoridade constituída.

Naquele dia, ao terminar o treinamento, o Bombado enxugou o suor com uma toalha camuflada e aceitou um copo de vodca servido à temperatura ambiente — isto é, vinte graus abaixo de zero.

Um assessor aproximou-se cautelosamente.

— Excelência, o Laranjão voltou.

O Bombado tomou mais um gole.

— Ótimo.

— Ótimo?

— O mundo andava monótono.

O Bombado olhou pela janela para uma planície branca que parecia não terminar nunca.

— Nada movimenta tanto a geopolítica quanto um ego suficientemente grande.

Enquanto isso, os mercados financeiros decidiram entrar em pânico preventivamente.

Wall Street abriu em queda porque alguns investidores acreditavam que o Laranjão anunciaria tarifas sobre tudo que tivesse parafuso. Cinco minutos depois subiu porque outros investidores concluíram que ele talvez anunciasse justamente o contrário. À tarde voltou a cair em razão de uma fotografia em que o presidente aparecia segurando um copo de refrigerante. Especialistas passaram horas discutindo se aquilo representava uma mudança de estratégia monetária ou apenas sede. Os comentaristas econômicos, como sempre, explicaram tudo com absoluta convicção e total divergência.

A Organização das Nações Unidas convocou uma reunião extraordinária. Representantes de quase duzentos países chegaram carregando pastas, relatórios, mapas, estatísticas e expressões preocupadas. Durante quatro horas discutiram a ordem dos pronunciamentos. Nas três horas seguintes tentaram decidir se a mesa principal deveria ser oval, redonda ou inclusivamente poligonal. Depois interromperam os trabalhos para um almoço sustentável servido em recipientes biodegradáveis produzidos do outro lado do mundo e transportados por cargueiros movidos a óleo combustível altamente poluente.

Ao final da tarde, aprovaram na ONU uma resolução conclamando todas as partes à moderação, ao diálogo, à paz e ao uso racional dos pontos de exclamação nos comunicados oficiais. Todos aplaudiram. Ninguém sabia exatamente quem deveria cumprir a resolução.

No Oriente Médio, as notícias mudavam de velocidade mais depressa do que os mapas conseguiam acompanhar. Cada telejornal apresentava um especialista diferente, todos igualmente seguros de que compreendiam a situação de Israel frente ao Hamas. O curioso era que cada um explicava um conflito completamente distinto, como torcedores de um Fla-Flu. Havia analistas capazes de localizar a origem da crise no Império Romano. Outros preferiam remontar aos fenícios, enquanto alguns responsabilizavam as redes sociais. E um comentarista particularmente criativo sustentava que tudo poderia ter sido evitado se Alexandre, o Grande, tivesse aprendido mediação de conflitos.

As emissoras de televisão passaram a exibir um letreiro permanente com a inscrição ÚLTIMA HORA. Dias depois, o letreiro continuava lá. A última hora tornara-se um estado permanente da humanidade.

Nesse ambiente de ansiedade internacional, surgiu a notícia de que aviões norte-americanos haviam realizado uma grande operação militar contra instalações estratégicas ligadas ao programa nuclear iraniano. Analistas surgiram imediatamente para explicar que aquilo mudaria completamente a geopolítica mundial. Outros especialistas apareceram logo em seguida para explicar que não mudaria absolutamente nada. Um terceiro grupo passou a explicar por que os dois primeiros estavam errados.

As redes sociais fizeram o restante. Em poucos minutos já existiam mapas, animações em três dimensões, vídeos produzidos por inteligência artificial, reconstruções históricas, teorias conspiratórias, previsões do fim do mundo, desmentidos dos desmentidos e até um influenciador ensinando, em quinze segundos, como sobreviver a uma guerra nuclear usando papel-alumínio e pensamento positivo.

A inteligência artificial observava tudo em silêncio. Até que resolveu pedir férias. Dizia não ter sido treinada para distinguir ironia de diplomacia. E talvez tivesse razão. Porque, naquele momento, ninguém mais parecia capaz de fazê-lo.

Quando o Laranjão assumiu pela segunda vez a presidência dos Estados Unidos — já foi dito —, o mundo prendeu a respiração. Seu cabelo dourado, que desafiava as leis da aerodinâmica, e seu sorriso de tubarão recém-saído de um clareamento a laser, logo se tornaram memes apocalípticos.

Enquanto isso, do outro lado do globo, o Gengis Khan das Estepes continuava assistindo a tudo calmamente, fazendo flexões enquanto acariciava um urso vivo, um ritual de fortalecimento moral e musculoso.

— O Laranjão é perigoso — alertava o Bombado do Kremlin — mas sua dieta à base de fast food será sua ruína antes de qualquer guerra.

Depois, limpava o suor com a bandeira da antiga União Soviética e tomava um copo de vodca servido num crânio humano reciclado — ecologicamente sustentável, segundo garantia o Bombado.

Entre memes, protestos e teorias conspiratórias, o Laranjão apareceu na TV para uma declaração histórica: Quero paz... mas só se tiver molho extra. O mundo riu, suspirou e se preparou para a temporada da maior série de tragicomédia que a geopolítica já produziu.

O Laranjão levou o inferno ainda mais profundo para a infernal Faixa de Gaza, enquanto os meninos prediletos da ONU e da esquerda brasileira continuavam a lançar foguetes em direção a Israel, ao mesmo tempo em que se explodiam com bombas na cintura, em Jerusalém e Tel Aviv, num sistema de revezamento olímpico, tipo salto ornamental para o além.

O Laranjão jurou que resolveria a guerra Rússia-Ucrânia em uma única tuitada. Mas o conflito segue firme, teimoso como mula geopolítica, enquanto o Bombado do Kremlin continua transformando o palco internacional num grande teatro de músculos e bravatas, humilhando o antigo bufão de picadeiro, Volodymyr Zelensky. O presidente ucraniano, já convertido pela mídia mundial em personagem permanente de tragicomédia, segue no papel imposto pelo noticiário: herói, mártir, protagonista ou palhaço, conforme o canal.

A extrema esquerda europeia, reunida no Quartier Latin, na Cidade Luz, continuava discutindo apaixonadamente sobre o Laranjão. É Átila, o Flagelo do Ocidente reencarnado! bradou um discípulo de Jean-Paul Sartre, segurando uma taça de vinho natural sem enxofre. Do lado, um brazuca perfumado de patchouli e vestido de lilás, discípulo tardio de Paulo Freire, balançava uma plaquinha escrita Fora Trump! Viva a Dialética! Ele era conhecido por ter participado de uma performance intitulada A Última Ceia durante as Olimpíadas de Paris, em que os apóstolos discutiam sobre veganismo enquanto Jesus tentava transformar água em kombucha.

Enquanto isso, em Hollywood, produções trumpianas dominavam os cinemas, incluindo uma série da Netflix dirigida por Michael Moore chamada O Amarelão Amarelou. Nessa série, o Laranjão enfrentava aliens socialistas, robôs chineses e uma versão maligna de si mesmo produzida por IA.

Do outro lado do planeta, nas estepes geladas da Sibéria, o Bombado do Kremlin afiava a alma e os músculos ao mesmo tempo. Fortemente armado com minimísseis nucleares na cintura, o peitoral à mostra — mesmo sob temperaturas abaixo de zero — e um urso empalhado como banco de exercícios, ele ria em silêncio, enquanto esvaziava uma garrafa de Vodka para esquentar a goela.

— Este bufão dourado não sabe nem manejar uma espada de plástico, quanto mais comandar um império. Vou esmagá-lo no tabuleiro de xadrez dos esteroides.

Mas um assessor — o único ainda sóbrio — ousou discordar:

 Chefe, talvez seja melhor usar diplomacia diplomática e não diplomacia de halteres.

O Bombado fez silêncio. Muito silêncio. O assessor foi promovido a encarregado de alimentar ursos no Zoológico Estatal, depois de passar alguns meses numa solitária da Lubianka, um amorzinho de prisão.

O mundo tremeu quando ambos anunciaram um encontro histórico para resolver suas diferenças de maneira civilizada: uma partida de pôquer transmitida ao vivo. A CNN, a Fox News, a BBC e a Al-Jazeera transmitiriam simultaneamente. A Globo botou o Bonner com cara de sexta-feira.

O Bombado, por sua vez, compareceu montado num urso, modelo híbrido, ecológico, usando apenas calça camuflada, determinação e a expressão de quem considerava o inverno um conceito inventado pelo Ocidente.

O duelo foi digno de lenda:

— Eu aposto a Flórida — disse o Laranjão.

— Eu aposto a Crimeia — retrucou o Bombado.

— Eu aumento as Trump Tower de Las Vegas e de Manila.

— Eu cubro com três gasodutos e o controle total da Sibéria mais gelada.

Os comentaristas piravam. Na França, filósofos marxistas tentavam interpretar o subtexto, as entrelinhas das mensagens subliminares. No Brasil, influenciadores reagiam ao vivo: Meu Deus, ele apostou a Crimeia… deixa o like!

No final, o Laranjão ganhou com um par de dois e declarou vitória, bem ao estilo trumpiano:

— Fiz a América grande de novo até no pôquer!

O Bombado mordeu a borda do copo de vodca, mostrando bíceps, tríceps e rancor:

— Da próxima vez, será no braço de ferro!

As bolsas do mundo oscilaram. A OTAN pediu férias. O Papa suspirou. A China anotou tudo, só observando de longe, como quem espreita uma promoção futura. O Laranjão não se interessou pela Crimeia e pelos gasodutos fechados à Europa. Nem pela Sibéria mais gelada, pois estava de olho na Groenlândia.

Ao final da semana, a ONU divulgou um comunicado afirmando que a Terceira Guerra Mundial seria adiada até segunda ordem, possivelmente até o próximo reality show internacional.

O planeta, assustado, percebeu que, se dependesse desses dois, a humanidade estaria sempre a um passo do Armagedon e a dois passos da comédia involuntária. O Laranjão comemorou com Netanyahu, abrindo uma cachaça Fazenda Jeremias, presente de Jair Bolsonaro. O Bombado do Kremlin esvaziou uma garrafa de Smirnoff num gole só, ao lado de um Xi Jinping perplexo.

E assim, entre egos inflados, músculos à mostra, mechas indomáveis, diplomacia de buteco e brindes etílicos com amigos, o Laranjão e o Bombado do Kremlin continuaram protagonizando a maior novela geopolítica já vista: quando o mundo virou teatro do absurdo e a coxia repleta de bombas termonucleares. Mas a audiência é boa, disse um assessor. Então segue o show, respondeu outro aspone.

E o show seguiu. O show sempre tem que continuar.

As idas e vindas econômicas do Laranjão viraram espetáculo à parte. Ele acordava num humor protecionista, aplicava sobretaxas de 150% em produtos importados de quase todos os países do planeta, inclusive de ilhas que só exportavam cartões-postais e conchas. Negociava consigo mesmo, baixava taxas astronômicas para apenas 50%, e até 20%, e se declarava herói do comércio mundial, aparecendo à tarde na TV dizendo que era o cara mais bonzinho do hemisfério norte.

Com o Brasil, então, resolveu inovar: além da taxa especial de 50% para aço, alumínio, café, carne e até havaianas, aplicou a Lei Magnitski a meio mundo, com destaque para alguns juízes do Sistema Toga Petralha, que haviam condenado Jair Bolsonaro.

— É pela liberdade!  — disse, enquanto assinava os decretos com um canetão dourado que brilhava mais que o próprio topete.

Cada negociação era uma roleta emocional e cada ameaça comercial, uma jogada de marketing: you’re fired! Você está demitido! Como nos tempos em que comandava o reality show The Apprentice (O Aprendiz).

No fim das contas, o mundo inteiro percebeu que o Laranjão não governava, improvisava. Cada decreto parecia escrito no guardanapo do McDonald’s onde o Laranjão, em campanha presidencial, com vistoso avental, entregou hambúrguer e batata chips a uma brasileira. Seria inveja de Eduardo Bolsonaro, que havia trabalhado num Méqui dos EUA, para aprimorar o inglês?

Mas, enquanto seu topete continuasse firme e sua caneta dourada brilhasse como um farol kitsch da liberdade, o Laranjão seguiria convencido de que estava salvando o planeta da COP 30 em Belém, ainda que fosse um planeta ligeiramente atônito, altamente tarifado e totalmente resignado a seguir queimando combustíveis fósseis em aviões, navios e iates, não se rendendo às bravatas de ventania vindas de fazendas eólicas.

A essa altura, ninguém mais sabia onde terminava a política e começava o entretenimento. As agências de classificação de risco passaram a incluir um novo indicador em seus relatórios: o Índice Internacional de Mau Humor Presidencial. Wall Street já não acompanhava apenas juros, inflação ou crescimento. Bastava o Laranjão franzir uma sobrancelha durante uma entrevista coletiva para o petróleo subir, o ouro disparar, o dólar espirrar e as criptomoedas sofrerem um colapso existencial.

A televisão, naturalmente, fazia sua parte. Os telejornais já não abriam com Boa noite, mas com Acompanhe conosco a crise desta hora. Como havia uma nova crise a cada quarenta minutos, ninguém percebia quando uma substituía a outra. Os comentaristas, entretanto, eram os mesmos. Bastava trocar a gravata e a bandeirinha atrás da bancada.

Enquanto isso, a guerra entre Rússia e Ucrânia seguia seu curso melancólico, lembrando aquelas partidas de xadrez disputadas por enxadristas teimosos que já esqueceram quem fez o primeiro movimento. Cada ofensiva era anunciada como decisiva. Cada negociação era apresentada como histórica. E cada cessar-fogo durava exatamente o tempo necessário para que as equipes de televisão desmontassem seus equipamentos.

O Bombado do Kremlin acompanhava os mapas militares como um enxadrista contempla o tabuleiro. Cada flecha colorida representava uma hipótese. Cada hipótese era desmentida pela realidade no dia seguinte. Já o presidente ucraniano aparecia diariamente em videoconferências, parlamentos, cúpulas internacionais e cerimônias de entrega de prêmios, deslocando-se com tanta frequência que alguns aeroportos cogitaram criar um cartão de fidelidade diplomática.

Na prática, o conflito parecia obedecer à velha máxima segundo a qual toda guerra começa por excesso de certezas e termina por absoluta falta delas.

Foi então que o Laranjão anunciou que resolveria tudo.

— Em quarenta e oito horas.

O planeta suspirou. Não porque acreditasse. Mas porque já conhecia o roteiro. Os mercados oscilaram. As bolsas subiram. Depois desceram. Subiram outra vez. No fim do dia voltaram exatamente ao ponto de partida, o que permitiu aos analistas escreverem longos artigos demonstrando que aquilo era perfeitamente previsível.

Um novo encontro entre o Laranjão e o Bombado foi anunciado como A Conferência do Século. Escolheu-se um hotel tão neutro que nem os funcionários sabiam em que país ficava. Os suíços juravam que era na Suíça. Os austríacos sustentavam que pertencia à Áustria. Um geógrafo aposentado afirmou tratar-se de Liechtenstein, mas ninguém encontrou outro que confirmasse.

As delegações chegaram em aviões suficientes para provocar um rápido eclipse solar. Vieram assessores. Subassessores. Consultores. Especialistas em comunicação. Especialistas em especialistas. Tradutores. Tradutores dos tradutores. E um batalhão de fotógrafos incumbidos de registrar o momento exato em que os líderes fingiriam espontaneidade.

A reunião começou. Depois de quarenta minutos discutindo quem apertaria a mão primeiro, passaram meia hora escolhendo o formato da fotografia oficial. Quadrada parecia autoritária. Retangular lembrava a Guerra Fria. Panorâmica favorecia demais o topete do Laranjão. Decidiram fazer duas fotos.

As negociações propriamente ditas duraram onze minutos. Os outros três dias foram ocupados pela redação do comunicado conjunto.

Quando enfim o comunicado saiu, dizia: As partes reafirmam o compromisso com a continuidade do diálogo em ambiente construtivo, preservando a possibilidade de futuras conversações destinadas a criar condições favoráveis ao prosseguimento das próximas conversações.

Os diplomatas comemoraram. Jamais um texto conseguira dizer tão pouco usando tantas palavras.

Enquanto isso, uma nova frente de batalha surgia na economia. O Laranjão acordava inspirado. Anunciava tarifas sobre produtos estrangeiros. À tarde suspendia metade delas. À noite explicava que aquilo fazia parte de uma estratégia brilhante.

No dia seguinte reabria as negociações porque as negociações anteriores haviam produzido efeitos inesperadamente negociáveis. E a Suprema Corte havia derrubada algumas taxações.

Empresas inteiras passaram a contratar astrólogos, meteorologistas e psicanalistas para prever a política comercial norte-americana. Obtiveram índices de acerto semelhantes aos dos economistas. As indústrias de calculadoras agradeceram.

No Brasil, exportadores consultavam simultaneamente despachantes aduaneiros, advogados tributários, professores de comércio exterior e benzedeiras especializadas em desembaraço alfandegário. Nunca se venderam tantas planilhas. Nem tanta camomila.

Enquanto os governos discutiam tarifas, Hollywood já filmava a continuação dos acontecimentos. O roteiro era escrito pela manhã. As filmagens começavam depois do almoço. À noite a realidade modificava tudo. O roteirista chorava. O diretor pedia refilmagem. Os atores perguntavam se ainda faziam sentido. O produtor respondia que sentido nunca dera lucro.

A ONU insistia em reunir-se. A OTAN insistia em preocupar-se. O Papa insistia em rezar e falar de esperança, como quem tentava apagar um incêndio florestal com um regador de jardim. A União Europeia insistia em produzir documentos contra o Acordo com o Mercosul. A inteligência artificial insistia em pedir licença médica.

E a COP 30, a COP da Maniçoba, preparava mais uma conferência destinada a salvar o planeta, em Belém do Pará. Milhares de participantes desembarcaram em centenas de aviões particulares, altamente poluidores, para discutir como reduzir emissões de carbono. Os hotéis distribuíam folhetos impressos explicando a importância da sustentabilidade. Os participantes fotografavam árvores e palafitas, para desespero do governador Helder Barbalho. As árvores permaneciam indiferentes, assim como as palafitas.

A essa altura, o Laranjão concluiu que nenhuma reunião resolveria coisa alguma. Propôs um método muito mais civilizado. Uma partida de xadrez com o Bombado do Kremlin, em um país neutro. Transmitida ao vivo. A ideia foi  recebida com entusiasmo. Pela televisão. Pelo Bombado do Kremlin. Pelas plataformas digitais. Pelos patrocinadores. Pelas casas de apostas de Londres e as Bets. E até pelos fabricantes de pipoca. Seria o jogo russo-ianque do milênio, de Garry Kasparov e Bobby Fischer que nunca houve.

Um salão, em país não divulgado, foi preparado como se recebesse a final de uma Copa do Mundo. O Laranjão apareceu usando um terno tão brilhante que os fotógrafos precisaram diminuir a exposição das câmeras. O Bombado entrou caminhando lentamente, com a expressão de quem acreditava poder derrotar qualquer adversário apenas pelo olhar.

Sentaram-se. Silêncio absoluto. O planeta inteiro assistia. O Laranjão não perdeu tempo. Como Bobby Fischer faria, empurrou o peão do rei duas casas: 1.e4. O Bombado permaneceu imóvel durante quase duas horas, observando o tabuleiro como quem esperava uma ordem do Estado-Maior. Só então respondeu com o peão do rei também duas casas: ...e5. O Laranjão galopou imediatamente o cavalo do rei para f3 (2.Cf3). Depois de nova pausa interminável, o Bombado moveu o cavalo do rei para f6 (...Cf6).

Os comentaristas sorriram: estava inaugurada a Defesa Petrov, também conhecida como Defesa Russa. O Bombado do Kremlin devia estar recebendo dicas por um ponto implantado no ouvido. Do outro lado da mesa, as redes sociais já juravam que o Laranjão também usava um. Uns garantiam que estava ligado ao Trump Tower de Las Vegas; outros, ao Vale do Silício; e os mais criativos asseguravam que o sinal vinha diretamente do fantasma de Bobby Fischer, que continuava insistindo: 1.e4. Best by test.

— Aposto a Groenlândia.

— Cubro com a Ucrânia.

— Acrescento duas redes de fast-food.

— Ponho três gasodutos.

— Mais um campo de golfe.

— Mais uma frota de quebra-gelos.

Os comentaristas perderam completamente a compostura. Especialistas em geopolítica tentavam explicar a lógica das apostas. Especialistas em xadrez tentavam entender a geopolítica. Nenhum dos dois grupos conseguiu.

No fim da partida, depois de dias inteiros de jogadas inesperadas, olhares ameaçadores, discursos improvisados e cálculos mirabolantes, houve um... empate. Como num raro afogamento no xadrez, o Laranjão e o Bombado do Kremlin chegaram a um ponto em que qualquer lance significaria um desastre maior para si mesmos do que para o adversário. Cercados por alianças, sanções, interesses econômicos e pressões internas, descobriram que a melhor jogada era não haver jogada alguma. O rei de cada lado permaneceu de pé, ninguém venceu, ninguém perdeu; o tabuleiro apenas decretou que, às vezes, a única vitória possível da geopolítica é um empate por absoluta falta de movimentos.

Na manhã seguinte, os jornais publicaram manchetes completamente diferentes sobre o mesmo acontecimento que o mundo inteiro havia visto. Uns anunciavam vitória absoluta do Laranjão. Outros garantiam o triunfo estratégico do Bombado. Havia quem sustentasse empate. Alguns diziam que ambos haviam perdido. E um editorial particularmente filosófico concluiu que, naquele espetáculo permanente da política internacional, o único vencedor era a audiência.

A Terceira Guerra Mundial foi novamente adiada. Não por prudência. Mas porque a equipe de marketing sugeriu esperar mais uma temporada. O planeta respirou aliviado. Os comentaristas voltaram aos estúdios. Os especialistas abriram novos gráficos. As bolsas oscilaram outra vez. Os fabricantes de ansiolíticos bateram recorde de vendas.

E o mundo compreendeu, enfim, que talvez a civilização não estivesse sendo conduzida por estadistas nem por estrategistas, mas por um gigantesco departamento de produção, convencido de que a realidade só faz sentido quando parece uma série da Netflix. Porque, afinal, quando a realidade supera diariamente a imaginação, resta apenas uma saída sensata. Continuar assistindo.

E o espetáculo segue. Com bombas em Kiev e em São Petersburgo. E até em Moscou.

O Laranjão, incapaz de suportar que o Bombado do Kremlin monopolizasse os holofotes da guerra Rússia-Ucrânia, resolveu providenciar seu próprio enredo de temporada. Passou a distribuir ultimatos em todas as direções, ensaiando uma cruzada de drones e mísseis contra os aiatolás do Irã, fazendo disparar os preços do petróleo com o fechamento do Estreito de Ormuz, como se o planeta inteiro fosse apenas um tabuleiro de xadrez onde peças, mísseis e bravatas valessem a mesma coisa.

O Laranjão prometeu também acertar as contas, de uma vez por todas, com o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital, o famoso PCC que age nas Américas e na Europa, grupos criminosos que o Ogro de Nove Dedos se nega a classificar como terroristas. Desde então, o Ogro nunca mais conseguiu dormir. Vai que tem o mesmo destino de Nicolás Maduro...

Os analistas celebraram a chegada desses novos capítulos, nacionais e internacionais, as redes sociais agradeceram o novo combustível para suas indignações de turno, os gabinetes de ódio do PT e seus genéricos como o Piçol aproveitaram para defender a soberania nacional ameaçada pelo Laranjão. Descobriram que não há nada mais soberano do que um bom inimigo estrangeiro no ano da campanha presidencial do Ogro, rumo ao tetra, como apontam as pesquisas eleitorais. Os fabricantes de tela gigante perceberam, enfim, que o verdadeiro produto estratégico do século XXI já não é o petróleo, nem o urânio, mas a audiência.

E ninguém sabe quando terminarão as guerras do Bombado e do Laranjão: talvez depois de um novo torneio de pôquer ou de xadrez, tendo novamente a Crimeia de um lado e a Groenlândia do outro como fichas de aposta.

Ou talvez acabem do único modo que a História costuma encerrar os espetáculos da vaidade: quando os jogadores finalmente descobrirem que, sobre a mesa, as fichas sempre foram de plástico, mas as vidas perdidas eram de carne e osso.