2016:
Sonho de uma noite de verão
Félix Maier
Houve
um ano em que o Brasil acordou leve. Não completamente sóbrio — nunca fomos —,
mas com aquela ressaca boa, quando a dor de cabeça vem acompanhada da certeza
de que a festa acabou e que, finalmente, alguém vai pagar a conta.
Esse
ano foi 2016.
O
sol parecia mais amarelo, as panelas soavam afinadas, e o cidadão comum, esse
ser historicamente humilhado pela burocracia e pela retórica, teve a impressão
inédita de que a Justiça havia decidido trabalhar. A Lava Jato avançava,
políticos suavam frio, delações brotavam como cogumelos depois da chuva, e o
verbo prender passou a ser conjugado com gente importante como sujeito.
Era
um verão shakespeariano: Sonho de uma noite de verão, com direito a
fadas togadas, duendes do Ministério Público e vilões finalmente sem capa de
invisibilidade.
No
início daquele ano, a blogueira Christina
Fontenelle publicou um
vídeo-homenagem no Facebook. Um gesto simples, quase ingênuo, mas carregado de
simbolismo: reconhecer publicamente pessoas que haviam se exposto — algumas com
elegância, outras com fúria — para denunciar a roubalheira petralha e o avanço
das pautas socialistas travestidas de virtude moral. Uma colcha de retalhos
humana: liberais, conservadores, jornalistas, youtubers, escritores, briguentos
profissionais e patriotas de fim de semana.
Estávamos
todos ali, meio sem saber como, meio sem saber por quê, mas com a convicção de
que algo tinha mudado. Que a engrenagem finalmente havia emperrado. Que o
Brasil, esse adolescente institucional, talvez tivesse aprendido alguma coisa.
O
impeachment de Dilma Rousseff veio como um suspiro coletivo. Não foi festa, foi
alívio. O país não comemorou; desabafou. Como quem tira um sapato apertado
depois de horas de tortura estética. O processo começou em dezembro de 2015 e
terminou em agosto de 2016, mas, emocionalmente, pareceu um parto de dez anos.
A
sensação era clara: acabou!
Acabou
o projeto.
Acabou
a quadrilha.
Acabou
o encantamento.
Doce
ilusão.
Hoje
sabemos: aquilo não foi uma vitória. Foi intervalo, entre um sonho de uma noite
de verão e a volta do velho pesadelo.
O
roteiro era outro. Enquanto o país acreditava ter virado a página, o livro
estava apenas sendo trocado de capa. Em abril de 2021, o Supremo Tribunal
Federal — esse órgão que não erra, apenas reinterpreta a realidade —
decidiu que tudo aquilo fora um grande mal-entendido jurídico. Três instâncias,
nove votos a zero, 580 dias de cadeia? Um detalhe processual. Um erro de CEP.
Um problema de endereço metafísico.
O
condenado virou descondenado — essa criatura jurídica que só existe no
Brasil, terra onde até a gramática penal é criativa. E o Ogro de Nove Dedos
voltou ao jogo, elegível, reabilitado, ungido, mais limpo que bumbum de nenê
lavado na banheira, com talquinho. O passado foi lavado com OMO institucional.
Em
2022, com ajuda logística, narrativa bem calibrada e uma democracia conduzida
no modo missão dada, missão cumprida, o Ogro de Nove Dedos retornou à
Presidência. Pela terceira vez. O Brasil não apenas perdoou: aplaudiu.
Sessenta
milhões de votos depois, a pergunta ficou no ar, incômoda como mosquito em
quarto escuro: foram idiotas úteis ou patifes assumidos?
Talvez
um pouco de cada. O Brasil sempre gostou de misturas.
O
mais cruel, porém, foi perceber que o 8 de janeiro de 2023 não surgiu do nada.
Não brotou espontaneamente da insanidade coletiva. Ele foi gestado antes, em
silêncio, a partir de 15 de abril de 2021 — a data da Traição Suprema, quando a
Justiça decidiu que a verdade era negociável e que a história podia ser
rebobinada com uma canetada.
Sem
aquela decisão, não haveria quebra-quebra. Não haveria fúria cega. Não haveria
vandalismo. O 8 de janeiro foi consequência, não causa. Foi o vômito tardio de
um organismo institucional intoxicado.
Até
o sempre ponderado Marco Aurélio Mello, antigo ministro do STF — um homem que
jamais confundiu frieza com covardia — apontou o óbvio: houve crime de omissão.
Houve falha grotesca de segurança. Houve alertas ignorados. Houve gente demais
olhando para o lado certo demais.
O
governador do DF, o ministro da Justiça, o chefe do GSI: todos avisados, todos
preparados para nada fazer. O resultado foi um cenário perfeito para a
narrativa perfeita. Palácios depredados, imagens repetidas à exaustão, vilões
prontos, heróis improvisados.
E,
como sempre, a conta caiu no colo de quem estava mais perto da farda. Coronéis
da PMDF viraram bodes expiatórios de um teatro maior. Os verdadeiros diretores
da peça assistiram da coxia, atrás de cortinas, com ar grave e discursos sobre
democracia. Uma minuta do golpe sem assinatura foi tratada como prova de
uma cogitação criminosa e serviu de base para processos e condenações severas a
fardados e paisanos. Generais e o próprio presidente Jair Bolsonaro foram
alçados à condição de réus simbólicos de um golpe que nunca passou do papel. O
roteiro dispensou atos, dispensou comandos e dispensou execução; bastou a
narrativa. E, mais uma vez, quem pagou o ingresso mais caro foi quem vestia
farda, enquanto os autores do script saíam pela porta dos fundos,
aplaudidos como defensores da democracia.
Mas
voltemos a 2016.
O
que mais dói, hoje, não é o fracasso. O Brasil está acostumado a falhar. O que
dói é a memória do otimismo. A lembrança daquele breve período em que
acreditamos — sinceramente — que o país havia amadurecido. Que instituições
serviam ao povo. Que a lei não tinha partido político.
Foi
um verão curto. Uma noite quente. Um sonho bonito.
Mas,
acordamos suados, confusos, e com a sensação estranha de que alguém havia
mexido na casa enquanto dormíamos.
Talvez
seja essa a lição final daquele ano de 2016: no Brasil, quando o cidadão acha
que venceu, é porque o sistema apenas mudou de tática.
O
ano de 2016 não foi o fim dos petralhas. Foi apenas o momento em que eles
fingiram cair para ver quem baixava a guarda.






