MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Causos de Milico - Por Ary Portella Lopes

 


 Nesse livro de Ary Portella Lopes, Causos de Milico, publicado em 1985 pela Editora Epecê, de Porto Alegre, RS, com um linguajar próprio dos pampas gaúchos, há 75 causos de milico, alguns muito interessantes, outros nem tanto. 

Vejamos alguns deles: 

Um general na Arábia

Como sabemos, entre as Forças Armadas dos países pertencentes à ONU existe um intercâmbio de experiências bélicas. Por isso, foi um general servir como observador militar nos campos de batalha na Arábia. Ele recebeu as prerrogativas e mordomias possíveis naquela situação, entre eles um bom intérprete para facilitar as indagações recíprocas.

 Certa tarde chuvosa, o general foi visitar um depósito de repouso dos soldados que acabavam de regressar do “front”. A visita do Grande Chefe brasileiro havia sido anunciada, mas ninguém sabia nada da língua falada pelo ilustre visitante. Baseado no famoso jeitinho brasileiro, para descontrair o auditório, o general contou uma anedota brasileira daquelas do papagaio, com mais de uma centena de palavras. Em ato contínuo, o intérprete traduziu tudo com meia dúzia de vocábulos. Os milicos árabes bateram palma e riram muito.

O general continuou a programação, mas ficou intrigado com o laconismo daquela tradução. Em um intervalo, perguntou em voz confidencial, ao seu intérprete, como havia traduzido aquela anedota em tão poucas palavras, à qual todos entenderam perfeitamente.

- Foi muito simples, Excelência. Eu disse o seguinte: “O general contou uma piada engraçadíssima”.

 

Vinho de outra pipa

 


O sargento Kaxorrão tinha uma mulher gorducha, como uma pipa, daquelas que criam bigodes iguais a homens. Era uma verdadeira fera. Trazia aquele pobre marido sob controle absoluto, porque ele havia andado prestando favores a uma fulana desquitada.

Um dia de serviço, o Kaxorrão chamou um praça velho e boêmio: - Kaburé, hoje tu pegas a minha charrete e ao escurecer me traga uma mulher, que eu pago as despesas e te dou uma gorjeta.

O soldado Kaburé, ao sair de charrete, falou com o comandante da guarda, que era o Sargento Bocage, um baita gozador das judiarias alheias, e perguntou:

 - Tu sabes onde mora a mulher que ele mais gosta?

 - Ela é uma gordona que mora na rua tal, numa casa assim, assim... Não converse muito, só diz que ele mandou chamá-la urgente.

 Ao escurecer, o dito Kaxorrão caminhava na sombra das árvores do renque do portão lateral. Demorou um pouco e começou a ouvir o plac-te-plac das patas do tordilho. A uma certa distância, dava para ver os dois vultos, que vinham naquela charrete macia, a qual logo estacionou aquela silhueta de sereia.

 O destinatário da encomenda não se conteve e foi correndo ao encontro. Ao aproximar-se, sem reconhecer a esposa, foi abrançando-a e dizendo:

 - Que coisa linda! Hoje tem vinho de outra pipa.

 Foi o mesmo que cutucar a lichiguana. Ela tirou um pé de sapato e bateu como em porco roceiro, sem respeitar nem a gloriosa farda militar.

 

Polícia feminina

Uma tenenta da Polícia Feminina alugou um quarto de casa de uma viúca, que não entendia nada de fardas militares e não teve oportunidade de informar-se sobre a atividade profissional desta inquilina.

 Todas as manhãs a velha observava pela janela a saída da moça, sempre com o mesmo vestido. Foi ficando curiosa. E nada de mudar.

 No fim do mês, a pontual inquilina veio com o dinheiro na mão pagar o aluguel. Mas, a boa senhora, penalizada pela dificuldade que deveria estar passando a pobre moça, deu-lhe o dinheiro de volta dizendo:

 - Leva, minha filha, vai comprar outro vestido, pois este está muito batido.

 

 

O reformado desligado

Um turista, militar reformado, despreocupado com a política nacional, estava a passeio pela primeira vez na nova Capital Federal.

Havia, na ocasião, um movimento revolucionário para derrubar o Presidente da República. Mas o velho não estava ligando para fofocas e queria ir conhecer o Palácio das Forças Armadas.

Perguntou ao primeiro soldado que encontrou:

- Para que lado está o Ministério do Exército?

- Santo Deus! Não posso dar opinião, mas espero que esteja do lado do Governo. E, com licença, vou entrar de prontidão.

 

A mula da pipa

Em cidade grande, muitas coisas passam despercibidas. E, numa manhã de verão, quando o Tenente-Coronel Subcomandante do Regimento de Infantaria entrou no quartel, recebeu a apresentação de armas da guarda formada e logo veio a apresentação do Sargento de Serviço, de Adjunto do Oficial-de-Dia, o qual era o Sargento Corujão, calmo como o bicho preguiça. Aproximou-se, bateu os calcanhares, fez a continência regulamentar e disse:

- O serviço está sem alteração, isto é, morreu a mula da pipa.

- De que morreu a mula? Perguntou o Ten Cel.

- Foi de tanto puxar água.

- Mas para que tanta água, Sargento?

- Para apagar o incêndio do pavilhão de Administração, que pegou fogo, por motivo de uma vela que caiu na Bandeira Nacional, quando estavam velando o Oficial-de-Dia, o qual morreu no tiroteio.

- Mas que tiroteio?

- Foi no escurecezinho, quando o pessoal do Lampião entrou pelos fundos, depois de matar o guarda com uma peixeirada nas costas. Ainda bem que o Tenente já vinha de volta, donde havia ido dar uma espiadinha no forró da Xica Bico Doce, tadinho, deu logo de cara com os cabras-da-peste que estavam arrombando o Paiol de Munições e tocaram bala no homem.

- Chega, chega! Gritou o Subcomandante.

- Mas não fique tão nervoso, meu Coronel, eu le garanto que arranjo outra mula mansa para a pipa d’água.

 

Mãe viva

No quartel, existe a preocupação de manter-se elevada a moral da tropa. Por isso, quando chegam notícias tristes para os soldados, usa-se o tato conveniente na comunicação.

Foi o caso do Soldado 667, que faleceu a mãe e veio o aviso para o Comandante, mas o jovem era do tipo muito nervoso e a missão foi entregue ao Sargenteante, o qual aproveitou a hora da formatura matinal da Companhia e disse:

- Quem tem mãe viva dê um passo em frente.

A maioria avançou.

- Epa, 667. Você não tem mais, de ontem para cá.

 

Poderia ser...

O General perdeu o sono e resolveu caminhar pelo quartel, a altas horas da madrugada.

Foi entrando calmamente e pegou dormindo sentado o soldado de sentinela. Chegou e bateu com a mão no ombro do jovem, este levantou-se assustado e apresentou-se dizendo que havia trabalhado muito no dia anterior e estava muito cansado.

O General era um pai para os graduados e um avô-coruja para os recrutas. Assim falou:

- Para um jovem, isso não justifica, o guarda é responsável pela segurança dos companheiros que dormem. Não diga a ninguém que estive aqui, imagine que poderia ser o Sargento da Guarda...


Vide verso

O Sargento-de-Dia ao Esquadrão de Cavalaria Hipomóvel tirava serviço armado de espada. E o Sargento Kakito, um baixinho metido como galo garnizé, foi promovido por atos de bravura e não era muito bem com as letras, mas procurava se fazer respeitar puxando a espada até o meio da bainha cada vez de dar ordens aos recrutas.

Certa noite, ele foi fazer a chamada de revista do recolher, e como havia muita gente no pernoite, o Sargenteante colocou os nomes do pessoal de serviço na frente do papel e logo abaixo escreveu: vide verso. Pois ali estava relacionado o restante do pessoal.

O Sargento Kakito chamou os primeiros e, como havia muito nome de gringo, achou que vide verso era mais um. Chamou-o e nada, berrou, já com a dita espada a meia-folha, mas, como sempre, tinha um sabido entre aqueles cento e poucos, que gritou lá do fundo:

- Vira de lado.

- Tava dormindo em forma, abostado?

 

O Capitão Galo

Como sabemos, as gírias são regionais, em um lugar pode ser considerada pornográfica ou pejorativa, ao passo que noutros é palavra comum.

Foi o motivo do fiasco daeuele Capitão, muito autoritário, que por trás da cortina os milicos o chamavam de “Capitão Galo”, pois ao chegar, transferido para nova guarnição, recebeu o comando de uma Subunidade. E, na primeira formatuva, ele usou a palavra, fazendo uma série de advertências aos seus novos comandados, empolgando-se a ponto de concluir dizendo:

- O lugar de ladrão e indisciplinado é na cadeia. Comigo não adianta bancar o machão, o “galo” aqui sou eu.

Os praças ficaram estourando para rir e ele replicou:

- Acabem com essas caras de viados ou vou dar ordem unida até vocês criarem vergonha.

Refletiu e chamou o Subtenente “Sorro Manso” ao gabinete e perguntou:

- Qual é o motivo do arreganhamento dos recrutas?

O velho respondeu:

- Sr. Capitão, acontece que aqui chamam de galo aqueles que têm costumes sexuais esquisitos ou passivos.

O Capitão voltou, dizendo à tropa que era um Homem com H maiúsculo e não tinha nada a ver com galo.

Porém nada adiantou o “remendo”, milico é fogo.

  

O cavalo do comandante

 

No esplendor da Cavalaria Hipomóvel, o poderio das Unidades era representado pelo estado de nutrição e treinamento constante de sua cavalhada. O cavalo estava sempre em destaque.

Na incorporação, os recrutas entravam para o quartel e logo iam lidar com os ditos animais, pois este “companheiro” era o assunto dominante.

Baseado nisso, em um regimento sediado na fronteira havia um cabo velho chamado Paraguay Felipeto, que todos os anos montava uma arapuca para os novatos, rifando o cavalo do Comandante, que era sempre o mais lindo e bem manso. Ele observava os gringos que estavam com grana e mostrava o belo cavalo, dizendo que era de um oficial que fora transferido e o encarregou de rifar e remeter-lhe o dinheiro pelo banco.

Todos pagavam na hora e ficavam torcendo para a sorte ajudar. Assim, o espertalhão completava a lista dos trouxas, no outro dia avisava a todos que havia corrido a rifa e que o felizardo acertador havia sido o Coronel Comandante. E, para confirmar, ele aproveitava os passeios diários do Coronel montado no tal cavalo, para mostrar aos apostadores, e comentava:

- Que homem de sorte é o nosso Comandante, mas ele merece!

 

O Almirante e o Monsenhor

Eram dois meninos nascidos e criados, até completarem os estudos do curso primário em uma cidade interiorana.

Foram sempre bons amigos, mas um foi para a Marinha e o outro para o seminário. Nunca mais se encontraram, e lá pelas tantas, um era Almirante e o outro um gorducho Monsenhor Católico.

Já, em uma grande metrópole, encontraram-se casualmente em um aeroporto. O Monsenhor, vestido de batina e demais indumetárias clericais, reconheceu o Almirante e resolveu fazer uma brincadeira.

Imaginou um porteiro de hotel, pela farda de gala vistosa que o amigo ostentava. Aproximou-se e em tom golhofeiro, assim foi dizendo:

- Oh seu porteiro! Estou à procura de um hotel, em qual o senhor trabalha?

O Almirante logo o reconheceu e respondeu de improviso:

- Trabalho no Hotel Tamandaré, mas, pelo que vejo, a senhora está em adiantado estado de gravidez e deve ir direto para a maternidade – abraçando-o afetuosa e fraternalmente, ao estilo de grandes amigos leais.

  

Metro curto

Na Guerra de 45, o Sargento Padilha, chefe da turma de sapadores, foi encarregado de fazer uma valeta de quinze quilômetros de comprimento, um metro de boca e um de fundo.

O terreno variava entre lama a cascalhos e pedras.

Ele media diariamente o rendimento do trabalho, mas os soldados não sabiam qual era a marca a atingir no fim da tarde, mas aquilo era sagrado para o enérgico feitor.

Certa tarde, ele mediu e resolveu liberar o pessoal uma hora antes do horário costumeiro, dizendo que “o progresso foi muito bom”. Porém, quando a turma já estava no banho, ele tocou formatura geral e furioso queria saber:

“Quem havia serrado um pedaço do sarrafo que era o seu metro?”

 

Por que beber álcool?

Cumprindo a programação antialcoólica, o Capitão Médico Doutor Magaréfe fez uma palestra aos recrutas de todo o Batalhão, no salão do rancho, em uma tarde chuvosa. O palestrante empolgou o auditório, enfatizando com exemplos da hereditariedade dos alcoólatras, dos problemas gerados pelo uso do álcool por pessoas que perdem o controle e a saúde. Pois o organismo vai perdendo as imunidades e as doenças entram com facilidade.

Duma maneira especial, recomendou que os militares não deviam tomar álcool, porque faziam parte de uma organização modelo, portadora de muita responsabilidade perante a sociedade e a Pátria.

Pediu por amor à futuras gerações, que ninguém se viciasse no perigoso líquido. E, após estar certo de ter dado seu recado, perguntou:

- Alguém ainda tem alguma dúvida?

Levantou-se o Soldado Pudim de Canha e falou:

- Mas, Doutor, eu acho que na dúvida é o senhor que está. Porque, com tanta caninha boa que tem por aís, ninguém é louco de andar bebendo álcool.

 

Os guias inimigos

O Sargento Santo tinha uma comadre, dona de um gongá sediado na periferia da Vila Militar, onde frequentavam muitas famílias de militares.

Lá pelas tantas, veio transferido para aquela Guarnição o Sargento Bezerro, que logo procurou o dito gongá da Dona Bixinha e apresentou-se como médium.

Foi trabalhando, mas quando incorpovava só recebia “guias mulherengos”. Entrava em transe e ia direto agarrar-se às bonitonas, especialmente naquelas que inspiraram o poeta que disse “em teu seio formoso retratas”.

Ninguém podia impedir o Bezerro de mamar e manotear como mandasse o seu “cavaleiro”. Mas a Dona Bixinha foi observando e percebeu que aquele cavalo estava correndo solto. Falou com seu compadre, Sargento Santo, para aconselhar o seu colega, a fim de deixar de atrapalhar o seu trabalho.

O Sargento Santo compareceu à próxima sessão e constatou logo que o Bezerro estava abusando demais da paciência daquela boa gente dominada pela fé nas coisas do Além. E, quando o medonho entrou na “mamata”, o outro que trouxera por dentro da manga esquerda do casado um rabo de tatu de couro cru, trançado de oito, encostou com toda compostura de educado cavalheiro, pegou-o pelo braço e convidou-o para um particular lá fora. Assim que entraram no pátio, o couro de boi baixou sem alívio e o Santo só dizia:

- Eu sei porque bato e tu sabe porque apanhas.

No outro dia, o Sargento Bezerro apareceu no quartel mais machucado que gato que andou brincando no telhado. Foi ao Médico e contou a história de um assalto que fora vítima. O Capitão Médico foi conversando e descobriu a origem das lesões, levando a ocorrência ao conhecimento do Subcomandante da Unidade, o qual chamou os dois Sargentos em Gabinete, para serem ouvidos, e assim falou:

- Sargento Santo, qual foi o motivo de bateres em seu colega, que estava praticando sua devoção?

- Senhor Coronel, quem poderá le explicar melhor esse fato é a Dona Bixinha, porque eu estava ali assistindo e depois que incorporei não vi mais nada. Se deu briga eu não me lembro. Então vai ver que os nossos “guias” não se davam quando eram vivos e deu acaso de se encontrarem incorporados em nós que sempre fomos mui amigos. É uma pena...

O subcomandante solicitou o comparecimento de Dona Bixinha e, como solução, mandou o Sargento Bezerro ir baixar noutro gongá. Daí surgiu o ditado, para afastar alguém que esteja incomodando, “vais baixar noutro gongá”.

 

O cavalo e as galinhas

Antigamente, nas pequenas cidades, os regimentos de cavalaria tinham como praxe o uso de cavalos para transporte de militares entre o quartel e as residências. Do milho que vinha para os cavalos, alguns aproveitavam para criar porcos e galinhas. O desvio era tanto que a cavalhada não engordava nem no verão.

O Coronel Pirata, comandante da Unidade, baixou ordens severas para os comandantes-da-guarda revistarem todos os volumes na saída do quartel, para prender os ratões.

O Subtenente Abelardo, que era um grande estrategista desse assunto e possuía umas trezentas galinhas, alegou ao Fiscal Administrativo que não tinha ordenança e na sua casa havia uma boa estrebaria para pernoitar seu cavalo, porém precisava levar a ração de milho para a noite.

Foi publicada a autorização e diariamente ele levava um alforge cheio, mas soltava o cavalo no pátio junto com as galinhas e jogava o milho espalhado no terrendo dizendo que “era para o cavalo, mas se ele convidava as penosas era por delicadeza de amigo”.

 

Pescaria no seco

Serviam em um regimento sediado à margem de um grande rio os Sargentos Nido e Felizbixo, os quais constumavam passar os feriados pescando e caçando na beira do rio, que passava nos fundos da invernada reiúna onde havia uma extensão de mata natural.

Os dois amigos, como sempre, num sábado à tarde, selaram os cavalos, cada um com uma mochila, o material de pescaria e acampamento, bom cachorro, armas e munição. Saíram pelo bairro da Várzea, onde havia diversos botecos especializados em canha das melhores qualidades. Foram chegando, e de liso em liso, afinal lotaram as vazilhas e, já tarde da noite, entraram no mato da costa do rio.

A noite estava enluarada e pelas picadas eles foram penetrandeo mato a dentro. A certa altura, encontraram uma clareira de grama limpa, que com o reflixo da lua parecia uma bela lagoa.

Pararam os cavalos e combinaram dar uma linhada aí, mas poderia não dar em nada e depois não poderem montar a cavalo, iscaram os anzóis e jogaram na grama, vista como água.

Acenderam os pitos e logo correu a linha do Felizbixo, ele foi puxando com toda a prática de bom pescador e dizia:

- É muito grande ou esta lagoa é assombrada, pois o peixe não se bate na água. O Nido só recomendava:

- Mata no cansaço e não deixa escapar, a assombração que tu está vendo é a canha com bíter que aquela morena serviu lá no Xico Torto.

O cachorro choramingava e o dono exclamou:

- Isso não está cheirando bem, até o Companheiro está com medo.

Mas, veio vindo e apareceu na frente do cavalo o dito cachorro Companheiro, com o anzol na boca.


Hierarquia militar

Piadas de caserna:

https://gpeb.org/gpeb/?modulo=piadasdecaserna

 

quinta-feira, 18 de junho de 2026

O STF EM BUSCA DO PENTA - Por Félix Maier

 

Pode ser uma imagem de texto

O STF EM BUSCA DO PENTA

Félix Maier

Estamos em plena Copa do Mundo, com 48 seleções. O brasileiro é pentacampeão e está em busca do cada vez mais longínquo hexa. Com o jogador Neymar ainda dando trato na lanternagem (chapeação), no estaleiro de Mister Ancelotti, fica difícil ter ânimo.

Se alguém tivesse dito, trinta anos atrás, que o brasileiro trocaria as discussões sobre Ronaldo e Zidane por debates inflamados sobre inquéritos, competências constitucionais e embargos de declaração, provavelmente seria encaminhado para avaliação psiquiátrica. O brasileiro daquela época ainda era um sujeito relativamente simples. Discutia se Zico tinha sido melhor que Sócrates, se o Fusca subia mesmo a serra em marcha à ré e se a sogra era mais perigosa do que a inflação.

Hoje, não. Hoje o brasileiro acorda, pega o celular e vai imediatamente verificar se houve alguma operação policial, alguma decisão monocrática do STF, alguma nota oficial, algum vídeo seletivo vazado pelo IntercePT sobre Flávio Bolsonaro e o Caso Master, ou mais alguma interpretação criativa da Constituição feita pelo STF.

A política nacional, que sempre teve vocação para o teatro, descobriu finalmente sua verdadeira natureza esportiva. E foi aí que surgiu, nas mesas de bar, nos grupos de WhatsApp e nos almoços de domingo que acabam em briga, a ideia de que, enquanto a Seleção sonha com o hexa, existe outro campeonato sendo disputado em Brasília.

Não se trata de uma competição reconhecida pela FIFA. Não há bandeirinhas, nem gandulas, nem patrocínio da cerveja oficial. Mas existe torcida, existe narrador, existem comentaristas especializados e, sobretudo, existe um placar. E capinhas para cobrir os ombros de ministros intocáveis, além de servir lagostas fritas e vinho do Porto durante o Supremo Coffee Break, onde o intervalo é vinculante.

Em certos círculos mais irreverentes, começou a circular a tese segundo a qual o Supremo Tribunal Federal estaria em busca do seu próprio penta. Não se sabe ao certo quem inventou a expressão. Provavelmente algum aposentado com tempo livre e criatividade excessiva. O fato é que a ideia pegou, com ajuda de imagem IA.

A essa altura, ninguém mais sabe exatamente onde termina a política e começa a transmissão esportiva. Os comentaristas, que antigamente analisavam esquemas táticos e impedimentos, agora explicam competências originárias, delações premiadas e recursos extraordinários com o mesmo entusiasmo com que João Saldanha explicava a seleção de setenta.

Cada lado possui seus narradores oficiais, suas torcidas organizadas e seus hinos de guerra. Metade do país acredita estar diante dos últimos defensores da democracia. A outra metade está convencida de assistir ao surgimento do Império Galáctico de Toga. E, como acontece desde o Descobrimento do Brasil, os dois lados têm absoluta certeza de que Deus, a História e o bom senso torcem exclusivamente por eles.

No centro desse Fla-Flu nacional encontra-se a família Bolsonaro, que acabou adquirindo, para seus apoiadores, um status semelhante ao dos Bourbons franceses, dos Romanov russos ou dos personagens de novela que precisam sofrer noventa capítulos antes da redenção final.

Há famílias que produzem médicos. Outras produzem engenheiros. Os Bolsonaro, por alguma peculiaridade genética ainda não estudada pela ciência, especializaram-se em produzir políticos. São cinco: Jair, Flávio, Eduardo, Carlos e Renan. No rastro desse clã da extrema direita, como repete toda a extrema esquerda, cacarejando igual galinha que botou ovo no galinheiro, o Brasil produziu um fenômeno raro e sofisticado: a capacidade de monopolizar simultaneamente as paixões e os ódios de cinquenta por cento da população.

Em qualquer outro país, uma família dessas já teria rendido pelo menos três minisséries da Netflix, um documentário da BBC e um musical na Broadway. Por ora, o clã Bolsonaro se contenta com Dark Horse, o filme que move paixões a favor e contra Bolsonaro Pai, e teria recebido dinheiro de Daniel Vorcaro, o Casanova de Trancoso, antigo dono do Banco Master, que ofertou farras nacionais e internacionais para autoridades de todos os matizes políticos, com loiras nórdicas sentadas nos colos de alegres sátiros engravatados.

Os admiradores dos Bolsonaro enxergam perseguição. Os adversários enxergam justiça. Os neutros ou isentões tentam apenas pagar o boleto do condomínio, dando chance ao Ogro de Nove Dedos conseguir o tetra.

Mas, vamos aos fatos. As narrativas eu deixo para a esquerda, que é dividida em duas facções: a esquerda radical, assassina por natureza; e a esquerda light, a que bate palmas para sua irmã mais afoita. E também deixo as narrativas para Mato Verde, o Glenn Greenwald do IntercePT, que desde a Vaza Jato já demonstrou que defende os petralhas e que no momento está assando em fogo brando Flávio Bolsonaro mediante vazamentos seletivos sobre o Caso Master. Coisa de cretino petista, não de jornalista, já que há suspeitos também da extrema esquerda e do Centrão, como Jaques Wagner, Davi Alcolumbre e Ciro Nogueira. A fonte de Mato Verde seria novamente um hacker, como foi no Vaza Toga, que enterrou a Lava Jato e ajudou a descondenar o Ogro de Nove Dedos? Ou foi algum membro da Gestapo do PT na PF (by Tuma Jr.)?

Aos fatos, pois não. Todo brasileiro de bom senso já se deu conta de que a Justiça no Brasil está no mesmo patamar da Venezuela de Chávez e Maduro. Esse alto nível de democracia, propalada pela esquerda nacional, foi construída aos poucos, com a sucessão dos governos petistas. Assim, nesses vinte e poucos anos de PT, houve o aparelhamento petista de todos os órgãos públicos, a começar com o #InstitutoLula, antigo STF, onde a maioria dos togados não são juízes, mas líderes do PT. Seria o famigerado Sistema Toga Petralha, como alguém já definiu muito bem. Além das Cortes de Justiça, foram também aparelhados o IBGE, as agências reguladoras, as estatais, os bancos públicos, os quarenta ministérios com aspones com gordas DAS distribuídas entre a companheirada.

Com o STF aparelhado pelo PT, foi fácil condenar e prender Jair Messias Bolsonaro e sua entourage estrelada por um golpe de Estado que nunca existiu. Basta ver quem foram seus algozes, da Primeira Turma do STF: 3 indicados por Lula e 1 por Temer, o qual vale por 10 petistas. O único a se comportar como juiz e não como líder do PT foi Luís Fux, indicado por Dilma.   

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Uma coisa é certa neste País onde até o passado é incerto: o STF está em busca do seu penta em particular. E tem pressa. Muita pressa.

O STF já condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro a mais de 27 anos de prisão. A gana é derrotar o bolsonarismo, como se vangloriou o ex-ministro Luís Roberto Barroso, o Boca de Veludo, após a vitória de Lula, em 2022. Alexandre de Moraes pede para seus auxiliares serem criativos.

Em 16/06/2026, o Instituto Lula condenou o filho de Jair Bolsonaro, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, a mais de 4 anos, por melar o processo de seu pai e por traição à Pátria, já que se mandou para os EUA para cometer tais crimes junto a Donald Trump, segundo afirma o Sistema Toga Petralha. Ridículo: Eduardo pode ter contatos com a equipe de Trump, sem serem íntimos, jamais com o Laranjão. Trump, a rigor, não consegue distiguir Flávio de Eduardo, como foi comprovado na reunião do G7, na França: Prenderam o Bolsonaro Jr., que estava indo bem nas pesquisas. Essa condenação rendeu o bicampeonato da perseguição do STF.

Do jeito que a perseguição contra a direita em geral e contra os Bolsonaro em particular anda, logo o candidato à presidência Flávio Bolsonaro, o 01, também poderá ser decapitado pelo Instituto Lula, seja devido ao Caso Master, seja por qualquer motivo inventado pelos Beria da Primeira Turma. Lavrenti Beria, chefe do serviço secreto de Stálin, foi genial: mostre-me o homem e eu encontrarei o crime! Seria o tri do criativo STF.

Mas, pode chegar ao tetra, se pegarem também Carlos Bolsonaro, vereador pelo RJ e candidato ao Senado por Santa Catarina. E o penta? O penta do STF seria retirar da vida pública o caçula do clã Bolsonaro, Jair Renan Bolsonaro, vereador em Balneário Camboriú, SC.

Só não há guilhotina para os Bolsonaro porque não estamos na Revolução Francesa. Também não há forca porque o Velho Oeste americano fechou as portas há muito tempo – embora o Ogro de Nove Dedos tenha dito que Flávio Bolsonaro merece ir para a forca. E fogueiras para essa gente da extrema direita igualmente não existem, porque a Inquisição virou capítulo de livro de História.

Enquanto isso, o Brasil segue em busca do hexa. Um dia ele virá, quando Deus e a tabela permitirem. Talvez agora, com Mister Ancelotti mascando chicletes com mais vigor que cavalo ruminando cucuia, enquanto Neymar Jr. segue cuidando da lataria no estaleiro. Talvez só no futuro, quando o Brasil novamente tiver uma constelação de astros como Pelé, Garrincha, Didi, Vavá, Romário e Ronaldo Fenômeno. 

Pode ser uma imagem de texto que diz "RELAXA, NEYMAR... AGORA VOCÊ É MINHA RESPONSABILIDADE! RUMO AO. HEXA RASIL TCHUCO NÉ, PAIZÃO? BRASIL ANCELOTTI MANUAL DO ٧ FISIOTERAPIA DESCANSO POUCO TREINO MUITO CARINHO ELOGIOS DIÁRIOS CLARO... LIBERDADE COM RESPONSABILIDADE ALGUNS TÉCNICOS TÊM TÁTICAS. OUTROS TÊM CARINHO. ATENÇÃO FRÄGIL CRAQUE EM RECUPERACÃO 国国企州" 

O Ogro de Nove Dedos, por sua vez, persegue o tetra. E, para tanto, armou-se com centenas de bilhões de reais em programas e promessas de forte apelo populista: Pé de Meia, Gás do Povo, Luz Grátis, isenção do Imposto de Renda para salários de até cinco mil reais, aceno ao fim da jornada 6x1 – além de liberação de verbas milionárias para emendas parlamentares. E os isentões, acometidos mais uma vez por uma súbita alergia ao nome Bolsonaro, talvez acabem ajudando o Ogro a erguer mais essa taça, o tetra. 

Pode ser uma imagem de texto que diz "A SUBSTÂNCIA Gásdo GásdoPovo Gás do Povo á de Meia Luz Grátis Fim Fimjornada Fim jornada 6x 6x Rumo ao Tetra" 

Já o STF sonha com o penta. Mas, como em toda campanha vitoriosa, antes será preciso conquistar o tri e o tetra. Quando isso ocorrerá, nem Deus sabe. Mas os intocáveis de que fala Romeu Zema em suas Catilinárias das Alterosas provavelmente têm uma ideia do calendário. Afinal, em certos campeonatos, os árbitros parecem jogar adiantados em relação ao restante dos jogadores.


terça-feira, 16 de junho de 2026

A Gestapo do PT na PF - Por Félix Maier


A Gestapo do PT na PF

Félix Maier
Há delações premiadas que são rejeitadas por falta de provas. O criminoso prometeu novidades, mas não mostrou nada de novo, a PF e a PGR nem dão bola. É o correto.
Mas há também delações que não prosperam por excesso de provas. Ou excesso de autoridades, incluindo os "intocáveis" togados a que se referiu Romeu Zema em suas Catalinárias das Alterosas. Esse parece ser o caso do Banco Master, cuja delação emperrou por excesso de autoridades na lista negra, que precisam ser blindadas a qualquer preço.
Por que não avançam as ações envolvendo autoridades, tanto no caso do INSS (em que um irmão e um filho do Ogro de Nove Dedos estão envolvidos), quanto no Banco Master, em que aparecem autoridades de todas as cores ideológicas, desde presidente da República, ministros, senadores - além de togados do STF farreando numa pingaiada em Londres?
Ora, ora, ora... As ações não avancam na Justiça porque o Brasil foi tomado pelo Sistema Toga Petralha, que é o aparelhamento petista de todos os órgãos públicos, a começar com o #InstitutoLula, vulgo STF, além do STJ, PF, IBGE, Anvisa etc. O Brasil está exatamente igual à Venezuela de Chávez e Maduro. Por isso foi tão fácil prender Jair Messias Bolsonaro, para deixar o caminho livre ao Ogro de Nove Dedos, em busca do tetra. Bienvenidos a Brazuela!
Romeu Tuma Jr. já explicava no livro "Assassinato de Reputações" (veja o resumo) como ocorre o modus operandi da "Gestapo do PT na PF", onde impera também a máxima de Lavrenti Beria, o chefe do Serviço Secreto de Stalin: "Mostre-me o homem e eu encontrarei seu crime".
Obviamente, a ação dos Berias tupiniquins só atinge personalidades da oposição ao PT, como políticos, jornalistas e empresários, ligados ao liberalismo e ao conservadorismo. Flavio Bolsonaro está aí para comprovar os vazamentos seletivos e criminosos feitos pelo IntrcePT contra ele, só ele. Se só personalidades de direita estivessem envolvidos em corrupção no caso do Master, pode apostar que a delação de Vorcaro já teria sido aceita com espalhafato pela PF e pela PGR.
Se até agora essa delação do Vorcaro não avançou, é porque os intocáveis da República precisam ser blindados de toda forma, especialmente os togados do STF. Nesse sentido, não se pode negar: a PF e a PGR estão fazendo um trabalho impecável dentro do Sistema Toga Petralha. Parabéns!

sábado, 13 de junho de 2026

Tia Mati, a mulher que carregava a casa nas costas - Por Félix Maier

 

 

Tia Mati, a mulher

que carregava a casa nas costas

 Félix Maier

Se existe um Céu para as mulheres fortes, para aquelas que viveram mais para os outros do que para si mesmas, estou convencido de que tia Matilde Preis Rockenbach, nossa Tia Mati, já encontrou por lá um cantinho especial.

Alta, bonitona, ela era casada com Eleutério Rockenbach, um tipo galã à la Richard Burton. Sempre bem-humorado, ele tinha uma gargalhada que se ouvia a 1 km. Mas ai de quem ousasse chamá-lo de Eleutério. O nome, para todos os efeitos, parecia proibido. Ele era simplesmente o Leo. E pronto. Insistir em Eleutério era comprar encrenca na certa.

Nos anos cinquenta, quando nós, os seis irmãos (Félix, Sílvia, Fernando, Válter, Ivone e Günther) íamos chegando ao mundo em fila indiana — uma verdadeira escadinha entre 1950 e 1957 —, Tia Mati tornou-se uma extensão da nossa família. Minha mãe, Marina Preis Maier, casada com Hilário Maier, passava pelos inevitáveis períodos de resguardo, e lá vinha Tia Mati, vizinha na Linha Nogueira, de Luzerna, SC, para ajudar nos serviços da casa. Além dos avós maternos, também éramos vizinhos (de cerca) de Pedro Dagostin, casada com tia Josefina Preis, e dos avós paternos, José Maier e Escolástica Freiberger Maier, com terras depois dos Fahen.

E haja serviço. Seis crianças em sete anos não eram propriamente uma família, mas uma pequena fábrica de fraldas. Fraldas de pano, naturalmente, que precisavam ser fervidas, ensaboadas, esfregadas, enxaguadas e penduradas no varal, se fizesse sol, ou secadas a ferro de passar com brasas vivas em seu interior, se chovesse. Energia elétrica, nem pensar!

Hoje, quando vejo uma máquina de lavar moderna fazer tudo sozinha, penso em Tia Mati. E imagino quantas vezes aquelas mãos femininas, cansadas de tanto esfrega-esfrega, devem ter desejado possuir um pouco da tecnologia dos tempos atuais.

O irmão de Tia Mati, Arno Preis, ainda seminarista, aproveitava as férias para ajudar na lavoura dos Maier. Era ativo, trabalhador, parecia movido a corda. Carpindo inços na roça do milharal, ninguém imaginaria o rumo que a vida lhe reservaria. Certa feita, tio Arno mandou de presente um cavaquinho para mim e um vestido para minha irmã Sílvia. Minha irmã teve mais sorte, o cavaquinho deve ter-se perdido em alguma baldeação da maria-fumaça. Anos mais tarde, tio Arno se envolveu com a organização terrorista ALN de Carlos Marighella e acabaria morto em 1972, numa troca de tiros, após matar um PM e ferir outro em Goiás. Foi um trauma para toda a família. Poliglota, tradutor de livros, muito inteligente, com voz de tenor, tio Arno tinha o sonho de ser embaixador.

Mas a vida no interior tinha dessas ironias que nem os romances conseguem explicar. Recordo-me especialmente de um episódio que me marcou. Eu devia ter cinco ou seis anos quando minha mãe Marina e Tia Mati resolveram visitar conhecidos na Linha Pitoca. Havia, depois das terras de meu pai Hilário, um trecho de caminho que penetrava na mata fechada.

Na volta para casa, as duas irmãs saíram talvez um pouco tarde. E dentro do mato o crepúsculo chega mais cedo. As árvores parecem engolir a luz. O caminho desaparece. A escuridão toma conta. Minha mãe e tia Mati perderam-se.

Como conseguiram passar a noite naquele mato, ninguém sabe ao certo. Talvez sentadas sobre troncos. Talvez rezando. Talvez apenas esperando o amanhecer.

Lembro-me delas voltando logo cedo. Os vestidos rasgados. Os braços cheios de arranhões. Os pés machucados. E meu pai recebendo uma senhora descompostura.

— Hilário, tu não foste procurar a gente!

Mas como poderia? Para ele, se não tinham aparecido em casa à tardinha do dia anterior, era porque certamente haviam dormido na casa da amiga na Linha Pitoca. Até hoje me lembro da bronca que meu pai levou, sem culpa nenhuma.

Quando completei sete anos, em 1957, comecei a estudar no Grupo Escolar Padre Nóbrega, em Luzerna, e passei a morar na casa do Opa (avô) Edmundo Preis, meu padrinho de crisma, e da Oma (avó) Paulina Back Preis. Tinha aula de segunda a sábado de manhã, quando havia trabalhos manuais, especialmente com uma serrinha em arco e tabuinha de cedro. Cheguei até a construir um presépio inteiro, que foi pintado por minha mãe. Assim, depois da aula de sábado, eu subia até minha casa na Linha Nogueira e só voltava a Luzerna na segunda-feira, indo pra aula e depois para a casa dos avós. Na metade do ano, meu pai vendeu a terra da Linha Nogueira, de 8 alqueires, e comprou um terreno de 8 alqueires na Linha Pinheirinho, em Herval d'Oeste, distante uns 5 km da escola, distância parecida com a da Linha Nogueira. A vantagem, morando em Herval, é que havia 3 km a menos para amassar o barro em dia de chuva, aproveitando a linha férrea e se equilibrando, andando sobre os trilhos.

Os avós tinham casa com varanda e quintal, árvores frutíferas no lote e, perto do barranco do Rio Limeira, onde deságua o Rio Nogueira, eles tinham um pequeno terreno onde havia uma vaca leiteira e alguns porcos. O Rio Limeira deságua no Rio do Peixe, em Luzerna, justo onde existia uma romântica ponte coberta, do tipo encontrado no filme As Pontes de Madison, com Clint Eastwood e Marryl Streep.


Nessa casa em Luzerna, também moravam Tia Mati e Tia Helga. O tio materno caçula, Renato Preis, estudava no seminário de Agudos, SP.

Tia Mati era trabalhadora, mas bastante arteira. Certa vez, depois que o Opa abateu um porco, ela embrulhou cuidadosamente o rabo do animal em papel fino e me encarregou da entrega.

— Leva isto para o Kratochvil.

O rapaz trabalhava na empresa eletromecânica da família e era apaixonado por ela. O detalhe é que Tia Mati já estava namorando o Leo. Fui, inocente, cumprir a missão. Até hoje não sei qual foi a cara do pobre Kratochvil ao abrir o embrulho.

Em Luzerna, cheguei a segurar vela para os namorados Leo e Mati pelo menos uma vez no Cine Central, do Adolfo Knolseisen, o Adolfinho. Com certeza, eu não era uma companhia bem-vinda, mas ganhei um enorme sorvete no final do filme, muito gelado, de dar espetada nos olhos.

Naquele mesmo cinema, que tinha um bar e alguns produtos para venda, eu comprava, às vezes, cigarros Belmont para o tio Leo. Além do sorvete, havia um pão sovado que era uma delícia, como era também deliciosa a bala de coco do Emílio Altmann, vendida na Loja Bonatto.

Bacana era ver a Tia Mati, na sala da casa ou no quarto, apertando a cinta larga na tia Helga, ficando com cintura de vespa. Ou vice-versa. Um sacrifício que as moças se submetiam na época para se tornarem mais belas.

E, já que estamos em matéria de confissões, devo reconhecer que fui também o responsável por um pequeno escândalo doméstico.

A casinha, para as necessidade fisiológicas, ficava distante uns 30 metros da casa do Opa Preis. Assim, durante a madrugada, a preguiça falava mais alto. Então eu fazia minhas necessidades da varanda mesmo. Sem saber que o líquido caía exatamente na entrada do porão. Não sei quem descobriu o crime. Talvez a Oma. Mas ela era muito discreta, teria vergonha para chamar minha atenção. Assim, quem me aplicou a maior mijada — como se diz no Exército — foi Tia Mati. A Oma, coitada, jamais iria ralhar com um de seus netos preferidos.

Anos depois, os Preis migraram para Maringá. Lá foram o Opa, a Oma, Tia Mati, Tia Helga e tantos outros parentes, como a tia Ana (casada com Silvério Preis, eram primos em primeiro grau) e tia Adelina (casada com Kuniberto Hoepers). Os tios Bruno e João Preis já moravam lá há algum tempo. Na época, João Preis era gerente da Transportadora Maior, em Maringá. Posteriormente, ele criou sua própria empresa, Interpreis, que possui várias filiais no Paraná, além da matriz em Maringá. O empresário João Preis, falecido em 2025, foi deputado estadual pelo Paraná e é autor do livro Amor e ideais - Chamas que não se apagam.

Por desígnios celestes, Maringá acabou tornando-se minha cidade de fim de semana. Quando deixei o seminário franciscano de Agudos, SP, em 1969, passei a servir o Exército em Apucarana, na 4ª. Companhia de Infantaria, Soldado 78 Maier. Tio João Preis, esperto, jogou a sorte no 78 e conseguiu uma grana extra. Nas folgas de fim de semana, quando não estava de serviço no quartel, era para Maringá que me mandava, seja viajando de ônibus pela Viação Garcia, seja viajando na maria-fumaça. Me lembro passando por várias cidades, de Maringá a Londrina, como Jandaia do Sul, Mandaguari, Marialva, Arapongas, Cambé, Rolândia, onde havia Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras. Não sei onde foram parar os nossos filósofos, nem os cientistas, nem os letrados...

Maringá era minha segunda cidade, cidade-dormitório de fins de semana, a cerca de 60 km de Apucarana. Ali estavam os avós. Ali estavam os tios João, Bruno e Leo, que me levavam para passear no Clube Teuto-Brasileiro, onde eles jogavam pôquer. Ali estava Tia Mati. E também o pequeno primo Wagner, filho de Mati e Leo, que também tinham a filha Simone. Assim que eu chegava à casa do Opa, onde eu tinha uma cama desmontável para dormir à noite, não demorava muito para aparecer aquele menino educado, inteligente e estudioso. Opa Preis e Tia Mati eram vizinhos de cerca.

— Vamos jogar dama? — vinha o Wagner com o jogo nas mãos.

Ou então o jogo de tria (ou trilha, ou moinho). Às vezes eu deixava o garoto vencer. Não por piedade. Mas para que ele não perdesse o gosto pelo jogo e deixasse de me convidar para mais uma peleia quando eu fosse a Maringá.

Anos depois, quando nasceu meu filho, escolhi para ele o nome Wagner. Wagner dos Santos Maier. Foi uma homenagem. Eu acho que aquele menino de Maringá, hoje agrônomo trabalhando em Vilhena, RO, aprovaria a escolha...

Em todo o Norte do Paraná, na época, era grande a colônia japonesa, de sorte que os ônibus da cidade de Maringá tinham o destino escrito em português e japonês. No quartel, onde eu servi em Apucarana, entre 120 soldados recrutas, havia mais de 20 de origem japonesa. Muito bons judocas.

Em Maringá, eu também fazia longas caminhadas com o Opa Preis. Saíamos da Rua Fernandes Vieira, onde ele morava, atravessávamos a Avenida Cerro Azul, passávamos pelo cemitério arborizado e então seguíamos em direção ao aeroporto. Ele gostava muito de caminhar. Inclusive no cemitério, o que no início achei estranho. Mas, o local era muito limpo, arborizado e florido.

Numa dessas voltas, tive uma brilhante ideia. Paguei uma dose de cachaça para o avô. Havia esquecido de que ele havia lutado para vencer o vício, que havia causado antigamente sérios transtornos para sua família. Quem me passou um sabão monumental foi o Tio Leo. E com toda razão. Fui um boboca.

Poucos anos antes de eu servir em Apucarana, uma tragédia quase destruíra a família de Tia Mati. Tio Leo, Tia Mati e minha prima Carla (filha da tia Helga) haviam sofrido um grave acidente dentro de um Fusca, na BR. Sobreviveram por milagre. Tia Mati teve braço e clavícula quebrados. Carla escapou por pouco. E o Tio Leo sofreu traumatismo craniano, nunca mais se recuperaria completamente. Quem havia socorrido os feridos na Santa Casa de Misericórdia, em Apucarana, foi o capitão Ribamar, médico do Exército, que também servia na Unidade de Apucarana.

Foi então que apareceu a verdadeira grandeza de Tia Mati. Sem reclamações. Sem discursos. Sem autopiedade. Assumiu a casa como pai e mãe, já que tio Leo ficara praticamente incapacitado. Além de criar os filhos Wagner e Simone, Tia Mati trabalhou. Meu Deus, como ela trabalhou!

Costurava praticamente dia e noite. Vestidos. Calças. Camisas. Jaquetas jeans, para jovens, com etiquetas coloridas costuradas nas costas, como Harley Davidson, Coca-Cola, caveiras, ícones comerciais e de rock, o que então era moda.

Tudo passava pelas mãos daquela mulher. A máquina de costura Singer cantava madrugada adentro. E foi assim que ela segurou a barra, com o marido quase incapaz. Enquanto muitos homens se orgulham de ter sustentado uma família, eu conheci uma mulher que sustentou praticamente tudo: Tia Mati carregou literalmente a casa nas costas.

Em 1975, já servindo como sargento do Exército no Rio de Janeiro, voltei ao Paraná depois da geada negra que dizimou os cafezais no Norte do Paraná. Foi repeteco do que havia ocorrido em 1955. Passei por Maringá e por Campo Mourão, onde morava tia Helga com sua família: Tio Adolfo Ringwalt e as 4 filhas: Marise (já falecida), Carla, Rosane e Paula Cristina. Paula Cristina é professora de inglês, morou alguns anos nos EUA, onde durante certo tempo Helga também viveu. Atualmente, Helga mora em Maringá, PR.

Tia Mati, Félix, Oma e Opa Preis, Simone (de gravata) e uma “japinha”, Maringá, PR (1975).


Tia Helga Preis e tio Adolfo Ringwalt com as 4 filhas, em Campo Mourão, PR (1975). 

Era uma tristeza de doer o coração. Os tratores arrancavam os cafezais pelas raízes. Parecia um funeral. Os pés de café deram lugar à soja e ao milho, como se vê nos dias atuais.

Mudavam-se as plantações. Mudava-se a economia. Mudava o Norte do Paraná. Mas Tia Mati permanecia a mesma. Firme. Resistente. Bonitona como ela só. Sempre elegante. Sempre lutando.

Mais tarde veio Vilhena, em Rondônia. Wagner, engenheiro agrônomo, estabeleceu-se por lá. Tia Mati também, assim como sua filha Simone. A família reunida outra vez. E isso trouxe alegria aos últimos anos de Tia Mati, a qual, mesmo na velhice, ainda sentia uma saudade sem fim do marido Leo.

Nos últimos tempos, nossas conversas aconteciam pelo WhatsApp. E havia sempre aquela frase, dita numa vozinha doce que ainda hoje aperta meu coração:

— Fêle, estou com muita saudade de você. Vem visitar a gente!

Eu queria. Mas a vida, às vezes, impõe seus próprios cercos. Minha esposa Nice enfrentava a dura recuperação da trombose venosa cerebral sofrida em novembro de 2024. As dificuldades eram muitas. E o tempo, esse velho traiçoeiro, corre mais depressa do que imaginamos. Não houve tempo de rever Tia Mati, que faleceu no dia 6 de junho de 2026, em Vilhena, RO.

E essa talvez seja uma das tristezas que carregarei comigo. Mas certas pessoas não desaparecem, como Tia Mati. Continuam morando em nossas recordações e em nossos corações. No cheiro do sabão de lavar fralda dos sobrinhos. No barulho de uma máquina de costura. Nas brincadeiras. Nas broncas no sobrinho mijão. Nos pequenos gestos.

Tia Mati foi uma dessas mulheres que não aparecem nos livros de História. Mas talvez sejam justamente elas que impedem a História de desmoronar.

Tia Mati carregou a casa nas costas. Carregou a família nas costas. Carregou a vida nas costas. E o fez com dignidade, coragem e amor.

Que Deus a tenha em bom lugar.

Porque, depois de tudo o que Tia Mati fez por tantos, ninguém merece mais descanso do que ela.