MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

O Laranjão e o Bombado do Kremlin - Por Félix Maier

 


O Laranjão e o Bombado do Kremlin

Quando o Laranjão reassumiu a presidência da maior potência do planeta, em 20 de janeiro de 2025, o mundo inteiro fez a mesma coisa: prendeu a respiração durante cinco segundos e, logo depois, sacou o celular para gravar a reação.

Nunca se vira um retorno tão cinematográfico. O topete dourado continuava desafiando as leis da física com a mesma desenvoltura de um pombo que resolve pousar sobre uma turbina de avião. Havia meteorologistas sustentando que ele alterava a direção dos ventos; físicos afirmavam que possuía campo magnético próprio; e um professor de Oxford publicou um artigo demonstrando, com quarenta gráficos coloridos e nenhuma conclusão, que o penteado representava uma ruptura epistemológica na aerodinâmica capilar.

As redes sociais explodiram. Em menos de uma hora, apareceram quarenta milhões de memes. Alguns mostravam o topete sendo confundido com uma frente fria. Outros garantiam que ele podia ser visto da Estação Espacial Internacional. Um astrônomo amador jurou tê-lo fotografado cruzando o disco solar durante um eclipse parcial.

A NASA preferiu não comentar.

Na Europa, a esquerda universitária entrou em estado de efervescência intelectual. Em Paris, estudantes ocuparam a Sorbonne empunhando cartazes onde se lia Abaixo a Geopolítica Capilar e Nenhum Topete Será Maior do que a Revolução.

Um filósofo de cachecol grená declarou que o cabelo presidencial simbolizava a opressão estética do capitalismo tardio. Outro retrucou que se tratava apenas de uma metáfora do neoliberalismo penteado para trás. Um terceiro escreveu um ensaio de quatrocentas páginas provando que ambos estavam errados porque o topete era, na verdade, um fenômeno pós-estruturalista. O livro recebeu um prêmio importante, embora ninguém conseguisse terminar de lê-lo.

Hollywood percebeu imediatamente o filão. Em poucas semanas anunciou uma avalanche de produções. Vieram O Napoleão Nuclear, O Topete do Apocalipse, Missão Improvável – A Última Tarifa, O Império Contra o Hambúrguer e uma minissérie de oito episódios intitulada Diplomacia para Iniciantes, na qual todos os conflitos internacionais eram resolvidos por meio de competições de karaokê. Um diretor mais ambicioso decidiu filmar simultaneamente a continuação e o making off, para economizar tempo caso a realidade ultrapassasse novamente a ficção.

Do outro lado do planeta, entretanto, o Bombado do Kremlin acompanhava tudo com uma serenidade glacial. Era um homem de hábitos simples. Levantava antes do amanhecer, corria vinte quilômetros sobre a neve, quebrava algumas toras de madeira apenas para aquecer os ombros, fazia uma centena de flexões com um só braço apoiado num tronco de bétula e, para relaxar, disputava queda de braço com um urso que, segundo os jornais oficiais, perdia por respeito à autoridade constituída.

Naquele dia, ao terminar o treinamento, o Bombado enxugou o suor com uma toalha camuflada e aceitou um copo de vodca servido à temperatura ambiente — isto é, vinte graus abaixo de zero.

Um assessor aproximou-se cautelosamente.

— Excelência, o Laranjão voltou.

O Bombado tomou mais um gole.

— Ótimo.

— Ótimo?

— O mundo andava monótono.

O Bombado olhou pela janela para uma planície branca que parecia não terminar nunca.

— Nada movimenta tanto a geopolítica quanto um ego suficientemente grande.

Enquanto isso, os mercados financeiros decidiram entrar em pânico preventivamente.

Wall Street abriu em queda porque alguns investidores acreditavam que o Laranjão anunciaria tarifas sobre tudo que tivesse parafuso. Cinco minutos depois subiu porque outros investidores concluíram que ele talvez anunciasse justamente o contrário. À tarde voltou a cair em razão de uma fotografia em que o presidente aparecia segurando um copo de refrigerante. Especialistas passaram horas discutindo se aquilo representava uma mudança de estratégia monetária ou apenas sede. Os comentaristas econômicos, como sempre, explicaram tudo com absoluta convicção e total divergência.

A Organização das Nações Unidas convocou uma reunião extraordinária. Representantes de quase duzentos países chegaram carregando pastas, relatórios, mapas, estatísticas e expressões preocupadas. Durante quatro horas discutiram a ordem dos pronunciamentos. Nas três horas seguintes tentaram decidir se a mesa principal deveria ser oval, redonda ou inclusivamente poligonal. Depois interromperam os trabalhos para um almoço sustentável servido em recipientes biodegradáveis produzidos do outro lado do mundo e transportados por cargueiros movidos a óleo combustível altamente poluente.

Ao final da tarde, aprovaram na ONU uma resolução conclamando todas as partes à moderação, ao diálogo, à paz e ao uso racional dos pontos de exclamação nos comunicados oficiais. Todos aplaudiram. Ninguém sabia exatamente quem deveria cumprir a resolução.

No Oriente Médio, as notícias mudavam de velocidade mais depressa do que os mapas conseguiam acompanhar. Cada telejornal apresentava um especialista diferente, todos igualmente seguros de que compreendiam a situação de Israel frente ao Hamas. O curioso era que cada um explicava um conflito completamente distinto, como torcedores de um Fla-Flu. Havia analistas capazes de localizar a origem da crise no Império Romano. Outros preferiam remontar aos fenícios, enquanto alguns responsabilizavam as redes sociais. E um comentarista particularmente criativo sustentava que tudo poderia ter sido evitado se Alexandre, o Grande, tivesse aprendido mediação de conflitos.

As emissoras de televisão passaram a exibir um letreiro permanente com a inscrição ÚLTIMA HORA. Dias depois, o letreiro continuava lá. A última hora tornara-se um estado permanente da humanidade.

Nesse ambiente de ansiedade internacional, surgiu a notícia de que aviões norte-americanos haviam realizado uma grande operação militar contra instalações estratégicas ligadas ao programa nuclear iraniano. Analistas surgiram imediatamente para explicar que aquilo mudaria completamente a geopolítica mundial. Outros especialistas apareceram logo em seguida para explicar que não mudaria absolutamente nada. Um terceiro grupo passou a explicar por que os dois primeiros estavam errados.

As redes sociais fizeram o restante. Em poucos minutos já existiam mapas, animações em três dimensões, vídeos produzidos por inteligência artificial, reconstruções históricas, teorias conspiratórias, previsões do fim do mundo, desmentidos dos desmentidos e até um influenciador ensinando, em quinze segundos, como sobreviver a uma guerra nuclear usando papel-alumínio e pensamento positivo.

A inteligência artificial observava tudo em silêncio. Até que resolveu pedir férias. Dizia não ter sido treinada para distinguir ironia de diplomacia. E talvez tivesse razão. Porque, naquele momento, ninguém mais parecia capaz de fazê-lo.

Quando o Laranjão assumiu pela segunda vez a presidência dos Estados Unidos — já foi dito —, o mundo prendeu a respiração. Seu cabelo dourado, que desafiava as leis da aerodinâmica, e seu sorriso de tubarão recém-saído de um clareamento a laser, logo se tornaram memes apocalípticos.

Enquanto isso, do outro lado do globo, o Gengis Khan das Estepes continuava assistindo a tudo calmamente, fazendo flexões enquanto acariciava um urso vivo, um ritual de fortalecimento moral e musculoso.

— O Laranjão é perigoso — alertava o Bombado do Kremlin — mas sua dieta à base de fast food será sua ruína antes de qualquer guerra.

Depois, limpava o suor com a bandeira da antiga União Soviética e tomava um copo de vodca servido num crânio humano reciclado — ecologicamente sustentável, segundo garantia o Bombado.

Entre memes, protestos e teorias conspiratórias, o Laranjão apareceu na TV para uma declaração histórica: Quero paz... mas só se tiver molho extra. O mundo riu, suspirou e se preparou para a temporada da maior série de tragicomédia que a geopolítica já produziu.

O Laranjão levou o inferno ainda mais profundo para a infernal Faixa de Gaza, enquanto os meninos prediletos da ONU e da esquerda brasileira continuavam a lançar foguetes em direção a Israel, ao mesmo tempo em que se explodiam com bombas na cintura, em Jerusalém e Tel Aviv, num sistema de revezamento olímpico, tipo salto ornamental para o além.

O Laranjão jurou que resolveria a guerra Rússia-Ucrânia em uma única tuitada. Mas o conflito segue firme, teimoso como mula geopolítica, enquanto o Bombado do Kremlin continua transformando o palco internacional num grande teatro de músculos e bravatas, humilhando o antigo bufão de picadeiro, Volodymyr Zelensky. O presidente ucraniano, já convertido pela mídia mundial em personagem permanente de tragicomédia, segue no papel imposto pelo noticiário: herói, mártir, protagonista ou palhaço, conforme o canal.

A extrema esquerda europeia, reunida no Quartier Latin, na Cidade Luz, continuava discutindo apaixonadamente sobre o Laranjão. É Átila, o Flagelo do Ocidente reencarnado! bradou um discípulo de Jean-Paul Sartre, segurando uma taça de vinho natural sem enxofre. Do lado, um brazuca perfumado de patchouli e vestido de lilás, discípulo tardio de Paulo Freire, balançava uma plaquinha escrita Fora Trump! Viva a Dialética! Ele era conhecido por ter participado de uma performance intitulada A Última Ceia durante as Olimpíadas de Paris, em que os apóstolos discutiam sobre veganismo enquanto Jesus tentava transformar água em kombucha.

Enquanto isso, em Hollywood, produções trumpianas dominavam os cinemas, incluindo uma série da Netflix dirigida por Michael Moore chamada O Amarelão Amarelou. Nessa série, o Laranjão enfrentava aliens socialistas, robôs chineses e uma versão maligna de si mesmo produzida por IA.

Do outro lado do planeta, nas estepes geladas da Sibéria, o Bombado do Kremlin afiava a alma e os músculos ao mesmo tempo. Fortemente armado com minimísseis nucleares na cintura, o peitoral à mostra — mesmo sob temperaturas abaixo de zero — e um urso empalhado como banco de exercícios, ele ria em silêncio, enquanto esvaziava uma garrafa de Vodka para esquentar a goela.

— Este bufão dourado não sabe nem manejar uma espada de plástico, quanto mais comandar um império. Vou esmagá-lo no tabuleiro de xadrez dos esteroides.

Mas um assessor — o único ainda sóbrio — ousou discordar:

 Chefe, talvez seja melhor usar diplomacia diplomática e não diplomacia de halteres.

O Bombado fez silêncio. Muito silêncio. O assessor foi promovido a encarregado de alimentar ursos no Zoológico Estatal, depois de passar alguns meses numa solitária da Lubianka, um amorzinho de prisão.

O mundo tremeu quando ambos anunciaram um encontro histórico para resolver suas diferenças de maneira civilizada: uma partida de pôquer transmitida ao vivo. A CNN, a Fox News, a BBC e a Al-Jazeera transmitiriam simultaneamente. A Globo botou o Bonner com cara de sexta-feira.

O Bombado, por sua vez, compareceu montado num urso, modelo híbrido, ecológico, usando apenas calça camuflada, determinação e a expressão de quem considerava o inverno um conceito inventado pelo Ocidente.

O duelo foi digno de lenda:

— Eu aposto a Flórida — disse o Laranjão.

— Eu aposto a Crimeia — retrucou o Bombado.

— Eu aumento as Trump Tower de Las Vegas e de Manila.

— Eu cubro com três gasodutos e o controle total da Sibéria mais gelada.

Os comentaristas piravam. Na França, filósofos marxistas tentavam interpretar o subtexto, as entrelinhas das mensagens subliminares. No Brasil, influenciadores reagiam ao vivo: Meu Deus, ele apostou a Crimeia… deixa o like!

No final, o Laranjão ganhou com um par de dois e declarou vitória, bem ao estilo trumpiano:

— Fiz a América grande de novo até no pôquer!

O Bombado mordeu a borda do copo de vodca, mostrando bíceps, tríceps e rancor:

— Da próxima vez, será no braço de ferro!

As bolsas do mundo oscilaram. A OTAN pediu férias. O Papa suspirou. A China anotou tudo, só observando de longe, como quem espreita uma promoção futura. O Laranjão não se interessou pela Crimeia e pelos gasodutos fechados à Europa. Nem pela Sibéria mais gelada, pois estava de olho na Groenlândia.

Ao final da semana, a ONU divulgou um comunicado afirmando que a Terceira Guerra Mundial seria adiada até segunda ordem, possivelmente até o próximo reality show internacional.

O planeta, assustado, percebeu que, se dependesse desses dois, a humanidade estaria sempre a um passo do Armagedon e a dois passos da comédia involuntária. O Laranjão comemorou com Netanyahu, abrindo uma cachaça Fazenda Jeremias, presente de Jair Bolsonaro. O Bombado do Kremlin esvaziou uma garrafa de Smirnoff num gole só, ao lado de um Xi Jinping perplexo.

E assim, entre egos inflados, músculos à mostra, mechas indomáveis, diplomacia de buteco e brindes etílicos com amigos, o Laranjão e o Bombado do Kremlin continuaram protagonizando a maior novela geopolítica já vista: quando o mundo virou teatro do absurdo e a coxia repleta de bombas termonucleares. Mas a audiência é boa, disse um assessor. Então segue o show, respondeu outro aspone.

E o show seguiu. O show sempre tem que continuar.

As idas e vindas econômicas do Laranjão viraram espetáculo à parte. Ele acordava num humor protecionista, aplicava sobretaxas de 150% em produtos importados de quase todos os países do planeta, inclusive de ilhas que só exportavam cartões-postais e conchas. Negociava consigo mesmo, baixava taxas astronômicas para apenas 50%, e até 20%, e se declarava herói do comércio mundial, aparecendo à tarde na TV dizendo que era o cara mais bonzinho do hemisfério norte.

Com o Brasil, então, resolveu inovar: além da taxa especial de 50% para aço, alumínio, café, carne e até havaianas, aplicou a Lei Magnitski a meio mundo, com destaque para alguns juízes do Sistema Toga Petralha, que haviam condenado Jair Bolsonaro.

— É pela liberdade!  — disse, enquanto assinava os decretos com um canetão dourado que brilhava mais que o próprio topete.

Cada negociação era uma roleta emocional e cada ameaça comercial, uma jogada de marketing: you’re fired! Você está demitido! Como nos tempos em que comandava o reality show The Apprentice (O Aprendiz).

No fim das contas, o mundo inteiro percebeu que o Laranjão não governava, improvisava. Cada decreto parecia escrito no guardanapo do McDonald’s onde o Laranjão, em campanha presidencial, com vistoso avental, entregou hambúrguer e batata chips a uma brasileira. Seria inveja de Eduardo Bolsonaro, que havia trabalhado num Méqui dos EUA, para aprimorar o inglês?

Mas, enquanto seu topete continuasse firme e sua caneta dourada brilhasse como um farol kitsch da liberdade, o Laranjão seguiria convencido de que estava salvando o planeta da COP 30 em Belém, ainda que fosse um planeta ligeiramente atônito, altamente tarifado e totalmente resignado a seguir queimando combustíveis fósseis em aviões, navios e iates, não se rendendo às bravatas de ventania vindas de fazendas eólicas.

A essa altura, ninguém mais sabia onde terminava a política e começava o entretenimento. As agências de classificação de risco passaram a incluir um novo indicador em seus relatórios: o Índice Internacional de Mau Humor Presidencial. Wall Street já não acompanhava apenas juros, inflação ou crescimento. Bastava o Laranjão franzir uma sobrancelha durante uma entrevista coletiva para o petróleo subir, o ouro disparar, o dólar espirrar e as criptomoedas sofrerem um colapso existencial.

A televisão, naturalmente, fazia sua parte. Os telejornais já não abriam com Boa noite, mas com Acompanhe conosco a crise desta hora. Como havia uma nova crise a cada quarenta minutos, ninguém percebia quando uma substituía a outra. Os comentaristas, entretanto, eram os mesmos. Bastava trocar a gravata e a bandeirinha atrás da bancada.

Enquanto isso, a guerra entre Rússia e Ucrânia seguia seu curso melancólico, lembrando aquelas partidas de xadrez disputadas por enxadristas teimosos que já esqueceram quem fez o primeiro movimento. Cada ofensiva era anunciada como decisiva. Cada negociação era apresentada como histórica. E cada cessar-fogo durava exatamente o tempo necessário para que as equipes de televisão desmontassem seus equipamentos.

O Bombado do Kremlin acompanhava os mapas militares como um enxadrista contempla o tabuleiro. Cada flecha colorida representava uma hipótese. Cada hipótese era desmentida pela realidade no dia seguinte. Já o presidente ucraniano aparecia diariamente em videoconferências, parlamentos, cúpulas internacionais e cerimônias de entrega de prêmios, deslocando-se com tanta frequência que alguns aeroportos cogitaram criar um cartão de fidelidade diplomática.

Na prática, o conflito parecia obedecer à velha máxima segundo a qual toda guerra começa por excesso de certezas e termina por absoluta falta delas.

Foi então que o Laranjão anunciou que resolveria tudo.

— Em quarenta e oito horas.

O planeta suspirou. Não porque acreditasse. Mas porque já conhecia o roteiro. Os mercados oscilaram. As bolsas subiram. Depois desceram. Subiram outra vez. No fim do dia voltaram exatamente ao ponto de partida, o que permitiu aos analistas escreverem longos artigos demonstrando que aquilo era perfeitamente previsível.

Um novo encontro entre o Laranjão e o Bombado foi anunciado como A Conferência do Século. Escolheu-se um hotel tão neutro que nem os funcionários sabiam em que país ficava. Os suíços juravam que era na Suíça. Os austríacos sustentavam que pertencia à Áustria. Um geógrafo aposentado afirmou tratar-se de Liechtenstein, mas ninguém encontrou outro que confirmasse.

As delegações chegaram em aviões suficientes para provocar um rápido eclipse solar. Vieram assessores. Subassessores. Consultores. Especialistas em comunicação. Especialistas em especialistas. Tradutores. Tradutores dos tradutores. E um batalhão de fotógrafos incumbidos de registrar o momento exato em que os líderes fingiriam espontaneidade.

A reunião começou. Depois de quarenta minutos discutindo quem apertaria a mão primeiro, passaram meia hora escolhendo o formato da fotografia oficial. Quadrada parecia autoritária. Retangular lembrava a Guerra Fria. Panorâmica favorecia demais o topete do Laranjão. Decidiram fazer duas fotos.

As negociações propriamente ditas duraram onze minutos. Os outros três dias foram ocupados pela redação do comunicado conjunto.

Quando enfim o comunicado saiu, dizia: As partes reafirmam o compromisso com a continuidade do diálogo em ambiente construtivo, preservando a possibilidade de futuras conversações destinadas a criar condições favoráveis ao prosseguimento das próximas conversações.

Os diplomatas comemoraram. Jamais um texto conseguira dizer tão pouco usando tantas palavras.

Enquanto isso, uma nova frente de batalha surgia na economia. O Laranjão acordava inspirado. Anunciava tarifas sobre produtos estrangeiros. À tarde suspendia metade delas. À noite explicava que aquilo fazia parte de uma estratégia brilhante.

No dia seguinte reabria as negociações porque as negociações anteriores haviam produzido efeitos inesperadamente negociáveis. E a Suprema Corte havia derrubada algumas taxações.

Empresas inteiras passaram a contratar astrólogos, meteorologistas e psicanalistas para prever a política comercial norte-americana. Obtiveram índices de acerto semelhantes aos dos economistas. As indústrias de calculadoras agradeceram.

No Brasil, exportadores consultavam simultaneamente despachantes aduaneiros, advogados tributários, professores de comércio exterior e benzedeiras especializadas em desembaraço alfandegário. Nunca se venderam tantas planilhas. Nem tanta camomila.

Enquanto os governos discutiam tarifas, Hollywood já filmava a continuação dos acontecimentos. O roteiro era escrito pela manhã. As filmagens começavam depois do almoço. À noite a realidade modificava tudo. O roteirista chorava. O diretor pedia refilmagem. Os atores perguntavam se ainda faziam sentido. O produtor respondia que sentido nunca dera lucro.

A ONU insistia em reunir-se. A OTAN insistia em preocupar-se. O Papa insistia em rezar e falar de esperança, como quem tentava apagar um incêndio florestal com um regador de jardim. A União Europeia insistia em produzir documentos contra o Acordo com o Mercosul. A inteligência artificial insistia em pedir licença médica.

E a COP 30, a COP da Maniçoba, preparava mais uma conferência destinada a salvar o planeta, em Belém do Pará. Milhares de participantes desembarcaram em centenas de aviões particulares, altamente poluidores, para discutir como reduzir emissões de carbono. Os hotéis distribuíam folhetos impressos explicando a importância da sustentabilidade. Os participantes fotografavam árvores e palafitas, para desespero do governador Helder Barbalho. As árvores permaneciam indiferentes, assim como as palafitas.

A essa altura, o Laranjão concluiu que nenhuma reunião resolveria coisa alguma. Propôs um método muito mais civilizado. Uma partida de xadrez com o Bombado do Kremlin, em um país neutro. Transmitida ao vivo. A ideia foi  recebida com entusiasmo. Pela televisão. Pelo Bombado do Kremlin. Pelas plataformas digitais. Pelos patrocinadores. Pelas casas de apostas de Londres e as Bets. E até pelos fabricantes de pipoca. Seria o jogo russo-ianque do milênio, de Garry Kasparov e Bobby Fischer que nunca houve.

Um salão, em país não divulgado, foi preparado como se recebesse a final de uma Copa do Mundo. O Laranjão apareceu usando um terno tão brilhante que os fotógrafos precisaram diminuir a exposição das câmeras. O Bombado entrou caminhando lentamente, com a expressão de quem acreditava poder derrotar qualquer adversário apenas pelo olhar.

Sentaram-se. Silêncio absoluto. O planeta inteiro assistia. O Laranjão não perdeu tempo. Como Bobby Fischer faria, empurrou o peão do rei duas casas: 1.e4. O Bombado permaneceu imóvel durante quase duas horas, observando o tabuleiro como quem esperava uma ordem do Estado-Maior. Só então respondeu com o peão do rei também duas casas: ...e5. O Laranjão galopou imediatamente o cavalo do rei para f3 (2.Cf3). Depois de nova pausa interminável, o Bombado moveu o cavalo do rei para f6 (...Cf6).

Os comentaristas sorriram: estava inaugurada a Defesa Petrov, também conhecida como Defesa Russa. O Bombado do Kremlin devia estar recebendo dicas por um ponto implantado no ouvido. Do outro lado da mesa, as redes sociais já juravam que o Laranjão também usava um. Uns garantiam que estava ligado ao Trump Tower de Las Vegas; outros, ao Vale do Silício; e os mais criativos asseguravam que o sinal vinha diretamente do fantasma de Bobby Fischer, que continuava insistindo: 1.e4. Best by test.

— Aposto a Groenlândia.

— Cubro com a Ucrânia.

— Acrescento duas redes de fast-food.

— Ponho três gasodutos.

— Mais um campo de golfe.

— Mais uma frota de quebra-gelos.

Os comentaristas perderam completamente a compostura. Especialistas em geopolítica tentavam explicar a lógica das apostas. Especialistas em xadrez tentavam entender a geopolítica. Nenhum dos dois grupos conseguiu.

No fim da partida, depois de dias inteiros de jogadas inesperadas, olhares ameaçadores, discursos improvisados e cálculos mirabolantes, houve um... empate. Como num raro afogamento no xadrez, o Laranjão e o Bombado do Kremlin chegaram a um ponto em que qualquer lance significaria um desastre maior para si mesmos do que para o adversário. Cercados por alianças, sanções, interesses econômicos e pressões internas, descobriram que a melhor jogada era não haver jogada alguma. O rei de cada lado permaneceu de pé, ninguém venceu, ninguém perdeu; o tabuleiro apenas decretou que, às vezes, a única vitória possível da geopolítica é um empate por absoluta falta de movimentos.

Na manhã seguinte, os jornais publicaram manchetes completamente diferentes sobre o mesmo acontecimento que o mundo inteiro havia visto. Uns anunciavam vitória absoluta do Laranjão. Outros garantiam o triunfo estratégico do Bombado. Havia quem sustentasse empate. Alguns diziam que ambos haviam perdido. E um editorial particularmente filosófico concluiu que, naquele espetáculo permanente da política internacional, o único vencedor era a audiência.

A Terceira Guerra Mundial foi novamente adiada. Não por prudência. Mas porque a equipe de marketing sugeriu esperar mais uma temporada. O planeta respirou aliviado. Os comentaristas voltaram aos estúdios. Os especialistas abriram novos gráficos. As bolsas oscilaram outra vez. Os fabricantes de ansiolíticos bateram recorde de vendas.

E o mundo compreendeu, enfim, que talvez a civilização não estivesse sendo conduzida por estadistas nem por estrategistas, mas por um gigantesco departamento de produção, convencido de que a realidade só faz sentido quando parece uma série da Netflix. Porque, afinal, quando a realidade supera diariamente a imaginação, resta apenas uma saída sensata. Continuar assistindo.

E o espetáculo segue. Com bombas em Kiev e em São Petersburgo. E até em Moscou.

O Laranjão, incapaz de suportar que o Bombado do Kremlin monopolizasse os holofotes da guerra Rússia-Ucrânia, resolveu providenciar seu próprio enredo de temporada. Passou a distribuir ultimatos em todas as direções, ensaiando uma cruzada de drones e mísseis contra os aiatolás do Irã, fazendo disparar os preços do petróleo com o fechamento do Estreito de Ormuz, como se o planeta inteiro fosse apenas um tabuleiro de xadrez onde peças, mísseis e bravatas valessem a mesma coisa.

O Laranjão prometeu também acertar as contas, de uma vez por todas, com o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital, o famoso PCC que age nas Américas e na Europa, grupos criminosos que o Ogro de Nove Dedos se nega a classificar como terroristas. Desde então, o Ogro nunca mais conseguiu dormir. Vai que tem o mesmo destino de Nicolás Maduro...

Os analistas celebraram a chegada desses novos capítulos, nacionais e internacionais, as redes sociais agradeceram o novo combustível para suas indignações de turno, os gabinetes de ódio do PT e seus genéricos como o Piçol aproveitaram para defender a soberania nacional ameaçada pelo Laranjão. Descobriram que não há nada mais soberano do que um bom inimigo estrangeiro no ano da campanha presidencial do Ogro, rumo ao tetra, como apontam as pesquisas eleitorais. Os fabricantes de tela gigante perceberam, enfim, que o verdadeiro produto estratégico do século XXI já não é o petróleo, nem o urânio, mas a audiência.

E ninguém sabe quando terminarão as guerras do Bombado e do Laranjão: talvez depois de um novo torneio de pôquer ou de xadrez, tendo novamente a Crimeia de um lado e a Groenlândia do outro como fichas de aposta.

Ou talvez acabem do único modo que a História costuma encerrar os espetáculos da vaidade: quando os jogadores finalmente descobrirem que, sobre a mesa, as fichas sempre foram de plástico, mas as vidas perdidas eram de carne e osso.

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Contos Fantásticos - Por Félix Maier

 


Sinopse 

E se Machado de Assis e Eça de Queiroz se reencontrassem no Purgatório para acertar antigas contas literárias? E se um rei do imaginário Brasilistão governasse um país onde a sátira supera o absurdo? E se a geopolítica mundial fosse decidida numa mesa de pôquer entre um presidente de topete dourado e um musculoso czar do Kremlin? E se o Velho do Rio do Peixe anunciasse enchentes e espalhasse pinhões nas matas, junto com gralhas azuis? E se o fantasma da Noiva de Luzerna continuasse assustando as pessoas? E se um filósofo andarilho, acompanhado por um quero-quero, espalhasse aforismos missioneiros no Alto Uruguai capazes de desmontar qualquer certeza?

Essas e outras situações improváveis compõem Contos Fantásticos, uma coletânea em que a imaginação rompe as fronteiras do tempo, da História e da realidade para construir um universo de humor, ironia e fantasia.

Misturando personagens históricos, figuras contemporâneas, tipos populares e acontecimentos políticos com situações completamente inverossímeis, o autor cria uma narrativa que dialoga com a tradição da sátira literária de autores como Machado de Assis, Eça de Queiroz, Swift, Voltaire e Stanislaw Ponte Preta, mas com forte sabor brasileiro e, muitas vezes, gaúcho à la Luís Fernando Veríssimo.

Neste livro, o fantástico não nasce de dragões, magos ou castelos encantados. Surge daquilo que parece impossível, mas que, por vezes, se torna mais verossímil do que a própria realidade. O leitor encontrará filósofos de fronteira, ministérios dedicados à flatulência, reinos tropicais governados por monarcas caricatos, escritores mortos debatendo plágio diante da eternidade, veteranos despertando para um país irreconhecível e líderes mundiais transformados em personagens de uma tragicomédia universal.

A cada conto, o autor combina referências eruditas e cultura popular, filosofia e anedota, história e imaginação, conduzindo o leitor por narrativas em que a ironia é constante e o riso frequentemente esconde uma reflexão sobre o poder, a vaidade humana, a literatura, a política e os costumes.

Sem compromisso com o politicamente correto e fiel à tradição da caricatura e da crônica satírica, Contos Fantásticos convida o leitor a rir do mundo — e de si mesmo. Afinal, quando a realidade parece desafiar diariamente a lógica, talvez a fantasia seja apenas a maneira mais honesta de descrevê-la.

Uma obra para quem aprecia o humor inteligente, a crítica bem-humorada e a liberdade criativa, lembrando que, muitas vezes, o impossível apenas aguarda a próxima página para acontecer. 

Leia o e-book em


terça-feira, 4 de agosto de 2026

O Velho do Rio do Peixe - Por Félix Maier

 


O Velho do Rio do Peixe

O homem que aparecia antes das grandes águas

Havia quem jurasse tê-lo visto nas cabeceiras do Rio do Peixe, na Serra do Espigão, a mais de mil e duzentos metros de altitude, quando o rio ainda era um fiapo de água saltando entre as pedras frias da montanha. Depois desaparecia por dias, reaparecendo nas matas de Caçador e nas várzeas de Videira, onde diziam que plantava pinhões durante a madrugada. Em Tangará, as araucárias pareciam inclinar os galhos à sua passagem. Em Luzerna, permanecia longo tempo contemplando a represa do Lindner, abrigado sob a sombra de um sarandi. Em Herval d'Oeste, surgia sempre antes das grandes enchentes, para divertimento dos guris da estação ferroviária, que o perseguiam gritando em larfiagem. Dali seguia por Lacerdópolis, Ouro, Capinzal e Piratuba, acompanhando o curso das águas até o Rio Uruguai, como se não fosse um homem caminhando pela margem, mas o próprio espírito do rio regressando, ano após ano, para verificar se suas barrancas continuavam vivas.

Os mais velhos costumavam dizer que todo rio possui memória. Alguns guardam apenas pedras, galhos e barrancos; outros, porém, escondem lembranças mais antigas que as próprias cidades. O Rio do Peixe era um desses. Corria desde muito antes de haver pontes, estradas, igrejas ou plantações de milho espalhadas pelo vale. Corria quando a mata ainda cobria quase tudo, quando as araucárias formavam um teto verde sobre as coxilhas e quando as gralhas-azuis eram as únicas semeadoras de pinhão conhecidas daquele mundo. Depois vieram os caboclos, os tropeiros, os colonizadores alemães e italianos, os trilhos da ferrovia, os serradores de madeira, as pequenas vilas que cresceram até se tornarem cidades. O rio permaneceu o mesmo, apenas carregando consigo um número cada vez maior de histórias. Entre todas elas, nenhuma atravessou tantas gerações quanto a do Velho do Rio do Peixe.

Meu avô ouvira essa história do bisavô nas demoradas noites de inverno, quando o vento assobiava entre os pinheiros e o fogo do fogão a lenha fazia estalar as achas de guajuvira com pinhão na chapa. Meu pai, por sua vez, ouviu-a ainda menino, sentado num banco tosco de madeira enquanto descascava espigas de milho ao lado da família. Quando chegou a minha vez, já não havia tantas noites silenciosas. A televisão começava a disputar espaço com os causos antigos, e muita gente preferia acreditar no que aparecia na tela a escutar aquilo que a memória dos velhos insistia em conservar. Mesmo assim, sempre que o céu escurecia por vários dias seguidos e a chuva caía grossa sobre o Vale do Rio do Peixe, alguém acabava lembrando, quase num sussurro:

— Será que o Velho já apareceu?

Ninguém perguntava quem era esse velho. Todos pareciam saber, ainda que muitos jamais o tivessem visto. Era como se seu nome não pertencesse a uma pessoa, mas ao próprio rio.

Diziam que ele surgia apenas quando as águas preparavam alguma surpresa. Não bastava uma cheia comum, dessas que fazem o rio lamber o barranco e assustam apenas as galinhas mais distraídas. Era preciso que a enchente fosse daquelas capazes de mudar cercas de lugar, arrancar pontes de madeira, transformar potreiros em lagoas e fazer as canoas navegarem onde, dias antes, pastavam vacas leiteiras. Antes dessas grandes águas, invariavelmente, aparecia um velho caminhando pela margem.

Nunca vinha montado. Nunca trazia cachorro. Nunca conduzia tropa. Apenas caminhava.

Vestia bombachas desbotadas, um pala escuro que parecia tão antigo quanto as figueiras centenárias e um chapéu de feltro de abas largas, sempre inclinado para proteger os olhos. A barba era branca, comprida, mas estranhamente limpa, como se fosse penteada todas as manhãs. Nas mãos carregava um cajado de madeira de araucária, liso de tanto uso, cuja ponta parecia mais polida que cabo de enxada antiga.

Havia quem jurasse que pescava. Outros diziam jamais ter visto um anzol em suas mãos. Alguns afirmavam que carregava uma pequena sacola de couro onde guardava iscas; outros garantiam que ela jamais continha peixe algum. Sobre isso nunca houve acordo. O único detalhe em que todos coincidiam era seu modo de caminhar: lento, firme, sem demonstrar cansaço, como quem conhece cada pedra do caminho muito antes de ela nascer.

Também nunca pedia pouso. Se alguém lhe oferecia um prato de feijão, agradecia com um leve movimento da cabeça e seguia adiante. Se insistiam em lhe dar dinheiro, sorria de um jeito quase imperceptível, como quem acabasse de ouvir uma brincadeira de criança. Jamais aceitava. Não comprava nada, não vendia nada e, ao que parecia, também não precisava de nada.

Depois de caminhar por alguns quilômetros acompanhando o curso do rio, ele parava. Permanecia imóvel durante alguns minutos. Então fincava o cajado no chão, erguia lentamente o rosto e fitava uma colina distante. Não dizia palavra. Apenas olhava. Em seguida retirava o cajado da terra e retomava a caminhada, desaparecendo na curva seguinte como se a neblina o tivesse engolido.

Os moradores mais antigos compreendiam o recado sem necessidade de explicações. No mesmo dia começavam a remover o gado para terrenos mais altos. Levavam os cavalos para além das coxilhas, retiravam os porcos dos chiqueiros próximos ao rio, desmontavam paióis improvisados e empilhavam móveis sobre madeira quadrada dentro de casa. As mulheres guardavam documentos, fotografias e imagens de santos em lugares elevados. As crianças, sem entender direito a pressa dos adultos, apenas obedeciam.

Quando alguém perguntava a razão de tanto trabalho, bastava uma resposta curta:

— O Velho passou.

Era suficiente. Os recém-chegados, entretanto, riam daquilo tudo.

Durante as décadas de 1920 e 1930, depois da sangrenta Guerra do Contestado, chegaram muitas famílias alemãs e italianas no vale, vindas do Rio Grande do Sul e do Vale do Itajaí. Gente trabalhadora, interessada em abrir lavouras, serrarias e pequenos comércios. Muitos jamais tinham ouvido falar da antiga lenda.

Ao verem os vizinhos recolhendo animais enquanto o céu ainda conservava alguns rasgos de azul, perguntavam:

— Ficaram loucos?

Então alguém respondia:

— O Velho do Rio do Peixe passou hoje cedo.

Os forasteiros olhavam uns para os outros, divertidos.

— Um velho mandando no rio? Essa agora...

E voltavam ao trabalho.

Dois ou três dias depois começava a chover na serra. Primeiro uma chuva mansa. Depois outra mais forte. Em seguida vinham dias inteiros de água grossa, pesada, persistente, daquelas que transformam os córregos em torrentes barrentas e fazem as pedras desaparecerem sob espumas revoltas.

Então o Rio do Peixe mudava de voz. Quem morava perto aprendia a reconhecer aquele som. O rio deixava de correr; parecia respirar. Seu ronco aumentava durante a madrugada, batendo contra barrancos, troncos e pilares de pontes. Pela manhã, a água já cobria as ruas de cascalho. À tarde engolia cercas. Na noite seguinte invadia quintais, depósitos e galpões, arrastando casas inteiras.

Quando finalmente atravessava estradas e transformava o vale numa imensa corrente barrenta, muitos se lembravam do velho de chapéu. Os que haviam acreditado apenas fechavam as janelas e esperavam a enchente passar. Os que zombaram lamentavam não ter ouvido os antigos.

Nunca houve notícia de alguém que tivesse seguido o aviso do Velho e perdido tudo. Em compensação, eram incontáveis os casos de famílias salvas porque resolveram retirar seus animais e abandonar as casas a tempo. Cada enchente acrescentava um novo episódio à lenda, como se o próprio rio tivesse prazer em confirmar aquilo que os homens teimavam em negar.

Curiosamente, ninguém sabia de onde o Velho vinha. Nunca aparecia entrando por alguma estrada. Nunca era visto atravessando pontes.

Ninguém recordava tê-lo encontrado comprando mantimentos nas vendas, participando de festas de igreja ou assistindo às missas dominicais. Simplesmente surgia na margem do rio, caminhava durante algumas horas e desaparecia.

Houve quem tentasse segui-lo. Um tropeiro garantiu que manteve o velho à vista durante quase toda uma tarde. Bastou desviar os olhos por um instante para ajeitar a chincha do cavalo e, quando tornou a procurar, já não havia ninguém na estrada. O caminho seguia reto por centenas de metros, sem mato suficiente para esconder uma pessoa, mas o velho sumira mais rápido que a neblina quando o sol rompe o horizonte.

Outro homem jurou ter encontrado apenas as marcas do cajado impressas no barro úmido. Eram pegadas estranhas. Caminhavam por alguns metros e simplesmente terminavam na margem do rio, como se dali em diante quem as deixara tivesse continuado a viagem sobre a própria água.

Essas histórias corriam de boca em boca, aumentando um pouco a cada geração, como acontece com todos os bons causos do interior. Ainda assim, havia algo que ninguém ousava exagerar, porque todos pareciam concordar silenciosamente: o Velho jamais fazia mal a quem quer que fosse. Não ameaçava, não castigava, não assustava as crianças, como o Negro Camilo, de Luzerna, não exigia promessas nem oferendas. Apenas avisava.

Talvez por isso fosse respeitado até pelos mais incrédulos.

Em Caçador, dizem que o Velho conversa com as gralhas-azuis. Em Videira, juram que ele planta pinhões durante a madrugada. Em Tangará, contam que as araucárias se inclinam quando ele passa. Em Luzerna, na romântica ponte coberta, feita de madeira com cobertura de zinco, afirmam que ele costuma permanecer longo tempo observando a confluência do Rio Limeira com o Rio do Peixe. Em Joaçaba, os pescadores dizem que nunca lança anzol, apenas observa a corrente. Em Herval d'Oeste, os ferroviários garantem que ele atravessa a ponte Emílio Baumgart sempre na véspera das grandes enchentes, com apupos dos meninos que falam a larfiagem. Em Ouro e Capinzal, contam que seu cajado faz brotar pequenas nascentes onde toca o chão. Como Moisés no Sinai.

Em Piratuba, contam que o Velho do Rio do Peixe fincou o cajado num ponto perdido entre os campos e seguiu viagem sem dizer palavra. Anos depois, quando a Petrobras perfurava o solo em busca de petróleo, não encontrou ouro negro, mas uma abundante fonte de águas termais a trinta e oito graus. Desde então, há quem diga que o Velho já conhecia o segredo que a terra guardava.

Meu avô costumava encerrar o assunto sempre da mesma maneira. Depois de puxar lentamente a bomba do chimarrão, olhava pela janela na direção do rio e dizia numa voz tão baixa que parecia conversar consigo mesmo:

— Homem comum não volta durante tantos anos sem envelhecer mais um dia. Mas também não acredito que ele seja assombração. Acho que o Rio do Peixe, de tanto viver, resolveu um dia criar um velho para caminhar em seu lugar.

E, depois de um longo silêncio, acrescentava:

— Quem ri dessa história nunca conheceu um rio de verdade.

Erwin, o Menino dos Pinhões

Certa vez, um menino resolveu seguir o Velho do Rio do Peixe por pura curiosidade. Não para desafiá-lo, como fizeram alguns homens da cidade, nem para provar que a velha história não passava de superstição. Quem tomou essa decisão foi apenas um piá, desses que ainda enxergam perguntas onde os adultos veem apenas caminhos.

Chamava-se Erwin, embora poucos usassem seu nome. Morava na vila de Luzerna e desde pequeno era mais conhecido por Pinhão, porque vivia catando sementes pelos pinheirais, enchendo os bolsos do calção e esquecendo metade delas pelo caminho.

— Se esse velho aparece faz tanto tempo, por que ninguém sabe onde mora?

Ninguém respondia.

— Se ele é pescador, onde vende os peixes?

Novo silêncio.

— E por que ele nunca envelhece?

O avô apenas sorria.

— Algumas perguntas, guri, só o mato responde.

A resposta não lhe bastava.

Naquele final de inverno de 1957, depois de vários dias de chuva fina sobre a Serra do Espigão, espalhou-se pela vizinhança a notícia de que o Velho fora visto caminhando junto ao Rio do Peixe. Os homens começaram a retirar o gado das baixadas, e as mulheres que moravam na beira do rio levantaram os móveis sobre tocos de madeira. Como sempre acontecia, ninguém comentou muito. Simplesmente faziam o que precisava ser feito.

Erwin, porém, tomou outra decisão. Esperaria o amanhecer. Ainda antes do primeiro canto dos galos, saiu de casa levando apenas um pedaço de pão, um canivete e uma pequena cuia de alumínio presa ao embornal. Caminhou em silêncio até alcançar a margem do Rio do Peixe, onde uma tênue camada de neblina escondia metade da correnteza.

Não precisou procurar muito. O velho estava ali. Caminhava devagar, apoiando-se no cajado de araucária, como se conhecesse cada curva do rio desde antes da criação do mundo. Não olhava para trás nem parecia notar a presença do menino. Erwin manteve distância, escondendo-se atrás dos sarandis e das taquaras sempre que o caminho permitia. Assim atravessaram a manhã inteira.

Ao contrário do que imaginava, o Velho não seguia apenas a beira do rio. Em certos pontos abandonava a margem e penetrava lentamente na mata, caminhando por antigas picadas que pareciam invisíveis aos olhos comuns. Eram trilhas estreitas, cobertas de folhas secas, onde o perfume da terra úmida se misturava ao cheiro resinoso dos pinheiros.

Quanto mais avançavam, mais antigas pareciam as árvores. As araucárias erguiam-se tão altas que seus galhos formavam um teto verde muito acima das outras árvores. O chão desaparecia sob um espesso tapete de agulhas de pinheiro, e apenas alguns feixes de luz conseguiam romper aquela imensas catedrais vegetais. O silêncio era interrompido apenas pelo tamborilar distante de um pica-pau, pelo murmúrio de um riacho escondido e pelo assobio do vento passeando entre as copas.

Erwin nunca estivera numa mata tão velha. Ali não havia tocos de árvores abatidas, nem cercas, nem sinais de machado. Parecia um pedaço de mundo esquecido pelo tempo.

Durante dois dias inteiros repetiu-se a mesma rotina. O menino seguia. O Velho caminhava. À noite, Erwin voltava escondido para casa por atalhos conhecidos, inventando desculpas para justificar o cansaço. Antes do amanhecer, retornava ao mesmo lugar.

No terceiro dia aconteceu algo estranho. O velho deixou de seguir o rio. Entrou definitivamente no pinheiral. Erwin percebeu que já não ouviam o rumor das águas. Apenas o vento.

Depois de caminhar por longo tempo, o Velho parou diante de uma clareira iluminada pelo sol da manhã. Ali existia apenas um círculo de terra nua, como se algum raio tivesse derrubado uma árvore muitos anos antes. Pela primeira vez desde que começara a segui-lo, o menino viu o velho levar a mão ao bolso do pala. Retirou um único pinhão.

Era um pinhão comum, igual aos milhares que Erwin apanhava todo outono para assar na chapa do fogão. O velho ajoelhou-se com a lentidão de quem executa um gesto aprendido desde sempre. Com a ponta do cajado abriu um pequeno buraco na terra, depositou ali a semente e cobriu-a delicadamente com um punhado de folhas.

Depois permaneceu imóvel. Erwin esperou. Nada aconteceu. Sorriu consigo mesmo. Talvez fosse apenas um velho plantando uma árvore.

Foi então que a terra estremeceu. Primeiro quase imperceptivelmente. Depois um pequeno montículo começou a erguer-se. Do centro dele surgiu um broto verde, tenro, brilhante como se acabasse de nascer da própria luz.

O menino esfregou os olhos. O broto crescia. Crescia diante dele. Transformou-se numa muda. A muda engrossou. O tronco alargou-se numa velocidade impossível. Os galhos abriram-se para os lados. A casca adquiriu o tom acinzentado das árvores antigas.

Em poucos instantes, onde antes existia apenas terra nua, erguia-se uma araucária majestosa, tão alta quanto as demais que cercavam a clareira.

Erwin perdeu o fôlego. Não sabia se corria, gritava ou rezava. As pernas recusavam-se a obedecer. Foi então que ouviu um bater de asas. Uma gralha-azul pousou suavemente num dos galhos recém-formados. Trazia um pinhão preso no bico. Inclinou a cabeça para o velho, como quem cumprimenta um velho conhecido, e voltou a levantar voo.

Voou poucos metros. Escolheu um pequeno espaço entre as folhas secas. Com rápidos movimentos enterrou o pinhão na terra. Depois cobriu-o cuidadosamente com folhas e musgo. Não era um gesto de esquecimento, mas de cuidado. A gralha-azul guardava ali o seu alimento para os dias difíceis, como o colono guardava os grãos no paiol ou as reservas na despensa da casa. Cada pinhão escondido era uma pequena promessa de fartura para o futuro, mas também uma semente confiada à terra para quando a floresta precisasse renascer — ainda que por esquecimento da gralha, que não tinha GPS. A gralha observou a própria obra por alguns segundos e desapareceu entre os pinheiros.

O velho acompanhou o voo da ave com um sorriso sereno. Somente então falou pela primeira vez. Sua voz era baixa, profunda e antiga como o rumor do próprio rio.

— Eu planto. Ela espalha.

Erwin estremeceu. Não apenas porque finalmente ouvira o velho falar, mas porque percebeu que aquelas palavras pareciam dirigir-se tanto à gralha quanto às árvores, ao vento e ao próprio chão.

O silêncio voltou a dominar a antiga clareira. Passado algum tempo, o velho apoiou as duas mãos sobre o cajado e acrescentou, olhando para o alto da nova araucária:

— Uma árvore nunca nasce para quem a planta. Nasce para quem ainda nem nasceu.

As palavras permaneceram suspensas no ar como sementes levadas pelo vento. Erwin sentiu que havia nelas uma verdade grande demais para um menino compreender. Mesmo assim jamais as esqueceria.

Enquanto contemplava a gigantesca araucária recém-nascida, começou a notar pequenos detalhes que antes lhe escapavam. As gralhas cruzavam continuamente o céu carregando pinhões. Cutias surgiam entre os arbustos para esconder sementes. Esquilos percorriam os galhos. O vento espalhava pinhas maduras pelo chão. Parecia existir uma imensa conversa silenciosa entre todos os habitantes daquela floresta. E o Velho fazia parte dela.

Naquele instante, Erwin compreendeu que o homem não caminhava pelas matas procurando alguma coisa. Também não andava sem destino. Ele estava trabalhando. Fazia um serviço tão antigo quanto a própria floresta. Plantava o futuro. Recuperava a floresta de araucárias que havia sido dizimada pelos tratores da Lumber durante a construção da ferrovia São Paulo-Rio Grande, no trecho entre Porto União, SC, e Marcelino Ramos, RS.

Quando o sol começou a desaparecer atrás das copas, o velho retomou a caminhada sem olhar para trás. Erwin permaneceu imóvel por longo tempo, contemplando a jovem araucária que, embora acabasse de nascer diante de seus olhos, possuía o porte respeitável de uma árvore centenária.

Na volta para casa, o menino encontrou pelo caminho dezenas de pinhões espalhados sobre a trilha. Curvou-se para recolher alguns deles, mas desistiu ao perceber uma gralha-azul observando-o do alto de um galho. Sorriu. Deixou as sementes onde estavam. Pela primeira vez em sua vida, entendeu que nem todo pinhão fora feito para virar comida.

 

 

O Guardião das Araucárias

Depois daquele tempo, ninguém mais tentou descobrir de onde vinha o Velho nem para onde seguia quando desaparecia entre a neblina das margens do Rio do Peixe. Os mais antigos compreenderam que certas perguntas pertencem mais ao coração do que à razão. Não era preciso saber seu nome para reconhecer sua presença. Bastava vê-lo caminhando devagar, o cajado de araucária marcando o compasso dos passos, o chapéu de feltro protegendo-lhe os olhos e o embornal de couro pendendo sobre o ombro.

Durante anos, alguns imaginaram que ali guardasse anzóis, linhas ou iscas. Outros acreditavam que carregasse apenas um pedaço de pão e uma cuia de chimarrão. Nunca houve quem tivesse coragem de perguntar. O Velho seguia seu caminho em silêncio, como se o rio fosse sua única companhia.

Mas havia um detalhe que poucos percebiam. Sempre que parava junto a uma clareira aberta pelo machado ou diante de um barranco onde antigas araucárias haviam sido derrubadas, ajoelhava-se lentamente. Remexia a terra com a ponta do cajado, retirava alguma coisa do embornal e a depositava no pequeno buraco. Depois cobria tudo com folhas secas, levantava-se e prosseguia a caminhada.

Quem o observava de longe mal distinguia seus movimentos. Parecia apenas um velho descansando por alguns instantes. Contudo, quando se aproximavam depois de sua partida, encontravam a terra recém-revolvida.

Alguns diziam que rezava pelos pinheiros abatidos. Outros afirmavam que enterrava pequenas lembranças dos mortos. Os mais velhos apenas sorriam.

— Não mexam — aconselhavam. — A terra sabe o que recebeu.

Somente muitos anos depois compreenderam que, dentro daquele velho embornal, jamais houvera peixes nem ferramentas. Havia apenas pinhões. Centenas deles. Talvez milhares.

O Velho conhecia cada araucária do vale como um pastor conhece seu rebanho. Detinha-se diante das mais antigas, pousava a mão sobre o tronco áspero e permanecia imóvel durante longos minutos. Às vezes parecia ouvir alguma coisa escondida sob a casca grossa. Outras vezes limitava-se a fechar os olhos enquanto o vento percorria lentamente a copa.

As gralhas-azuis nunca demonstravam medo. Ao contrário. Aproximavam-se dele em bandos, pousando nos galhos mais baixos, no cajado e, vez ou outra, até na aba do chapéu.

Os moradores diziam que conversavam. Não com palavras. As aves saltavam de um lado para outro, bicavam alguns pinhões espalhados no chão e levantavam voo. O Velho seguia atrás delas, como se recebesse uma indicação invisível. Era então que retirava novas sementes do embornal.

As gralhas escondiam algumas entre a folhagem. As cutias enterravam outras próximas às raízes. Os esquilos carregavam as menores para lugares onde nenhum homem pisaria. Cada qual fazia sua parte. Como acontecia desde muito antes de existirem cercas, vilas ou escrituras de propriedade.

Meu avô costumava dizer que a gralha-azul era uma espécie de colona da floresta. Escondia pinhões do mesmo modo que os antigos agricultores enchiam os paióis antes do inverno. Guardava mais do que precisava, esquecia parte dos esconderijos e, sem perceber, plantava novas araucárias para os anos futuros.

O Velho apenas acompanhava esse trabalho paciente. Nunca apressava a natureza. Sabia que uma araucária não pertence ao homem que a planta, mas aos netos daquele que talvez nem chegue a conhecê-la adulta.

As décadas passaram como passam os rios: sem fazer alarde. Vieram novas famílias, abriram-se estradas, levantaram-se igrejas, construíram-se pontes e estações rodoviárias. O Vale do Rio do Peixe prosperava, com caminhões e fubicas. As serrarias trabalhavam dia e noite. O cheiro da madeira recém-cortada espalhava-se pelas madrugadas.

Primeiro desapareceram os pinheiros mais grossos. Depois os mais altos. Mais tarde, qualquer araucária servia. As motosserras substituíram os velhos serrotes de dois cabos. Caminhões passaram a levar, em poucas horas, aquilo que antes exigia dias de trabalho com juntas de bois.

Os homens chamavam aquilo de progresso. O Velho continuava caminhando. Toda vez que encontrava uma clareira recém-aberta, demorava-se um pouco mais. Abaixava-se, revolvia a terra e nela depositava um pinhão. Depois outro. E mais outro. As gralhas pareciam compreender sua aflição. As aves multiplicaram-se pelos pinheirais. Cruzavam o céu carregando sementes no bico, escondendo-as entre folhas secas, junto a pedras cobertas de musgo ou ao pé dos barrancos.

As cutias faziam o mesmo. Era como se toda a floresta houvesse decidido trabalhar em silêncio para reparar uma perda que os homens ainda não percebiam.

Certa manhã chegaram ao vale homens vindos de longe. Traziam mapas enrolados, aparelhos de medição e projetos ambiciosos. Haviam adquirido uma vasta área de pinheiral para transformá-la em madeira serrada. Os moradores comentavam que dali sairia riqueza suficiente para várias gerações.

As árvores começaram a cair antes mesmo do nascer do sol. Cada estrondo parecia atravessar o vale inteiro. As gralhas levantavam voo em bandos desordenados. Os veados e as lebres desapareciam nas capoeiras. Até o rio parecia correr mais pesado.

Numa dessas manhãs, o responsável pela derrubada encontrou um velho parado diante da mata. Apoiava-se tranquilamente no cajado de araucária, como se aguardasse alguém. O engenheiro cumprimentou-o com educação.

— O senhor mora por aqui?

O Velho apenas sorriu. Depois fitou demoradamente as araucárias marcadas com tinta vermelha. Por fim disse:

— Ainda há tempo.

O engenheiro olhou em volta sem compreender.

— Tempo para quê?

O Velho passou a mão sobre o tronco de um velho pinheiro.

— Para deixar em pé aquilo que levará quase um século para voltar.

O homem respondeu com cordialidade. Explicou que tudo estava autorizado, que as árvores eram propriedade legítima da empresa e que outras seriam plantadas depois. O Velho escutou sem interrompê-lo. Quando o engenheiro terminou, ele limitou-se a inclinar a cabeça, como quem lamenta uma decisão já tomada. Em seguida retomou lentamente sua caminhada pela margem do Rio do Peixe.

As motosserras voltaram a cantar. O barulho estridente continuou durante semanas.

A cada manhã surgiam novas clareiras onde, poucos dias antes, o vento encontrava abrigo nas copas das araucárias. O cheiro da resina misturava-se ao da terra revolvida, e os caminhões desciam o vale carregando toras tão grossas que pareciam colunas arrancadas de uma antiga catedral.

O Velho não voltou. Pelo menos foi o que muitos imaginaram. Na verdade, continuava percorrendo as margens do Rio do Peixe, quase sempre ao cair da tarde, quando os trabalhadores já haviam regressado para casa. Caminhava lentamente entre os tocos recém-cortados, fincava o cajado na terra e retirava do embornal mais alguns pinhões. Depositava-os um a um, cobrindo-os com folhas de grimpa e um pouco de húmus escuro.

Logo depois surgiam as gralhas-azuis. Vinham primeiro duas ou três. Em seguida dezenas. Saltavam entre os troncos derrubados, recolhendo parte das sementes e escondendo-as em lugares diferentes, como faziam desde tempos imemoriais. Algumas voavam para muito longe. Outras enterravam os pinhões ao pé de pedras, junto a barrancos ou entre capões ainda intactos.

As cutias continuavam o trabalho. Escavavam pequenos buracos, escondiam as sementes e desapareciam. Muitas jamais voltavam para buscá-las. Assim a floresta, silenciosamente, preparava o próprio futuro.

Meu avô dizia que Deus nunca confiou a sobrevivência das araucárias aos homens. Entregou-a às gralhas, às cutias e, talvez, àquele velho caminhante que parecia conhecer cada nascente, cada curva do rio e cada pedaço de terra fértil onde um pinhão pudesse criar raízes.

Então vieram as chuvas. Primeiro foram pancadas passageiras. Depois uma garoa persistente. Por fim, dias inteiros de água grossa caindo sobre a Serra do Espigão.

Os riachos engrossaram. As sangas tornaram-se córregos. Os afluentes desceram barrentos em direção ao Rio do Peixe. Sem a proteção das antigas raízes, muitas encostas começaram a ceder. A terra deslizou lentamente, carregando pedras, galhos e barro para dentro do rio. As águas, impedidas de seguir seu antigo caminho, procuraram outros.

As máquinas precisaram ser abandonadas às pressas. Os caminhões já não conseguiam passar, nem com correntes nas rodas. Pontes improvisadas desapareceram sob a correnteza.

Não foi um castigo. Foi apenas a natureza obedecendo às suas próprias leis.

Quando a enchente finalmente baixou, restavam barrancos desfeitos, estradas interrompidas e um imenso silêncio. Uma locomotiva com dezenas de vagões rolou morro abaixo, até o Rio do Peixe, amassando os pés de sarandis na margem. A água havia corroído a base da terra abaixo da camada de brita.

O engenheiro voltou meses depois. Percorreu a área devastada esperando encontrar apenas lama endurecida. Encontrou outra coisa. Milhares de pequenas mudas de araucária começavam a romper o solo. Algumas tinham apenas poucos centímetros. Outras já exibiam delicadas coroas verdes apontando para o céu.

Os técnicos registraram o fenômeno com naturalidade. Explicaram que as sementes haviam permanecido enterradas durante os últimos meses, escondidas pelas gralhas-azuis e pelas cutias, aguardando as condições adequadas para germinar.

Era uma explicação correta. Mas incompleta. Os moradores antigos ouviam aquelas conclusões sem discutir. Depois sorriam discretamente.

— Claro que foram as gralhas... — diziam.

— Mas alguém precisou lhes ensinar onde plantar.

O tempo continuou correndo como corre um rio. Novos pinheirais cresceram. As árvores derrubadas transformaram-se em lembrança, depois que o abate foi proibido pelo Ibama.

As crianças que brincavam às margens do Rio do Peixe tornaram-se pais, depois avós. Muitos dos que juravam ter visto o Velho partiram também, levando consigo suas histórias. Mesmo assim, de tempos em tempos, alguém ainda afirmava encontrá-lo.

Um pescador dizia tê-lo visto caminhando na neblina de uma manhã de inverno. Um ferroviário garantia que o observara atravessando lentamente a velha ponte rasa de madeira, em Luzerna, pouco antes de mais uma grande enchente.

Um lenhador contou que, ao descansar junto de um capão de araucárias, encontrou um velho enterrando pinhões. Quando se aproximou para cumprimentá-lo, não havia mais ninguém. Restava apenas um pequeno monte de terra recém-remexida. E uma gralha-azul pousada no galho mais baixo de uma árvore.

Os anos transformaram a lenda em memória. A memória tornou-se tradição. E a tradição continuou caminhando de boca em boca, como o próprio rio. Até que, muitas décadas mais tarde, estudiosos da floresta passaram a comparar fotografias antigas com imagens aéreas do Vale do Rio do Peixe.

Queriam compreender como os pinheirais haviam conseguido se recuperar em determinadas áreas. Foi então que perceberam uma curiosidade. As araucárias mais jovens não estavam distribuídas ao acaso. Formavam uma longa faixa acompanhando o curso do rio, desde Porto União até as proximidades do Rio Uruguai. Exatamente o trecho de 380 km da ferrovia São Paulo-Rio Grande, onde a empresa Lumber explorava o comércio de madeira de lei, especialmente a araucária, 15 km de cada lado dos trilhos de 1 metro de bitola. A Lumber pertencia ao empresário norte-americano Percival Farquhar, dono da Brazil Railway Company, que, em 1916, dominava quase a metade das ferrovias brasileiras: 11.064 km do total de 23.491 km.

Era quase o mesmo caminho que os antigos atribuíam ao Velho do Rio do Peixe. Os pesquisadores falaram em dispersão natural das sementes. Os biólogos destacaram a extraordinária importância das gralhas-azuis para a regeneração da Mata de Araucárias.

Tinham razão. Mas, nas pequenas comunidades espalhadas pelo vale, ninguém pareceu muito surpreso. Os velhos apenas repetiram o que seus pais e avós já diziam havia gerações:

— As gralhas sempre souberam plantar.

Só nunca trabalharam sozinhas. Sempre houve mãos invisíveis guiando seus voos e seus bicos, como se a própria floresta lhes ensinasse onde esconder cada pinhão. E, segundo os mais antigos, essas mãos tinham rosto, passos lentos e uma longa barba branca.

Desde então, quando o inverno se aproxima e o céu permanece fechado durante muitos dias, ainda há quem olhe demoradamente para a margem do Rio do Peixe. Uns esperam encontrar um velho de barba branca, chapéu de feltro e cajado de araucária. Outros dizem que jamais o verão, porque ele só aparece para quem aprendeu a escutar o silêncio das matas. Há ainda os que afirmam nunca ter visto homem algum. Apenas uma gralha-azul cruzando o céu com um pinhão no bico.

Talvez todos estejam certos. Porque as lendas mais antigas nunca morrem. Continuam vivas nas árvores que alguém plantou sem esperar desfrutar de sua sombra e de suas sementes, no voo paciente das gralhas-azuis e no rumor das águas do Rio do Peixe.

E dizem os antigos que, se algum dia todas as araucárias desaparecerem do vale, também desaparecerá a lenda do Velho do Rio do Peixe. Mas, enquanto houver uma única gralha escondendo um pinhão na terra e uma única araucária lançando sementes ao vento, ele continuará caminhando.

Não para guardar o rio. Mas para lembrar aos homens que nenhuma floresta nasce para uma geração apenas. Ela pertence, ao mesmo tempo, aos que vieram antes de nós e àqueles que ainda nem nasceram.