MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

O STF EM BUSCA DO PENTA - Por Félix Maier

 

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O STF EM BUSCA DO PENTA

Félix Maier

Estamos em plena Copa do Mundo, com 48 seleções. O brasileiro é pentacampeão e está em busca do cada vez mais longínquo hexa. Com o jogador Neymar ainda dando trato na lanternagem (chapeação), no estaleiro de Mister Ancelotti, fica difícil ter ânimo.

Se alguém tivesse dito, trinta anos atrás, que o brasileiro trocaria as discussões sobre Ronaldo e Zidane por debates inflamados sobre inquéritos, competências constitucionais e embargos de declaração, provavelmente seria encaminhado para avaliação psiquiátrica. O brasileiro daquela época ainda era um sujeito relativamente simples. Discutia se Zico tinha sido melhor que Sócrates, se o Fusca subia mesmo a serra em marcha à ré e se a sogra era mais perigosa do que a inflação.

Hoje, não. Hoje o brasileiro acorda, pega o celular e vai imediatamente verificar se houve alguma operação policial, alguma decisão monocrática do STF, alguma nota oficial, algum vídeo seletivo vazado pelo IntercePT sobre Flávio Bolsonaro e o Caso Master, ou mais alguma interpretação criativa da Constituição feita pelo STF.

A política nacional, que sempre teve vocação para o teatro, descobriu finalmente sua verdadeira natureza esportiva. E foi aí que surgiu, nas mesas de bar, nos grupos de WhatsApp e nos almoços de domingo que acabam em briga, a ideia de que, enquanto a Seleção sonha com o hexa, existe outro campeonato sendo disputado em Brasília.

Não se trata de uma competição reconhecida pela FIFA. Não há bandeirinhas, nem gandulas, nem patrocínio da cerveja oficial. Mas existe torcida, existe narrador, existem comentaristas especializados e, sobretudo, existe um placar. E capinhas para cobrir os ombros de ministros intocáveis, além de servir lagostas fritas e vinho do Porto durante o Supremo Coffee Break, onde o intervalo é vinculante.

Em certos círculos mais irreverentes, começou a circular a tese segundo a qual o Supremo Tribunal Federal estaria em busca do seu próprio penta. Não se sabe ao certo quem inventou a expressão. Provavelmente algum aposentado com tempo livre e criatividade excessiva. O fato é que a ideia pegou, com ajuda de imagem IA.

A essa altura, ninguém mais sabe exatamente onde termina a política e começa a transmissão esportiva. Os comentaristas, que antigamente analisavam esquemas táticos e impedimentos, agora explicam competências originárias, delações premiadas e recursos extraordinários com o mesmo entusiasmo com que João Saldanha explicava a seleção de setenta.

Cada lado possui seus narradores oficiais, suas torcidas organizadas e seus hinos de guerra. Metade do país acredita estar diante dos últimos defensores da democracia. A outra metade está convencida de assistir ao surgimento do Império Galáctico de Toga. E, como acontece desde o Descobrimento do Brasil, os dois lados têm absoluta certeza de que Deus, a História e o bom senso torcem exclusivamente por eles.

No centro desse Fla-Flu nacional encontra-se a família Bolsonaro, que acabou adquirindo, para seus apoiadores, um status semelhante ao dos Bourbons franceses, dos Romanov russos ou dos personagens de novela que precisam sofrer noventa capítulos antes da redenção final.

Há famílias que produzem médicos. Outras produzem engenheiros. Os Bolsonaro, por alguma peculiaridade genética ainda não estudada pela ciência, especializaram-se em produzir políticos. São cinco: Jair, Flávio, Eduardo, Carlos e Renan. No rastro desse clã da extrema direita, como repete toda a extrema esquerda, cacarejando igual galinha que botou ovo no galinheiro, o Brasil produziu um fenômeno raro e sofisticado: a capacidade de monopolizar simultaneamente as paixões e os ódios de cinquenta por cento da população.

Em qualquer outro país, uma família dessas já teria rendido pelo menos três minisséries da Netflix, um documentário da BBC e um musical na Broadway. Por ora, o clã Bolsonaro se contenta com Dark Horse, o filme que move paixões a favor e contra Bolsonaro Pai, e teria recebido dinheiro de Daniel Vorcaro, o Casanova de Trancoso, antigo dono do Banco Master, que ofertou farras nacionais e internacionais para autoridades de todos os matizes políticos, com loiras nórdicas sentadas nos colos de alegres sátiros engravatados.

Os admiradores dos Bolsonaro enxergam perseguição. Os adversários enxergam justiça. Os neutros ou isentões tentam apenas pagar o boleto do condomínio, dando chance ao Ogro de Nove Dedos conseguir o tetra.

Mas, vamos aos fatos. As narrativas eu deixo para a esquerda, que é dividida em duas facções: a esquerda radical, assassina por natureza; e a esquerda light, a que bate palmas para sua irmã mais afoita. E também deixo as narrativas para Mato Verde, o Glenn Greenwald do IntercePT, que desde a Vaza Jato já demonstrou que defende os petralhas e que no momento está assando em fogo brando Flávio Bolsonaro mediante vazamentos seletivos sobre o Caso Master. Coisa de cretino petista, não de jornalista, já que há suspeitos também da extrema esquerda e do Centrão, como Jaques Wagner, Davi Alcolumbre e Ciro Nogueira. A fonte de Mato Verde seria novamente um hacker, como foi no Vaza Toga, que enterrou a Lava Jato e ajudou a descondenar o Ogro de Nove Dedos? Ou foi algum membro da Gestapo do PT na PF (by Tuma Jr.)?

Aos fatos, pois não. Todo brasileiro de bom senso já se deu conta de que a Justiça no Brasil está no mesmo patamar da Venezuela de Chávez e Maduro. Esse alto nível de democracia, propalada pela esquerda nacional, foi construída aos poucos, com a sucessão dos governos petistas. Assim, nesses vinte e poucos anos de PT, houve o aparelhamento petista de todos os órgãos públicos, a começar com o #InstitutoLula, antigo STF, onde a maioria dos togados não são juízes, mas líderes do PT. Seria o famigerado Sistema Toga Petralha, como alguém já definiu muito bem. Além das Cortes de Justiça, foram também aparelhados o IBGE, as agências reguladoras, as estatais, os bancos públicos, os quarenta ministérios com aspones com gordas DAS distribuídas entre a companheirada.

Com o STF aparelhado pelo PT, foi fácil condenar e prender Jair Messias Bolsonaro e sua entourage estrelada por um golpe de Estado que nunca existiu. Basta ver quem foram seus algozes, da Primeira Turma do STF: 3 indicados por Lula e 1 por Temer, o qual vale por 10 petistas. O único a se comportar como juiz e não como líder do PT foi Luís Fux, indicado por Dilma.   

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Uma coisa é certa neste País onde até o passado é incerto: o STF está em busca do seu penta em particular. E tem pressa. Muita pressa.

O STF já condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro a mais de 27 anos de prisão. A gana é derrotar o bolsonarismo, como se vangloriou o ex-ministro Luís Roberto Barroso, o Boca de Veludo, após a vitória de Lula, em 2022. Alexandre de Moraes pede para seus auxiliares serem criativos.

Em 16/06/2026, o Instituto Lula condenou o filho de Jair Bolsonaro, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, a mais de 4 anos, por melar o processo de seu pai e por traição à Pátria, já que se mandou para os EUA para cometer tais crimes junto a Donald Trump, segundo afirma o Sistema Toga Petralha. Ridículo: Eduardo pode ter contatos com a equipe de Trump, sem serem íntimos, jamais com o Laranjão. Trump, a rigor, não consegue distiguir Flávio de Eduardo, como foi comprovado na reunião do G7, na França: Prenderam o Bolsonaro Jr., que estava indo bem nas pesquisas. Essa condenação rendeu o bicampeonato da perseguição do STF.

Do jeito que a perseguição contra a direita em geral e contra os Bolsonaro em particular anda, logo o candidato à presidência Flávio Bolsonaro, o 01, também poderá ser decapitado pelo Instituto Lula, seja devido ao Caso Master, seja por qualquer motivo inventado pelos Beria da Primeira Turma. Lavrenti Beria, chefe do serviço secreto de Stálin, foi genial: mostre-me o homem e eu encontrarei o crime! Seria o tri do criativo STF.

Mas, pode chegar ao tetra, se pegarem também Carlos Bolsonaro, vereador pelo RJ e candidato ao Senado por Santa Catarina. E o penta? O penta do STF seria retirar da vida pública o caçula do clã Bolsonaro, Jair Renan Bolsonaro, vereador em Balneário Camboriú, SC.

Só não há guilhotina para os Bolsonaro porque não estamos na Revolução Francesa. Também não há forca porque o Velho Oeste americano fechou as portas há muito tempo – embora o Ogro de Nove Dedos tenha dito que Flávio Bolsonaro merece ir para a forca. E fogueiras para essa gente da extrema direita igualmente não existem, porque a Inquisição virou capítulo de livro de História.

Enquanto isso, o Brasil segue em busca do hexa. Um dia ele virá, quando Deus e a tabela permitirem. Talvez agora, com Mister Ancelotti mascando chicletes com mais vigor que cavalo ruminando cucuia, enquanto Neymar Jr. segue cuidando da lataria no estaleiro. Talvez só no futuro, quando o Brasil novamente tiver uma constelação de astros como Pelé, Garrincha, Didi, Vavá, Romário e Ronaldo Fenômeno. 

Pode ser uma imagem de texto que diz "RELAXA, NEYMAR... AGORA VOCÊ É MINHA RESPONSABILIDADE! RUMO AO. HEXA RASIL TCHUCO NÉ, PAIZÃO? BRASIL ANCELOTTI MANUAL DO ٧ FISIOTERAPIA DESCANSO POUCO TREINO MUITO CARINHO ELOGIOS DIÁRIOS CLARO... LIBERDADE COM RESPONSABILIDADE ALGUNS TÉCNICOS TÊM TÁTICAS. OUTROS TÊM CARINHO. ATENÇÃO FRÄGIL CRAQUE EM RECUPERACÃO 国国企州" 

O Ogro de Nove Dedos, por sua vez, persegue o tetra. E, para tanto, armou-se com centenas de bilhões de reais em programas e promessas de forte apelo populista: Pé de Meia, Gás do Povo, Luz Grátis, isenção do Imposto de Renda para salários de até cinco mil reais, aceno ao fim da jornada 6x1 – além de liberação de verbas milionárias para emendas parlamentares. E os isentões, acometidos mais uma vez por uma súbita alergia ao nome Bolsonaro, talvez acabem ajudando o Ogro a erguer mais essa taça, o tetra. 

Pode ser uma imagem de texto que diz "A SUBSTÂNCIA Gásdo GásdoPovo Gás do Povo á de Meia Luz Grátis Fim Fimjornada Fim jornada 6x 6x Rumo ao Tetra" 

Já o STF sonha com o penta. Mas, como em toda campanha vitoriosa, antes será preciso conquistar o tri e o tetra. Quando isso ocorrerá, nem Deus sabe. Mas os intocáveis de que fala Romeu Zema em suas Catilinárias das Alterosas provavelmente têm uma ideia do calendário. Afinal, em certos campeonatos, os árbitros parecem jogar adiantados em relação ao restante dos jogadores.


terça-feira, 16 de junho de 2026

A Gestapo do PT na PF - Por Félix Maier


A Gestapo do PT na PF

Félix Maier
Há delações premiadas que são rejeitadas por falta de provas. O criminoso prometeu novidades, mas não mostrou nada de novo, a PF e a PGR nem dão bola. É o correto.
Mas há também delações que não prosperam por excesso de provas. Ou excesso de autoridades, incluindo os "intocáveis" togados a que se referiu Romeu Zema em suas Catalinárias das Alterosas. Esse parece ser o caso do Banco Master, cuja delação emperrou por excesso de autoridades na lista negra, que precisam ser blindadas a qualquer preço.
Por que não avançam as ações envolvendo autoridades, tanto no caso do INSS (em que um irmão e um filho do Ogro de Nove Dedos estão envolvidos), quanto no Banco Master, em que aparecem autoridades de todas as cores ideológicas, desde presidente da República, ministros, senadores - além de togados do STF farreando numa pingaiada em Londres?
Ora, ora, ora... As ações não avancam na Justiça porque o Brasil foi tomado pelo Sistema Toga Petralha, que é o aparelhamento petista de todos os órgãos públicos, a começar com o #InstitutoLula, vulgo STF, além do STJ, PF, IBGE, Anvisa etc. O Brasil está exatamente igual à Venezuela de Chávez e Maduro. Por isso foi tão fácil prender Jair Messias Bolsonaro, para deixar o caminho livre ao Ogro de Nove Dedos, em busca do tetra. Bienvenidos a Brazuela!
Romeu Tuma Jr. já explicava no livro "Assassinato de Reputações" (veja o resumo) como ocorre o modus operandi da "Gestapo do PT na PF", onde impera também a máxima de Lavrenti Beria, o chefe do Serviço Secreto de Stalin: "Mostre-me o homem e eu encontrarei seu crime".
Obviamente, a ação dos Berias tupiniquins só atinge personalidades da oposição ao PT, como políticos, jornalistas e empresários, ligados ao liberalismo e ao conservadorismo. Flavio Bolsonaro está aí para comprovar os vazamentos seletivos e criminosos feitos pelo IntrcePT contra ele, só ele. Se só personalidades de direita estivessem envolvidos em corrupção no caso do Master, pode apostar que a delação de Vorcaro já teria sido aceita com espalhafato pela PF e pela PGR.
Se até agora essa delação do Vorcaro não avançou, é porque os intocáveis da República precisam ser blindados de toda forma, especialmente os togados do STF. Nesse sentido, não se pode negar: a PF e a PGR estão fazendo um trabalho impecável dentro do Sistema Toga Petralha. Parabéns!

sábado, 13 de junho de 2026

Tia Mati, a mulher que carregava a casa nas costas - Por Félix Maier

 

 

Tia Mati, a mulher

que carregava a casa nas costas

 Félix Maier

Se existe um Céu para as mulheres fortes, para aquelas que viveram mais para os outros do que para si mesmas, estou convencido de que tia Matilde Preis Rockenbach, nossa Tia Mati, já encontrou por lá um cantinho especial.

Alta, bonitona, ela era casada com Eleutério Rockenbach, um tipo galã à la Richard Burton. Sempre bem-humorado, ele tinha uma gargalhada que se ouvia a 1 km. Mas ai de quem ousasse chamá-lo de Eleutério. O nome, para todos os efeitos, parecia proibido. Ele era simplesmente o Leo. E pronto. Insistir em Eleutério era comprar encrenca na certa.

Nos anos cinquenta, quando nós, os seis irmãos (Félix, Sílvia, Fernando, Válter, Ivone e Günther) íamos chegando ao mundo em fila indiana — uma verdadeira escadinha entre 1950 e 1957 —, Tia Mati tornou-se uma extensão da nossa família. Minha mãe, Marina Preis Maier, casada com Hilário Maier, passava pelos inevitáveis períodos de resguardo, e lá vinha Tia Mati, vizinha na Linha Nogueira, de Luzerna, SC, para ajudar nos serviços da casa. Além dos avós maternos, também éramos vizinhos (de cerca) de Pedro Dagostin, casada com tia Josefina Preis, e dos avós paternos, José Maier e Escolástica Freiberger Maier, com terras depois dos Fahen.

E haja serviço. Seis crianças em sete anos não eram propriamente uma família, mas uma pequena fábrica de fraldas. Fraldas de pano, naturalmente, que precisavam ser fervidas, ensaboadas, esfregadas, enxaguadas e penduradas no varal, se fizesse sol, ou secadas a ferro de passar com brasas vivas em seu interior, se chovesse. Energia elétrica, nem pensar!

Hoje, quando vejo uma máquina de lavar moderna fazer tudo sozinha, penso em Tia Mati. E imagino quantas vezes aquelas mãos femininas, cansadas de tanto esfrega-esfrega, devem ter desejado possuir um pouco da tecnologia dos tempos atuais.

O irmão de Tia Mati, Arno Preis, ainda seminarista, aproveitava as férias para ajudar na lavoura dos Maier. Era ativo, trabalhador, parecia movido a corda. Carpindo inços na roça do milharal, ninguém imaginaria o rumo que a vida lhe reservaria. Certa feita, tio Arno mandou de presente um cavaquinho para mim e um vestido para minha irmã Sílvia. Minha irmã teve mais sorte, o cavaquinho deve ter-se perdido em alguma baldeação da maria-fumaça. Anos mais tarde, tio Arno se envolveu com a organização terrorista ALN de Carlos Marighella e acabaria morto em 1972, numa troca de tiros, após matar um PM e ferir outro em Goiás. Foi um trauma para toda a família. Poliglota, tradutor de livros, muito inteligente, com voz de tenor, tio Arno tinha o sonho de ser embaixador.

Mas a vida no interior tinha dessas ironias que nem os romances conseguem explicar. Recordo-me especialmente de um episódio que me marcou. Eu devia ter cinco ou seis anos quando minha mãe Marina e Tia Mati resolveram visitar conhecidos na Linha Pitoca. Havia, depois das terras de meu pai Hilário, um trecho de caminho que penetrava na mata fechada.

Na volta para casa, as duas irmãs saíram talvez um pouco tarde. E dentro do mato o crepúsculo chega mais cedo. As árvores parecem engolir a luz. O caminho desaparece. A escuridão toma conta. Minha mãe e tia Mati perderam-se.

Como conseguiram passar a noite naquele mato, ninguém sabe ao certo. Talvez sentadas sobre troncos. Talvez rezando. Talvez apenas esperando o amanhecer.

Lembro-me delas voltando logo cedo. Os vestidos rasgados. Os braços cheios de arranhões. Os pés machucados. E meu pai recebendo uma senhora descompostura.

— Hilário, tu não foste procurar a gente!

Mas como poderia? Para ele, se não tinham aparecido em casa à tardinha do dia anterior, era porque certamente haviam dormido na casa da amiga na Linha Pitoca. Até hoje me lembro da bronca que meu pai levou, sem culpa nenhuma.

Quando completei sete anos, em 1957, comecei a estudar no Grupo Escolar Padre Nóbrega, em Luzerna, e passei a morar na casa do Opa (avô) Edmundo Preis, meu padrinho de crisma, e da Oma (avó) Paulina Back Preis. Tinha aula de segunda a sábado de manhã, quando havia trabalhos manuais, especialmente com uma serrinha em arco e tabuinha de cedro. Cheguei até a construir um presépio inteiro, que foi pintado por minha mãe. Assim, depois da aula de sábado, eu subia até minha casa na Linha Nogueira e só voltava a Luzerna na segunda-feira, indo pra aula e depois para a casa dos avós. Na metade do ano, meu pai vendeu a terra da Linha Nogueira, de 8 alqueires, e comprou um terreno de 8 alqueires na Linha Pinheirinho, em Herval d'Oeste, distante uns 5 km da escola, distância parecida com a da Linha Nogueira. A vantagem, morando em Herval, é que havia 3 km a menos para amassar o barro em dia de chuva, aproveitando a linha férrea e se equilibrando, andando sobre os trilhos.

Os avós tinham casa com varanda e quintal, árvores frutíferas no lote e, perto do barranco do Rio Limeira, onde deságua o Rio Nogueira, eles tinham um pequeno terreno onde havia uma vaca leiteira e alguns porcos. O Rio Limeira deságua no Rio do Peixe, em Luzerna, justo onde existia uma romântica ponte coberta, do tipo encontrado no filme As Pontes de Madison, com Clint Eastwood e Marryl Streep.


Nessa casa em Luzerna, também moravam Tia Mati e Tia Helga. O tio materno caçula, Renato Preis, estudava no seminário de Agudos, SP.

Tia Mati era trabalhadora, mas bastante arteira. Certa vez, depois que o Opa abateu um porco, ela embrulhou cuidadosamente o rabo do animal em papel fino e me encarregou da entrega.

— Leva isto para o Kratochvil.

O rapaz trabalhava na empresa eletromecânica da família e era apaixonado por ela. O detalhe é que Tia Mati já estava namorando o Leo. Fui, inocente, cumprir a missão. Até hoje não sei qual foi a cara do pobre Kratochvil ao abrir o embrulho.

Em Luzerna, cheguei a segurar vela para os namorados Leo e Mati pelo menos uma vez no Cine Central, do Adolfo Knolseisen, o Adolfinho. Com certeza, eu não era uma companhia bem-vinda, mas ganhei um enorme sorvete no final do filme, muito gelado, de dar espetada nos olhos.

Naquele mesmo cinema, que tinha um bar e alguns produtos para venda, eu comprava, às vezes, cigarros Belmont para o tio Leo. Além do sorvete, havia um pão sovado que era uma delícia, como era também deliciosa a bala de coco do Emílio Altmann, vendida na Loja Bonatto.

Bacana era ver a Tia Mati, na sala da casa ou no quarto, apertando a cinta larga na tia Helga, ficando com cintura de vespa. Ou vice-versa. Um sacrifício que as moças se submetiam na época para se tornarem mais belas.

E, já que estamos em matéria de confissões, devo reconhecer que fui também o responsável por um pequeno escândalo doméstico.

A casinha, para as necessidade fisiológicas, ficava distante uns 30 metros da casa do Opa Preis. Assim, durante a madrugada, a preguiça falava mais alto. Então eu fazia minhas necessidades da varanda mesmo. Sem saber que o líquido caía exatamente na entrada do porão. Não sei quem descobriu o crime. Talvez a Oma. Mas ela era muito discreta, teria vergonha para chamar minha atenção. Assim, quem me aplicou a maior mijada — como se diz no Exército — foi Tia Mati. A Oma, coitada, jamais iria ralhar com um de seus netos preferidos.

Anos depois, os Preis migraram para Maringá. Lá foram o Opa, a Oma, Tia Mati, Tia Helga e tantos outros parentes, como a tia Ana (casada com Silvério Preis, eram primos em primeiro grau) e tia Adelina (casada com Kuniberto Hoepers). Os tios Bruno e João Preis já moravam lá há algum tempo. Na época, João Preis era gerente da Transportadora Maior, em Maringá. Posteriormente, ele criou sua própria empresa, Interpreis, que possui várias filiais no Paraná, além da matriz em Maringá. O empresário João Preis, falecido em 2025, foi deputado estadual pelo Paraná e é autor do livro Amor e ideais - Chamas que não se apagam.

Por desígnios celestes, Maringá acabou tornando-se minha cidade de fim de semana. Quando deixei o seminário franciscano de Agudos, SP, em 1969, passei a servir o Exército em Apucarana, na 4ª. Companhia de Infantaria, Soldado 78 Maier. Tio João Preis, esperto, jogou a sorte no 78 e conseguiu uma grana extra. Nas folgas de fim de semana, quando não estava de serviço no quartel, era para Maringá que me mandava, seja viajando de ônibus pela Viação Garcia, seja viajando na maria-fumaça. Me lembro passando por várias cidades, de Maringá a Londrina, como Jandaia do Sul, Mandaguari, Marialva, Arapongas, Cambé, Rolândia, onde havia Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras. Não sei onde foram parar os nossos filósofos, nem os cientistas, nem os letrados...

Maringá era minha segunda cidade, cidade-dormitório de fins de semana, a cerca de 60 km de Apucarana. Ali estavam os avós. Ali estavam os tios João, Bruno e Leo, que me levavam para passear no Clube Teuto-Brasileiro, onde eles jogavam pôquer. Ali estava Tia Mati. E também o pequeno primo Wagner, filho de Mati e Leo, que também tinham a filha Simone. Assim que eu chegava à casa do Opa, onde eu tinha uma cama desmontável para dormir à noite, não demorava muito para aparecer aquele menino educado, inteligente e estudioso. Opa Preis e Tia Mati eram vizinhos de cerca.

— Vamos jogar dama? — vinha o Wagner com o jogo nas mãos.

Ou então o jogo de tria (ou trilha, ou moinho). Às vezes eu deixava o garoto vencer. Não por piedade. Mas para que ele não perdesse o gosto pelo jogo e deixasse de me convidar para mais uma peleia quando eu fosse a Maringá.

Anos depois, quando nasceu meu filho, escolhi para ele o nome Wagner. Wagner dos Santos Maier. Foi uma homenagem. Eu acho que aquele menino de Maringá, hoje agrônomo trabalhando em Vilhena, RO, aprovaria a escolha...

Em todo o Norte do Paraná, na época, era grande a colônia japonesa, de sorte que os ônibus da cidade de Maringá tinham o destino escrito em português e japonês. No quartel, onde eu servi em Apucarana, entre 120 soldados recrutas, havia mais de 20 de origem japonesa. Muito bons judocas.

Em Maringá, eu também fazia longas caminhadas com o Opa Preis. Saíamos da Rua Fernandes Vieira, onde ele morava, atravessávamos a Avenida Cerro Azul, passávamos pelo cemitério arborizado e então seguíamos em direção ao aeroporto. Ele gostava muito de caminhar. Inclusive no cemitério, o que no início achei estranho. Mas, o local era muito limpo, arborizado e florido.

Numa dessas voltas, tive uma brilhante ideia. Paguei uma dose de cachaça para o avô. Havia esquecido de que ele havia lutado para vencer o vício, que havia causado antigamente sérios transtornos para sua família. Quem me passou um sabão monumental foi o Tio Leo. E com toda razão. Fui um boboca.

Poucos anos antes de eu servir em Apucarana, uma tragédia quase destruíra a família de Tia Mati. Tio Leo, Tia Mati e minha prima Carla (filha da tia Helga) haviam sofrido um grave acidente dentro de um Fusca, na BR. Sobreviveram por milagre. Tia Mati teve braço e clavícula quebrados. Carla escapou por pouco. E o Tio Leo sofreu traumatismo craniano, nunca mais se recuperaria completamente. Quem havia socorrido os feridos na Santa Casa de Misericórdia, em Apucarana, foi o capitão Ribamar, médico do Exército, que também servia na Unidade de Apucarana.

Foi então que apareceu a verdadeira grandeza de Tia Mati. Sem reclamações. Sem discursos. Sem autopiedade. Assumiu a casa como pai e mãe, já que tio Leo ficara praticamente incapacitado. Além de criar os filhos Wagner e Simone, Tia Mati trabalhou. Meu Deus, como ela trabalhou!

Costurava praticamente dia e noite. Vestidos. Calças. Camisas. Jaquetas jeans, para jovens, com etiquetas coloridas costuradas nas costas, como Harley Davidson, Coca-Cola, caveiras, ícones comerciais e de rock, o que então era moda.

Tudo passava pelas mãos daquela mulher. A máquina de costura Singer cantava madrugada adentro. E foi assim que ela segurou a barra, com o marido quase incapaz. Enquanto muitos homens se orgulham de ter sustentado uma família, eu conheci uma mulher que sustentou praticamente tudo: Tia Mati carregou literalmente a casa nas costas.

Em 1975, já servindo como sargento do Exército no Rio de Janeiro, voltei ao Paraná depois da geada negra que dizimou os cafezais no Norte do Paraná. Foi repeteco do que havia ocorrido em 1955. Passei por Maringá e por Campo Mourão, onde morava tia Helga com sua família: Tio Adolfo Ringwalt e as 4 filhas: Marise (já falecida), Carla, Rosane e Paula Cristina. Paula Cristina é professora de inglês, morou alguns anos nos EUA, onde durante certo tempo Helga também viveu. Atualmente, Helga mora em Maringá, PR.

Tia Mati, Félix, Oma e Opa Preis, Simone (de gravata) e uma “japinha”, Maringá, PR (1975).


Tia Helga Preis e tio Adolfo Ringwalt com as 4 filhas, em Campo Mourão, PR (1975). 

Era uma tristeza de doer o coração. Os tratores arrancavam os cafezais pelas raízes. Parecia um funeral. Os pés de café deram lugar à soja e ao milho, como se vê nos dias atuais.

Mudavam-se as plantações. Mudava-se a economia. Mudava o Norte do Paraná. Mas Tia Mati permanecia a mesma. Firme. Resistente. Bonitona como ela só. Sempre elegante. Sempre lutando.

Mais tarde veio Vilhena, em Rondônia. Wagner, engenheiro agrônomo, estabeleceu-se por lá. Tia Mati também, assim como sua filha Simone. A família reunida outra vez. E isso trouxe alegria aos últimos anos de Tia Mati, a qual, mesmo na velhice, ainda sentia uma saudade sem fim do marido Leo.

Nos últimos tempos, nossas conversas aconteciam pelo WhatsApp. E havia sempre aquela frase, dita numa vozinha doce que ainda hoje aperta meu coração:

— Fêle, estou com muita saudade de você. Vem visitar a gente!

Eu queria. Mas a vida, às vezes, impõe seus próprios cercos. Minha esposa Nice enfrentava a dura recuperação da trombose venosa cerebral sofrida em novembro de 2024. As dificuldades eram muitas. E o tempo, esse velho traiçoeiro, corre mais depressa do que imaginamos. Não houve tempo de rever Tia Mati, que faleceu no dia 6 de junho de 2026, em Vilhena, RO.

E essa talvez seja uma das tristezas que carregarei comigo. Mas certas pessoas não desaparecem, como Tia Mati. Continuam morando em nossas recordações e em nossos corações. No cheiro do sabão de lavar fralda dos sobrinhos. No barulho de uma máquina de costura. Nas brincadeiras. Nas broncas no sobrinho mijão. Nos pequenos gestos.

Tia Mati foi uma dessas mulheres que não aparecem nos livros de História. Mas talvez sejam justamente elas que impedem a História de desmoronar.

Tia Mati carregou a casa nas costas. Carregou a família nas costas. Carregou a vida nas costas. E o fez com dignidade, coragem e amor.

Que Deus a tenha em bom lugar.

Porque, depois de tudo o que Tia Mati fez por tantos, ninguém merece mais descanso do que ela.


sexta-feira, 12 de junho de 2026

Viúva negra - Por Félix Maier

 


Viúva Negra

Félix Maier

Teceu com graça a rede da ilusão,
Com olhos de veludo e doce fala.
Fez do desejo ardente a sua sala,
E do amor disfarçado em servidão.

No leito, coroou-se em sedução,
Depois lançou o fel que a alma abala.
Com riso frio e língua que estala,
Feriu-lhe o brio, a honra e a razão.

Qual viúva negra, astuta predadora,
Do macho faz troféu de curta glória,
Humilha-o até a última hora,

E o deixa ao chão, vencido e sem calor.
E parte, carregando vã memória,
Deixando atrás de si fútil torpor.


quinta-feira, 11 de junho de 2026

A Chuva - Por Félix Maier

 


A Chuva


Félix Maier

       

Durante sete dias e sete noites, a chuva não parou. A água caía do céu como se o firmamento tivesse se rompido por completo. Não era uma chuva comum, dessas que acalmam ou revigoram a terra depois do calor. Era uma ira líquida, uma torrente interminável, como se o próprio Deus, ou alguma coisa muito antiga e ressentida, tivesse despejado sobre o Estado do Rio de Janeiro o conteúdo de mil oceanos.

No primeiro dia, o povo ainda filmava da janela, alegre da vida. Os apresentadores da televisão falavam em evento climático extremo, expressão limpa demais para o que estava começando.

No segundo dia, bairros inteiros ficaram sem luz. Havia vídeos engraçados nas redes sociais, crianças nadando nas ruas de Campo Grande, surfistas tentando deslizar pelas avenidas alagadas da Barra da Tijuca e do Recreio dos Bandeirantes. No terceiro dia, faltou sinal de telefone em quase toda a cidade do Rio. No quarto dia, os helicópteros da imprensa desapareceram dos céus cinzentos. No quinto dia, já não havia previsão do tempo, apenas rumores. Diziam que o mar invadira as galerias do metrô e os túneis do Rebouças, de Santa Bárbara, os de Copacabana, de Noel Rosa, da Grota Funda e o da TransOlímpica. Diziam que dezenas de cadáveres boiavam pela Avenida Brasil, na altura do Complexo da Maré. Diziam que em São Gonçalo um pastor pregava sobre o teto de um ônibus, cercado de fiéis que cantavam hinos dentro d’água até o pescoço.

No sexto dia, até os cães haviam parado de latir. E no sétimo, o Rio de Janeiro parecia uma cidade submersa havia séculos. Caixas d’água de PVC flutuavam carregando famílias inteiras nos subúrbios e na Baixada Fluminense. Geladeiras viradas de lado serviam de barco. Canoas improvisadas feitas de tábuas e boias infláveis cruzavam o que antes eram ruas.

Em alguns bairros, a enchente subira tantos metros que apenas os fios dos postes indicavam onde existira uma avenida ou uma praça. Ninguém mais sabia onde terminava Nova Iguaçu e começava Duque de Caxias. Tudo era um só lago marrom e fétido, coberto de lixo, móveis, cadáveres, brinquedos infantis e garrafas pet, muitas garrafas pet girando lentamente na correnteza.

Em Belford Roxo, uma mulher dera à luz sobre o telhado de uma escola inundada. Em São João de Meriti, um cavalo morto permanecia preso nos fios elétricos, balançando ao vento como um presságio medieval. Em Queimados, homens pescavam tilápias dentro de uma igreja tomada pela água barrenta.

Na serra, a tragédia assumira proporções bíblicas. As montanhas pareciam derreter. Em Petrópolis, Teresópolis, Serra das Araras e Angra dos Reis, encostas inteiras escorriam morro abaixo como manteiga quente. Rochas enormes rolavam esmagando pousadas, carros e casas. Algumas residências deslizavam inteiras pelas encostas, ainda iluminadas pela chama vacilante de velas, como pequenos presépios sendo arrastados para o inferno. A BR-040, que liga o Rio a Brasília, estava interditada em muitos pontos, com lama, pedras gigantescas e água brotando nas montanhas de Petrópolis, em Itaipava, até Juiz de Fora.

O Dedo de Deus, na Serra dos Órgãos, aparecia e desaparecia entre nuvens negras, gigantesco e silencioso, como um profeta cansado observando a ruína dos homens.

Os morros das comunidades cariocas também derretiam, com pedras rolando como se um Ciclope nervoso tivesse acordado de um sono de milênios e resolvesse aprontar das suas. Favelas como a Rocinha, o Morro dos Macacos, o Morro da Providência (com seu Elevador), o Morro de Santa Marta, os Morros do Pavão e do Pavãozinho (com seu Elevador), os Morros da Babilônia e Chapéu Mangueira, o Complexo do Alemão e o Morro do Vidigal praticamente deixaram de existir, tudo vindo abaixo com lama, água, tijolo, madeira, fiações diversas e até os teleféricos. Não era fiação urbana que existia nas favelas do Rio, mas uma tese de doutorado sobre desordem aplicada: décadas de improviso entrelaçadas em cobre, plástico, malandragem e gatonet haviam formado uma civilização aérea tão precária que um único alicate poderia mergulhar metade da cidade nas trevas digitais e elétricas.

No Méier, a água invadia prédios com a impaciência de um cobrador atrasado, escalando escadas e elevadores como se tivesse endereço marcado em cada apartamento.

Na Tijuca, automóveis boiavam de lado, girando lentamente como peixes metálicos exaustos em um aquário enlameado. O Centro transformara-se numa Atlântida improvisada, onde placas, bancas de jornal, mesas de bar e lixeiras navegavam sem rumo e sem capitão.

Em Copacabana e Ipanema, ondas barrentas atravessavam avenidas e calçadas, carregando consigo árvores arrancadas dos morros, geladeiras, motocicletas e o destino de milhares de desconhecidos. Os morros do Cantagalo e Pavão e Pavãozinho não existiam mais.

O Leblon perdeu suas esquinas sob uma massa escura que misturava água, pedras, galhos e toda espécie de detrito urbano. Com o oceano invadindo o continente, a Lagoa Rodrigo de Freitas transbordara e a lama subia por andares inteiros, entrando pelas janelas como uma visita monstruosa que não precisava tocar campainha. Sofás, televisores, portas, bicicletas e pedaços de telhado passavam flutuando diante de varandas atônitas.

Alguns observavam tudo em silêncio, incapazes de compreender se aquilo era uma enchente ou uma lenta dissolução da cidade. Sirenes já não gritavam mais, helicópteros deixaram de riscar o céu pesado e as luzes haviam desaparecido bairro após bairro.

Era como se o Estado do Rio de Janeiro tivesse sido entregue, como castigo, a forças antigas e mal-humoradas da natureza. E no meio daquele cenário apocalíptico, a chuva continuava caindo com uma serenidade insultante. Era como se, depois de destruir tudo, o dilúvio ainda estivesse apenas começando.

Na capital, o caos tinha algo de grotesco. Na Barra da Tijuca, rapazes musculosos, cobertos de tatuagens e fantasiados de MCs de funk, com grossas pulseiras e correntes de ouro no pescoço, gritavam nas varandas em crise de abstinência. Os motoboys haviam desaparecido havia dias. Não chegava cocaína, não chegava maconha, não chegava fast food. Os fortões choravam abraçados a potes de whey protein molhados, enquanto belas influencers digitais com botox e olhos espichados faziam transmissões ao vivo cada vez mais desesperadas.

Uma dessas influencers permaneceu onze horas seguidas transmitindo da cobertura de um prédio alagado em Jacarepaguá, até a bateria sobressalente acabar. Seu último vídeo mostrava apenas a chuva batendo nos vidros e chegando a seus pés, e sua voz repetindo, já rouca:

— Gente… isso não pode estar acontecendo…

A internet morreu poucos minutos depois. Sem sinal, sem GPS, sem bancos, sem zap, sem Instagram, sem Pix, o Rio de Janeiro retornou à Idade da Pedra.

Foi nesse cenário que dois homens subiam os degraus escorregadios do Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista. A água já invadira parte do terreno, e o velho prédio restaurado das cinzas de gigantesco incêndio surgia entre a tempestade como um navio fantasma.

Um deles era Francisco, católico de longas missas, terços gastos em muitas procissões e imagens de santos espalhadas pela casa, no Méier. Ex-professor de História, viúvo havia três anos, carregava no rosto uma tristeza mansa que a idade transformara em serenidade.

O outro chamava-se Calvino. Ex-policial militar, solteiro, morador do Grajaú, convertido fervoroso da Assembleia de Deus, presbítero do Pastor Jonas, tinha voz de trovão e uma Bíblia cheia de marcações fluorescentes. Falava das Escrituras como quem segura uma espada. Seu sonho era ter sua própria igreja, em Quintino, ao lado da via férrea da Central do Brasil, para facilitar a chegada de fiéis.

Eles tinham se conhecido dois dias antes, num bote improvisado que recolhia sobreviventes na Tijuca e no Maracanã. Desde então caminhavam juntos, embora discordassem sobre quase tudo. Calvino olhou o céu escuro e murmurou:

— Irmão Francisco… isto aqui é o Juízo Final. Está escrito. Nos últimos dias os céus se abrirão em pranto e a terra tremerá.

Francisco apoiou-se num corrimão coberto de ferrugem antes de responder:

— Pode ser, Calvino… mas por que Deus mandaria tamanha dor ao povo fluminense? Os nordestinos ao menos rezam por chuva. Nós não pedimos nada disso.

— Porque o povo se afastou de Deus! — respondeu Calvino, exaltado. — Idolatria, carnaval, adultério, drogas do Comando Vermelho, venda ilegal de terrenos e apartamentos feita pelas milícias, pedágios pagos pelos comerciantes para criminosos, micro-ondas para facções inimigas (queima de pessoas vivas em pilha de pneus com gasolina), novelas e BBB da TV Globo, Robauto de Acari, jogo do bicho, roubo de cargas na Avenida Brasil, corrupção de governadores, rachadinhas de deputados, vícios inconfessáveis! Nem Sodoma ousou tanto!

Francisco suspirou:

— Sempre sobra para o samba...

— O Senhor já destruiu cidades por menos!

— E as crianças? — retrucou Francisco. — E os velhinhos do asilo de Magé? E a creche de Belford Roxo? Que pecado cometeram?

Calvino abriu a boca, mas hesitou antes de responder. Pela primeira vez desde que se conheceram, sua certeza pareceu vacilar.

— O Senhor faz cair chuva sobre justos e injustos.

Francisco ficou em silêncio por alguns segundos. Depois murmurou:

— Então talvez isso não seja castigo. Talvez seja abandono.

A palavra ecoou no ar pesado por alguns segundos. Abandono.

E nada foi falado sobre os governadores presos por pouco tempo, apesar de condenações que somavam vários séculos, a exemplo de Sérgio Cabral; e tantos outros: Moreira Franco, Anthony e Rosinha Garotinho, Luiz Fernando Pezão, Wilson Witzel, Cláudio Castro. E as rachadinhas na ALERJ, com R$ 49 milhões desviados pelo seu presidente André Ceciliano – para variar, um petista -, e até Flávio Bolsonaro, com R$ 1,3 milhão na conta, e ninguém foi processado. Condenado a 425 anos e 20 dias de prisão, Cabral cumpriu apenas 6 anos e 22 dias em regime fechado.

Nos últimos tempos, Sérgio Cabral matava a saudade de seus 50 mil seguidores, postando um vídeo sobre filmes de sua preferência, como se fosse o crítico Pablo Villaça, no terraço de um prédio com piscina, tendo o Pão de Açúcar ao fundo. Será que Cabral também foi levado pelas águas, ou apenas perdido seus óculos escuros?

Naquele instante, a terra inteira tremeu. Os degraus do Museu Nacional rangeram violentamente. O chão vibrou como um tambor colossal, e um ruído monstruoso atravessou o Estado do Rio de Janeiro. Na Serra dos Órgãos, o Dedo de Deus desabou. A formação rochosa de gnaisse moldada por milhões de anos de erosão, contendo fraturas expostas, tombou da montanha com um estrondo tão terrível que as nuvens se abriram por um instante, revelando um clarão pálido de sol. Pessoas em Niterói jurariam, tempos depois, ter visto a montanha cair em câmera lenta.

Então a escuridão voltou. E junto dela veio um som estranho. Não parecia trovão. Parecia um rugido.

— O que foi isso?! — gritou Francisco, agarrando-se ao corrimão.

Calvino girou a cabeça, assustado.

— Leão?… Ou o Diabo em carne viva?

Então ouviram vidro quebrando dentro do Museu. Passos pesados. Respiração animal. Um leão do BioParque do Rio, antigo Zoológico da Quinta da Boa Vista, libertado pela enchente, vagava pelos corredores do prédio histórico que havia sido morada de um rei e de dois imperadores. Essa construção fora doada a Dom João VI pelo comerciante de escravos negros luso-libanês Elias Antônio Lopes, ganhando o título de Comendador da Ordem de Cristo. Molhado, faminto e magnífico, o leão caminhava entre fósseis indígenas e o meteorito de Bendegó como um rei antigo visitando ruínas. Ainda bem que não era algum fugitivo do Galpão da Boa Vista, presídio de São Cristóvão encostado no fundo da Quinta.

Os dois amigos voaram corredor adentro até encontrarem uma antiga sala de arqueologia egípcia. Francisco puxou a tampa semiaberta de uma tumba de alabastro, e os dois se esconderam lá dentro, espremidos ao lado de uma múmia ressequida que havia sido salva do incêndio.

O rugido do leão ecoou tão perto que pareceu vibrar dentro dos ossos deles. Por alguns instantes, ficaram imóveis, ouvindo apenas a chuva martelando o teto e o som das patas do leão sobre o mármore.

Foi então que Francisco começou a rir. Primeiro, baixo. Depois, mais forte. Calvino arregalou os olhos.

— Ficou louco?!

Francisco tentava conter o riso nervoso.

— Eu só estava pensando… o Egito enfrentou pragas, abriu o Mar Vermelho… e eu vou morrer abraçado a uma múmia dentro do Museu Nacional…

Calvino tentou permanecer sério, mas acabou rindo também. E durante alguns segundos, escondidos dentro do sarcófago enquanto o mundo desmoronava lá fora, os dois homens riram como crianças. Talvez porque o medo extremo enlouqueça as pessoas. Ou talvez porque Deus ainda permita pequenos acessos de humor antes do capítulo final do Apocalipse.

Quando finalmente saíram da tumba, o silêncio parecia ainda mais assustador. A água já invadira o térreo do Museu, e peixes nadavam pelos corredores históricos.

Do lado de fora, milicianos e traficantes de drogas, a exemplo do Comando Vermelho (CV), Terceiro Comando Puro (TCP) e Amigos dos Amigos (ADA), haviam perdido qualquer distinção. Saqueavam bancos, mercados, farmácias e depósitos de água. Homens armados disputavam sacos de arroz como animais famintos. A polícia desaparecera. Os prefeitos do Rio e da Baixada Fluminense também. Assim, os bandidos que já tomavam conta de mais da metade do município do Rio de Janeiro agora eram donos de tudo, inclusive da Baixada.

Mas havia bondade em meio ao caos. Uma senhora dividia bolachas encharcadas com desconhecidos. Um médico fazia curativos à luz de velas. Um rapaz tatuado, provavelmente ladrão horas antes, carregava uma criança nos ombros através da enchente. O fim do mundo misturava o melhor e o pior da humanidade numa mesma lama.

— Escute aqui, Calvino — cochichou Francisco, olhando para os lados, ao saírem do Museu, — dizem que havia um túnel secreto saindo do Palácio da Quinta da Boa Vista.

— Túnel para quê? Fugir de revolução? Esconder ouro? — perguntou Calvino, arregalando os olhos.

— Que nada. Juram que era para levar D. Pedro I discretamente aos braços de Domitila de Castro, a Marquesa de Santos, no Paço de São Cristóvão.

Calvino coçou a cabeça, franziu a testa e soltou uma risada.

— Veja só a engenharia imperial: enquanto o povo abria estradas com enxada e picareta, Sua Majestade queria encurtar distâncias sentimentais...

— Claro! — disse Francisco. — Independência do Brasil em cima, independência do coração embaixo.

Calvino balançou a cabeça:

— O Imperador foi uma criatura curiosa... proclama Independência ou Morte! no riacho do Ipiranga e depois atravessa túnel escondido para declarar Dependência e Amor! em particular.

Sob as pedras e a solenidade das construções coloniais, o Rio antigo parecia guardar uma segunda cidade, feita não de ruas e sobrados, mas de sombras, segredos e passos abafados. No Centro, há vários exemplos de túneis, hoje desativados, que já foram rota para encontros furtivos. No Convento das Freiras Franciscanas Nossa Senhora da Ajuda, que funcionava onde hoje fica o Palácio Pedro Ernesto, sede da Câmara dos Vereadores, existia um labirinto subterrâneo. Contam as más línguas que as próprias religiosas cavaram os túneis. O motivo faria corar a madre superiora: elas buscavam, segundo o historiador Milton Teixeira, uma rota segura para encontros amorosos e para escapar dos rigores do claustro. Enquanto acima ecoavam orações e formalidades, abaixo corria uma geografia silenciosa de suspiros, mistérios e urgências humanas. O subsolo carioca parecia provar que até a pedra sabe guardar calor.

Uma coisa é certa: o Rio de Janeiro nasceu com vocação para túneis: uns atravessam montanhas para ligar a Zona Norte às praias;
outros atravessam prudências para ligar corações a encontros seguros e furtivos.

Cachoeiras d’água haviam se formado em todas as montanhas cariocas e fluminenses, deslizando sobre pedras nuas como se fossem imensos toboáguas. Depois de prosear sobre as fugidas noturnas de Dom Pedro I, Francisco e Calvino chegaram à sacada do Museu Nacional. Foi então que ouviram um estampido distante vindo da direção da Floresta da Tijuca. Os dois olharam para o Corcovado. E viram. O Cristo Redentor começava a se inclinar lentamente. Primeiro, quase imperceptível. Depois mais. E mais. Então a montanha cedeu. A estátua veio abaixo junto com pedras, árvores e lama, desaparecendo numa avalanche monstruosa. Um grito coletivo pareceu atravessar toda a cidade.  

Francisco caiu de joelhos. Calvino perdeu a fala. A visão do Cristo destruído parecia impossível, como se a própria alma do Rio tivesse sido arrancada do alto do Corcovado.

E então aconteceu algo ainda mais estranho. A chuva cessou. Não aos poucos, como costuma acontecer. Parou de repente. Como se alguém tivesse fechado uma gigantesca torneira invisível. O silêncio que veio em seguida era insuportável. Nenhum vento. Nenhuma gota d’água. Nenhum pássaro.

As águas ficaram imóveis. O mundo parecia ter prendido a respiração. Então o céu se abriu. E o sol apareceu.

Não era o sol agressivo e abafado do Rio 40 graus do filme e da realidade carioca. Era um sol suave, quase triste, como a luz de uma manhã antiga de domingo. Seu brilho dourado refletiu sobre os escombros, sobre os postes tombados, sobre os telhados que ainda flutuavam.

Foi então que algo começou a emergir lentamente das águas. Cadáveres. Centenas deles. Milhares deles. Homens, mulheres, crianças. Corpos subindo à superfície em silêncio, girando devagar como lembranças que o mundo tentara esconder.

Francisco começou a rezar em voz baixa. Calvino tremia. Mas o mais assustador ainda estava por vir. Todos os corpos pareciam voltados para a mesma direção. O mar.

Um som grave surgiu ao longe, como um coral vindo das profundezas. A Baía de Guanabara começou a recuar lentamente. Peixes debatiam-se na lama. Navios inclinavam perigosamente no Cais do Porto, onde alguns contêineres ainda flutuavam antes de afundar. O Museu do Amanhã surgiu das profundezas, como uma enorme adaga futurista cravada na Baía da Guanabara. O oceano inteiro parecia estar sendo puxado para trás. A ponte Rio-Niterói havia sobrevivido.

— Meu Deus… — murmurou Francisco.

Então eles viram. No horizonte, algo gigantesco começava a erguer-se das águas. Não era um navio. Nem uma ilha. Era escuro demais. Grande demais. E estava vivo.

Uma espinha colossal rompeu a superfície. Depois vieram olhos enormes, do tamanho de uma bola de basquete. Calvino caiu de joelhos.

— Leviatã…

A criatura permaneceu parcialmente emergida, imóvel, observando o mundo devastado. Parecia antiga demais para pertencer à Terra. Parecia existir desde antes dos homens aprenderem a rezar.

Então, vindo de uma casa semi-submersa, ouviu-se uma música. Uma velha vitrola começara inexplicavelmente a funcionar. Uma canção de Clara Nunes ecoou sobre as águas silenciosas. A monstruosa criatura moveu lentamente a cabeça. E desapareceu no oceano. Sem ondas. Sem violência. Como um animal obediente retornando às profundezas.

Francisco chorava sem perceber. Calvino olhava para o horizonte com a fé destruída e reconstruída ao mesmo tempo.

Foi então que uma menina surgiu entre eles. Magra, descalça, enrolada num cobertor rasgado. Carregava nos braços um pequeno gato branco tremendo de frio. Mas havia algo estranho nela.

A menina estava completamente seca. Nem uma gota de água tocava sua pele. Ela olhou para os dois homens e perguntou com simplicidade:

— Vocês são padres?

— Não exatamente — respondeu Francisco.

— Mas falam com Deus?

Calvino engoliu em seco.

— Tentamos.

A menina ergueu os olhos para o céu limpo. Depois olhou para os cadáveres. Depois para o mar. E murmurou:

— Diz pra Ele que pode parar agora. Já lavou tudo.

Então ela começou a caminhar. Francisco percebeu algo impossível: onde seus pés descalços tocavam a lama, pequenas flores amarelas começavam a brotar.

— Espera! — gritou ele.

A menina virou-se lentamente. E os dois viram seus olhos. Não havia pupilas. Apenas luz. Uma luz dourada, calma e antiga como o próprio tempo. Calvino começou a chorar convulsivamente.

— Quem… quem é você? É um anjo?

A menina sorriu com doçura.

— Já me chamaram de muitas coisas.

Então ela desapareceu. Não correu. Não se afastou. Simplesmente deixou de existir sob a luz dourada do sol, como se tivesse evaporado.

O gatinho permaneceu ali, miando baixinho. Os dois homens ficaram imóveis. Até que, ao longe, no alto de uma torre de igreja milagrosamente intacta, um galo cantou. Três vezes. Como se estivesse se lembrando do Apóstolo Pedro.

Francisco segurou o terço. Calvino fechou os olhos. E ambos compreenderam algo terrível e belo ao mesmo tempo: o mundo não terminara. O verdadeiro julgamento começava agora. Porque sobreviver seria mais difícil do que morrer.

Ao longe, pessoas começavam lentamente a sair dos telhados. Algumas choravam seus mortos. Outras apenas olhavam para o céu, incapazes de compreender por que ainda estavam vivas.

O sol subia devagar sobre o Rio de Janeiro devastado. E pela primeira vez em muitos anos, a cidade parecia nua. Sem carnaval. Sem bate-bola. Sem trânsito. Sem música. Sem máscaras. Sem praias. Apenas seres humanos atônitos e tontos, perambulando sem destino no lamaçal.

E, enquanto a luz da manhã revelava as cicatrizes abertas da cidade, cada um parecia procurar não apenas a casa perdida de sua família ou o rosto desaparecido de um vizinho, mas também algum vestígio da vida que existira uma semana atrás. O Rio continuava ali, entre morros, túneis e mar, mas sua alma parecia suspensa no ar pesado daquele amanhecer escabroso. Restavam o silêncio, a memória e a estranha certeza de que, depois de certas tragédias, o amanhã já não chega da mesma forma que antes. E só então se descobriu que a alma da cidade nunca havia morado nos cartões-postais, mas nos sobreviventes que continuavam caminhando rumo ao nada.

Francisco olhou o horizonte enlameado e perguntou baixinho:

— E agora?

Calvino demorou alguns segundos antes de responder. Quando falou, sua voz já não tinha raiva, nem fanatismo, nem trovão. Tinha apenas cansaço. E humildade.

— Agora… a gente aprende de novo a ser gente.