"O PT não róba nem deixa robá!"
Zé do Caroço (José Dirceu)
Blog em defesa da democracia e do liberalismo clássico - liberdade de expressão, liberdade religiosa, livre mercado, livre empreendedorismo. Contra o autoritarismo do Cérbero - as três bocarras que infernizaram o século XX: Comunismo, Fascismo e Nazismo.
2016:
Sonho de uma noite de verão
Félix Maier
Houve
um ano em que o Brasil acordou leve. Não completamente sóbrio — nunca fomos —,
mas com aquela ressaca boa, quando a dor de cabeça vem acompanhada da certeza
de que a festa acabou e que, finalmente, alguém vai pagar a conta.
Esse
ano foi 2016.
O
sol parecia mais amarelo, as panelas soavam afinadas, e o cidadão comum, esse
ser historicamente humilhado pela burocracia e pela retórica, teve a impressão
inédita de que a Justiça havia decidido trabalhar. A Lava Jato avançava,
políticos suavam frio, delações brotavam como cogumelos depois da chuva, e o
verbo prender passou a ser conjugado com gente importante como sujeito.
Era
um verão shakespeariano: Sonho de uma noite de verão, com direito a
fadas togadas, duendes do Ministério Público e vilões finalmente sem capa de
invisibilidade.
No
início daquele ano, a blogueira Christina
Fontenelle publicou um
vídeo-homenagem no Facebook. Um gesto simples, quase ingênuo, mas carregado de
simbolismo: reconhecer publicamente pessoas que haviam se exposto — algumas com
elegância, outras com fúria — para denunciar a roubalheira petralha e o avanço
das pautas socialistas travestidas de virtude moral. Uma colcha de retalhos
humana: liberais, conservadores, jornalistas, youtubers, escritores, briguentos
profissionais e patriotas de fim de semana.
Estávamos
todos ali, meio sem saber como, meio sem saber por quê, mas com a convicção de
que algo tinha mudado. Que a engrenagem finalmente havia emperrado. Que o
Brasil, esse adolescente institucional, talvez tivesse aprendido alguma coisa.
O
impeachment de Dilma Rousseff veio como um suspiro coletivo. Não foi festa, foi
alívio. O país não comemorou; desabafou. Como quem tira um sapato apertado
depois de horas de tortura estética. O processo começou em dezembro de 2015 e
terminou em agosto de 2016, mas, emocionalmente, pareceu um parto de dez anos.
A
sensação era clara: acabou!
Acabou
o projeto.
Acabou
a quadrilha.
Acabou
o encantamento.
Doce
ilusão.
Hoje
sabemos: aquilo não foi uma vitória. Foi intervalo, entre um sonho de uma noite
de verão e a volta do velho pesadelo.
O
roteiro era outro. Enquanto o país acreditava ter virado a página, o livro
estava apenas sendo trocado de capa. Em abril de 2021, o Supremo Tribunal
Federal — esse órgão que não erra, apenas reinterpreta a realidade —
decidiu que tudo aquilo fora um grande mal-entendido jurídico. Três instâncias,
nove votos a zero, 580 dias de cadeia? Um detalhe processual. Um erro de CEP.
Um problema de endereço metafísico.
O
condenado virou descondenado — essa criatura jurídica que só existe no
Brasil, terra onde até a gramática penal é criativa. E o Ogro de Nove Dedos
voltou ao jogo, elegível, reabilitado, ungido, mais limpo que bumbum de nenê
lavado na banheira, com talquinho. O passado foi lavado com OMO institucional.
Em
2022, com ajuda logística, narrativa bem calibrada e uma democracia conduzida
no modo missão dada, missão cumprida, o Ogro de Nove Dedos retornou à
Presidência. Pela terceira vez. O Brasil não apenas perdoou: aplaudiu.
Sessenta
milhões de votos depois, a pergunta ficou no ar, incômoda como mosquito em
quarto escuro: foram idiotas úteis ou patifes assumidos?
Talvez
um pouco de cada. O Brasil sempre gostou de misturas.
O
mais cruel, porém, foi perceber que o 8 de janeiro de 2023 não surgiu do nada.
Não brotou espontaneamente da insanidade coletiva. Ele foi gestado antes, em
silêncio, a partir de 15 de abril de 2021 — a data da Traição Suprema, quando a
Justiça decidiu que a verdade era negociável e que a história podia ser
rebobinada com uma canetada.
Sem
aquela decisão, não haveria quebra-quebra. Não haveria fúria cega. Não haveria
vandalismo. O 8 de janeiro foi consequência, não causa. Foi o vômito tardio de
um organismo institucional intoxicado.
Até
o sempre ponderado Marco Aurélio Mello, antigo ministro do STF — um homem que
jamais confundiu frieza com covardia — apontou o óbvio: houve crime de omissão.
Houve falha grotesca de segurança. Houve alertas ignorados. Houve gente demais
olhando para o lado certo demais.
O
governador do DF, o ministro da Justiça, o chefe do GSI: todos avisados, todos
preparados para nada fazer. O resultado foi um cenário perfeito para a
narrativa perfeita. Palácios depredados, imagens repetidas à exaustão, vilões
prontos, heróis improvisados.
E,
como sempre, a conta caiu no colo de quem estava mais perto da farda. Coronéis
da PMDF viraram bodes expiatórios de um teatro maior. Os verdadeiros diretores
da peça assistiram da coxia, atrás de cortinas, com ar grave e discursos sobre
democracia. Uma minuta do golpe sem assinatura foi tratada como prova de
uma cogitação criminosa e serviu de base para processos e condenações severas a
fardados e paisanos. Generais e o próprio presidente Jair Bolsonaro foram
alçados à condição de réus simbólicos de um golpe que nunca passou do papel. O
roteiro dispensou atos, dispensou comandos e dispensou execução; bastou a
narrativa. E, mais uma vez, quem pagou o ingresso mais caro foi quem vestia
farda, enquanto os autores do script saíam pela porta dos fundos,
aplaudidos como defensores da democracia.
Mas
voltemos a 2016.
O
que mais dói, hoje, não é o fracasso. O Brasil está acostumado a falhar. O que
dói é a memória do otimismo. A lembrança daquele breve período em que
acreditamos — sinceramente — que o país havia amadurecido. Que instituições
serviam ao povo. Que a lei não tinha partido político.
Foi
um verão curto. Uma noite quente. Um sonho bonito.
Mas,
acordamos suados, confusos, e com a sensação estranha de que alguém havia
mexido na casa enquanto dormíamos.
Talvez
seja essa a lição final daquele ano de 2016: no Brasil, quando o cidadão acha
que venceu, é porque o sistema apenas mudou de tática.
O
ano de 2016 não foi o fim dos petralhas. Foi apenas o momento em que eles
fingiram cair para ver quem baixava a guarda.
Assim nasceu o petista...
Toda
ideologia, quando envelhece mal, acaba virando folclore. E todo folclore, cedo
ou tarde, ganha uma origem mítica. Roma teve Rômulo e Remo, amamentados por uma
loba; a Grécia teve Zeus disfarçado de tudo quanto é bicho; e o Brasil, como
não poderia deixar de ser, também precisava de uma explicação à altura para
certas criaturas políticas que parecem ter fugido de um laboratório.
Reza
a lenda — e lendas não se discutem, apenas se contam — que, na antiga União
Soviética, alguém resolveu levar o materialismo histórico ao pé da letra. Se
tudo é matéria, se tudo é luta, se tudo é transformação dialética, por que não
transformar logo as espécies? Afinal, Darwin estava ali, Engels estava ali, e o
bom senso… bem, o bom senso nunca foi membro do Partido.
Na
fase que alguns historiadores chamam de totêmica — outros preferem criativa
demais — Lênin teria desenvolvido uma relação simbólica intensa com
animais. Não no sentido afetivo, mas no sentido ideológico: o animal como
metáfora do novo homem. No gabinete, um gorila de bronze sustentava uma caveira
humana, como quem dissesse: o futuro segura o passado, mas não garante que
vá respeitá-lo. Era decoração minimalista, porém carregada de mensagem
maximalista.
Essa
fase foi marcada por uma convicção curiosa: a de que a crueldade impiedosa nos Gulags e na Lubianka não
era um desvio, mas o motor do progresso humano. Algo como um coaching
revolucionário avant la lettre. Sofra hoje para dominar amanhã. Se doer
muito, é porque está funcionando.
Se o
fanático T. D. Lysenko, que pregava uma teoria de caracteres adquiridos por
herança, à qual chamou de vernalização e prometia a transformação de
trigo em centeio, pinheiros em abetos, por que não juntar uma mulher com um
animal peludo da Bacia do Congo, para criação do poderoso Homo sovieticus?
Daí
para experiências científicas inomináveis foi um pulo. Afinal, quando se
acredita que a História tem lado, qualquer coisa feita em nome dela
ganha verniz moral. E foi assim que telegramas espantados começaram a circular
pelo mundo civilizado — que, convenhamos, já estava com o espanto meio gasto —
anunciando experiências cujo objetivo era provar, in anima nobile, a
possibilidade da transformação das espécies.
Nada
de metáforas. Era literal.
Os “cientistas”
soviéticos — aspas obrigatórias, por questão de higiene textual — teriam se
dedicado ao contubérnio macabro entre mulher e chimpanzé. Uma tentativa de
acelerar a evolução pela via administrativa. Se a natureza demora, o Estado
resolve. Comitê central, ata assinada, verba liberada.
Como
toda história macabra que se preze, algo deu errado. Ou certo demais.
Um
espécime, fruto desse relacionamento zoofílico ideológico, teria escapado do
centro de pesquisas. Não se sabe se pulou o muro, se recebeu asilo, ou se
simplesmente foi promovido a quadro internacional da causa. O fato é que sumiu
dos registros soviéticos e reapareceu, misteriosamente, no Brasil.
O
Brasil, claro. País onde tudo que é estranho acaba encontrando clima favorável,
solo fértil e um jeitinho de se adaptar. Aqui, jabuticaba nasce em tronco de
árvore e ideologia exótica vira movimento popular.
O
espécime chegou discreto. No começo, parecia apenas mais um idealista confuso.
Falava em justiça social, igualdade, fraternidade universal — aquele kit básico
que todo mundo gosta até começar a pagar a conta. Tinha um certo apreço por
discursos longos, uma aversão instintiva a planilhas e uma habilidade notável
de explicar fracassos como sucessos mal compreendidos.
Com
o tempo, foi se multiplicando. Não por reprodução natural — que seria pedir
demais, são poucos os zoológicos com chimpanzés disponíveis no Brasil — mas por
contágio retórico. A criatura tinha um dom especial: transformar ressentimento
em virtude e incompetência em narrativa. Onde havia erro, via perseguição. Onde
havia crítica, via golpe. Onde havia dados, via opiniões burguesas.
Estava
criado o ecossistema perfeito.
O
petista — sim, porque era disso que se tratava —, esse fugitivo da Escola de
Lysenko, desenvolveu características próprias. Um discurso moral elevado
combinado com uma tolerância ética subterrânea. Um amor declarado pelos pobres,
desde que eles continuassem pobres o suficiente para justificar o discurso – e
os votos do Bolsa Família e do Gás do Povo. Uma fé quase religiosa no Estado,
esse ente místico que tudo pode, tudo resolve e nunca erra, apenas é mal
interpretado.
Como
todo ser híbrido, ele tinha conflitos internos. O chimpanzé puxava para o
grito, o punho cerrado e a palavra de ordem. A parte humana tentava parecer
razoável em mesas de debate e editoriais bem-intencionados. O resultado era uma
criatura capaz de discursar sobre democracia enquanto flertava com ditaduras
sul-americanas e africanas, desde que ideologicamente alinhadas.
Com
o passar dos anos, o petista ganhou refinamento. Aprendeu a usar terno, a falar
em instituições, a citar autores que ninguém havia lido. Descobriu que o
capitalismo era horrível, mas que seus confortos eram bastante convenientes,
assim como a conta na Suíça. Passou a combater combustíveis fósseis indo de SUV
ou iate para o protesto. Evoluiu, enfim, para uma forma mais sofisticada do
experimento original: menos pelo no peito, mais Instagram na cabeça.
E
assim seguimos. Entre mitos fundadores e explicações improváveis, o Brasil
continua tentando entender certas espécies políticas que parecem imunes à
realidade. Talvez não tenham vindo da URSS. Talvez não tenham fugido de
laboratório algum. Talvez sejam apenas fruto de uma combinação local de
ingenuidade, esperteza e memória curta.
Mas
convenhamos: a versão do chimpanzé soviético é bem mais divertida. E, como toda
boa crônica, não precisa ser verdadeira, basta ser plausível o suficiente para
fazer rir, coçar a cabeça e pensar: vai ver é isso mesmo.
Afinal,
em matéria de política brasileira, a realidade já concorre há muito tempo com a
ficção. E nunca ganha.
HOMEM
É DE MARTE, MULHER É DE LUA
Félix Maier
Dizem
que homem é de Marte e mulher é de Vênus. Sempre achei Vênus pouco convincente.
Muito quente, atmosfera tóxica, pressão esmagadora, descrição que pode ser mal
interpretada num casamento. Prefiro Lua. Mulher de Lua. Aquela criatura que
vive em outra órbita emocional, olhando para você como quem observa um eclipse
que só ela enxerga.
Homem
é de Marte. Não no sentido heroico. Marte não é aquele planeta vermelho,
bélico, cheio de crateras, onde Elon Musk quer criar uma nova civilização? Pois
então.
— Eu
só perguntei se você gostou do meu corte de cabelo — diz a selenita, da porta
do banheiro.
O
marciano olha. Analisa. Mede. Ele não vê cabelo. Vê diferença de milímetros.
—
Está… normal.
Silêncio
lunar de Lua nova. O silêncio lunar não é ausência de som. É ausência de
esperança.
—
Normal?
— É.
Bom. Assim. Igual.
A
mulher de Lua fecha a porta com delicadeza tectônica. Marte acaba de declarar
guerra sem saber.
O
homem de Marte tem qualidades. Ele é objetivo. Direto. Econômico. Se pudesse,
substituiria emoções por botões. Botão A: fome. Botão B: sexo. Botão C: sono.
Botão D: futebol. Ele acredita que está tudo bem significa que está tudo
bem. A selenita sabe que está tudo bem significa que nada está bem, mas
que ela decidiu adiar a explosão para depois da novela.
—
Está tudo bem? — pergunta o marciano.
—
Está.
Ele
sorri. Missão cumprida. A mulher de Lua observa aquele sorriso e pensa: Ele
não percebe nada. O marciano pensa: Resolvi.
Ponto
forte do marciano: simplicidade. Ponto fraco: simplicidade. Ele não complica o
que pode ser resolvido com uma chave de fenda. Ela não entende como alguém pode
achar que tudo se resolve com uma chave de fenda.
O
marciano também tem essa estranha habilidade de não encontrar objetos.
—
Amor, onde está o molho de chaves?
— Na
gaveta do aparador.
—
Não está.
A
selenita vai até a gaveta. O molho está ali, com a dignidade de quem nunca saiu
do lugar.
—
Aqui.
—
Ah. Mas estava escondido.
—
Sim, escondido atrás de si mesmo.
A
mulher de Lua tem fases. Isso é científico. A própria Lua prova. Há dias em que
ela é Lua cheia: ilumina tudo, organiza armários, planeja viagens para 2032 e
ainda acha tempo para discutir o sentido da vida. Há dias em que é Lua nova:
silêncio, introspecção, perguntas existenciais do tipo:
—
Você já pensou que talvez a gente nunca se conheça de verdade?
O
marciano está mastigando cookies com nuts e chocolate.
—
Hã?
Ela
fala em órbitas. Ele fala em trajetórias. Ela guarda mágoas com classificação
temática e data de ocorrência. Ele não lembra o que jantou ontem.
Ponto
forte da selenita: sensibilidade, memória, radar emocional de longo alcance.
Ponto fraco: sensibilidade, memória, radar emocional de longo alcance.
—
Você mudou — diz ela.
—
Eu?
—
Mudou.
—
Quando?
—
Não sei. Mas mudou.
O
marciano gostaria de um relatório técnico com gráficos e anexos. A selenita
trabalha com percepções. Ela sente variações gravitacionais no ar. Ele sente
fome.
A
mulher de Lua não muda de ideia: muda de iluminação. O que ontem era quarto
crescente hoje é minguante, mas continua sendo a mesma esfera inteira, apenas
vista de outro ângulo.
Já
que ficou démodé planejar invadir a Terra, como Marte Ataca! o
marciano inventa uma prateleira para instalar na cozinha, com perigo de furar o
cano d’água.
Toda
mulher tem um deserto marciano interno onde não chove há meses. Todo homem tem
uma lua particular que ninguém sabe quando vai minguar. Às vezes ela quer guerra. Às
vezes ele quer maré. O problema não é serem de planetas diferentes. É
esquecerem que dividem o mesmo sistema solar.
A
guerra começa sempre por pequenas escaramuças.
—
Você nunca me ouve.
— Eu
estou ouvindo.
—
Não está.
—
Estou sim.
—
Então o que eu disse?
O
marciano congela. Marte não previu essa pergunta.
—
Você falou… sobre… a sua amiga.
—
Qual amiga?
Marte
cai.
A
selenita não quer apenas ser ouvida. Quer ser compreendida. Quer que o marciano
perceba que quando ela fala da amiga, está falando de si. Que quando fala da
vizinha, está falando do futuro. Que quando fala do cabelo, está falando da
autoestima, da passagem do tempo e da condição feminina no hemisfério sul. O
marciano ouve cabelo. E responde normal.
Mas
há momentos de cooperação interplanetária. Quando o mundo aperta, o marciano
vira escudo. Quando o marciano cai, a selenita vira atmosfera. Ele pode não
entender as entrelinhas, mas segura a mão. Ela pode dramatizar um pouco, mas
faz canja de galinha quando ele está gripado.
—
Você acha que eu exagero? — pergunta ela.
Ele
pensa um pouco. Isso já é um avanço evolutivo.
— Às
vezes.
Ela
o encara.
—
Mas é um exagero organizado — ele completa, num raro lampejo diplomático.
A
mulher de Lua sorri. Pequena maré cheia.
O
marciano aprende, com o tempo, que há perguntas que não buscam resposta, mas
acolhimento.
—
Você me acha bonita?
Resposta
errada: Sim. Resposta correta: Muito. Resposta ideal: Cada dia
mais.
A
Lua é respeitada pelas marés e por suas fases, cada uma própria para o
agricultor saber quando derrubar uma árvore ou plantar feijão, para não
carunchar. Só uma selenita para saber o que existe no lado escuro da Lua.
Marte
conhece bem as quatro estações do ano: campeonato estadual, Brasileirão,
Libertadores e Copa do Brasil. E não há sonda espacial que explique por que até
um marciano fica rouco diante da televisão.
—
Você viu que o mundo está acabando? — pergunta o marciano.
—
Claro, até a Lua está se afastando da Terra — responde a selenita.
Ela
está em outra órbita. Ele no noticiário. Mas não se enganem: a selenita pode
parecer distraída, mas sabe tudo. Sabe do IPVA que vence amanhã, porque não é
ela que paga; da tensão na voz dele quando o time perde; da sogra que falou interessante
com intenção hostil. Alienada? Não. Só de Lua.
— O
que você acha que significa sonhar com escadas?
O
homem de Marte não sabe responder, não é José do Egito para explicar os sonhos da
faraoa selenita. Também não tem a mínima ideia do que significa a escada
para o Céu, vista por Jacó.
O
homem de Marte finge que é invulnerável. Mas guarda inseguranças do tamanho do
sistema solar. Ele quer ser forte, mas tem medo de falhar na hora H. Quer ser
provedor, mas teme não ser suficiente. Quer ser simples, mas às vezes é apenas
simplório.
—
Você não fala do que sente — diz a selenita.
—
Falo sim.
—
Quando?
Ele
pensa.
—
Quando o time perde.
Ela
suspira. Mas se aproxima. Em seguida desliza para o lado escuro da
Lua, aquele onde ela arquiva as esperanças não correspondidas.
O
marciano não fala muito, mas demonstra. Conserta a torneira, troca o pneu, leva
o Totó para passear, enfrenta o sogro. Seu amor é prático. Não escreve poemas;
paga boletos. A mulher de Lua escreve poemas mentais sobre os boletos.
De
vez em quando há eclipse. Um encobre o outro. Falta luz.
—
Talvez a gente seja mesmo muito diferente — diz ela.
—
Talvez — responde ele.
Silêncio.
Mas
então, como num alinhamento cósmico, lembram-se de algo simples: escolheram
estar juntos. Aqui e agora. Ele gosta do jeito como ela fala com as mãos. Ela
gosta do jeito como ele dorme, como se nada pudesse derrubá-lo. Ela organiza o
caos dele, que não existe. Ele simplifica o drama dela, que existe. Ela ensina
nuance. Ele ensina descanso.
Homem
é de Marte. Mulher é de Lua. Marte é árido, mas resistente. Lua é mutável, mas
constante no retorno. Ele tem força bruta. Ela tem força gravitacional. Ele
constrói pontes. Ela decide para onde elas levam.
No
fundo, nenhum vive sozinho. Marte sem Lua é só poeira vermelha girando no
vazio. Lua sem planeta é pedra fria perdida no escuro.
—
Você ainda está brava comigo? — pergunta o marciano.
—
Não.
—
Mesmo?
— Um
pouco.
—
Quer pizza?
Pausa.
— De
quatro queijos?
—
Pode ser.
E
assim se faz a paz universal: não por tratados assinados, mas por pequenas
concessões com borda recheada.
No
fim das contas, talvez não sejamos de planetas diferentes. Talvez sejamos do
mesmo mundo, só com mapas distintos. Ele usa Waze. Ela usa maré. E entre
crateras e fases, aprendem a orbitar um ao outro, nem sempre em perfeita
sintonia, mas sempre com alguma gravidade compartilhada.
Porque,
no espaço conjugal sideral, o segredo não é vencer a guerra galáctica. É
continuar girando juntos.
Negritude e Branquelice
(Rap da Mesmice Genética)
Félix Maier
No flow do DNA não tem cor nem bandeira,
ninguém é pitbull, nem raça verdadeira,
só humano perdido na besteira.
Refrão:
Não sou raça, não sou cor, sou consciência,
Filho da Eva, não da diferença.
Quer ter orgulho? Tenha inteligência!
(Refrão)
Negro com orgulho, branco com prisão?
Mas que raio de lógica tem essa função?
No fim, tudo irmão na mesma mutação.
(Refrão)
Sou pardo, sou índio, sou loiro, sou mel,
sou filho da Eva, sem dogma ou cordel,
mas tem uns aí que vivem no papel...
(Refrão)
Diz que é resistência, diz que é identidade,
mas segrega mais que a tal da sociedade,
tudo em nome da “representatividade”.
(Refrão)
Quer respeito? Então bora acordar:
ninguém escolheu o tom pra nascer ou amar,
mas escolhe se quer pensar ou só gritar.
(Refrão)
Preto, branco, amarelo ou café,
no fundo do osso, é tudo igual, é ou não é?
Mas no palco do ego, o show nunca dá ré.
(Refrão)
Brasil é mistura, é samba no umbigo,
mas tem nego e branquelo medindo perigo,
pra ver quem sofre mais, quem tem mais abrigo.
(Refrão)
Ciência já disse, com prova e com calma:
raça é bobagem, invenção da alma,
pra justificar quem quer ter mais palma.
(Refrão)
Raça é do canil, do canário e do boi,
mas gente é gente, não late nem rói,
só inventa castelo pra virar herói.
(Refrão)
Lobo, coiote, dálmata e cão,
cada um com pedigree e divisão —
mas humano é só um, em qualquer nação.
(Refrão)
Então para com essa de “orgulho racial”,
que isso já fede e soa até mal,
nosso único dia é o "ser racional".
(Refrão)
O Agente Secreto
Félix Maier
Vi o filme O Agente Secreto na noite de terça de carnaval, 17/02/2026. Wagner Moura e o cineasta Kleber Mendonça Filho já haviam conquistado os Globos de Ouro (ator e diretor), em 11/01/2026. E foram indicados ao Oscar.
Na verdade, só vi um pouco mais da metade do filme. Teria que ter estômago de tubarão para ir até o fim. Ter dado parabéns à dupla em texto de 12/01 foi precipitado. Em 18/02 faço a devida correção.
Leia também Ainda estou aqui, de minha autoria (11/03/2025), em https://felixmaier1950.blogspot.com/2025/03/ainda-estou-aqui-por-felix-maier.html
***
Criatura perfeita