acredite
no seu avô de 80 anos,
não
no professor marxista de história
Março
de 1964 não chegou de repente; ele foi se formando lentamente, como um temporal
que se anuncia muito antes do primeiro trovão. O Brasil daqueles anos vivia sob
uma atmosfera carregada, em que o cotidiano já não era apenas rotina, mas
tensão acumulada. Desde a crise institucional iniciada com a renúncia de Jânio
Quadros, em 25 de agosto de 1961, o qual havia condecorado Che Guevara com a
Ordem do Cruzeiro do Sul seis dias antes, o país entrara numa fase de
instabilidade política que parecia não encontrar ponto de equilíbrio.
A
solução improvisada do parlamentarismo, criada para viabilizar a posse de João
Goulart, durou pouco e revelou, desde o início, a fragilidade das instituições
diante de um cenário radicalizado. Quando o presidencialismo foi restaurado
pelo plebiscito de 1963, devolvendo plenos poderes a Jango, o que se viu não
foi a pacificação, mas o agravamento de tensões que já vinham fermentando, com
o avanço do movimento comunista dentro do governo.
No
pano de fundo, o mundo vivia o auge da Guerra Fria. O mapa geopolítico parecia,
aos olhos de muitos contemporâneos, tingir-se progressivamente de vermelho, à
medida que regimes alinhados ao bloco soviético e à China se consolidavam ou
surgiam em diferentes regiões.
A
Revolução Cubana, vitoriosa em 1959, exercia impacto direto sobre a América
Latina, não apenas como símbolo, mas como agente ativo de influência política e
ideológica. Documentos, depoimentos e estudos posteriores indicam que havia, de
fato, circulação de ideias, apoio logístico e tentativas de articulação de
movimentos revolucionários em vários países do continente. Para setores
expressivos da sociedade brasileira, esse contexto internacional não era
abstrato: era uma ameaça concreta, percebida como risco de desestabilização
interna e eventual ruptura institucional em moldes revolucionários.
Desde
1961, já havia agentes cubanos em território brasileiro, insuflando as massas
no sertão nordestino, junto com as Ligas Camponesas de Francisco Julião. Canaviais
eram incendiados. Usinas de açúcar eram depredadas. No Porto de Santos, navios
ao largo continham bens perecíveis, que apodreciam devido a greves sucessivas;
quem tentava furar a greve, tinha as pernas quebradas com barras de ferro. Greves
pipocavam toda hora, deixando milhões de pessoas sem transporte no fim do dia, especialmente no Rio de Janeiro.
A inflação disparava, havia desabastecimento e o Exército distribuía alimentos
nos bairros pobres do Rio de Janeiro.
A pesquisadora
Denise Rollemberg, da UFRJ, autora do livro
O apoio de Cuba à luta armada no Brasil: o treinamento guerrilheiro
afirma que "o primeiro auxílio
de Fidel foi no Governo João Goulart, por intermédio do apoio às Ligas
Camponesas, lendário movimento rural chefiado por Francisco Julião. (...) O
apoio cubano concretizou-se no fornecimento de armas e dinheiro, além da compra
de fazendas em Goiás, Acre, Bahia e Pernambuco, para funcionar como campos de
treinamento”. Em sua língua de pau, Rollemberg se refere a incêndios
a canaviais e depredação de usinas, verdadeiros atos terroristas, como um lendário
movimento rural."
Uma pequena amostra daquele movimento pré-revolucionário comunista pode ser conhecida lendo os verbetes FMP, Folhetos cubanos, Foquismo, G-11, Ligas Camponesas, MEB, MEP, Revolução Cubana e ULTAB (veja link abaixo, Movimento pré-revolucionário comunista, que antecedeu o ano de 1964).
Dentro
do Brasil, as tensões sociais e econômicas contribuíam para esse ambiente de
inquietação. A inflação corroía o poder de compra, as greves se multiplicavam e
os conflitos no campo ganhavam visibilidade crescente. As chamadas Reformas
de Base, defendidas pelo governo de João Goulart, mobilizavam paixões
opostas. Para seus apoiadores, tratava-se de corrigir desigualdades históricas
e modernizar o país; para seus críticos, havia o temor de que tais medidas
abrissem caminho para uma reorganização radical da ordem social e econômica,
com possíveis desdobramentos autoritários com viés socialista.
A
figura de Leonel Brizola, cunhado de Jango e liderança influente, também
contribuía para a percepção de radicalização, sobretudo entre aqueles que viam
em seus discursos e propostas um tom mais combativo e menos conciliador. Durante
a Campanha da Legalidade, assim vociferava o último
dos maragatos nas estações de rádio: "Atenção, sargentos do III
Exército, atenção sargentos das unidades chefiadas por esses militares
golpistas. Atenção, oficiais nacionalistas… O povo pede que os sargentos se
levantem, tomem os quartéis e prendam os gorilas… tomem a iniciativa à unha
mesmo, com o que tiverem na mão, tomem as armas desses gorilas, tomem conta dos
quartéis e prendam os traidores. Os postes de luz em Porto Alegre não
serão suficientes para pendurar os gorilas."
O
país, assim, não apenas se dividia — ele se tensionava internamente, como se
cada grupo social passasse a interpretar os acontecimentos por lentes cada vez
mais opostas.
As
ruas se tornaram palco dessa divisão. Em março de 1964, o comício da Central do
Brasil reuniu milhares de pessoas que foram impedidas de tomar o trem da
Central, além de ônibus disponíveis para o populacho chegar ao centro do Rio,
com verba da Petrobras (o Petrolão é ainda mais antigo do que supúnhamos...).
No entanto, a falsa multidão ajudou a narrativa dos comunistas, em apoio às Reformas
de Base, pregadas por setores radicais alinhados ao governo. Em resposta, poucos
dias depois, ocorreram as Marchas da Família com Deus pela Liberdade,
que também levaram multidões às ruas, mas sem greve na Central do Brasil, e sem
ônibus da Petrobras, especialmente no Rio e em São Paulo, expressando rejeição
ao rumo político do país e clamando por ordem e estabilidade. Era um Brasil que
se manifestava em massa — mas em direções contrárias.
Ao mesmo tempo, episódios envolvendo a quebra de disciplina em setores militares, como a Revolta dos Sargentos em Brasília e a Revolta dos Marinheiros no Rio de Janeiro, aprofundaram o desconforto dentro das Forças Armadas. Para muitos oficiais, a hierarquia — elemento central da instituição — estava sendo corroída, o que ampliava a percepção de que o país caminhava para uma situação de descontrole. Esse sentimento estava presente em segmentos significativos da oficialidade. Com a propaganda comunista sendo feita abertamente entre os Sargentos dentro dos quartéis, com a anuência dos generais do povo na cúpula do governo (como o general Osvino Ferreira Alves e o almirante Cândido Aragão – o tal esquema militar, golpista), o medo era tanto que o oficial-de-dia das Unidades das Forças Armadas ficava andando a noite toda no quartel, igual um zumbi, com medo de ser assassinado na cama, como ocorreu na Intentona Comunista, em 1935.
Nesse
ambiente, marcado por medo, expectativa e desconfiança, consolidou-se a ideia,
entre diversos grupos civis e militares, de que uma ruptura seria inevitável.
Para uns, tratava-se de impedir um processo de radicalização política; para
outros, era a própria ruptura que representava a ameaça à ordem democrática. O
fato é que, no fim de março de 1964, o País já não se encontrava em equilíbrio,
com a massa popular tomando as ruas das grandes cidades, pedindo socorro às
Forças Armadas.
Quando
as tropas começaram a se movimentar na noite de 31 de março, a partir de Minas
Gerais, o desfecho foi rápido. A adesão de diferentes comandos militares ao
movimento acelerou os acontecimentos, e João Goulart deixou o país poucos dias
depois.
O esquema militar de Jango e seus generais do povo, de cooptação dos militares de baixas patentes, foi para o brejo, ainda que a sargentada tenha feito fila para o próprio presidente João Goulart assinar a compra de um Gordini ou de um apartamento via Caixa Econômica, um absurdo! Imagine Bolsonaro fazer isso, ao grito dos paraquedistas: Mito! Mito! Mito!
O
episódio, que alguns denominam revolução e outros classificam como golpe,
marcaria profundamente a história brasileira, dando início a um período
prolongado de governo militar, cujas consequências seriam sentidas por décadas.
O correto é qualificar o episódio como contragolpe, pois havia um golpe
comunista a caminho, para ser deflagrado em 1/5/1964 (cfr. manchete de O
Globo, de 6/4/1964).
Com
o passar do tempo, vieram também os relatos de militantes que participaram de
movimentos armados de esquerda, alguns dos quais reconheceram, em depoimentos e
memórias, a existência de projetos revolucionários inspirados em experiências
internacionais, inclusive com referências à estratégia de guerra prolongada e à
criação de focos insurgentes no continente. Militantes políticos (eufemismo
para terroristas de esquerda), como Fernando Gabeira, foram
dos poucos que afirmaram, com todas as letras, que os movimentos armados não
tinham o objetivo de restabelecer a democracia no Brasil, mas implantar a
ditadura do proletariado, ou seja, a ditadura comunista, nos moldes de Cuba do
paredón e de mais de 100.000 mortos e 20% de sua população fugindo para o
exterior, principalmente para a Flórida.
O
que emerge desse período não é uma narrativa convergente, mas um mosaico complexo,
formado por percepções, interesses, medos e projetos distintos. Havia, sem
dúvida, uma disputa ideológica intensa, alimentada tanto por fatores internos
quanto pelo contexto global da Guerra Fria. Havia também mobilização popular
real, em diferentes sentidos, refletindo um país que participava ativamente de
seu próprio destino, ainda que de forma conflituosa.
Décadas
depois, o eco de 1964 continua presente. O ano de 1964 teima em não
terminar. Não apenas nos livros de história, mas nas conversas
familiares, nas memórias transmitidas entre gerações, nos relatos de quem viveu
aquele tempo. O avô que testemunhou os acontecimentos guarda impressões
diretas, moldadas pela experiência vivida. O professor marxista que hoje ensina
História trabalha com narrativas, aprendidas na Prova do ENEM, na universidade,
na mídia e na cultura, especialmente teatro e cinema, órgãos totalmente tomados
pela esquerda a partir do final dos anos 1970.
Filmes
como Olga, O que é isso companheiro? Lamarca, Marighella, Ainda Estou
Aqui e O Agente Secreto são provas desse maniqueísmo barato,
do nós, os democratas, contra eles os fascistas, em que
terroristas sanguinários são tratados como heróis, enquanto os militares que os
combateram são tratados como assassinos e torturadores. Infelizmente, muitas
vezes o neto passa a acreditar mais nesses patifes do que no avô que viveu
aquela época e sabe muito bem o que de fato ocorreu.
A
compreensão do passado exige mais do que adesão a uma versão única: exige
escuta, comparação, análise. A História recente do Brasil — como toda história
viva — permanece aberta à interpretação, não porque os fatos sejam
inexistentes, mas porque seu significado é disputado como se fosse um Fla x Flu.
E
talvez seja justamente nesse ponto que reside o maior desafio para as novas
gerações: estudar a sério o que houve naquele período, buscar manchetes e
textos dos jornais e revistas da época, não ser mera pombinha dócil comendo
milho podre oferecido pela esquerda pérfida, assassina por natureza.
No
fim das contas, talvez a melhor imagem para encerrar essa história esteja
dentro de casa, na conversa entre gerações. O neto de hoje cresce cercado por
interpretações acadêmicas, livros didáticos e debates ideológicos que tentam
explicar o passado com as lentes do presente. Mas diante dele também está o avô
de oitenta anos, homem comum, honesto, que viu aqueles dias com os próprios
olhos, sentiu o clima nas ruas, ouviu os discursos no rádio, acompanhou as
marchas, as inquietações e os temores de uma época em que o mundo era dividido
em dois campos cada vez mais inconciliáveis.
A
memória de quem viveu aquela época não substitui o estudo da História, mas
também não pode ser descartada como se fosse irrelevante. Muitas vezes, é nesse
testemunho direto — imperfeito, humano, porém sincero — que o jovem encontra
uma dimensão do passado que nenhum manual consegue transmitir por completo.
Talvez a sabedoria esteja justamente em ouvir com atenção quem viveu aqueles
dias e, ao mesmo tempo, confrontar essa memória com os documentos e registros
do período, para que a compreensão do Brasil não seja feita apenas de versões
prontas, narrativas enganosas, mas de diálogo entre experiência e reflexão.
***
Há cerca de 30 anos, eu venho estudando o Movimento
Cívico-Militar de 31 de Março de 1964. Tive um tio, Arno Preis, que participou
do grupo terrorista Ação Libertadora Nacional (ALN) de Carlos Marighella,
depois de se formar em Direito na USP, e teve um fim trágico, em 1972. Li
muitos livros sobre o assunto, tanto dos que defendem o Movimento, como daqueles
que o desprezam. O longo governo dos militares, de 21 anos — tão longo quanto o
PT de hoje — teve altos e baixos, como ocorre com todo governo, por mais sério
que ele seja. Porém, trouxe o Brasil à modernidade, da 46ª. para a 8ª. economia
do planeta, com obras de infraestrutura que perduram até hoje.
Assim, deixo meus trabalhos sobre o assunto principalmente
para os netos de hoje, de modo que não caiam fácil no canto da sereia
progressista, que um dia foi comunista, depois socialista, mas continua com o
mesmo DNA totalitário comunista de sempre, que deixou mais de 100.000.000 de
mortos pelo caminho durante o século XX.
Boa leitura!
LEITURA RECOMENDADA:
1. Movimento
pré-revolucionário comunista, que antecedeu o ano de 1964
Por Félix Maier
https://felixmaier1950.blogspot.com/2026/03/movimento-pre-revolucionario-comunista.html
2. ANTECEDENTES
DO MOVIMENTO CÍVICO-MILITAR DE 31 DE MARÇO DE 1964 (HISTÓRIA ORAL DO EXÉRCITO –
BIBLIEX, RIO DE JANEIRO – 2003)
Fichamento
de Félix Maier
https://felixmaier1950.blogspot.com/2021/03/antecedentes-do-movimento-civico.html
3. 31
DE MARÇO DE 1964: CRONOLOGIA E TEXTOS HISTÓRICOS
Organizado
por Félix Maier
https://drive.google.com/file/d/1o4JLrW9wc0dgUD50kuA6iQP3QEd3U1O3/view
4. Operação
“Mata Lacerda”
História
Oral do Exército – 31 Março 1964 (fichamento de Félix Maier)
https://felixmaier1950.blogspot.com/2021/04/operacao-mata-lacerda-por-historia-oral.html
5. Revolta
dos Sargentos em Brasília
História
Oral do Exército – 31 Março 1964 (fichamento de Félix Maier)
https://felixmaier1950.blogspot.com/2021/03/revolta-dos-sargentos-em-brasilia.html
6.
As manchetes do contragolpe de 1964
Jornais
e revistas
https://felixmaier1950.blogspot.com/2021/03/as-manchetes-do-contragolpe-de-1964.html
7. HISTÓRIA
ORAL DO EXÉRCITO - 31 MARÇO 1964
Fichamento
(dos 15 Tomos publicados pela Biblioteca do Exército) feito por Félix Maier
https://drive.google.com/file/d/1fsbc3zFomx0w1xoEDT8MTWew3MT03ggo/view
8. MEMORIAL
31 DE MARÇO DE 1964
Seleção
de textos feita por Félix Maier
https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/09/memorial-31-de-marco-de-1964-textos.html
9. ARNO
PREIS E OS IDOS DE MARÇO DE 1964
Por
Félix Maier
https://drive.google.com/file/d/1qlly7cvMHL0ia6NjXBD9Oqq22Z81Xlm9/view
10. AÇÕES
ARMADAS COMUNISTAS NA AMÉRICA LATINA - Da Intentona Comunista às ações de Cuba
Organizado
por Félix Maier
https://drive.google.com/file/d/1NM-YQGMFYok4sA6fbzkXi-3PqQeRTX1r/view
11. MEMORIAL
DAS VÍTIMAS DO COMUNISMO
Organizado
por Félix Maier
https://drive.google.com/file/d/1h3QBf3-wZQhdqWRGjdR3a5hjJyk6GJjd/view
12. A
LÍNGUA DE PAU - Uma história da intolerância e da desinformação
Por
Félix Maier
https://drive.google.com/file/d/1wDHV0YJFOZSoBwlJSSrHdl68CfJokMmf/view
Acompanhe meus escritos no Blog PIRACEMA - Nadando contra a corrente -https://felixmaier1950.blogspot.com/.
LEIA TAMBÉM:
1. 57º. ANIVERSÁRIO
DO MOVIMENTO CÍVICO-MILITAR DE 31 DE MARÇO DE 1964 - EDIÇÃO HISTÓRICA
Jornal
Inconfidência nº. 288, de 31
de março de 2021
https://drive.google.com/file/d/15IYSa-qEsSufEjgSpNX9RuODzUOghOLh/view
2. Telegramas revelam ações subversivas cubanas no Brasil
Arquivos secretos divulgados por Trump mostram que Fidel Castro enviou dinheiro e armas para deflagrar outras revoluções na América Latina
Por
Duda Teixeira
https://crusoe.com.br/diario/telegramas-revelam-acoes-subversivas-cubanas-no-brasil/





