MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

segunda-feira, 23 de março de 2026

O tico-tico e o vira-bosta - Por Félix Maier

 

O Tico-tico e o vira-bosta

 Félix Maier 

Há cenas da natureza que, se não fossem reais, seriam recusadas por qualquer editor de filme por excesso de alegoria. Uma delas é a rotina do tico-tico — esse pequeno operário, diligente, organizado, de penas cinzentas, com colarinho vermelho no pescoço — que constrói seu ninho com a paciência de um artesão medieval, sem saber que, em breve, será vítima de uma fraude biológica.

Entra em cena o chupim, também chamado de vira-bosta, nome que, por si só, já dispensa maiores comentários taxonômicos. Não constrói casa, não planta, mas colhe, com notável eficiência, na horta alheia. Como o cuco, o vira-bosta é especialista em terceirizar responsabilidades, deposita seu ovo no ninho alheio e sai assobiando, como quem acabou de protocolar um projeto bem-sucedido em alguma repartição invisível da natureza.

O tico-tico, alheio à trama, choca o ovo estranho junto com os seus. E aí se desenrola o drama: o filhote intruso nasce antes, cresce mais rápido, ocupa mais espaço, exige mais comida. Logo, o ninho vira pequeno demais para tanta voracidade. Um a um, os legítimos herdeiros do lar vão sendo empurrados para fora, não por maldade, mas por simples ineficiência estrutural do ninho, diria algum tecnocrata de plantão. Caem no chão, são devorados, nem viram estatística, desaparecem na indiferença ecológica.

O tico-tico, exausto, continua alimentando aquele bico insaciável, sem perceber que está sustentando o algoz da própria linhagem.

Se isso lhe soa familiar, não é coincidência. A natureza, às vezes, escreve crônicas políticas com antecedência.

No Brasil — esse grande aviário tropical — há quem veja no programa Bolsa Família uma versão institucionalizada desse fenômeno. A ideia, na superfície, parece nobre: amparar os mais pobres, garantir um mínimo de dignidade, impedir que a fome dite as regras do jogo. Quem ousaria ser contra isso sem parecer um vilão de novela das nove?

Mas a crítica — feita em tom mais ou menos ácido, dependendo do humor do cronista — aponta para outro aspecto: a dependência crônica, o ciclo vicioso, o estímulo indireto à perpetuação da pobreza como ativo político. O ovo no ninho alheio, digamos assim. A vagabundagem sendo premiada.

Segundo essa leitura, o programa teria sido elevado à categoria de estratégia eleitoral por figuras como Luiz Inácio Lula da Silva — aqui apelidado, com o sarcasmo de certas rodas de conversa, de Ogro de Nove Dedos — e sonhado em escala ainda mais ambiciosa por José Dirceu, o Zé do Caroço, o “Daniel” do grupo terrorista Molipo, que era, assim como o Ogro, amigo íntimo de Fidel Castro e do Comandante Barbarroja, do serviço secreto cubano. Segundo vazamento de um cable (telegrama diplomático) americano, em 2010, atribuído ao WikiLeaks, Zé do Caroço havia demonstrado entusiasmo político com o programa Bolsa Família, de que poderia gerar algo em torno de 40 milhões de votos.

Segundo cálculos obtidos na web, cerca de 21 milhões de famílias recebem o Bolsa Família, sendo 63 milhões de pessoas vivendo nesse ninho do tico-tico. Considerando que cerca de 50% dessa população tem mais de 16 anos, os eleitores seriam algo entre 30 a 33 milhões. Se somarmos os benefícios doados por Estados e Municípios, o total chega a cerca de 94 milhões de beneficiários para uma população estimada em 213,4 milhões (dados de 2025). Quase a metade da população.

O mapa do Brasil, quando tingido com as cores da dependência parasitária, parece confirmar a metáfora para muitos observadores: quanto mais se sobe rumo ao Norte e ao Nordeste, maior a densidade de beneficiários. Quanto mais se desce do Centro ao Sul e ao Sudeste, mais rarefeito é o fenômeno, ao menos proporcionalmente.

E assim se constrói a narrativa: os tico-ticos do Centro-Sul, industriosos e tributados, sustentando uma crescente população de vira-bostas sociais do Norte e do Nordeste, alimentados por um sistema que premia a permanência no ninho.

É uma caricatura, claro. Mas toda caricatura exagera traços reais.

O escritor Emil Farhat, em seu livro O Paraíso do Vira-Bosta (1987), já havia intuído algo semelhante, ainda que em outro contexto. Seu país fictício era governado por uma elite de parasitas engravatados — vira-bostas de cartola — que se alimentavam do erário com uma desenvoltura quase artística. Criavam repartições inúteis, inventavam carimbos, multiplicavam papéis, os trens sempre saíam mais tarde, para os ferroviários ganharem hora extra. O cidadão comum trabalhava; eles administravam.

Era o patrimonialismo em estado puro, herança que remonta aos tempos de Pedro Álvares Cabral e da velha tradição ibérica de confundir o público com o privado, o Estado com a extensão da casa-grande.

A diferença, dirá o cronista contemporâneo, é que antes o peso recaía sobre poucos vira-bostas de alto escalão e funcionários de estatais. Hoje, o sistema teria se democratizado. Popularizou-se. Espalhou-se. Tornou-se capilar. Tomou conta quase da metade da sociedade.

Se antes eram alguns milhares, agora são quase cem milhões.

E assim chegamos ao presente, onde novos programas surgem como variações do mesmo tema: auxílio aqui, subsídio ali, incentivo acolá. Pé de Meia, Gás do Povo, Luz Grátis, crédito, bônus, fim da jornada 6x1, uma sinfonia de benefícios que, para uns, representa inclusão social; para outros, uma engenharia de dependência cuidadosamente calibrada para se perpetuar.

Enquanto isso, o tico-tico segue trabalhando, em dobro. Acorda cedo, paga impostos, enfrenta burocracia, financia o sistema e, no fim do dia, ainda ouve que deveria cantar mais baixo, para não incomodar a harmonia do aviário.

Há algo de tragicômico nisso. Porque o tico-tico, apesar de tudo, continua acreditando que o ninho é seu.

No alto das árvores institucionais, paira ainda o olhar vigilante do Supremo Tribunal Federal, guardião da Constituição e árbitro das disputas de tico-ticos e vira-bostas. Para os críticos mais ferozes, porém, o tribunal teria deixado de ser um observador imparcial para se tornar os dentes mais fortes da engrenagem do Sistema Toga Petralha, pois todos os órgãos públicos foram aparelhados por petistas, um feito magistral do Ogro de Nove Dedos e da Estocadora de Vento. Um aliado nada tácito na manutenção do equilíbrio entre tico-ticos trabalhadores e vira-bostas parasitas.

Aqui, a crônica escorrega deliberadamente para o exagero, território natural do sarcasmo. Fala-se em ditadura perfeita (Bienvenidos a Brazuela!), em sistema fechado, em engrenagem sem freios e sem contrapesos. São imagens fortes, talvez desproporcionais, mas reveladoras do sentimento da maior parcela da sociedade. Porque, no fundo, toda metáfora carrega uma conhecença ancestral irrefutável.

E então surge a pergunta inevitável: há saída para o tico-tico?

Na natureza, a resposta é dura: jamais. O instinto não lhe permite reconhecer o invasor. O tico-tico alimenta o filhote estranho até o fim, mesmo que isso signifique a extinção de sua própria prole.

Na sociedade humana, porém, a história é menos determinista. Há debate, voto, alternância de poder (quando?), revisão de políticas. Há, ao menos em teoria, a possibilidade de romper o ciclo vicioso criado pelo PT.

Mas isso exige algo que o vira-bosta brasileiro não possui: consciência na hora de votar. Sem trocadilho, prefere fazer bicos, nada de emprego formal, para continuar votando no PT e receber o Bolsa Família. Xô, carteira assinada!

Minha Bela e Santa Catarina constitui-se em Estado modelo, seja pelo forte empreendedorismo e pelo emprego quase pleno de sua população, seja pelo avanço socioeconômico mais relevante do País, com apenas 4,4% de sua população sendo assistida por programas sociais. Já o Maranhão dos Sarney e dos Dinos, ocupa o primeiro lugar de vira-bostas metidos nos ninhos dos tico-ticos, com 41,3% de sua população usufruindo as benesses do Estado cada vez mais socialista.

Enquanto a tal consciência política não vem, o aviário segue seu curso. O vira-bosta cresce, o ninho range, os filhotes de tico-tico caem e são comidos por predadores. E o tico-tico, incansável, continua trazendo alimento no bico, em dobro, para alimentar o Bebezão Vira-Bosta cada vez mais faminto, sem perceber que, a cada viagem, reforça a estrutura que o aprisiona.

Talvez, no fim das contas, a maior ironia não esteja no chupim, que apenas segue sua natureza oportunista. Mas no tico-tico, que insiste em não reconhecer o próprio destino.






sexta-feira, 20 de março de 2026

Diálogo de Dois Bagos - Com intervenção da Estrovenga - Por Félix Maier

Diálogo de dois bagos - 

com intervenção da estrovenga


Félix Maier


Em memória dos bagos que ousaram dialogar 

quando o mundo só queria ouvir os monólogos da vagina.


Sumário 

CRÔNICAS

PG.

SINOPSE

4

CRÔNICA 1 - Assembleia Extraordinária

5

CRÔNICA 2 - a revolução hormonal

8

CRÔNICA 3 - adolescência: depois do primeiro VULCÃO

12

CRÔNICA 4 - a era das ereções involuntárias

15

CRÔNICA 5 - o mangue, as perebas e a diplomacia do noivado

CRÔNICA 6 – DIÁLOGOS IDEOLÓGICOS PENTELHUDOS

18

21

CRÔNICA 7- o casamento e a diplomacia conjugal

25

CRÔNICA 8 - os filhos do portador e da portadora

28

CRÔNICA 9- o dia em que a estrovenga falhou

31

CRÔNICA 10- o medo do exame médico

33

CRÔNICA 11 - a crise da meia-idade

36

CRÔNICA 12 - a nostalgia da juventude

39

CRÔNICA 13 – a era do viagra

41

CRÔNICA 14 - a aposentadoria dos impulsos

44

Crônica 15 - a filosofia do saco murcho

47

EPÍLOGO - depois do diálogo

50

SOBRE O AUTOR

51


sinopse 

Diálogo de Dois Bagos Com Intervenção da Estrovenga é uma comédia filosófica sobre o tempo, narrada a partir do ponto de vista mais improvável do corpo humano.

Ao longo de quinze crônicas, Primeiro e Segundo Bago, com a participação sempre altiva da Estrovenga, e sob a supervisão involuntária do Portador, discutem os altos e baixos da vida masculina: da exuberância juvenil às panes ocasionais, da temida falha técnica no casamento ao medo solene dos exames médicos depois dos quarenta. Entre consultas constrangedoras, videocolonoscopias com pólipo de lembrança e assembleias internas sobre desempenho, o trio escrotal transforma o drama fisiológico em metafísica de bolso.

Há a crise da meia-idade, quando se suspeita que o espelho virou inimigo. Há a nostalgia dos vinte e um anos, fase em que a memória começa a competir com o presente. Surge a era do comprimido azul, com seus encontros planejados e desencontros inevitáveis, e madrugadas em que a biologia resolve agir fora do expediente conjugal. Depois vem a aposentadoria dos impulsos, quando se descobre que frequência não é sinônimo de felicidade.

E, por fim, a filosofia do saco murcho: reflexão inesperadamente profunda sobre dignidade, gravidade e a arte de continuar comparecendo, mesmo quando o corpo já trocou exuberância por experiência.

Escrito com humor à la Veríssimo, diálogos cortantes e uma boa dose de autoironia, Diálogo de Dois Bagos é menos um livro sobre sexo do que sobre passagem do tempo, cumplicidade e aceitação. Entre risos, pequenas tragédias íntimas e incontinências ocasionais, revela-se o que realmente sustenta a vida conjugal: não a rigidez dos impulsos, mas a elasticidade do afeto.

Um livreto com muita tesão, no duplo sentido: energia vital e vontade de viver.


Sobre o autor

https://felixmaier1950.blogspot.com/2021/04/felix-maier-curriculum-vitae.html 

Félix Maier, filho de Hilário Maier e Marina Preis Maier, nasceu em 3/1/1950 na Linha Nogueira, Luzerna, então Distrito de Joaçaba, SC.

Estudou 9 anos nos seminários franciscanos de Luzerna-SC, Rio Negro-PR e Agudos-SP, entre 1961 e 1969.

Em 1970, entrou como soldado no Exército Brasileiro, onde serviu durante 32 anos, chegando ao posto de capitão.

Casado com Valdenice dos Santos Maier, tem um casal de filhos, Wagner e Cristiane, e cinco netos: Letícia, Lyan, Ana Caroline, Erin e Maria Clara.

No biênio 1990-92, foi Auxiliar do Adido Militar no Egito. Em 1995, publicou o livro Egito – Uma viagem ao berço de nossa civilização.

Aposentado em 2002, Félix passou a escrever para sites e blogs, obtendo citações em dezenas de trabalhos acadêmicos.

No Clube de Autores, Félix tem alguns e-books:

1. Egito - uma viagem ao berço de nossa civilização. Thesaurus Editora, Brasília, 1995.

2. A Língua de Pau Uma história da intolerância e da desinformação

3. Três em Um Artigos, humor e alguma poesia

4. Arno Preis e os Idos de Março de 1964

5. As Covíadas Amor e ódio nos tempos do corona

6. Lira dos Setent’Anos

7. Contos infantojuvenis

8. Causos de Milico

9. Memorial de Luzerna, a pérola do Rio do Peixe – Uma saga teuto-brasileira. Tagore Editora, Brasília, 2025.

10. Contos risonhos – Entre risos e sonhos (e alguns pesadelos...)

11. Homem é Fusca, Mulher é Porsche

12. Diálogo de Dois Bagos – Com intervenção da Estrovenga


Brasília, verão-outono de 2026.

Félix Maier


Para ler o livreto escrotal DIÁLOGO DE DOIS BAGOS, clique em 

https://drive.google.com/file/d/1DQz_KoIHxvC9q0kT_3Ocio0a3AMmt5RQ/view



quinta-feira, 19 de março de 2026

O vagão rosa e a Belascar: Diagnóstico de uma cidade enferma - Por Félix Maier


O vagão rosa e a Belascar:

diagnóstico de uma cidade enferma

Félix Maier

Brasília, vista de cima, parece ser perfeita: asas abertas, eixos monumentais, palácios, tesourinhas, esplanada dos ministérios, superquadras habitacionais numeradas como páginas de um livro bem diagramado  há até cópia de totem (placa) do Plano Piloto no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA NY). Vista de perto, porém, a história começa a ranger.

Há quem diga que a má fama da capital não lhe pertence. Que é um empréstimo involuntário, um tipo de bagagem extraviada deixada por deputados e senadores que chegam com discursos e saem com escândalos. Brasília, coitada, seria apenas o palco, nunca o ator. Mas como toda cidade, ela também tem seus bastidores. E, neles, o figurino nem sempre é tão elegante quanto o do plenário.

Foi nesse cenário que surgiu a Belascar, não como um empreendimento qualquer, mas como uma espécie de confissão coletiva. Quando uma cidade precisa criar um serviço de transporte exclusivo para mulheres, não está apenas inovando: está admitindo. Admitindo que, em algum ponto do percurso, Brasília falhou. Que entre o embarque e o destino, algo se perdeu: o respeito básico, aquele que deveria vir de fábrica em qualquer cidadão minimamente civilizado.

Lorrany Andrade, ao decidir criar esse tipo de serviço, não estava apenas empreendendo. Estava reagindo. Reagindo a olhares que atravessam como mãos invisíveis, a comentários que não pedem licença, a silêncios constrangidos que se acumulam como poeira nos cantos dos ônibus. A Belascar, com suas 400 motoristas e mais de 10 mil passageiras, não é apenas uma rede de transporte. É um sintoma.

E sintomas, por mais que incomodem, têm a virtude de revelar doenças.

O que dizer de uma cidade que precisa reservar um vagão de metrô exclusivamente para mulheres? Um vagão rosa, identificado, delimitado, quase como uma zona de proteção em meio a um território hostil. Funciona nos horários de pico, justamente quando a cidade mais se parece com ela mesma: apressada, lotada, impaciente.

Ali, naquele primeiro carro, mulheres entram com um misto de alívio e resignação. Alívio por estarem, enfim, em um espaço onde o corpo não precisa estar em alerta constante. Resignação por saberem que esse espaço precisa existir. Porque fora dele, a regra é outra.

O homem brasiliense — ou melhor, uma parcela dele — parece não ter entendido que o século mudou. Que o corpo feminino não é paisagem pública, nem convite, nem distração para tarados sexuais. Há algo de profundamente primitivo nesse comportamento, como se, por baixo do terno, ainda habitasse um sujeito das cavernas, mal adaptado ao concreto armado. Esses brutamontes são hienas e chacais que veem o corpo feminino apenas como um naco de carne a ser devorado.

E não se trata apenas de casos extremos, desses que viram manchete. A degradação cotidiana é mais silenciosa, mais persistente. Está no roçar acidental que se repete, no olhar que demora além do necessário, no comentário murmurado que se pretende engraçado. Pequenas violências que, somadas, constroem um ambiente onde a mulher aprende a calcular cada passo, e cada parada.

Dentro dos ônibus, a cena se repete com uma frequência que já não surpreende. O sujeito que se aproxima mais do que o espaço permite. O que se aproveita da lotação como desculpa. O que testa limites como quem empurra uma porta para ver se está trancada. E, do outro lado, a mulher que se encolhe, que muda de lugar, que finge não perceber para evitar o confronto.

Há uma covardia nisso tudo. Uma covardia latente, quase burocrática, que se esconde na multidão. Porque é fácil ser valente quando ninguém está olhando. Difícil é sustentar o respeito quando ele não rende aplausos.

Brasília, com toda sua vocação para o planejamento, parece ter falhado em um ponto essencial: o planejamento do convívio. Construiu avenidas largas, mas esqueceu de alargar a consciência. Organizou setores, mas não organizou valores. Criou espaços monumentais, mas negligenciou o mais básico dos monumentos: o respeito ao outro.

E então surgem soluções como a Belascar e o vagão exclusivo. Soluções necessárias, sem dúvida. Mas que carregam, em sua existência, uma espécie de derrota. São remendos em um tecido social que deveria ser inteiro. É o diagnóstico de uma cidade enferma.

É curioso como a cidade reage a isso. Há quem celebre a iniciativa, como se fosse um avanço civilizatório. E, em certo sentido, é. Mas há também um desconforto silencioso, uma sensação de que algo está fora do lugar. Porque o ideal não seria separar, mas integrar. Não criar ilhas de segurança, mas um continente inteiro onde ela fosse desnecessária.

O problema é que o ideal, em Brasília, muitas vezes fica restrito ao papel. Assim como o traçado da cidade, que no projeto parecia impecável, mas na prática revelou suas limitações. A vida real, com suas urgências e imperfeições, não tinha como caber na prancheta de Lúcio Costa.

E talvez seja isso que mais envergonhe. Não o fato de existirem iniciativas como a Belascar, mas o motivo pelo qual elas existem. A necessidade de criar espaços protegidos em pleno século XXI, na capital de um país que se pretende moderno, que seria o produto de um sonho de Dom Bosco, e que expõe uma contradição difícil de ignorar.

Brasília gosta de culpar os outros por sua má fama. Os políticos, os forasteiros, os escândalos que chegam de avião e ocupam gabinetes. Mas, aos poucos, a cidade vai sendo obrigada a olhar também para si mesma. E o que vê não é apenas o reflexo de decisões tomadas no Congresso, mas de comportamentos cultivados nos bastidores do cotidiano.

A patifaria, afinal, não é exclusividade de quem usa gravata. Ela também se manifesta no sujeito que acha normal invadir o espaço alheio. No que ri de uma situação constrangedora. No que se cala diante de um abuso evidente. Há uma cumplicidade difusa, uma espécie de conivência que se espalha como um rumor.

E é aí que a vergonha ganha contornos mais nítidos. Não é a vergonha pública, escancarada, que aparece nas manchetes. É uma vergonha íntima, quase doméstica. A vergonha de saber que a cidade precisa se proteger de seus próprios habitantes. Que mulheres precisam reorganizar seus trajetos, escolher serviços específicos, ocupar vagões separados, simplesmente para existir com um mínimo de tranquilidade.

Há algo de profundamente errado nisso. E não se resolve apenas com leis ou iniciativas isoladas. Porque o problema não está apenas na estrutura, mas na cultura. Na forma como certos homens foram ensinados — ou deixaram de ser ensinados — a lidar com a mulher.

Respeito não é uma política pública. É um hábito. E hábitos, como se sabe, não se criam por decreto.

Talvez um dia o vagão rosa deixe de existir. Não por falta de demanda, mas por falta de necessidade. Talvez serviços como a Belascar se tornem apenas mais uma opção, e não um refúgio. Mas, para isso, Brasília precisará passar por um tipo de reforma que não se faz com concreto, nem com espelho d’água, nem com orçamento.

Uma reforma moral.

Até lá, Brasília seguirá convivendo com essa contradição: a capital do país, símbolo de modernidade e planejamento, ainda lutando contra impulsos imundos que insistem em não passar.

E, no meio desse cenário, o vagão rosa e o aplicativo da Belascar seguem seu trajeto diário. Chegam, abrem as portas, acolhem. Um pequeno gesto de proteção em uma cidade que, apesar de toda sua grandiosidade, ainda está aprendendo o básico.

Respeitar.

Sem precisar de placas, cores ou avisos.


Totem no MoMA NY


quarta-feira, 18 de março de 2026

Crônica antiga: PRIMEIRA EPÍSTOLA AO AIATOLÁ DE FORQUILHINHA - Por Janer Cristaldo

Paulo Evaristo Arns não era um religioso exemplar e elogiou Fidel Castro



sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Crônica antiga:
PRIMEIRA EPÍSTOLA AO AIATOLÁ DE FORQUILHINHA *


Janer Cristaldo

Florianópolis — De Forquilhinha, Santa Catarina, conheço dois cidadãos. Ou melhor, um cidadão e uma cidadã, o Paulo e a Albertina. O Paulo, conheço apenas de nome. A Albertina, de meu dia-a-dia. Ambos nasceram em lares humildes mas — coisas da vida! — tiveram diferentes destinos. Albertina veio a ser minha faxineira e Paulo doutorou-se pela Sorbonne. Paulo viu no sacerdócio sua chance de chegar ao poder e a Albertina, coitada, enfrenta bravamente o mundo com sua vassoura. Paulo, ao que tudo indica, prefere uma metralhadora.

Falar em metralhadora me faz lembrar um distante 1º de abril, como também aquela pergunta que nos anos 70 se tornou moda: onde você estava no 1º de abril de 1964? Eu estava em Santa Maria, mais precisamente na sede dos Sindicato dos Ferroviários, mais conhecido como Casa Rosada. Era jovem e idiota. Do alto de meus dezessete anos, trepado em uma mesa, trazia aos operários o apoio da classe estudantil, denunciava Carlos Lacerda, louvava Brizola e exigia do comandante da guarnição local, general Pope de Figueiredo, uma definição sobre o governo João Goulart. Em meio a meu discurso, o salão foi se esvaziando aos poucos, o que era no mínimo desconfortável para quem se julgava bom orador. Mas o problema não era o verbo. Era a definição que chegava, trezentos homens armados de fuzis e metralhadoras, baionetas caladas. Minha platéia se evaporava. Desci da mesa, sentindo-me ridículo até a medula.

Na Casa Rosada, restamos eu e mais dez operários. Fui até a porta. A um metro e meio de mim, centenas de soldados, todos de minha idade, formavam semicírculos concêntricos de baionetas. Não senti medo, não acreditava que alguém desse ordem de fogo. Mas tive de desarmar um operário bêbado que, com seu facão, pretendia enfrentar o exército. Algum tempo depois, surgiram os mensageiros da guerrilha. Convidado para a luta armada, recusei-me. Considerava suicídio lutar de bodoque contra tanques. A esta mesma conclusão chegaram meus companheiros de geração, só que vinte anos mais tarde, após centenas de mortes e sofrimentos no exílio. Mas falava de Paulo. Não no de Tarso, grande matador de cristãos de seu tempo que acabou construindo o cristianismo, Stalin precursor que se tornou um enviado de Deus para suas vítimas. Falava do Paulo de Forquilhinha. Conterrâneo de Albertina.

Pois o Paulo, ou Dom Paulo, como prefere ser chamado, ou melhor ainda, Dom Paulo Evaristo Arns, escreveu há pouco afável cartinha a um dos mais antigos tiranos da América Latina, que há trinta anos oprime com seus coturnos toda uma nação. Não, a carta não foi dirigida a Stroessner. Bem poderia ser. Pois como disse o estafeta episcopal, o ficcionista Carlos Alberto Libânio Christo, vulgo frei Betto, o pecador não deve ser confundido com o pecado. Muito menos a Pinochet, que parece ainda pouco maduro nos meandros do poder — afinal tem só quinze anos de ditadura! — para merecer tapinhas no ombro de um príncipe da Igreja. A carta foi dirigida a Fidel Castro Primeiro e Único, Real Imperador de la Isla de Cuba. E eu que me queixava da Albertina, a coitada, cujo único pecado é tentar organizar por altura das lombadas os livros de minha biblioteca.

Pois Dom Paulo, de certa forma, já me aprontou outra. Quando estava sendo traduzido ao brasileiro o livro Nunca Mais, o relatório da Conadep (Comisión Nacional sobre la Desaparición de Personas), cujos trabalhos foram coordenados por Ernesto Sábato, Dom Paulo tomou a dianteira: endossou trabalho semelhante feito no Brasil, o que é bom, digno e justo. Só não é bom, digno e justo roubar título alheio como o fez, usufruindo indevidamente da publicidade internacional de que gozava o trabalho coordenado por Sábato. A Albertina de vez em quando junta Casanova com Tomás de Aquino, só porque os tomos são da mesma altura, mas jamais subtraiu nada de minha biblioteca.

"Queridíssimo Fidel" — começa o corajoso cardeal — "Paz e bem". Digo corajoso porque coragem intelectual é o mínimo que se exige de um homem culto e bem informado para assim saudar o único ditador do continente que ainda mantém intelectuais no cárcere e proíbe aos nacionais saírem de seu gulag tropical. Em sua epístola ao tirano, Paulo abraça Castro e saúda o povo cubano pelo trigésimo aniversário da ditadura: "Hoje em dia Cuba pode sentir-se orgulhosa de ser no nosso continente, tão empobrecido pela dívida externa, um exemplo de justiça social". Não é bem o que pensa a Anistia Internacional, cujas investigações embasam em boa parte o Brasil: Tortura Nunca Mais, de Dom Paulo. Muito menos o que pensam dois milhões de cubanos que votaram com os pés, fugindo para Miami. Como dizia a Albertina, "que paraíso é esse, professor, onde as pessoas estão proibidas de sair e quando saem não voltam mais?"

"A fé cristã descobre" — continua Paulo em sua epístola aos castrenses — "nas conquistas da Revolução, os sinais do Reino de Deus que se manifestam em nossos corações e nas estruturas que permitem fazer da convivência política uma obra de amor". Ora, se fronteiras fechadas, ausência de eleições livres, imprensa e oposição sufocadas e vida a nível de miséria são sinais do Reino de Deus, vamos então canonizar logo este santo homem chamado Joseph Vissarionovitch Djugatchivili, mais conhecido como Stalin, "o de aço".

Ao dar notícias do Brasil, sua Excelência Reverendíssima, nosso cardeal Arns, não perde a oportunidade de evocar "a vitória popular alcançada nas últimas eleições". Supomos que quando fala de vitória popular se refira ao avanço do PT, pois não é de hoje que temos conhecimento deste namoro entre a Igreja e o partido que se diz dos trabalhadores mas, fundamentalmente, é constituído por acadêmicos. Tal vitória, continua o cardeal, "renova o marco político do país e abre esperanças de que o indescritível sofrimento do nosso povo possa ser minorado no futuro".

Que em algo renova, disso não tenho dúvida alguma, pois pela primeira vez vejo uma prefeita, Luiza Erundina, eleita folgadamente pelo voto popular, declarar via Embratel que a solução dos problemas nacionais passa pela luta armada. Marília Gabriela, sua entrevistadora na TV Bandeirante, em vez de ficar esbanjando charme, bem que poderia propor-lhe três questõezinhas mais:

a) Luta armada exige preparação. O PT está se preparando para ela?

b) Se está, quem o prepara e financia?

c) Se a luta armada é necessária, contra quem vai ser a luta? Contra os empresários? Contra as Forças Armadas? Contra o Congresso? Quem é o inimigo?

Pois atribuo mais sensatez à minha inculta Albertina: "Derramamento de sangue, Deus nos livre, professor!"

Não contente em esfregar-se junto à caspa da ditadura, Paulo Evaristo, cardeal Arns, vai mais longe, reza diariamente por Castro e pede "ao Pai que lhe conceda sempre (o grifo é meu) a graça de conduzir os destinos de sua Pátria". Ora, conceder sempre a graça de conduzir os destinos da pátria, a meu ver não tem diferença alguma de conceder a graça de sempre conduzir os destinos da pátria. Estará Paulo, o de Forquilhinha, pedindo ao Pai pela permanência do tirano?

Paulo de Tarso, que na verdade, não era de Tarso, mas da Cilícia, fariseu fanático que mais matou cristãos no primeiro século do cristianismo, era mais singelo e não usava de meias palavras, matava quem quer que seguisse o Cristo e estamos conversados. Quando viu no cristianismo então emergente um potencial instrumento de controle do poder, não teve dúvidas, converteu-se às novas circunstâncias. Dom Paulo de Forquilhinha parece estar percorrendo a estrada de Damasco em rumo contrário. Depois de velho, vai esfregar-se em prepostos de Moscou, que preferem manter um país a nível de fome para garantir a presença soviética na África, regada com o sangue de jovens cubanos.

Passou aqui em Florianópolis, há coisa de um ano e pouco, um destes senhores que adora sangue e cultua quem o faz derramar. Chamava-se Antonio Callado e fez palestra nos salões da Universidade Federal de Santa Catarina. Hospedou-se em hotel de luxo, foi caitituado pelos intelectuais autóctones e vinha financiado por uma multinacional. Disse esperar que no Brasil estoure uma revolução violenta. Desafiado por um repórter, disse que assinava embaixo. E assinou mesmo, o velhote sanguinário. Disse ainda que este caminho, o da revolução violenta, passa pela Igreja e pelo PT.

Os sinais do Reino de Deus parecem estar fechando. Frei Betto levando quitutes da mamãe para o tiranete das Antilhas, portando cartas de Paulo de Forquilhinha ao ditador. Leonardo Boff namorando Ernesto Cardenal, mais conhecido internacionalmente como o aiatolá do Caribe por seu apoio a Khomeiny. Erundina falando em luta armada. Lula estabelecendo vínculos com os aprendizes de tirano da Nicarágua. Estará próximo o Reino de Deus?

Ou talvez o da estupidez, como diria Albertina, sem talvez ter idéia da profundidade do que diz. Nenhum homem medianamente informado desconhece o preço pago em sangue pelos espanhóis durante a Guerra Civil. A nenhum homem honesto é permissível ignorar quem foi Pol Pot. Latino-americanos, todos sabemos em que resultaram essas tentativas desvairadas de tomada do poder no Uruguai, Chile, Argentina e Brasil. O massacre está sendo reeditado no Peru. Um grupo de assassinos com vocação para o suicídio tomou recentemente um quartel em Buenos Aires. Eram paranóicos a ponto de portar no bolso um programa de governo. Luís Carlos Prestes, outro sanguinário impenitente, do alto de suas oito décadas de vida, que nada parecem ter-lhe ensinado, declarou que o assalto a La Tablada foi uma loucura. Nisto concordamos.

Mas preferiria que o Cavaleiro da Esperança (sic!) reconhecesse, antes de morrer, seu ataque de loucura em 1935, quando, aterrissando na praia do Campeche, cá na ilha, voltou de Moscou para inaugurar a guerra civil, em sua tentativa messiânica de instalar no Brasil o reino, sei lá se de Stalin ou de Deus, pois afinal estes dois eram bastante confundidos na época e — o que é pior — parece que até hoje, pelo menos na América Latina, em pouco ou nada se distinguem.

Tenho mais de quarenta anos. Há umas boas décadas deixei de ser o jovem idiota de 64, que obedecia palavras de ordem que não entendia e que levaram parte de minha geração ao massacre. Não quero mais viver, nem quero ver alguém vivendo, aqueles dias de opressão, medo, exílio, desconfiança mútua, prisões arbitrárias e tortura, inerentes a tais processos de assalto ao poder. Vivi dias em que a amizade era exercício quase impossível, pois se buscávamos a convivência de um colega já contaminado pelo vírus da ideologia, ou tínhamos de concordar em tudo ou, automaticamente, éramos classificados como inimigos.

Vivi seis meses na Espanha, em 87. A Guerra Civil terminara há meio século e observei que, até hoje, os espanhóis continuam divididos e ainda alimentam velhos rancores. Pior ainda: a Espanha é hoje nação livre, rica e democrática, e nunca falta intelectual que continue a sonhar com a vitória dos republicanos, o que teria levado o país, e certamente toda a Europa junto, à paupérrima condição dos países do bloco soviético.

Paulo Evaristo, cardeal Arns: bem ou mal, pertenço à sua Igreja. Fui batizado, à revelia, é verdade, como à revelia se tornam partícipes do Corpo Místico de Cristo crianças que prefeririam uma chupeta a serem aspergidas com água benta. Dentro de vossa ótica, talvez seja um membro doente deste Corpo. Mas a ele pertenço. Uma vez a ele pertencendo, sinto-me no direito de pedir a meu pastor que não mais abrace tiranos. E não mais escreva bobagens. Não fica bem para um cardeal.

Ou o cardeal nos deseja um novo Primeiro de Abril?

* Joinville, A Notícia, 05.02.89

Fonte: https://cristaldo.blogspot.com/2010/02/cronica-antiga-primeira-epistola-ao.html?m=1

Leia Ponche Verde, de Janer Cristaldo, em https://www.ebooksbrasil.org/eLibris/ponche.html




terça-feira, 17 de março de 2026

O vendedor de futuros - Por Félix Maier

 

O Vendedor de Futuros

Félix Maier

Em 2004, o escritor angolano José Eduardo Agualusa publicou o romance O Vendedor de Passados, uma história curiosa narrada por uma osga — uma lagartixa filosófica chamada Eulálio — que observa o estranho ofício de Félix Ventura, um homem que fabrica biografias.

Em uma Luanda que tentava se recompor depois de décadas de guerra civil, surgia uma nova elite que precisava de algo essencial: um passado respeitável. Félix Ventura fornecia exatamente isso. Inventava genealogias, antepassados heroicos, avôs ilustres, bisavós patrióticos. Quem antes fora ninguém, de repente tornava-se descendente de estadistas, intelectuais ou combatentes da liberdade. Era, portanto, um comércio de memórias fictícias, não de fatos.

A genialidade do romance está em revelar uma verdade desconfortável: sociedades inteiras às vezes precisam reorganizar o passado para poder seguir vivendo. O problema começa quando essa reorganização se transforma em propaganda política. Quando o passado deixa de ser lembrança e passa a ser mercadoria ideológica.

No Brasil, essa prática de vender passados assumiu contornos bastante particulares. Durante décadas, grupos políticos da esquerda radical e da esquerda light — aquela, assassina por natureza, esta, a que bate palmas — empenharam-se em reembalar episódios turbulentos da história recente como narrativas heroicas. Não se tratava de inventar genealogias pessoais, como fazia o personagem de Agualusa, mas de reconstruir ideologicamente acontecimentos complexos para que se ajustassem a um roteiro moral simples: o da luta pela democracia.

Nesse roteiro, organizações armadas que atuaram no Brasil nas décadas de 1960 e 1970 passaram a ser apresentadas como movimentos românticos de resistência democrática. Figuras como Carlos Marighella, Carlos Lamarca, Dom Hélder Câmara e Dom Paulo Evaristo Arns — o Aiatolá de Forquilhinha — foram transformadas em símbolos de uma suposta cruzada pela liberdade.

Essa narrativa, entretanto, omite um aspecto essencial: esses grupos não buscavam restaurar uma democracia liberal nos moldes ocidentais. Inspiravam-se explicitamente em revoluções socialistas e em regimes de partido único. Seus modelos políticos estavam em experiências como a de Fidel Castro em Cuba, no sistema da União Soviética de Josef Stálin e na revolução conduzida por Mao Tsé-Tung na China.

A história do século XX mostrou que esses regimes produziram realidades bastante distantes das utopias prometidas. Prometiam liberdade, mas deixaram mais de 100.000.000 de ossadas pelo caminho, como foi denunciado em O Livro Negro do Comunismo.

Na União Soviética, milhões de pessoas morreram em fomes induzidas por políticas econômicas desastrosas, chegando-se ao absurdo de pais comerem seus filhos no Vale do Volga, como foi denunciado em O Arquipélago Gulag, de Alexander Soljenítsin. (Talvez venha daí a frase incômoda comunista come criancinha...) Quem não morria de fome passou anos nos campos de trabalho forçado dos Gulags siberianos, administrados pelo aparato repressivo do Estado, onde até existe uma escabrosa Estrada de Ossos, tantos eram os que morriam naquele inferno gelado.

Na China maoísta, campanhas políticas e experimentos econômicos, como o Grande Salto Para a Frente, provocaram uma das maiores catástrofes humanas da história moderna, com dezenas de milhões de mortos, de fome e de perseguição política – além de canibalismo. Durante a Revolução Cultural, que ressuscitou Mao Tsé-Tung, houve mais de 10 milhões de mortos, em que coitados ainda vivos tinham seus testículos cortados, assados e comidos. O tal churrasquinho chinês.

Em Cuba, opositores foram presos e executados após a consolidação do regime revolucionário, em 1959. Fala-se em 17.000 mortos no paredón, mas pode chegar a 50.000, segundo alguns historiadores. Vinte por cento da população fugiu do país, especialmente para a Flórida — cerca de 145 km entre o norte de Cuba e Key West, o caminho mais curto para fugir agarrados em câmaras de ar de pneus de caminhões e em troncos de bananeiras, enfrentando tubarões. Um petisco saboroso em Havana, na época, era filé de fígado. Não de fígado de vaca, nem de ovelha, mas de fígados humanos retirados de mortos no hospital e vendidos como iguaria rara, como foi denunciado no livro Trilogia Suja de Havana, do cubano Pedro Juán Gutiérrez.

Nem é preciso dizer que a Revolução Cubana estuprou toda a América Latina, tentando criar Vietnãs em cada país, para implantar o comunismo. Por isso houve governos militares duros, como deveriam ser, para fazer frente a essa ameaça diabólica, como ocorreu principalmente no Brasil, na Argentina e no Chile. Leia meu trabalho Ações Armadas Comunistas na América Latina.

Vendedores de passados proliferam no Brasil, especialmente os terroristas e seus simpatizantes, que tomaram conta da mídia, da cultura, das universidades ainda no final do governo dos militares, para vender milho podre a inocentes pombinhas, de que lutaram para restaurar a democracia — claro, a democracia de Fidel Castro e seu paredón. Afinal, foi lá, em Pinar del Río, que os terroristas tiveram instrução de armamento e tiro, sabotagem e terrorismo.

Por isso há tantos filmes endeusando terroristas e demonizando os militares que os combateram: Olga, O que é isso companheiro? Lamarca, Marighella. Na atualidade, há os guerrilheiros da pena, em busca de um Jabuti acasalado com Rouanet, e os guerrilheiros da câmera, como Walter Salles (Ainda Estou Aqui) e Kleber Mendonça Filho (O Agente Secreto), em busca de Kikitos e, eventualmente, um Oscar. Todos vendendo seus passados gloriosos, vítimas da ditadura. Salles e Kleber usaram seus filmes para vender um passado de perseguição, tortura e morte perpetrado pelos militares. O que é próprio de farsantes, contando a História pela metade. No fundo, eles ainda sonham com um Brasil socialista, enquanto passeiam com Rolex e Armani para usufruir o melhor do capitalismo americano. Wagner Moura que o diga...

Uns poucos desses terroristas do passado, hoje passeando garbosamente pelas redações de jornais e TVs, como Fernando Gabeira, admitiram que todos os grupos armados das décadas de 1960 e 70, no Brasil, queriam a ditadura do proletariado, ou seja, a ditadura comunista.

Vender passados — ainda que cuidadosamente editados — sempre foi mais fácil do que encarar a complexidade real da História. E talvez seja por isso que o Brasil continue tão preso a disputas sobre o que aconteceu ontem, enquanto permanece indeciso sobre o que pretende construir amanhã. Estava certo o ministro da Fazenda, Pedro Malan, ao dizer que no Brasil, o passado é cada vez mais incerto.

A história, como se sabe, raramente é um duelo simples entre santos e demônios. Mas narrativas políticas preferem a simplicidade moral. Heróis impecáveis vendem melhor.

O curioso é que esse comércio de passados floresceu justamente em um país que sempre viveu obcecado pelo futuro. Desde o século XIX, repete-se a frase de que o Brasil é o país do futuro. A expressão, celebrizada pelo livro do escritor austríaco Stefan Zweig — Brasil, País do Futuro — tornou-se ao mesmo tempo elogio e ironia.

O futuro brasileiro parecia sempre magnífico. O único problema era que ele nunca chegava, nem durante o milagre brasileiro, em que a economia crescia acima de 10% ao ano. Década após década, a promessa permanecia suspensa no horizonte, como uma placa de obra eterna: Em breve.

Se temos tantos vendedores de passados, talvez precisemos com urgência de vendedores de futuros.

Não se trata de futurologia barata, dessas que prometem carros voadores ou colônias em Marte. O vendedor de futuros brasileiro teria um ofício bem mais pragmático: oferecer projetos plausíveis de civilização.

Ele não venderia lembranças gloriosas. Venderia possibilidades concretas. Seu escritório ficaria em algum lugar discreto, talvez numa sala modesta de Brasília, com uma placa na porta: Consultoria em futuros possíveis.

Os clientes seriam variados: cidadãos cansados, prefeitos desesperados, governadores atônitos, legisladores com algum lampejo de lucidez.

O primeiro produto do catálogo seria algo simples: previsibilidade. Num país onde as leis mudam conforme o vento político, onde processos podem atravessar décadas até encontrar uma conclusão, o vendedor de futuros ofereceria um item raro: a ideia de que regras existem para serem cumpridas. Ele explicaria ao cliente que sociedades estáveis não são necessariamente aquelas com mais leis, mas aquelas onde as leis são claras e aplicadas de forma consistente.

Outro produto do catálogo seria segurança pública. Hoje, em muitas regiões do Brasil, o Estado disputa território com organizações criminosas, como traficantes de drogas e milicianos — que é o caso do município do Rio de Janeiro, onde 60% ou mais de seu território foi perdido para a bandidagem. Em muitos bairros, o poder público é uma presença esporádica, com troca de tiros entre polícia e bandido, enquanto grupos armados exercem autoridade cotidiana. O vendedor de futuros não prometeria milagres, apenas algo que em diversos países já existe: a restauração gradual da autoridade legal. Não por meio de slogans grandiosos, mas por políticas públicas sérias, como a construção de escolas, áreas de lazer e cultura, e delegacias policiais.

Outro item à venda seria responsabilidade penal coerente. Essa é uma discussão delicada e complexa, que envolve direito, psicologia, sociologia e política criminal. Diferentes sociedades adotam diferentes critérios para lidar com jovens envolvidos em crimes graves. O vendedor de futuros não apresentaria soluções simplistas, mas colocaria a pergunta essencial sobre a mesa: como equilibrar prisão do bandido jovem com proteção à sociedade?

É óbvio que uma lei precisa ser urgentemente aprovada no Brasil, diminuindo a idade penal para 16 anos ou menos. Se com 16 anos a pessoa pode votar, engravidar ou ser engravidada — tecnicamente, um adulto —, por que não pode responder por crimes hediondos? Bandido não tem idade, só tem quem o proteja, como é o caso da esquerda em peso.  

O vendedor de futuros também teria um produto chamado tempo judicial razoável. No Brasil, processos podem durar tanto que a própria noção de justiça se dissolve. A ideia de que recursos são necessários para garantir direitos é amplamente aceita. Mas a ideia de que processos devem ter um fim também é. Como o famigerado processo das fake news, de um certo Xandão, o qual, no ritmo em que a engrenagem do Sistema Toga Petralha gira, deverá se estender por mais tempo que o AI-5. Nesse futuro possível, crimes graves não passariam décadas deslizando entre recursos e mais recursos, enquanto vítimas envelhecem esperando uma sentença que nunca chega. A execução da pena após condenação em segunda instância voltaria a ser tratada como algo razoável dentro de um sistema que ainda preserva o direito de defesa, mas que também reconhece que justiça excessivamente tardia deixa de ser justiça.

O vendedor de futuros também ofereceria um produto chamado fim da complacência penal automática. Não se trata de abolir garantias jurídicas — que são pilares de qualquer Estado de Direito —, mas de enfrentar a percepção crescente de que certas regras acabam produzindo um sistema onde a punição raramente corresponde à gravidade do crime. Nesse cenário imaginado, progressões de pena seriam discutidas com critérios mais rigorosos e transparência, e não como etapas automáticas de um calendário penitenciário. A ideia seria simples: se a sociedade decide punir o bandido com determinada pena para crimes hediondos, como assassinatos e estupros, essa pena deveria ser cumprida integralmente, não virar apenas uma formalidade burocrática para colocar o vagabundo mais cedo na rua.

Outro produto no catálogo do vendedor de futuros seria a coragem legislativa para enfrentar mecanismos que transformam o sistema penal num permanente vai-e-vem entre prisão e rua. Entre eles estaria a eliminação imediata da chamada saidinha, vista por muitos como um prêmio indevido a condenados. Mesmo diante do argumento jurídico de que a lei penal não pode retroagir senão para beneficiar o réu — como foi o caso do fim da saidinha, aprovada no Congresso Nacional, mas que só vale para novos condenados —, o vendedor de futuros perguntaria se o interesse coletivo e a segurança pública não deveriam pesar mais nessa equação. No país que ele tenta vender, a lei deixaria de ser um labirinto de indulgências para vagabundos e passaria a refletir, com mais clareza, a expectativa de justiça da sociedade.

Outro produto do vendedor de futuros seria o fim imediato de emendas parlamentares, nos âmbitos federal, estadual e municipal. Os congressistas foram eleitos para aprovar o Orçamento da União, não para meter a mão em parte desse orçamento, para atender interesses particulares nos grotões eleitorais. Quem deveria ter o direito e o dever de distribuir os orçamentos seriam apenas os poderes executivos, ninguém mais: o presidente da República, os governadores e os prefeitos.

Um produto importante para harmonia dos Três Poderes seria apresentado pelo vendedor de futuros, ainda que seja um desenho e a explicação do desenho que todos já deveriam ter entendido, por ser autoexplicativo: ao executivo cabe executar, ao legislativo cabe legislar e ao judiciário cabe legislar. Simples assim. É uma aberração o que se vê no STF, que se arvora no direito de legislar, tendo cada ministro recebido apenas um único voto — a indicação do presidente da República — para ser o guardião das leis e da Constituição, não para ficar brincando de ser deputado e senador, e, eventualmente, de poder executivo, ejaculando ordens absurdas para todos os lados.

O Sistema Toga Petralha é o aparelhamento de líderes petistas em todos os órgãos públicos, a começar pelo STF, feito pelo Ogro de Nove Dedos e a Estocadora de Vento. (O jornalista Fernão Lara Mesquita, no programa Pânico da JP News, em 17/03/2017, falou: Eles colonizaram o STF e as universidades.) Assim, não importa quem seja eleito Presidente do Brasil, de direita ou de esquerda, porque quem de fato vai governar são os políticos da extrema esquerda. Jair Bolsonaro está aí para comprovar esse bullying sofrido durante seu governo, com centenas de Arguições de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPFs) protocoladas no STF pelo PT e seus genéricos piçolistas e quetais contra atos do Executivo. Esse bullying da extrema esquerda continua, agora é dirigido contra atos do Legislativo, como foi o caso de isenção de IOF e o Marco Temporal, prontamente derrubados pelo STF.

O vendedor de passados também diria que os milhões de cidadãos que recebem o Bolsa Família, o Pé de Meia, Luz grátis e outros mimos federais deveriam ser impedidos de votar para presidente da República, por se tratar de compra descarada de votos. Até o WikiLeaks vazou um cable (telegrama diplomático) americano, em 2010, de que José Dirceu havia demonstrado entusiasmo político com o programa Bolsa Família, de que poderia gerar algo em torno de 40 milhões de votos. (Atualmente, esse número de vira-bostas sustentadas pelos tico-ticos chega à metade da população brasileira, tem mais gente recebendo algum benefício do governo do que trabalhando com carteira assinada.) E o TSE missão dada é missão cumprida, como o Bochechinha de Lula (Benedito Gonçalves) cochichou no ouvido de Alexandre de Moraes? Nem aí. Faz parte do Sistema Toga Petralha.

Outro item do catálogo do vendedor de futuros seria educação institucional. Não apenas educação escolar — embora essa seja essencial —, mas também educação moral e cívica. Uma cultura em que os cidadãos compreendam o funcionamento do Estado, os limites dos seus direitos e de suas obrigações, e o valor das Instituições.

O vendedor de futuros não seria um profeta nem um salvador da Pátria Amada Brasil. Seria apenas um corretor de possibilidades. Ele diria aos clientes uma verdade incômoda: Futuros não são comprados prontos. Eles são construídos.

O máximo que um vendedor de futuros pode fazer é mostrar plantas arquitetônicas plausíveis. O edifício precisa ser erguido pela própria sociedade. E aqui surge a grande diferença entre vender passados e vender futuros. Passados podem ser inventados. Futuros precisam ser reais e funcionar.

 Uma genealogia falsa do passado pode enganar a população por algum tempo. Um projeto de país ineficaz revela suas falhas rapidamente. Talvez seja por isso que o comércio de passados seja tão popular na política. Ele exige apenas narrativa. O comércio de futuros exige realidade.

Imagino o vendedor de futuros fechando sua loja no fim do expediente. Ele guarda os catálogos na gaveta, apaga a luz e coloca um pequeno aviso na porta: Volto amanhã.

Do lado de fora, a cidade continua barulhenta, desigual, cheia de problemas antigos. Mas também cheia de possibilidades.

Porque o futuro — ao contrário do passado — ainda não foi escrito. E, como qualquer mercadoria rara, ele só tem valor quando alguém decide finalmente produzi-lo.