O Velho do Rio do Peixe
O
homem aparecia antes das grandes águas
Havia
quem jurasse tê-lo visto nas cabeceiras do Rio do Peixe, na Serra do Espigão, a
mais de mil e duzentos metros de altitude, quando o rio ainda era um fiapo de
água saltando entre as pedras frias da montanha. Depois desaparecia por dias,
reaparecendo nas matas de Caçador e nas várzeas de Videira, onde diziam que
plantava pinhões durante a madrugada. Em Tangará, as araucárias pareciam
inclinar os galhos à sua passagem. Em Luzerna, permanecia longo tempo
contemplando a represa do Lindner, abrigado sob a sombra de um sarandi. Em
Herval d'Oeste, surgia sempre antes das grandes enchentes, para divertimento
dos guris da estação ferroviária, que o perseguiam gritando em larfiagem.
Dali seguia por Lacerdópolis, Ouro, Capinzal e Piratuba, acompanhando o curso
das águas até o Rio Uruguai, como se não fosse um homem caminhando pela margem,
mas o próprio espírito do rio regressando, ano após ano, para verificar se suas
barrancas continuavam vivas.
Os
mais velhos costumavam dizer que todo rio possui memória. Alguns guardam apenas
pedras, galhos e barrancos; outros, porém, escondem lembranças mais antigas que
as próprias cidades. O Rio do Peixe era um desses. Corria desde muito antes de
haver pontes, estradas, igrejas ou plantações de milho espalhadas pelo vale.
Corria quando a mata ainda cobria quase tudo, quando as araucárias formavam um
teto verde sobre as coxilhas e quando as gralhas-azuis eram as únicas
semeadoras de pinhão conhecidas daquele mundo. Depois vieram os caboclos, os
tropeiros, os colonizadores alemães e italianos, os trilhos da ferrovia, os
serradores de madeira, as pequenas vilas que cresceram até se tornarem cidades.
O rio permaneceu o mesmo, apenas carregando consigo um número cada vez maior de
histórias. Entre todas elas, nenhuma atravessou tantas gerações quanto a do
Velho do Rio do Peixe.
Meu
avô ouvira essa história do bisavô nas demoradas noites de inverno, quando o
vento assobiava entre os pinheiros e o fogo do fogão a lenha fazia estalar as
achas de guajuvira com pinhão na chapa. Meu pai, por sua vez, ouviu-a ainda
menino, sentado num banco tosco de madeira enquanto descascava espigas de milho
ao lado da família. Quando chegou a minha vez, já não havia tantas noites
silenciosas. A televisão começava a disputar espaço com os causos antigos, e
muita gente preferia acreditar no que aparecia na tela a escutar aquilo que a
memória dos velhos insistia em conservar. Mesmo assim, sempre que o céu
escurecia por vários dias seguidos e a chuva caía grossa sobre o Vale do Rio do
Peixe, alguém acabava lembrando, quase num sussurro:
—
Será que o Velho já apareceu?
Ninguém
perguntava quem era esse velho. Todos pareciam saber, ainda que muitos jamais o
tivessem visto. Era como se seu nome não pertencesse a uma pessoa, mas ao
próprio rio.
Diziam
que ele surgia apenas quando as águas preparavam alguma surpresa. Não bastava
uma cheia comum, dessas que fazem o rio lamber o barranco e assustam apenas as
galinhas mais distraídas. Era preciso que a enchente fosse daquelas capazes de
mudar cercas de lugar, arrancar pontes de madeira, transformar potreiros em
lagoas e fazer as canoas navegarem onde, dias antes, pastavam vacas leiteiras.
Antes dessas grandes águas, invariavelmente, aparecia um velho caminhando pela
margem.
Nunca
vinha montado. Nunca trazia cachorro. Nunca conduzia tropa. Apenas caminhava.
Vestia
bombachas desbotadas, um pala escuro que parecia tão antigo quanto as figueiras
centenárias e um chapéu de feltro de abas largas, sempre inclinado para
proteger os olhos. A barba era branca, comprida, mas estranhamente limpa, como
se fosse penteada todas as manhãs. Nas mãos carregava um cajado de madeira de
araucária, liso de tanto uso, cuja ponta parecia mais polida que cabo de enxada
antiga.
Havia
quem jurasse que pescava. Outros diziam jamais ter visto um anzol em suas mãos.
Alguns afirmavam que carregava uma pequena sacola de couro onde guardava iscas;
outros garantiam que ela jamais continha peixe algum. Sobre isso nunca houve
acordo. O único detalhe em que todos coincidiam era seu modo de caminhar:
lento, firme, sem demonstrar cansaço, como quem conhece cada pedra do caminho
muito antes de ela nascer.
Também
nunca pedia pouso. Se alguém lhe oferecia um prato de feijão, agradecia com um
leve movimento da cabeça e seguia adiante. Se insistiam em lhe dar dinheiro,
sorria de um jeito quase imperceptível, como quem acabasse de ouvir uma
brincadeira de criança. Jamais aceitava. Não comprava nada, não vendia nada e,
ao que parecia, também não precisava de nada.
Mas
o que realmente intrigava as pessoas acontecia sempre no mesmo instante. Depois
de caminhar por alguns quilômetros acompanhando o curso do rio, ele parava.
Permanecia imóvel durante alguns minutos. Então fincava o cajado no chão,
erguia lentamente o rosto e fitava uma colina distante. Não dizia palavra.
Apenas olhava. Em seguida retirava o cajado da terra e retomava a caminhada,
desaparecendo na curva seguinte como se a neblina o tivesse engolido.
Os
moradores mais antigos compreendiam o recado sem necessidade de explicações. No
mesmo dia começavam a remover o gado para terrenos mais altos. Levavam os
cavalos para além das coxilhas, retiravam os porcos dos chiqueiros próximos ao
rio, desmontavam paióis improvisados e empilhavam móveis sobre tijolos dentro
de casa. As mulheres guardavam documentos, fotografias e imagens de santos em
lugares elevados. As crianças, sem entender direito a pressa dos adultos,
apenas obedeciam.
Quando
alguém perguntava a razão de tanto trabalho, bastava uma resposta curta:
— O
Velho passou.
Era
suficiente. Os recém-chegados, entretanto, riam daquilo tudo.
Durante
as décadas de 1920 e 1930, depois da sangrenta Guerra do Contestado, chegaram
muitas famílias alemãs e italianas no vale, vindas do Rio Grande do Sul e do
Vale do Itajaí. Gente trabalhadora, interessada em abrir lavouras, serrarias e
pequenos comércios. Muitos jamais tinham ouvido falar da antiga lenda.
Ao
verem os vizinhos recolhendo animais enquanto o céu ainda conservava alguns
rasgos de azul, perguntavam:
—
Ficaram loucos?
Então
alguém respondia:
— O
Velho do Rio do Peixe passou hoje cedo.
Os
forasteiros olhavam uns para os outros, divertidos.
— Um
velho mandando no rio? Essa agora...
E
voltavam ao trabalho.
Dois
ou três dias depois começava a chover na serra. Primeiro uma chuva mansa.
Depois outra mais forte. Em seguida vinham dias inteiros de água grossa,
pesada, persistente, daquelas que transformam os córregos em torrentes
barrentas e fazem as pedras desaparecerem sob espumas revoltas.
Então
o Rio do Peixe mudava de voz. Quem morava perto aprendia a reconhecer aquele
som. O rio deixava de correr; parecia respirar. Seu ronco aumentava durante a
madrugada, batendo contra barrancos, troncos e pilares de pontes. Pela manhã, a
água já cobria as ruas de cascalho. À tarde engolia cercas. Na noite seguinte
invadia quintais, depósitos e galpões, arrastando casas inteiras.
Quando
finalmente atravessava estradas e transformava o vale numa imensa corrente
barrenta, muitos se lembravam do velho de chapéu. Os que haviam acreditado
apenas fechavam as janelas e esperavam a enchente passar. Os que zombaram
lamentavam não ter ouvido os antigos.
Nunca
houve notícia de alguém que tivesse seguido o aviso do Velho e perdido tudo. Em
compensação, eram incontáveis os casos de famílias salvas porque resolveram
retirar seus animais e abandonar as casas a tempo. Cada enchente acrescentava
um novo episódio à lenda, como se o próprio rio tivesse prazer em confirmar
aquilo que os homens teimavam em negar.
Curiosamente,
ninguém sabia de onde o Velho vinha. Nunca aparecia entrando por alguma
estrada. Nunca era visto atravessando pontes.
Ninguém
recordava tê-lo encontrado comprando mantimentos nas vendas, participando de
festas de igreja ou assistindo às missas dominicais. Simplesmente surgia na
margem do rio, caminhava durante algumas horas e desaparecia.
Houve
quem tentasse segui-lo. Um tropeiro garantiu que manteve o velho à vista
durante quase toda uma tarde. Bastou desviar os olhos por um instante para
ajeitar a chincha do cavalo e, quando tornou a procurar, já não havia ninguém
na estrada. O caminho seguia reto por centenas de metros, sem mato suficiente
para esconder uma pessoa, mas o velho sumira mais rápido que a neblina quando o
sol rompe o horizonte.
Outro
homem jurou ter encontrado apenas as marcas do cajado impressas no barro úmido.
Eram pegadas estranhas. Caminhavam por alguns metros e simplesmente terminavam
na margem do rio, como se dali em diante quem as deixara tivesse continuado a
viagem sobre a própria água.
Essas
histórias corriam de boca em boca, aumentando um pouco a cada geração, como
acontece com todos os bons causos do interior. Ainda assim, havia algo que
ninguém ousava exagerar, porque todos pareciam concordar silenciosamente: o
Velho jamais fazia mal a quem quer que fosse. Não ameaçava, não castigava, não
assustava as crianças, não exigia promessas nem oferendas. Apenas avisava.
Talvez
por isso fosse respeitado até pelos mais incrédulos.
Em
Caçador, dizem que o Velho conversa com as gralhas-azuis. Em Videira, juram que
ele planta pinhões durante a madrugada. Em Tangará, contam que as araucárias se
inclinam quando ele passa. Em Luzerna, na romântica ponte coberta, feita de
madeira com cobertura de zinco, afirmam que ele costuma permanecer longo tempo
observando a confluência do Rio Limeira com o Rio do Peixe. Em Joaçaba, os
pescadores dizem que nunca lança anzol, apenas observa a corrente. Em Herval
d'Oeste, os ferroviários garantem que ele atravessa a ponte Emílio Baumgart
sempre na véspera das grandes enchentes, com apupos dos meninos que falam a larfiagem.
Em Ouro e Capinzal, contam que seu cajado faz brotar pequenas nascentes onde
toca o chão. Como Moisés no Sinai.
Em
Piratuba, contam que o Velho do Rio do Peixe fincou o cajado num ponto perdido
entre os campos e seguiu viagem sem dizer palavra. Anos depois, quando a
Petrobras perfurava o solo em busca de petróleo, não encontrou ouro negro, mas
uma abundante fonte de águas termais a trinta e oito graus. Desde então, há
quem diga que o Velho já conhecia o segredo que a terra guardava.
Meu
avô costumava encerrar o assunto sempre da mesma maneira. Depois de puxar
lentamente a bomba do chimarrão, olhava pela janela na direção do rio e dizia
numa voz tão baixa que parecia conversar consigo mesmo:
—
Homem comum não volta durante tantos anos sem envelhecer mais um dia. Mas
também não acredito que ele seja assombração. Acho que o Rio do Peixe, de tanto
viver, resolveu um dia criar um velho para caminhar em seu lugar.
E,
depois de um longo silêncio, acrescentava:
—
Quem ri dessa história nunca conheceu um rio de verdade.
Erwin,
o Menino dos Pinhões
A
primeira vez que alguém resolveu seguir o Velho do Rio do Peixe foi por pura
curiosidade. Não para desafiá-lo, como fizeram alguns homens da cidade, nem
para provar que a velha história não passava de superstição. Quem tomou essa
decisão foi apenas um menino, desses que ainda enxergam perguntas onde os
adultos veem apenas caminhos.
Chamava-se
Erwin, embora poucos usassem seu nome. Morava na vila de Luzerna e desde
pequeno era mais conhecido por Pinhão, porque vivia catando sementes pelos
pinheirais, enchendo os bolsos do calção e esquecendo metade delas pelo
caminho.
— Se
esse velho aparece faz tanto tempo, por que ninguém sabe onde mora?
Ninguém
respondia.
— Se
ele é pescador, onde vende os peixes?
Novo
silêncio.
— E
por que ele nunca envelhece?
O
avô apenas sorria.
—
Algumas perguntas, guri, só o mato responde.
A
resposta não lhe bastava.
Naquele
final de inverno de 1957, depois de vários dias de chuva fina sobre a Serra do
Espigão, espalhou-se pela vizinhança a notícia de que o Velho fora visto
caminhando junto ao Rio do Peixe. Os homens começaram a retirar o gado das
baixadas, e as mulheres que moravam na beira do rio levantaram os móveis sobre tocos
de madeira. Como sempre acontecia, ninguém comentou muito. Simplesmente faziam
o que precisava ser feito.
Erwin,
porém, tomou outra decisão. Esperaria o amanhecer. Ainda antes do primeiro
canto dos galos, saiu de casa levando apenas um pedaço de pão, um canivete e
uma pequena cuia de alumínio presa ao embornal. Caminhou em silêncio até
alcançar a margem do Rio do Peixe, onde uma tênue camada de neblina escondia
metade da correnteza.
Não
precisou procurar muito. O velho estava ali. Caminhava devagar, apoiando-se no
cajado de araucária, como se conhecesse cada curva do rio desde antes da
criação do mundo. Não olhava para trás nem parecia notar a presença do menino. Erwin
manteve distância, escondendo-se atrás dos sarandis e das taquaras sempre que o
caminho permitia. Assim atravessaram a manhã inteira.
Ao
contrário do que imaginava, o Velho não seguia apenas a beira do rio. Em certos
pontos abandonava a margem e penetrava lentamente na mata, caminhando por
antigas picadas que pareciam invisíveis aos olhos comuns. Eram trilhas
estreitas, cobertas de folhas secas, onde o perfume da terra úmida se misturava
ao cheiro resinoso dos pinheiros.
Quanto
mais avançavam, mais antigas pareciam as árvores. As araucárias erguiam-se tão
altas que seus galhos formavam um teto verde muito acima das outras árvores. O
chão desaparecia sob um espesso tapete de agulhas de pinheiro, e apenas alguns
feixes de luz conseguiam romper aquela imensas catedrais vegetais. O silêncio
era interrompido apenas pelo tamborilar distante de um pica-pau, pelo murmúrio
de um riacho escondido e pelo assobio do vento passeando entre as copas.
Erwin
nunca estivera numa mata tão velha. Ali não havia tocos de árvores abatidas,
nem cercas, nem sinais de machado. Parecia um pedaço de mundo esquecido pelo
tempo.
Durante
dois dias inteiros repetiu-se a mesma rotina. O menino seguia. O Velho
caminhava. À noite, Erwin voltava escondido para casa por atalhos conhecidos,
inventando desculpas para justificar o cansaço. Antes do amanhecer, retornava
ao mesmo lugar.
No
terceiro dia aconteceu algo estranho. O velho deixou de seguir o rio. Entrou
definitivamente no pinheiral. Erwin percebeu que já não ouviam o rumor das
águas. Apenas o vento.
Depois
de caminhar por longo tempo, o Velho parou diante de uma clareira iluminada
pelo sol da manhã. Ali existia apenas um círculo de terra nua, como se algum
raio tivesse derrubado uma árvore muitos anos antes. Pela primeira vez desde
que começara a segui-lo, o menino viu o velho levar a mão ao bolso do pala. Retirou
um único pinhão.
Era
um pinhão comum, igual aos milhares que Erwin apanhava todo outono para assar
na chapa do fogão. O velho ajoelhou-se com a lentidão de quem executa um gesto
aprendido desde sempre. Com a ponta do cajado abriu um pequeno buraco na terra,
depositou ali a semente e cobriu-a delicadamente com um punhado de folhas.
Depois
permaneceu imóvel. Erwin esperou. Nada aconteceu. Sorriu consigo mesmo. Talvez
fosse apenas um velho plantando uma árvore.
Foi
então que a terra estremeceu. Primeiro quase imperceptivelmente. Depois um
pequeno montículo começou a erguer-se. Do centro dele surgiu um broto verde,
tenro, brilhante como se acabasse de nascer da própria luz.
O
menino esfregou os olhos. O broto crescia. Crescia diante dele. Transformou-se
numa muda. A muda engrossou. O tronco alargou-se numa velocidade impossível. Os
galhos abriram-se para os lados. A casca adquiriu o tom acinzentado das árvores
antigas.
Em
poucos instantes, onde antes existia apenas terra nua, erguia-se uma araucária
majestosa, tão alta quanto as demais que cercavam a clareira.
Erwin
perdeu o fôlego. Não sabia se corria, gritava ou rezava. As pernas recusavam-se
a obedecer. Foi então que ouviu um bater de asas. Uma gralha-azul pousou
suavemente num dos galhos recém-formados. Trazia um pinhão preso no bico.
Inclinou a cabeça para o velho, como quem cumprimenta um velho conhecido, e
voltou a levantar voo.
Voou
poucos metros. Escolheu um pequeno espaço entre as folhas secas. Com rápidos
movimentos enterrou o pinhão na terra. Depois cobriu-o cuidadosamente com
folhas e musgo. Não era um gesto de esquecimento, mas de cuidado. A gralha-azul
guardava ali o seu alimento para os dias difíceis, como o colono guardava os
grãos no paiol ou as reservas na despensa da casa. Cada pinhão escondido era
uma pequena promessa de fartura para o futuro, mas também uma semente confiada
à terra para quando a floresta precisasse renascer — ainda que por esquecimento
da gralha, que não tinha GPS. A gralha observou a própria obra por alguns
segundos e desapareceu entre os pinheiros.
O
velho acompanhou o voo da ave com um sorriso sereno. Somente então falou pela
primeira vez. Sua voz era baixa, profunda e antiga como o rumor do próprio rio.
— Eu
planto. Ela espalha.
Erwin
estremeceu. Não apenas porque finalmente ouvira o velho falar, mas porque
percebeu que aquelas palavras pareciam dirigir-se tanto à gralha quanto às
árvores, ao vento e ao próprio chão.
O
silêncio voltou a dominar a clareira. Passado algum tempo, o velho apoiou as
duas mãos sobre o cajado e acrescentou, olhando para o alto da nova araucária:
—
Uma árvore nunca nasce para quem a planta. Nasce para quem ainda nem nasceu.
As
palavras permaneceram suspensas no ar como sementes levadas pelo vento. Erwin
sentiu que havia nelas uma verdade grande demais para um menino compreender. Mesmo
assim jamais as esqueceria.
Enquanto
contemplava a gigantesca araucária recém-nascida, começou a notar pequenos
detalhes que antes lhe escapavam. As gralhas cruzavam continuamente o céu
carregando pinhões. Cutias surgiam entre os arbustos para esconder sementes.
Esquilos percorriam os galhos. O vento espalhava pinhas maduras pelo chão. Parecia
existir uma imensa conversa silenciosa entre todos os habitantes daquela
floresta. E o Velho fazia parte dela.
Naquele
instante, Erwin compreendeu que o homem não caminhava pelas matas procurando
alguma coisa. Também não andava sem destino. Ele estava trabalhando. Fazia um
serviço tão antigo quanto a própria floresta. Plantava o futuro. Recuperava a
floresta de araucárias que havia sido dizimada pelos tratores da Lumber durante
a construção da ferrovia São Paulo-Rio Grande.
Quando
o sol começou a desaparecer atrás das copas, o velho retomou a caminhada sem
olhar para trás. Erwin permaneceu imóvel por longo tempo, contemplando a jovem
araucária que, embora acabasse de nascer diante de seus olhos, possuía o porte
respeitável de uma árvore centenária.
Na
volta para casa, o menino encontrou pelo caminho dezenas de pinhões espalhados
sobre a trilha. Curvou-se para recolher alguns deles, mas desistiu ao perceber
uma gralha-azul observando-o do alto de um galho. Sorriu. Deixou a semente onde
estava. Pela primeira vez em sua vida, entendeu que nem todo pinhão fora feito
para virar comida.
O
Guardião das Araucárias
Depois
daquele tempo, ninguém mais tentou descobrir de onde vinha o Velho nem para
onde seguia quando desaparecia entre a neblina das margens do Rio do Peixe. Os
mais antigos compreenderam que certas perguntas pertencem mais ao coração do
que à razão. Não era preciso saber seu nome para reconhecer sua presença.
Bastava vê-lo caminhando devagar, o cajado de araucária marcando o compasso dos
passos, o chapéu de feltro protegendo-lhe os olhos e o embornal de couro
pendendo sobre o ombro.
Durante
anos, alguns imaginaram que ali guardasse anzóis, linhas ou iscas. Outros
acreditavam que carregasse apenas um pedaço de pão e uma cuia de chimarrão.
Nunca houve quem tivesse coragem de perguntar. O Velho seguia seu caminho em
silêncio, como se o rio fosse sua única companhia.
Mas
havia um detalhe que poucos percebiam. Sempre que parava junto a uma clareira
aberta pelo machado ou diante de um barranco onde antigas araucárias haviam
sido derrubadas, ajoelhava-se lentamente. Remexia a terra com a ponta do
cajado, retirava alguma coisa do embornal e a depositava no pequeno buraco.
Depois cobria tudo com folhas secas, levantava-se e prosseguia a caminhada.
Quem
o observava de longe mal distinguia seus movimentos. Parecia apenas um velho
descansando por alguns instantes. Contudo, quando se aproximavam depois de sua
partida, encontravam a terra recém-revolvida.
Alguns
diziam que rezava pelos pinheiros abatidos. Outros afirmavam que enterrava
pequenas lembranças dos mortos. Os mais velhos apenas sorriam.
—
Não mexam — aconselhavam. — A terra sabe o que recebeu.
Somente
muitos anos depois compreenderam que, dentro daquele velho embornal, jamais
houvera peixes nem ferramentas. Havia apenas pinhões. Centenas deles. Talvez
milhares.
O
Velho conhecia cada araucária do vale como um pastor conhece seu rebanho. Detinha-se
diante das mais antigas, pousava a mão sobre o tronco áspero e permanecia
imóvel durante longos minutos. Às vezes parecia ouvir alguma coisa escondida
sob a casca grossa. Outras vezes limitava-se a fechar os olhos enquanto o vento
percorria lentamente a copa.
As
gralhas-azuis nunca demonstravam medo. Ao contrário. Aproximavam-se dele em
bandos, pousando nos galhos mais baixos, no cajado e, vez ou outra, até na aba
do chapéu.
Os
moradores diziam que conversavam. Não com palavras. As aves saltavam de um lado
para outro, bicavam alguns pinhões espalhados no chão e levantavam voo. O Velho
seguia atrás delas, como se recebesse uma indicação invisível. Era então que
retirava novas sementes do embornal.
As
gralhas escondiam algumas entre a folhagem. As cutias enterravam outras
próximas às raízes. Os esquilos carregavam as menores para lugares onde nenhum
homem pisaria. Cada qual fazia sua parte. Como acontecia desde muito antes de
existirem cercas, vilas ou escrituras de propriedade.
Meu
avô costumava dizer que a gralha-azul era uma espécie de colona da floresta.
Escondia pinhões do mesmo modo que os antigos agricultores enchiam os paióis
antes do inverno. Guardava mais do que precisava, esquecia parte dos
esconderijos e, sem perceber, plantava novas araucárias para os anos futuros.
O
Velho apenas acompanhava esse trabalho paciente. Nunca apressava a natureza. Sabia
que uma araucária não pertence ao homem que a planta, mas aos netos daquele que
talvez nem chegue a conhecê-la adulta.
As
décadas passaram como passam os rios: sem fazer alarde. Vieram novas famílias,
abriram-se estradas, levantaram-se igrejas, construíram-se pontes e estações
ferroviárias. O Vale do Rio do Peixe prosperava. As serrarias trabalhavam dia e
noite. O cheiro da madeira recém-cortada espalhava-se pelas madrugadas.
Primeiro desapareceram os
pinheiros mais grossos. Depois os mais altos. Mais tarde, qualquer araucária
servia. As motosserras substituíram os velhos serrotes de dois cabos. Caminhões
passaram a levar, em poucas horas, aquilo que antes exigia dias de trabalho com
juntas de bois.
Os
homens chamavam aquilo de progresso. O Velho continuava caminhando. Toda vez
que encontrava uma clareira recém-aberta, demorava-se um pouco mais.
Abaixava-se, revolvia a terra e nela depositava um pinhão. Depois outro. E mais
outro. As gralhas pareciam compreender sua aflição. As aves multiplicaram-se
pelos pinheirais. Cruzavam o céu carregando sementes no bico, escondendo-as
entre folhas secas, junto a pedras cobertas de musgo ou ao pé dos barrancos.
As
cutias faziam o mesmo. Era como se toda a floresta houvesse decidido trabalhar
em silêncio para reparar uma perda que os homens ainda não percebiam.
Certa
manhã chegaram ao vale homens vindos de longe. Traziam mapas enrolados,
aparelhos de medição e projetos ambiciosos. Haviam adquirido uma vasta área de
pinheiral para transformá-la em madeira serrada. Os moradores comentavam que
dali sairia riqueza suficiente para várias gerações.
As
árvores começaram a cair antes mesmo do nascer do sol. Cada estrondo parecia
atravessar o vale inteiro. As gralhas levantavam voo em bandos desordenados. Os
veados desapareciam nas capoeiras. Até o rio parecia correr mais pesado.
Numa
dessas manhãs, o responsável pela derrubada encontrou um velho parado diante da
mata. Apoiava-se tranquilamente no cajado de araucária, como se aguardasse
alguém. O engenheiro cumprimentou-o com educação.
— O
senhor mora por aqui?
O
Velho apenas sorriu. Depois fitou demoradamente as araucárias marcadas com
tinta vermelha. Por fim disse:
—
Ainda há tempo.
O
engenheiro olhou em volta sem compreender.
—
Tempo para quê?
O
Velho passou a mão sobre o tronco de um velho pinheiro.
—
Para deixar em pé aquilo que levará um século para voltar.
O
homem respondeu com cordialidade. Explicou que tudo estava autorizado, que as
árvores eram propriedade legítima da empresa e que outras seriam plantadas
depois. O Velho escutou sem interrompê-lo. Quando o engenheiro terminou,
limitou-se a inclinar a cabeça, como quem lamenta uma decisão já tomada. Em
seguida retomou lentamente sua caminhada pela margem do Rio do Peixe.
As
motosserras voltaram a cantar. O barulho estridente continuou durante semanas.
A
cada manhã surgiam novas clareiras onde, poucos dias antes, o vento encontrava
abrigo nas copas das araucárias. O cheiro da resina misturava-se ao da terra
revolvida, e os caminhões desciam o vale carregando toras tão grossas que
pareciam colunas arrancadas de uma antiga catedral.
O
Velho não voltou. Pelo menos foi o que muitos imaginaram. Na verdade,
continuava percorrendo as margens do Rio do Peixe, quase sempre ao cair da
tarde, quando os trabalhadores já haviam regressado para casa. Caminhava
lentamente entre os tocos recém-cortados, fincava o cajado na terra e retirava
do embornal mais alguns pinhões. Depositava-os um a um, cobrindo-os com folhas
de grimpa e um pouco de húmus escuro.
Logo
depois surgiam as gralhas-azuis. Vinham primeiro duas ou três. Em seguida
dezenas. Saltavam entre os troncos derrubados, recolhendo parte das sementes e
escondendo-as em lugares diferentes, como faziam desde tempos imemoriais.
Algumas voavam para muito longe. Outras enterravam os pinhões ao pé de pedras,
junto a barrancos ou entre capões ainda intactos.
As
cutias continuavam o trabalho. Escavavam pequenos buracos, escondiam as
sementes e desapareciam. Muitas jamais voltavam para buscá-las. Assim a
floresta, silenciosamente, preparava o próprio futuro.
Meu
avô dizia que Deus nunca confiou a sobrevivência das araucárias aos homens.
Entregou-a às gralhas, às cutias e, talvez, àquele velho caminhante que parecia
conhecer cada nascente, cada curva do rio e cada pedaço de terra fértil onde um
pinhão pudesse criar raízes.
Então
vieram as chuvas. Primeiro foram pancadas passageiras. Depois uma garoa
persistente. Por fim, dias inteiros de água grossa caindo sobre a Serra do
Espigão.
Os
riachos engrossaram. As sangas tornaram-se córregos. Os afluentes desceram
barrentos em direção ao Rio do Peixe. Sem a proteção das antigas raízes, muitas
encostas começaram a ceder. A terra deslizou lentamente, carregando pedras,
galhos e barro para dentro do rio. As águas, impedidas de seguir seu antigo
caminho, procuraram outros.
As
máquinas precisaram ser abandonadas às pressas. Os caminhões já não conseguiam
passar, nem com correntes nas rodas. Pontes improvisadas desapareceram sob a
correnteza.
Não
foi um castigo. Foi apenas a natureza obedecendo às suas próprias leis.
Quando
a enchente finalmente baixou, restavam barrancos desfeitos, estradas
interrompidas e um imenso silêncio. Uma locomotiva com dezenas de vagões rolou
morro abaixo, até o Rio do Peixe, amassando os pés de sarandis na margem. A
água havia corroído a base da terra abaixo da camada de brita.
O
engenheiro voltou meses depois. Percorreu a área devastada esperando encontrar
apenas lama endurecida. Encontrou outra coisa. Milhares de pequenas mudas de
araucária começavam a romper o solo. Algumas tinham apenas poucos centímetros. Outras
já exibiam delicadas coroas verdes apontando para o céu.
Os
técnicos registraram o fenômeno com naturalidade. Explicaram que as sementes
haviam permanecido enterradas durante anos, escondidas pelas gralhas-azuis e
pelas cutias, aguardando as condições adequadas para germinar.
Era
uma explicação correta. Mas incompleta. Os moradores antigos ouviam aquelas
conclusões sem discutir. Depois sorriam discretamente.
—
Claro que foram as gralhas... — diziam.
—
Mas alguém precisou lhes ensinar onde plantar.
O
tempo continuou correndo como corre um rio. Novos pinheirais cresceram. As
árvores derrubadas transformaram-se em lembrança, depois que o abate foi
proibido pelo Ibama.
As
crianças que brincavam às margens do Rio do Peixe tornaram-se pais, depois
avós. Muitos dos que juravam ter visto o Velho partiram também, levando consigo
suas histórias. Mesmo assim, de tempos em tempos, alguém ainda afirmava
encontrá-lo.
Um
pescador dizia tê-lo visto caminhando na neblina de uma manhã de inverno. Um
ferroviário garantia que o observara atravessando lentamente a velha ponte rasa
de madeira, em Luzerna, pouco antes de mais uma grande enchente.
Um
lenhador contou que, ao descansar junto de um capão de araucárias, encontrou um
velho enterrando pinhões. Quando se aproximou para cumprimentá-lo, não havia
mais ninguém. Restava apenas um pequeno monte de terra recém-remexida. E uma
gralha-azul pousada no galho mais baixo da árvore.
Os
anos transformaram a lenda em memória. A memória tornou-se tradição. E a
tradição continuou caminhando de boca em boca, como o próprio rio. Até que,
muitas décadas mais tarde, estudiosos da floresta passaram a comparar
fotografias antigas com imagens aéreas do Vale do Rio do Peixe.
Queriam
compreender como os pinheirais haviam conseguido se recuperar em determinadas
áreas. Foi então que perceberam uma curiosidade. As araucárias mais jovens não
estavam distribuídas ao acaso. Formavam uma longa faixa acompanhando o curso do
rio, desde as cabeceiras da Serra do Espigão até as proximidades do Rio
Uruguai.
Era
quase o mesmo caminho que os antigos atribuíam ao Velho do Rio do Peixe. Os
pesquisadores falaram em dispersão natural das sementes. Os biólogos destacaram
a extraordinária importância das gralhas-azuis para a regeneração da floresta.
Tinham
razão. Mas, nas pequenas comunidades espalhadas pelo vale, ninguém pareceu
muito surpreso. Os velhos apenas repetiram o que seus pais e avós já diziam
havia gerações:
— As
gralhas sempre souberam plantar.
Só
nunca trabalharam sozinhas.
Desde
então, quando o inverno se aproxima e o céu permanece fechado durante muitos
dias, ainda há quem olhe demoradamente para a margem do Rio do Peixe. Uns
esperam encontrar um velho de barba branca, chapéu de feltro e cajado de
araucária. Outros dizem que jamais o verão, porque ele só aparece para quem
aprendeu a escutar o silêncio das matas. Há ainda os que afirmam nunca ter
visto homem algum. Apenas uma gralha-azul cruzando o céu com um pinhão no bico.
Talvez
todos estejam certos. Porque as lendas mais antigas nunca morrem. Continuam
vivas nas árvores que alguém plantou sem esperar desfrutar de sua sombra, no
voo paciente das gralhas-azuis e no rumor das águas do Rio do Peixe.
E
dizem os antigos que, se algum dia todas as araucárias desaparecerem do vale,
também desaparecerá a lenda do Velho do Rio do Peixe. Mas, enquanto houver uma
única gralha escondendo um pinhão na terra e uma única araucária lançando
sementes ao vento, ele continuará caminhando.
Não
para guardar o rio. Mas para lembrar aos homens que nenhuma floresta nasce para
uma geração apenas. Ela pertence, ao mesmo tempo, aos que vieram antes de nós e
àqueles que ainda nem nasceram.


