MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

terça-feira, 3 de março de 2026

Diálogo de Dois Bagos - Com intervenção da Estrovenga - Por Félix Maier

 


DIÁLOGO DE DOIS BAGOS

COM INTERVENÇÃO DA ESTROVENGA


Félix Maier


sinopse

 

Diálogo de Dois Bagos Com intervenção da Estrovenga é uma comédia filosófica sobre o tempo, narrada a partir do ponto de vista mais improvável do corpo humano.

Ao longo de quinze crônicas, Primeiro e Segundo Bago, com a participação sempre altiva da Estrovenga, e sob a supervisão involuntária do Portador, discutem os altos e baixos da vida masculina: da exuberância juvenil às panes ocasionais, da temida falha técnica ao medo solene dos exames médicos depois dos quarenta. Entre consultas constrangedoras, videocolonoscopias com pólipo de lembrança e assembleias internas sobre desempenho, o trio transforma o drama fisiológico em metafísica de bolso.

Há a crise da meia-idade, quando se suspeita que o espelho virou inimigo. Há a nostalgia dos vinte e um anos, fase em que a memória começa a competir com o presente. Surge a era do comprimido azul, com seus encontros planejados e desencontros inevitáveis, e madrugadas em que a biologia resolve agir fora do expediente conjugal. Depois vem a aposentadoria dos impulsos, quando se descobre que frequência não é sinônimo de felicidade.

E, por fim, a filosofia do saco murcho: reflexão inesperadamente profunda sobre dignidade, gravidade e a arte de continuar comparecendo, mesmo quando o corpo já trocou exuberância por experiência.

Escrito com humor à la Veríssimo, diálogos cortantes e uma boa dose de autoironia, Diálogo de Dois Bagos é menos um livro sobre sexo do que sobre passagem do tempo, cumplicidade e aceitação. Entre risos, pequenas tragédias íntimas e incontinências ocasionais, revela-se o que realmente sustenta a vida conjugal: não a rigidez dos impulsos, mas a elasticidade do afeto.

Um livreto com muita tesão, no duplo sentido: energia vital e vontade de viver.

 

Brasília, verão-outono jorrante de 2026.


Baixe o livrito em:

https://drive.google.com/file/d/1vWCDMQ1K8K0hEFSsRV3JvyblffQIj5Ft/view



Homem é Fusca, Mulher é Porsche - Por Félix Maier


HOMEM É FUSCA, MULHER É PORSCHE

Félix Maier

SINOPSE

Homem é Fusca, Mulher é Porsche não é um livro sobre carros. É sobre um casal. Sobre como seguimos juntos mesmo quando o GPS discorda, a estrada piora e o motor já não responde como antes. Sobre o amor que envelhece sem perder valor de mercado, mantendo a Tabela Fipe, e que apenas muda de marcha.

Porque no fim, não importa quem dirige melhor. Importa quem se sentou ao lado desde o começo.

Homens e mulheres não são iguais. Ainda bem.

Neste livrito, ninguém vence discussões, não há manuais infalíveis nem finais espetaculares. Há convivência. Diferenças de engenharia. Afeto testado no dia a dia.

Homem é Fusca, Mulher é Porsche reúne crônicas curtas, bem-humoradas e profundamente humanas sobre amor, rotina, convivência, tempo, perdas e permanências, essa arte imperfeita de dividir a vida com alguém diferente de nós. Tudo aquilo que só se aprende depois de muitos quilômetros rodando juntos.

Com humor delicado, ironia afetuosa e observação cotidiana, o autor transforma o relacionamento humano numa metáfora automobilística que funciona razoavelmente bem.

Aqui estão o namoro, o casamento, as brigas pequenas, os silêncios longos, o sexo que acontece (e o que não acontece), os filhos, os netos, o envelhecimento, a memória, as perdas e o legado. Tudo contado sem tese, sem militância e sem sentimentalismo excessivo.

É um livro sobre aprender a andar junto. Sobre saber quando acelerar, quando frear e quando simplesmente ficar parado, com o motor ligado no ponto morto.

Um livro para rir, reconhecer-se e, talvez, entender que amar não é encontrar o carro perfeito: é fazer uma boa viagem com o que se tem.

É um livro autônomo, que anda sobre as próprias rodas, sem motorista.

 

Brasília, outono crepuscular de 2026.


Baixe o livrito em:

https://drive.google.com/file/d/1EVkxXuU0cLXoWSWuYGg1r_x4iJRcxbV4/view




De Mary Corner de Palocci às beldades de Vorcaro - Por Félix Maier

 

De Mary Corner de Palocci

às beldades de Vorcaro

 Félix Maier

Há países que exportam tecnologia, outros exportam petróleo, outros exportam cultura. O Brasil exporta escândalos e, quando o mercado interno está aquecido, consome tudo aqui mesmo, com direito a buffet, champanhe francês e nota fria.

Durante muito tempo, nossas orgias político-empresariais foram quase artesanais. Havia certa rusticidade na corrupção festiva. Nada de Instagram (até porque celular não existia), nada de influenciadora fitness, nada de experiência sensorial premium. Era tudo mais... digamos... raiz.

Foi nesse cenário bucólico que surgiu a lendária mansão de Brasília, administrada por Jeany Mary Corner — nome que parece personagem de filme noir rodado por Zé do Caixão no Cemitério da Lapa, em Sampa. Ali, segundo denúncias da época, políticos — com destaque para o ministro da Fazenda Antônio Palocci — frequentavam encontros que misturavam prazer, lobby e articulações pouco republicanas. Não era apenas um espaço de confraternização carnal: era também, como se dizia nos corredores, a Casa do Lobby.

O Brasil sempre teve essa capacidade de juntar Eros e Erário na mesma sala.

Quem desmontou o teatro foi o caseiro Francenildo dos Santos Costa, um homem simples que ousou falar demais numa terra onde o silêncio costuma ser remunerado. Após reportagem de O Estado de S. Paulo e depoimento na CPI dos Bingos, instalada em 2005, o país descobriu que o caseiro sabia mais sobre a intimidade do poder do que muito cientista político.

Como prêmio por sua sinceridade cívica, teve o sigilo bancário quebrado. Porque no Brasil, meu caro leitor, o problema nunca é o escândalo. É quem fala dele.

A revista Época ainda levantou a hipótese de que os R$ 25.000,00 depositados na conta de Francenildo teriam vindo de adversários políticos interessados em constranger Palocci e o PT. A Polícia Federal, contudo, desmontou a versão quando o caseiro apresentou extratos comprovando que o dinheiro vinha do pai biológico, empresário no Piauí. Moral da história: quando o enredo é complexo demais, geralmente a verdade é mais simples do que a ficção petralha.

Comprovado o crime da quebra ilegal de sigilo, Palocci pediu demissão do Ministério da Fazenda. Foi indiciado, mas não condenado naquele episódio. O Brasil sempre foi generoso com seus corruPTos. Anos depois, Palocci voltaria à cena no lamaçal da Operação Lava Jato, onde chegou a ser preso por um tempo. Mas isso já era outra temporada da mesma série de maracutaias.

Se a era Mary Corner foi a fase analógica da libertinagem institucional, o que veio depois foi a era digital da depravação com upgrade de luxo.

Entramos, então, no capítulo Vorcaro.

Daniel Vorcaro, presidente do Banco Master, elevou o conceito de confraria político-empresarial a um novo patamar. Nada de mansão discreta em Brasília. Agora falamos de festas semanais que, segundo relatos, custariam algo em torno de R$ 400 mil por edição, na Alameda Lorena, em São Paulo — a Disneylândia do luxo paulistano.

O cardápio em Sampa incluía políticos, empresários, lobistas e modelos internacionais da Rússia, Ucrânia e Croácia – às vezes também beldades suecas, norueguesas, holandesas, suíças -,  com cachês que fariam corar jogador brasileiro da Premier League respondendo na Justiça por assédio sexual. Porque, veja bem, se é para fazer maracutaia, que seja com padrão europeu. Havia, ainda, a vantagem de as beldades não falarem português, evitando vazamentos.

Havia também versões itinerantes da farra: Trancoso, resorts paradisíacos, encontros blindados em Nova York, Lisboa, Capri, St. Barts (no Caribe). A regra era clara: proibido celular. O Brasil pode não ter controle fiscal eficiente, mas tem protocolo rígido de confidencialidade orgíaca.

Enquanto isso, o Banco Master se envolvia em operações que levantaram sobrancelhas no mercado financeiro, especialmente nas relações com o Banco de Brasília. Dívidas, estruturas financeiras criativas, engenharia contábil digna de prêmio de arquitetura barroca. Tudo muito técnico, tudo muito sofisticado — como as festas.

No entorno da narrativa aparecem nomes que fariam qualquer roteirista suar frio. O ministro do STF Dias Toffoli foi mencionado em reportagens por sua proximidade com personagens do enredo, inclusive com participação societária em resort de luxo no Paraná, o Tayayá Aqua Resort. E viagem para assistir à Libertadores no Peru de avião privado, porque nada combina mais com futebol sul-americano do que jatinho executivo.

E, no mesmo universo, a esposa de Alexandre de Moraes advogando para o Banco Master, em contratos que envolveriam cifras da ordem de R$ 130 milhões. O Brasil é um país onde tudo é possível, especialmente quando envolve muitos zeros.

Naturalmente, cada um apresenta sua versão, sua defesa, sua narrativa técnica. E a imprensa publica, os advogados respondem, as notas oficiais circulam. No fim, o cidadão comum apenas tenta entender como um país com déficit fiscal permanente consegue manter tamanha vitalidade festiva no topo da pirâmide.

A comparação entre Mary Corner e as modelos internacionais do circuito Vorcaro é quase sociológica.

Mary representava a fase romântica da promiscuidade política: encontros discretos, personagens folclóricos, valores quase modestos perto dos padrões atuais. Havia algo de novela das oito (as antigas, as atuais são piores que o enredo Master), de Brasília provinciana tentando ser cosmopolita.

Já as festas contemporâneas parecem spin-off de série da HBO. Modelos globais, cachês estratosféricos, locações instagramáveis (ainda que sem Instagram), logística de evento corporativo. Se antes era casa do lobby, agora é experiência imersiva de networking estratégico.

A corrupção brasileira, como o vinho, envelheceu e ganhou notas amadeiradas.

Mas o fio condutor permanece o mesmo: poder, dinheiro e silêncio. Muito silêncio.

No fundo, Mary Corner e as modelos do Vorcaro são personagens secundárias de uma trama maior. Elas orbitam o poder. O verdadeiro protagonista é o sistema, essa engrenagem que permite que escândalos surjam, explodam, indignem e, depois, evaporem como champanhe aberto demais.

O Brasil não inventou a orgia política. Mas conseguiu dar a ela um toque tropical, criativo e, nos últimos anos, altamente sofisticado. Nada de networking, mas coworking com muita beldade nórdica no colo e champagne na mão.

De mansões discretas em Brasília a festas blindadas na Alameda Lorena, de depósitos suspeitos em conta de caseiro a contratos milionários em bancas de advocacia, seguimos evoluindo. Não em educação básica, não em saneamento, mas em glamourização da maracutaia.

No fim das contas, o que se vê no caso do Banco Master é um silêncio que não é ausência de barulho: é engenharia acústica de alto padrão.

Fala-se aqui, cochicha-se ali, promete-se apuração, insinua-se uma possível CPI. Mas a CPI, essa ave que costuma cantar alto quando sente cheiro de palanque eleitoral, parece ter entrado em hibernação preventiva. Não por falta de assunto — assunto é o que não falta neste país —, mas talvez por excesso de currículo dos envolvidos.

Porque, convenhamos, quando o suprassumo nacional da política e do empresariado frequenta as mesmas mesas, os mesmos jantares, os mesmos camarotes e, ao que tudo indica, as mesmas festas blindadas, cria-se uma espécie de pacto tácito de autopreservação. Não é preciso combinar nada explicitamente. Basta que todos saibam demais sobre todos.

É o famoso modelo brasileiro de governança: um lava a mão do outro — e, em versões mais francas, um lava a bunda suja do outro, com água morna e toalha felpuda.

A eventual CPI ameaça nascer, mas logo alguém lembra que há contratos, relações, escritórios de advocacia, sociedades cruzadas, amizades antigas, fotos inconvenientes (sempre aparece um celular), viagens compartilhadas e favores acumulados. E, quando o rabo de muita gente está preso no mesmo portão, ninguém tem pressa de puxar a corda.

Assim, o que se desenha não é necessariamente absolvição, nem condenação — é diluição. O caso vai sendo administrado. Uma nota aqui, uma reportagem ali, uma explicação técnica acolá. O noticiário gira. Surge outro escândalo, depois outro. O Brasil é pródigo em escândalos substitutos.

E, no meio do turbilhão, a estratégia mais eficiente continua sendo a mais antiga: esperar. Esperar que a próxima crise seja mais barulhenta. Que o próximo vídeo, a próxima operação, a próxima delação ocupe o horário nobre. Que a indignação nacional, tão intensa quanto breve, encontre novo alvo.

Mary Corner teve sua temporada. Palocci teve a sua. A Operação Lava Jato teve várias, até que foi enterrada por Dias Toffoli. Agora, o enredo do Master parece entrar naquela fase em que todos olham para o teto e assobiam.

No Brasil, a maracutaia não costuma morrer, apenas troca de manchete.

E, enquanto o país aguarda o próximo escândalo para esquecer o anterior, as luzes da festa seguem acesas. Sem celulares. Sem atas. Sem CPI.

Apenas com memória curta, essa sim, a mais eficiente blindagem institucional já inventada por estas bandas.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

2016: Sonho de uma noite de verão - Por Félix Maier

 


2016: Sonho de uma noite de verão

Félix Maier

Houve um ano em que o Brasil acordou leve. Não completamente sóbrio — nunca fomos —, mas com aquela ressaca boa, quando a dor de cabeça vem acompanhada da certeza de que a festa acabou e que, finalmente, alguém vai pagar a conta.

Esse ano foi 2016.

O sol parecia mais amarelo, as panelas soavam afinadas, e o cidadão comum, esse ser historicamente humilhado pela burocracia e pela retórica, teve a impressão inédita de que a Justiça havia decidido trabalhar. A Lava Jato avançava, políticos suavam frio, delações brotavam como cogumelos depois da chuva, e o verbo prender passou a ser conjugado com gente importante como sujeito.

Era um verão shakespeariano: Sonho de uma noite de verão, com direito a fadas togadas, duendes do Ministério Público e vilões finalmente sem capa de invisibilidade.

No início daquele ano, a blogueira Christina Fontenelle  publicou um vídeo-homenagem no Facebook. Um gesto simples, quase ingênuo, mas carregado de simbolismo: reconhecer publicamente pessoas que haviam se exposto — algumas com elegância, outras com fúria — para denunciar a roubalheira petralha e o avanço das pautas socialistas travestidas de virtude moral. Uma colcha de retalhos humana: liberais, conservadores, jornalistas, youtubers, escritores, briguentos profissionais e patriotas de fim de semana.

Estávamos todos ali, meio sem saber como, meio sem saber por quê, mas com a convicção de que algo tinha mudado. Que a engrenagem finalmente havia emperrado. Que o Brasil, esse adolescente institucional, talvez tivesse aprendido alguma coisa.

O impeachment de Dilma Rousseff veio como um suspiro coletivo. Não foi festa, foi alívio. O país não comemorou; desabafou. Como quem tira um sapato apertado depois de horas de tortura estética. O processo começou em dezembro de 2015 e terminou em agosto de 2016, mas, emocionalmente, pareceu um parto de dez anos.

A sensação era clara: acabou!

Acabou o projeto.

Acabou a quadrilha.

Acabou o encantamento.

Doce ilusão.

Hoje sabemos: aquilo não foi uma vitória. Foi intervalo, entre um sonho de uma noite de verão e a volta do velho pesadelo.

O roteiro era outro. Enquanto o país acreditava ter virado a página, o livro estava apenas sendo trocado de capa. Em abril de 2021, o Supremo Tribunal Federal — esse órgão que não erra, apenas reinterpreta a realidade — decidiu que tudo aquilo fora um grande mal-entendido jurídico. Três instâncias, nove votos a zero, 580 dias de cadeia? Um detalhe processual. Um erro de CEP. Um problema de endereço metafísico.

O condenado virou descondenado — essa criatura jurídica que só existe no Brasil, terra onde até a gramática penal é criativa. E o Ogro de Nove Dedos voltou ao jogo, elegível, reabilitado, ungido, mais limpo que bumbum de nenê lavado na banheira, com talquinho. O passado foi lavado com OMO institucional.

Em 2022, com ajuda logística, narrativa bem calibrada e uma democracia conduzida no modo missão dada, missão cumprida, o Ogro de Nove Dedos retornou à Presidência. Pela terceira vez. O Brasil não apenas perdoou: aplaudiu.

Sessenta milhões de votos depois, a pergunta ficou no ar, incômoda como mosquito em quarto escuro: foram idiotas úteis ou patifes assumidos?

Talvez um pouco de cada. O Brasil sempre gostou de misturas.

O mais cruel, porém, foi perceber que o 8 de janeiro de 2023 não surgiu do nada. Não brotou espontaneamente da insanidade coletiva. Ele foi gestado antes, em silêncio, a partir de 15 de abril de 2021 — a data da Traição Suprema, quando a Justiça decidiu que a verdade era negociável e que a história podia ser rebobinada com uma canetada.

Sem aquela decisão, não haveria quebra-quebra. Não haveria fúria cega. Não haveria vandalismo. O 8 de janeiro foi consequência, não causa. Foi o vômito tardio de um organismo institucional intoxicado.

Até o sempre ponderado Marco Aurélio Mello, antigo ministro do STF — um homem que jamais confundiu frieza com covardia — apontou o óbvio: houve crime de omissão. Houve falha grotesca de segurança. Houve alertas ignorados. Houve gente demais olhando para o lado certo demais.

O governador do DF, o ministro da Justiça, o chefe do GSI: todos avisados, todos preparados para nada fazer. O resultado foi um cenário perfeito para a narrativa perfeita. Palácios depredados, imagens repetidas à exaustão, vilões prontos, heróis improvisados.

E, como sempre, a conta caiu no colo de quem estava mais perto da farda. Coronéis da PMDF viraram bodes expiatórios de um teatro maior. Os verdadeiros diretores da peça assistiram da coxia, atrás de cortinas, com ar grave e discursos sobre democracia. Uma minuta do golpe sem assinatura foi tratada como prova de uma cogitação criminosa e serviu de base para processos e condenações severas a fardados e paisanos. Generais e o próprio presidente Jair Bolsonaro foram alçados à condição de réus simbólicos de um golpe que nunca passou do papel. O roteiro dispensou atos, dispensou comandos e dispensou execução; bastou a narrativa. E, mais uma vez, quem pagou o ingresso mais caro foi quem vestia farda, enquanto os autores do script saíam pela porta dos fundos, aplaudidos como defensores da democracia.

Mas voltemos a 2016.

O que mais dói, hoje, não é o fracasso. O Brasil está acostumado a falhar. O que dói é a memória do otimismo. A lembrança daquele breve período em que acreditamos — sinceramente — que o país havia amadurecido. Que instituições serviam ao povo. Que a lei não tinha partido político.

Foi um verão curto. Uma noite quente. Um sonho bonito.

Mas, acordamos suados, confusos, e com a sensação estranha de que alguém havia mexido na casa enquanto dormíamos.

Talvez seja essa a lição final daquele ano de 2016: no Brasil, quando o cidadão acha que venceu, é porque o sistema apenas mudou de tática.

O ano de 2016 não foi o fim dos petralhas. Foi apenas o momento em que eles fingiram cair para ver quem baixava a guarda.



Assim nasceu o petista... - Por Félix Maier

 


Assim nasceu o petista...

 Félix Maier

Toda ideologia, quando envelhece mal, acaba virando folclore. E todo folclore, cedo ou tarde, ganha uma origem mítica. Roma teve Rômulo e Remo, amamentados por uma loba; a Grécia teve Zeus disfarçado de tudo quanto é bicho; e o Brasil, como não poderia deixar de ser, também precisava de uma explicação à altura para certas criaturas políticas que parecem ter fugido de um laboratório.

Reza a lenda — e lendas não se discutem, apenas se contam — que, na antiga União Soviética, alguém resolveu levar o materialismo histórico ao pé da letra. Se tudo é matéria, se tudo é luta, se tudo é transformação dialética, por que não transformar logo as espécies? Afinal, Darwin estava ali, Engels estava ali, e o bom senso… bem, o bom senso nunca foi membro do Partido.

Na fase que alguns historiadores chamam de totêmica — outros preferem criativa demais — Lênin teria desenvolvido uma relação simbólica intensa com animais. Não no sentido afetivo, mas no sentido ideológico: o animal como metáfora do novo homem. No gabinete, um gorila de bronze sustentava uma caveira humana, como quem dissesse: o futuro segura o passado, mas não garante que vá respeitá-lo. Era decoração minimalista, porém carregada de mensagem maximalista.

Essa fase foi marcada por uma convicção curiosa: a de que a crueldade impiedosa nos Gulags e na Lubianka não era um desvio, mas o motor do progresso humano. Algo como um coaching revolucionário avant la lettre. Sofra hoje para dominar amanhã. Se doer muito, é porque está funcionando.

Se o fanático T. D. Lysenko, que pregava uma teoria de caracteres adquiridos por herança, à qual chamou de vernalização e prometia a transformação de trigo em centeio, pinheiros em abetos, por que não juntar uma mulher com um animal peludo da Bacia do Congo, para criação do poderoso Homo sovieticus?

Daí para experiências científicas inomináveis foi um pulo. Afinal, quando se acredita que a História tem lado, qualquer coisa feita em nome dela ganha verniz moral. E foi assim que telegramas espantados começaram a circular pelo mundo civilizado — que, convenhamos, já estava com o espanto meio gasto — anunciando experiências cujo objetivo era provar, in anima nobile, a possibilidade da transformação das espécies.

Nada de metáforas. Era literal.

Os “cientistas” soviéticos — aspas obrigatórias, por questão de higiene textual — teriam se dedicado ao contubérnio macabro entre mulher e chimpanzé. Uma tentativa de acelerar a evolução pela via administrativa. Se a natureza demora, o Estado resolve. Comitê central, ata assinada, verba liberada.

Como toda história macabra que se preze, algo deu errado. Ou certo demais.

Um espécime, fruto desse relacionamento zoofílico ideológico, teria escapado do centro de pesquisas. Não se sabe se pulou o muro, se recebeu asilo, ou se simplesmente foi promovido a quadro internacional da causa. O fato é que sumiu dos registros soviéticos e reapareceu, misteriosamente, no Brasil.

O Brasil, claro. País onde tudo que é estranho acaba encontrando clima favorável, solo fértil e um jeitinho de se adaptar. Aqui, jabuticaba nasce em tronco de árvore e ideologia exótica vira movimento popular.

O espécime chegou discreto. No começo, parecia apenas mais um idealista confuso. Falava em justiça social, igualdade, fraternidade universal — aquele kit básico que todo mundo gosta até começar a pagar a conta. Tinha um certo apreço por discursos longos, uma aversão instintiva a planilhas e uma habilidade notável de explicar fracassos como sucessos mal compreendidos.

Com o tempo, foi se multiplicando. Não por reprodução natural — que seria pedir demais, são poucos os zoológicos com chimpanzés disponíveis no Brasil — mas por contágio retórico. A criatura tinha um dom especial: transformar ressentimento em virtude e incompetência em narrativa. Onde havia erro, via perseguição. Onde havia crítica, via golpe. Onde havia dados, via opiniões burguesas.

Estava criado o ecossistema perfeito.

O petista — sim, porque era disso que se tratava —, esse fugitivo da Escola de Lysenko, desenvolveu características próprias. Um discurso moral elevado combinado com uma tolerância ética subterrânea. Um amor declarado pelos pobres, desde que eles continuassem pobres o suficiente para justificar o discurso – e os votos do Bolsa Família e do Gás do Povo. Uma fé quase religiosa no Estado, esse ente místico que tudo pode, tudo resolve e nunca erra, apenas é mal interpretado.

Como todo ser híbrido, ele tinha conflitos internos. O chimpanzé puxava para o grito, o punho cerrado e a palavra de ordem. A parte humana tentava parecer razoável em mesas de debate e editoriais bem-intencionados. O resultado era uma criatura capaz de discursar sobre democracia enquanto flertava com ditaduras sul-americanas e africanas, desde que ideologicamente alinhadas.

Com o passar dos anos, o petista ganhou refinamento. Aprendeu a usar terno, a falar em instituições, a citar autores que ninguém havia lido. Descobriu que o capitalismo era horrível, mas que seus confortos eram bastante convenientes, assim como a conta na Suíça. Passou a combater combustíveis fósseis indo de SUV ou iate para o protesto. Evoluiu, enfim, para uma forma mais sofisticada do experimento original: menos pelo no peito, mais Instagram na cabeça.

E assim seguimos. Entre mitos fundadores e explicações improváveis, o Brasil continua tentando entender certas espécies políticas que parecem imunes à realidade. Talvez não tenham vindo da URSS. Talvez não tenham fugido de laboratório algum. Talvez sejam apenas fruto de uma combinação local de ingenuidade, esperteza e memória curta.

Mas convenhamos: a versão do chimpanzé soviético é bem mais divertida. E, como toda boa crônica, não precisa ser verdadeira, basta ser plausível o suficiente para fazer rir, coçar a cabeça e pensar: vai ver é isso mesmo.

Afinal, em matéria de política brasileira, a realidade já concorre há muito tempo com a ficção. E nunca ganha.


HOMEM É DE MARTE, MULHER É DE LUA - Félix Maier

 


HOMEM É DE MARTE, MULHER É DE LUA


Félix Maier

 

Dizem que homem é de Marte e mulher é de Vênus. Sempre achei Vênus pouco convincente. Muito quente, atmosfera tóxica, pressão esmagadora, descrição que pode ser mal interpretada num casamento. Prefiro Lua. Mulher de Lua. Aquela criatura que vive em outra órbita emocional, olhando para você como quem observa um eclipse que só ela enxerga.

Homem é de Marte. Não no sentido heroico. Marte não é aquele planeta vermelho, bélico, cheio de crateras, onde Elon Musk quer criar uma nova civilização? Pois então.

— Eu só perguntei se você gostou do meu corte de cabelo — diz a selenita, da porta do banheiro.

O marciano olha. Analisa. Mede. Ele não vê cabelo. Vê diferença de milímetros.

— Está… normal.

Silêncio lunar de Lua nova. O silêncio lunar não é ausência de som. É ausência de esperança.

— Normal?

— É. Bom. Assim. Igual.

A mulher de Lua fecha a porta com delicadeza tectônica. Marte acaba de declarar guerra sem saber.

O homem de Marte tem qualidades. Ele é objetivo. Direto. Econômico. Se pudesse, substituiria emoções por botões. Botão A: fome. Botão B: sexo. Botão C: sono. Botão D: futebol. Ele acredita que está tudo bem significa que está tudo bem. A selenita sabe que está tudo bem significa que nada está bem, mas que ela decidiu adiar a explosão para depois da novela.

— Está tudo bem? — pergunta o marciano.

— Está.

Ele sorri. Missão cumprida. A mulher de Lua observa aquele sorriso e pensa: Ele não percebe nada. O marciano pensa: Resolvi.

Ponto forte do marciano: simplicidade. Ponto fraco: simplicidade. Ele não complica o que pode ser resolvido com uma chave de fenda. Ela não entende como alguém pode achar que tudo se resolve com uma chave de fenda.

O marciano também tem essa estranha habilidade de não encontrar objetos.

— Amor, onde está o molho de chaves?

— Na gaveta do aparador.

— Não está.

A selenita vai até a gaveta. O molho está ali, com a dignidade de quem nunca saiu do lugar.

— Aqui.

— Ah. Mas estava escondido.

— Sim, escondido atrás de si mesmo.

A mulher de Lua tem fases. Isso é científico. A própria Lua prova. Há dias em que ela é Lua cheia: ilumina tudo, organiza armários, planeja viagens para 2032 e ainda acha tempo para discutir o sentido da vida. Há dias em que é Lua nova: silêncio, introspecção, perguntas existenciais do tipo:

— Você já pensou que talvez a gente nunca se conheça de verdade?

O marciano está mastigando cookies com nuts e chocolate.

— Hã?

Ela fala em órbitas. Ele fala em trajetórias. Ela guarda mágoas com classificação temática e data de ocorrência. Ele não lembra o que jantou ontem.

Ponto forte da selenita: sensibilidade, memória, radar emocional de longo alcance. Ponto fraco: sensibilidade, memória, radar emocional de longo alcance.

— Você mudou — diz ela.

— Eu?

— Mudou.

— Quando?

— Não sei. Mas mudou.

O marciano gostaria de um relatório técnico com gráficos e anexos. A selenita trabalha com percepções. Ela sente variações gravitacionais no ar. Ele sente fome.

A mulher de Lua não muda de ideia: muda de iluminação. O que ontem era quarto crescente hoje é minguante, mas continua sendo a mesma esfera inteira, apenas vista de outro ângulo.

Já que ficou démodé planejar invadir a Terra, como Marte Ataca! o marciano inventa uma prateleira para instalar na cozinha, com perigo de furar o cano d’água.

Toda mulher tem um deserto marciano interno onde não chove há meses. Todo homem tem uma lua particular que ninguém sabe quando vai minguar. Às vezes ela quer guerra. Às vezes ele quer maré. O problema não é serem de planetas diferentes. É esquecerem que dividem o mesmo sistema solar.

A guerra começa sempre por pequenas escaramuças.

— Você nunca me ouve.

— Eu estou ouvindo.

— Não está.

— Estou sim.

— Então o que eu disse?

O marciano congela. Marte não previu essa pergunta.

— Você falou… sobre… a sua amiga.

— Qual amiga?

Marte cai.

A selenita não quer apenas ser ouvida. Quer ser compreendida. Quer que o marciano perceba que quando ela fala da amiga, está falando de si. Que quando fala da vizinha, está falando do futuro. Que quando fala do cabelo, está falando da autoestima, da passagem do tempo e da condição feminina no hemisfério sul. O marciano ouve cabelo. E responde normal.

Mas há momentos de cooperação interplanetária. Quando o mundo aperta, o marciano vira escudo. Quando o marciano cai, a selenita vira atmosfera. Ele pode não entender as entrelinhas, mas segura a mão. Ela pode dramatizar um pouco, mas faz canja de galinha quando ele está gripado.

— Você acha que eu exagero? — pergunta ela.

Ele pensa um pouco. Isso já é um avanço evolutivo.

— Às vezes.

Ela o encara.

— Mas é um exagero organizado — ele completa, num raro lampejo diplomático.

A mulher de Lua sorri. Pequena maré cheia.

O marciano aprende, com o tempo, que há perguntas que não buscam resposta, mas acolhimento.

— Você me acha bonita?

Resposta errada: Sim. Resposta correta: Muito. Resposta ideal: Cada dia mais.

A Lua é respeitada pelas marés e por suas fases, cada uma própria para o agricultor saber quando derrubar uma árvore ou plantar feijão, para não carunchar. Só uma selenita para saber o que existe no lado escuro da Lua.

Marte conhece bem as quatro estações do ano: campeonato estadual, Brasileirão, Libertadores e Copa do Brasil. E não há sonda espacial que explique por que até um marciano fica rouco diante da televisão.

— Você viu que o mundo está acabando? — pergunta o marciano.

— Claro, até a Lua está se afastando da Terra — responde a selenita.

Ela está em outra órbita. Ele no noticiário. Mas não se enganem: a selenita pode parecer distraída, mas sabe tudo. Sabe do IPVA que vence amanhã, porque não é ela que paga; da tensão na voz dele quando o time perde; da sogra que falou interessante com intenção hostil. Alienada? Não. Só de Lua.

— O que você acha que significa sonhar com escadas?

O homem de Marte não sabe responder, não é José do Egito para explicar os sonhos da faraoa selenita. Também não tem a mínima ideia do que significa a escada para o Céu, vista por Jacó.

O homem de Marte finge que é invulnerável. Mas guarda inseguranças do tamanho do sistema solar. Ele quer ser forte, mas tem medo de falhar na hora H. Quer ser provedor, mas teme não ser suficiente. Quer ser simples, mas às vezes é apenas simplório.

— Você não fala do que sente — diz a selenita.

— Falo sim.

— Quando?

Ele pensa.

— Quando o time perde.

Ela suspira. Mas se aproxima. Em seguida desliza para o lado escuro da Lua, aquele onde ela arquiva as esperanças não correspondidas.

O marciano não fala muito, mas demonstra. Conserta a torneira, troca o pneu, leva o Totó para passear, enfrenta o sogro. Seu amor é prático. Não escreve poemas; paga boletos. A mulher de Lua escreve poemas mentais sobre os boletos.

De vez em quando há eclipse. Um encobre o outro. Falta luz.

— Talvez a gente seja mesmo muito diferente — diz ela.

— Talvez — responde ele.

Silêncio.

Mas então, como num alinhamento cósmico, lembram-se de algo simples: escolheram estar juntos. Aqui e agora. Ele gosta do jeito como ela fala com as mãos. Ela gosta do jeito como ele dorme, como se nada pudesse derrubá-lo. Ela organiza o caos dele, que não existe. Ele simplifica o drama dela, que existe. Ela ensina nuance. Ele ensina descanso.

Homem é de Marte. Mulher é de Lua. Marte é árido, mas resistente. Lua é mutável, mas constante no retorno. Ele tem força bruta. Ela tem força gravitacional. Ele constrói pontes. Ela decide para onde elas levam.

No fundo, nenhum vive sozinho. Marte sem Lua é só poeira vermelha girando no vazio. Lua sem planeta é pedra fria perdida no escuro.

— Você ainda está brava comigo? — pergunta o marciano.

— Não.

— Mesmo?

— Um pouco.

— Quer pizza?

Pausa.

— De quatro queijos?

— Pode ser.

E assim se faz a paz universal: não por tratados assinados, mas por pequenas concessões com borda recheada.

No fim das contas, talvez não sejamos de planetas diferentes. Talvez sejamos do mesmo mundo, só com mapas distintos. Ele usa Waze. Ela usa maré. E entre crateras e fases, aprendem a orbitar um ao outro, nem sempre em perfeita sintonia, mas sempre com alguma gravidade compartilhada.

Porque, no espaço conjugal sideral, o segredo não é vencer a guerra galáctica. É continuar girando juntos.