MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

sábado, 28 de março de 2026

31 de Março de 1964: Acredite no seu avô de 80 anos, não no professor marxista de História - Por Félix Maier

 

 31 de março de 1964:

acredite no seu avô de 80 anos,

não no professor marxista de história

 Félix Maier

Março de 1964 não chegou de repente; ele foi se formando lentamente, como um temporal que se anuncia muito antes do primeiro trovão. O Brasil daqueles anos vivia sob uma atmosfera carregada, em que o cotidiano já não era apenas rotina, mas tensão acumulada. Desde a crise institucional iniciada com a renúncia de Jânio Quadros, em 25 de agosto de 1961, o qual havia condecorado Che Guevara com a Ordem do Cruzeiro do Sul seis dias antes, o país entrara numa fase de instabilidade política que parecia não encontrar ponto de equilíbrio.

A solução improvisada do parlamentarismo, criada para viabilizar a posse de João Goulart, durou pouco e revelou, desde o início, a fragilidade das instituições diante de um cenário radicalizado. Quando o presidencialismo foi restaurado pelo plebiscito de 1963, devolvendo plenos poderes a Jango, o que se viu não foi a pacificação, mas o agravamento de tensões que já vinham fermentando, com o avanço do movimento comunista dentro do governo.

No pano de fundo, o mundo vivia o auge da Guerra Fria. O mapa geopolítico parecia, aos olhos de muitos contemporâneos, tingir-se progressivamente de vermelho, à medida que regimes alinhados ao bloco soviético e à China se consolidavam ou surgiam em diferentes regiões.

A Revolução Cubana, vitoriosa em 1959, exercia impacto direto sobre a América Latina, não apenas como símbolo, mas como agente ativo de influência política e ideológica. Documentos, depoimentos e estudos posteriores indicam que havia, de fato, circulação de ideias, apoio logístico e tentativas de articulação de movimentos revolucionários em vários países do continente. Para setores expressivos da sociedade brasileira, esse contexto internacional não era abstrato: era uma ameaça concreta, percebida como risco de desestabilização interna e eventual ruptura institucional em moldes revolucionários.

Desde 1961, já havia agentes cubanos em território brasileiro, insuflando as massas no sertão nordestino, junto com as Ligas Camponesas de Francisco Julião. Canaviais eram incendiados. Usinas de açúcar eram depredadas. No Porto de Santos, navios ao largo continham bens perecíveis, que apodreciam devido a greves sucessivas; quem tentava furar a greve, tinha as pernas quebradas com barras de ferro. Greves pipocavam toda hora, deixando milhões de pessoas sem transporte no fim do dia, especialmente no Rio de Janeiro. A inflação disparava, havia desabastecimento e o Exército distribuía alimentos nos bairros pobres do Rio de Janeiro.

A pesquisadora Denise Rollemberg, da UFRJ, autora do livro O apoio de Cuba à luta armada no Brasil: o treinamento guerrilheiro afirma que "o primeiro auxílio de Fidel foi no Governo João Goulart, por intermédio do apoio às Ligas Camponesas, lendário movimento rural chefiado por Francisco Julião. (...) O apoio cubano concretizou-se no fornecimento de armas e dinheiro, além da compra de fazendas em Goiás, Acre, Bahia e Pernambuco, para funcionar como campos de treinamento”. Em sua língua de pau, Rollemberg se refere a incêndios a canaviais e depredação de usinas, verdadeiros atos terroristas, como um lendário movimento rural."

Uma pequena amostra daquele movimento pré-revolucionário comunista pode ser conhecida lendo os verbetes FMP, Folhetos cubanos, Foquismo, G-11, Ligas Camponesas, MEB, MEP, Revolução Cubana e ULTAB (veja link abaixo, Movimento pré-revolucionário comunista, que antecedeu o ano de 1964).

Dentro do Brasil, as tensões sociais e econômicas contribuíam para esse ambiente de inquietação. A inflação corroía o poder de compra, as greves se multiplicavam e os conflitos no campo ganhavam visibilidade crescente. As chamadas Reformas de Base, defendidas pelo governo de João Goulart, mobilizavam paixões opostas. Para seus apoiadores, tratava-se de corrigir desigualdades históricas e modernizar o país; para seus críticos, havia o temor de que tais medidas abrissem caminho para uma reorganização radical da ordem social e econômica, com possíveis desdobramentos autoritários com viés socialista.

A figura de Leonel Brizola, cunhado de Jango e liderança influente, também contribuía para a percepção de radicalização, sobretudo entre aqueles que viam em seus discursos e propostas um tom mais combativo e menos conciliador. Durante a Campanha da Legalidade, assim vociferava o último dos maragatos nas estações de rádio: "Atenção, sargentos do III Exército, atenção sargentos das unidades chefiadas por esses militares golpistas. Atenção, oficiais nacionalistas… O povo pede que os sargentos se levantem, tomem os quartéis e prendam os gorilas… tomem a iniciativa à unha mesmo, com o que tiverem na mão, tomem as armas desses gorilas, tomem conta dos quartéis e prendam os traidores. Os postes de luz em Porto Alegre não serão suficientes para pendurar os gorilas."

O país, assim, não apenas se dividia — ele se tensionava internamente, como se cada grupo social passasse a interpretar os acontecimentos por lentes cada vez mais opostas.

As ruas se tornaram palco dessa divisão. Em março de 1964, o comício da Central do Brasil reuniu milhares de pessoas que foram impedidas de tomar o trem da Central, além de ônibus disponíveis para o populacho chegar ao centro do Rio, com verba da Petrobras (o Petrolão é ainda mais antigo do que supúnhamos...). No entanto, a falsa multidão ajudou a narrativa dos comunistas, em apoio às Reformas de Base, pregadas por setores radicais alinhados ao governo. Em resposta, poucos dias depois, ocorreram as Marchas da Família com Deus pela Liberdade, que também levaram multidões às ruas, mas sem greve na Central do Brasil, e sem ônibus da Petrobras, especialmente no Rio e em São Paulo, expressando rejeição ao rumo político do país e clamando por ordem e estabilidade. Era um Brasil que se manifestava em massa — mas em direções contrárias.

Ao mesmo tempo, episódios envolvendo a quebra de disciplina em setores militares, como a Revolta dos Sargentos em Brasília e a Revolta dos Marinheiros no Rio de Janeiro, aprofundaram o desconforto dentro das Forças Armadas. Para muitos oficiais, a hierarquia — elemento central da instituição — estava sendo corroída, o que ampliava a percepção de que o país caminhava para uma situação de descontrole. Esse sentimento estava presente em segmentos significativos da oficialidade. Com a propaganda comunista sendo feita abertamente entre os Sargentos dentro dos quartéis, com a anuência dos generais do povo na cúpula do governo (como o general Osvino Ferreira Alves e o almirante Cândido Aragão – o tal esquema militar, golpista), o medo era tanto que o oficial-de-dia das Unidades das Forças Armadas ficava andando a noite toda no quartel, igual um zumbi, com medo de ser assassinado na cama, como ocorreu na Intentona Comunista, em 1935.

Nesse ambiente, marcado por medo, expectativa e desconfiança, consolidou-se a ideia, entre diversos grupos civis e militares, de que uma ruptura seria inevitável. Para uns, tratava-se de impedir um processo de radicalização política; para outros, era a própria ruptura que representava a ameaça à ordem democrática. O fato é que, no fim de março de 1964, o País já não se encontrava em equilíbrio, com a massa popular tomando as ruas das grandes cidades, pedindo socorro às Forças Armadas.

Quando as tropas começaram a se movimentar na noite de 31 de março, a partir de Minas Gerais, o desfecho foi rápido. A adesão de diferentes comandos militares ao movimento acelerou os acontecimentos, e João Goulart deixou o país poucos dias depois.

O esquema militar de Jango e seus generais do povo, de cooptação dos militares de baixas patentes, foi para o brejo, ainda que a sargentada tenha feito fila para o próprio presidente João Goulart assinar a compra de um Gordini ou de um apartamento via Caixa Econômica, um absurdo! Imagine Bolsonaro fazer isso, ao grito dos paraquedistas: Mito! Mito! Mito! 

O episódio, que alguns denominam revolução e outros classificam como golpe, marcaria profundamente a história brasileira, dando início a um período prolongado de governo militar, cujas consequências seriam sentidas por décadas. O correto é qualificar o episódio como contragolpe, pois havia um golpe comunista a caminho, para ser deflagrado em 1/5/1964 (cfr. manchete de O Globo, de 6/4/1964).

Com o passar do tempo, vieram também os relatos de militantes que participaram de movimentos armados de esquerda, alguns dos quais reconheceram, em depoimentos e memórias, a existência de projetos revolucionários inspirados em experiências internacionais, inclusive com referências à estratégia de guerra prolongada e à criação de focos insurgentes no continente. Militantes políticos (eufemismo para terroristas de esquerda), como Fernando Gabeira, foram dos poucos que afirmaram, com todas as letras, que os movimentos armados não tinham o objetivo de restabelecer a democracia no Brasil, mas implantar a ditadura do proletariado, ou seja, a ditadura comunista, nos moldes de Cuba do paredón e de mais de 100.000 mortos e 20% de sua população fugindo para o exterior, principalmente para a Flórida.

O que emerge desse período não é uma narrativa convergente, mas um mosaico complexo, formado por percepções, interesses, medos e projetos distintos. Havia, sem dúvida, uma disputa ideológica intensa, alimentada tanto por fatores internos quanto pelo contexto global da Guerra Fria. Havia também mobilização popular real, em diferentes sentidos, refletindo um país que participava ativamente de seu próprio destino, ainda que de forma conflituosa.

Décadas depois, o eco de 1964 continua presente. O ano de 1964 teima em não terminar. Não apenas nos livros de história, mas nas conversas familiares, nas memórias transmitidas entre gerações, nos relatos de quem viveu aquele tempo. O avô que testemunhou os acontecimentos guarda impressões diretas, moldadas pela experiência vivida. O professor marxista que hoje ensina História trabalha com narrativas, aprendidas na Prova do ENEM, na universidade, na mídia e na cultura, especialmente teatro e cinema, órgãos totalmente tomados pela esquerda a partir do final dos anos 1970.

Filmes como Olga, O que é isso companheiro? Lamarca, Marighella, Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto são provas desse maniqueísmo barato, do nós, os democratas, contra eles os fascistas, em que terroristas sanguinários são tratados como heróis, enquanto os militares que os combateram são tratados como assassinos e torturadores. Infelizmente, muitas vezes o neto passa a acreditar mais nesses patifes do que no avô que viveu aquela época e sabe muito bem o que de fato ocorreu.

A compreensão do passado exige mais do que adesão a uma versão única: exige escuta, comparação, análise. A História recente do Brasil — como toda história viva — permanece aberta à interpretação, não porque os fatos sejam inexistentes, mas porque seu significado é disputado como se fosse um Fla x Flu.

E talvez seja justamente nesse ponto que reside o maior desafio para as novas gerações: estudar a sério o que houve naquele período, buscar manchetes e textos dos jornais e revistas da época, não ser mera pombinha dócil comendo milho podre oferecido pela esquerda pérfida, assassina por natureza.

No fim das contas, talvez a melhor imagem para encerrar essa história esteja dentro de casa, na conversa entre gerações. O neto de hoje cresce cercado por interpretações acadêmicas, livros didáticos e debates ideológicos que tentam explicar o passado com as lentes do presente. Mas diante dele também está o avô de oitenta anos, homem comum, honesto, que viu aqueles dias com os próprios olhos, sentiu o clima nas ruas, ouviu os discursos no rádio, acompanhou as marchas, as inquietações e os temores de uma época em que o mundo era dividido em dois campos cada vez mais inconciliáveis.

A memória de quem viveu aquela época não substitui o estudo da História, mas também não pode ser descartada como se fosse irrelevante. Muitas vezes, é nesse testemunho direto — imperfeito, humano, porém sincero — que o jovem encontra uma dimensão do passado que nenhum manual consegue transmitir por completo. Talvez a sabedoria esteja justamente em ouvir com atenção quem viveu aqueles dias e, ao mesmo tempo, confrontar essa memória com os documentos e registros do período, para que a compreensão do Brasil não seja feita apenas de versões prontas, narrativas enganosas, mas de diálogo entre experiência e reflexão.


***


        Há cerca de 30 anos, eu venho estudando o Movimento Cívico-Militar de 31 de Março de 1964. Tive um tio, Arno Preis, que participou do grupo terrorista Ação Libertadora Nacional (ALN) de Carlos Marighella, depois de se formar em Direito na USP, e teve um fim trágico, em 1972. Li muitos livros sobre o assunto, tanto dos que defendem o Movimento, como daqueles que o desprezam. O longo governo dos militares, de 21 anos — tão longo quanto o PT de hoje — teve altos e baixos, como ocorre com todo governo, por mais sério que ele seja. Porém, trouxe o Brasil à modernidade, da 46ª. para a 8ª. economia do planeta, com obras de infraestrutura que perduram até hoje.

        Assim, deixo meus trabalhos sobre o assunto principalmente para os netos de hoje, de modo que não caiam fácil no canto da sereia progressista, que um dia foi comunista, depois socialista, mas continua com o mesmo DNA totalitário comunista de sempre, que deixou mais de 100.000.000 de mortos pelo caminho durante o século XX.

        Boa leitura!

 

LEITURA RECOMENDADA:

 

1. Movimento pré-revolucionário comunista, que antecedeu o ano de 1964

Por Félix Maier

https://felixmaier1950.blogspot.com/2026/03/movimento-pre-revolucionario-comunista.html

 

2. ANTECEDENTES DO MOVIMENTO CÍVICO-MILITAR DE 31 DE MARÇO DE 1964 (HISTÓRIA ORAL DO EXÉRCITO – BIBLIEX, RIO DE JANEIRO – 2003)

Fichamento de Félix Maier

https://felixmaier1950.blogspot.com/2021/03/antecedentes-do-movimento-civico.html

 

3. 31 DE MARÇO DE 1964: CRONOLOGIA E TEXTOS HISTÓRICOS

Organizado por Félix Maier 

https://drive.google.com/file/d/1o4JLrW9wc0dgUD50kuA6iQP3QEd3U1O3/view 

 

4. Operação “Mata Lacerda”

História Oral do Exército – 31 Março 1964 (fichamento de Félix Maier)

https://felixmaier1950.blogspot.com/2021/04/operacao-mata-lacerda-por-historia-oral.html

 

5. Revolta dos Sargentos em Brasília

História Oral do Exército – 31 Março 1964 (fichamento de Félix Maier)

https://felixmaier1950.blogspot.com/2021/03/revolta-dos-sargentos-em-brasilia.html

 

6. As manchetes do contragolpe de 1964

Jornais e revistas

https://felixmaier1950.blogspot.com/2021/03/as-manchetes-do-contragolpe-de-1964.html

 

7. HISTÓRIA ORAL DO EXÉRCITO - 31 MARÇO 1964

Fichamento (dos 15 Tomos publicados pela Biblioteca do Exército) feito por Félix Maier

https://drive.google.com/file/d/1fsbc3zFomx0w1xoEDT8MTWew3MT03ggo/view 

 

8. MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

Seleção de textos feita por Félix Maier

https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/09/memorial-31-de-marco-de-1964-textos.html

 

9. ARNO PREIS E OS IDOS DE MARÇO DE 1964

Por Félix Maier

https://drive.google.com/file/d/1qlly7cvMHL0ia6NjXBD9Oqq22Z81Xlm9/view

 

10. AÇÕES ARMADAS COMUNISTAS NA AMÉRICA LATINA - Da Intentona Comunista às ações de Cuba

Organizado por Félix Maier

https://drive.google.com/file/d/1NM-YQGMFYok4sA6fbzkXi-3PqQeRTX1r/view

 

11. MEMORIAL DAS VÍTIMAS DO COMUNISMO

Organizado por Félix Maier

https://drive.google.com/file/d/1h3QBf3-wZQhdqWRGjdR3a5hjJyk6GJjd/view

 

12. A LÍNGUA DE PAU - Uma história da intolerância e da desinformação

Por Félix Maier

https://drive.google.com/file/d/1wDHV0YJFOZSoBwlJSSrHdl68CfJokMmf/view

 

Obs.: 

A novela histórica em forma de e-book MEMORIAL DE LUZERNA, A PÉROLA DO RIO DO PEIXE - Uma saga teuto-brasileira, de minha autoria, é ambientada, em parte, no pré e pós 1964, com uma abordagem leve e algum sarcasmo sobre aquela época conturbada. 

Baixe o livro em https://felixmaier1950.blogspot.com/2025/10/memorial-de-luzerna-perola-do-rio-do.html.

Acompanhe meus escritos no Blog PIRACEMA - Nadando contra a corrente -https://felixmaier1950.blogspot.com/.


LEIA TAMBÉM:

 

1. 57º. ANIVERSÁRIO DO MOVIMENTO CÍVICO-MILITAR DE 31 DE MARÇO DE 1964 - EDIÇÃO HISTÓRICA

Jornal Inconfidência nº. 288, de 31 de março de 2021

https://drive.google.com/file/d/15IYSa-qEsSufEjgSpNX9RuODzUOghOLh/view


2. Telegramas revelam ações subversivas cubanas no Brasil 

Arquivos secretos divulgados por Trump mostram que Fidel Castro enviou dinheiro e armas para deflagrar outras revoluções na América Latina

Por Duda Teixeira

https://crusoe.com.br/diario/telegramas-revelam-acoes-subversivas-cubanas-no-brasil/


Manchetes de O Globo, de 2/4/1964
Ressurge a democracia! e
A VIOLÊNCIA CONTRA "O GLOBO"

Em 1/4/1964, não houve edição de O Globo.
Fuzileiros navais, sob o comando do general do povo
Almirante Cândido Aragão,
impediram a impressão do Jornal.


sexta-feira, 27 de março de 2026

Movimento Pré-Revolucionário Comunista, Que Antecedeu o Ano de 1964 - Por Félix Maier

 

Marcha da Vitória, Rio de Janeiro, 2/4/1964 - Agência O Globo.

Movimento pré-revolucionário comunista, que antecedeu o ano de 1964

 Félix Maier

Os verbetes FMP, Folhetos cubanos, Foquismo, G-11, Ligas Camponesas, MEB, MEP, Revolução Cubana e ULTAB dão uma ideia de como foram os anos conturbados no Brasil, após 1961, de influência comunista escancarada, com agentes cubanos operando clandestinamente no País, depois que João Goulart foi alçado ao poder, após Jânio Quadros renunciar à Presidência da República. (*)

Um golpe comunista estava em andamento, a partir de 1961, e que deveria ocorrer em 1/5/1964. Em 31 de março de 1964, houve o contragolpe dos militares, que almoçaram os comunistas antes de serem jantados por eles.

FMP - Frente de Mobilização Popular. “Lançada por Brizola no começo de 1963, estava mais voltada para a pressão popular sobre o Congresso, algo que para a tradição conservadora brasileira soa como uma revolução sangrenta em curso. Dela faziam parte o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), a Ação Popular (grupo revolucionário de origem católica), o Partido Operário Revolucionário (POR-T, trotskista), setores das Ligas Camponesas, a esquerda do PCB, integrantes do PSB, grupos de sargentos e marinheiros” (NAPOLITANO, 2014: 38).

Folhetos cubanos - Eram disseminados no Brasil pelo Movimento de Educação Popular (MEP), durante o governo de João Goulart, e serviam de inspiração às Ligas Camponesas, de Francisco Julião, e aos Grupos dos Onze (G-11), de Leonel Brizola. Desde 1961, os comunistas passaram a comprar várias fazendas em Pernambuco, Bahia, Acre, Goiás e Minas, para servirem de centros de guerrilha. Isso prova que o idioma de pau cubano (o comunismo), de inspiração soviética, tentou se estabelecer no Brasil antes da Contrarrevolução de 1964.

Foquismo - Teoria revolucionária de pau, em que a revolução marxista seria iniciada em pequenos núcleos (focos), para começar a guerrilha rural, com o objetivo de dominar a nação. O foquismo foi sistematizado pelo revolucionário comunista francês Jules Debray, e defendida por Fidel Castro e Che Guevara. O PC do B tentou colocar em prática essa teoria na região do Araguaia. “O treinamento a brasileiros em Cuba continua até os dias atuais, embora somente no terreno político-ideológico, na Escola Superior Nico Lopez, do PC cubano, Escola Sindical Lázaro Peña, Escola de Periodismo José Martí, Escola da Federação de Mulheres Cubanas, Escola da Federação Democrática Internacional de Mulheres e Escola Nacional Julio Antonio Mella, da União da Juventude Comunista. Por essas escolas já passaram mais de 100 brasileiros. Todavia, o mais importante em tudo isso, é que a ida de qualquer brasileiro para fazer cursos em Cuba depende do aval do Partido Comunista Cubano, após entendimentos anteriores, de partido para partido. Atualmente, existem diversos brasileiros, militantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, que vêm recebendo, em Havana, treinamento em técnicas agrícolas, e outros matriculados na Faculdade Latino-Americana de Ciências Médicas. O site do Partido dos Trabalhadores oferece vagas e publica as condições definidas por Cuba para matrícula nessa Faculdade” (Huascar Terra do Valle, in “Histórias quase esquecidas”, site Mídia Sem Máscara, 10/02/2003).

G-11 - “Os chamados Grupos dos Onze Companheiros - simplificadamente, Grupos de Onze ou Gr-11 - e também conhecidos como Comandos Nacionalistas, foram concebidos por Brizola no fim de 1963. Tomando por base a formação de um time de futebol, imagem de fácil assimilação e apelo popular, Brizola pregava a organização de pequenas células - cada uma composta de onze cidadãos, em todo o território nacional - que poderiam ser mobilizados a seu comando” (Mariza Tavares, in “Grupo dos 11: O braço armado de Brizola” - cfr. https://felixmaier1950.blogspot.com/2021/09/grupos-de-onze-o-braco-armado-de.html). G-11 também pode se referir a Grupo de Combate, de 11 militares, célula de um pelotão de Infantaria. “Chegou a organizar 5.304 grupos, num total de 58.344 pessoas, distribuídos, particularmente, pelos Estados do Rio Grande do Sul, Guanabara, Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo” (ORVIL, pg. 136). A exemplo do que hoje faz o MST, o G-11 pretendia utilizar mulheres e crianças como escudos civis. Os G-11 seriam o embrião do Exército Popular de Libertação (EPL). “Entre 19 e 25 de outubro de 1963, Brizola lançou, oficialmente vamos dizer assim, os seus ‘grupos dos onze’, organizações que, de acordo com a sua orientação, deveriam considerar-se em revolução permanente e ostensiva. (...) Era uma imitação chula das instruções da guarda vermelha bolchevique” (Gen Div Del Nero - HOE/1964, Tomo 5, pg. 100). Um documento do Grupo afirmava que os G-11 seriam a “vanguarda do movimento revolucionário, a exemplo da Guarda Vermelha da Revolução Socialista de 1917 na União Soviética”. (Prova a ignorância de Brizola, pois em 1917 havia apenas a Rússia, não a URSS.) Quando ocorreu a Contrarrevolução de 1964, havia centenas desses Grupos espalhados em todo o País e tinham como missão eliminar fisicamente todas as autoridades do Brasil que não apoiassem Brizola - civis, militares e eclesiásticas, como se pode ler nas “Instruções secretas” do EPL e seus G-11, no item 8, “A guarda e o julgamento de prisioneiros”: “Esta é uma informação para uso somente de alguns companheiros de absoluta e máxima confiança, os reféns deverão ser sumária e imediatamente fuzilados, a fim de que não denunciem seus aprisionadores e não lutem, posteriormente, para sua condenação e destruição” (AUGUSTO, 2001: 112). “Posso dizer que as ‘Ligas Camponesas’ e os ‘grupos dos onze’, na verdade, foram blefes. Eram usados pela imprensa, faziam estardalhaço, mas sentir a existência... a ação... Não houve nenhuma, absolutamente. Apenas no interior de Goiás foram apreendidos uns caixotes com armas que eram destinados ao ‘grupo dos onze’, mas o pessoal fugiu e nunca mais apareceu. Havia um oficial amigo do Jango, coronel Seixas, responsável pela repressão, e que, ao invés de mandar aquelas armas para o Exército, enviou para a Presidência da República. As armas tinham vindo de Cuba” (Coronel Renato Brilhante Ustra - HOE/1964, Tomo 5, pg. 256). Herbert de Souza, o “Betinho”, foi o coordenador geral dos G-11 e na época da Contrarrevolução de 1964 era assessor do ministro da Educação, Paulo de Tarso. Sobre os G-11, leia os documentos secretos em https://www.documentosrevelados.com.br/repressao/grupo-dos-onze-companheiros-movimento-liderado-por-brizola-para-barrar-o-golpe-e-avancar-com-as-reformas-parte-3/. Leia, de minha autoria, Brizola, o último dos maragatos, disponível em https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/07/brizola-o-ultimo-dos-maragatos-por.html.

Guerrilha comunista no Brasil - Teve início em 1961 - e não após 1964, como propaga a esquerda mentirosa -, quando o presidente João Goulart ocultou e repassou secretamente a Fidel Castro as provas da intervenção armada de Cuba no Brasil. Leia, ainda, O apoio de Cuba à luta armada no Brasil, de Denise Rollemberg, em https://www.ifch.unicamp.br/ojs/index.php/rhs/article/download/175/167/. E também Guerrilha Comunista no Brasil, de minha autoria: https://www.aman75-83.com.br/terror_comunanobr.htm.

Ligas Camponesas - As origens da organização dos camponeses datam da década de 1940, no trabalho do PCB, que estabeleceu as Ligas Camponesas. Essa atividade ressurgiu na década de 1950, em Galileia, com a criação da Sociedade Agricultural de Plantadores e Criadores de Gado de Pernambuco, assistida por um ex-membro do PCB, José dos Prazeres, e depois com a formação de sociedades de direito civis e legais, que rapidamente se espalharam por todo o Nordeste, passando a uma rede de Ligas Camponesas - como eram chamadas pelos proprietários de terras, devido à sua origem da década de 1940. Francisco Julião foi o principal líder das Ligas, com atuação, especialmente, em Pernambuco, do então Governador Miguel Arraes, onde as Ligas colocavam fogo em canaviais e depredavam fazendas. Julião era advogado, casado com a militante comunista Alexina Crespo. Desde 1961, se aproximou das concepções revolucionárias cubanas. No encerramento do Congresso Nacional de Lavradores e Trabalhadores do Campo, realizado em Belo Horizonte, em novembro de 1961, o líder das Ligas Camponesas, deputado Francisco Julião, falou: “A reforma agrária será feita na lei ou na marra, com flores ou com sangue” (NAPOLITANO, 2014: 37). Em 04/12/1962, o jornal O Estado de S. Paulo noticiou a prisão de diversos membros das Ligas num campo de treinamento de guerrilhas em Dianópolis, GO. Nessa região NE de Goiás, havia ainda os campos de treinamento de Almas e Natividade. No dia 27/11/1962, na queda de um Boeing 707 da Varig, quando se preparava para pousar em Lima, Peru, estava entre os passageiros o presidente do Banco Central de Cuba, em cujo poder foram encontrados relatórios de Carlos Franklin Paixão de Araújo, filho do advogado comunista Afrânio Araújo, o responsável pela compra de armas para as Ligas Camponesas. Os relatórios detalhavam os atrasos dos preparativos para a luta no campo, acusava Francisco Julião e Clodomir dos Santos Morais de corrupção e malversação de recursos recebidos. “Em 27 de novembro de 1962, a queda de um Boeing da Varig, no Peru, proporcionou comprometedoras informações sobre o apoio de Cuba às ‘Ligas Camponesas’. Esses documentos caíram nas mãos do Governador Carlos Lacerda que, naturalmente, os difundiu à imprensa e criou uma grande celeuma a respeito desse apoio direto de Cuba às Ligas Camponesas” (Gen Div Del Nero - HOE/1964, Tomo 5, pg. 98). A revista Veja, de 24/01/2001, sob o título Qué pasa compañero?, faz uma análise centrada na tese de doutorado da pesquisadora Denise Rollemberg, da UFRJ, a qual afirma que "o primeiro auxílio de Fidel foi no Governo João Goulart, por intermédio do apoio às Ligas Camponesas, lendário movimento rural chefiado por Francisco Julião. (...) O apoio cubano concretizou-se no fornecimento de armas e dinheiro, além da compra de fazendas em Goiás, Acre, Bahia e Pernambuco, para funcionar como campos de treinamento”. Em sua língua de pau, Rollemberg se refere a incêndios a canaviais, verdadeiros atos terroristas, como um “lendário movimento rural”. “Em 1957, Francisco Julião visitou a URSS. A partir de 1959, as Ligas Camponesas se expandiram também, rapidamente, em outros estados, como a Paraíba, Rio de Janeiro e Paraná, aumentando o impacto do movimento. Até 1961, 25 núcleos foram instalados no Estado de Pernambuco, principalmente na Zona da Mata. Nesse mesmo ano, Julião repetiu sua visita à União Soviética. De todos os núcleos das Ligas, o mais importante, o mais expressivo e o de maior efetivo foi o de Sapé, na Paraíba. Esse núcleo congregaria 10.000 membros. Em 1960 e 1961, as Ligas se organizaram em comitês regionais em 10 estados e criaram o jornal A Liga, porta-voz do movimento, que circulava entre seus militantes. Também nesse ano tentou criar um partido político chamado Movimento Revolucionário Tiradentes - MRT (Movimento que atuou na luta armada, no período pré e pós-revolucionário de 1964). No plano nacional, Francisco Julião reuniu, em torno das Ligas, estudantes idealistas, visionários e alguns intelectuais, como Clodomir dos Santos Morais, advogado, deputado, militante comunista e um dos organizadores de um malogrado movimento de guerrilha em Dianópolis/Goias em 1962. A aproximação de Francisco Julião com Cuba foi notória, especialmente após a viagem que realizou acompanhando Jânio Quadros àquele país, em 1960, seguido por muitos militantes. A partir daí tornou-se um entusiasta da revolução cubana e convenceu-se a adotar a guerrilha como forma de ação das Ligas Camponesas” (USTRA, 2007: 69).  Após a Contrarrevolução de 1964, as Ligas Camponesas foram dissolvidas e Julião obteve asilo no México. “As Ligas Camponesas, do Chico Julião, foram o embrião do que é hoje esse perigoso Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), que, embora sem personalidade jurídica, tem as razões e os recursos do governo, consegue audiência com ministros e tem mais regalias, em termos oficiais, do que aqueles que, na verdade, trabalham na agricultura” (Jornalista Themístocles de Castro e Silva - HOE/1964, Tomo 4, pg. 278-279).

MEB - Movimento de Educação de Base: organização criada pela Igreja Católica, financiada pelo Governo João Goulart e administrada por militantes de esquerda católica, muitos dos quais eram membros da Ação Popular. Baseado nas ideias marxistas de Paulo Freire, autor do livro pauleira Pedagogia do Oprimido, o MEB funcionava através de escolas radiofônicas, sob a direção de um líder local (padre ou camponês), em contato com as Ligas Camponesas. Paulo Freire foi Secretário de Educação da Cidade de São Paulo na gestão da prefeita petista Luíza Erundina (1989-1993).

MEP - Movimento de Educação Popular. O MEP disseminava no Brasil, durante o desgoverno de João Goulart, folhetos cubanos sobre a técnica de guerrilhas. Esses folhetos foram utilizados pelos G-11, de Brizola, e pelas Ligas Camponesas, de Francisco Julião.

MPL - 1. Movimento Popular de Libertação. No início de 1966, na Argélia, Miguel Arraes e vários correligionários (os irmãos Sílvio e Marcos Correia Lins, o advogado Djaci Florêncio Magalhães, o ex-Ministro Almino Afonso, Roberto las Casas, o ex-padre Rui Rodrigues da Silva e Piragibe Castro Alves) se reuniram para criar uma frente “anti-imperialista” no Brasil. Em abril de 1966, por ordem de Arraes, retornaram ao Brasil Marcos Correia Lins e Piragibe Castro Alves, levando cartas para políticos de oposição, como o ex-Governador Mauro Borges e o deputado federal Márcio Moreira Alves. O motivo era arregimentar os descontentes com a Contrarrevolução de 1964. Em 12/05/1968, em São Paulo, foi realizada a reunião de fundação do MPL, com a participação de Márcio Moreira Alves, Frei Chico, Marcos Correia Lins, Miguel Newton (primo de Arraes), Djaci F. Magalhães, Piragibe C. Alves, Raimundo Monteiro Alves Afonso (irmão de Almino Afonso) e os metalúrgicos Vitalbino Ferreira de Souza e Joaquim Arnaldo de Albuquerque. Segundo Luís Mir (op. cit), o MPL foi fundado no dia 13/05/1967, na fazenda do ex-deputado Márcio Moreira Alves, em Santa Luzia, MG. A 1ª fase do MPL seria a unificação das oposições ao Governo Federal e a 2ª fase seria o desencadeamento da luta armada. O MPL estabeleceu contatos com o PCB (Luís Ignácio Maranhão Filho e Ercildo Pessoa), com a AP (Marcos Arruda) e com os frades dominicanos ligados a Marighella, como Frei Betto. Outro alvo do MPL era estabelecer contato com José Porfírio de Sousa, “chefe da República de Trombas e Formoso, um movimento de posseiros no norte de Goiás” (NOSSA, 2012: 53), que o MPL julgava capaz de desencadear uma guerrilha rural em extensa área a leste do rio Tocantins, nos Estados de Goiás e Maranhão. “As primeiras investidas dos militares no Bico do Papagaio levariam à prisão de Porfírio. O regime temia que ele mandasse gente preparada em lutas do campo para o Araguaia. A prisão de Porfírio no Maranhão, antes da localização do foco do PCdoB, bloqueou qualquer ajuda à guerrilha” (idem, pg. 53). Devido à dificuldade de arregimentar quadros, Arraes fundou com Bayard Boiteaux e Márcio Moreira Alves a Frente Brasileira de Informações (FBI), em Paris. O MPL não prosperou, mas a FBI alcançou seus objetivos: difamar os governos militares do Brasil. Veja FBI. 2. Montonero Patria Libre (Equador): surgida em 1986, era formada por Unión Revolucionaria de la Juventud Ecuatoriana (URJE), ex-militantes dos Comandos Revolucionarios de Liberación (CRL) e ex-militantes de ¡Alfaro Vive, Carajo! (AVC).

Revolução Cubana - No dia 01/01/1959, as tropas de Fidel Castro tomam Havana. “Segundo Castro disse, apontando para Matthews: ‘sem a sua ajuda e a do New York Times, a revolução em Cuba jamais teria ocorrido’” (apud NARLOCH, 2011: 39). Herbert Matthews era jornalista do NYT e foi um grande propagandista da Revolução. O livro “O Homem que inventou Fidel - Cuba, Fidel e Herbert L. Matthews do New York Times”, de Anthony DePalma, Companhia das Letras, São Paulo, 2006, narra em detalhes a “tomada do Poder em dois tempos” em Cuba. A “república socialista” cubana, porém, só foi proclamada em maio de 1961, logo após a fracassada invasão de anticastristas ocorrida na Baía dos Porcos, em Cuba, com o falso apoio americano. Em 1962, Cuba foi excluída da OEA e em 1964 os países membros da OEA, com exceção do México, romperam relações diplomáticas com o país, devido ao apoio cubano de focos guerrilheiros em vários países da América Latina - Leia “As intervenções armadas lideradas por Cuba na América Latina”, de Ángel Bermúdez, em https://felixmaier1950.blogspot.com/2021/02/as-intervencoes-armadas-lideradas-por.html. Cuba forneceu toneladas de armamento ao governo comunista de Salvador Allende. As residências oficiais de Allende eram verdadeiros paióis, descobertos após a intervenção de Pinochet, que derrubou os comunistas depois da autorização dada pela Suprema Corte, que ainda não era cooptada com Allende. No Brasil, antes de 1964, Cuba financiou as Ligas Camponesas para comprar fazendas que serviram de campos de treinamento de guerrilha. Antes da Revolução Cubana, havia 7 prisões em Cuba; hoje, são mais de 200. As prisões políticas de Cuba são muitas: La Cabaña (ainda em 1982 houve 100 fuzilamentos), Boniato (a mais repressiva), Kilo 5,5, Pinar del Río, Guanajay, Guanahacabibes, Castelo do Príncipe, Ilha de Pinos, Camaguey, Holguín, Manzanillo, Sandino (1, 2 e 3). Fidel Castro mandou fuzilar entre 15 e 17 mil pessoas (10 mil só na década de 1960); em 1978, havia em Cuba 15 a 20 mil prisioneiros; em 1997, segundo a Anistia Internacional, havia entre 980 e 2.500 prisioneiros políticos. “Para uma população de apenas 6,4 milhões, Fidel e Che prenderam e executaram mais, em termos relativos, do que os nazistas, e igualmente mais, proporcionalmente, do que os comunistas” (FONTOVA, 2009: 150). A tortura cubana incluía as “ratoneras”, “gavetas”, “tostadoras”, além da tortura “merdácea” - os prisioneiros eram “aspergidos” com fezes e urina. Apesar desses crimes todos, o ditador Fidel Castro era venerado pelos “intelectuais” brasileiros como el comandante, ao passo que Augusto Pinochet, ex-presidente do Chile, não passa de um vil “ditador”, “torturador”. “Quando Che assumiu o Ministério das Indústrias, Cuba tinha uma renda per capita superior à da Áustria, Japão e Espanha” (idem, pg. 214-215). Um ano depois, o anteriormente “terceiro maior consumo proteico do Ocidente estava racionando comida, fechando fábricas” (idem, pg. 215). Comparação das rações diárias, entre os escravos (em 1842) e a população cubana (desde 1962): carne, frango e peixe: 230 g/55 g; arroz: 110 g/80 g; carboidratos: 470 g/180 g; feijão: 120 g/30 g (Cfr. FONTOVA, 2009: 223). Ou seja, os escravos negros se alimentavam melhor do que a população cubana sob Fidel. Só os idiotas e os patifes defendem a excelência da medicina e dos hospitais cubanos da atualidade, coisa que nunca existiu. “Em 1957, Cuba tinha, proporcionalmente, mais médicos e dentistas do que os EUA ou a Grã-Bretanha. Em 1958, tinha a menor taxa de mortalidade infantil da América Latina e a 13ª. do mundo, estando à frente de França, Bélgica, Alemanha Ocidental, Israel, Japão, Áustria, Itália e Espanha. Hoje, pelas cifras oficiais, tem a 25ª. menor taxa - piorou sob o fidelismo. O que, hoje, reduz a mortalidade infantil é a taxa de 0,71 aborto por criança viva nascida em Cuba - o primeiro lugar do Ocidente e um dos primeiros do mundo. É um verdadeiro extermínio de bebês no útero materno” (FONTOVA, 2009: 225). “Havana, que na década de cinquenta era mais rica que Roma ou Dallas, hoje parece Calcutá ou Nairóbi” (idem, pg. 230). Os prédios tornaram-se decrépitos, à semelhança de el coma andante, e Havana, hoje, é o maior museu a céu aberto de carros velhos do mundo. Doenças erradicadas em 1958, como tuberculose, lepra e dengue, voltaram com força total em 2005. Quase 6.000 empresas norte-americanas foram pilhadas em Cuba, um valor de 2 bilhões de dólares. Nada foi indenizado, assim como os 5 bilhões da União Soviética. Evo Morales (que eu chamo de “Evo Cocales”), da Bolívia, aprendeu rapidinho com Fidel, roubando as refinarias e bens da Petrobras na Bolívia. Eusábio Peñalver ficou preso durante 30 anos. Era negro. Os guardas comunistas o chamavam de “macaco”: “Nós o tiramos das árvores e arrancamos sua cauda” (idem, pg. 238). “Apenas 0,8 dos cargos políticos do país é ocupado por gente de cor. Em outros lugares, esta mesma situação seria chamada de Apartheid” (idem, pg. 239). “Não é que não exista comida e bens de consumo em Cuba. O problema é que hoje há duas classes de cubanos: os que possuem dólares (os turistas e o apparatchiks, ou seja, a nomenklatura cubana) e os que não possuem (o cidadão cubano comum): Como não tem nada (quer dizer, tem de tudo, nos shoppings, em dólar e a preços de Tóquio), a gente vende esferográficas, isqueiros, envelopes, qualquer miudeza” (GUTIÉRREZ, 1999: 114). “Disse muito bem Carlos Franqui: ‘Para sobreviver é preciso roubar, mentir, ser dúbio, ter dupla personalidade e até mesmo se prostituir’” (MENDOZA, 2007: 19). Em 1996, no concurso internacional de poemas organizado em Havana, para comemorar os 70 anos de Fidel Castro, foram apresentadas 2.000 obras em verso e prosa. Algumas vinhetas laudativas: “Comandante Fidel, fiel como seu nome, Fidel de barba e de culhões bem firmes” (Héctor Borda Leaño, Bolívia); “Companheiro Fidel, teus setenta anos são o que resta na margem da história após o último furacão” (Roberto Bugliani, Itália); “Pois és a história, a geografia, a origem, a sede, a fome, o fogo, tudo o que entristece e ilumina a marcha da América obscura” (Pedro Jorge Vera, Equador) - cfr. “A Ilha do Dr. Castro”, pg. 36. Piadas da Ilha: 1) Fidel: Quando nos vai devolver Guantánamo? Clinton: Quando vocês nos devolverem Miami. (Em Miami vivem 10% da população cubana.) 2) O que é o capitalismo? - pergunta a professora. Um cesto de lixo cheio de carros, brinquedos e alimentos - responde Pepito. E o socialismo? O mesmo cesto de lixo, mas vazio (cfr. pg. 137). “Outra consequência embaraçosa dos racionamentos é a falta de papel higiênico. Sem ele a saída mais comum dos cidadãos é improvisar com papéis que não faltam no mundo comunista: os jornais estatais. Os cubanos usam as páginas do Granma - mais macios e com menos tinta que o jornal Trabajadores. E fazem piada com o problema: - O que é mais útil, a televisão ou o jornal? - O jornal, claro. Você não pode limpar-se na televisão” (NARLOCH, 2013: 311). Periódicos cubanos: Granma, Trabajadores, Juventud Rebelde, Tribuna de la Habana, Bohemia, Tema, Casa de las Americas, Opciones, Vitral, Palabra Nueva (boletim do arcebispado de Havana), Enfoque, Cuadernos del Aula Fray Bartolomé de Las Casas. O filme “A Cidade Perdida” (2005), com Andy Garcia (ator americano nascido em Cuba) e Dustin Hoffman, mostra a tomada do poder dos comunistas em Cuba, prenunciando o inferno que viria. Em meados de 1959, Fidel Castro começou a exportar a Revolução Cubana. “Seis meses depois da derrubada de Batista, por exemplo, já mobilizava um corpo expedicionário de mais de duzentos cubanos, na esperança de desencadear um levante contra o ditador Rafael Leónidas Trujillo, na ilha vizinha de São Domingos. Recebidos pelo exército local, os rebeldes foram exterminados. Um mês depois, uma operação idêntica foi montada, dessa vez contra o ditador François Duvalier, o ‘Papa Doc’, no Haiti. Novo fracasso: quase não houve sobreviventes” (SÁNCHEZ, 2014: 92). “Ao todo, Cuba se envolveu nos assuntos internos de 17 países africanos, enviando 65 mil soldados à África (entre eles Che Guevara). Nos anos 70, 11% do orçamento cubano era gasto na África” (NARLOCH, 2013: 284). Desde 1961, houve interferência cubana no Brasil, junto à Ligas Camponesas, no Nordeste, e a compra de inúmeras fazendas em vários Estados para treinamento guerrilheiro. “A coragem da pequena Cuba poderá ser um símbolo e um apelo para a libertação da América Latina” (Dom Antônio Fragoso, bispo de Crateús, CE, em 1967 - apud jornal Correio Braziliense, de 30/01/2003, pg. 4). “Parece-me que as memórias de Camilo Torres e de Che Guevara merecem tanto respeito quanto a do pastor Martin Luther King” (Dom Hélder Câmara, arcebispo de Recife, em 1968 - Idem, pg. 4). “No mesmo ano [1967], oito bispos brasileiros assinaram mensagem de 17 bispos do Terceiro Mundo, na qual ‘é feita a opção pelo socialismo’. São eles: Dom Hélder Câmara, Dom João Albuquerque, Dom Luiz Fernando, Dom Severiano Aguiar, Dom Francisco Mesquita, Dom Manoel Costa, Dom Antônio Fragoso e Dom David Picão” (Idem, pg. 4). O jornalista e historiador Hugo Studart, autor de um dos melhores livros sobre a Guerrilha do Araguaia, “Borboletas e Lobisomens”, em 13/10/2008 21:50, no seu blog Conteúdo (http://www.conteudo.com.br/studart/o-democrata-fidel-e-os-direitos-humanos/?searchterm=ditadura%20cubana), assim escreveu: “O democrata Fidel e os Direitos Humanos Encontrei esses números do relatório da Câmara Ibero-Americana de Comércio/Stanford Research Institute, com dados sobre ações democráticas do kamarada Fidel entre de 1959 a 2004: foram 56.212 fuzilados no "paredón"; 1.163 assassinados extrajudicialmente; 1.081 presos politicos mortos no cárcere por maus-tratos, falta de assistência médica ou causas naturais; 77.824 mortos ou desaparecidos em tentativas de fuga pelo mar. Total: 136.288 cubanos mortos pela ditadura Castro. Em nossa ditadura militar, são 301 os mortos e desaparecidos”.

ULTAB - União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil: fundada em 1957 pelo PCB, para mobilizar os camponeses em torno do Plano de Reforma Agrária. De 15 a 17/11/1961, a ULTAB realizou o I Congresso em Belo Horizonte, MG. Teve suas principais bases em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, porém obteve seu maior sucesso em Goiás, onde o movimento tomou as cidades de Trombas e Formoso e só foi desmobilizado em 1964 pelos militares.

And last, but not least, no inicio de 2025, o Presidente dos EUA Donald Trump ordenou a retirada dos sigilos de mensagens de diplomatas e de agências de Inteligência que abordavam o assassinato do Presidente John F. Kennedy. Três dessas mensagens falam sobre o Brasil de João Goulart, de como agentes cubanos foram infiltrados no Brasil a partir de 1961. Cfr. reportagem de Duda Teixeira em Telegramas revelam ações subversivas cubanas no Brasil, clicando em https://crusoe.com.br/diario/telegramas-revelam-acoes-subversivas-cubanas-no-brasil/.

(*) Mais verbetes podem ser lidos em

A LÍNGUA DE PAU - Uma história da intolerância e da desinformação

Por Félix Maier

https://drive.google.com/file/d/1wDHV0YJFOZSoBwlJSSrHdl68CfJokMmf/view

 

Obras consultadas:

AUGUSTO, Agnaldo Del Nero. A Grande Mentira. Bibliex, Rio, 2001

MOTTA, Aricildes de Moraes (Coordenador Geral). História Oral do Exército - 1964 - 31 de Março - O Movimento Revolucionário e sua História. Tomos 1 a 15. Bibliex, Rio, 2003

NAPOLITANO, Marcos. História do Regime Militar Brasileiro. Editora Contexto, São Paulo, 2014.

NARLOCH, Leandro; TEIXEIRA, Duda. Guia politicamente incorreto da América Latina. Leya, São Paulo, 2011.

NARLOCH, Leandro. Guia politicamente incorreto da história do mundo. Leya, São Paulo, 2013.

NOSSA, Leonencio. MATA! O Major Curió e as Guerrilhas no Araguaia. Companhia das Letras, São Paulo, 2012.

USTRA, Carlos Alberto Brilhante. A Verdade Sufocada - A história que a esquerda não quer que o Brasil conheça (3ª. edição ampliada - índice onomástico). Editora Ser, Brasília, 2007.


Marcha da Família com Deus pela Liberdade.


O PT é mais letal que a Covid-19 - Por Félix Maier

 


 O PT É MAIS LETAL QUE A COVID-19

Félix Maier

Houve um tempo, não muito distante, em que o brasileiro temia vírus invisíveis, desses que se espalham pelo ar, rondam maçanetas e entram pela porta sem pedir licença. Depois, como quem amadurece na marra, passou a temer algo bem mais sutil e persistente: números. Não números quaisquer, mas aqueles que aparecem no fim do ano, no rodapé dos relatórios, nas entrelinhas das contas públicas — números que não tossem, não espirram, mas deixam sequelas prolongadas. O vírus vinha com febre; o déficit vem com hábito. E, no Brasil, convenhamos, o hábito costuma ser mais difícil de erradicar.

Tudo começa com um susto aparentemente banal, desses que não merecem manchete de primeira página, mas que, repetidos com a regularidade de um relógio suíço — ou de uma repartição tropical —, acabam se tornando um modo de vida. Abre-se o balanço das estatais, passa-se o olho com a displicência de quem já espera o pior, e lá está ele, o velho conhecido: o rombo. Em 2023, rombo de R$ 2,2 bilhões; em 2024, um rombo mais encorpado, de R$ 6,73 bilhões; em 2025, outro rombo, de R$ 5,1 bilhões, já com ares de reincidência respeitável. Segundo o Banco Central, o rombo no período seria entre 14 e 15 bilhões de reais. Quanta saudade do Governo Jair Bolsonaro, que em 2019 conseguiu superávit de R$ 10,3 bilhões nas estatais! É por isso que o PT e seus genéricos foram contra a privatização dos Correios, sugerida por Bolsonaro. Como iria continuar o rombo?

O que chama a atenção é a persistência do método, a coerência interna de um sistema que, longe de parecer acidental, revela uma impressionante continuidade histórica. Não se trata de um tropeço ocasional, de um erro técnico ou de uma planilha mal preenchida por um funcionário distraído; trata-se de algo mais elaborado, mais resiliente, pedagógico em sua repetição. O rombo — ou roubo, se o leitor preferir — faz parte do Plano de Governo do PT, sempre fez.

Quem olhar com um pouco de memória há de lembrar que essa história não começou ontem. Houve um capítulo inaugural, didático até, em que o país descobriu que a governabilidade podia ser organizada em parcelas mensais, com direito a calendário, regularidade e, por assim dizer, fidelização de clientes. Chamaram aquilo de Mensalão, talvez por uma feliz coincidência linguística ou por uma sinceridade involuntária, e ali se desenhou um modelo no qual o apoio político deixava de ser uma construção abstrata para se tornar um fluxo financeiro concreto, previsível, administrativo. Os valores envolvidos, que na época escandalizaram a República, hoje soam quase modestos, como se fossem o rascunho de algo maior, uma espécie de ensaio geral para ambições mais amplas.

E foi justamente isso que veio a seguir, com a sofisticação de quem aprende rápido e com eficiência. O Petrolão, como ficou conhecido, não foi apenas um escândalo; foi uma mudança de patamar. Se antes a engrenagem girava em torno de pagamentos diretos para assegurar apoio político, agora ela se expandia para o coração das grandes estatais, transformando contratos, obras e licitações em canais de irrigação financeira de proporções bilionárias. As cifras, que já não cabiam mais em anotações discretas, passaram a exigir gráficos em Power Point, relatórios e investigações de fôlego, revelando perdas que chegaram à casa das dezenas de bilhões de reais, dependendo do critério adotado. O país, que já havia se acostumado a pequenos sobressaltos, percebeu então que a corrupção também podia crescer como uma empresa bem-sucedida, com planejamento, escala e diversificação de portfólio.

E como toda grande engrenagem precisa de método, veio à luz um dos capítulos mais pitorescos — e reveladores — dessa história: as célebres planilhas de propina da Odebrecht, verdadeiras obras de criatividade aplicada ao ilícito, nas quais políticos deixavam de ser nomes e passavam a ser personagens, identificados por apelidos que iam do afetuoso ao francamente irônico, como Amante, Lindinho e Decrépito. Não se tratava de improviso, mas de um sistema organizado, com registros, códigos e controle, como se a corrupção houvesse sido promovida a departamento formal, com direito a fluxo de caixa e metas implícitas a conquistar. Contas na Suíça eram abastecidas com centenas de milhões de dólares para irrigar o esquema, com destaque para propinas ligadas ao Partido então no poder. Quem quiser entender a engrenagem em seus detalhes mais íntimos encontrará no livro A Organização, de Malu Gaspar, um retrato minucioso dessa arquitetura, em que a clandestinidade não excluía a disciplina e onde o improviso brasileiro cedia lugar a uma eficiência de relógio suíço.

As campeãs nacionais Odebrecht, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão e OAS realizaram obras no exterior, especialmente em países ditatoriais, próximos da companheirada petista, como Cuba, Venezuela, Equador, Angola, financiadas com dinheiro do BNDES, com garantia do Tesouro Nacional. Cuba e Venezuela já devem R$ 4,6 bilhões, em 2026, um calote longe de ser desfeito.

O mais intrigante, contudo, não está apenas nos números, mas na sensação de familiaridade que eles provocam. Mudam-se os governos, ajustam-se os discursos, trocam-se os personagens de lugar — alguns mais discretos, outros mais expansivos, uns mais afeitos a gabinetes, outros a ambientes mais festivos, como degustação de uísque em Londres e festanças com modelos nórdicas em Trancoso —, e ainda assim o enredo mantém uma surpreendente fidelidade a si mesmo, como se obedecesse a um roteiro já testado e aprovado. Há, nisso tudo, algo de realismo mágico, mas não daquele exuberante e colorido descrito por Gabriel García Márquez, e sim de uma variante contábil, na qual cifras desaparecem, reaparecem e se reorganizam com uma naturalidade desconcertante.

Enquanto isso, o cidadão comum segue sua rotina com a resignação pragmática de quem já entendeu que a indignação, no Brasil, precisa ser administrada com parcimônia para não se tornar insustentável. Ele paga seus impostos como quem mantém uma assinatura que não lembra de ter contratado, mas que continua sendo debitada mês após mês, com a vaga sensação de que está financiando um espetáculo ao qual nunca foi formalmente convidado. Observa, de longe, as notícias, os escândalos, as reviravoltas, as descondenações e enterro da Lava Jato, e desenvolve uma espécie de ceticismo funcional, que lhe permite seguir adiante sem sucumbir ao espanto permanente nestes Restos de Brasil.

Há quem insista em tratar a corrupção como desvio, como exceção a um sistema que, em tese, funcionaria bem não fossem alguns maus atores. Mas, quando se alinham os episódios ao longo do tempo, começa a emergir outra leitura, menos indulgente e talvez mais incômoda: a de que não se trata de um acidente, mas de um padrão; não de uma falha, mas de um método. O Mensalão, nesse sentido, teria sido a fase de estruturação clePTopolítica; o Petrolão, a expansão econômica; e os desdobramentos mais recentes, como o assalto aos velhinhos do INSS e o enredo orgíaco do Casanova de Trancoso à frente do Banco Master, a manutenção de um modelo que se adapta às circunstâncias sem perder sua lógica interna.

Os números ajudam a compor esse quadro, ainda que não o esgotem. Estimativas apontam que a corrupção pode custar ao país centenas de bilhões de reais por ano, não apenas em valores diretamente desviados, mas também em ineficiência, distorções e oportunidades perdidas. Trata-se de uma espécie de erosão contínua, menos espetacular do que uma crise aguda de Covid, mas igualmente — ou talvez mais — danosa ao longo do tempo. É como uma infiltração persistente: no início, parece apenas um detalhe incômodo; quando se percebe, a estrutura inteira já foi comprometida e está colapsando.

E assim voltamos ao rombo, esse velho conhecido que insiste em marcar presença, governo do PT após governo do PT, como um personagem que se recusa a deixar o palco. Ora cresce, ora diminui, ora muda de roupagem, mas permanece ali, lembrando que, no Brasil, certos problemas não são propriamente resolvidos, apenas administrados, reconfigurados ou, no máximo, temporariamente disfarçados.

A comparação com uma pandemia, portanto, pode soar exagerada à primeira vista, mas guarda uma ironia reveladora. A pandemia assusta pela velocidade com que se instala e pelos efeitos imediatos que provoca, com centenas de covas sendo abertas no cemitério; o rombo, por sua vez, assusta pela constância, pela capacidade de se infiltrar no cotidiano e de produzir consequências que se acumulam silenciosamente ao longo dos anos. Um é um evento; o outro, um processo. E processos, como se sabe, são mais difíceis de interromper do que eventos.

No fim das contas, talvez o brasileiro já tenha feito as pazes com essa realidade, não por concordar com ela, mas por reconhecê-la como parte do cenário em que vive. Entre vírus e planilhas, entre discursos e investigações, entre déficits e promessas de ajuste, ele segue adiante, sustentado por uma combinação peculiar de humor, resignação e esperança intermitente. E, ao olhar para esse conjunto de números, escândalos e recorrências, talvez chegue à conclusão mais simples — e, por isso mesmo, mais perturbadora — de todas: no Brasil, o problema nunca foi exatamente a falta de recursos, mas a forma como desaparecem, reaparecem e, sobretudo, deixam de cumprir o destino que deveriam ter.

Afinal, desde os tempos do Mensalão à atualidade, em quanto o cidadão brasileiro já foi lesado? É um número difícil de fechar, por envolver um cipoal de maracutaias nunca antes visto neste País. Há quem afirme que o valor estimado está entre R$ 50 bilhões e R$ 80 bilhões, excluindo a roubalheira recente no INSS e o caso do Banco Master, que deve ser muito maior do que aqueles números.


P. S.:

França 2 x 1 Brasil (26/03/2026, em Boston, EUA)

Vai, Brasa!

 

Vai, Brasa!

Vai, Brasa! em campo o azul se faz mistério,
Tecido caro em fios de estranha sina.
Na camisa, um vulto — sombra toxina —
Insinua um vil disfarce deletério.

A fé já não sustenta o império
Que outrora foi de arte cristalina:
Pelé a luz, Garrincha a ginga divina,
Paira no ar um eco de vitupério.

Cadê Didi, Vavá, o riso de Ronaldinho?
E o golpe exato de Romário na área?
Hoje o talento é sopro mais franzino.

Se há pacto oculto em noite temerária,
Que a rede balance, enfim, nesse destino,
Mas não venda a alma a vil imaginária.