MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

2016: Sonho de uma noite de verão - Por Félix Maier

 


2016: Sonho de uma noite de verão

Félix Maier

Houve um ano em que o Brasil acordou leve. Não completamente sóbrio — nunca fomos —, mas com aquela ressaca boa, quando a dor de cabeça vem acompanhada da certeza de que a festa acabou e que, finalmente, alguém vai pagar a conta.

Esse ano foi 2016.

O sol parecia mais amarelo, as panelas soavam afinadas, e o cidadão comum, esse ser historicamente humilhado pela burocracia e pela retórica, teve a impressão inédita de que a Justiça havia decidido trabalhar. A Lava Jato avançava, políticos suavam frio, delações brotavam como cogumelos depois da chuva, e o verbo prender passou a ser conjugado com gente importante como sujeito.

Era um verão shakespeariano: Sonho de uma noite de verão, com direito a fadas togadas, duendes do Ministério Público e vilões finalmente sem capa de invisibilidade.

No início daquele ano, a blogueira Christina Fontenelle  publicou um vídeo-homenagem no Facebook. Um gesto simples, quase ingênuo, mas carregado de simbolismo: reconhecer publicamente pessoas que haviam se exposto — algumas com elegância, outras com fúria — para denunciar a roubalheira petralha e o avanço das pautas socialistas travestidas de virtude moral. Uma colcha de retalhos humana: liberais, conservadores, jornalistas, youtubers, escritores, briguentos profissionais e patriotas de fim de semana.

Estávamos todos ali, meio sem saber como, meio sem saber por quê, mas com a convicção de que algo tinha mudado. Que a engrenagem finalmente havia emperrado. Que o Brasil, esse adolescente institucional, talvez tivesse aprendido alguma coisa.

O impeachment de Dilma Rousseff veio como um suspiro coletivo. Não foi festa, foi alívio. O país não comemorou; desabafou. Como quem tira um sapato apertado depois de horas de tortura estética. O processo começou em dezembro de 2015 e terminou em agosto de 2016, mas, emocionalmente, pareceu um parto de dez anos.

A sensação era clara: acabou!

Acabou o projeto.

Acabou a quadrilha.

Acabou o encantamento.

Doce ilusão.

Hoje sabemos: aquilo não foi uma vitória. Foi intervalo, entre um sonho de uma noite de verão e a volta do velho pesadelo.

O roteiro era outro. Enquanto o país acreditava ter virado a página, o livro estava apenas sendo trocado de capa. Em abril de 2021, o Supremo Tribunal Federal — esse órgão que não erra, apenas reinterpreta a realidade — decidiu que tudo aquilo fora um grande mal-entendido jurídico. Três instâncias, nove votos a zero, 580 dias de cadeia? Um detalhe processual. Um erro de CEP. Um problema de endereço metafísico.

O condenado virou descondenado — essa criatura jurídica que só existe no Brasil, terra onde até a gramática penal é criativa. E o Ogro de Nove Dedos voltou ao jogo, elegível, reabilitado, ungido, mais limpo que bumbum de nenê lavado na banheira, com talquinho. O passado foi lavado com OMO institucional.

Em 2022, com ajuda logística, narrativa bem calibrada e uma democracia conduzida no modo missão dada, missão cumprida, o Ogro de Nove Dedos retornou à Presidência. Pela terceira vez. O Brasil não apenas perdoou: aplaudiu.

Sessenta milhões de votos depois, a pergunta ficou no ar, incômoda como mosquito em quarto escuro: foram idiotas úteis ou patifes assumidos?

Talvez um pouco de cada. O Brasil sempre gostou de misturas.

O mais cruel, porém, foi perceber que o 8 de janeiro de 2023 não surgiu do nada. Não brotou espontaneamente da insanidade coletiva. Ele foi gestado antes, em silêncio, a partir de 15 de abril de 2021 — a data da Traição Suprema, quando a Justiça decidiu que a verdade era negociável e que a história podia ser rebobinada com uma canetada.

Sem aquela decisão, não haveria quebra-quebra. Não haveria fúria cega. Não haveria vandalismo. O 8 de janeiro foi consequência, não causa. Foi o vômito tardio de um organismo institucional intoxicado.

Até o sempre ponderado Marco Aurélio Mello, antigo ministro do STF — um homem que jamais confundiu frieza com covardia — apontou o óbvio: houve crime de omissão. Houve falha grotesca de segurança. Houve alertas ignorados. Houve gente demais olhando para o lado certo demais.

O governador do DF, o ministro da Justiça, o chefe do GSI: todos avisados, todos preparados para nada fazer. O resultado foi um cenário perfeito para a narrativa perfeita. Palácios depredados, imagens repetidas à exaustão, vilões prontos, heróis improvisados.

E, como sempre, a conta caiu no colo de quem estava mais perto da farda. Coronéis da PMDF viraram bodes expiatórios de um teatro maior. Os verdadeiros diretores da peça assistiram da coxia, atrás de cortinas, com ar grave e discursos sobre democracia. Uma minuta do golpe sem assinatura foi tratada como prova de uma cogitação criminosa e serviu de base para processos e condenações severas a fardados e paisanos. Generais e o próprio presidente Jair Bolsonaro foram alçados à condição de réus simbólicos de um golpe que nunca passou do papel. O roteiro dispensou atos, dispensou comandos e dispensou execução; bastou a narrativa. E, mais uma vez, quem pagou o ingresso mais caro foi quem vestia farda, enquanto os autores do script saíam pela porta dos fundos, aplaudidos como defensores da democracia.

Mas voltemos a 2016.

O que mais dói, hoje, não é o fracasso. O Brasil está acostumado a falhar. O que dói é a memória do otimismo. A lembrança daquele breve período em que acreditamos — sinceramente — que o país havia amadurecido. Que instituições serviam ao povo. Que a lei não tinha partido político.

Foi um verão curto. Uma noite quente. Um sonho bonito.

Mas, acordamos suados, confusos, e com a sensação estranha de que alguém havia mexido na casa enquanto dormíamos.

Talvez seja essa a lição final daquele ano de 2016: no Brasil, quando o cidadão acha que venceu, é porque o sistema apenas mudou de tática.

O ano de 2016 não foi o fim dos petralhas. Foi apenas o momento em que eles fingiram cair para ver quem baixava a guarda.



Assim nasceu o petista... - Por Félix Maier

 


Assim nasceu o petista...

 Félix Maier

Toda ideologia, quando envelhece mal, acaba virando folclore. E todo folclore, cedo ou tarde, ganha uma origem mítica. Roma teve Rômulo e Remo, amamentados por uma loba; a Grécia teve Zeus disfarçado de tudo quanto é bicho; e o Brasil, como não poderia deixar de ser, também precisava de uma explicação à altura para certas criaturas políticas que parecem ter fugido de um laboratório.

Reza a lenda — e lendas não se discutem, apenas se contam — que, na antiga União Soviética, alguém resolveu levar o materialismo histórico ao pé da letra. Se tudo é matéria, se tudo é luta, se tudo é transformação dialética, por que não transformar logo as espécies? Afinal, Darwin estava ali, Engels estava ali, e o bom senso… bem, o bom senso nunca foi membro do Partido.

Na fase que alguns historiadores chamam de totêmica — outros preferem criativa demais — Lênin teria desenvolvido uma relação simbólica intensa com animais. Não no sentido afetivo, mas no sentido ideológico: o animal como metáfora do novo homem. No gabinete, um gorila de bronze sustentava uma caveira humana, como quem dissesse: o futuro segura o passado, mas não garante que vá respeitá-lo. Era decoração minimalista, porém carregada de mensagem maximalista.

Essa fase foi marcada por uma convicção curiosa: a de que a crueldade impiedosa nos Gulags e na Lubianka não era um desvio, mas o motor do progresso humano. Algo como um coaching revolucionário avant la lettre. Sofra hoje para dominar amanhã. Se doer muito, é porque está funcionando.

Se o fanático T. D. Lysenko, que pregava uma teoria de caracteres adquiridos por herança, à qual chamou de vernalização e prometia a transformação de trigo em centeio, pinheiros em abetos, por que não juntar uma mulher com um animal peludo da Bacia do Congo, para criação do poderoso Homo sovieticus?

Daí para experiências científicas inomináveis foi um pulo. Afinal, quando se acredita que a História tem lado, qualquer coisa feita em nome dela ganha verniz moral. E foi assim que telegramas espantados começaram a circular pelo mundo civilizado — que, convenhamos, já estava com o espanto meio gasto — anunciando experiências cujo objetivo era provar, in anima nobile, a possibilidade da transformação das espécies.

Nada de metáforas. Era literal.

Os “cientistas” soviéticos — aspas obrigatórias, por questão de higiene textual — teriam se dedicado ao contubérnio macabro entre mulher e chimpanzé. Uma tentativa de acelerar a evolução pela via administrativa. Se a natureza demora, o Estado resolve. Comitê central, ata assinada, verba liberada.

Como toda história macabra que se preze, algo deu errado. Ou certo demais.

Um espécime, fruto desse relacionamento zoofílico ideológico, teria escapado do centro de pesquisas. Não se sabe se pulou o muro, se recebeu asilo, ou se simplesmente foi promovido a quadro internacional da causa. O fato é que sumiu dos registros soviéticos e reapareceu, misteriosamente, no Brasil.

O Brasil, claro. País onde tudo que é estranho acaba encontrando clima favorável, solo fértil e um jeitinho de se adaptar. Aqui, jabuticaba nasce em tronco de árvore e ideologia exótica vira movimento popular.

O espécime chegou discreto. No começo, parecia apenas mais um idealista confuso. Falava em justiça social, igualdade, fraternidade universal — aquele kit básico que todo mundo gosta até começar a pagar a conta. Tinha um certo apreço por discursos longos, uma aversão instintiva a planilhas e uma habilidade notável de explicar fracassos como sucessos mal compreendidos.

Com o tempo, foi se multiplicando. Não por reprodução natural — que seria pedir demais, são poucos os zoológicos com chimpanzés disponíveis no Brasil — mas por contágio retórico. A criatura tinha um dom especial: transformar ressentimento em virtude e incompetência em narrativa. Onde havia erro, via perseguição. Onde havia crítica, via golpe. Onde havia dados, via opiniões burguesas.

Estava criado o ecossistema perfeito.

O petista — sim, porque era disso que se tratava —, esse fugitivo da Escola de Lysenko, desenvolveu características próprias. Um discurso moral elevado combinado com uma tolerância ética subterrânea. Um amor declarado pelos pobres, desde que eles continuassem pobres o suficiente para justificar o discurso – e os votos do Bolsa Família e do Gás do Povo. Uma fé quase religiosa no Estado, esse ente místico que tudo pode, tudo resolve e nunca erra, apenas é mal interpretado.

Como todo ser híbrido, ele tinha conflitos internos. O chimpanzé puxava para o grito, o punho cerrado e a palavra de ordem. A parte humana tentava parecer razoável em mesas de debate e editoriais bem-intencionados. O resultado era uma criatura capaz de discursar sobre democracia enquanto flertava com ditaduras sul-americanas e africanas, desde que ideologicamente alinhadas.

Com o passar dos anos, o petista ganhou refinamento. Aprendeu a usar terno, a falar em instituições, a citar autores que ninguém havia lido. Descobriu que o capitalismo era horrível, mas que seus confortos eram bastante convenientes, assim como a conta na Suíça. Passou a combater combustíveis fósseis indo de SUV ou iate para o protesto. Evoluiu, enfim, para uma forma mais sofisticada do experimento original: menos pelo no peito, mais Instagram na cabeça.

E assim seguimos. Entre mitos fundadores e explicações improváveis, o Brasil continua tentando entender certas espécies políticas que parecem imunes à realidade. Talvez não tenham vindo da URSS. Talvez não tenham fugido de laboratório algum. Talvez sejam apenas fruto de uma combinação local de ingenuidade, esperteza e memória curta.

Mas convenhamos: a versão do chimpanzé soviético é bem mais divertida. E, como toda boa crônica, não precisa ser verdadeira, basta ser plausível o suficiente para fazer rir, coçar a cabeça e pensar: vai ver é isso mesmo.

Afinal, em matéria de política brasileira, a realidade já concorre há muito tempo com a ficção. E nunca ganha.


HOMEM É DE MARTE, MULHER É DE LUA - Félix Maier

 


HOMEM É DE MARTE, MULHER É DE LUA


Félix Maier

 

Dizem que homem é de Marte e mulher é de Vênus. Sempre achei Vênus pouco convincente. Muito quente, atmosfera tóxica, pressão esmagadora, descrição que pode ser mal interpretada num casamento. Prefiro Lua. Mulher de Lua. Aquela criatura que vive em outra órbita emocional, olhando para você como quem observa um eclipse que só ela enxerga.

Homem é de Marte. Não no sentido heroico. Marte não é aquele planeta vermelho, bélico, cheio de crateras, onde Elon Musk quer criar uma nova civilização? Pois então.

— Eu só perguntei se você gostou do meu corte de cabelo — diz a selenita, da porta do banheiro.

O marciano olha. Analisa. Mede. Ele não vê cabelo. Vê diferença de milímetros.

— Está… normal.

Silêncio lunar de Lua nova. O silêncio lunar não é ausência de som. É ausência de esperança.

— Normal?

— É. Bom. Assim. Igual.

A mulher de Lua fecha a porta com delicadeza tectônica. Marte acaba de declarar guerra sem saber.

O homem de Marte tem qualidades. Ele é objetivo. Direto. Econômico. Se pudesse, substituiria emoções por botões. Botão A: fome. Botão B: sexo. Botão C: sono. Botão D: futebol. Ele acredita que está tudo bem significa que está tudo bem. A selenita sabe que está tudo bem significa que nada está bem, mas que ela decidiu adiar a explosão para depois da novela.

— Está tudo bem? — pergunta o marciano.

— Está.

Ele sorri. Missão cumprida. A mulher de Lua observa aquele sorriso e pensa: Ele não percebe nada. O marciano pensa: Resolvi.

Ponto forte do marciano: simplicidade. Ponto fraco: simplicidade. Ele não complica o que pode ser resolvido com uma chave de fenda. Ela não entende como alguém pode achar que tudo se resolve com uma chave de fenda.

O marciano também tem essa estranha habilidade de não encontrar objetos.

— Amor, onde está o molho de chaves?

— Na gaveta do aparador.

— Não está.

A selenita vai até a gaveta. O molho está ali, com a dignidade de quem nunca saiu do lugar.

— Aqui.

— Ah. Mas estava escondido.

— Sim, escondido atrás de si mesmo.

A mulher de Lua tem fases. Isso é científico. A própria Lua prova. Há dias em que ela é Lua cheia: ilumina tudo, organiza armários, planeja viagens para 2032 e ainda acha tempo para discutir o sentido da vida. Há dias em que é Lua nova: silêncio, introspecção, perguntas existenciais do tipo:

— Você já pensou que talvez a gente nunca se conheça de verdade?

O marciano está mastigando cookies com nuts e chocolate.

— Hã?

Ela fala em órbitas. Ele fala em trajetórias. Ela guarda mágoas com classificação temática e data de ocorrência. Ele não lembra o que jantou ontem.

Ponto forte da selenita: sensibilidade, memória, radar emocional de longo alcance. Ponto fraco: sensibilidade, memória, radar emocional de longo alcance.

— Você mudou — diz ela.

— Eu?

— Mudou.

— Quando?

— Não sei. Mas mudou.

O marciano gostaria de um relatório técnico com gráficos e anexos. A selenita trabalha com percepções. Ela sente variações gravitacionais no ar. Ele sente fome.

A mulher de Lua não muda de ideia: muda de iluminação. O que ontem era quarto crescente hoje é minguante, mas continua sendo a mesma esfera inteira, apenas vista de outro ângulo.

Já que ficou démodé planejar invadir a Terra, como Marte Ataca! o marciano inventa uma prateleira para instalar na cozinha, com perigo de furar o cano d’água.

Toda mulher tem um deserto marciano interno onde não chove há meses. Todo homem tem uma lua particular que ninguém sabe quando vai minguar. Às vezes ela quer guerra. Às vezes ele quer maré. O problema não é serem de planetas diferentes. É esquecerem que dividem o mesmo sistema solar.

A guerra começa sempre por pequenas escaramuças.

— Você nunca me ouve.

— Eu estou ouvindo.

— Não está.

— Estou sim.

— Então o que eu disse?

O marciano congela. Marte não previu essa pergunta.

— Você falou… sobre… a sua amiga.

— Qual amiga?

Marte cai.

A selenita não quer apenas ser ouvida. Quer ser compreendida. Quer que o marciano perceba que quando ela fala da amiga, está falando de si. Que quando fala da vizinha, está falando do futuro. Que quando fala do cabelo, está falando da autoestima, da passagem do tempo e da condição feminina no hemisfério sul. O marciano ouve cabelo. E responde normal.

Mas há momentos de cooperação interplanetária. Quando o mundo aperta, o marciano vira escudo. Quando o marciano cai, a selenita vira atmosfera. Ele pode não entender as entrelinhas, mas segura a mão. Ela pode dramatizar um pouco, mas faz canja de galinha quando ele está gripado.

— Você acha que eu exagero? — pergunta ela.

Ele pensa um pouco. Isso já é um avanço evolutivo.

— Às vezes.

Ela o encara.

— Mas é um exagero organizado — ele completa, num raro lampejo diplomático.

A mulher de Lua sorri. Pequena maré cheia.

O marciano aprende, com o tempo, que há perguntas que não buscam resposta, mas acolhimento.

— Você me acha bonita?

Resposta errada: Sim. Resposta correta: Muito. Resposta ideal: Cada dia mais.

A Lua é respeitada pelas marés e por suas fases, cada uma própria para o agricultor saber quando derrubar uma árvore ou plantar feijão, para não carunchar. Só uma selenita para saber o que existe no lado escuro da Lua.

Marte conhece bem as quatro estações do ano: campeonato estadual, Brasileirão, Libertadores e Copa do Brasil. E não há sonda espacial que explique por que até um marciano fica rouco diante da televisão.

— Você viu que o mundo está acabando? — pergunta o marciano.

— Claro, até a Lua está se afastando da Terra — responde a selenita.

Ela está em outra órbita. Ele no noticiário. Mas não se enganem: a selenita pode parecer distraída, mas sabe tudo. Sabe do IPVA que vence amanhã, porque não é ela que paga; da tensão na voz dele quando o time perde; da sogra que falou interessante com intenção hostil. Alienada? Não. Só de Lua.

— O que você acha que significa sonhar com escadas?

O homem de Marte não sabe responder, não é José do Egito para explicar os sonhos da faraoa selenita. Também não tem a mínima ideia do que significa a escada para o Céu, vista por Jacó.

O homem de Marte finge que é invulnerável. Mas guarda inseguranças do tamanho do sistema solar. Ele quer ser forte, mas tem medo de falhar na hora H. Quer ser provedor, mas teme não ser suficiente. Quer ser simples, mas às vezes é apenas simplório.

— Você não fala do que sente — diz a selenita.

— Falo sim.

— Quando?

Ele pensa.

— Quando o time perde.

Ela suspira. Mas se aproxima. Em seguida desliza para o lado escuro da Lua, aquele onde ela arquiva as esperanças não correspondidas.

O marciano não fala muito, mas demonstra. Conserta a torneira, troca o pneu, leva o Totó para passear, enfrenta o sogro. Seu amor é prático. Não escreve poemas; paga boletos. A mulher de Lua escreve poemas mentais sobre os boletos.

De vez em quando há eclipse. Um encobre o outro. Falta luz.

— Talvez a gente seja mesmo muito diferente — diz ela.

— Talvez — responde ele.

Silêncio.

Mas então, como num alinhamento cósmico, lembram-se de algo simples: escolheram estar juntos. Aqui e agora. Ele gosta do jeito como ela fala com as mãos. Ela gosta do jeito como ele dorme, como se nada pudesse derrubá-lo. Ela organiza o caos dele, que não existe. Ele simplifica o drama dela, que existe. Ela ensina nuance. Ele ensina descanso.

Homem é de Marte. Mulher é de Lua. Marte é árido, mas resistente. Lua é mutável, mas constante no retorno. Ele tem força bruta. Ela tem força gravitacional. Ele constrói pontes. Ela decide para onde elas levam.

No fundo, nenhum vive sozinho. Marte sem Lua é só poeira vermelha girando no vazio. Lua sem planeta é pedra fria perdida no escuro.

— Você ainda está brava comigo? — pergunta o marciano.

— Não.

— Mesmo?

— Um pouco.

— Quer pizza?

Pausa.

— De quatro queijos?

— Pode ser.

E assim se faz a paz universal: não por tratados assinados, mas por pequenas concessões com borda recheada.

No fim das contas, talvez não sejamos de planetas diferentes. Talvez sejamos do mesmo mundo, só com mapas distintos. Ele usa Waze. Ela usa maré. E entre crateras e fases, aprendem a orbitar um ao outro, nem sempre em perfeita sintonia, mas sempre com alguma gravidade compartilhada.

Porque, no espaço conjugal sideral, o segredo não é vencer a guerra galáctica. É continuar girando juntos.


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Negritude e Branquelice (Rap da Mesmice Genética) - Por Félix Maier


Operários, de Tarsila do Amaral, feita após
uma viagem à União Soviética.


Negritude e Branquelice 

(Rap da Mesmice Genética)


Félix Maier


No flow do DNA não tem cor nem bandeira,

ninguém é pitbull, nem raça verdadeira,

só humano perdido na besteira.


Refrão:

Não sou raça, não sou cor, sou consciência,

Filho da Eva, não da diferença.

Quer ter orgulho? Tenha inteligência!


(Refrão)


Negro com orgulho, branco com prisão?

Mas que raio de lógica tem essa função?

No fim, tudo irmão na mesma mutação.


(Refrão)


Sou pardo, sou índio, sou loiro, sou mel,

sou filho da Eva, sem dogma ou cordel,

mas tem uns aí que vivem no papel...


(Refrão)


Diz que é resistência, diz que é identidade,

mas segrega mais que a tal da sociedade,

tudo em nome da “representatividade”.


(Refrão)


Quer respeito? Então bora acordar:

ninguém escolheu o tom pra nascer ou amar,

mas escolhe se quer pensar ou só gritar.


(Refrão)


Preto, branco, amarelo ou café,

no fundo do osso, é tudo igual, é ou não é?

Mas no palco do ego, o show nunca dá ré.


(Refrão)


Brasil é mistura, é samba no umbigo,

mas tem nego e branquelo medindo perigo,

pra ver quem sofre mais, quem tem mais abrigo.


(Refrão)


Ciência já disse, com prova e com calma:

raça é bobagem, invenção da alma,

pra justificar quem quer ter mais palma.


(Refrão)


Raça é do canil, do canário e do boi,

mas gente é gente, não late nem rói,

só inventa castelo pra virar herói.


(Refrão)


Lobo, coiote, dálmata e cão,

cada um com pedigree e divisão —

mas humano é só um, em qualquer nação.


(Refrão)


Então para com essa de “orgulho racial”,

que isso já fede e soa até mal,

nosso único dia é o "ser racional".


(Refrão)


O Agente Secreto - Por Félix Maier

O Agente Secreto

Félix Maier

Vi o filme O Agente Secreto na noite de terça de carnaval, 17/02/2026. Wagner Moura e o cineasta Kleber Mendonça Filho já haviam conquistado os Globos de Ouro (ator e diretor), em 11/01/2026. E foram indicados ao Oscar.

Na verdade, só vi um pouco mais da metade do filme. Teria que ter estômago de tubarão para ir até o fim. Ter dado parabéns à dupla em texto de 12/01 foi precipitado. Em 18/02 faço a devida correção.

O enredo até começa bem, de suspense, em pleno carnaval da época do governo Ernesto Geisel, visto em fotos nas repartições públicas. Porém, o filme não esclarece a vida passada do protagonista, se foi um cruel assassino de algum grupo terrorista da extrema esquerda a mando de Fidel Castro ou apenas um professor aloprado cometendo crimes secretos como hobby para matar o stress das pesquisas sobre carros elétricos na universidade. Também não esclarece se a perna encontrada na barriga de um tubarão era de sua mulher.

Como todo filme de cineasta da extrema esquerda que aborda os anos da ditamole dos militares, Kleber M. Filho expõe um país governado por brutamontes corruptos e assassinos, existentes em todas as esquinas e repartições públicas. Nada de positivo tem chance de aparecer na tela. E, como também ocorre em Bacurau, do mesmo diretor, o sexo anda mais solto que a língua do Ogro de Nove Dedos depois de tomar uma branquinha. É trepada com a dentista, é trepada por trás na repartição pública, é felatio tranquilo em sala de cinema lotada, é orgia ao ar livre, como se só isso fosse o que havia de edificante nos anos 1970.

Bacana, mesmo, foi ver a parte do, digamos, manifesto de moralidade do filme, sobre a perna encontrada na barriga de um tubarão, que passa pelo IML, sai de lá mediante uma troca de perna de animal e alguns trocados no bolso, e volta a ser jogada de novo na represa onde um corpo havia sido lançado, depois de levar alguns tiros enquanto ainda estava dentro do porta-malas, envolto em panos. Muito idiotas ou muito autoconfiantes, esses matadores de aluguel, metendo bala na lataria do próprio carro, podendo atingir o tanque de combustível.

Que manifesto de moralidade foi esse?

A perna cabeluda (mais uma charada do diretor) sai da margem do lago, onde uma marola a deve ter levado, e passa a ter vida própria, como um ente vingador e moralista, dando porrada em quem encontra pela frente, especialmente uma pequena multidão que fazia sexo ao ar livre numa praça. Quase me senti vingado, com a perna ambulante impondo a moral e os bons costumes nesse país de merda tão bem retratado por Kleber. Foi a dica para desligar a TV e dormir.

Se um filme tosco, ridículo e apelativo como O Agente Secreto conquistou o Globo de Ouro e foi indicado ao Oscar, imagino o nível escroto dos filmes que não foram indicados. Prova disso é Os Pecadores, outra excrescência de violência máxima, ter recebido mais indicações ao Oscar do que Titanic.

Está certo o cineasta franco-espanhol Óliver Laxe, diretor de Sirāt, ao criticar os brasileiros: Há muitos brasileiros na Academia, e nós os adoramos, mas eles são ultranacionalistas. Acho que, se os brasileiros inscrevessem um sapato no Oscar, todos votariam nele.

Pela obra-prima de Kleber Mendonça Filho, sugiro que o Ministério da Cultura crie o Kikito do Kleber, para futuras premiações bacuráuticas, pernocas secretas e quetais.


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Leia ainda O Agente Secreto, de minha autoria (12/01/2026), em https://felixmaier1950.blogspot.com/2026/01/o-agente-secreto-por-felix-maier.html

Leia também Ainda estou aqui, de minha autoria (11/03/2025), em https://felixmaier1950.blogspot.com/2025/03/ainda-estou-aqui-por-felix-maier.html


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A BOTA

Em breve, nos cinemas do mundo.
Rumo a mais um Oscar.

O cineasta franco-espanhol Óliver Laxe, diretor de Sirāt, criticou os brasileiros:

Há muitos brasileiros na Academia, e nós os adoramos, mas eles são ultranacionalistas. Acho que, se os brasileiros inscrevessem um sapato no Oscar, todos votariam nele.


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Criatura perfeita - Por Dalila Góes e Flávia Duarte


Criatura perfeita


Zoólogo inglês explica, em cada detalhe, porque a mulher é o ser mais evoluído que existe. Confira a teoria do pesquisador e veja se você concorda.

Dalila Góes e Flávia Duarte
(Da equipe do Correio)

Depois de comparar o ser humano ao macaco e explorar suas formas, na década de 60, o inglês Desmond Morris achou que era hora de cuidar de um animal específico: a mulher. Simples assim, o estudioso mais polêmico da espécie Homo sapiens catalogou o corpo feminino como o mais extraordinário organismo do planeta. Em Mulher nua, livro lançado este mês no Brasil, Morris bate o pé e prova, pedaço por pedaço, que os indivíduos do sexo feminino são superiores aos machos. Do fio de cabelo ao pé, o zoólogo de 77 anos despedaça o corpo da mulher e salpica curiosidades históricas com pesquisa científica para explicar a perfeição das curvas femininas.

No mundo acadêmico, Desmond Morris ganhou respeito com O Macaco nu, de 1967. A importância do trabalho, na visão de outros cientistas e pensadores, foi o estudo do processo evolucionário humano, do pensamento ao desenvolvimento físico. Hoje, separar a mulher do homem e analisá-la zoologicamente causa estranheza. Mas o inglês explica, para horror das feministas e deleite das publicações femininas, porque as moças são assim tão perfeitas e cheias de curvas. Para começo de conversa, Desmond Morris diz que os homens são mais infantis no comportamento. Já a mulher é mais razoável e ainda tem no próprio corpo características de criança, como uma pele macia, por exemplo. Daí a fêmea é anatomicamente mais evoluída.

Mas nem precisa estudar zoologia para concordar com o inglês. O professor Antônio Guilherme Moreira Porto, doutor em anatomia, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), afirma que o organismo da mulher é só o mais desenvolvido como o mais complexo. Em uma analogia bem simples, o anatomista compara o homem a um Fusca e a mulher a um Porsche. É só dar um empurrãozinho que o homem sai andando. Já com a mulher, tem que saber a hora certa de frear e como fazer as curvas.

Em cima do palco, a superioridade dá lugar à funcionalidade. Na companhia de dança Débora Colker, mulheres e homens ocupam o mesmo espaço, tanto que da platéia muitas vezes é difícil distinguir o sexo do bailarino. Mas se a plástica do espetáculo exige uma forma mais delineada, opta-se por uma mulher. Mas isso não implica necessariamente uma pessoa de traços mais suaves ou com menos força física, explica a coreógrafa.

Na cabeça do doutor José Meciano filho, do Departamento de Anatomia do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a lógica de Desmond Morris da mulher perfeita morre a partir do momento em que homens e mulheres são biologicamente perfeitos. Sim, são máquinas perfeitas. O organismo humano é uma máquina maravilhosamente bem planejada. Cada um, claro, com sua funcionalidade, mas perfeitos. Não existe o melhor, destaca.

Perfeita ou não, a Mulher nua, de Desmond Morris, chama atenção. Questionado sobre um tal estudo semelhante sobre o corpo do homem, o pesquisador graceja: Não vejo graça nenhuma em um sujeito barbado. Não quero escrever sobre eles. Eu gosto, adoro, é mulher. E provoca: Top models, a maioria dos estilistas é gay, quer vestir a mulher como um homem, sem formas. Homens de verdade gostam de curvas.

Vestibular da mulher

1. O ser humano possui cerca de 100 mil fios de cabelo. Quem tem menos fios na cabeça?
a) Loiras
b) Morenas
c) Ruivas
d) Tanto faz

2. Dentes escuros foram moda em vários países e épocas. O que as mulheres faziam para escurecê-los?
a) No Vietnã antigo, aplicavam verniz e ficavam se comer sólidos por uma semana
b) No Japão medieval, pintavam com pó de nanquim, saquê e nozes trituradas
c) Na Inglaterra, à época de Elizabeth I, pintavam com um pasta de tabaco
d) No Sudeste Asiático, no século 19, mascavam torrões de açúcar

3. Nos anos 90, a moda dos jeans de cintura baixa destacou os umbigos femininos. A esse respeito, é verdade que:
a) O uso de piercing no umbigo deixa a região mais rasa
b) Entre os mamíferos, só os seres humanos possuem umbigos
c) Umbigos foram apagados das primeiras fotos do século 20
d) A mulher asiática tem o umbigo em forma de fenda

4. Os gregos admiravam qual parte do corpo feminino?
a) A aba do nariz
b) O cantinho da boca
c) O pomo-de-adão
d) As covinhas das costas

5. Qual imagem era usada pelas igrejas da Europa medieval para se proteger do Olho do Diabo?
a) Uma mão feminina espalmada
b) Um dedo feminino tocando o seio direito
c) Genitais femininos abertos por duas mãos
d) Mãos entrelaçadas em um círculo

6. O piano foi concebido para mãos masculinas, por isso os grandes pianistas são homens. A mão da mulher supera a do homem em:
a) Resistência óssea
b) Flexibilidade
c) Tamanho
d) Força muscular

7. É falso que:
a) Homens e mulheres exalam os mesmos odores no suor
b) A mulher possui mais glândulas sudoríparas que o homem
c) Os japoneses não têm odor nas axilas
d) Na Áustria rural, o homem comia a maçã que a parceira colocava na axila

Gabarito

1. C) As ruivas têm cabelos mais espessos, por isso têm menos fios, 90 mil, em média. As loiras têm cerca de 140 mil, enquanto as morenas têm 108 mil.

2. A) Na Inglaterra, à época de Elizabeth I, dentes escuros eram sinônimo de alta classe. No Japão, no século 17, os dentes pretos (ohaguro) eram tingidos com limalha de ferro diluída em saquê ou chá. No Vietnã antigo, elas passavam nos dentes um verniz que as impedia de comer alimentos sólidos.

3. C) No início do século 20, as fotos eram retocadas para dar a ridícula impressão de que o ventre da mulher é completamente liso.

4. D) As covinhas do sacro, duas pequenas depressões situadas de cada lado da base da coluna, bem acima dos glúteos, estão presentes nos dois sexos, mas são mais perceptíveis nas mulheres.

5. C) A imagem de genitais femininos abertos por duas mãos supostamente protegia as igrejas do Olho do Diabo. A idéia era distrair o olho mantendo-o ocupado com uma imagem fortemente sexual.

6. B) As mãos femininas têm mais facilidade de manejar objetos pequenos. Se o teclado do piano fosse menor, a maior flexibilidade dos dedos faria as mulheres pianistas superarem os homens.

7. A) Homens e mulheres produzem odores diferentes, o que indica que as glândulas sudoríparas atuam como sinais sexuais entre parceiros amorosos.

De 0 a 2 acertos:
Sua referência de mulher são As Meninas Superpoderosas. Chega de desenhos animados. Volte para o mundo normal.

De 3 e 4 acertos:
Você se esforçou, mas sua convicção de que homens e mulheres são iguais atrapalha seu raciocínio.

De 5 e 6 acertos:
Não sabemos se você é homem, mulher ou zoólogo. Mas seu interesse pelo sexo feminino é demais.

7 acertos:
Você colou do livro! Só pode ser isso. Ou você acha que alguém normal é capaz de saber tanta coisa?


Vamos por partes

Cabelos:

Face lisa e cabelos compridos usados ao longo da evolução criaram um visual estético bastante atrativo para o homem. Pentear os fios sempre fez parte da alma feminina e do jogo da sedução. Assim sendo, para Morris, cabelos volumosos fazem as feições parecerem delicadas e atraentes, cabelos curtos dão o ar de mulher ativa e independente.

Olhos:

A maquiagem é usada há mais de seis mil anos, em quase todas as civilizações, para destacar os olhos. As pupilas também reagem diante de uma visão atraente. Nessa hora, dilatam. O zoólogo Morris conta que as cortesãs da Itália pingavam gotas de beladona nos olhos quando recebiam seus visitantes. Isso dilatava muito as pupilas e as tornava mais atraentes, porque dava aos homens que as olhavam a falsa impressão de que eram amados.

Mãos:

As mãos delas são mais flexíveis e têm mais delicadeza para manusear pequenos objetos. Quando os humanos se puseram de pé, deixaram livres as patas dianteiras para a manipulação. Os homens adquiriram uma força manual duas vezes maior que a das mulheres. Elas, a precisão. O argumento seria de que tal capacidade foi resultado da divisão de tarefas pelos ancestrais. Cabia a elas arrancar as raízes, escolher sementes, colher frutos: tarefas mais adequadas a dedos ágeis e flexíveis.

Nádegas:

Atributo exclusivamente humano, o bumbum da mulher brasileira é paixão em território nacional e até fora daqui. E elas se tornaram maiores à medida que a espécie humana evoluiu. Com a expansão dos músculos glúteos os humanos puderam ficar permanentemente de pé. Na mulher, Morris reforça, as nádegas têm mais que uma função anatômica.

Pés:

Mais uma vez, outra parte do corpo que prova a diferença entre eles e elas. Pés femininos são menores e mais estreitos. Na linha da evolução, o macho ia para a caça e os pés maiores representavam uma vantagem. Como as fêmeas eram poupadas de tal esforço, os delas se desenvolveram menos e permaneceram mais ágeis e delicados. Sendo assim, as mulheres com pés avantajados são vistas como menos belas e não é de se estranhar que algumas cheguem ao cúmulo de esmagar os ossos do pé para diminuir seu tamanho, como acontecia com as chinesas até o século passado.

Nariz:

Quanto menos, mais bonito. Talvez por isso tantas mulheres recorrem aos cirurgiões plásticos para deixá-los mais delicados. Analisando a evolução humana, à medida em que o rosto foi se achatanto, o nariz permaneceu no mesmo lugar.

Lábios:

Os lábios humanos são os únicos na natureza a serem curvados para fora. A explicação para tal forma está mais uma vez na evolução humana. Para sugar o leite no seio da mãe, o bebê recurva o lábio. Quando a mulher se excita, eles se tornam vermelhos, razão pela qual o batom dessa cor ainda é o preferido na hora da sedução.

Seios:

Têm duas funções: produzir o leite materno e despertar o desejo sexual do sexo oposto. De todos os mamíferos, a fêmea humana é a única que não perde o volume dos seios depois da amamentação. Se antes as fêmeas dos primatas andavam sobre quatro patas e excitavam os machos com a exposição do traseiro, quando se tornaram bípedes as nádegas ficaram fora do campo de visão masculino. Assim, os seios se avolumaram.

Cintura:

Por causa do volume dos seios e dos quadris, a cintura feminina é mais fina do que a do homem. Por algum tempo, elas forçaram a natureza e tentaram fazer com que a silhueta parecesse ainda mais delgada. A biologia explica que depois do primeiro parto a cintura nunca mais terá as medidas de antes. Por isso, cintura fina é sinônimo de virgindade. [Virgindade ou maternidade?]

Genitais:

Ainda sobre quatro patas, a genitália da fêmea ficava totalmente escondida. Já sobre duas pernas, nossos ancestrais perceberam que não podiam deixar de exibir a parte frontal do corpo sempre que se aproximavam de outro membro da espécie. Na prática, ficava impossível chegar perto do sexo oposto sem a conotação sexual. Por isso os humanos passaram a cobrir as genitálias e foi aí que surgiu a tanga. Nenhuma outra parte do corpo da mulher é tão sensível ao toque.

Pernas:

Séculos atrás, mostrar as pernas era o mesmo que fazer um convite em tom erótico. Os homens têm especial atração pelas pernas femininas e a explicação de Desmond está na forma como as pernas se juntam. A cada movimento das pernas, o foco da atenção é voltado para o ponto de encontro das mesmas: o órgão sexual da mulher.

(Texto extraído da “Revista do Correio”, do jornal Correio Braziliense, domingo, 7 de agosto de 2005, pg. 25 a 27).


Obs.: A análise do pesquisador inglês não deve ter agradado as feministas, pois, segundo o estudioso, a mulher evoluiu principalmente para atender à satisfação sexual do macho. Porém, uma coisa ninguém pode contestar: a mulher é de fato uma criatura perfeita. Já o homem... (F. Maier)