MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

quinta-feira, 12 de março de 2026

O dia em que Alexandre mandou prender Moraes - Por Félix Maier

 


O dia em que Alexandre

mandou prender Moraes

 Félix Maier 

No Brasilistão — país tropical onde o absurdo tira RG e causídico não passa em concurso, mas acaba nomeado para cargo vitalício — aconteceu algo que nem os cronistas de realismo mágico como Gabriel García Márquez teriam coragem de inventar: o dia em que Alexandre mandou prender Moraes.

Não foi metáfora. Não foi alegoria. Foi despacho.

A sessão começou às nove da manhã na Suprema Corte, um edifício imponente onde as colunas de mármore sustentam não apenas o teto, mas também uma certa elasticidade conceitual do direito desde que o Ogro de Nove Dedos e a Estocadora de Vento aparelharam o STF com sete líderes do PT.

No centro da mesa, com a gravidade de quem carrega o peso da Constituição e algumas condenações surpreendentes, como a do Presidente Jair Bolsonaro (sejam criativos! sempre diz a seus subordinados), estava o excelentíssimo ministro Alexandre.

Do outro lado, ajustando a toga e alisando a careca com expressão contrariada, estava o réu do processo: o excelentíssimo ministro Moraes.

Ambos se entreolharam por alguns segundos.

O ministro Moraes havia dispensado os 12 advogados da banca de sua esposa, que iriam defendê-lo, deixando-os à toa na sala do tribunal. Ele mesmo iria fazer sua defesa.

— Ministro Moraes — disse o ministro Alexandre, abrindo um calhamaço de papéis — o senhor está sendo acusado de uma série de irregularidades bastante… criativas.

Moraes pigarreou.

— Criativas em que sentido?

— Em vários sentidos — respondeu Alexandre. — Financeiro, logístico, etílico e, segundo consta nos autos, também turístico.

Um capinha colocou sobre a mesa de Alexandre três volumes encadernados.

Volume I: Banco Master e as alquimias bancárias envolvendo empresa advocatícia de Viviane Barci de Moraes.

Volume II: Viagens pedagógicas regadas a uísque em Londres.

Volume III: Eventos culturais com loiras nórdicas em Trancoso, Lisboa, Sicília e Caribe, e iluminação temática na Alameda Lorena, em Sampa.

Moraes recebeu e folheou rapidamente o terceiro volume.

— Excelência, isso aqui está muito mal redigido.

— Em que ponto, exatamente?

— Aqui diz Festança digna das Mil e Uma Noites com DJ escandinavo e dançarinas vindas de Oslo, em Trancoso. Eu jamais contrataria DJ de Oslo. Musicalmente, são muito frios.

Alexandre fez uma anotação.

— Fica registrado o protesto do réu quanto à qualidade do DJ, escolha mal feita por Daniel Vorcaro.

O escrivão assentiu.

— Registrado.

Alexandre continuou:

— Passando ao primeiro ponto. O Banco Master.

— Ah — disse Moraes, cruzando os braços — já começaram as narrativas: Bolsomaster para um lado, Lulamaster para outro. A verdade é que há personagens da extrema direita à extremidade da esquerda radical. Ideologicamente, tudo muito harmonioso, como convém a um Estado democrático de direito.

— Segundo os autos, houve reuniões discretas, encontros reservados e pelo menos três jantares institucionais em que a conta milionária foi paga por um banqueiro extremamente generoso. Na Sicília, diz a mídia, houve festança de quatro dias num condomínio de luxo, ao custo de 200 milhões de reais, com participação de artistas como Coldplay, Andrea Bocelli, Michael Bublé e o DJ David Guetta. O tenor Andrea Bocelli aproveitou para cantar Nesun Dorma. Que ninguém durma. Muito espirituoso, esse Bocelli...

— Excelência — respondeu Moraes — jantar não é crime. Nem ouvir tenor italiano cantando ária da ópera Turandot, de Giacomo Puccini. A propósito, nem estive na Itália.

— Concordo. Vejo que você gosta de óperas, eu também gosto. Roberto Jefferson também gostava de cantar essa ária de Puccini no banheiro, em Brasília, na época do Mensalão, depois de dizer ao José Dirceu, o Zé do Caroço, quando era chefe da Casa Civil: Zé Dirceu, se você não sair daí rápido, você vai fazer réu um homem inocente que é o presidente Lula.

— Uísque também não é crime.

— Depende da quantidade.

— E networking financeiro é parte da vida republicana.

— E os 129 milhões envolvendo o escritório de advocacia de sua esposa junto ao Banco Master?

— O que eu tenho a ver com isso? Isso é misoginia! Uma mulher não pode ter sucesso financeiro, só homem? Um escritório de primeira grandeza cobra caro, excelência. Lembra do advogado Thomaz Bastos? Carlinhos Cachoeira, um Zé Ninguém, teve que desembolsar 15 milhões. Sabe quanto cobra o Kakay?

Alexandre folheou outro documento.

— O problema não é o networking. É quando ele vira master working jurídico de alta rentabilidade, misturando interesses cruzados de vossa excelência e da banca de advogados de sua mulher com o dono do Banco Master.

O silêncio na sala ficou espesso.

Um dos 12 advogados do escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes teve um mal súbito, desmaiou e foi levado para o Hospital de Base.

Um estagiário deixou cair o notebook, depois de derramar um copo d’água.

Alexandre prosseguiu:

— Temos registro de voos para Londres, em 2024, para o Fórum Jurídico “Brasil de Ideias”, onde constam nomes como de vossa excelência, Dias Toffoli, Ricardo Lewandovski, Hugo Motta e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. Até o Paulo Gonet, o Procurador que Não Procura, estava lá. E Benedito Gonçalves, o Bochechinha do Lula, que cochichou no seu ouvido, missão dada é missão cumprida, deu também uma escapadinha nesse clube privado em Mayfair, ao custo de R$ 31 milhões.

— Conferências jurídicas, como o nome indica: Fórum Jurídico.

— Em clube privado.

— Ambiente acadêmico alternativo.

— Com degustação de single malt.

— Pesquisa comparada de jurisprudência.

— Às três da manhã.

— Horário em que os precedentes vinculantes britânicos ficam mais claros.

Alexandre levantou os olhos lentamente.

— Ministro Moraes, o senhor está dificultando sua própria defesa.

Moraes suspirou.

— Excelência… sejamos francos. No Brasilistão, o que seria exatamente uma defesa adequada?

Alexandre pensou por um momento.

— Para começar, algo que não envolvesse planilhas de uísque 30 anos.

— Aquilo foi erro de contabilidade.

— O senhor chamou 48 garrafas de Macallan Double Cask, R$ 57.000,00 a unidade, de material de estudo.

— Eram notas de degustação jurídica.

O escrivão, com os olhos arregalados, voltou a escrever depois de uma pequena pausa.

Nesse momento, outro capinha entrou na sala trazendo um grande envelope lacrado.

— Excelência, chegou novo material probatório.

Alexandre abriu.

Dentro havia fotos. Muitas fotos. Trancoso. Lisboa. Caribe. Sicília. Alameda Lorena, em Sampa, iluminada como se fosse réveillon em Dubai.

Em várias delas aparecia Moraes, sorrindo com a naturalidade do Papa dando a bênção urbi et orbi na janela do Vaticano, na hora do Angelus dominical.

Alexandre levantou uma sobrancelha.

— Ministro Moraes… quem são essas pessoas?

Moraes olhou rapidamente.

— Intercâmbio cultural.

— Todas loiras, em Trancoso?

— Mudança climática.

— Vindas da Rússia, da Ucrânia e da Noruega?

— Países amigos. Um brasileiro-norueguês até nos deu um ouro nas Olimpíadas de Inverno Milano-Cortina.

Alexandre virou outra foto.

— Aqui o senhor está vestido de sultão.

— Festa temática.

— Aqui está numa jacuzzi com empresários, regada a uísque.

— Reunião líquida, para limpar os poros do corpo, depois de longa viagem de avião.

— Aqui está brindando com o banqueiro Daniel Vorcaro.

— Cooperação institucional. Cada país tem o Jeffrey Epstein que consegue bancar.

— Aqui o senhor está dançando lambada com uma violinista sueca. E um senador está com uma loira no colo, e uísque na mão.

Moraes coçou o queixo.

— Intercâmbio cultural.

O silêncio voltou a dominar a sala.

Alexandre respirou fundo. Por fim, perguntou:

— No dia em que Vorcaro foi preso, ele mandou uma mensagem enigmática para vossa excelência: conseguiu bloquear? Era para bloquear o quê? O que o senhor tem a dizer?

— É fake news, espalhada pela jornalista Malu Gaspar. Não sei por que a Globo não nos está apoiando, como sempre fazia.

— Ministro Moraes, o senhor percebe que a situação é muito grave? Que estão pedindo seu impeachment no Senado?

— Percebo.

— Há indícios de favorecimento financeiro, viagens suspeitas e uma vida noturna incompatível com a sobriedade de um magistrado.

— Excelência, o senhor fala como se nunca tivesse sido jovem.

— Eu fui jovem.

— E nunca foi a Trancoso?

— Fui.

— E nunca bebeu uísque em Londres?

— Bebi.

— E nunca dançou com escandinavas?

Alexandre ficou pensativo por um instante. E respondeu:

— Isso é irrelevante para o processo. Sou eu que faço as perguntas aqui, e você responde.

Moraes inclinou-se para frente.

— Excelência… sejamos honestos.

— Estamos sendo.

— Somos a mesma pessoa.

O escrivão parou de escrever.

Os advogados tossiram em seco.

O ar-condicionado fez um ruído nervoso e suspeito.

Alexandre ajeitou a toga.

— No Brasilistão, isso não constitui impedimento processual.

— Eu sei.

— Pelo contrário. Demonstra profundo conhecimento do investigado.

— Isso é verdade.

Alexandre folheou o último documento.

— Diante de tudo isso, resta apenas uma pergunta.

— Qual?

— O senhor tem algo a declarar em sua defesa final?

Moraes pensou por alguns segundos. Depois respondeu com serenidade:

— Apenas que, se eu for condenado, quem assume o caso sou eu mesmo.

Alexandre refletiu.

— Isso cria um precedente curioso.

— Mas eficiente.

— E quem julga o recurso?

— Nós dois.

Alexandre bateu levemente o martelo imaginário, com aquele sorriso sinistro de Lord Voldemort conhecido de todos.

— Muito bem!

Ele endireitou os papéis e leu solenemente:

— Considerando os fatos, as fotos, os recibos de uísque escocês, as notas fiscais de DJs nórdicos, e os depoimentos dos vigias de Trancoso e das violinistas suecas…

Fez uma pausa dramática.

... este tribunal decide, por unanimidade absoluta de mim mesmo…

Mais uma pausa.

… mandar prender o ministro Moraes...

Uma pausa mais longa.

— ... por 12 anos...

Outra pausa longa.

 — ... na Papuda.

Moraes assentiu com dignidade.

— É justo. Papuda é um bom lugar, tem boa comida e bom atendimento médico. O Bolsonaro nunca mais reclamou.

— O senhor aceita a decisão?

— Aceito.

— Pretende recorrer?

— Naturalmente. Para reduzir a dosimetria, para 2 anos, de modo a poder usufruir o benefício de sursis e ficar livre como o coronel Mauro Cid.

— Vai ser difícil, porque o Fux queria te dar 27 anos. Caso não consiga a sursis, vossa excelência pretende fazer delação premiada?

— Claro. Você não tem ideia do que eu tenho pra contar...

— Vai recorrer a quem?

Moraes sorriu o sorriso sinistro de sempre.

— Ao ministro Alexandre.

Alexandre fechou o processo.

— Então está resolvido.

E apertaram as mãos, com a gravidade que a ocasião exigia.

O escrivão perguntou:

— Excelências… quem lavra a ata?

Alexandre respondeu:

— Nós dois. Alexandre e Moraes.

E assim terminou o mais extraordinário julgamento da história do Brasilistão, nunca antes visto neste País.

Um processo em que acusador, réu, juiz, carrasco, tribunal e instância recursal eram, essencialmente, a mesma pessoa — prova definitiva de que, em certas latitudes tropicais, a realidade não apenas supera a ficção. Ela a processa. A condena.

E, quando convém (sempre convém!), assina o próprio alvará de soltura.


segunda-feira, 9 de março de 2026

Rachadinha e Rachadão - Por Félix Maier

 

Rachadinha e Rachadão

Félix Maier

  Rachadinha e Rachadão bem que poderia ser o nome de uma dupla sertaneja cantando nos inferninhos do entorno de Goiânia. Um violão desafinado, uma sanfona cansada e dois sujeitos de chapelão cantando sofrência orçamentária: Você levou meu coração… e metade do salário do assessor. Seria até poético. No intervalo entre uma moda de viola e outra, venderiam CD pirata e selfies com eleitores arrependidos. Mas não. No Brasil, como sempre acontece, a realidade consegue ser mais criativa que a piada.

  O Brasil é um país de dimensões continentais e de imaginação política igualmente continental. Aqui se inventou o samba, o pão de queijo, a jabuticaba em tronco de árvore e uma série de modalidades administrativas que fariam corar até um pirata caribenho com pós-graduação em pilhagem na Malásia nos tempos de Sandokan.

  Entre essas invenções nacionais, uma merece destaque especial: a rachadinha. Não é exatamente uma instituição formal — ainda não aparece no Diário Oficial nem no currículo de nenhum curso de administração pública, como da ENAP — mas está tão disseminada na prática política que poderia muito bem ser considerada patrimônio imaterial de nossa República Federativa dos Bandidos.

    Mas antes de falar da rachadinha, precisamos voltar ao grande campeonato nacional de 2022. O campeonato dos extremos

   Em 2022, a disputa pela Presidência da República foi um espetáculo que nenhum roteirista de novela teria coragem de escrever. Era o tipo de roteiro que faria um editor de televisão dizer:

    — Não, isso está exagerado demais. O público não vai acreditar.

    Mas o público brasileiro acredita em tudo, especialmente quando vota.

    O campeonato dos campeonatos colocou frente a frente duas figuras que poderiam muito bem ser personagens de uma tragicomédia mexicana ou turca: de um lado, o Cavalão; do outro, o Ladrão.

    Mais de sessenta milhões de brasileiros, num gesto cívico que mistura fé, resignação e talvez uma pitada de masoquismo eleitoral, fizeram o famoso L de Ladrão, trazendo o velho personagem pela terceira vez de volta à cena do crime, como havia dito anos antes seu Vice, Geraldo Alckmin. O Picolé de Chuchu achou que seria a última oportunidade para assinar documentos oficiais como Presidente, o que poderia fazer inúmeras vezes, pois o Ogro recém-casado iria promover uma lua-de-mel de quatro anos de duração mundo afora. Esperto, esse Chuchu!

    E assim começou o segundo ato de uma peça que muitos juravam já ter terminado. Surge o desafio de 2026

  Mas a história brasileira não gosta de finais tranquilos. Ela prefere continuações, reviravoltas, cenas picantes e sequências improváveis, como Game of Thrones.

    Por isso, o ano de 2026 promete uma nova batalha épica, uma competição master para o maior cargo público do Brasil. De um lado estará Rachadinha. Do outro, o temido Rachadão.

    A missão de Rachadinha será muito difícil: impedir que Rachadão, com toda a máquina administrativa e cartão corporativo a seu lado, conquiste o tetra. Um cartão master, de gastos sigilosos de R$ 1,4 bilhão em três anos. Rachadão já merece o convite de um Amex Black e de um J. P. Morgan Reserve.

    Não será tarefa simples para Rachadinha.

    Quem viu o filme A Substância, com Demi Moore, sabe que certas coisas parecem impossíveis de destruir. Elas se regeneram, voltam à vida e continuam caminhando como se nada tivesse acontecido. É o caso de Rachadão, que se renova a cada campanha eleitoral.

    Na política brasileira ocorre algo parecido.

    A arte da rachadinha

    A rachadinha, para quem não está familiarizado com os costumes parlamentares tropicais, é um método administrativo simples e engenhoso.

    Funciona assim:    

    1. O político contrata um aspone.

    2. O aspone recebe salário público.

    3. Parte do salário do aspone retorna discretamente ao bolso do político.

    É um sistema circular, quase ecológico, como PET de refrigerante. O dinheiro sai do contribuinte, passa pelo gabinete e retorna ao ponto de origem, o político. A rachadinha é uma espécie de dízimo político, só que a igreja fica dentro do gabinete. Outros preferem chamar de economia compartilhada, de justiça social, pois ajuda a sustentar uma outra família.

De qualquer forma, a prática é tão comum no Brasil quanto bebê tomando vacina. Às vezes o bebê chora, às vezes o contribuinte chora, mas o procedimento continua.

O caso mais famoso de rachadinha envolveu Flávio Bolsonaro, então deputado estadual no Rio de Janeiro, por volta de 2016. Mas o curioso é que, naquele episódio, ele nem era o grande atacante do erário.

Segundo reportagens, o verdadeiro craque da arrecadação era o então presidente da Assembleia Legislativa, André Ceciliano, do PT, que teria movimentado cerca de 49,3 milhões de reais, enquanto Flávio aparecia com modestos 1,3 milhão. É quase como comparar um batedor de pênaltis com um artilheiro de Copa do Mundo.

Em 2018, o caso ganhou novas cores quando surgiu o nome de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro. Um relatório do COAF apontou movimentações financeiras consideradas atípicas — cerca de 1,2 milhão de reais. Obviamente, o massacre na mídia, cada dia mais forte, foi pura coincidência, claro... Era o ano de campanha presidencial de Jair Bolsonaro, e de campanha ao Senado, de Flávio Bolsonaro. André Ceciliano, claro, nunca era citado.

A partir daí começou uma investigação que se arrastou por dois anos, com acusações de fraude, peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

No entanto, em 2021, o Superior Tribunal de Justiça anulou decisões do processo por questões processuais. As provas derivadas da quebra de sigilo foram invalidadas. Flávio Bolsonaro havia passado pela tempestade sem ser preso.

E assim terminou mais um capítulo da famosa novela jurídica brasileira: Provas anuladas — capítulo final (até a próxima temporada).

Nesse meio tempo, já como senador, Flávio Bolsonaro comprou uma mansão em Brasília, no valor de R$ 6 milhões. A imprensa e os políticos do PT e do Piçol, sempre muito curiosos com o sucesso imobiliário alheio, perguntaram de onde tinha vindo tanto dinheiro. Flávio afirmou que a metade do imóvel foi financiado pelo BRB. Também explicou que possuía uma loja de chocolates extremamente lucrativa no Rio, algo entre Kopenhagen e Cacau Show.

É possível.

Chocolate realmente é um negócio doce, especialmente na boca de crianças e idosos sem dentes. Alguns chocolates derretem na boca. Outros parecem derreter investigações.

Mas se Rachadinha tem suas histórias, o adversário — o temido Rachadão — possui uma biografia que mais parece enciclopédia da Barsa e da Mirador. Estamos falando do lendário Luiz Inácio Lula da Silva, também conhecido entre críticos como o Ogro de Nove Dedos.

Seu currículo judicial inclui episódios memoráveis como o Triplex do Guarujá e o Sítio de Atibaia, que resultaram em condenação superior a 12 anos de prisão.

As condenações passaram por três instâncias, por unanimidade, com placar final de 9 a 0. Mas o Brasil é um país que acredita em milagres, principalmente os milagres jurídicos. Não é só o ex-ministro da Fazenda Pedro Malan que desconfia que no Brasil, o passado é cada vez mais incerto.

Depois de ser preso, em 2018, e passar 580 dias em um quarto confortável na sede da Polícia Federal de Curitiba, onde recebia visitas do Brasil e do exterior, como Pepe Mujica (e até arranjou uma namorada, com quem se casou), o Rachadão foi libertado após decisão do Supremo Tribunal Federal.

Por 8 votos a 3, o Tribunal aparelhado pelo Ogro e por Dilma considerou que os processos deveriam tramitar em outra jurisdição. O CEP de Curitiba estava errado, garantiu o cabo eleitoral de Dilma Rousseff, Edson Fachin. Deveria ter ido para Brasília.

Resultado: o Ogro foi descondenado. Limpinho de corpo e alma, como neném recém-batizado. E voltou ao jogo político.

Um juiz da Lava Jato determinou o bloqueio de R$ 78 milhões em bens de Lula, o Pai dos Pobres, em 2016. Marcelo Odebrecht afirma que fez pagamento de 50 milhões a Lula, confirmado por Palocci. E pelo menos 100 milhões de dólares foram depositados pela Odebrecht na Suíça, para pagamento de propinas, especialmente ao PT.

Questionado sobre a origem da fortuna, Lula explicou que era fruto de palestras realizadas no Brasil e no exterior.

Palestras extremamente bem pagas. Tão bem pagas que alguns imaginaram que talvez não fossem palestras comuns. Talvez fossem conferências escritas em placas de titânio com tinta de ouro, guardadas em cofres suíços e lidas apenas por bilionários discretos.

Dizem que poucas dessas palestras ficaram disponíveis ao público. Eu não cheguei a ler uma sequer. Talvez tenham sido apresentações espirituais, só voz, sem gravação, sem foto, nada de papel e tinta, nem streaming.

Outro episódio digno de registro foi a mudança do Palácio da Alvorada ao final do mandato presidencial de Rachadão. Foram 11 caminhões. Um deles, dizem, transportava apenas bebidas. Entre os objetos surrupiados, havia 559 presentes recebidos durante o mandato.

Alguns observadores lembraram que tais presentes pertencem à Presidência da República, não ao Presidente da República. Que precisam ser guardados em local seguro, num museu, para preservação da história diplomática do Brasil. Como foi o caso das joias e relógios recebidos por Jair Bolsonaro (O PGR pediu o arquivamento do inquérito). Mas lapsos acontecem.

Depois, parte dos itens levados pelo Rachadão foi devolvida, outros pagos, e alguns talvez tenham decidido fazer turismo permanente em algum lugar misterioso do planeta, como cofre suíço ou panamenho.

E assim chegamos à grande corrida presidencial de 2026.

De um lado: Rachadinha, o candidato que terá de explicar chocolates, assessores, depósitos e mansões.

Do outro: Rachadão, o veterano que carrega uma coleção inteira de processos, condenações, prisão, condenações anuladas, mudanças palacianas e palestras milionárias.

Será um racha histórico.

Nunca antes na história deste país dois candidatos chegaram à largada com currículos tão robustos.

A diferença entre Rachadinha e Rachadão é mais ou menos como a diferença entre roubar galinha no quintal do vizinho e abrir um frigorífico inteiro dentro do galinheiro público. Na primeira modalidade, o dinheiro volta em parcelas modestas, quase domésticas, suficientes para pagar um churrasco político de fim de semana. Na segunda, o volume é tão generoso que exige planilhas, operadores financeiros e, às vezes, até palestras sobre ética para manter a aparência institucional.

No fundo, trata-se de uma pedagogia nacional. O cidadão aprende desde cedo que existe o furto de varejo e o furto de atacado. O primeiro, de Rachadinha, é considerado feio, pequeno, quase amador, coisa de pivete. O segundo, de Rachadão, quando bem executado, ganha nome de esquema, sistema ou mecanismo, palavras elegantes que soam quase acadêmicas para Correião, Mensalão, Petrolão, Idosão (roubo de velhinhos no INSS). A máfia italiana deve estar morrendo de inveja. Assim, o país vai formando gerações de especialistas em criatividade orçamentária, enquanto o contribuinte, esse eterno patrocinador do espetáculo, assiste ao show sem saber se ri, se chora ou se pede bis.

(E o caso do Banco Master? Petistas como o Lindinho da Odebrecht, a Amante da Odebrecht e o Sobrinho da Estocadora de Vento falam em Bolsomaster. Os não petistas falam em Lulamaster. Bobagem. A verdade é que essa operação mafiosa pecuniária-orgíaca foi bem democrática, feita para beneficiar muitos políticos, da extrema direita à extremidade radical da esquerda - além de autoridades judiciais. Será que vai aparecer algum senador sisudo e moralista com loira no colo e uísque na mão? Consta que Daniel Vorcaro, o antigo dono do Master, teria se encontrado com Lula, Xandão e outras estrelas do X (ex-Tweeter), mas não com Jair Bolsonaro, qualificado por Vorcaro como beócio e idiota. Por que será?)

E pensar que tudo poderia ser facilmente resolvido se Rachadinha e Rachadão fossem apenas uma dupla sertaneja. No máximo desafinariam um pouco, o que, convenhamos, seria um prejuízo bem menor do que o que costuma sair do bolso do público.

A pergunta não é mais quem tem mais escândalos, se Rachadinha ou Rachadão. A pergunta é: quem conseguirá sair da campanha presidencial menos sujo, apanhando menos?

A certeza é que o menos sujo nessa luta romana antiga dentro do chiqueiro acabará levando o cinturão eleitoral. Não porque seja virtuoso, mas porque conseguiu respingar um pouco menos de lama no próprio lombo enquanto o outro chafurdava com entusiasmo profissional.

O eleitor, resignado, acaba escolhendo não o melhor, mas o menos indigesto, como quem cheira o leite azedo antes de decidir qual estragou por último. E assim a democracia tropical segue seu curso peculiar, administrando o país entre um escândalo e outro. Triste país, onde a esperança costuma votar tapando o nariz, com nojinho, ou nem indo à urna eleitoral, como o isentão.

Se Rachadão perder a eleição, quantos caminhões irão sair do Palácio da Alvorada? Uns 13, para fazer jus ao número do Partido das Trevas (PT)?




sexta-feira, 6 de março de 2026

Arcabouço Fiscal & Sicário - Por Félix Maier

 

Paulo Freire e sua Pedagogia do Oprimido
 

Arcabouço fiscal & Sicário

Félix Maier

O Brasil sempre foi um país generoso em novidades inesperadas. Não apenas nas safras de frutas tropicais (faz duas colheitas de uva por ano no Cerrado), nos modismos musicais ou nas promessas eleitorais que brotam a cada quatro anos com vigor de cogumelo em bosta de vaca no potreiro. Também na linguagem oficial, que de tempos em tempos resolve presentear o povo com uma palavra nova, dessas que ninguém nunca ouviu, mas que de repente passam a frequentar jornais, discursos, entrevistas e pronunciamentos como se fossem velhas conhecidas da família.

Foi assim, por exemplo, com arcabouço.

Até pouco tempo atrás, essa palavra vivia quieta no fundo dos dicionários, como um objeto antigo guardado em armário de biblioteca municipal. De repente, saltou das páginas amareladas para a boca das autoridades. Surgiu com solenidade técnica, gravata bem passada e expressão professoral: arcabouço fiscal.

Na semana seguinte, o país já estava alfabetizado na nova palavra, mesmo sem ajuda de Paulo Freire.

Arcabouço pra cá.

Arcabouço pra lá.

Arcabouço em discurso.

Arcabouço em funk.

Arcabouço em PowerPoint.

Parecia nome de bloco de carnaval.

O brasileiro médio, que até então lidava com vocábulos econômicos mais diretos — imposto, inflação, dívida, rombo — passou a ouvir, repetidas vezes, essa palavra de sabor vagamente medieval. Arcabouço. Arcabouço fiscal. Arcabouço das contas públicas.

Nas rádios, nos telejornais, nos debates de especialistas, nos gráficos coloridos dos noticiários, lá estava ela, repetida com entusiasmo didático até pelo professor Pasquale Cipro Neto, como se fosse indispensável para a sobrevivência da República.

A curiosidade popular foi inevitável. Afinal, que diabo seria um arcabouço?

Consultados os dicionários — Aurélio, Houaiss, Michaelis, Aulete e demais autoridades lexicográficas — descobriu-se que arcabouço é, essencialmente, uma estrutura, uma armação, um conjunto de peças que sustenta alguma coisa. Em termos anatômicos, quase um esqueleto.

A revelação foi esclarecedora.

Se o arcabouço é o esqueleto — concluiu muita gente —, então o tal arcabouço fiscal seria a ossatura do sistema econômico. O problema é que, na prática brasileira, esqueletos raramente aparecem sem fantasmas por perto. Era o que dizia a prefeita petista Luíza Erundina sobre as Ossadas de Perus, em Sampa.

E foi então que alguém, com aquela sagacidade popular que nenhuma universidade consegue ensinar, fez a tradução espontânea: aquilo que estava sendo vendido como arcabouço fiscal parecia, na verdade, um calabouço fatal.

Porque, no fundo, o mecanismo tinha uma função bastante simples: organizar a maneira como o Estado continuaria arrecadando, gastando e justificando a necessidade de arrecadar ainda mais.

E arrecadar, convenhamos, não é tarefa trivial quando se precisa alimentar uma máquina pública que ostenta algo próximo de quarenta ministérios — número que transforma a Esplanada dos Ministérios numa espécie de condomínio administrativo de luxo, com direito a elevadores políticos, assessores de todas as cores ideológicas e despesas que crescem com a voluptuosidade de capim depois de chuva grossa.

Manter essa engrenagem funcionando exige criatividade fiscal. E criatividade fiscal, no Brasil, costuma significar uma engenhosa multiplicação de impostos, contribuições, taxas, contribuições sobre taxas e taxas sobre contribuições. Tudo, naturalmente, dentro de um sólido arcabouço fiscal que nada fiscaliza, só gasta. E lindamente endossado pelo IBGE de Harry Pochmann, o mago engolidor de números.

Mas o enriquecimento cultural do povo brasileiro não parou aí. Quando a nação ainda se acostumava a pronunciar arcabouço sem tropeçar na sílaba bou, se era com ç ou ss, surgiu outra palavra nova, dessas que parecem saídas de romance policial ambientado junto as máfias da Sicília: Sicário.

Durante alguns dias, o país mergulhou em mais uma aula involuntária de vocabulário. Não que no Brasil nunca tivesse havido sicários. Deve haver mais do que na Sicília, com certeza. Mas não com esse nome.

Sicário, explicaram jornais e comentaristas, vem do latim sicarius e designava originalmente o indivíduo que usava um punhal — a sica — para eliminar desafetos. Em português contemporâneo, a definição é mais direta: assassino de aluguel.

O termo apareceu ligado a um episódio envolvendo o chefão de uma instituição financeira, o Banco Master, liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central, e um personagem descrito como executor profissional de serviços nada ortodoxos, que era conhecido como Sicário. De repente, o noticiário estava repleto de análises sobre o tal Sicário. Especialistas discutiam suas conexões, comentaristas descreviam sua função no suposto esquema, e até professores universitários eram convocados para explicar a origem histórica do vocábulo.

O brasileiro comum, que até então nunca tinha usado a palavra na vida, começou a experimentá-la na conversa cotidiana, com certo cuidado fonético, como quem testa um sapato novo: si-cá-rio.

Mas a pedagogia nacional tem dessas ironias. Assim como apareceu de repente, o personagem central da história desapareceu com a velocidade de uma punhalada dada no Imbroxável, em 2018.

O Sicário — com inicial maiúscula, porque é nome próprio — morreu quando deu entrada na Polícia Federal, em Belo Horizonte. Dizem que tentou o suicídio. Morte encefálica, disseram, que já é considerada morte morrida, ainda que esteja em estado de coma. Ainda não se sabe se algum ministro do STF mandou sequestrar as imagens de vídeo naquela instituição.

Sicário morreu sob custódia oficial, dentro de uma repartição onde, em tese, a segurança deveria ser absoluta. A notícia foi divulgada com aquela cautela burocrática que caracteriza episódios incômodos. Falou-se em morte súbita, em circunstâncias a esclarecer, em investigações internas.

O povo, que mal havia terminado de aprender a nova palavra, ficou com a impressão de que o capítulo da nova novela tinha sido encerrado cedo demais. Alguns preferiram classificar o episódio com uma expressão antiga e muito brasileira: queima de arquivo. Foi uma morte matada, dizem, não morrida.

Outros limitaram-se a observar que, neste país de vocabulário sempre renovado, personagens costumam desaparecer antes mesmo que a plateia consiga decorar seus nomes.

Foi assim com Paulo César Farias. Foi assim com o prefeito de Santo André, Celso Daniel. Foi assim com a queda suspeita do avião em que viajava o ministro do STF, Teori Zavascki. Na República Federativa dos Bandidos, tudo passou a ser suspeito, especialmente as tias do Zap e as velhinhas com Bíblia na mão no 8 de janeiro.

Enquanto se discute se Sicário está de fato morto, os maiorais da República Federativa dos Bandidos estão discutindo como apresentar a melhor narrativa da morte do criminoso a seus eleitores. Esse cara não pode abrir a boca, tem muita coisa pra contar. Com frio na espinha, já devem estar fazendo lobyy na PF ou no IML, para que o sujeito seja imediatamente sepultado ou cremado.

Afinal, a podridão envolvendo o Banco Master atingiu a alta cúpula dos Três Poderes em Brasília, da extrema direita aos extremos radicais da esquerda — sem falar nas festas orgíacas ocorridas no Caribe, em Lisboa, em Trancoso, na Alameda Lorena, com mulheres espetaculares trazidas da Europa, com cachês de fazer inveja aos jogadores da Premier League. Imagina aparecer a foto ou o vídeo de um senador sisudo, moralista, com uma loira no colo e um copo de uísque na mão...

Enquanto isso, o arcabouço fiscal continuava avançando como um trem de carga administrativo, acompanhado de gráficos técnicos, entrevistas tranquilizadoras e promessas de equilíbrio das contas públicas feitas por Haddinho das Finanças – ainda que o rombo fiscal  nos últimos três anos seja acima de 1 trilhão de reais.

No plano político, porém, a paisagem permanecia fiel às tradições nacionais. Surgiam novas investigações, novas comissões parlamentares de inquérito e novos escândalos envolvendo estruturas públicas que deveriam proteger justamente os cidadãos mais frágeis.

Entre eles, os aposentados.

Notícias sobre irregularidades no sistema previdenciário voltaram a circular, trazendo à tona denúncias de descontos indevidos e fraudes que atingiam justamente aqueles que já haviam contribuído durante toda a vida laboral.

Alguns personagens eram mencionados com frequência. Outros, curiosamente, pareciam atravessar a tempestade com impressionante impermeabilidade jurídica. Blindagens institucionais — palavra elegante para designar a antiga arte de sobreviver politicamente — pareciam funcionar com eficiência admirável. Como costuma acontecer nesses episódios, nomes conhecidos demais precisaram de rápida ajuda na CPMI do INSS, como o irmão e o filho do Ogro de Nove Dedos, rapidamente blindados por um serviçal petista, Flávio Dino, colocado no Supremo pelo... pelo... próprio Ogro.

E assim o país prosseguia sua rotina peculiar: um lugar onde o cidadão aprende novas palavras com rapidez surpreendente, enquanto tenta compreender os enredos igualmente complexos que elas descrevem.

Arcabouço.

Sicário.

CPI.

INSS.

Banco Master.

Narrativa.

Expressões que vão entrando no vocabulário nacional como personagens de um grande romance coletivo, um romance que mistura economia, política, escândalo e humor involuntário.

No fim das contas, talvez seja essa a verdadeira vocação pedagógica da República Federativa dos Bandidos: ensinar linguística aplicada à realidade.

Porque, no Brasil, o povo pode até não entender completamente os mecanismos técnicos do poder, mas acaba desenvolvendo um faro quase infalível para traduzir discursos oficiais em linguagem doméstica.

E nessa tradução popular, às vezes implacável, o elegante arcabouço fiscal corre o risco permanente de virar apenas aquilo que muitos suspeitam desde o começo: um calabouço cuidadosamente decorado para jogar o contribuinte lá dentro.

Ah! E o Sicário? Continua em coma? Ainda não mexeu sequer o dedo indicador, o dedo do gatilho? Já pode ser enterrado?



quarta-feira, 4 de março de 2026

Félix Maier

 


Boa tarde

Meu currículo pode ser visto em https://felixmaier1950.blogspot.com/2021/04/felix-maier-curriculum-vitae.html

Há 26 anos, eu faço publicações na internet, inicialmente no site Usina de Letras, depois também em Digestivo Cultural e outros sites e blogs, como Netsaber, Recanto das Letras, Webartigos, Resistência Militar. Já fui por quase quinze anos articulista do site Mídia Sem Máscara, criado em 2002 por Olavo de Carvalho. Meu blog é PIRACEMA - NADANDO CONTRA A CORRENTE - https://felixmaier1950.blogspot.com/

Antes do ano 2000, eu já tinha alguns artigos e algumas cartas (miniartigos) publicados em jornais e revistas, como Jornal do Brasil, Correio Braziliense, Jornal da Comunidade (Brasília), Veja, IstoÉ, Época.

Minhas obras mais importantes estão à disposição dos leitores, em forma de e-book (veja lista abaixo).

Boa leitura!

Félix Maier


Publicações virtuais: 

 1. Egito - uma viagem ao berço de nossa civilização, Thesaurus Editora, Brasília, 1995.

https://drive.google.com/file/d/1wXkdYmX0DBYW1aHo0Fads8HKbGHgSKlT/view

 2. A LÍNGUA DE PAU - Uma história da intolerância e da desinformação

https://drive.google.com/file/d/1wDHV0YJFOZSoBwlJSSrHdl68CfJokMmf/view

 3. TRÊS EM UM - Artigos, humor e alguma poesia

https://drive.google.com/file/d/1AVrblAPdxL8NmHCezZUEQKRZ7ab7nGua/view

 4. ARNO PREIS E OS IDOS DE MARÇO DE 1964

https://drive.google.com/file/d/1qlly7cvMHL0ia6NjXBD9Oqq22Z81Xlm9/view

 5. As Covíadas: Amor e ódio nos tempos do corona

https://drive.google.com/file/d/1YgloEnwmOMnCNCvV-pDSCXg2ZwEHfeJ0/view

 6. Lira dos Setent’Anos

https://drive.google.com/file/d/1EdgwHXtR-fW3pP-enGAWEvubu5akrYmY/view

 7. Contos Infantojuvenis

https://drive.google.com/file/d/1MAOgw6pJcroGicuE2JnaPCeOXkbWt6nd/view

8. Causos de Milico

https://drive.google.com/file/d/1_xTmEEsQyoGUaUCqMlUx99p1HlpwY7KA/view

9. MEMORIAL DE LUZERNA, A PÉROLA DO RIO DO PEIXE – Uma saga teuto-brasileira. Tagore Editora, Brasília, 2025.

https://drive.google.com/file/d/1GhVU3Ke-LPfGSl19uInXTmVxb4QLQDRR/view

10. Contos Risonhos - Entre Risos e Sonhos (e alguns pesadelos)

https://drive.google.com/file/d/1KJgjPzaxTvBruRsfuYE65Cngz8dd3MGj/view

11. Homem é Fusca, Mulher é Porsche

https://drive.google.com/file/d/1EVkxXuU0cLXoWSWuYGg1r_x4iJRcxbV4/view

12. Diálogo de Dois Bagos - Com intervenção da Estrovenga

https://drive.google.com/file/d/1vWCDMQ1K8K0hEFSsRV3JvyblffQIj5Ft/view

 

Obras também disponíveis no Clube de Autores, para compra:

https://clubedeautores.com.br/books/search?where=books&what=Félix+Maier


A segunda infância - Por Félix Maier

 

A segunda infância

Félix Maier

Dizem que a vida é um círculo. Se for, o avô já está quase fechando a roda e voltando para o ponto de partida. De preferência com carrinho de rolimã, joelho ralado e uma chupeta na boca.

Ele detesta quando alguém fala em melhor idade. Melhor idade é o cacete! resmunga, enquanto tenta levantar da poltrona como se estivesse descolando um transatlântico do cais. Melhor idade só se for a do reumatismo organizado, do joelho bichado que faz previsão do tempo melhor que meteorologista, e do mijo que virou sprinkler automático — irrigação por gotejamento fora de controle. A avó, fiscal sanitária da privada, vive reclamando da tampa molhada. Isso aqui não é o chafariz da praça!

Ele nunca se conformou com esse rótulo açucarado. Melhor idade foi invenção de algum publicitário otimista, provavelmente jovem, com os dois meniscos intactos. O avô diz que, se souber quem foi, ainda dá um soco no nariz do besta, desde que o besta venha até ele e espere sentado, porque correr atrás já não dá.

Mas há algo que ninguém esperava: o velho está ficando cada vez mais criança.

Não é metáfora, não. É literal.

Outro dia estava no chão da sala, montando um forte de Lego com os netos, planejando uma resistência estratégica contra a invasão bárbara da sala de jantar. O plano incluía um bombardeio de pipoca e uma retirada honrosa para debaixo da mesa. Ele comandava a operação com seriedade militar — herança talvez de algum sargento antigo que conheceu na vida — mas, no meio da batalha, esqueceu que o quadril não foi projetado para rastejar sob sofás do século XXI. Levantou-se em três etapas, como foguete da NASA: impulso inicial, estágio intermediário com gemido e desacoplamento final com um ai, meu Deus! que ecoou pela casa.

Os netos adoram.

Para eles, o avô é um híbrido raro: mistura de super-herói cansado com palhaço involuntário. É ele quem os leva ao cinema para ver Bob Esponja, mesmo achando que aquela esponja amarela deve ter algum problema de tireoide para ser tão elétrica. No escuro da sala, ri mais alto que as crianças. Não porque entenda todas as piadas — muitas ele não entende mesmo — mas porque acha que rir alto é uma forma de protesto contra o silêncio definitivo que um dia virá.

Depois do cinema, ritual sagrado: sorvete no Chiquinho e, se a farra estiver completa, um lanche no Méqui, com sotaque de quem desconfia da globalização, mas se lambuza com o cheeseburger. A avó torce o nariz. Diz que aquilo não é comida. Ele responde que, na idade dele, tudo é experiência científica: Se não matou até agora, não mata mais.

A segunda infância tem dessas ousadias.

O curioso é que o avô, a vida inteira, foi homem contido. Engoliu opiniões, segurou palavrões, acatou decisões, cumpriu horários no trabalho. Pagou contas em dia, compareceu a velórios com gravidade sóbria, votou sem entusiasmo e trabalhou como se a eternidade fosse uma poupança rendendo juros discretos, mas crescentes.

Agora não.

Agora o tic-tac da vida está mais baixo, quase um sussurro. E quando o relógio começa a cochichar, o homem resolve falar alto.

Outro dia, na mesa do almoço, soltou uma palavra indevida, daquelas que fazem a avó arregalar os olhos e as crianças perguntarem o significado. A avó deu-lhe uma cotovelada pedagógica. Ele apenas sorriu e disse:

— Aprendam cedo. O mundo não é feito só de diminutivo.

A filha tentou repreender. Ele levantou o dedo trêmulo e declarou:

— Passei setenta anos sendo prudente. Agora quero ser interessante.

Foi também depois do nascimento do netinho mais novo que o fenômeno se agravou. O bebê apareceu em casa com seu arsenal: mamadeira, mantinha, carrinho, chupeta. O avô observava tudo com curiosidade científica, como quem estuda tecnologia de ponta.

Até que, numa tarde qualquer, pegou a chupeta do pequeno, esterilizada e reserva, e colocou na própria boca.

Silêncio na sala.

A avó levou a mão ao peito. A filha arregalou os olhos. Os netos mais velhos explodiram em gargalhada.

O avô, impassível, mascava a chupeta com ar contemplativo.

— Calmante natural — explicou. — Devia ter usado isso em 1999.

Desde então, criou gosto. Não o tempo todo, claro, ele tem reputação a zelar na padaria. Mas, em casa, vez ou outra surge com a chupeta pendurada no peito, dizendo que ajuda a organizar os pensamentos. A avó ameaça fotografar e levá-lo ao médico.

E como a vida gosta de ironias simétricas, veio também outra coincidência geracional: as fraldas.

Ou melhor, o fraldão.

Com a idade avançada e o tal sprinkler fora de sincronia, o avô resolveu aderir à praticidade moderna.

— Economia doméstica — justificou. — Menos cueca para lavar, menos calça, menos lençol. Sustentabilidade hídrica.

A avó não achou graça. Mas reconheceu, pragmaticamente, que a pilha de roupa suja diminuiu.

Agora, às vezes, estão os dois — o netinho e o avô — cada qual com sua versão do mesmo acessório, um engatinhando rumo ao futuro, outro caminhando devagar na direção oposta, ambos dependentes de tecnologia absorvente embaixo e chupeta em cima. A cena é de uma poesia meio debochada, quase uma concepção artística sobre o ciclo da vida.

O curioso é que o velho não se envergonha.

— Se começo e fim se parecem, é porque a vida escreve em versos circulares.

É nessa fase que ele também começa a cismar com projetos impraticáveis. Semana passada anunciou, com a convicção de um navegador português a serviço do Infante Dom Henrique:

— Vou aos Alpes suíços.

Assim mesmo.

Disse Alpes suíços com aquele brilho no olho de quem nunca viu neve de verdade, só geada na lavoura e raspadinha de groselha. Falou em esqui, em trenó, em cachecol ao vento. A família inteira fez silêncio respeitoso, o mesmo que se faz quando alguém muito idoso decide aprender mandarim.

Alguém lembrou, delicadamente, que os joelhos não colaboram mais. Ele respondeu que os joelhos nunca colaboraram com nada, desde os tempos de futebol society, mas sempre foram obrigados a participar.

No fundo, ele sabe que talvez não vá à Suíça. Ou, se for, irá como turista contemplativo, sentado num café alpino, tomando chocolate com leite quente, olhando jovens descerem montanhas com pernas que ainda não rangem. Mas o importante é desejar. A segunda infância não vive de prudência; vive de capricho.

Há dias em que o avô acorda com disposição de menino levado. Esconde o controle remoto. Troca os nomes dos netos de propósito. Ensina palavras antigas que ninguém mais usa. Conta histórias da época em que telefone tinha fio e respeito tinha peso.

E há dias em que ele acorda silencioso, olhando para as próprias mãos como quem examina um mapa antigo. As veias saltadas parecem rios secos. A pele tem a textura de papel-jornal já lido muitas vezes. Ele sabe — claro que sabe! — que há uma data de validade invisível impressa em algum lugar do corpo. Talvez no coração, talvez no pulmão, talvez naquela memória que começa a falhar como lâmpada piscando.

Mas, enquanto a etiqueta de validade não é anunciada, ele brinca.

Brinca com carrinho, com bola, com peteca, com palavras. Brinca com a própria imagem no espelho, fazendo caretas que fariam corar o adolescente que foi um dia. Brinca com a ideia da morte, chamando-a de a visita inconveniente.

— Quando ela vier — diz — espero que traga chocolate.

Os netos riem sem entender completamente. Para eles, o avô é eterno. Ou, no mínimo, resistente como sofá antigo.

A avó, prática, organiza os remédios para ele em caixinhas coloridas. Ele chama aquilo de kit de sobrevivência. Reclama das dores, mas não perde uma chance de inventar moda. Semana passada tentou andar de skate com o neto. Não andou. Apenas subiu e desceu do skate segurando na parede da garagem, o que já foi suficiente para provocar aplausos infantis e uma bronca conjugal.

— Você não tem juízo! Podia quebrar os quadris!

— Juízo é artigo de luxo — respondeu. — E eu já vendi o meu faz tempo.

Talvez a segunda infância seja isso: a liberdade tardia de ser inconveniente, de falar o que pensa, de rir do próprio tropeço. De usar chupeta sem pedir licença e fraldão sem drama. É quando o homem percebe que não precisa mais impressionar chefes, vizinhos ou compadres. Só precisa impressionar os netos e, para isso, basta uma careta bem-feita, um sorvete duplo ou uma fala absurda na hora errada.

Há uma ternura meio escrachada no velho. Ele fala palavrão, mas segura a mão do pequeno ao atravessar a rua. Reclama da dor nas costas, mas se abaixa para ouvir segredo contado ao pé do ouvido. Diz que melhor idade é conversa fiada de quem quer promover dança dos velhinhos, mas reconhece, em silêncio, que há algo melhor, sim: o tempo de não dever satisfações ao futuro.

Porque o futuro, para ele, já não é promessa, É boletim médico.

Então ele vive o presente como quem mastiga devagar um doce proibido, soltando a dentadura na boca, ou então com uma chupeta filosófica entre os dentes. Saboreia o riso alto no cinema. A lambança do sorvete que escorre. A bagunça da pipoca e das almofadas. Até a bronca da avó tem gosto familiar, quase carinho em forma de repreensão.

No fim das contas, talvez a segunda infância não seja regressão. É síntese. O homem volta a ser menino, mas um menino que sabe demais. Que já perdeu amigos, já errou feio, já amou torto, já engoliu orgulho. Um menino com cicatrizes, agora de fraldão e dignidade intacta, que resolve usar o pouco tempo restante como se fosse o último recreio.

E se, de repente, ele falar algo impróprio na frente das crianças, que falem. Se decidir ir aos Alpes com joelhos trêmulos, que tremam. Se molhar a tampa do vaso, que a avó reclame. É a prova de que ainda há água correndo no encanamento.

O tic-tac está mais baixo, é verdade. A contagem regressiva é irreversível. Mas enquanto houver som, por mínimo que seja, ele vai brincar com os netos fora do ritmo.

Porque a segunda infância, para esse avô, não é a melhor idade. É a última chance de ser, enfim, o moleque que a vida adulta tentou domesticar — e não conseguiu.