MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Negritude e Branquelice (Rap da Mesmice Genética) - Por Félix Maier


Operários, de Tarsila do Amaral, feita após
uma viagem à União Soviética.


Negritude e Branquelice 

(Rap da Mesmice Genética)


Félix Maier


No flow do DNA não tem cor nem bandeira,

ninguém é pitbull, nem raça verdadeira,

só humano perdido na besteira.


Refrão:

Não sou raça, não sou cor, sou consciência,

Filho da Eva, não da diferença.

Quer ter orgulho? Tenha inteligência!


(Refrão)


Negro com orgulho, branco com prisão?

Mas que raio de lógica tem essa função?

No fim, tudo irmão na mesma mutação.


(Refrão)


Sou pardo, sou índio, sou loiro, sou mel,

sou filho da Eva, sem dogma ou cordel,

mas tem uns aí que vivem no papel...


(Refrão)


Diz que é resistência, diz que é identidade,

mas segrega mais que a tal da sociedade,

tudo em nome da “representatividade”.


(Refrão)


Quer respeito? Então bora acordar:

ninguém escolheu o tom pra nascer ou amar,

mas escolhe se quer pensar ou só gritar.


(Refrão)


Preto, branco, amarelo ou café,

no fundo do osso, é tudo igual, é ou não é?

Mas no palco do ego, o show nunca dá ré.


(Refrão)


Brasil é mistura, é samba no umbigo,

mas tem nego e branquelo medindo perigo,

pra ver quem sofre mais, quem tem mais abrigo.


(Refrão)


Ciência já disse, com prova e com calma:

raça é bobagem, invenção da alma,

pra justificar quem quer ter mais palma.


(Refrão)


Raça é do canil, do canário e do boi,

mas gente é gente, não late nem rói,

só inventa castelo pra virar herói.


(Refrão)


Lobo, coiote, dálmata e cão,

cada um com pedigree e divisão —

mas humano é só um, em qualquer nação.


(Refrão)


Então para com essa de “orgulho racial”,

que isso já fede e soa até mal,

nosso único dia é o "ser racional".


(Refrão)


O Agente Secreto - Por Félix Maier

O Agente Secreto

Félix Maier

Vi o filme O Agente Secreto na noite de terça de carnaval, 17/02/2026. Wagner Moura e o cineasta Kleber Mendonça Filho já haviam conquistado os Globos de Ouro (ator e diretor), em 11/01/2026. E foram indicados ao Oscar.

Na verdade, só vi um pouco mais da metade do filme. Teria que ter estômago de tubarão para ir até o fim. Ter dado parabéns à dupla em texto de 12/01 foi precipitado. Em 18/02 faço a devida correção.

O enredo até começa bem, de suspense, em pleno carnaval da época do governo Ernesto Geisel, visto em fotos nas repartições públicas. Porém, o filme não esclarece a vida passada do protagonista, se foi um cruel assassino de algum grupo terrorista da extrema esquerda a mando de Fidel Castro ou apenas um professor aloprado cometendo crimes secretos como hobby para matar o stress das pesquisas sobre carros elétricos na universidade. Também não esclarece se a perna encontrada na barriga de um tubarão era de sua mulher.

Como todo filme de cineasta da extrema esquerda que aborda os anos da ditamole dos militares, Kleber M. Filho expõe um país governado por brutamontes corruptos e assassinos, existentes em todas as esquinas e repartições públicas. Nada de positivo tem chance de aparecer na tela. E, como também ocorre em Bacurau, do mesmo diretor, o sexo anda mais solto que a língua do Ogro de Nove Dedos depois de tomar uma branquinha. É trepada com a dentista, é trepada por trás na repartição pública, é felatio tranquilo em sala de cinema lotada, é orgia ao ar livre, como se só isso fosse o que havia de edificante nos anos 1970.

Bacana, mesmo, foi ver a parte do, digamos, manifesto de moralidade do filme, sobre a perna encontrada na barriga de um tubarão, que passa pelo IML, sai de lá mediante uma troca de perna de animal e alguns trocados no bolso, e volta a ser jogada de novo na represa onde um corpo havia sido lançado, depois de levar alguns tiros enquanto ainda estava dentro do porta-malas, envolto em panos. Muito idiotas ou muito autoconfiantes, esses matadores de aluguel, metendo bala na lataria do próprio carro, podendo atingir o tanque de combustível.

Que manifesto de moralidade foi esse?

A perna cabeluda (mais uma charada do diretor) sai da margem do lago, onde uma marola a deve ter levado, e passa a ter vida própria, como um ente vingador e moralista, dando porrada em quem encontra pela frente, especialmente uma pequena multidão que fazia sexo ao ar livre numa praça. Quase me senti vingado, com a perna ambulante impondo a moral e os bons costumes nesse país de merda tão bem retratado por Kleber. Foi a dica para desligar a TV e dormir.

Se um filme tosco, ridículo e apelativo como O Agente Secreto conquistou o Globo de Ouro e foi indicado ao Oscar, imagino o nível escroto dos filmes que não foram indicados. Prova disso é Os Pecadores, outra excrescência de violência máxima, ter recebido mais indicações ao Oscar do que Titanic.

Pela obra-prima de Kleber Mendonça Filho, sugiro que o Ministério da Cultura crie o Kikito do Kleber, para futuras premiações bacuráuticas, pernocas secretas e quetais.


***

Leia ainda O Agente Secreto, de minha autoria (12/01/2026), em https://felixmaier1950.blogspot.com/2026/01/o-agente-secreto-por-felix-maier.html

Leia também Ainda estou aqui, de minha autoria (11/03/2025), em https://felixmaier1950.blogspot.com/2025/03/ainda-estou-aqui-por-felix-maier.html

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Criatura perfeita - Por Dalila Góes e Flávia Duarte


Criatura perfeita


Zoólogo inglês explica, em cada detalhe, porque a mulher é o ser mais evoluído que existe. Confira a teoria do pesquisador e veja se você concorda.

Dalila Góes e Flávia Duarte
(Da equipe do Correio)

Depois de comparar o ser humano ao macaco e explorar suas formas, na década de 60, o inglês Desmond Morris achou que era hora de cuidar de um animal específico: a mulher. Simples assim, o estudioso mais polêmico da espécie Homo sapiens catalogou o corpo feminino como o mais extraordinário organismo do planeta. Em Mulher nua, livro lançado este mês no Brasil, Morris bate o pé e prova, pedaço por pedaço, que os indivíduos do sexo feminino são superiores aos machos. Do fio de cabelo ao pé, o zoólogo de 77 anos despedaça o corpo da mulher e salpica curiosidades históricas com pesquisa científica para explicar a perfeição das curvas femininas.

No mundo acadêmico, Desmond Morris ganhou respeito com O Macaco nu, de 1967. A importância do trabalho, na visão de outros cientistas e pensadores, foi o estudo do processo evolucionário humano, do pensamento ao desenvolvimento físico. Hoje, separar a mulher do homem e analisá-la zoologicamente causa estranheza. Mas o inglês explica, para horror das feministas e deleite das publicações femininas, porque as moças são assim tão perfeitas e cheias de curvas. Para começo de conversa, Desmond Morris diz que os homens são mais infantis no comportamento. Já a mulher é mais razoável e ainda tem no próprio corpo características de criança, como uma pele macia, por exemplo. Daí a fêmea é anatomicamente mais evoluída.

Mas nem precisa estudar zoologia para concordar com o inglês. O professor Antônio Guilherme Moreira Porto, doutor em anatomia, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), afirma que o organismo da mulher é só o mais desenvolvido como o mais complexo. Em uma analogia bem simples, o anatomista compara o homem a um Fusca e a mulher a um Porsche. É só dar um empurrãozinho que o homem sai andando. Já com a mulher, tem que saber a hora certa de frear e como fazer as curvas.

Em cima do palco, a superioridade dá lugar à funcionalidade. Na companhia de dança Débora Colker, mulheres e homens ocupam o mesmo espaço, tanto que da platéia muitas vezes é difícil distinguir o sexo do bailarino. Mas se a plástica do espetáculo exige uma forma mais delineada, opta-se por uma mulher. Mas isso não implica necessariamente uma pessoa de traços mais suaves ou com menos força física, explica a coreógrafa.

Na cabeça do doutor José Meciano filho, do Departamento de Anatomia do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a lógica de Desmond Morris da mulher perfeita morre a partir do momento em que homens e mulheres são biologicamente perfeitos. Sim, são máquinas perfeitas. O organismo humano é uma máquina maravilhosamente bem planejada. Cada um, claro, com sua funcionalidade, mas perfeitos. Não existe o melhor, destaca.

Perfeita ou não, a Mulher nua, de Desmond Morris, chama atenção. Questionado sobre um tal estudo semelhante sobre o corpo do homem, o pesquisador graceja: Não vejo graça nenhuma em um sujeito barbado. Não quero escrever sobre eles. Eu gosto, adoro, é mulher. E provoca: Top models, a maioria dos estilistas é gay, quer vestir a mulher como um homem, sem formas. Homens de verdade gostam de curvas.

Vestibular da mulher

1. O ser humano possui cerca de 100 mil fios de cabelo. Quem tem menos fios na cabeça?
a) Loiras
b) Morenas
c) Ruivas
d) Tanto faz

2. Dentes escuros foram moda em vários países e épocas. O que as mulheres faziam para escurecê-los?
a) No Vietnã antigo, aplicavam verniz e ficavam se comer sólidos por uma semana
b) No Japão medieval, pintavam com pó de nanquim, saquê e nozes trituradas
c) Na Inglaterra, à época de Elizabeth I, pintavam com um pasta de tabaco
d) No Sudeste Asiático, no século 19, mascavam torrões de açúcar

3. Nos anos 90, a moda dos jeans de cintura baixa destacou os umbigos femininos. A esse respeito, é verdade que:
a) O uso de piercing no umbigo deixa a região mais rasa
b) Entre os mamíferos, só os seres humanos possuem umbigos
c) Umbigos foram apagados das primeiras fotos do século 20
d) A mulher asiática tem o umbigo em forma de fenda

4. Os gregos admiravam qual parte do corpo feminino?
a) A aba do nariz
b) O cantinho da boca
c) O pomo-de-adão
d) As covinhas das costas

5. Qual imagem era usada pelas igrejas da Europa medieval para se proteger do Olho do Diabo?
a) Uma mão feminina espalmada
b) Um dedo feminino tocando o seio direito
c) Genitais femininos abertos por duas mãos
d) Mãos entrelaçadas em um círculo

6. O piano foi concebido para mãos masculinas, por isso os grandes pianistas são homens. A mão da mulher supera a do homem em:
a) Resistência óssea
b) Flexibilidade
c) Tamanho
d) Força muscular

7. É falso que:
a) Homens e mulheres exalam os mesmos odores no suor
b) A mulher possui mais glândulas sudoríparas que o homem
c) Os japoneses não têm odor nas axilas
d) Na Áustria rural, o homem comia a maçã que a parceira colocava na axila

Gabarito

1. C) As ruivas têm cabelos mais espessos, por isso têm menos fios, 90 mil, em média. As loiras têm cerca de 140 mil, enquanto as morenas têm 108 mil.

2. A) Na Inglaterra, à época de Elizabeth I, dentes escuros eram sinônimo de alta classe. No Japão, no século 17, os dentes pretos (ohaguro) eram tingidos com limalha de ferro diluída em saquê ou chá. No Vietnã antigo, elas passavam nos dentes um verniz que as impedia de comer alimentos sólidos.

3. C) No início do século 20, as fotos eram retocadas para dar a ridícula impressão de que o ventre da mulher é completamente liso.

4. D) As covinhas do sacro, duas pequenas depressões situadas de cada lado da base da coluna, bem acima dos glúteos, estão presentes nos dois sexos, mas são mais perceptíveis nas mulheres.

5. C) A imagem de genitais femininos abertos por duas mãos supostamente protegia as igrejas do Olho do Diabo. A idéia era distrair o olho mantendo-o ocupado com uma imagem fortemente sexual.

6. B) As mãos femininas têm mais facilidade de manejar objetos pequenos. Se o teclado do piano fosse menor, a maior flexibilidade dos dedos faria as mulheres pianistas superarem os homens.

7. A) Homens e mulheres produzem odores diferentes, o que indica que as glândulas sudoríparas atuam como sinais sexuais entre parceiros amorosos.

De 0 a 2 acertos:
Sua referência de mulher são As Meninas Superpoderosas. Chega de desenhos animados. Volte para o mundo normal.

De 3 e 4 acertos:
Você se esforçou, mas sua convicção de que homens e mulheres são iguais atrapalha seu raciocínio.

De 5 e 6 acertos:
Não sabemos se você é homem, mulher ou zoólogo. Mas seu interesse pelo sexo feminino é demais.

7 acertos:
Você colou do livro! Só pode ser isso. Ou você acha que alguém normal é capaz de saber tanta coisa?


Vamos por partes

Cabelos:

Face lisa e cabelos compridos usados ao longo da evolução criaram um visual estético bastante atrativo para o homem. Pentear os fios sempre fez parte da alma feminina e do jogo da sedução. Assim sendo, para Morris, cabelos volumosos fazem as feições parecerem delicadas e atraentes, cabelos curtos dão o ar de mulher ativa e independente.

Olhos:

A maquiagem é usada há mais de seis mil anos, em quase todas as civilizações, para destacar os olhos. As pupilas também reagem diante de uma visão atraente. Nessa hora, dilatam. O zoólogo Morris conta que as cortesãs da Itália pingavam gotas de beladona nos olhos quando recebiam seus visitantes. Isso dilatava muito as pupilas e as tornava mais atraentes, porque dava aos homens que as olhavam a falsa impressão de que eram amados.

Mãos:

As mãos delas são mais flexíveis e têm mais delicadeza para manusear pequenos objetos. Quando os humanos se puseram de pé, deixaram livres as patas dianteiras para a manipulação. Os homens adquiriram uma força manual duas vezes maior que a das mulheres. Elas, a precisão. O argumento seria de que tal capacidade foi resultado da divisão de tarefas pelos ancestrais. Cabia a elas arrancar as raízes, escolher sementes, colher frutos: tarefas mais adequadas a dedos ágeis e flexíveis.

Nádegas:

Atributo exclusivamente humano, o bumbum da mulher brasileira é paixão em território nacional e até fora daqui. E elas se tornaram maiores à medida que a espécie humana evoluiu. Com a expansão dos músculos glúteos os humanos puderam ficar permanentemente de pé. Na mulher, Morris reforça, as nádegas têm mais que uma função anatômica.

Pés:

Mais uma vez, outra parte do corpo que prova a diferença entre eles e elas. Pés femininos são menores e mais estreitos. Na linha da evolução, o macho ia para a caça e os pés maiores representavam uma vantagem. Como as fêmeas eram poupadas de tal esforço, os delas se desenvolveram menos e permaneceram mais ágeis e delicados. Sendo assim, as mulheres com pés avantajados são vistas como menos belas e não é de se estranhar que algumas cheguem ao cúmulo de esmagar os ossos do pé para diminuir seu tamanho, como acontecia com as chinesas até o século passado.

Nariz:

Quanto menos, mais bonito. Talvez por isso tantas mulheres recorrem aos cirurgiões plásticos para deixá-los mais delicados. Analisando a evolução humana, à medida em que o rosto foi se achatanto, o nariz permaneceu no mesmo lugar.

Lábios:

Os lábios humanos são os únicos na natureza a serem curvados para fora. A explicação para tal forma está mais uma vez na evolução humana. Para sugar o leite no seio da mãe, o bebê recurva o lábio. Quando a mulher se excita, eles se tornam vermelhos, razão pela qual o batom dessa cor ainda é o preferido na hora da sedução.

Seios:

Têm duas funções: produzir o leite materno e despertar o desejo sexual do sexo oposto. De todos os mamíferos, a fêmea humana é a única que não perde o volume dos seios depois da amamentação. Se antes as fêmeas dos primatas andavam sobre quatro patas e excitavam os machos com a exposição do traseiro, quando se tornaram bípedes as nádegas ficaram fora do campo de visão masculino. Assim, os seios se avolumaram.

Cintura:

Por causa do volume dos seios e dos quadris, a cintura feminina é mais fina do que a do homem. Por algum tempo, elas forçaram a natureza e tentaram fazer com que a silhueta parecesse ainda mais delgada. A biologia explica que depois do primeiro parto a cintura nunca mais terá as medidas de antes. Por isso, cintura fina é sinônimo de virgindade. [Virgindade ou maternidade?]

Genitais:

Ainda sobre quatro patas, a genitália da fêmea ficava totalmente escondida. Já sobre duas pernas, nossos ancestrais perceberam que não podiam deixar de exibir a parte frontal do corpo sempre que se aproximavam de outro membro da espécie. Na prática, ficava impossível chegar perto do sexo oposto sem a conotação sexual. Por isso os humanos passaram a cobrir as genitálias e foi aí que surgiu a tanga. Nenhuma outra parte do corpo da mulher é tão sensível ao toque.

Pernas:

Séculos atrás, mostrar as pernas era o mesmo que fazer um convite em tom erótico. Os homens têm especial atração pelas pernas femininas e a explicação de Desmond está na forma como as pernas se juntam. A cada movimento das pernas, o foco da atenção é voltado para o ponto de encontro das mesmas: o órgão sexual da mulher.

(Texto extraído da “Revista do Correio”, do jornal Correio Braziliense, domingo, 7 de agosto de 2005, pg. 25 a 27).


Obs.: A análise do pesquisador inglês não deve ter agradado as feministas, pois, segundo o estudioso, a mulher evoluiu principalmente para atender à satisfação sexual do macho. Porém, uma coisa ninguém pode contestar: a mulher é de fato uma criatura perfeita. Já o homem... (F. Maier)

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

500 ANOS DE RESISTÊNCIA INDÍGENA, NEGRA E POPULAR - Por Félix Maier

Monumento à Terra Mineira, Belo Horizonte, MG.
Thabata Pinheiro Campos, que se identifica como indígena 
da etnia Borun Xonin, picha BRASIL TERRA INDÍGENA.
 (14/12/2025)


500 ANOS DE RESISTÊNCIA INDÍGENA, 

NEGRA E POPULAR



O Movimento 500 anos de resistência indígena, negra e popular foi criado nas comemorações dos 500 anos do Descobrimento da América, que visava rediscutir (revisionismo) a história da colonização do continente sob a ótica marxista, ao mesmo tempo em que tinha por objetivo varrer das Américas todos os traços da civilização cristã.

Dentro da prática da legenda negra, a ideia era diabolizar as sangrentas conquistas espanhola e portuguesa da América, ao mesmo tempo em que os indígenas eram apresentados como seres angelicais.

Durante a conquista espanhola, relatos, como os de Bartolomé de las Casas, destacavam o “genocídio” promovido contra os índios. As denúncias do frade dominicano foram reproduzidas com gosto pelos maiores adversários do reino espanhol - os protestantes. Com a conquista da América e a unificação a Portugal, em 1580, a Espanha teve em mãos um dos maiores impérios da história - um império católico. (...) Protestantes holandeses, ingleses, franceses e germânicos trataram de invalidar o direito dos espanhóis sobre os territórios americanos (NARLOCH, 2011: 83).

Sociólogos e historiadores de linha marxista, incluindo padres da teologia da libertação, acusam os espanhóis e os portugueses de terem imposto sua cultura e sua religião aos índios, além de escravizá-los. Era exatamente isso o que faziam os incas com seus inimigos. Entre aqueles que haviam sido dominados por Atahualpa ou que tinham se aliado ao irmão dele, Huáscar, na disputa pela soberania do império, a morte de Atahualpa os salvou de anos de trabalhos forçados, de punições e até mesmo a morte. (...) Talvez metade das pessoas dos Andes estivesse disposta a se aliar aos espanhóis para se salvar da sangrenta vingança que as forças de Atahualpa já vinham promovendo com muitos partidários de Huáscar (idem, pg. 89).

Muito antes da política de liquidificador de Stálin e Pol Pot, o exército inca promovia migrações forçadas. Os arqueólogos estimam que as migrações atingiram entre 20% e 30% da população - por conta dessa política, um quarto de todos os povos andinos morava em terras estrangeiras (idem, pg. 92). E os sacrifícios humanos dos astecas, no México? Relatos espanhóis do século 16, com base em histórias contadas pelos índios, falam em 80.400 mortes em 1487, durante a inauguração do Templo Maior de Tenochtitlán (idem, pg. 98). O Códice Telleriano-Remensis, baseado em pinturas narrativas dos astecas, diz que foram apenas 4.000 pessoas que tiveram o coração arrancado e jogado para rolar pirâmide abaixo (Cfr. pg. 99).

A mesma barbárie era feita pelos maias: Um garoto de cinco anos, cujos restos mortais foram encontrados em 2005 numa base da parte sul do Templo Maior de Tenochtitlán, teve os braços colados às asas de um gavião. Baseados nas diversas marcas na parte interna das costelas, arqueólogos concluíram que o elemento cortante, provavelmente uma faca de sílex, ‘entrou na cavidade torácica a partir do abdômen’, rasgando os músculos para chegar ao coração (idem, pg. 101). O filme Apocalypto (2006), de Mel Gibson, retrata perfeitamente esses fatos escabrosos.

A mesma anticomemoração ocorreu durante os 500 anos do Descobrimento do Brasil, em que a História nacional foi execrada e renegada, como a formação da sociedade brasileira, a arquitetura barroca, a Semana da Arte Moderna, os grandes escritores. Um relógio da Rede Globo, que fazia a contagem regressiva dos 500 anos, foi depredado em Porto Alegre, RS. Foram lembrados apenas o genocídio indígena, a Inquisição católica e fatos pitorescos, como o do padre tarado, que, em visita religiosa a mulheres doentes, possuía sexualmente todas as mulheres da casa, além da própria doente, para uma mais rápida recuperação física.

Legenda Negra

O mesmo que Lenda Negra, expressão cunhada pelo escritor espanhol Julián Juderías, em 1914. Movimento de diabolização dos conquistadores da América, centra seus ataques principalmente contra a Igreja Católica na América Latina. A Legenda Negra promove o retorno ao pelagianismo e ao paganismo religioso indígena e africano. Personagens influentes do movimento: Frei Beto, diretor da revista America Libre, órgão oficial do Foro de São Paulo (FSP), e Leonardo Boff. Este último empenha-se na implantação de um cristianismo indo-afro-americano inculturado nos povos, nas peles, nas danças, nos sofrimentos, nas alegrias e nas línguas de nossos povos, como resposta a Deus (na carta em que renuncia ao sacerdócio, em 29/6/1992). Ou seja, é a pregação do fim da Civilização Ocidental cristã, com a volta do ser humano a seu estado primitivo (canibalismo, magia negra, sacrifício de seres humanos etc.).

Legenda Negra contra Pio XII

Periodicamente, a mídia volta a insistir na mentira do milênio passado, de que o Papa Pio XII foi omisso e insensível frente ao massacre nazista promovido contra os judeus. Há vários livros que tentam difundir essa mentira, como O Papa de Hitler, do embusteiro John Cornwell, um best-seller de anos atrás. Livros sérios, que desmentem a calúnia contra Pio XII, como The Myth of the Hitler Pope, do rabino David Dalin, e The Defamation of Pius XII, do filósofo Ralph McInnerny, continuam inacessíveis ao público em geral e nunca foram mencionados pela mídia ideologicamente comprometida com o anticlericalismo. Também nada se diz sobre o livro A Santa Sé e a questão judaica (1933-1945), de Alessandro Duce, professor extraordinário de História das Relações Internacionais nas Faculdades de Ciências Políticas e de Jurisprudência da Universidade de Parma. Atualmente, com o andamento do processo de beatificação de Pio XII, muitas vozes, inclusive judaicas, continuam a propalar a mentira. O Papa Bento XVI, com a força moral e intelectual de que está investido, está reagindo à altura contra as calúnias, refutando didática e enfaticamente as falsas acusações que pesam contra Pio XII. Por isso, para reconduzir a verdade para o lugar que ela merece, leia http://www.conteudo.com.br/lenda-negra-contra-pio-xii-o-papa-de-hitler/?searchterm=veja. [endereço indisponível]

Nota:

NARLOCH, Leandro; TEIXEIRA, Duda. Guia politicamente incorreto da América Latina. Leya, São Paulo, 2011.


P. S.: 

Lenda Negra contra Pio XII

Por Zenit.org, durante o Papado de Bento XVI

https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/10/lenda-negra-contra-pio-xii-por-zenitorg.html




segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Hamster Digital - Por Félix Maier

 


Hamster Digital

Félix Maier

Outro dia reparei que a humanidade descobriu finalmente o moto-contínuo. Não foi a ciência, nem a engenharia alemã, muito menos um gênio esquecido num porão da USP. Foi o celular. Mais especificamente: o dedo polegar.

O ser humano moderno passa horas fazendo um único movimento repetitivo, hipnótico, automático — para cima, sempre para cima — como se estivesse empurrando o mundo para fora da tela. Não anda, não corre, não pensa: rola. Rola imagens, rola vídeos, rola opiniões, rola indignações prontas. É o hamster da era digital, só que em vez de serragem, corre sobre pixels.

A imagem é perfeita: um hamster feliz, sorridente, dentro de uma rodinha brilhante, girando sem sair do lugar. Troque a rodinha por um smartphone e pronto: eis o retrato da nossa época. A diferença é que o hamster original pelo menos se exercita. O digital só engorda, comendo porcaria pedida pelo celular no Méqui.

Os jovens, sobretudo, desenvolveram uma alergia misteriosa aos livros. Não é preguiça — é reação física mesmo. Ao abrir um volume de papel, os sintomas aparecem: coceira existencial, tédio agudo, vontade súbita de conferir notificações que não existem. Já se sabe que alguns chegam a espirrar os pulmões e as tripas ao sentir cheiro de biblioteca. Papel, coitado, virou substância altamente tóxica.

As bibliotecas, aliás, mudaram de função. Antes eram depósitos de silêncio e ideias. Hoje são coworkings de chat. Jovens entram, sentam-se, ligam o Wi-Fi, abrem o notebook e o celular ao mesmo tempo — redundância é segurança — e passam horas conversando com pessoas que não estão ali, ignorando solenemente as que estão. Os livros observam tudo, calados, com aquela dignidade de móvel antigo que sabe que será herdado por ninguém.

A impressão que se tem é que os hamsters digitais de duas pernas roeram todos os livros das bibliotecas. Não para ler — para destruir mesmo. Roer lombadas, mastigar páginas, triturar parágrafos. O conhecimento virou serragem. O que sobrou foram capas bonitas para selfies intelectuais: Na biblioteca, estudando, legenda obrigatória, livro fechado, câmera aberta, cérebro em modo avião.

Os mais velhos, convém dizer, não escaparam da mutação tecnológica. Apenas disfarçam melhor. Antes reclamavam da televisão; agora reclamam do celular… pelo celular. Dizem que no meu tempo era diferente enquanto passam três horas seguidas assistindo a vídeos de acidentes, fofocas políticas e médicos explicando, em 30 segundos, doenças que antes exigiam seis anos de faculdade. Viraram hamsters com nostalgia.

O celular, essa praga portátil, é mais letal que uma bomba atômica. A bomba destrói cidades; o celular destrói a atenção, que é muito pior. Sem atenção não há leitura, sem leitura não há pensamento longo, e sem pensamento longo a humanidade vira uma sucessão de frases curtas, opiniões recicladas e certezas inflamadas.

Nunca se soube tanto e nunca se pensou tão pouco. O hamster digital não ignora tudo — ele sabe um pouco de tudo, superficialmente, mal-acabado, fragmentado. É um erudito de rodapé, um sábio de manchete. Conhece títulos, não conteúdos. Tem opinião formada antes mesmo de entender a pergunta.

Outro efeito colateral grave é a ilusão de movimento. O hamster corre, corre, corre… e continua no mesmo lugar. O usuário rola, rola, rola… e continua exatamente igual, só que mais cansado. Ao fim do dia, sente-se exausto sem saber por quê. Trabalhou? Pensou? Criou algo? Não. Apenas girou a telinha.

As conversas também foram afetadas. Antigamente, as pessoas se interrompiam para discordar. Hoje se interrompem para conferir o celular. É um diálogo entre polegares. O silêncio deixou de ser pausa para reflexão e virou sinal de Wi-Fi ruim. Se a tela apaga, o mundo acaba.

Há casais sentados à mesma mesa, cada um em sua rodinha particular, correndo em direções opostas sem sair do lugar. O amor virou notificação silenciosa. A atenção plena é item de luxo. Olhar nos olhos parece invasivo demais, quase indecente. A mesa de jantar, além de facas, garfos e colheres, ganhou novo talher: o celular.

E, no entanto, ninguém larga o aparelho. O hamster poderia sair da roda, mas não sai. Há algo ali — dopamina, pertencimento, medo de ficar de fora — que o mantém correndo. Talvez seja isso: o pavor de parar e perceber que, fora da tela, existe tempo. E o tempo, ao contrário do feed, não pode ser rolado para cima.

Porque um dia, sem alarde, sem trend, sem aviso prévio, um hamster digital para. Não porque alguém mandou, não porque leu um manifesto, mas porque o polegar cansou. Ele olha em volta. Vê um livro esquecido numa prateleira, sobrevivente da roedura geral. Abre por curiosidade, quase por tédio.

E algo estranho acontece: o texto não rola. Ele exige permanência. Não pisca, não vibra, não recompensa com curtidas. No começo é desconfortável. Depois é libertador. O hamster percebe que, pela primeira vez em muito tempo, não está correndo. Está andando. Avançando de verdade. Saindo do lugar.

A roda continua girando ao redor — milhões de polegares ainda em movimento — mas aquele hamster desce. Senta. Lê. Pensa. Ri sozinho. Fecha o livro com a sensação rara de quem chegou a algum lugar.

E descobre, espantado, que o mundo fora da rodinha ainda existe.

Silencioso. Imperfeito. Mas, profundamente humano.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O Bug do Milênio (o mundo não acabou, mas resolveu piorar) - Por Félix Maier

 

O Bug do Milênio

(o mundo não acabou, mas resolveu piorar)


Félix Maier

O ano de 2000 começou como começam os fins do mundo: com PowerPoint, atas, coffee break e uma convicção absoluta de que ninguém sabia exatamente do que estava falando. Chamava-se Bug do Milênio, um nome curto para um apocalipse longo, técnico e internacional. A profecia era clara: quando os computadores vissem o ano “00”, entenderiam “1900”, entrariam em pânico existencial e, como qualquer sistema nervoso mal programado, levariam tudo junto.

Aviões cairiam do céu como mangas maduras. Bancos esqueceriam quem devia a quem. Esgotos não tratados seriam liberados sem pudor — beberíamos merda líquida, como se fosse um novo isotônico. Mísseis nucleares, confusos com a data, poderiam ser lançados por engano, talvez para comemorar a virada do milênio. O Apocalipse Segundo Bill Gates.

No Ministério da Defesa, onde eu trabalhava, formou-se um Grupo de Trabalho — entidade mística que surge sempre que ninguém sabe o que fazer, mas alguém precisa parecer ocupado. Sentavam-se à mesa generais, coronéis e técnicos de informática. Os primeiros sabiam mandar, os segundos sabiam obedecer e os terceiros sabiam que nada daquilo fazia muito sentido.

— E se os radares pararem? — perguntou um general, franzindo o cenho como quem encara o fim da civilização.

— A gente reinicia — respondeu o técnico, com a serenidade de quem já tinha visto Windows travar coisa pior.

— Reinicia o quê? O país? — retrucou o general.

Fizeram-se planos de contingência. Simulações. Checklists. Alguém sugeriu imprimir tudo, por segurança. O papel, afinal, ainda não tinha bug. As empresas de TI faturaram como nunca. Atualizações, patches, consultorias, cursos, certificados, manuais em inglês traduzidos às pressas para português técnico — aquele idioma que ninguém entende, mas assina.

E então veio a noite de 31 de dezembro de 1999. O relógio correu. O mundo prendeu a respiração. O ano virou.

Nada.

Nenhum avião caiu. Nenhum míssil saiu por engano. O esgoto seguiu seu rumo habitual de purificação, que no Brasil já não era grande coisa. O bug, ao que tudo indicava, tinha sido vencido — ou nunca existira. O mundo não acabou. Mas algo, silenciosamente, começou a dar errado.

O terceiro milênio amanheceu com outro tipo de pane: a trilha sonora. Se o Bug do Milênio não derrubou sistemas informáticos, derrubou qualquer esperança de bom gosto. O funk espalhou-se pelas rádios e televisões como uma praga bíblica — daquelas que o Antigo Testamento teria vergonha de listar.

Um tapinha não dói atravessava paredes no Rio de Janeiro, numa casa vizinha à da minha sogra Zoé, durante uma noite inteira de férias de janeiro, em 2001. O volume não diminuía, o refrão não acabava, e a letra parecia escrita por alguém que tinha brigado feio com o dicionário.

— Isso é música? — perguntou dona Zoé, às três da manhã, com a dignidade de quem já sobreviveu à Segunda Guerra e a três planos econômicos.

— É o futuro — respondi, pessimista.

— Então o futuro devia pedir desculpas.

Na televisão, programas infantis ensinavam coreografias que sacrificavam joelhos e valorizavam lombares. É o Tchan, Eguinha Pocotó, Dança do Créu em festas juninas de escolas de 1ª à 5ª Série. Mães incentivavam, orgulhosas, como se estivessem preparando pequenos atletas para as Olimpíadas do Rebolado. O folclore, que antes tinha boi-bumbá, balaio e fogueira, foi sendo substituído por garrafas plásticas e coreografias que fariam corar um estivador do Porto de Santos em 1964.

Bailes se multiplicavam — em favelas, chácaras, ruas, clubes, iates, com muito pó branco. Tudo virou trenzinho. Tudo virou batida. Tudo virou excesso. O bug, afinal, não era tecnológico: era cultural.

Nas artes e na música, instalou-se o verdadeiro colapso sistêmico. Surgiram MCs tatuados, musculosos, adornados com correntes de ouro que fariam um navio mercante se sentir subequipado. Rapeavam platitudes sobre nada, com vento na cabeça e convicção no olhar, como se estivessem fundando uma nova Renascença — só que sem Leonardo, sem Michelangelo e sem vergonha.

Essa estética da gritaria, da pichação, da violência como marketing e da vulgaridade como virtude espalhou-se pelo mundo e foi rapidamente copiada no Paraíso do Vira-Bosta, onde tudo que é ruim chega rápido e tudo que é bom fica preso na alfândega.

O Brasil, que já teve Pixinguinha, Noel Rosa, Tom Jobim, Chico, Caetano, Elis, Milton, Gonzaga, virou um grande karaokê desafinado. O sertanejo universitário — que não é sertanejo nem universitário — passou a dominar tudo. Vozes agudas, sofridas, dramáticas, imitando Xororó e Zezé di Camargo como se fossem castrati modernos, castrados não pela arte, mas pelo algoritmo.

O Brasil, tão rico em música nos anos 1960 a 90, hoje é convidado a ouvir gritaria sertanojo, baixaria funk e lixo piseiro. Não mais em fitas K7, nem CDs, nem DVDs. Agora é streaming. O lixo, finalmente, ficou sustentável: reciclável, infinito, onipresente. Não apenas Veneza e Nova York estão afundando. O Brasil também submerge, lentamente, em sua própria indigência cultural.

— Isso é o sinal dos tempos? — perguntei a um amigo.

— Não. É só o gosto médio de um país ignorante.

Enquanto isso, um bug político se instalava com atualização automática. Em 2003, o Ogro de Nove Dedos ascendia ao poder, como se o país tivesse clicado em aceitar termos e condições sem ler nada. O sistema passou a travar moralmente, socialmente, economicamente. Corrupção virou rotina, escândalo virou ruído, indignação virou cansaço.

E então veio o telefone celular. A grande bênção se revelou também uma praga portátil. Uma bomba atômica de bolso. A juventude, agora, não tem tempo para livros — está ocupada demais masturbando a estrovenga tecnológica, rolando infinitamente, como hamsters digitais.

— Você já leu esse autor clássico? — perguntei a um amigo.

— Não, mas vi um resumo em 30 segundos.

O bug final talvez seja esse: uma humanidade que já não lê, não escuta, não espera — apenas desliza o dedo, convencida de que entender o mundo em meio minuto é sinal de progresso.

E antes que alguém diga que tudo começou agora, lembremos do Xou da Xuxa. Ilariê destronou cirandas, cantigas, músicas folclóricas. A infância passou a usar figurino, maquiagem, coreografia. Tudo muito colorido, tudo muito alegre, tudo muito cedo. A adultização não nasceu na internet. Só ganhou Wi-Fi.

Por isso causa espanto quando um influencer descobre hoje o que já acontece há décadas.

— Onde ele estava? — pergunto.

— Quem?

— O Felca.

— Em Plutão, talvez.

E como tudo que é ruim pode piorar, surge uma cena carnavalesca em que uma mulher adulta canta luxúria ao lado de uma criança em palco festivo, sob aplausos. É o caso de Ivete Sangalo, cantando Vampirinha: Vou te chupar, chupar teu pescoço, te chupar todin, chupar, chupar, chupar com gosto

Depois de tanto tempo normalizando a imundície, ainda há quem pergunte se dá para criticar. Dá. Sempre dá. O bug mais perigoso é achar que não dá mais.

O Bug do Milênio não destruiu sistemas informáticos. Desorganizou valores. O mundo não acabou em 2000. Mas desde então parece rodar sem antivírus.



quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

A chave mestra - Por Félix Maier

 

A Chave Mestra

Félix Maier

Tripé não nasceu Tripé. Ninguém nasce Tripé; a gente vira. O apelido, como todo apelido que presta, veio depois de um acidente sem vítimas, mas com testemunhas suficientes para atravessar gerações. Há versões. A mais aceita é a de que Tripé, além de uma estabilidade emocional invejável (para os padrões de quem troca de casa como quem troca de canal), era dono de um certo membro avantajado — vantagem essa que, dizem, lhe dava equilíbrio extra, como as pernas suplementares de um equipamento profissional. Daí o Tripé. O nome pegou, como chiclete em sapato novo.

Tripé era casado. Casado mesmo, com certidão, fotos amareladas e sogra de opinião formada. Mas Tripé também era, digamos, logisticamente ambicioso. Tinha uma chave mestra. Não no sentido metafórico — embora também —, mas literal: uma chave que abria quatro portas. A sua casa, a casa oficial, a matriz. E mais três casas de suas amantes fixas, filiais cuidadosamente administradas, cada uma com seu “ninho” preparado com zelo de gerente de hotelaria.

Tripé não era um qualquer. Era um profissional. Qual paxá islâmico, tratava as quatro com rigorosa igualdade, como manda a lei — a lei dele, claro. Em todas as casas, havia um só tipo de sabonete, sempre o mesmo, neutro, sem perfume acusatório. Um só tipo de perfume masculino, comprado em lote, para não variar a nota de cabeça e levantar suspeitas nas notas de rodapé. As mesmas toalhas de banho, brancas, felpudas, compradas no mesmo dia, na mesma loja Havan, para envelhecerem juntas. E, sobre a mesa da sala, os mesmos bombons Sonho de Valsa, estrategicamente dispostos, como quem diz: aqui também se sonha, mas sem exageros.

Tripé acreditava que o segredo da bigamia — e da tetragamia — era a padronização. Onde há padrão, há silêncio. Onde há silêncio, há paz. Sua vida ia firme como tripé de câmera fotográfica e de cinema: estável, com três pernas bem plantadas no chão. Era o orgulho do bairro, embora o bairro não soubesse exatamente do quê.

Ele tinha um cronograma. Segunda e quinta, matriz. Terça, filial A. Quarta, filial B. Sexta, filial C. Sábado era território neutro, reservado para churrascos familiares, jogos de futebol e cochilos estratégicos. Domingo, dependendo da rodada do campeonato e do humor da matriz, podia ser folga ou plantão extraordinário num outro ninho.

Tudo ia às mil maravilhas até o dia em que uma das passarinhas — chamemos de Beatriz, porque Beatriz sempre foi nome de mulher que faz poesia com pequenas maldades — resolveu inovar. Não por vingança declarada, não por desconfiança comprovada. Por intuição. E intuição, como se sabe, não pede provas; pede palco.

Beatriz colocou um lenço perfumado no paletó de Tripé. Um lenço discreto, elegante, com um perfume que não constava no manual de padronização do nosso herói. Não era um perfume qualquer: era um perfume com memória. Desses que entram no elevador antes da pessoa e ficam esperando o comentário.

Tripé não percebeu. Tripé raramente percebia. Sua confiança no sistema era tão grande que ele acreditava que o sistema se autorregulava. Vestiu o paletó, beijou Beatriz no rosto (gesto protocolar) e foi para casa da matriz, assobiando uma música antiga, dessas que não denunciam nada.

Na sala, a esposa — chamemos de Matilde, porque Matilde sempre sabe mais do que aparenta — sentiu o cheiro antes de vê-lo. O olfato feminino, esse radar de curto alcance e longo alcance ao mesmo tempo, captou a intrusa. Matilde não disse nada. Apenas esperou o jantar, o telejornal, o café. Depois, no momento exato em que Tripé se sentou para ler o Estadão — sim, Tripé é das antigas, jornal só no papel , Matilde perguntou, com a voz de quem pergunta o horário:

— Que perfume é esse?

Tripé travou. Não muito. Apenas o suficiente para derrubar uma perna do tripé imaginário. Disse qualquer coisa. Uma coisa genérica. Uma coisa que não ofende ninguém e não explica nada.

— Perfume novo da loja.

Matilde sorriu. O sorriso que não chega aos olhos. O sorriso que pede CPF na nota fiscal.

— Curioso — disse ela. — Porque não é o seu perfume.

Silêncio. O jornal caiu no chão, como caem as folhas nos romances russos quando alguém morre.

Matilde, coitada, quis saber quem era a filial. Mal sabia ela que havia uma rede de filiais, com tendência de expansão e talvez até franquias. Tripé, pressionado, tentou a estratégia do desvio: falou de trabalho, do trânsito, do preço da carne. Não funcionou. Matilde era do tipo que não se distrai com fumaça; ela quer ver o incêndio.

— Tem outra mulher? — perguntou, direto, sem rodeios, como quem pergunta se vai chover.

Tripé hesitou. E hesitar, nesses casos, é confessar em capítulos.

— Tem.

Matilde respirou fundo. Uma só? Era o que ela queria saber. Uma, dava para lidar. Uma é erro humano. Uma é crise passageira. Uma é terapia de casal. Tripé, então, resolveu ser honesto — honestidade seletiva, claro.

— Não exatamente uma.

Foi aí que Tripé desabou de vez.

O que Tripé não contava — e esse foi o erro fatal, o detalhe que nenhum manual prevê — é que Matilde também tinha uma chave mestra. Não de portas, mas de informações. Matilde era síndica do prédio onde ficava uma das filiais. Era voluntária na igreja frequentada por outra. E fazia pilates com a terceira. O mundo é pequeno quando se frequenta os mesmos salões de beleza.

Em menos de uma semana, as quatro mulheres estavam sentadas na mesma sala. A sala da matriz. As toalhas eram as mesmas. Os bombons, os mesmos. O sabonete, o mesmo. O perfume masculino, ironicamente, também.

Tripé, convocado, sentou-se diante delas como um aluno diante da banca examinadora. Esperava gritos, tapas, lágrimas, talvez um objeto voador não identificado. Não veio nada disso. Veio silêncio. E silêncio, como se sabe, é o mais perigoso dos barulhos.

Matilde falou primeiro.

— Ele nos tratou igual.

As outras concordaram, meio contrariadas. Não era exatamente um elogio, mas também não era uma acusação clássica. Era uma constatação administrativa.

— Sempre os mesmos bombons Sonho de Valsa — disse Beatriz.

— As mesmas toalhas da Havan — disse a segunda.

— O mesmo perfume do Boticário — completou a terceira, com certo nojo.

Houve uma pausa. E então veio o inesperado. O final que Tripé jamais imaginaria, nem nos seus delírios mais otimistas.

— A gente podia — disse Matilde, pensativa — fazer melhor uso dessa logística toda.

Tripé arregalou os olhos. Não entendeu.

— Como assim? — perguntou o sardão, com a voz de quem pede legenda para as passarinhas.

As quatro se entreolharam. Sorriram. Um sorriso de consórcio aprovado.

— Você sai — disse Matilde. — A chave fica.

E ficou.

Tripé foi dispensado com uma mala pequena, contendo o essencial e nada do que importava. As quatro mulheres, agora sócias, decidiram manter as casas, os padrões, os bombons. Transformaram os ninhos em um negócio. Um pequeno hotel urbano, discreto, elegante, com atendimento impecável e zero tolerância a lenços perfumados fora do protocolo.

Chamaram o lugar de A Chave Mestra.

Tripé, hoje, mora sozinho. Anda por aí contando histórias que ninguém acredita. Diz que perdeu tudo por causa de um lenço. Não percebeu que, na verdade, perdeu a chave mestra.