MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

HISTÓRIA ORAL DO EXÉRCITO - 31 DE MARÇO DE 1964 - PARTE III

 HISTÓRIA ORAL DO EXÉRCITO - 

31 DE MARÇO DE 1964

PARTE III




GUERRILHA DO VALE DO RIBEIRA – CARLOS LAMARCA

“Quando se plotou o Lamarca, o BC [2º. Batalhão de Caçadores, São Vicente, SP], unidade operacional de Infantaria, foi para o local, mas nós éramos do grupamento de incorporação A e, por problemas de licenciamento da tropa, as unidades do grupamento de incorporação B, entre elas uma de Artilharia, é que foram nos substituir lá no Vale do Ribeira. Quem estava no comando da Artilharia na Baixada Santista era o Paulo Carneiro Tomás Alves, e quem comandava o Regimento de itu era o Coronel Leônidas Pires Gonçalves, sendo até numa viatura da unidade dele que o Lamarca acabou escapando, com um tenente e um sargento, numa viatura de rancho, isso já é história sedimentada. Então, são fatos, e o pessoal, na ocasião, dizia: ‘Puxa, mas tiraram a tropa de Infantaria, que era preparada para isso, e colocaram uma tropa de Artilharia’.

O General Paulo Carneiro Tomás Alves era, portanto, o Comandante da Grande Unidade que o senhor [entrevistador] comandou recentemente, ele fez questão de transferir o QG de Santos para o Vale do Ribeira, o Boletim era ‘rodado’ lá no campo, tudo saiu do Quartel-General e foi para lá, para pegar o Lamarca, mas acabou dando no que deu – o Lamarca escapou e ele deixou de ser promovido, mas isso é uma outra história” (Coronel Carlos Alberto Guedes, Tomo 9, pg. 269).

“Já no período revolucionário, fui para a Amazônia ajudar a criar o Centro de Instrução de Guerra na Selva. Nós estávamos lá, quando o Capitão Lamarca roubou o armamento no 4º. RI e foi para a cidade de Registro-SP criar um foco de guerrilha. O General Rodrigo Octávio, Comandante Militar da Amazônia, chama o Coronel Teixeira, Comandante do Centro de Instrução de Guerra na Selva – CIGS – e diz que deveríamos preparar a nossa tropa para fazer um deslocamento rápido à região de São Paulo para combater a guerrilha do Lamarca. E, assim, fizemos. Toda a tropa do CIGS, julgada a mais adestrada em guerra na selva, era uma equipe de uns quarenta homens. Reunimos todos os instrutores e alunos de Guerra na Selva para uma operação contra a guerrilha do Lamarca.

Todavia, o General Rodrigo Octávio foi transferido para Brasília e a colaboração da tropa de Manaus deixou de ser aceita. O nosso Comandante, Jorge Teixeira de Oliveira, o ‘Teixeirão’, excelente oficial, ficou muito aborrecido. Ele disse: ‘Meu Deus, nós criamos o CIGS, estamos adestrados, o curso funcionando, o Exército tem uma equipe excepcional e não a empregamos’. Naquele momento, o curso de Comandos, da Brigada Paraquedista, que estava conosco em Manaus, foi mandado para Registro. Nós não fomos. Eles foram, mas, com dez ou doze dias, saíram. Também não os aceitaram, por quê? Não entendi! Utilizaram tropa recém-incorporada – soldado que tinha três meses ou menos ainda de quartel. Deu no que deu. Quer dizer, não foi uma vitória do Lamarca, foi o emprego de tropa inexperiente. Fizeram um relatório e depois, mandaram para nós, em Manaus.

Estávamos em treinamento de guerra na selva, estudávamos a doutrina de guerra na selva, no Centro considerado hoje o melhor do mundo. Por ser instrutor daquele Centro em Manaus, é que fui mandado, à revelia, para o Panamá. Fui instrutor de operações na selva, de patrulha na selva, dos ‘Tigres’ – o Ranger – no Panamá. Por quê? Porque eu tinha sido Chefe da Divisão de Ensino e Oficial de Operações do CIGS. Foi só por isso. Qualquer oficial que tivesse passado pelo CIGS, naquela época, teria condições de cumprir a mesma missão.

No relatório, que eu disse que recebemos em Manaus, a respeito de Registro,  depois da operação contra o Lamarca, o General Airosa, que era, em São Paulo, o Chefe do Estado-Maior do II Exército, escreveu assim: ‘Chegamos à conclusão de que o facão de mato é muito importante no combate na selva’. Quando nós pegamos aquele relatório, em Manaus, e o lemos, o Coronel Teixeira falou-nos: ‘Meu Deus do céu!’ E amassou o relatório e jogou fora. ‘Meu Deus do céu” Estou aqui há três anos, criamos o CIGS, ensinamos a doutrina de selva e o conhecimento sobre os equipamentos do combatente de selva, mostramos a experiência da Birmânia, na Segunda Guerra Mundial, e somente agora, numa operação que fracassou, voltada praticamente para prender o Lamarca, que acabou escapando, chega-se tardiamente à conclusão de que o facão de mato é um equipamento muito importante para o combatente de selva!’ Caso tivesse empregado a tropa do CIGS, especializada em operações na selva, no enfrentamento com o Lamarca em Registro, no lugar da tropa bisonha e despreparada para este tipo de missão que não sabia nem para que servia o facão de mato, claro que o resultado teria sido outro” (General-de-Brigada Durval Antunes Machado Pereira de Andrade Nery, Tomo 10, pg. 176-177).

Obs.

No link abaixo, depoimento sobre a Campanha do Exército no Vale do Ribeira, em 1970, feito por meu amigo, então recruta, Guido Schneider, natural como eu de Luzerna, SC -

https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/04/campanha-do-exercito-brasileiro-no-vale.html

Em agosto daquele ano, eu fiz o Curso Básico de Comandos, na região da estação “Véu de Noiva”, da estrada-de-ferro Curitiba-Paranaguá, a cargo do 20º. RI, atual 20º. BIB.

F. Maier

 

 

O AI-5 E A GRANDE MENTIRA DA ESQUERDA: DE QUE PEGOU EM ARMAS EM DEFESA DA DEMOCRACIA

 

“Na hora de dar chocolate, não se dá tiro; na hora de dar tiro, não se dá chocolate” (dito popular, citado pelo general Leonidas Pires Gonçalves).

“As mulheres engajadas na luta armada eram as piores que existiam, as mais perversas, pegavam os jovens pelo sexo” (Coronel Godofredo de Araújo Neves, Tomo 7, pg. 173).

A esquerda repete, ad nauseam, que lutou contra o Governo Militar, contra a ditadura, para a volta da democracia. Essa é uma deslavada mentira que não se sustenta, pois a ideologia que todos eles professavam era a ideologia comunista, que nada tem de democrático, e buscavam apoio em países totalitários, como União Soviética, Tchecoslováquia, Cuba, China, Albânia.

Outra mentira cantada em prosa e verso pela esquerda é afirmar que as ações dos grupos terroristas de esquerda foi uma reação à edição do AI-5, em 13 de dezembro de 1968. Basta tomar conhecimento das dezenas de ações terroristas desencadeadas durante todo o ano de 1968 para ver que isso é mentira. Além da reverberação do movimento estudantil, principalmente em maio de 1968, tanto em Paris, nos EUA, como no Brasil, o aumento substancial do número de grupos terroristas se deveu ao objetivo da OLAS, ocorrido em Cuba em 1967, de criar vários “Vietnãs” em toda a América Latina. Com a morte de Che Guevara, na Bolívia, em 1967, muitos estudantes também queriam ser um novo Guevara.

Esses grupos terroristas tinham sido formados na China, na URSS, em Cuba, na Albânia e outros países comunistas da Europa Oriental. No entanto, satanizam a Operação Condor, que foi apenas uma resposta à agressão comunista, como lembra o general Leonidas:

“Nos dias de hoje ficam aí falando da célebre ‘Operação Condor’. Sempre digo, é uma lei antiga, de física, que ‘a toda ação corresponde uma reação igual em sentido contrário’ e, dessa forma, respondo a essa pergunta. Se a orientação e o apoio dessas operações vinham de fora – vinham da Rússia e da China, via Cuba ou Uruguai – enfim, era um movimento internacional integrado, o que há de estranho no fato de o Cone Sul se reunir para colocar um ‘basta’ a isso, com troca de informações, já que todos eram atingidos? Então, isso é um verdadeiro absurdo, é um desses outros clichês que a mídia cria para nos ofender, até hoje, sem nenhuma razão” (Tomo 1, pg. 92).

 

O “MILAGRE BRASILEIRO” E O AI-5

“Lembro-me muito bem do Delfim dizer, com a ideia do: ‘agora ponho a economia do País para crescer’, porque baixou os Atos que antes não poderia baixar, dependia de lei. Então, utilizando o Decreto-Lei, começamos a viver o ‘milagre brasileiro’ ” (Coronel Sérgio Mário Pasquali, Tomo 5, pg. 199).

“E o interessante, General, é que vi outro dia na televisão, aliás na TV Globo, na Globo News, um depoimento sobre o AI-5 de um dos participantes, no qual aparece o Delfim Neto dizendo que votou a favor do AI-5 porque ele queria meios de ter liberdade para promover as reformas econômicas necessárias. Deus até a justificativa, assim promover a reforma no campo econômico e financeiro. [entrevistador]

Inclusive eram punidos os crimes contra a Segurança Nacional, contra a ordem econômico-social e a economia popular, isto é texto claro no Ato Institucional. Isso beneficiou muito a área da economia e deu a possibilidade de construção do ‘milagre econômico’ que permitiu o País crescer à razão de 11%, durante vários anos” (General-de-Brigada Danilo Venturini, Tomo 15, pg. 212).

“Quanto à hipótese de que o limite dos governos revolucionários fosse balizado pelo sucesso do ‘milagre econômico’, deve ser considerado que boa parte do ‘milagre econômico’ dependeu das disposições do Ato Institucional no. 5. A equipe econômica do Governo Presidente Costa e Silva inseriu no corpo do AI-5 uma série de medidas, algumas até draconianas, no sentido de assegurar o desenvolvimento da economia do País, sem maiores obstáculos. Isto posto, um instrumento de exceção foi útil à parte econômica. Tomamos conhecimento de uma pesquisa na qual realizaram uma consulta a trabalhadores, na área urbana. Chegaram à conclusão de que, entre um governo eleito, sem realizações, e um governo não eleito pelo povo, mas que assegurasse o seu bem-estar e progresso, prefeririam o governo não eleito. Eu até disse que lastimava essa constatação, mas é uma verdade que não podemos deixar de registrar. E a outra é a seguinte: o fim do Governo Médici foi o período mais desfavorável, sob o ponto de vista político, pois a luta armada estava no auge. Não seria conveniente romper o processo sem a garantia de um período de tranquilidade, pois interrompido, abruptamente, após a luta armada, aqueles que nos sucedessem, dificilmente deixariam de aproveitar a oportunidade para vinditas” (General-de-Brigada Danilo Venturini, Tomo 15, pg. 218).

(...) O Governo Castello Branco, por exemplo, por mais que tenha plantado para o futuro do Brasil, deixou de ser reconhecido em termos de desenvolvimento, porque, no triênio 1964/1966, a taxa de crescimento do produto real ficou em 3,8% anuais, o que não deixa de ser uma injustiça para uma gestão tão profícua. O Governo Costa e Silva foi recolocado no quadro dos beneméritos do desenvolvimento pelos aumentos do produto real em mais de 9%, ocorridos tanto em 1968 como em 1969” (General-de-Divisão Luiz Augusto Cavalcante Moniz de Aragão, Tomo 12, pg. 100).

 

Choque do petróleo pôs fim ao “milagre brasileiro”

“No dia 6 de outubro de 1973, os egípcios e sírios iniciaram a chamada Guerra do Kippur-Ramadam. O Iraque, em seguida, decretava a nacionalização de parte dos interesses norte-americanos nas suas jazidas petrolíferas.

Prevendo a impossibilidade de um retorno à situação anterior, quando exerciam um domínio absoluto desde a produção até à comercialização, as companhias internacionais passaram, também, a incentivar a alta dos preços do petróleo, o que lhes proporcionou os maiores lucros na história da indústria petrolífera.

O preço médio do barril de petróleo bruto que, em janeiro de 1973 era de três dólares, em março de 1974 alcançou o valor de US$ 13,31 e, portanto, um aumento de 343% em pouco mais de um ano.

A importação brasileira de petróleo passou de 712 milhões de dólares em 1973 para 2,8 bilhões em 1974 e 3,2 bilhões em 1976.

A alta dos preços do petróleo, somada às pressões de realimentação da inflação já existentes, quase duplicou, em 1974, o ritmo inflacionário dos países desenvolvidos. A média anual saltou de 7,2% para 12,1%, chegando em alguns países, como o Japão, a quase 25%. Além disso, desorganizou seriamente os seus balanços de pagamentos e o seu sistema produtivo.

Isto se repetiu no Brasil, só que de forma mais grave, pois tão importante quanto o choque do petróleo, foi o choque das matérias-primas, em 1974. As importações de matérias-primas (trigo e insumos industriais básicos) em 1974 tiveram o seu valor mais do que dobrado em relação a 1973 como resultado do aumento dos preços pelos países vencedores.

(...)

O Brasil, ao contrário dos países industrializados, deliberadamente, evitou partir para a estratégia da recessão econômica.

A ideia foi realizar uma desaceleração progressiva, seja porque o País  sendo pobre iria pagar um preço altíssimo pela recessão em termos econômicos e sociais, seja porque precisava ganhar tempo, para que a solução objetiva, de sair da crise do petróleo pelo aumento das exportações e pela busca de uma autossuficiência em insumos básicos, pudesse apresentar resultados.

Nesse sentido, o maior êxito obtido foi o crescimento do PIB de 9,7% em 1974, portanto no ano seguinte à crise do petróleo, quando a maioria dos países industrializados já começava a entrar em recessão e a obtenção de um crescimento anual médio do PIB, entre 1974 e 1980, de 7% (Revista Conjuntura Econômica)” (General-de-Divisão Luiz Augusto Cavalcante Moniz de Aragão, Tomo 12, pg. 106-107).

 

O segundo choque do petróleo foi mais nocivo ao Brasil que o primeiro

“O Segundo Choque do Petróleo (1979) foi extremamente danoso à economia brasileira.

Enquanto o petróleo era bastante no mercado internacional, a exploração desse produto em nosso território era considerada inviável economicamente e, por isto, o esforço não era prioritário. Além do mais, o então insuficiente desenvolvimento tecnológico da Petrobras para as pesquisas em águas profundas e a escassez de recursos para esses investimentos concorriam para um quadro de pouco empenho por aquela empresa. Havia, também, uma expectativa, desde 1973, de que os EUA e aliados europeus importadores do petróleo (Inglaterra, Alemanha e França) viessem a fazer uma intervenção no Oriente Médio para alterar as condições comerciais daquele produto. Isto acabou adiando, aqui em nosso País, decisões de restrições mais fortes em seu consumo.

(...)

Em junho de 1979, aconteceu o pior. A OPEP eleva o preço do barril de petróleo para uma faixa de 18 a 23,50 dólares (nos anos seguintes, chegaria a 43 dólares).

Desta vez, ao contrário do que ocorrera durante a crise de 1973, o Brasil decidiu acompanhar a estratégia dos demais países importadores.

Por seus reflexos no balanço de pagamentos, na inflação e na atividade econômica, o Presidente Figueiredo entendeu que a questão energética deveria assumir prioridade máxima em seu Governo. Anunciada, ainda, a criação da Comissão Nacional de Energia (CNE).

Em julho de 1979, após ouvir o Conselho de Desenvolvimento Econômico (CDE) e a recém-criada CNE, o Presidente decide congelar em 960 mil barris/dia a importação de petróleo, apesar de saber que o consumo previsto para o segundo semestre daquele ano era de 1.025 mil barris diários.

A CNE resolve, ainda, estabelecer como instrumento para atender ao crescimento da demanda o aumento da produção nacional de petróleo e o uso de fontes alternativas. Entre estas, são incluídas a opção de elevar o consumo de álcool, do carvão mineral e vegetal, da biomassa e da energia solar direta” (General-de-Divisão Luiz Augusto Cavalcante Moniz de Aragão, Tomo 12, pg. 108-109).

 

O AI-5 foi necessário?

“Como o senhor viu a ação dos terroristas antes da decretação do AI-5? [entrevistador]

As bombas estavam explodindo. Foram 25 bombas, 17 só em 1968. Mas as bombas, não se sabe, até hoje, quem é que estava jogando.

Houve, entretanto, dois atentados ao próprio Quartel-General do II Exército: um na Conselheiro Crispiniano, outro no Ibirapuera. [entrevistador]

Isso foi outro erro grave deles. Aquele atentado contra o soldado Mário Kozel Filho – promovido a sargento. Aquilo foi uma ignorância. Obteve repúdio nacional. Mataram um jovem recruta que estava cumprindo o seu dever, prestando o serviço militar, de uma forma covarde. O assassinato do capitão, aquele americano, Charles Rodney Chandler, em 12 de outubro de 1965, que estava fazendo um curso, na presença da esposa e do filho de 8 anos. Aquilo, também, foi outra ignorância que só obteve protesto e repugnância. Foram erros graves que eles cometeram. Eles, hoje, querem ser vistos como ‘bonzinhos’, mas não prestavam, eram frios, covardes...” (General-de-Brigada Celso dos Santos Meyer, Tomo 10, pg. 144).

“O AI-5, então, foi necessário? [entrevistador]

Ah! Não há dúvida nenhuma. Foi necessária a criação dos instrumentos adequados para poder coibir a ação armada, mas agindo de maneira legal. O AI-5, embora venha ser considerado ditatorial, foi um instrumento instituído legalmente. O ilegal é quando a ação é realizada através da iniciativa própria, por meio do livre arbítrio de determinada pessoa. Então, o AI-5 estabeleceu normas, regras, em face de uma situação caótica criada pelos comunistas.

82 bombas foram lançadas naquele período [entrevistador]

Então, houve necessidade de tomarmos medidas...

Ningúem cita isso, só falam do AI-5, mas não dizem por que é que ele veio [entrevistador]

Realmente. O AI-5 foi exatamente o instrumento legal para fazer face àquele caos que o País fora obrigado a enfrentar a partir de 1968, embora o primeiro atentado tenha ocorrido em 1966 no Aeroporto de Guararapes, no Recife, como já citei” (Coronel Amaury Friese Cardoso, Tomo 10, pg. 354).

“O Ato Institucional No. 5 (AI-5) foi necessário? Qual a sua opinião? [entrevistador]

Sim, o AI-5 foi necessário, pois veio depois de numerosos atentados e mortes criminosas. Vários foram os atentados a bomba, inclusive sobre o jornal O Estado de São Paulo e a Bolsa de Valores de São Paulo. Repulsivos foram os atentados aos jovens soldados quando sentinelas, Antonio Carlos Jerrey, Eduardo Custódio de Souza e Mário Kozel Filho, entre muitos outros. Atentados a bomba, explosivos em edifícios públicos e vias de transporte foram uma constante, a partir do início de 1968. Foram em número de 25 os atentados que precederam ao AI-5, o qual deu ao Governo os meios necessários para combater o terrorismo. Além disso, o Congresso Nacional negou-se a processar o Deputado Márcio Moreira Alves, que, de forma insolente, manifestou-se contra a Revolução, protegido pela imunidade parlamentar, o que fortaleceu a opção pelo AI-5, para a defesa da Revolução ameaçada” (Desembargador Nelson Pecegueiro do Amaral, Tomo 14, pg. 110).

“O AI-5 era necessário? Qual a sua opinião? [entrevistador]

Absolutamente necessário. Para entendermos o porquê, passamos aos fatos (fonte General Raymundo Negrão Torres, Ombro a Ombro, de novembro de 2001): ‘Explosão de uma bomba no cinema Bruni, no Rio de Janeiro, com um inocente morto (12 de novembro de 1964); atentado à bomba contra o jornal O Estado de São Paulo (22 de abril de 1965); atentado à bomba no Aeroporto dos Guararapes, contra o General Costa e Silva e no qual morreram o Almirante Nelson Gomes Fernandes e o jornalista Edson Regis de Carvalho e sofreu mutilações o Tenente-Coronel Sylvio Ferreira da Silva, um dos muitos feridos no atentado. Segundo Jacob Gorender, em seu livro ‘Combate nas Trevas’, esse atentado foi obra da Ação Popular (25 de junho de 1966); explosão de uma bomba no cinema Itajubá, em Santos (1º. de agosto de 1966); explosão de uma bomba no Teatro Guaíra, em Curitiba (26 de agosto de 1966); explosão de uma  bomba na sede do Corpo da Paz, entidade americana no Rio de Janeiro, com um ferido (2 de agosto de 1967); primeira ação terrorista seletiva da ALN, em Presidente Epitácio – assassinato do fazendeiro Zé Dico, na invasão de sua fazenda (24 de setembro de 1967); é assassinado o bancário Osíris Marcondes, do Banco Mercantil de São Paulo, durante assalto de terroristas à agência da qual era o gerente (15 de dezembro de 1967); atentado à bomba contra o Consulado americano em São Paulo, com dois feridos (15 de março de 1968). Um deles, o estudante Orlando Lovecchio Filho, de 22 anos, perdeu uma perna e até hoje não conseguiu receber a indenização que pleiteia; explosão a dinamite do QG da Polícia Militar de São Paulo (10 de abril de 1968); lançamento de uma bomba contra o antigo QG do II Exército/SP, na Rua Conselheiro Crispiniano, com dois feridos (15 de abril de 1968); novo atentado à bomba contra o jornal O Estado de São Paulo (20 de abril de 1968); atentado à bomba contra a Bolsa de Valores de São Paulo (15 de maio de 1968); atentado à bomba contra o Consulado da França em São Paulo (18 de maio de 1968); ocorreram várias explosões em edifícios públicos e em vias de transporte, em diversos pontos do País (junho de 1968); atentado à bomba contra o QG do II Exército, no Ibirapuera, pela Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), no qual morreu o soldado sentinela Mário Kozel Filho e ficaram gravemente feridos vários soldados da guarda (26 de junho de 1968); é morto a tiros no Rio de Janeiro, por engano, o Major do Exército alemão Edward Ernest Tito Von Westernhagen, que cursava a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), confundido com o Capitão boliviano Gary Prado, suposto matador de Che Guevara, crime do Comando de Libertação Nacional (COLINA), em 1º. de julho de 1968, autoria confirmada por Jacob Gorender, no livro ‘Combate nas Trevas’; explosão simultânea de bombas em frente ao DOPS e a dois edifícios da Justiça Estadual de São Paulo (19 de agosto de 1968); é abatido a tiros o soldado da PM/SP Antonio Carlos Jerrery, quando de sentinela (20 de agosto de 1968); assassinado a tiros o soldado Eduardo Custódio de Souza, da PM/SP, por terroristas, quando de sentinela no DEOPS/SP (7 de setembro de 1968); fuzilado pela VPR, à frente de sua mulher e filhos, o Capitão do Exército americano Charles Rodney Chandler, de 30 anos, estudante de uma Universidade de São Paulo e veterano da Guerra do Vietnam, sob a falsa justificativa de ser agente da Cia, tudo isso para assinalar um ano de morte de Che Guevara na Bolívia (12 de outubro de 1968).

Assim, depois de 25 atentados, sendo 18 no ano de 1968, com dezenas de mortos e feridos, veio o Ato Institucional no. 5.

Esses atentados, a meu ver, corresponderam às razões maiores para a edição, em 13 de dezembro de 1968, do Ato Institucional no. 5, com a finalidade de fornecer ao Governo os instrumentos necessários para combater o terrorismo e a guerrilha.

Há, ainda, um outro motivo político a ser considerado que adveio da negativa do Congresso para processar o imaturo e insolente Deputado Márcio Moreira Alves, que, na época, resolveu contestar a Revolução protegido pelas suas imunidades parlamentares” (General-de-Brigada Geraldo Luiz Nery da Silva, Tomo 10, pg. 232-233).

Obs.:

Sobre Jango, veja o que disse Márcio Moreira Alves:

Até mesmo Márcio Moreira Alves, parlamentar de oposição ao novo Governo, foi a favor dos atos do Governo Castello Branco, como afirma em seu livro 'O Despertar da Revolução Brasileira': “O protesto que escrevi era uma crítica por dentro. De um modo geral era eu simpático ao governo militar” (pg. 50). Para “Marcito”, foi um alívio ver a saída de Jango, pois 'Achava-o oportunista, instável, politicamente desonesto... Aparecia bêbado em público, deixava-se manobrar por cupinchas corruptos... e tinha uma grande tendência gaúcha para putas e farras' (op.cit., pg. 51 e 52).

F. Maier

 

Em 1968, o militar não podia andar fardado na rua

“Naquela época, o estafeta não saía mais do quartel fardado; saía à paisana, porque podia ser atacado pelos terroristas na rua. Os sargentos e oficiais também tinham ordem de sair à paisana. Ninguém podia mais ter o orgulho de andar fardado.

Agora isso está acontecendo com os policiais, que os bandidos do crime organizado estão matando. [entrevistador]

Exatamente!” (Coronel João Franco Pontes Filho, Tomo 11, pg. 138).

 

Obs.:

Sobre os atentados terroristas de 1968, leia, de minha autoria, “2008: 40 anos do AI-5” - https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/04/2008-40-anos-do-ai-5.html

F. Maier

 

 

CARLOS LAMARCA, TRAIDOR DO EXÉRCITO BRASILEIRO

“Os militares partidários do Governo criaram um canal paralelo – pouca gente sabe disso – de informações. Foi inventado através do, então Quadro Auxiliar de Oficiais. Esses oficiais tinham acesso ao Gabinete do Ministro. Tinham força para derrubar comandantes. Lembro-me de um sargento que por razões óbvias eu o puni várias vezes, que foi promovido ao Quadro de Oficiais Auxiliares – e, quando promovido, pegou a farda de sargento, arrancou as divisas e, nela, colocou as estrelas de tenente. Ao encontrar-me, falou, com um ar de superioridade: ‘Tenente, agora estou no Gabinete do Ministro. Qualquer coisa, me procure.’ Falou isso comigo: ‘Qualquer coisa me procure.’

Havia, naquela época, o famoso Batalhão Suez, Para nele ingressar, tinha que ser ligado a um desses caras e foi inclusive o caso o Lamarca. Ele integrou o Batalhão Suez, pela ligação que tinha com oficiais que influíam na composição daquele Batalhão. E quando ele voltou, aconteceu um fato, também, que pouca gente fala. Cobraram dele: ‘Você foi para Suez, graças a nossa interferência. Agora, você vai fazer alguma coisa para nós.’ E deram a missão de roubar as armas do 4º. RI.

Havia, portanto, esse canal de inteligência. O Comandante que punisse um sargento, que fosse mais rigoroso com os sargentos, podia perder o Comando. Ele era destituído” (Tenente-Coronel Pedro Cândido Ferreira Filho, Tomo 3, pg. 354).

 

Carlos Lamarca facilita a fuga do Capitão-Aviador Daudt

“Era um sábado e eu estava de serviço de oficial-de-dia [6ª. Cia PE]. À noite, uma escolta trouxe preso um tal Capitão Daudt, da Aeronáutica. Outros oficiais já haviam sido presos na 6ª. Cia PE. Naquele tempo ninguém prendia oficial no xadrez, normalmente eles ficavam detidos em uma repartição do quartel. Recordo que uns três oficiais superiores do Exército foram presos na enfermaria; lembro só de alguns graduados que ficaram presos no xadrez. Esse Capitão Daudt chegou mais ou menos às 10h30min da noite. A ordem era mantê-lo preso no quartel. Coloquei-o em uma sala que ficava junto à secretaria da Subunidade.

A porta do xadrez improvisado não tinha qualquer abertura – tipo portinhola – por onde se pudesse observar seu interior, foi trancada com cadeado e um guarda ficou a vigiá-la. No dia seguinte, o Comandante foi cientificado que havia um oficial preso, foi visita-lo e resolveu mantê-lo naquele local. Sete dias depois, o Capitão Daudt, pela madrugada, fugiu de maneira inusitada do nosso quartel.

O quarto, com um pé direito baixo – mais ou menos uns dois metros – forro de madeira meio velho, o prédio era antigo, tinha uma cama, quase um catre, com lastro de ferro e dois colchões. Do estrado foi retirada uma haste, e com ela e mais uma serra o Daudt cortou os colchões, cobertores e lençóis, quebrou o forro e saiu pelo lado da Rua Duque de Caxias. Mais ou menos às 6h30min da manhã de domingo, uma semana após a sua prisão, o oficial-de-dia, que era o Lamarca, recebeu o telefonema de uma senhora avisando:

- Olha, tem uma corda pendurada no telhado do quartel.

A parede do lado da Avenida João Pessoa era muito alta: a da Duque de Caxias era mais baixa, devia ter aproximadamente uns 6m. Por ali o Capitão fugiu e a sua evasão desencadeou um certo clima de desconfiança dentro da Unidade. Foi aberto um inquérito, tendo como encarregado o Coronel Mário Fernandes, um artilheiro febiano. Terminado o inquérito, nada foi apurada. Hoje, depois que se revelou o perfil subversivo do Lamarca – ninguém é criança – todos sabem que o Capitão Daudt foi auxiliado na sua fuga pelo próprio oficial-de-dia” (General-de-Brigada Carlos Augusto Fernandes dos Santos, Tomo 8, pg. 275-276).

“Eu servia na Companhia de PE, de lá fui transferido para o 18º. E depois para o Colégio Militar. Na época, o Carlos Lamarca era oficial da Companhia de PE, para onde foi levado preso aquele major-aviador Daudt. Eu ainda alertei:

- Se não atentarem para o lugar onde ele está recolhido, quando o Lamarca estiver de Oficial-de-Dia, facilitará uma fuga.

Não deu outra! Ele ficou preso em uma sala do Pelotão de Comunicações, situada no último piso. Havia uma porta de madeira com uma janelinha de vidro e um janelão gradeado voltado para o alojamento. Não havia por onde fugir, a não ser pela porta. Quando abriram, o major havia fugido. Subira pelo forro para o telhado da Companhia e, como a altura até a calçada era pequena, não teve dificuldade nenhuma, foi embora tranquilamente. O Oficial-de-Dia era o Lamarca. Fora disso, muita conversa fiada” (General-de-Brigada Arlênio Souza da Costa, Tomo 13, pg. 169-170).

“Traidor, primeiro, de sua própria família. Uma família pobre, seu pai era um sapateiro, que vivia no morro de São Carlos, aqui no Rio de Janeiro, e que, com sacrifício, o colocou na Escola Preparatória de São Paulo, onde ele cursou, para depois ira para a AMAN. Premiado pelo Exército, pois foi designado para integrar o Batalhão Suez, que era uma missão relevante, no exterior, e que trazia, também, recursos pecuniários, para que as pessoas melhorassem suas condições de vida aqui. Coisa que muito militar, muito oficial, quis para si e não conseguiu, porque nem todos podiam ser designados como ele foi. No entanto, Lamarca pagou com deserção e traição esse prêmio do Exército, e tudo que a Força Terrestre fez por ele.

E hoje sabemos de uma coisa que nunca apareceu antes, que ele, durante todo o tempo de Academia, foi apoiado pelo próprio Exército, através daquela instituição que havia para ajudar os cadetes pobres, fornecendo roupa civil para que ele andasse bem arrumado, e sob inteiro sigilo. [entrevistador]

Obra do Estudante Pobre – OEP.

Exatamente, Obra do Estudante Pobre – a OEP. Os cadetes não tinham informação sobre os que estavam sendo apoiados pela OEP. Era, justamente, a forma de nivelá-los; discretamente, evitando disparidade visível na aparência, quando saíam em traje civil. Esse fato só me foi contado agora, em 1995, pelo Coronel Boscardin que, na AMAN, cuidou desse trabalho sigiloso de cunho social, no período em que o Lamarca cursou a Academia (1958-1960) [entrevistador]

Era isso mesmo, a OEP cumpriu um importante papel beneficente” (General-de-Brigada Nilton de Albuquerque Cerqueira, Tomo 9, pg. 122).

 

A morte de Carlos Lamarca

“Quando cheguei em Salvador como Oficial de Operações do 19º. BC, estava empenhado na captura do Lamarca que andava por lá já meio acuado. Depois que o Destacamento de Operações de Informações/Centro de Operações de Defesa Interna (DOI/CODI), o Centro de Informações do Exército (CIE), o Centro de Informações da Marinha (CENIMAR) e o Centro de Informações e Segurança da Aeronáutica (CISA) foram embora, ficou lá o então Major Nilton Cerqueira, que era o Oficial de Operações da 6ª. Região Militar, cujo Chefe do Estado-Maior era o Coronel Rebuá, e o Comandante do Pelopes (Pelotão de Operações Especiais), que era um tenente paraquedista, Hallier, com a sua tropa. Nós até dizíamos que eles eram ‘secretas portugueses’, pois estavam em uniformes de cangaceiros, mas com armamento nosso. Eles fizeram o rastreamento do Lamarca e o encontraram.

Sei exatamente como é que foi, como aconteceu, como se chegou ao Lamarca; assisti até o próprio Nilton Cerqueira ser agraciado com a Medalha do Pacificador com Palma, com os sargentos que participaram da operação que acabou com o Lamarca, lá no sertão da Bahia.

Quer dizer que, na verdade, quem acabou com o Lamarca foi próprio Exército que ele traiu e do qual desertou levando suas armas [entrevistador]

Foi o próprio Exército, foi o Pelopes do 19º. BC, comandado pelo Grande Comando da 6ª.Região Militar, através do seu Oficial de Operações, que era o então Major Nilton Cerqueira, com o grupo de apoio dele lá da 3ª. Seção.

Isso se deu depois que todo mundo foi embora, já tinham desistido de encontrá-lo, porque ele se escondia bem. Adotou-se, então, a mesma tática do Lamarca, ou seja, usou-se o pessoal baiano, preparado para operação na caatinga. Tanto que depois apareceu mochila, apareceu uniforme de caatinga etc., como lá em Minas, existe o de montanha.

Então, o Nilton, com essa tropa, foi indo, foi indo, e acabou pegando o Lamarca em um momento já de aniquilamento total do pessoal que o acompanhava.

O Nilton Cerqueira e eu fomos contemporâneos no Colégio Militar, eu era o 1º. ano e ele do 4º. ginasial. Quando eu cheguei ao 4º. ano ginasial, ele estava no 3º. científico, e fomos direto.’res da Sociedade Literária do Colégio Militar, onde tivemos muito contato. Posteriormente, nos encontramos na Academia (AMAN), ele terceiranista, eu primeiranista; depois, só voltamos a nos cruzar, lá em Salvador.

Exatamente como e de que jeito o Lamarca morreu, me foi dito pelo próprio Cerqueira e pelo Hallier. Quem encontrou o Lamarca encostado  na árvore, com o fuzil do lado, foi o Nilton Cerqueira. Ele apenas perguntou: ‘Você é o Lamarca?’ O Lamarca fez menção de pegar o armamento e o Nilton não deixou, parou ali, acabou ali. O valente alagoano Major Nilton Cerqueira disse-me: ‘Encerramos, naquele momento, uma sequência de crimes hediondos que vinham sendo cometidos por ele. Vivo, vai sequestrar mais embaixadores, vai assassinar mais inocentes, vai enlutar outros lares brasileiros’. Este é o jeitão dele, a maneira de ele agir; ele decidiu naquele momento.

‘Quer dizer, era ele ou eu, porque, se eu hesitasse, daria tempo para ele pegar e atirar contra mim; então, não teve conversa, ali mesmo liquidou-se o problema.’ Isso ele me contou assim que retornou” (Coronel Carlos Alberto Guedes, Tomo 9, pg. 269-270).

 

Obs.:

O General Nilton Cerqueira comandou a Operação Pajussara, que resultou na morte de Carlos Lamarca e outros terroristas.

Conheça as ações terroristas de Lamarca e da VPR em https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/04/o-fim-de-carlos-lamarca-e-da-vpr.html.

F. Maier

 

REVOLTA DOS ESTUDANTES DENTRO DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA (UnB)

 

Honestino Guimarães teria sido morto na Argentina?

“Quando houve o episódio da revolta dos estudantes dentro da Universidade de Brasília, no início de 1968, o Comando Militar do Planalto (CMP), com o emprego da Polícia Militar do DF, invadiu e prendeu os supostos responsáveis e foi instaurado um IPM. Muitos dos detidos foram levados para a minha Unidade [atual 32º. GAC]. A maioria ficou apenas poucos dias, mas aproximadamente uns quinze deles permaneceram presos à disposição do encarregado do Inquérito cerca de 50 dias e só foram soltos mediante alvarás de soltura concedidos pelo Superior Tribunal Militar (STM).

Não sei exatamente por que, mesmo antes da conclusão do IPM e sem saber se o preso seria indiciado, ele recebia um alvará de soltura. Isso aconteceu com vários detidos, alguns deles tornaram-se conhecidos, como o Honestino Guimarães, líder estudantil na Faculdade de Geologia da Universidade de Brasília (UNB). Quando ele foi solto, mediante alvará, conduzi-o pessoalmente até o portão da Unidade, para me despedir ostensivamente dele. Hoje, dizem que está desaparecido e se supõe que tenha sido morto na Argentina. Naquela época, a contaminação ideológica dele e da maioria dos demais era quase superficial.

Para minha surpresa, Honestino e vários outros, principalmente os mais jovens com quem dialoguei, não conheciam ‘nada de nada’. Alguns nem mesmo eram capazes de enumerar os Estados do Brasil e suas Capitais, e assim foi fácil demonstrar-lhes que estavam idiotamente bancando uns dons quixotes. Rigorosamente, nada conheciam dos problemas brasileiros e pretendiam participar de um movimento para depor os militares do Governo e substituí-los por ‘socialistas’, cuja ideologia – diga-se a bem da verdade – não conheciam com suficiente profundidade, limitando-se a repetir slogans e palavras-de-ordem que lhes haviam sido ensinados e que não sabiam explicar, muito menos justificar. A rigor, não tinham uma ideia clara dos propósitos secretos desses seus ‘líderes’ ” (Coronel Roberto Monteiro de Oliveira, Tomo 13, pg. 200-201).

Obs.:

Hoje, Honestino Guimarães dá seu nome ao Museu Nacional de Brasília, assim como Leonel de Moura Brizola dá seu nome à Biblioteca Nacional de Brasília.

A Ponte Costa e Silva, sobre o Lago Paranoá, em Brasília, tinha mudado de nome para Honestino Guimarães, mas o nome voltou ao antigo dono, só Deus sabe até quando. Cfr. https://www.metropoles.com/distrito-federal/ponte-honestino-guimaraes-volta-a-se-chamar-costa-e-silva. Deus sabe quando: um grupo de feministas “rebatizou” a Ponte com o nome de Marielle Franco, ainda que de mentirinha - cfr. https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/2021/03/08/grupo-volta-a-mudar-nome-da-ponte-costa-e-silva-em-brasilia-para-marielle-franco.ghtml.

F. Maier

 

O radical Walter Tesch perdeu a mão ao colocar bomba na Thomas Jefferson

“[Os presos] foram muito bem tratados [no 32º. GAC]; todos os dias eu ia visitá-los, convidava um ou outro para tomar café comigo no cassino dos oficiais e lá conversava com eles. Levava revistas para eles, e até pedia aos tenentes e sargentos que também o fizessem, mesmo sendo velhas, para ocupar as suas cabeças e assim impedir que acabassem sendo levados a qualquer indisciplina pelo ócio. Todos aceitavam, prazerosos, essas revistas já usadas.

Houve um exemplo de preso ideologizado e radical, o Walter Tesch. Ao recebê-las, examinava página por página, tentando encontrar propaganda a favor do capitalismo internacional, e redigia na própria revista uma contrapropaganda, alardeando as benesses do socialismo e apontando as incoerências do ‘capitalismo’. Lembro-me bem, porque ele não tinha a mão direita. Inclusive, recebi a recomendação de mantê-lo separado dos demais. Uma ocasião perguntei:

- Como é que você perdeu a mão direita?

A resposta foi direta:

- Fui colocar uma bomba na Thomas Jefferson e...

A Thomas Jefferson era um curso similar ao Instituto Brasil-Estados Unidos, que funcionava em Brasília. Resolveram colocar uma bomba lá como um protesto contra a influência dos americanos no Brasil. A bomba explodiu antes e ele perdeu a mão direita.

- Quem mandou você colocar essa bomba?

- O partido! – mais uma vez a resposta foi imediata.

- Esses elementos do partido são uns irresponsáveis. Você teve alguma instrução sobre explosivos? E teve algum ressarcimento? – perguntei.

- Não, e também não recebi nada a título de seguro – respondeu.

- Mas você perdeu uma das mãos por irresponsabilidade deles.

A conclusão dele foi patética:

- Ainda tenho a outra mão para dar para o partido!

Nunca mais conversamos. Diante de uma lavagem cerebral desse porte não se tem diálogo possível. Anos depois, lendo um jornal, soube que ele estava integrando as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), naquele país” (Coronel Roberto Monteiro de Oliveira, Tomo 13, pg. 202).

 

A ordem era dizer que foi torturado na prisão

“Quando as coisas esquentavam em São Paulo, no Rio de Janeiro ou no Rio Grande do Sul, os subversivos se refugiavam no Paraná e em Santa Catarina. E os contatos eram muito poucos, alguns já conhecidos, mas não havia consistência para promover a responsabilidade criminal de nenhum deles, pelo menos dos personagens que conhecíamos.

Para não dizer que não houve nada na área da subversão [na 5ª. Região Militar], prendemos, por ordem do Centro de Informações do Exército (CIE) uma ex-freira de nome Cristina, casada com um ex-seminarista de nome Simeão. Foi um escândalo terrível porque, simplesmente, o ex-seminarista era sobrinho-neto do General Mário Carneiro Portes, na ocasião Secretário de Segurança, circunstância que só descobrimos depois que ele foi preso.

Veio uma equipe do CIE e os levou para São Paulo, onde estavam indiciados em um IPM sobre a criação do Partido Comunista Brasileiro Rural. Esta facção ou dissidência subversiva foi uma iniciativa que não teve vida longa; não conseguiu sobreviver em função desse inquérito que estava ocorrendo lá. A ex-freira e o marido dela (o ex-seminarista) ficaram em São Paulo um dia e retornaram. O encarregado do inquérito era o famoso delegado Fleury (Sérgio Fernando Paranhos Fleury). O Simeão e a Cristina saíram daqui em uma madrugada, no carro do CIE; na mesma manhã, cedinho, liguei para São Paulo:

- Delegado Fleury, aqui é o Tenente-Coronel Roberto Monteiro de Oliveira etc. e tal. Os presos referidos seguiram viagem, passaram na minha mão tantas horas, estão incólumes e ela disse que está grávida. Peço ao senhor que tome cuidado com alguma coisa que possa ocorrer.

Ele falou assim:

- Coronel, isso que falam de mim é onda. Não faço nada com ninguém.

No final da tarde, ele me ligou:

- Coronel, já confessaram tudo, vou mandar uma cópia para o senhor. De fato, eles tiveram ligações com o PCBR etc. etc...

E deu as linhas gerais da confissão que eles assinaram lá, no mesmo dia. No dia seguinte, estavam aqui, sob a tutela da prelazia, dando entrevistas sobre os maus tratos que haviam recebido e dizendo que tinham sido torturados. Em consequência, Dom Albano Cavalim, Bispo Auxiliar, foi falar com o General Tourinho, Comandante da Região. Como o General tinha uma grande confiança em mim, recomendou ao Bispo:

- O Sr. suba ao 4º. andar, fale com o Roberto e verá que nada disso é verdadeiro.

Conversei com Dom Albano Cavalim e lhe mostrei que tudo era a mais deslavada mentira. Primeiro passaram presos aqui algumas horas e em São Paulo outras poucas também, onde confessaram” (Coronel Roberto Monteiro de Oliveira, Tomo 13, pg. 207-208).

 

MORTE DE CASTELLO BRANCO: ACIDENTE OU ATENTADO?

“Em novembro de 1964, quero frisar bem, oito meses depois da Revolução já implantada e articulada, os comunistas encolhidos, surge um movimento subversivo chamado PORT – Partido Operário Revolucionário Trotskista.

O General Lyra Tavares esclareceu:

- Temos aqui uma semente já lançada, podemos colher frutos e você vai apurar.

O problema era o seguinte. A Polícia havia descoberto um ‘aparelho’ desse Partido Trotskista, em Recife. Estavam envolvidos jovens, universitários, tanto moças como rapazes e alguns jornalistas, também. Nesse meio, apareceu um ex-sargento da Aeronáutica chamado Jair Borin, o único militar nesse grupo. Mas a própria Polícia que estava fazendo o inquérito suspeitava de que estivessem envolvidos outros militares, do Exército e da Marinha. Coube-me a responsabilidade de apurar se algum militar do Exército estava envolvido nisso.

(...)

Ninguém melhor do que o comandante da Base para nos dar informação; o ex-sargento esteve fazendo propaganda subversiva lá dentro, em pleno Governo de João Goulart e, antes da Revolução, havia sido expulso, tanto que estava fazendo um curso de Jornalismo.

(...)

Fui com o Bismarck [Capitão Bismarck Amâncio Ramalho, escrivão do Inquérito] às casas dos sargentos, na Vila Militar, demos uma batida e encontramos vários documentos que comprometiam a maior parte deles; eram sargentos antigos, alguns até poliglotas.

Encontrei um papelzinho, onde havia um desenho grosseiro de dois aviões se chocando e, em um deles, escrito assim: Presidente.

O detalhe que quero ressaltar: isso aconteceu em novembro de 1964, no desenho o avião do Presidente se chocando com o outro que era da FAB.

Era um n muito grosseiro: dois aviões em voo se chocando, mas um tinha uma inscrição ao lado: avião do Presidente! O outro era da FAB.

Voltei para ouvir o Jair Borin, que continuava preso na Companhia de Guardas. O general mandou deixá-lo lá. Ele estava preso à disposição da Polícia. E o Borin disse:

- De fato, essa turma há muito tempo está fazendo vários planos de simular um choque aéreo de aviões, inclusive com autoridades que sobrevoam o aeroporto...

E, a certa altura, declarou:

- Esse Presidente aí é o Castello Branco! É o voo do Presidente, chegando aqui e se chocando com outro avião!

Fui logo ao General Lyra Tavares:

- Aqui aparece uma coisa muito importante. De todas as diligências que estamos fazendo, há quase trinta dias, surge esta revelação: o desenho pode ser uma brincadeira, mas pode ser uma coisa séria também!

Logo em seguida, o Marechal Castello Branco veio em visita ao Recife, quando estava circulando aquele noticiário de torturas aos presos políticos, espancamentos...

O Marechal Castello Branco veio acompanhado do General Ernesto Geisel para, in loco, certificar-se da existência desse fato. Todos os encarregados de inquéritos foram reunidos pelo Comandante do IV Exército na Escola Aprendizes de Marinheiros, no salão nobre; eu estava lá, fui logo convocado.

Havia coronéis, tenente-coronéis para se apresentarem ao Presidente, mas o General Lyra Tavares disse:

- Presidente, aqui estão todos os encarregados de inquérito. Vou chamar logo o Major Dynalmo, porque o senhor vai ter uma surpresa desagradável, é uma notícia um pouco ruim.

Era justamente o nome dele como sendo vítima, possivelmente uma vítima.

Eu me apresentei, disse qual o inquérito que estava fazendo, que já estava no final, mas não havia envolvimento de militar do Exército, felizmente para nós; mas havia, infelizmente, sargentos da Aeronáutica, até homens de confiança do Comandante da Base, trabalhando na sessão de controle de voo e aquele desenho deixara-me apreensivo.

Mostrei para o Presidente; ele virou-se para o Geisel e disse:

- Isso deve ser uma brincadeirqa!

A seguir, voltando-se para mim:

- Não é, Senhor Dynalmo?

- Presidente, pode ser uma brincadeira, mas brincadeira de mau gosto, porque há depoimentos de outros; um está preso, um ex-sargento expulso por subversão, que confirmou existir um plano antigo provocando um acidente com um Presidente e no momento... é o senhor!

(...)

Que é que aconteceu depois?

Todos sabem qual foi o motivo da morte do Marechal Castello Branco: um acidente aéreo!

Foi um impacto entre o avião da FAB e um avião civil, se não me engano um ‘teco-teco’ que vinha do Ceará. Na época do acidente (ano de 1967), realizou-se um inquérito para saber se o acidente não teria sido – sem citar o que eu havia apurado – uma coisa preparada, programada, planejada ainda por alguns criminosos brasileiros, traidores da Pátria, que nunca se dão por vencidos.

Para mim foi mera coincidência ou algo sem ligação anterior (porque houve inquérito).

Acharam que foi um avião a jato que passou muito rápido e abalroou o outro avião; mas foi um fato que chamou a atenção e está aí nos arquivos do IV Exército, hoje Comando Militar do Nordeste.

É um assunto sigiloso, não se deu muita notícia nos jornais” (Coronel Dynalmo Domingos de Souza, Tomo 6, pg. 53-58).

 

Lema de Castello Branco: “Servidão e grandeza militares”

“Na França, onde cursou a Escola Superior de Guerra, leu Alfred de Vigny – ‘Servidão e Grandeza Militares’ – no qual se inspirou. O que era Servidão, para ele? Era o Exército servir à Nação; e a Grandeza Militar era o Exército não se ‘apaixonar’ pelo Poder. Enfatizo esse aspecto: era o apanágio dele. Ele sempre me falava a respeito disso. As Forças Armadas devem estar permanentemente a serviço do engrandecimento do País e jamais usufruir o Poder” (Coronel Anysio Alves Negrão, Tomo 15, pg. 336).

 

AFINAL, FOI UM GOVERNO MILITAR OU UM GOVERNO CUJOS PRESIDENTES ERAM MILITARES?

“Quem foi militar nos governos da Revolução, além do Presidente? Os ministros militares, é claro. Nos vinte anos de Revolução, podemos apontar o Coronel da reserva Jarbas Passarinho, o Capitão-de-Mar-e-Guerra da reserva Euclides Quandt de Oliveira, o General da reserva Rubens Ludwig, especialista em Educação e ex-comandante da AMAN, o General Dirceu, engenheiro de construção, que foi chamado a prestar serviços como Ministro dos Transportes, o Coronel engenheiro Corsetti, que modificou radicalmente a situação das comunicações no País, e o brilhantíssimo Ministro Andreazza.

Os demais eram civis, como os Ministros Octávio Gouveia de Bulhões, Roberto Campos, Mário Henrique Simonsen, Delfim Netto, Hélio Beltrão, Gama e Silva, Langoni – homens de reconhecida competência e de largos conhecimentos profissionais” (Coronel Henrique Carlos Guedes, Tomo 3, pg. 266).

 

 

A ESQUERDA FALA MUITO SOBRE A “OPERAÇÃO CONDOR”, MAS NADA SOBRE O MOVIMENTO COMUNISTA INTERNACIONAL E O “OURO DE MOSCOU”

“Quando me encontrava na Escola de Comando e Estado-Maior, na fase pós-revolucionária, começamos a agir em vários setores. Tive a sorte de flagrar um comunista chamado Marco Jacobovist que dava ordens por telefone para diferentes elementos, instalados no Nordeste, no Sul e em outras regiões. Localizado o ‘aparelho’, mandávamos uma turma lá, mas o apartamento foi encontrado vazio, só com o telefone. Pensava: tenho que pegar esse camarada, acredito que Deus ajuda quem trabalha e atrapalha o vagabundo. Por isso, pedia a Deus que me ajudasse, se estivesse fazendo uma guerra justa, e Ele me auxiliou. Num dos telefonemas, o sujeito disse o seguinte:

- É a última vez que eu falo com vocês – e desligou.

Isso foi gravado pelo nosso pessoal. Logo imaginei que ele estivesse para fugir, mas não sabíamos o seu nome, porque, para cada lugar, era usado um codinome diferente. Então, comecei a acionar a Aeronáutica. Precisava saber os horários dos vôos. Não sei explicar o porquê, mas achei que iria para o Uruguai. Dito e feito. Um Coronado da Varig havia sido fretado para uma viagem particular para o Uruguai. Acionei a FAB e pedi que mandassem uma patrulha e prendessem quem estivesse no avião. Um tenente da FAB chegou lá e encontrou o sujeito, acompanhado de um advogado, já embarcado. O advogado abriu a pasta e mostrou o habeas corpus. O tenente me telefonou perguntando o que fazer. Respondi:

- Rasgue o habeas corpus e traga o advogado também para o quartel.

Pegaram os dois. Então, é revolução ou não é? Pois bem, descobrimos que ele morava em Ipanema e, se não me engano, quem chefiou a busca no apartamento foi o Attila Viana, de Cavalaria, depois General. Atuou muito bem; trouxe do apartamento, sem exagero, um pacote de depósitos bancários referentes a remessas de dólares do estrangeiro para o Brasil, em nome dele. O dinheiro vinha da Bulgária, Iugoslávia, Checoslováquia, ou seja, de países da Cortina de Ferro, para fomentar a revolução no Brasil. O volume de dinheiro era impressionante; eram depósitos de 60 mil, 80 mil dólares” (Coronel Mário Dias, Tomo 2, pg. 304-305).

“Depois do advento da chamada ‘Nova República’, as Forças Armadas têm sido criticadas sistematicamente pelo que fizeram ou deixaram de fazer durante o período do regime autoritário. Sei que é difícil polemizar com a mídia, mas acho que devíamos contestar as mentiras e meias verdades veiculadas contra nós. Sempre que replicamos as inverdades sem fundamento, eles se calam. Um exemplo: quando houve aquela onda na imprensa sobre a Operação Condor, fizeram uma série de acusações contra nosso colega Ponzi (Carlos Alberto Ponzi). Ele contestou as calúnias revelando o que realmente ocorrera na época em que era chefe da Agência do SNI em Porto Alegre. Não se falou mais no assunto” (Coronel Hélio Lourenço Ceratti, Tomo 13, pg. 194).

Obs.:

A Operação Condor foi uma reação de governos militares da América do Sul ao Movimento Comunista Internacional (MCI).

Cfr. texto sobre o assunto, um meu e outro do General Rocha Paiva, e o Tribunal italiano que processa militares brasileiros por envolvimento na Operação Condor - https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/06/operacao-condor-reacao-ao-movimento.html.

A famigerada Comissão Nacional da Verdade também trata do assunto – cfr. http://cnv.memoriasreveladas.gov.br/images/documentos/Capitulo6/Capitulo%206.pdf.

Aparelho - Esconderijo de terroristas durante a luta armada no Brasil, onde se encontravam também o armamento e o mimeógrafo para impressão de panfletos subversivos. O aparelho podia ser “aberto” (conhecido por outros militantes, além de seus moradores ou responsáveis), “fechado” (conhecido somente por seus moradores ou responsáveis), “de base” (utilizado para reuniões, devia possuir “fachada legal”; normalmente, conhecido apenas por dois militantes, os demais eram levados ao local de carro e “fechados”), “de aliado” (eventualmente, usado em emergência para abrigar um militante que não podia identificar o local e era levado a este completamente “fechado”), “de imprensa” (local onde eram confeccionados os documentos de agitação e propaganda. O aparelho era dotado de máquinas copiadoras - antigamente, os mimeógrafos (a tinta e a álcool, a famosa “cachacinha”) - e aparelhos para impressão. Havia, ainda, o aparelho “de informações”, destinado à coleta, análise e difusão de informações; continham fichários, códigos, normas de segurança e outros documentos de informações.

F. Maier

 

 

CONTROLE DEMOGRÁFICO

Alguns generais entrevistados consideram um erro, o Governo Militar não ter se empenhado diretamente num programa de controle de natalidade. Diz o General Leonidas Pires Gonçalves:

“Enquanto nós não tivermos, em nosso País, uma política demográfica estabelecida – mas diga-se de passagem, nada compulsório, nada obrigatório, mas sim de caráter educacional – ficaremos numa situação difícil para resolver problemas sociais. Haja vista um dado que gosto de repetir: a cada ano, nasce no Brasil uma população igual à do Uruguai” (Tomo 1, pg. 89).

 

HOUVE INFLUÊNCIA DIRETA DOS EUA NO MOVIMENTO DE 1964?

Os terroristas, que foram derrotados pelo Movimento de 1964, falam que os revolucionários (militares e civis) obtiveram apoio direto dos EUA. Mesmo que isso fosse verdade, qual o problema, se eles faziam cursos de guerrilha no exterior e recebiam vultosas somas de dinheiro (“ouro de Moscou”) para comunizar o Brasil desde a Intentona Comunista, em 1935, desencadeada por Moscou com a ajuda de mercenários alemães e Luis Carlos Prestes?

“As esquerdas tiveram auxílio externo de toda ordem – auxílio financeiro, formação de ativistas e outros – de países comunistas, principalmente de Cuba. Essa é uma verdade que está, intencionalmente, esquecida. Havia setores de esquerda que até possuíam listas de líderes e de administradores cubanos que viriam para o Brasil, logo que a subversão fosse vitoriosa, para aqui assumirem postos na administração pública. Vi tais listas em mãos de ativistas de esquerda” (Coronel Helio Mendes, Tomo 1, pg. 261).

“Sabe-se que os detratores da Revolução gostam de explorar essa tese, dizendo que houve ajuda dos Estados Unidos e apresentam, como comprovação, uma ordem recebida pela esquadra americana para aproximar-se do Brasil. Isso é de uma ignorância muito grande. Uma país, cuja estratégia é mundial, como os Estados Unidos, normalmente desloca uma de suas esquadras para os lugares de crise.

É comum lermos que tal Esquadra deslocou-se para o Mediterrâneo, próximo do Oriente Médio, outra Esquadra deslocou-se para o Mar Vermelho ou para as proximidades de Formosa. Toda vez que há uma crise, por medida de precaução, uma Esquadra é deslocada para as proximidades do local. É um procedimento de rotina. As pessoas que lêem os jornais diariamente sabem que isso acontece toda vez que se esboça uma crise, seja em que região for. Agora, o deslocamento de uma esquadra americana para a costa brasileira, na época do Movimento de 31 de março, tem sido considerado comprometimento dos revolucionários com o governo de Washington, o que nunca houve. Embora, sem dúvida nenhuma, os americanos tenham acompanhado tudo.

Fala-se muito no General Wernon Walters, adido militar americano na época. Ele sabia de tudo o que estava acontecendo, porque conhecia a todos, pois esteve conosco na FEB. Tornou-se amigo do General Mascarenhas de Moraes, do General Castello Branco e de todos os oficiais da FEB. Qualquer um que acompanhasse os jornais com atenção observaria, de maneira clara e objetiva, o que estava acontecendo.

De modo que, rejeito completamente essa hipótese, essa acusação de que a conspiração foi feita em entendimento com os militares ou governo norte-americanos. Deslocar a Esquadra para áreas de conflito é rotina estratégica dos Estados Unidos” (General-de-Exército Carlos de Meira Mattos, Tomo 1, pg. 229-230).

“Esse episódio começa porque vem à baila o General Vernon Walters, que fora intérprete junto à Força Expedicionária Brasileira na Itália, e se tornou amigo íntimo do Presidente Castello Branco. Quando o Sr. John Kennedy percebeu que as crises tomavam rumo perigoso, convocou o Vernon Walters, que estava, nessa época, servindo na Itália, e o deslocou para Adido junto à Embaixada Americana no Brasil, dirigida pelo Sr. Lincoln Gordon. Thomas Skidmore, baseado no levantamento que fez nos Estados Unidos, afirma que não houve, quer do ponto de vista financeiro, quer do ponto de vista político, nenhuma ingerência dos Estados Unidos na Revolução de 1964. Foi um movimento genuinamente nacional” (General-de-Brigada Danilo Venturini, Tomo 15, pg. 164-165).

“Existe um número da revista Reader’s Digest, dessa época, que publica um artigo muito bonito, intitulado: ‘A Nação que se salvou a si mesma’, onde estão estampadas fotos do espetáculo proporcionado pela Marcha da Família com Deus pela Liberdade.

Há um outro documento, que possuo, este publicado pela Editora Civita, de São Paulo, não sei se hoje ainda existe, estudo muito bonito, com o título: ‘Do comunismo de Karl Marx ao Muro de Berlim.’ No final, aborda os antecedentes do Movimento de 1964 e a assunção da Presidência da República do Marechal Castello Branco” (General-de-Brigada Ruy Leal Campello, Tomo III, pg. 62).

“Tivemos conhecimento de que o ex-embaixador soviético no Rio de Janeiro, em conversa com o nosso embaixador em Moscou, lhe confidenciara ter recebido uma visita de Luís Carlos Prestes, depois de muita insistência. Prestes afirmara que a revolução no Brasil já estava ‘madura’ e que bastava mais ajuda financeira e material da União Soviética para que eles dominassem o País, porque já estariam no governo. Esse ex-embaixador soviético contara também ao nosso embaixador – o falecido Celso Souza e Silva – que, na oportunidade, dissera a Prestes o seguinte:

- Não, que o Prestes ficasse onde estava, agitasse, mas não pretendesse tomar o Governo, porque Cuba já custava para a União Soviética alguns milhões de dólares, diariamente; que o Brasil, em relação ao tamanho de Cuba, evidentemente, para ser mantido como um país comunista, ia estourar o tesouro soviético; que esquecesse essa ideia” (Coronal Luiz Paulo Macedo Carvalho, Tomo 1, pg. 288).

“Comenta-se muito a esse respeito, mas não tenho conhecimento de algum apoio externo, embora no plano inicial do Estado-Maior revolucionário, que já comentei anteriormente, admitíssimos a possibilidade de enfrentar muitas dificuldades, inclusive não conseguir descer das Alterosas, constasse, além da defesa de Minas, a conquista do Porto de Vitória, com o objetivo claro de receber apoio estrangeiro.

No caso de uma guerra interna, não há dúvida de que os Estados Unidos iriam apoiar os anticomunistas. Daí a nossa previsão de dominar um porto para poder receber o necessário reforço em armamento, munição etc.

Aliás, como imprevidência dos integrantes do Governo Goulart, mesmo depois de iniciada a Revolução, os caminhões transportadores de combustível continuaram trafegando normalmente, do Rio para Juiz de Fora, quando a primeira providência sensata, em termos de operações militares, seria cortar de Minas esse suprimento vital” (General-de-Bvrigada José Antônio Barbosa de Moraes, Tomo 2, pg. 204-2015).

“É evidente que as embaixadas e os adidos militares, sobretudo dos Estados Unidos, estavam acompanhando aquele desacerto crescente, de crise sobre crise, aguardando um desfecho, como efetivamente ocorreu. Eles não poderiam deixar de acompanhar a evolução daquela conjuntura. O que se pode discutir, dessa questão, é se eles estariam interferindo. Até onde sei, também havia preocupação de outras representações diplomáticas, como as da União Soviética e da China.

Eu mesmo posso dar um testemunho. Quando o avião, que me conduzia de Uruguaiana ao Rio de Janeiro, fez escala em Porto Alegre, em 25 de abril de 1964, ao descer no Aeroporto Salgado Filho, com minha família, encontrei o Adido Militar dos Estados Unidos, Coronel Vernon Walters. Conheci-o da FEB, quando ele ainda era capitão e intérprete junto ao V Exército. Aproximou-se de mim e falou, demonstrando surpresa:

- Puxa! Você está aqui?

- O que você está fazendo aqui? – perguntei-lhe do mesmo modo, também surpreso, por encontrá-lo em Porto Alegre.

- Estou indo para a 3ª. DC, em Bagé. Ouvi dizer que houve problemas naquela região e quero observar os acontecimentos.

- Você está bem-informado! – eu gostava de brincar e, também, dizer o que queria.

- Olha, já sei de tudo o que aconteceu, em Uruguaiana, com a 2ª. DC – completou o, então, Coronel Walters.

Vejo isso de uma maneira quase natural, porque eles deviam estar acompanhando a evolução do movimento” (Coronel Amerino Raposo Filho, Tomo 2, pg. 280).

“A bipolaridade existente no mundo de então, entre a Rússia e os Estados Unidos, fez com que surgissem movimentos, em todos os países, com o objetivo de sustentar a democracia, pois aqueles que não a mantiveram, como Cuba, cederam ao comunismo.

Quanto à influência externa, gostaria de fazer um relato. Vernon Walters, general americano que foi Adido Militar dos Estados Unidos no Brasil, em seu livro Missões Silenciosas, diz que não houve movimentação alguma por parte dos americanos. Ele diz que, com base em informações que vinham do Brasil, havia uma ‘contingência’. Esse é o termo usado por ele. Segundo Walters, os Estados Unidos tomaram uma posição de resguardo, preparação e planejamento. Mas não sabia da existência de movimento de tropas para isso. No entanto, em 1965, levei provas do exame de habilitação à Escola de Comando e Estado-Maior, para Juiz de Fora. Lá, o General D’Ávila Mello, que comandava a 4ª. RM, convidou-me para almoçar. Nesse almoço, apareceu, de repente, o General Vernon Walters. Foi uma surpresa agradável, porque ele era querido por nós dois. Começamos a conversar e ele disse que havia uma força-tarefa ao longo da costa brasileira pronta para atuar em defesa da Revolução. Se ele me desmentir, está desmentido” (Coronel Mário Dias, Tomo 2, pg. 300).

“Não houve qualquer ação externa, nem mesmo americana. O Embaixador Lincoln Gordon manteve o seu governo informado de tudo acerca da Revolução, como era de sua obrigação, mas, ao eclodir o Movimento, foi tão surpreendido como o foram os comunistas.

O Embaixador Lincoln Gordon pediu, através do General Vernon Walters, adido militar, que era coronel à época, muito amigo de todos nós – tinha sido oficial de ligação da FEB com o V Exército americano, na Itália, durante a Segunda Guerra Mundial – uma audiência com o Ministro Costa e Silva, que era o Comandante Supremo da Revolução. Marcada a data, o Embaixador, que falava português, chegou e disse o seguinte:

- Vim aqui pedir para os senhores assegurarem a liberdade de imprensa e os direitos humanos, e saber o motivo da invasão da Associated Press.

- Olha, Embaixador – falou o Ministro Costa e Silva, surpreso, olhando para ele – pensei que o senhor não tivesse dúvidas sobre isso. Claro que vamos cumprir a lei. Quanto à Associated Press, não é uma empresa do governo americano, nem ligado à sua embaixada. É uma empresa particular.

E prosseguiu:

- Pensei que o senhor viesse aqui cumprimentar-nos pelo êxito da Revolução, que evitou a comunização do Brasil, o que acarretaria real prejuízo para os Estados Unidos.

Essa foi a resposta do General Costa e Silva. O Sr. Lincoln ficou meio ‘sem graça’ e saiu.

Além disso, convenhamos, o General Mourão surpreendeu a todo mundo, inclusive o próprio General Castello Branco, Chefe do Estado-Maior do Exército, que só soube do movimento de Minas Gerais depois que ele já estava na rua, que dirá o Sr. Lincoln Gordon” (Coronel José Tancredo Ramos Jubé, Tomo II, pg. 333-334).

“A única coisa que ocorreu e isso está no livro do meu pai [Carlos Luis Guedes] – cujo exemplar, que tenho aqui, é do meu irmão – foi uma conversa sigilosa de meu pai com o Vice-Cônsul dos Estados Unidos, o Sr. Lawrence Laser, que o procurou, oferecendo apoio em pessoa. Meu pai recusou, dizendo que, se fosse o caso, pediria ajuda material – blindados, armamento leve e pesado, munição, combustível e material de comunicações. Foi-lhe imposta a condição de que não seria desembarcado em solo brasileiro nenhum só homem, para que não fosse desvirtuado o caráter da Revolução. Também, nada lhe foi oferecido em troca, bastando-lhe a consideração dos riscos para a segurança norte-americana que um Brasil comunista representaria.

Em seu livro, diz meu pai: ‘Meu interlocutor (Lawrence Laser), por sua vez, mostrava-se impressionado com a receptividade do Movimento revolucionário no dia 31 de março e o entusiasmo da população em Belo Horizonte. As filas extensas nos postos de apresentação de reservistas e voluntários; a mobilização incalculável dos meios de transportes – caminhões de todos os tipos, jamantas, carros de passeio; a ordem, a organização, tudo concorrendo para que, no seu espírito, se firmasse a ideia da sanidade e do vulto do Movimento, finalmente desencadeado por uma nação que não queria perecer’.

Entretanto, a incrível derrocada do famoso e ameaçador dispositivo militar de Jango e de sua pretensa popularidade, que, afinal, se revelara um mito, tornou desnecessária qualquer ajuda material’.

(...)

No dia 31 de março, pela manhã, um avião leou o Dr. Oswaldo Pieruccetti para Vitória como emissário do Governo de Minas. Naquela capital, ajustaram-se todos os pontos de vista, integrando-se, no Movimento, todo o Estado do Espírito Santo – Governo, força policial, bem como a guarnição federal, por seu comandante Coronel Newton Fontoura de Oliveira Reis. Assim, ficou assegurado o porto para entrada de suprimentos a serem transportados pela E. F. Vale do Rio Doce, cujo tráfego seria garantido pelo 6º. Batalhão de Infantaria de Governador Valadares. O auxílio material americano deveria entrar pelo Porto Vitória, o que, também, foi dito pelo meu pai ao Sr. Laser. Mas, felizmente, como disse, as tratativas não precisaram prosseguir, com a queda do Governo, sem luta, o que foi, para o País, a melhor solução” (Coronel Henrique Carlos Guedes, Tomo 3, pg. 260).

“Consegui recentemente um documento, publicado na coluna do Elio Gaspari – saiu no Estado de Minas, bem como no O Globo, em 19 de setembro de 1999. Neste artigo ele fala sobre Lincoln Gordon, mas o importante não é o artigo em si, que é irrelevante; e sim esse cabograma – naquele tempo, o meio de comunicação, sem Internet, era através de cabograma – que aparece aqui.

Esse cabograma é do dia 30 de março, de uma informação gerada nos Estados Unidos no dia 30 de março de 1964, para o então Presidente, alertando de que o Movimento no Brasil – não fala em Minas Gerais, fala no Brasil – já estava em andamento para a destituição do Presidente da República. Só que não tinham a menor ideia de como tudo iria se processar, que a destituição seria muito mais rápida do que se imaginava, do que eles pensavam.

Outro fato inventado, o que chega a ser ridículo, é que o Movimento foi insuflado pela CIA (Central de Inteligência norte-americana), foi orientado pela CIA, quando absolutamente não houve nada disso. Mais uma insensatez dos revanchistas!

O Movimento deu certo, até porque foi feito, como dizemos mineiramente, com aquela velha história de que mineiro trabalha em silêncio, foi sendo germinado lá em Minas, sem que houvesse interferência de potência nenhuma.

Voltando ao cabograma, por que aquele texto veio em um cabograma do dia 30? É porque, no dia 30, de manhã, meu pai se reuniu com o Vice-Cônsul dos Estados Unidos, em Belo Horizonte, num apartamento de um primo meu, Adalberto, já falecido, e deu ciência de que nós estávamos começando um movimento revolucionário, para deposição do Presidente João Goulart.

Esse enfoque, essa comunicação ao Vice-Cônsul, cujo nome era Laser, gerou essa informação, através da embaixada, para os Estados Unidos. E ainda cito mais o seguinte: nessa conversa, o meu pai disse-lhe que, dependendo do desenrolar da situação, talvez se precisasse de um apoio dos Estados Unidos, sobretudo de natureza logística, porque, com certeza, como já vinha acontecendo, as forças de esquerda teriam o apoio daqueles que queriam transformar o Brasil numa grande Cuba. Essa é que é a realidade

(...)

Ainda tem uma coisa que meu pai disse para esse Laser: ‘A única coisa que não aceitamos, em hipótese alguma, era algum desembarque de tropa em nosso País; frisou, portanto, que não se admitiria nenhuma tropa americana desembarcando em qualquer parte do território nacional, em apoio ao Movimento de ‘964’.

Esse apoio poderia vir através de armas, de verbas, de mídia, em propaganda mundial a favor do Movimento em si, mas sem desembarque de tropa. Essa comunicação foi feita no dia 30; qualquer coisa que se fale de CIA, de envolvimento norte-americano, é um despropósito, não corresponde à realidade, em nosso Movimento que foi preparado em Minas, que é onde tudo começou.

Dentro das preocupações, houve um outro detalhe quando se resolver fazer o Movimento revolucionário, Minas, por ser um Estado continental, sem saída para o mar, ficaria dependente de ligações aéreas e, em determinadas ocasiões, marítimas, que se fariam muitas vezes, em apoio ao desembarque de armamento, de equipamento etc.

Para isso, o Governador do Espírito Santo, que estava solidário ao Movimento contra a comunização do País, colocou o seu Estado à disposição de Minas, cedendo os portos para qualquer operação que se fizesse necessária.

Nessa parte, cito a grande colaboração que deu ao Movimento o Marechal Denys. Ele estava em Juiz de Fora, e acompanhou as tropas; quando houve a primeira parada, ele foi quem fez o primeiro contato com a tropa que vinha do Rio.

Quem comandava o Destacamento vindo do Rio – composto pelo 1º. RI – Regimento Sampaio e por um Grupo do Regimento Floriano, era o Coronel Raimundo, Comandante do Sampaio, muito ligado ao Marechal Denys, e este, quando o Destacamento chegou a Três Rios, fez um contato com o Coronel Raimundo, destacando as razões do Movimento e solicitando a adesão do seu amigo e antigo subordinado. O Coronel comunicou-se imediatamente com quem o mandara contra a tropa de Minas, informando-lhe que as suas tropas estariam, a partir daquele momento, ao lado das tropas mineiras” (Coronel Carlos Alberto Guedes, Tomo 9, pg. 254-255).

 

Afinal, qual foi a posição dos EUA?

Achei estranho que nenhum dos entrevistados tenha falado sobre a famigerada “Operação Thomas Mann”. Então, vamos a ela.

É mentirosa a versão da participação dos norte-americanos na Contrarrevolução brasileira de 1964. Os documentos da inexistente "Operação Thomas Mann" foram forjados pela espionagem tcheca que, em 1964, atuava no Brasil via KGB. Essa mentira foi montada por Ladislav Bittman, que chefiava o serviço de desinformação da Tchecoslováquia. Em seu livro The KGB And Soviet Disinformation, publicado em Washington, Bittman declara: "Queríamos criar a impressão que os Estados Unidos estavam forçando a Organização dos Estados Americanos (OEA) a tomar uma posição mais anticomunista, enquanto a CIA planejava golpes contra os regimes do Chile, Uruguai, Brasil, México e Cuba (...) A Operação foi projetada para criar no público latino-americano uma prevenção contra a política linha dura americana, incitar demonstrações mais intensas de sentimentos antiamericanos e rotular a CIA como notória perpetradora de intrigas antidemocráticas" (site Ternuma). O livro 1964: O Papel dos Estados Unidos no Golpe de Estado de 31 de Março (Civilização Brasileira, Rio, 1977), da historiadora norte-americana Phyllis R. Parker, com tradução de Carlos Nayfeld, diz textualmente, nas "Conclusões", à pg. 128: "Não há provas de que os Estados Unidos instigaram, planejaram, dirigiram ou participaram da execução do golpe de 1964. Cada uma dessas funções parece ter competido a Castelo Branco e seus companheiros de farda. Ao mesmo tempo, há sugestivas evidências de que os Estados Unidos aprovaram e apoiaram a deposição militar de Goulart quase que desde o princípio. Os Estados Unidos reforçaram o seu apoio ao elaborar planos militares preventivos, que poderiam ter sido úteis para os conspiradores, se houvesse surgido a necessidade".

Obs.

Leia, de minha autoria, Operação Brother Sam, uma operação fantasma, disponível na Internet - https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/05/operacao-brother-sam-uma-operacao.html.

Abraham Lincoln Gordon foi o embaixador dos Estados Unidos no Brasil, entre 1961 e 1967.

O Marechal Odílio Denys havia sido Ministro da Guerra, no posto de General-de-Exército. O Coronel Raimundo havia sido assistente-secretário do Marechal Denys durante muito tempo.

Naquela época, um quatro estrelas, quando era transferido para a reserva, era promovido automaticamente a Marechal, como o foram também Castello Branco e Costa e Silva, dentre outros.

Castello Branco acabou com essa promoção automática, em todos os postos e graduações, quando assumiu a Presidência da República. Também limitou em 12 anos o tempo de permanência dos generais na Ativa.

F. Maier

 

A única ingerência dos EUA não obteve sucesso

“O General Médici, que era então o Chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI), veio almoçar comigo e conversamos muito. Eu lhe disse: ‘General, gosto muito do Brasil, acompanhei brasileiros quando estavam morrendo pela liberdade na guerra [na Itália]; estou preocupado de estar falando da cassação do Presidente Juscelino, mas se ela for consumada, vai dar rolo no mundo inteiro’. Ele me disse: ‘Infelizmente, já está assinada’. Foi a única ingerência que eu confesso e não obtive êxito.

Além do mais, nós, nos Estados Unidos, temos uma lei da liberdade de informação que, depois de 12 anos, não há mais segredos. Todos que pensam que tive alguma participação nisso, podem pedir ao Pentágono os telegramas que mandei durante aquela época. Eu era bem-informado, mas entre informado e participante há um mundo de distância.

O senhor conhece os militares brasileiros e, por isso, sabe como teria sido a reação deles com relação a um estrangeiro que dissesse: ‘Vocês devem fazer isso ou não devem fazer aquilo’. Por isso, fui muito cuidadoso falando com o General Médici sobre a cassação do Juscelino.

(...)

Acho que quem pensa que a Revolução foi um golpe fascista dos militares precisa ver as fotografias que foram tiradas, diante deste edifício, do Comício – se não me engano, no dia 13 de março – das bandeiras vermelhas, das palavras de ordem, dos cartazes expostos, tudo publicado também nos jornais e nas revistas da época. Só isso bastaria para saber se havia perigo dos comunistas tomarem o Poder. O povo sentiu isso, foi para as ruas, estimulou os militares, que viam os acontecimentos com preocupação, impacientes...

 

Mas me lembro, uma vez, em que eu estava no pátio aqui assistindo ao 7 de Setembro ao lado do embaixador soviético e ele disse: ‘Vocês, americanos, não têm dom para línguas estrangeiras; vocês sempre exigem que a gente fale inglês com vocês’. Embora pudesse haver um pouco de verdade nisso, eu lhe disse: ‘Embaixador, estranho muito – falei em russo – estranho muito que um homem como o senhor, que tem vivido tanto tempo fora da União Soviética, ainda acredita nesses contos de fada da propaganda comunista’. Aí, ele me disse: ‘Walters, você pode ser um bom soldado, mas diplomata você não o é’.

 

A verdade é que qualquer bom ou mau diplomata percebe claramente que não há o menor nexo achar possível que brasileiros estivessem dispostos a ouvir estrangeiros, americanos, a dar palpite aqui dentro sobre revolução. Acresce que os americanos não têm nada a opinar e muito menos a ensinar para brasileiros em termos de revolução! Há, aí, uma ignorância enorme a respeito do Brasil para pensar que estrangeiros pudessem fazer isso, mesmo que nada entendessem de diplomacia!” (Tenente-General Vernon Anthony Walters, dos EUA, Tomo 9, pg. 76-77).

 

Obs.

O General Walters “foi ajudante-de-ordens do General Mark Clark, quando Comandante do V Exército norte-americano, ao qual a Força Expedicionária Brasileira (FEB) ficou subordinada no Teatro de Operações da Itália, durante a Segunda Guerra Mundial. Foi designado, em agosto de 1944, Oficial-de-Ligação do V Exército junto à FEB. De 1964 a 1967, desempenhou as funções de Adido Militar junto à Embaixada americana no Brasil, período em que foi promovido a General” (Tomo 9, pg. 67).

F. Maier

 

Auxílio americano ao Brasil: ao IBAD, distribuição de viaturas e compartilhamento de informações sobre movimentação de comunistas brasileiros (além da Aliança Para o Progresso e The Cooperative League of the USA - CLUSA)

“Nos dez anos em que passei mergulhado no processo revolucionário, só ouvi falar de assuntos que envolviam americanos, duas vezes. Uma sobre um tal de IBAD – que receberia recursos através da Agência Central de Informações (CIA), para financiar a eleição de parlamentares anticomunistas. Também fiquei sabendo que havia um negócio de viaturas, que compravam e distribuíam etc. Nada mais, nunca mais ouvi nada. Tempos depois, já em Brasília, na D2 [embrião do CIE] do Gabinete do Ministro Costa e Silva, recebíamos a colaboração que acreditávamos, na época, ser proveniente de agentes da CIA. Entretanto, tinha origem na Embaixada, cujo pessoal atuava no controle da movimentação de comunistas para a China, URSS, Tchecoslováquia, Cuba etc. Eles nos forneciam os nomes, as datas e locais onde fossem plotados, até mesmo seus destinos.

Brasileiros? [entrevistador]

Os brasileiros. Lembro que um dos pontos de controle ficava em Karachi, no Paquistão. Recebíamos a informação e vigiávamos o regresso, bem como os itinerários. Regressavam pela Guiana, por Mato Grosso, e outros pela Argentina mesmo.

Estas foram as participações americanas de que tomei conhecimento; devo esclarecer que era ligado, cerradamente, a escalões que deveriam saber de alguma coisa. Ouvi falar sobre uma força-tarefa, mas sem comprovação, que os americanos imaginaram mandar para cá para atuar, em caso de insucesso da Revolução” (Coronel José Campedelli, Tomo 15, pg. 288-289).

 

MEMÓRIA POLÍTICA - Jarbas Passarinho

“O ex-governador do Pará, ex-ministro e senador Jarbas Passarinho conta passo a passo a história da conspiração que resultou no Golpe de 64. Justifica o papel dos militares e culpa os radicais da esquerda pela guerra suja da repressão política. Num longo depoimento ao Programa Memória Política, Jarbas Passarinho comenta, sob a ótica de quem viveu e conviveu com o poder durante toda a vida, sobre os principais fatos de nossa história política.”

https://www.camara.leg.br/tv/144751-jarbas-passarinho/

 

ÍNDIOS MASSACRAM PESSOAL DA FUNAI DURANTE A CONSTRUÇÃO DA RODOVIA BR-174 (MANAUS-BOA VISTA)

 

“Comandei o 2º. Grupamento de Engenharia de Construção, na Amazônia, durante quatro anos. Uma das missões dos Batalhões do Grupamento era a construção da Rodovia Manaus-Boa Vista – fronteira com a Venezuela. Era a BR-174.

Quando assumi aquele Comando, em junho de 1974, essa estrada possuía duas frentes de serviço. Por se desenvolver no sentido norte-sul e cortar a Linha do Equador, o regime de chuvas era diferente em cada extremidade da rodovia. Em vista disso, conforme a estação chuvosa, trocávamos os elementos do sul para o norte e vice-versa. Encontrei o Batalhão com sua frente de serviço no Rio Abonari, que era a divisa de uma reserva indígena de duas tribos muito agressivas.

Na base localizada junto ao rio, ao lado sul, fora da reserva, havia o acampamento da companhia de engenharia que implantava aquele trecho da estrada. Ao norte do rio, dentro da reserva indígena, localizava-se o acampamento da Fundação Nacional do Índio (Funai), que fazia as ligações com os índios – porque o Exército, quando fez o convênio com o Ministério dos Transportes, para a construção dessa rodovia, exigiu que todo o contato com os índios fosse feito pela Funai.

Antes desse convênio, houve uma missão da Funai, organizada com a finalidade de fazer contatos preliminares com os índios, para explicar-lhes que iria ser construída aquela estrada. A essa missão foi incorporado um padre, que se chamava João Calleri. Pois bem, os índios pegaram essa expedição composta de 11 pessoas e mataram 10, inclusive o Padre Calleri, tendo escapado um mineiro funcionário da Fundação. Foi o primeiro ataque. Quando fizemos a ponte sobre o Rio Abonari, denominei-a Ponte Padre Calleri.

Havia duas tribos naquela reserva: a tribo dos atroari e a dos waimiri. O delegado da Funai, na Amazônia, considerava que os atroari eram agressivos e os waimiri, não. Estes eram seus amigos, frequentavam sua casa em Manaus, onde o cacique Maruaga se hospedava, quando ia tratar-se na Cidade. O delegado ficava na maloca dos índios, também. Como afirmei, assumi o Comando do Grupamento em junho de 1974.

No mês de outubro, os índios chegaram ao acampamento da Funai e combinaram que no dia seguinte um grupo sairia para caçar e outro iria para a roça – a Funai tinha uma roça para ensinar os índios a plantar. Quando amanheceu o dia, o grupo que ficou para plantar atacou e matou todos os que estavam no acampamento, menos um que escapou, e os que foram caçar atacaram os funcionários da Fundação que o acompanhavam e mataram todos. Foi o segundo ataque.

No mês seguinte, reuni o pessoal e fiz várias determinações, entre as quais que ninguém poderia trabalhar em grupo com menos de 15 homens. Mas tinha um empreiteiro – era até um cearense – que trabalhava abrindo picadas na mata e bem à frente do serviço. Disse-me que os índios eram seus amigos, que tratava deles fornecendo-lhes remédios e comida, que tinha toda confiança neles. Ainda lembrei ao André – era esse o nome do empreiteiro – que havia proibido grupos com menos de 15 homens. Ele saiu dali e mandou uma turma de quatro homens a 20 km adiante do nosso acampamento. O grupo foi atacado pelos índios. Três morreram e um escapou com uma flecha atravessada no peito. Foi o terceiro ataque.

No quarto ataque, os índios mataram todos os homens da Funai, no acampamento, inclusive o delegado da Fundação na Amazônia, o Gilberto Pinto – muito amigo nosso – do qual tenho ainda uma fotografia com uma flecha atravessada no tronco. Mataram todos, escapou somente um. Por coincidência, em todos os quatro ataques, sempre escapou um. O povo dizia que era para contar a história, mas acho que não, pois esse camarada só escapou porque se atirou no rio e saiu mergulhando.

Em todos esses episódios, foram atacados, exclusivamente, o pessoal da Funai e esse empreiteiro. Nunca houve atrito de militares, ou mesmo civis do Grupamento, com os índios. Nos ataques, nenhum índio foi morto ou ferido; todos os mortos foram abatidos pelos índios. Essa é a história real.

 

Pasquim manauara acusa Exército de “exterminador de índios”

Pois bem, passei o Comando do Grupamento em 1978 e, cinco ou mais anos depois, já tendo me retirado da Ativa do Exército, recebi uma carta de um amigo, que estava servindo em Manaus, mandando-me um recorte de jornal daquela cidade, uma espécie de ‘Pasquim’, imprensa marrom que só faz chantagem. O dono do jornal, o Sr. Lucena, por conta disso, foi eleito vereador, deputado e senador, e como senador, em Brasília, acabou dando um tiro na cabeça, justiça com as próprias mãos.

A reportagem do jornal me acusava – a ao Exército – de ‘exterminadores de índios’, e dava conta da morte de milhares de índios. Ora, não havia morrido nenhum índio! Redigi uma carta detalhada a esse colega e o autorizei a falar com o Comandante do Comando Militar da Amazônia (CMA), dizendo que estava à disposição para ser interrogado e prestar todos os esclarecimentos necessários, se ele quisesse fazer qualquer investigação. Eles acharam melhor arquivar aquilo, não houve providências. Fiquei tranquilo.

 

A farsa do repórter Francisco José, do Fantástico

Posteriormente, me aparece aqui em Fortaleza, no meu apartamento, uma equipe de reportagem da Rede Globo, do Fantástico. O repórter Francisco José subiu ao apartamento, com sua equipe. Conversamos mais de meia hora. Expliquei tudo, contei toda a história, que não se matou nenhum índio. O repórter, afirmando que só queria a minha palavra, armou toda aquela parafernália na sala do meu apartamento, leu aquele trecho da reportagem, onde constavam as acusações contra mim e contra o Exército e pediu que eu dissesse se aquilo era verdade ou não. Disse que era mentira, que jamais um índio fora ferido. E relatei tudo de novo. Pois bem, quando a matéria saiu no Fantástico, a única fala minha era essa: ‘É mentira!’ Mais nada. O repórter só queria mostrar que eu tinha sido ouvido. Não deu direito ao público de conhecer toda a história que lhe foi revelada, porque ele gravou mas não publicou. Ficou nisso.

 

A revista Terra “mata” 200 soldados!...

Uns anos depois, recebo em casa um número da revista Terra, que eu assinava, trazendo uma reportagem sobre a ligação Manaus-Caribe, aquela estrada em que trabalhei e onde aconteceu toda a história. A reportagem era muito bonita, muito bem-feita, mas copiava tudo o que a mídia já tinha dito e ainda acrescentava que tinham morrido 200 soldados. Escrevi uma carta para a revista, contestando aquilo tudo, contando a história verdadeira. Ora, dizer que tinham morrido duzentos soldados! Isso era todo o efetivo da Companhia que trabalhava lá! Então a revista publicou uns pequenos trechos da minha carta, sem comentário, sem nenhum destaque. A verdade continou sendo negada ao público.

Narrando esses fatos, desejo mostrar o quanto é difícil modificar algo na mídia, principalmente quando interessa aos repórteres atacar as Forças Armadas. Nesses três episódios, como se vê, nada foi modificado, e lá continuamos nós, eu e o Exército, como ‘exterminadores de índios’ ” (General-de-Brigada Gentil Nogueira Paes, Tomo 12, pg. 142-145).

 

Obs.:

Leia o texto do General Hamilton Bonat sobre a BR-174:

https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/07/verdades-x-mentiras-o-exercito-na.html

 

A respeito do assunto, leia a fake history propalada pela imprensa:

https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/06/indios-assassinos-reclamam-de-genocidio.html

F. Maier

 

BASE DE GUERRILHA NA SERRA DO CEDRO ALTO, PRÓXIMO A CRICIÚMA, SC

“Consegui fazer um organograma detalhado das organizações de base de Porto Alegre, todas catalogadas por capítulo: um capítulo de generalidades; o grande suspeito Jomil Domingos Oltramare; o Partido Comunista do Brasil e suas linhas políticas; Organizações dirigentes regionais; Organismos dirigentes em âmbito municipal; Organizações de Base de classes; Organização de Base de empresas; e por aí afora.

Fiz um levantamento do Partido, das atividades comunistas que já se apresentavam, como terrorismo e sabotagens; organizações de publicidade, como o suplemento Novos Rumos. Acabei me estendendo a Santa Catarina porque surgiu uma organização – uma base de guerrilha na Serra do Cedro Alto – próximo a Criciúma.

O meu Comandante de Divisão – 6ª. DI – era o General Aragão (Augusto Cezar de Castro Muniz de Aragão). Antes de deslocar-me, fui ao QG e o General perguntou se eu queria tropa para apoio. Eu já escolhera um cabo para ser o meu motorista, um sargento datilógrafo e o escrivão do inquérito, um grande oficial, Major Canrobert (Canrobert Lopes Costa), que me auxiliaria a montar as perguntas e gerenciar a parte administrativa. Respondi-lhe, então, que esses três auxiliares resolveriam os problemas básicos. Lá, se houvesse necessidade e precisasse de gente, ligaria-me às autoridades locais e pediria apoio.

Mesmo porque não queria fazer escândalo com a minha presença; queria chegar em sigilo. Apresentei-me no Batalhão de Tubarão; era mais antigo do que o Comandante, mas me apresentei para pedir apoio. Fui até à base da guerrilha, infelizmente os guerrilheiros não estavam mais lá. Foram presos posteriormente por uma patrulha do Batalhão de Tubarão com o auxílio do subdelegado de Cedro Alto, ocasião em que foi descoberto um bocado de armamento.

Requisitei tudo isso em Florianópolis, porque a Secretaria de Segurança de Santa Catarina não queria entregar ao Exército. O Secretário, um Coronel companheiro de turma, Danilo (Danilo Klaes), autêntico revolucionário, não queria me entregar o armamento. Então disse a ele:

- Tu não tens que querer, quem está fazendo o inquérito do Partido Comunista sou eu, quem foi mandado para Santa Catarina desbaratar essa guerrilha, fui eu. O armamento era dessa guerrilha e é a única prova de que disponho. Outra coisa, esses guerrilheiros já estão presos comigo – embora a ação não tenha sido minha.

Só então ele me entregou, sob protesto; tive até que assinar um documento de recebimento de armas. Trouxe um aviãozinho carregado de armamento.

Como é o nome do lugar em que estava a guerrilha? [entrevistador]

Serra do Cedro Alto é o divisor entre as rodovias BR-116 e BR-101. Um local muito propício para guerrilha, porque podiam atuar tanto em um como no outro compartimento.

(...)

Ação Popular age em Porto Alegre, por obra de Bispo Vermelho

A Portaria Reservada do III Exército que determinou a instauração do IPM tinha como único subsídio para início das diligências os documentos do A2 da Aeronáutica. Uma outra coisa interessante: a existência da Ação Popular (AP) aqui em Porto Alegre foi revelada por mim. Quando ouvi a primeira citação da AP no inquérito, nem os comunistas sabiam o que era, porque eles mantêm os órgãos de base alheios uns aos outros, são todos estanques.

Uma característica dos subversivos; informações todas compartimentadas. [entrevistador]

Era e é a segurança deles. Mesmo quando se descobria uma célula, nenhum dos integrantes sabia nada do outro nem de outras células. Então, quando deslindei a AP, comentei com o General:

- Estou preocupado, porque alguém me informou que o bispo auxiliar de Porto Alegre, Dom Edmundo Kuns, está envolvido com a AP.

E eu acreditava nele, até ia à igreja para ouvi-lo. No 7 de Setembro, ele falou com um espírito de nacionalidade que me comoveu. Diziam que ele era um dos ativadores da AP. Foi a primeira vez que eu vi a Igreja envolvida. O General só me disse o seguinte:

- Marsillac, tu já tens um abacaxi na mão, não te envolvas nisso. Se no decorrer do inquérito outros depoimentos conduzirem para essa frente, traga as informações para mim, que tomarei as providências” (General-de-Brigada José Mattos de Marsillac Motta, Tomo 13, pg 126-127).

 

LEI DA ANISTIA

“Para mim, foi um desastre, porque só veio para beneficiar bandidos, terroristas, assassinos, que hoje estão aí, donos do Brasil.

O inimigo se apropriou da anistia que, em vez de representar esquecimento, aproximação entre contendores, vem servindo como lei de vingança dos bandidos derrotados, contra nós que lutamos para salvar a Nação.

Fidel Castro está até hoje no Poder, porque matou cerca de 17 mil cubanos que se opuseram a ele. Comunista não dá anistia! Stálin se manteve no Poder até morrer, porque matou todo mundo que lhe era contrário. Mao Tsé-Tung, muito querido dos estudantes brasileiros comunistas, se manteve no Poder o tempo todo, porque matou mais de trinta milhões de chineses. Agora, a nossa Revolução, que não matou ninguém, a não ser alguns poucos guerrilheiros durante o longo período de vinte anos, é chamada de ‘ditadura’ e referenciada a ‘anos de chumbo’.

Aí fica a pergunta: Não seria melhor de tivéssemos agido como Fidel Castro, Stálin ou Mao Tsé-Tung, tão amados pela esquerda brasileira?” (Coronel Henrique Carlos Guedes, Tomo 3, pg. 275-276).

“Os políticos brasileiros não gostam de cumprir a lei, muito menos os comuno-marxistas, que querem apenas usufruir os benefícios da Lei da Anistia. Não aceitam que os mesmos benefícios favoreçam outros brasileiros, igualmente nela enquadrados. Eles não conhecem o sentido da imparcialidade. A Lei da Anistia só saiu porque o Presidente João Figueiredo teve o próprio pai perseguido por Getúlio, e não admitia que houvesse discriminação. Os ‘democratas’ não queriam a volta de Miguel Arraes, nem de Brizola. Queriam uma lei de anistia restritiva, só para eles, porque tinham medo de que, quando aqueles voltassem, assumissem o Poder. Eles, os comunistas, estavam querendo a anistia e o Poder para eles, mas o General Figueiredo bateu o pé e disse: ‘Não, vai ser para todo mundo’ ” (General-de-Divisão Francisco Batista Torres de Melo, Tomo 4, pg. 69).

“A Lei da Anistia, esquecimento dos crimes cometidos por todos os envolvidos na ‘Lula Armada’, permitiu o retorno e o convívio harmônico das diversas tendências. Mas nunca foi respeitada pelos esquerdistas. Enquanto assaltantes de trens pagadores e terroristas de ontem encastelam-se em ministérios do Governo atual, os que cumpriram com o dever são perseguidos tenazmente. Inclusive quem não participou de nenhuma ação, como o filho do Presidente Médici. Apesar de ser um excelente engenheiro, até hoje não conseguiu emprego, por trazer o nome Médici. Portanto, a Lei da Anistia, em termos de produção de efeitos – apesar da universalidade do seu espírito – só tem beneficiado os apátridas” (General-de-Brigada Manoel Theóphilo Gaspar de Oliveira Neto, Tomo 4, pg. 93).

“Quando a Lei da Anistia tramitava no Congresso, alguns políticos da oposição, um deles – eu não queria citar, já morreu – foi o Ulysses Guimarães, optaram por vetar a volta de vários políticos exilados; por exemplo, Miguel Arraes não voltaria, Leonel Brizola não voltaria, numa clara tentativa de eliminar concorrentes para as eleições que se aproximavam, porque esses elementos que regressava tinham peso nas urnas, eram bons de urna, como se diz.

Próprios militantes de esquerda, que estavam no Brasil, tentaram fazer com que a Lei da Anistia fosse restrita.

O que aconteceu? A grande esquerda reagiu e disse: ‘Queremos a anistia ampla, geral e irrestrita’. Era o que se ouvia dizer e até hoje soa nos ouvidos: anistia ampla, geral e irrestrita.

Exatamente isso era o que os governos militares queriam. Só que os políticos não imaginavam que a anistia ampla, geral e irrestrita também servia para os militares que participaram de todos os movimentos, de todos os ‘entreveros’. Quando descobriram que ela anistiava, também, os militares, ficaram decepcionados e viram que haviam caído numa armadilha criada por eles mesmos” (Coronel Petrônio Araújo Gonçalves Ferreira, Tomo 6, pg. 188-189).

“Quando o Presidente [Figueiredo] falou, em 1981, na anistia, o Deputado Ulysses Guimarães elaborou um projeto de anistia que permitia a volta à vida pública de todos os que estavam punidos pela Revolução, mas não podiam ser candidatos na próxima eleição na qual ele era candidato. Então o senhor Leonel Brizola não poderia ser candidato, o senhor Fernando Henrique Cardoso, o senhor Mário Covas; O Ulysses queria fazer uma anistia para favorecer a ele e foi aí que o Presidente Figueiredo se insurgiu e disse aquela frase que na época foi muito difundida:

- A anistia é total ou não é anistia e lugar de brasileiro é no Brasil.

E fez a anistia ampla, geral e irrestrita” (Coronel Luiz Carlos de Avellar Coutinho, Tomo 7, pg. 185-186).

“Ouso dizer que houve um certo açodamento, uma certa precipitação, em fazer voltar a Presidência da República, muito antes do tempo, aos civis. Outro aspecto, os militares não auferiram benefícios, não aumentaram vantagens próprias, enquanto no Poder. Ao contário, ‘abriram a porta’ e possibilitaram o ‘revanchismo’.

O fenômeno se repete no Chile e na Argentina. Aprovada a Lei da Anistia, por exemplo, procuram desenterrar os mortos como se só existissem de um lado. Esquecem que existiram mortos e sacrificados dos dois lados. Procuram inundar as mentalidades, sobretudo dos mais jovens, de verdades deturpadas ou meias verdades.

O grande escritor brasileiro Machado de Assis, talvez, um dos maiores romancistas que tivemos, disse assim: ‘Diga-se a verdade, mas diga-se completa, porque a verdade pela metade equivale a uma mentira completa’. Vemos nesses livros didáticos que compulso, porque tenho três filhos, deturpações e meias verdades ganhar foros de verdade completa. Seus conteúdos são deturpados, propositalmente amesquinhados, torcidos e retorcidos, tudo no intuito de omitir os benefícios trazidos pela Revolução de 1964 e de se alardear alguns erros que aconteceram. Esses, evidentemente ninguém é perfeito, ganharam lente de aumento e passaram a ser um princípio geral. Nos livros didáticos, os erros tornaram-se normas do governo, como se fossem normas estratificadas, quando eram apenas casos particularizados, um exagero, uma minúcia, um detalhe. Visa-se solapar, desacreditar, criar um antimilitarismo” (Doutor Emílio Antonio Mallet de Souza Aguiar Nina Ribeiro, Tomo 10, pg. 265).

“A Lei da Anistia foi um dos erros, entre os muitos, que os dois últimos governos militares cometeram. Como permitir que quem pretendia estabelecer um regime totalitário de esquerda no País se estabelecesse no poder novamente? Não posso admitir que todo aquele pessoal comunista que foi banido e cassado voltasse cheio de benesses, cheio de regalias, que o povo brasileiro ordeiro e progressista não desfruta” (Coronel Tomás de Aquino de Carvalho Lima Sampaio, Tomo 10, pg. 401).

“A Lei de Anistia foi regulamentada pelo Decreto no. 84.143, de 31 de outubro de 1979. Foi mais abrangente do que a própria oposição reivindicava, reivindicava, realmente ampla, geral e irrestrita. Foi possível solucionar os casos de readmissão e aposentadoria de servidores públicos. A amplitude daquelas disposições teve como resultado, também, a inexistência de presos políticos no País. Foram inteiramente liberados. Manteve-se a tradição brasileira de evitar o prolongamento de processos traumatizantes para a sociedade, ao mesmo tempo que protegeu os seus interesses. Excluiu do benefício os condenados pela Justiça Militar, em razão de atos de terrorismo, assalto, sequestro e atentado pessoal. Esse último dispositivo, por uma ampliação da Lei de Anistia votada no tempo do Governo do Presidente José Sarney, foi excluído” (General-de-Brigada Danilo Venturini, Tomo 15, pg. 171).

“A anistia tem que unir a Nação. Fizeram algo parecido com a chamada ‘Lei da Praia’, de época passada [II Guerra Mundial], que beneficiou com o título de ex-combatente elementos que não deram um só tiro. O nome da lei é, até, sugestivo” (Tenente-Coronel Nivaldo Mello de Oliveira Dias, Tomo 6, pg. 261).

Obs.

Eram militares das Forças Armadas que estavam de prontidão no Rio de Janeiro, para entrar em combate na Europa, o que acabou não ocorrendo, mas que tiveram o benefício de duas promoções. Daí a jocosa “Lei da Praia”.

F. Maier

 

 

MÉTODO PAULO FREIRE

“Pretendia-se coletar informações e saber qual era a profundidade da infiltração, porque constava que o Ministério da Educação seria um dos focos da esquerda. (...) No Ministério começamos a examinar o que havia. O Ministério estava vazio e precisávamos de assessoramento de alguém que indicasse os donos das mesas, para que verificássemos o que existia, mas diante deles. Não se abriu nada, não se mexeu em nada sem a presença do responsável. Verificar as publicações, os livros, os planos, tudo isso.

Fui destinado ao setor de alfabetização, eis por que tomei contato com o célebre método Paulo Freire, uma coisa simples, mas, na realidade, uma ferramenta que estava sendo usada com o propósito de subverter. Constatamos isso por intermédio de slides e planos. O encarregado era o professor Darcy Ribeiro; um outro professor, Oliveira Lima, escrevia observações com linguagem de esquerda, incitamento à luta armada, material bastante esclarecedor. Identificamos, ainda, militares, normalmente QAO, Subtenentes e Sargentos que estavam relacionados para aplicação desse plano de alfabetização. Muitos deles nem sabiam do que se tratava, isso depois de confirmado. O objetivo era ganhar um dinheirinho extra. Raros eram aqueles que tinham noção da ideologia implantada dentro daquele sistema de alfabetização. Para isso, dispunham de muitos meios: grande quantidade de caminhonetes Rural Willys, além de projetores, tudo bem acondicionado em caixas, para atingir os mais remotos locais.

O método Paulo Freire selecionava as palavras, palavras simples, do vocabulário próprio do universo da pessoa. Então, se o sujeito vivia de pesca, é natural que as palavras se referissem àquela atividade; se ele morava na favela, referiam-se a esse ambiente; se era do porto, referiam-se ao cenário do porto. Era uma alfabetização, mas uma alfabetização tendenciosa e a gente via, até pelos slides, que mostravam o trabalhador tendo que lutar contra o patrão, porque o patrão era um miserável. Na realidade, uma doutrinação subliminar bastante eficaz, principalmente no planejamento voltado para as crianças.

Naquela busca foram retirados muitos dados valiosos. Em algumas mesas abertas os donos se encabulavam porque havia lá dentro papel de jogo do bicho, essas coisas bem do brasileiro. Alguns tinham baralho, noutras gavetas revistas de mulheres sem muita roupa, alguns objetos familiares e até dinheiro guardado. Estes que possuíam dinheiro, receberam com alívio as convocações.

Bem, terminado o episódio do Ministério da Educação, uns 15 ou 20 dias depois do desencadeamento da Revolução de 1964, foram retomadas as aulas na ECEME. Alguns colegas estavam faltando, foram desligados da Escola, porque muitos eram ligados ao Ministro Jair. O fato é que retomamos as aulas e terminado o curso, fui classificado em Juiz de Fora” (General-de-Divisão Orlando Morgado, Tomo 5, pg. 76-77).

Obs.

“O avanço do processo revolucionário comunista antes de Março de 1964, na área da educação, foi em grande parte creditado ao uso do Método Paulo Freire, que tem potencial para materializar, com inegável eficiência, aquela afirmativa de Fred Schwarz: ‘O primeiro passo na formação de um comunista é a sua desilusão com o capitalismo’. Hoje, o método e seu autor vêm sendo reabilitados em vários pontos do país, aparentemente com a mesma função revolucionária de antes. A alfabetização que propicia, baseada nas condições reais em que vive o aluno, explora largamente as contradições internas da sociedade para desmoralizar o capitalismo, e através dele a democracia, deixando a porta aberta para a opção socialista” (COUTO, 1984: 38-9). “O professor brasileiro Paulo Freire, ... descobriu que qualquer adulto pode aprender a ler em quarenta horas suas primeiras palavras que conseguir decifrar se estiverem carregadas de significação política; ... apenas a mobilização de toda a população pode conduzir à cultura popular. As escolas são contraprodutivas... O melhor caminho a seguir é um rompimento com a educação institucional rumo à educação popular. O método se baseia no uso de palavras e expressões empregadas conscientemente de forma dúbia e duvidosa, de acordo com o conceito que seu autor tem de ‘educação libertadora’ e que pode ser assim resumido no conhecido jargão esquerdista: ‘... há uma incompatibilidade estrutural entre os interesses da classe dominante e a verdade...; a verdade está do lado dos oprimidos e não pode ser conquistada senão na luta contra a classe dominante...; a verdade é revolucionária, não deve ser buscada e sim feita’” (Paul Johnson, in Inimigos da Sociedade - cit. COUTO, 1984: 39).

Comunista é, antes de tudo, um larápio pronto para meter a mão nas coisas alheias. O Método Paulo Freire é uma cópia piorada – porque marxista – do Método Laubach de Albafetização – Cfr. em  https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/05/metodo-paulo-freire-ou-metodo-laubach.html.

F. Maier

 

REVANCHISMO

“A cúpula federal está constituída da fina flor do esquerdismo nacional: Fayads, Barreiros, Ustras, Alves e Avólios estão aí para testemunhar.

Ano passado, no Sete de Setembro, participei como comandante dos expedicionários do Batalhão Suez, portando a mesma farda indiana que usei no Oriente Médio enquanto tenente das forças de emergência das Nações Unidas. Estava junto com meus companheiros: soldados, cabos, sargentos, tenentes, todos com mais de cinquenta anos. O filho de um soldado fez uma farda indiana e desfilou na frente da tropa, conduzindo uma pomba, simbolizando que éramos uma tropa ‘de paz’.

Quando chegou à frente do palanque, aquele jovem que estava conduzindo a pomba a lançou para o ar e a pombinha não voou, ficou no chão. Os jornais de Recife noticiaram: ‘O menino que conduzia a pombinha a lançou e ela caiu, sendo quase pisoteada pelos soldados.’

Os jornalistas que escreveram com relação àquele fato não tiveram sensibilidade alguma para interpretar a mensagem que a tropa lançou, porque em nenhum momento falou-se na palavra ‘paz’ ” (Coronel Manoel da Penha Alves, Tomo 6, pg. 223).

 

MAIS PODER AOS ESTADOS

“Agora, quando estamos enxugando o Estado, devemos lembrar que o Brasil é um continente e a Federação precisa ser fortalecida. Como, de Brasília, poderemos resolver os problemas do Amazonas, conhecer os problemas intermunicipais do Rio Grande do Sul, ou do Piauí, ou lá do Maranhão? Não é possível. Temos que fortalecer a Federação, dar mais força aos Estados para resolver seus problemas. Os governadores são fracos, financeira e administrativamente, porque não têm condições de realizar a sua obra. Tudo é centralizado em Brasília. É preciso descentralizar o Estado brasileiro, para combater a burocracia que o domina, mas ao mesmo tempo temos que fortalecer os Estado, dentro de uma ótica administrativa e política” Deputado Federal Bonifácio de Andrada, Tomo 15, pg. 116).

 

ACERTOS DA REVOLUÇÃO

 

“Se reduzirmos ou eliminarmos a miséria, a ignorância, a corrupção, a exploração política e os desníveis sociais, o comunismo morre de inanição” (Tenente-Coronel Idalécio Nogueira Diógenes, Tomo 4, pg. 188).

 

O Brasil era formado por “ilhas”; virou Continente

“Quem conheceu o País, como conhecemos, antes de 1964, sabe que para viajar de Fortaleza para Teresina, levava-se 24h, com pernoite em Serra Grande. O Brasil transformou-se, o Brasil mudou, com as hidrelétricas, com os portos, com as estradas, com a indústria naval, com a indústria de ponta de fibra ótica, com os aeroportos. O Brasil era considerado como um conjunto de ilhas populacionais isoladas. Tudo mudou neste País: as universidades foram ampliadas, o Brasil cresceu e se transformou na oitava economia do mundo. O brasileiro passou a confiar mais em si mesmo e a fortalecer a vontade nacional. O novo Brasil, o Brasil do Maracanã, com o povo, de pé, aplaudindo o Presidente Médici. O que se fez por este País não tem preço. Agora, o pior de tudo isso é que aqueles que foram derrotados e, hoje, encontram-se no Poder, nada fizeram. Até a Petrobras vê-se ameaçada de perder seus avanços e conquistas tecnológicas e a sua própria nacionalidade. Se não fosse 1964, o que seríamos hoje?” (General-de-Divisão Francisco Batista Torres de Melo, Tomo 4, pg. 65).

 

As Forças Armadas impediram a criação das “FARB”

“Se perdêssemos, talvez estivéssemos hoje enfrentando, como a Colômbia, quem sabe, as FARB – irmãs das FARC – ou seja, as Forças Armadas Revolucionárias do Brasil. Aí, os esquerdistas estariam exultantes!... E os verdadeiros brasileiros – aqueles que realmente amam este País – atormentados e desprestigiados como acontece hoje, com os nossos vizinhos colombianos” (Coronel Irtonio Pereira Rippel, Tomo 10, pg. 374).

Obs.

Em 6 décadas, as FARC deixaram saldo de 260.000 mortos, tendo a Colômbia mais de 50 milhões de habitantes (dados de 2020) - – cfr. https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/05/farc-deixaram-mais-de-260000-mortos-na.html.

No Brasil, com população 4 vezes maior (mais de 209 milhões em 2020), quantos mortos haveria se a Guerrilha do Araguaia fosse vitoriosa, consolidando-se uma suposta “FARB” durante 5 décadas? Mais de 1.000.000 de mortos?

F. Maier

 

Pleno emprego

“Não havia desemprego, ao contrário, o nível de emprego crescia de forma a absorver perfeitamente os jovens que demandavam o mercado de trabalho. No eixo Rio-São Paulo, executivos ganhavam mais do que seus similares americanos ou europeus. Kombis das empresas de construção civil recrutavam mão-de-obra no ABC paulista com alto-falantes oferecendo bons salários e confortos nos alojamentos. Um metalúrgico parcimonioso ganhava o bastante para comprar um fusca novo.

Criou-se a Portobras, que começou a se preocupar não só com os portos marítimos, mas com hidrovias interiores, como a Tietê-Paraná.

A partir de 1964, reduziu-se substancialmente a inflação, que no desgoverno Goulart era de 96%, para 12% ao ano, o que se verfificou no primeiro decênio da Revolução, período em que as nossas exportações decuplicaram de 1,2 bilhão de dólares para 12 bilhões, chegando mais tarde a 22 bilhões de dólares.

Uma pesquisa do IBOPE, realizada em junho de 1971, em pleno Governo Médici, atribuíra-lhe 82% de aprovação. Em 1972, a economia crescia a 11,9%, a maior taxa de todos os tempos. Era o quinto ano consecutivo de crescimento superior a 9%. A renda per capita dos brasileiros aumentara 50%.

(...)

No campo psicossocial, através da criação do Banco Nacional da Habitação, conseguiu a Revolução de 1964 dar casas para uma parcela significativa da população. O meu primeiro apartamento foi adquirido com o empréstimo do BNH, o que ocorreu com inúmeros brasileiros. Ao mesmo tempo, reduziu o analfabetismo, com a criação do Mobral; criou o Projeto Rondon, que levou ao interior do Brasil, particularmente à Amazônia e à fronteira Oeste, profissionais de saúde e professores que modificaram o perfil da saúde e da educação naquelas longínquas regiões. Ainda no campo da Educação, assegurou a presença de mais de dez milhões de estudantes nos bancos escolares, realizando uma revolução no setor do ensino universitário, com um substancial incremento do número de vagas no nível superior. O Funrural – o maior programa de distribuição de renda do mundo – teve um alcance invejável, beneficiando cerca de quarenta milhões de trabalhadores rurais, sustentando a economia de mais de oitenta por cento dos nossos municípios” (General-de-Brigada Geraldo Luiz Nery da Silva, Tomo 10, pg. 228-229).

 

Telecomunicações: entre as mais avançadas do mundo

“Lembro-me de uma profissão que havia naquela época aqui no Rio de Janeiro. Era o garoto contratado para ficar tentando conseguir linha [telefônica]. Era um garoto de 13, 14 anos, contratado para ficar numa sala com um telefone para conseguir a bendita linha” (Coronel Romeu Antonio Ferreira, Tomo 9, pg. 368).

“Na área de infraestrutura, foram remodelados, para atenderem a exigências futuras, todos os portos fluviais e marítimos, e os aeroportos; foram construídas a Ponte Rio-Niterói, a Estrada do Aço, rodovias e ferrovias. Itaipu, que é a maior hidrelétrica do mundo, interligada a outras usinas energéticas, como Boa Esperança e Tucuruí, deus as condições de desenvolvimento que nos permitiram dizer, com orgulho, que temos o maior parque industrial da América Latina. Isto se deveu a Itaipu e às que foram citadas, construídas nos governos militares.

No campo das telecomunicações, criou-se tudo o que ainda existe hoje. De fato, em 1964, praticamente nada tínhamos neste setor, mas em 1974, dez anos depois, em menos de um minuto ligávamos, por telefone da melhor qualidade, com qualquer ponto do território nacional. Ainda no Governo do Presidente Médici, foi inaugurada a televisão a cores, que não deixava nada a desejar em relação às melhores do mundo. Os sistemas de telecomunicações do Brasil, implantado durante os governos militares, foi considerado empreendimento tecnológico de país desenvolvido, que se deveu à alta qualidade dos técnicos formados pelo nosso Instituto Militar de Engenharia (IME), entre os quais os Ministros das Comunicações, o Coronel Higino Corsetti e o Comandante Euclides Quandt de Oliveira. Assim, o IME tornou-se uma entidade de primeira grandeza na preparação de excelentes profissionais técnicos, como estes que atuaram na área das comunicações.

(...) Na educação, foram adotadas as seguintes medidas, entre várias outras: aumentar a escolarização, da faixa dos sete aos 14 anos, que passou, entre 1970 e 1980, de 67% para 83,7%; incrementar a matrícula nas universidades, que subiu, entre 1964 e 1981, de 100 mil para 1,3 milhão; estímulo substancial ao ensino dos 1º. e 2º. graus; reestruturação da educação básica (1º. grau), que passou de quatro para oito anos; estímulo e subsídios ao ensino do 3º. grau (superior), através do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq); do Fundo de Financiamento para Estudos e Projetos (FINEP) e da Coordenação de aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), de modo que, no início dos anos de 1980, já havia enorme rede de mestrado e doutorado e a institucionalização da pesquisa.

Nos meios urbano e rural, para atender às populações mais carentes, foram criados os Programas Nacionais de Ações Sócio-Educativas e Culturais (PRODASEC, meio urbano; e PRONASEC, meio rural; Programa de Expansão e Melhoria da Educação Básica do Meio Rural (EDURAL) e Programa de Apoio às Populações Carentes da Zona Canavieira do Nordeste (PROCANOR).

Quanto à saúde, tem-se que atentar para a complexidade crônica do problema. Sempre houve duas estruturas: a de saúde pública, que cuidava da medicina preventiva, e a previdenciária (dos Institutos de Aposentadoria e Pensões), à qual cabia a medicina curativa. Já se pode visualizar que a grande maioria do povo era excluída das condições de tratamento de saúde. Os governos revolucionários tentaram de várias formas unificar essas estruturas, pouco conseguindo. Criaram-se várias entidades de saúde, com vistas a essa unificação: o Sistema nacional de Saúde, o Programa de Interiorização das Ações de Saúde (PIASS), o Prev-Saúde, o Conselho Consultivo de Administração Previdenciária (CONASP) e as Ações Integradas de Saúde (AIS). Estas últimas conseguiram transferir mais recursos federais para Estados e Municípios, aumentando os níveis de equidade e universalização dos atendimentos e estimulando a produtividade dos órgãos de saúde em todos os níveis, criando programações conjuntas, evitando a duplicidade de esforços.

Com relação à Assistência Social, várias foram as iniciativas tomadas: a criação do Banco Nacional de Habitação (BNH); o Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural (FUNRURAL); o Estatuto da Terra; implantação da Lei Orgânica da Previdência Social (aprovada desde 1960), unificando-se a Previdência com a criação do Instituto Nacional de Previdência Social (INPS), que passou a atender a outras classes de trabalhadores – empregados domésticos, jogadores de futebol, garimpeiros, estudantes, ministros religiosos e outros; o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), ligado à política habitacional; o Programa de Integração Social (PIS), financiado pelas empresas privadas. O Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público (PASEP), financiado pelos órgãos governamentais.

Para se ter uma noção mais ampla de todas as realizações da Revolução de 1964, sugiro a leitura do livro do Coronel Ivany Henrique da Silva – Heróis a Lutar – em particular o seu Capítulo 12, que apresenta um relato completo dessas realizações (Blue Chip Gráfica e Comunicação Ltda – Rua Cardoso Marinho, no. 18ª – 20220-370 – Santo Cristo – Rio de Janeiro – RJ)” (Coronel Luciano Moreira de Souza, Tomo 4, pg. 125-127).

“A telefonia teve um extraordinário desenvolvimento. Em 1964, eu passava doze horas num posto telefônico, na Avenida Rio Branco, para conseguir ligação para a Cidade de Fortaleza. Nove anos depois, em 1973, estive em Nova York e pude verificar que já estávamos chegando ao nível da telefonia americana. Isto se deve a dois ministros, engenheiros militares, um da Marinha e outro do Exército, respetivamente, o Comandante Euclides Quandt de Oliveira e o Coronel Higino Caetano Cosetti. Os dois eram fabulosos técnicos de comunicações. Corsetti, foi, inclusive, nosso instrutor na AMAN” (Engenheiro João Paulo Simões Accioly de Carvalho, Tomo 12, pg. 292-293).

 

Dados estatísticos da Revolução

“Dentre os renomados civis que defenderam a Revolução por seus feitos, destacamos a douta conferência do Engenheiro Glycon de Paiva, diversas vezes divulgada, em nível nacional, inclusive na Carta Mensal de setembro de 1984, publicação de alto nível intelectual do Conselho Técnico da Confederação Nacional do Comércio.

Falei na Carta Mensal de setembro de 1984, porque, como o senhor destacou, a partir de 1985, o ‘revanchismo’ impediu qualquer referência positiva na Imprensa sobre o período da Revolução. É proibido divulgar!...

Justo e correto seria lembrar e avaliar o progresso do Brasil na vintena revolucionária de dezembro de 1963 a dezembro de 1983, mas os acéticos escondem os números que dão ao período extraordinária expressão. E aí, Glycon de Paiva dá uma série de exemplos como a capacidade instalada de energia elétrica que passou de 4.480 megawatts para 35.000 megawatts, um crescimento superior a nove vezes.

No intervalo considerado, o maior aumento de potencial elétrico de todo mundo foi o do Brasil. O nosso País passou para o terceiro potencial do mundo em setembro de 1984, quando a Revolução se preparava para deixar o Governo.

A produção do aço cresceu de 2,8 milhões de toneladas/ano para 18 milhões, um crescimento de 600%. A produção de automóveis passou de 174.000 unidades ano para 880.000, aumento superior a cinco vezes, e, logo, alcançou a casa de um milhão por ano.

A produção de petróleo subiu de 98 mil barris/dia para 340 mil, aumento superior a três vezes. A exportação anual do Brasil subiu de 1,4 bilhão de dólares em dezembro de 1963 para aproximadamente 22 bilhões de dólares em dezembro de 1983, 15 vezes maior.

Em 1964, o País tinha 75 milhões de habitantes e a nossa renda per capita era de 400 dólares, sendo o PIB (Produto Interno Bruto) de 25 bilhões de dólares. No vinteno, a renda per capita atingiu 2 mil dólares, mesmo com a população crescendo para 125 milhões de habitantes. O PNB cresceu 1.450%, chegando a 295 bilhões de dólares.

Dois dados do campo social merecem ser ressaltados. No ensino superior, demos um salto de 120 mil universitários para 1,3 milhão, um crescimento de 1.000%. O outro número importante refere-se à quantidade de habitações construídas com base nos financiamentos do Banco Nacional da Habitação (BNH), que cresceu de 100 mil unidades para 4 milhões e duzentos mil, o que corresponde a um aumento de 42 vezes.

(...)

Concluindo, parece-me importante repetir que, para alcançar esses resultados, nos apoiamos, em boa parte, na poupança alheia, cerca de 60 bilhões de dólares, em termos reais, sobretudo a partir do Governo Geisel, uma vez que ao final do Governo Médici a nossa dívida não chegava a US$ 8 bilhões. Adquirimos no exterior equipamentos pesados para ampliação de quatro usinas siderúrgicas e para a instalação de mais três, assim como para o estabelecimento de dois pólos petroquímicos e para a metalurgia do cobre, do zinco e do níquel.

Para a realização das conhecidas obras ciclópicas monumentais, colossais, acrescentamos o pedido de novos empréstimos para rodovias, telecomunicações, saneamento básico e habitação. A consequência foi o natural endividamento nacional, especialmente no Governo Geisel que passou ao seu sucessor uma dívida de US$ 40 bilhões, cerca de cinco vezes maior do que recebera do Presidente Médici, apesar de que os gastos redundaram num aumento substancial da nossa infraestrutura capaz de permitir um grande crescimento.

Os governos posteriores civis, Sarney e Collor, Itamar e Fernando Henrique – aumentaram enormemente essa dívida. Com eles, a dívida se ampliou assustadoramente, sem um retorno de investimentos que justificasse tal endividamento. Esse é um dos maiores problemas a serem resolvidos, que tornam extremamente vulnerável a economia do País como um todo. Aí, está, também, uma diferença fundamental entre o período revolucionário, onde a dívida tinha uma contrapartida de crescimento real, e o período posterior, onde a dívida cresceu absurdamente sem ninguém constatar nenhum crescimento razoável da economia brasileira” (Coronal Hernani D’Aguiar, Tomo 9, pg. 193-194).

Obs.

Em 9/4/2020, o Professor de Economia Ricardo Bergamini publicou a evolução da dívida total brasileira, de 2002 até fevereiro de 2020. Bergamini dá destaque à dívida interna em poder do Banco Central, que não é lembrada na mídia – uma verdadeira “pedalada fiscal”.

No início do Governo Lula da Silva, a dívida estava em cerca de R$ 1,104 trilhão. Em fevereiro de 2020, chegou a 6,182 trilhões. Confira tabela abaixo.

F. Maier

Dívida Líquida

Total da União (Interna e Externa)

 Fonte ME - Base R$ bilhões.

Itens

2002

% PIB

2010

% PIB

2018

% PIB

Fev/20

% PIB

Dívida Interna Em Poder do Mercado

558,9

37,54

1.603,9

41,28

3.728,9

54,13

4.099,9

55,94

Dívida Interna Em Poder do Banco Central

282,1

18,95

694,0

17,86

1.794,3

26,04

1.901,6

25,94

Dívida Externa Líquida

262,9

17,66

90,1

2,32

148,2

2,15

181,1

2,47

Dívida Total Líquida

1.103,9

74,15

2.388,0

61,46

5.671,4

82,32

6.182,6

84,35

PIB 2002 – (R$ 1.488,8 bilhões); PIB 2010 – (R$ 3.885,8 bilhões);

PIB 2018 – (R$ 6.889,2 bilhões). Previsão do PIB 2020 – (R$ 7.329,4 bilhões).

 

 

Hoje é dia de divulgação da dívida da União com base em fevereiro de 2020 e, como sempre, a imprensa omite o estoque da dívida em poder do Banco Central no montante de R$ 1.901,6bilhões (25,94% do PIB), sendo essa a parte mais importante da dívida, visto que nada mais é do que uma “pedalada oficial” (aumento disfarçado de base monetária, ou emissão de dinheiro falso). Vejam que essa orgia saiu de 17,86% do PIB em 2010, para 25,94% do PIB em fevereiro de 2020. Crescimento real em relação ao PIB de 45,24%. É nessa lama que o Brasil joga os seus criminosos e imorais déficits fiscais primários. 

Em 2010 o estoque da dívida líquida da União (interna mais líquida externa) era de R$ 2.388,0 bilhões (61,46% do PIB). Em dezembro de 2018 era de R$ 5.671,4 bilhões (82,32% do PIB). Crescimento real em relação ao PIB de 33,94%. Em fevereiro de 2020 migra para R$ 6.182,6 bilhões (84,35% do PIB). Aumento real em relação ao PIB de 2,47%, comparativamente ao ano de 2018.

Ricardo Bergamini

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Primeiro lugar em “vontade nacional” – orgulho de ser brasileiro!

“Foram tempos em que alguns lutaram para dar a todos os brasileiros: paz social, ordem e absoluta segurança, bem como prosperidade à nossa Nação. Apesar da ação permanente dos revanchistas, há muitas pessoas de bem que sentem saudade daquela época, em que o Brasil era verdadeiramente respeitado.

O professor Ray Cline, que foi assessor permanente do Presidente dos Estados Unidos desde a época de Franklin Delano Roosevelt e que dirigiu o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais da Universidade de Georgetown, em Washington, ao estudar o Poder Nacional em termos quantitativos e qualitativos dos 78 maiores países do planeta, chegou à conclusão, em estudo publicado em 1975, de que o Brasil do primeiro lustro da década em 1970 era o sexto país, em Poder Nacional, na frente, por exemplo, do Canadá, da Itália e Austrália, e o primeiro, junto com a França, em determinação ou vontade nacional.

Considerando a reconhecida competência do Professor Ray Cline, sem dúvida um dos maiores estrategistas não só norte-americano, mas de todo o mundo, verifica-se o valor incomensurável do Brasil, como nação, na primeira metade da década de 1970 (Governo do Presidente Médici, querido pelos brasileiros, exceto pelos terroristas sanguinários e seus defensores extremistas, que hoje usam a mídia para criticá-lo injustamente.

Já em 1971, falando aos estagiários da Escola Superior de Guerra, o então embaixador do Brasil em Washington, Araújo Castro, asseverava: ‘Nenhum país escapa ao seu destino e, feliz ou infelizmente, o Brasil está condenado à grandeza. A ela condenado por vários motivos, por sua extensão territorial, por sua massa demográfica, por sua composição étnica, pelo seu ordenamento sócio-econômico e, sobretudo, por sua incontida vontade de progresso e desenvolvimento’, aquela forte vontade nacional do primeiro lustro da década de 1970, mensurada com tanto acerto por Ray Cline.

Os vinte anos do regime político implantado em 1964 transformaram completamente o Brasil, que se modernizou e se desenvolveu de modo realmente revolucionário.

É uma pena que no País que já teve a maior vontade nacional do mundo, como vimos, hoje prevaleça a vontade internacional, como se verificou, por exemplo, na criação da reserva Ianomâmi, um crime perpetrado contra a soberania nacional por Collor de Mello e seu Ministro da Justiça, Jarbas Passarinho, para atender às exigências norte-americanas feitas por escrito – carta assinada por oito senadores dos EUA, em 14 de junho de 1991, encaminhada a Collor por George Bush” (General-de-Brigada Geraldo Luiz Nery da Silva, Tomo 10, pg. 235-236).

 

Mar territorial das 200 milhas

“Expandimos o nosso território através do mar das 200 milhas, com uma reação enorme de todo mundo em cima do Presidente Médici, porque aquela medida incorporava ao território brasileiro enorme área passível de exploração econômica, as 200 milhas em todo o nosso litoral.

Cerca de 4 milhões de km2 de superfície que passaram a ser somados a nossa área de 8,5 milhões de km2 [entrevistador]” (General-de-Exército Luiz Gonzaga Schroeder Lessa, Tomo 10, pg. 68).

“O que aconteceu nos últimos vinte anos, vamos dizer entre 1964 e 1984 e o que aconteceu entre 1985 e 2005 que é o mesmo período? Então, vai ser um desastre. Não fizeram nenhum porto, a Revolução fez vinte. Não construíram nenhuma estrada, a Revolução 56 mil quilômetros. Ergueram 2 milhões de casas, a Revolução 4 milhões. Como podem competir? Quais são as siderúrgicas que os atuais governos instalaram? Nenhuma, todas que existem herdaram dos governos revolucionários. Onde há um projeto igual ao Carajás? Ah! Desenvolveram o cerrado? Negativo! O cerrado é obra realmente do Governo autoritário. Foi ele que investiu em pesquisa para usar o cerrado; foi ele que fez um programa com os japoneses para construir estrada para chegar ao porto e nós estamos hoje tirando proveito disso.

(...)

A única mensagem que vou deixar é esta: entendo ser preciso que esse período seja estudado com relativa isenção. Diria que serão identificados alguns defeitos, alguns pecados, como também, muitas virtudes importantes, quer na forma de administrar, de comportar-se diante do patrimônio público, quer no processo ético completamente diferente: a idéia de que terminou o meu mandato, tenho que ir embora. É uma diferença fundamental, porque o civil acha isso abominável, só um idiota que, podendo continuar no Poder, vai embora. Esse processo ético é totalmente diferente. Então, penso que o fundamental é darmos instrumentos e estimular essa gente que está chegando agora, que já tem apreciável distância dessa época, a qual ele tem acesso somente pela literatura – do que aconteceu – mas que tem disposição para aprofundar estudos e pesquisas. Então acho que teremos uma avaliação mais positiva desse Movimento. Embora, como disse, vamos carregar alguns dos pecados cometidos, eternamente” (Deputado Federal Antônio Delfim Neto, Tomo 5, pg. 166-167).

“Quanto ao Médici, não me julgo elemento indicado para qualquer avalição, pois fiz parte da sua equipe. Era um homem simples, desapegado do Poder, bem-intencionado e popular. Em razão dos seus êxitos, passou a ser sistematicamente contestado pela mídia esquerdista. A declaração dele: ‘O governo vai bem, mas o povo vai mal’, mostra claramente as suas preocupações com os problemas sociais e a sua coragem de dizer que não concordava com alguns aspectos da sua administração.

Vale ressaltar que as ações do seu governo obstaram a expansão do comunismo internacional, que se esvaziou na América do Sul. E nada foi feito simplesmente para agradar aos americanos, como muitos dizem. Até pelo contrário, os enfrentamos em várias áreas de interesse, como, por exemplo, a fixação dos limites do mar territorial em duzentas milhas. O Embaixador Menezes Côrtes, quando esteve em Porto Alegre, contou-nos a pressão que o Brasil sofreu por parte dos americanos devido à nossa decisão. Ameaçaram bloquear a nossa rádio-base na Ilha das Cobras. Através de uma espécie de ‘guerra eletrônica’ iriam desmontar o frágil sistema de vigilância do nosso mar territorial, que fazia o rastreamento dos navios e submarinos no Atlântico Sul” (Coronel Hélio Lourenço Ceratti, Tomo 13, pg. 193).

Obs.

Com o mar territorial de 200 milhas, o território brasileiro teve um acréscimo de 5,7 milhões de km2 de área oceânica ao longo da costa brasileira, a chamada “Amazônia Azul”.

Em 2005, o Ministério da Educação e a Marinha do Brasil lançaram o livro “O Mar no Espaço Geográfico Brasileiro” – disponível em https://www.academia.edu/13122999/O_Mar_no_Espa%C3%A7o_Geogr%C3%A1fico_Brasileiro.

F. Maier

 

A terceira bandeira

“Nos anos da Revolução, até Médici, o Brasil estourou todas as metas e previsões e ombreou-se com as grandes nações; tornou-se um País em pleno desenvolvimento. A infraestrutura de comunicações, transportes e energia subiu de patamar, resultado de uma administração eficaz e proba, que aplicou os recursos com correção e de maneira competente. O Brasil mudou de feição.

Vou citar só um fato: fretes, a terceira bandeira.

Mário Andreazza, Ministro dos Transportes, foi oportuno com a denúncia que fez sobre o Acordo dos Fretes, pois exportávamos no navio dos outros.

Pagávamos a totalidade dos fretes e seguros gerados por nosso comércio exterior a armadores estrangeiros. Era uma vergonha! O Ministro deu um murro na mesa, denunciou o Acordo, provocando, para tratar do assunto, corrida ao Brasil – foi no início da década de 1970 – da Rainha da Inglaterra, de representantes noruegueses e outros.

Acabou a terceira bandeira, para nós, e deslanchou a indústria naval, que não existia no País” (Coronel Francisco Valdir Gomes, Tomo 6, pg. 138).

“No período da Revolução, ninguém tinha medo de bandido. Andava-se pelas ruas, a pé, filhos, esposas, para fazer visitas a qualquer hora do dia ou da noite. Não tinham carro.

Havia o quê? Algum milagre? Não, é que naquela época havia autoridade e hoje não existe autoridade. Hoje o bandido faz o que quer porque sabe que é impune. Ninguém o pune porque não tem moral para punir.

E por que não tem moral? Porque as autoridades de hoje foram os bandidos de ontem. Como punir? Que moral elas têm? Nenhuma! (Coronel Stanley Fortes Baptista, Tomo 6, pg. 101).

 

Criação do Funrural, o maior programa de distribuição de renda da América Latina

“Durante o Governo do Presidente Médici (30.10.69-15.03.74), o País assistiu à implantação do Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural (Funrural), o maior programa de distribuição de renda da América Latina, atendendo a milhões de trabalhadores rurais, até então abandonadas à própria sorte, pois que sem dinheiro à aposentadoria. Esta foi uma medida de transcendental importância para o campo, onde morava a maioria da população brasileira e a mais pobre. No interior não existia uma política creditícia ou de financiamento para a agricultura, de apoio aos pequenos produtores. A pobreza, ali, era muito grande, muito acentuada, e não se manifestava em toda sua grandeza e necessidades, porque o homem campestre era pacato, e expressava muito a figura do Jeca Tatu, era o homem conformado por falta de cultura. No entanto, a contribuição do pequeno agricultor, em termos de produção de alimentos, era tão significativa que a criação do Funrural e a extensão dos seus benefícios à grande família do campo passaram a se constituir numa questão de justiça social” (Engenheiro Agrônomo Francisco Valter Vieira, Tomo 12, pg. 264-265).

 

O “milagre brasileiro”

“Se observarmos os números da execução financeira do /tesouro no período 1963-1973, vamos verificar que o déficit – diferença entre receita e despesa, em 1963, foi de 48%, caindo para 34% em 1964, e evoluindo para um saldo positivo em 1973, primeira vez que as receitas do Tesouro superaram as despesas. Vale registrar que os déficits, a partir de 1969, foram inexpressivos, caracterizando um equilíbrio entre receita e despesa. Este desempenho foi um dos principais responsáveis pela queda gradual da inflação nesse período. Tal comportamento de ajuste de receita e despesa na execução financeira do Tesouro, introduzido e perseguido pela Revolução de 1964, é o que, a partir do ano 2000, passou a chamar-se de Responsabilidade Fiscal.

(...)

Portanto, segundo a Revista Conjuntura Econômica (FGV), de maio de 1974, o PIN mais que triplicou, de 1963 a 1973, passando de 20 para 63,5 bilhões de dólares. Nesse mesmo número da Revista, verifica-se que, em 1963, as exportações brasileiras foram de 1,4 bilhão de dólares e, em 1973, de 6,8 bilhões de dólares, quintuplicando praticamente aquele valor. A produção de veículos automotores cresceu de 171 mil, em 1963, para 730 mil, em 1973, e a de tratores de rodas de 11 mil para 42 mil. Com relação à produção de cimento (em 1.000t) e de aço em laminados (em 1.000t), o crescimento deu-se de 5.000 para 15.000 e de 2.000 para 6.000, respectivamente, ou seja, triplicaram.

Estes e outros números caracterizaram o extraordinário crescimento do Produto Interno Bruto, evidenciando uma nova dimensão da economia brasileira no período revolucionário, especialmente entre 1968 e 1973, com a taxa anual média de 10%. Este fato, como sabemos, passou a chamar-se Milagre Econômico. Isto nos faz, hoje, lembrar, com saudade e orgulho daquele período de prosperidade inédita.

Pela relevância dessa evolução, é justo que recordemos com os brasileiros esta época memorável através do quadro que peço seja focalizado:

VARIAÇÃO ANUAL DO PIB (%)

1963 – 1,5

1964 – 2,9

1965 – 2,9

1966 – 5,1

1967 – 4,8

1968 – 9,3

1969 – 9,0

1970 – 9,8

1971 – 12,0

1972 – 11,1

1973 – 13,6

 

Diante destes dados, fica evidente que o País chegou em 1973 com a inflação declinante, o crescimento elevado e saldo positivo na balança comercial.

Atualmente (2002-2004), a mensagem que é passada pelos nossos Ministros da Fazenda expressa que isto é impossível, ou seja, que só a estabilidade da economia viabiliza o crescimento do País e que o combate ao desemprego terá que esperar por isto. Diante das atuais e elevadas taxas de desemprego, 20% na área metropolitana de São Paulo, fica evidente o quanto eram injustas, para não dizer terríveis, as críticas dos opositores da Revolução: ‘O povo não come obras de infraestrutura’ ” (General-de-Divisão Luiz Augusto Cavalcante Moniz de Aragão, Tomo 12, pg. 104-105).

“Será que era culpa de meu pai que o Brasil de seu governo estivesse batendo recordes de crescimento? Que vivêssemos a pleno emprego? Que a Nação chegasse a crescer até 13% ao ano? Que tivesse conseguido colocar a inflação a níveis do primeiro mundo? Será que os adversários querem até que se esconda os dados de todos esses sucessos? É proibido declarar que estávamos batendo o Japão em termos de crescimento? Será que escamotear tudo isso não é pedir demais?

A expressão ‘milagre brasileiro’ não foi coisa de sua assessoria. A expressão surgiu por meio de alguns comentaristas ao constatarem que, em termos de desenvolvimento, havíamos passado o Japão, cujo êxito era visto pelo mundo como ‘milagre japonês’.

Quanto ao ‘Brasil Grande’, será que foi mais divulgado do que ‘os 50 anos em 5’ do Juscelino?” (Engenheiro Roberto Nogueira Médici, Tomo 14, pg. 193).

 

Província mineral de Carajás

“Merecem destaque os investimentos na província mineral de Carajás, descoberta em 1967 e que já se revelara muito promissora. Seu dimensionamento progressivo avaliou uma reserva de 18 bilhões de toneladas de ferro de alto teor (66%), mas também uma grande quantidade de cobre, manganês, bauxita e ocorrências significativas de ouro, níquel, cromo e estanho. A necessidade de investimentos, no entanto, era grande e a produção em larga escala só poderia começar a acontecer em 1986. Em 1977, os investimentos estimulados para o Projeto Ferro-Carajás eram tão elevados que a empresa americana United States Steel, até então associada à Companhia Vale do Rio Coce (CVRD) na iniciativa, desvinculou-se do projeto. Além das dimensões dos custos, a sua análise em relação às perspectivas do mercado internacional era pessimista.

Isto, naturalmente, significou mais ônus para o Brasil. Portanto, um grande projeto, voltado principalmente para a exportação, exigindo também um grande investimento de longo prazo, ajudando a compor a estratégia de melhora da balança comercial, em um período de crise internacional, tornou-se extremamente crítico para o País. Uma estratégia própria de grandes estadistas, planejadores e empreendedores, competentes e confiantes, mas, certamente, sonhadores e atrevidos. Planejadores que romperam com as teorias conservadoras e jogaram pesado. Souberam arriscar” (General-de-Divisão Luiz Augusto Cavalcante Moniz de Aragão, Tomo 12, pg. 108).

 

Construção de hidroelétricas

Quais as hidroelétricas de maior destaque construídas no período revolucionário? [entrevistador]

Itaipu, Tucuruí, Urubupungá, o Complexo de Ilha Solteira, Emborcação, Sobradinho, Paulo Afonso (I, II, III e IV), Itaparica, Itumbiara, Porto Primavera, Pedra do Cavalo, Rosana, Taquaruçu, São Simão, Três Irmãos, Foz do Areia, Salto Osório, Marimbondo, Samuel, Funil, Boa Esperança e tantas outras.

O que pode ser dito sobre a Hidroelétrica de Itaipu? [entrevistador]

Trata-se da maior hidroelétrica do mundo.

Foi inaugurada em outubro de 1984, com duas de suas 18 turbinas previstas funcionando. Cada turbina gera 700 MW e o conjunto tem uma capacidade de 12.600 MW. Naquela data, foi também entregue um ‘linhão’ para transmissão da energia, com 1.200 km, indo de Foz de Iguaçu a São Roque (SP).

O custo deste empreendimento foi de US$ 15 bilhões, sendo que só o ‘linhão’ custou cerca de 1 bilhão e 200 milhões de dólares.

O esforço para salvar a fauna e a flora da região ganhou destaque na imprensa internacional como uma das maiores e mais sérias iniciativas desse tipo, até então realizadas. Inevitavelmente, a formação do lago submergiu o conjunto do Salto de Sete Quedas, um dos mais belos monumentos naturais do Brasil.

Recentemente, assistia na TV ao comentário de que o aço gasto em Itaipu correspondeu a 380 Torres Eiffel” (General-de-Divisão Luiz Augusto Cavalcante Moniz de Aragão, Tomo 12, pg. 112).

 

Construção de rodovias

Quais as principais realizações no setor rodoviário? [entrevistador]

A evolução da Rede Rodoviária Nacional foi extraordinária ao longo dos governos militares. Vejamos alguns dados que eu trouxe anotado para me facilitar. Em 1964, havia, no País, entre todos os tipos de estradas, 545 mil quilômetros, dos quais apenas 34 mil quilômetros asfaltados; por elas passavam cerca de 450 mil caminhões por ano; todas as estradas eram em pista simples.

Em 1984, havia no País 1,4 milhão quilômetros de estradas, portanto, foram construídos 45 mil quilômetros de rodovias por ano; desse total, 100 mil quilômetros eram pavimentados; e por elas passavem cerca de 2 milhões de caminhões por ano, apesar da segunda crise do petróleo, ocorrida em 1979. Como decorrência, o aumento de circulação de passageiros e mercadorias foi gigantesco, levando riqueza para todo o território nacional.

A estes números, podem ser acrescidos cerca de 1.000 quilômetros por ano em trechos de conservação de estradas, inclusive com repasse de recursos para os governos estaduais.

Que obras rodoviárias merecem destaque ao longo dos governos revolucionários? [entrevistador]

- duplicação da Rio-São Paulo, isto é, passou a ter duas pistas independentes (auto-estrada), inclusive com a nova pista de subida da Serra de Araras;

- concretização das ligações, ainda incompletas ou inexistentes: Rio-Salvador, Curitiba-Porto Alegre, Campo Grande-Cuiabá e Cuiabá-Goiânia;

- novo traçado da BR-040, no trecho Petrópolis-Juiz de Fora, com duas pistas. A BR-040 liga o Rio de Janeiro a Belo Horizonte e Brasília;

- construção da Ponte Rio-Niterói, com 14 km, inaugurada em 1974;

- construção das rodovias: Rio-Santos, Santos-São Paulo (Imigrantes), São Paulo-Campinas (Bandeirantes);

- prosseguimento, com pavimentação, da Rodovia Anhanguera até à BR-040, melhorando a ligação São Paulo-Brasília;

- melhoramento do traçado e reconstrução com asfaltamento (antes era em terra) da Belém-Brasília;

- construção da Cuiabá-Santarém (BR-163), com 1.750 km, pelos 8º. E 9º. Batalhões de Engenharia de Construção. Esta obra permitiu o desenvolvimento do Projeto SINOP a 500 km ao norte de Cuiabá, além de levar o progresso para a área por ela servida;

- construção da Tansamazônica, aproveitando, em grande parte, mão-de-obra desempregada do Nordeste como consequência de uma terrível seca naquela região;

- construção e asfaltamento da Rodovia Cuiabá-Porto Velho (Rodovia Marechal Rondon): 1.442 km, eliminando o estrangulamento do Noroeste em relação ao Centro do País. Antes, o tempo de viagem era de trinta dias; com a sua entrega, passou a ser de 24 horas;

- construção e pavimentação da Rodovia Brasília-Barreiras-Salvador, inclusive execução de ponte sobre o Rio São Francisco. A rodovia foi construída pelo 4º. Batalhão de Engenharia de Construção (Barreiras);

- construção e pavimentação da rede do Nordeste, possibilitando encurtamento superior a 600 km nas viagens entre Brasília e São Luís, Brasília e Fortaleza, e Brasília e Recife;

- o acréscimo total à rede do Nordeste, entre estradas pavimentadas e não pavimentadas, ligações e acessos foi de 5 mil quilômetros;

- asfaltamento da maioria das estradas do Rio Grande do Sul” (General-de-Divisão Luiz Augusto Cavalcante Moniz de Aragão, Tomo 12, pg. 118-119).

 

O transporte ferroviário foi relegado a segundo plano, mas não esquecido

“Também não foi esquecido o setor ferroviário. Para não esquecer os feitos mais importantes, trouxe também uma relação das ferrovias construídas ao longo dos governos da Revolução:

- da Soja, no Paraná e Santa Catarina;

- de Carajás (Pará-Maranhão) – com 890 km, ligando a província mineral da Serra do Carajás ao porta da Madeira, próximo a São Luís;

- do Aço (Minas Gerais-Rio de Janeiro-São Paulo), o seu trajeto revelou-se muito caro, pelo número elevado de viadutos e túneis, além de suas características técnicas muito rigorosas. Sua construção, ora foi interrompida, ora ganhou metas desaceleradas, mas não foi concluída. É usada parcialmente;

- do Trigo (Roca Sales-Passo Fundo), iniciada e interrompida na década de 1950, a retomada de sua construção tornou-se viável após a primeira crise do petróleo (1973) e pelo fato de ter sido confiada ao 1º. Batalhão Ferroviário). Concluída em 1980;

- Minas-Distrito Federal, partindo de Pires do Rio (Minas Gerais), foi concluída pelo 2º. Batalhão Ferroviário; o seu destaque é a ponte sobre o Rio Araguari, construída por administração direta por aquela organização militar.

Foram modernizados muitos trechos ferroviários, especialmente com substituição de toda a superestrutura, isto é, trilhos, dormentes e lastros (brita). Como por exemplo, o pátio de Canoas, e trechos diversos da malha do Rio Grande do Sul.

Por outro lado, foram desativados vários ramais ferroviários considerados antieconômicos.

Uma atenção especial foi dada ao transporte coletivo das grandes cidades, com a construção dos trechos iniciais do metrô do Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e Recife.

- as linhas de trens urbanos e suburbanos também foram melhoradas e receberam muitas composições novas, como por exemplo, as da antiga Central do Brasil, além de obras de infraestrutura, com sensível melhoria da eficiência em geral” (General-de-Divisão Luiz Augusto Cavalcante Moniz de Aragão, Tomo 12, pg. 120).

 

Construção de portos

“Nos vinte anos de governos da Revolução, foi dada uma atenção importante ao sistema portuário no País.

Foram construídos inúmeros portos e os maiores, já existentes, foram ampliados e modernizados, inclusive com largo investimento em aquisição de equipamentos de grande porte.

Vejamos os novos portos construídos:

- Porto de Sepetiba – Os estudos para a localização do Porto na Baía de Sepetiba tiveram início em 1973, pelo Governo do então Estado da Guanabara. A partir de 1974, foram assumidos pelo antigo Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis, sucedido pela Portobras. A primeira etapa da obra, o terminal de carvão, na Ilha da Madeira, entrou em operação em 1982. Foram ainda previstos o terminal para minérios de ferro e o de carga geral.

- Porto de Praia Mole – O complexo portuário de Praia Mole, em Vitória, foi inaugurado oficialmente em novembro de 1984. Possibilitou a movimentação de 3 milhões de t/ano de produtos siderúrgicos e 8 milhões de t/ano de carvão. É um porto artificial em mar aberto e sua localização na Ponta do Tubarão é favorecida pelo acesso ao terminal da Companhia Vale do Rio Doce.

- Porto da Ponta da Madeira – Situado a 9 km de São Luís, é parte do Projeto Carajás. Possui instalações de descarregamento de vagões, estocagem de minérios, sistema de embarque por uma linha de transportadores, repeneiramento e rebritagem.

- Porto de Estrela – Situado no Rio Taquari (Rio Grande do Sul), foi inaugurado em 1977, tornando-se o primeiro entroncamento intermodal, conectando hidrovia, ferrovia e rodovia.

- Porto de Trombetas – Situado à margem direita do Rio Trombetas, afluente do Amazonas, escoou em 1984 cerca de quatro milhões de toneladas de bauxita.

Iniciado em 1967, quando foram descobertas as primeiras jazidas de bauxita, a 80 km da Cidade de Oriximiná (Pará). O primeiro embarque para o mercado internacional deu-se em agosto de 1979. A bauxita é levada da mina por ferrovia, num percurso de 30 km.

A Companhia Vale do Rio Doce era a maior acionista (46%) do projeto.

A preocupação com a ecologia também está presente em todo o Projeto Trombetas. Dentro dessa filosofia, foi criada a Comissão Interna de Meio Ambiente (CIMA), que busca possibilitar um melhor controle e preservação das condições ambientais da área.

Pode-se citar, ainda, entre outras obras, a construção do terminal açucareiro de Recife e o salineiro de Areia Branca” (General-de-Divisão Luiz Augusto Cavalcante Moniz de Aragão, Tomo 12, pg. 120-121).

 

Construção de aeroportos

“Foram construídos os seguintes aeroportos:

- Internacional do Rio de Janeiro;

- Internacional de Guarulhos (São Paulo);

- Internacional de Confins, a 47 km do Centro de Belo Horizonte. Atualmente, denominado Tancredo Neves.

Outros aeroportos foram ampliados e modernizados. O gerenciamento das obras e do financiamento destas instalações foi muito bem conduzido pela Infraero.

Para coroar as realizações na infraestrutura aeronáutica, foi implantado o Sistema Integrado de Defesa Aérea e Controle do Tráfego Aéreo (SINDACTA), com a utilização de radares tridimensionais, que executam o acompanhamento do tráfego aéreo, integrados ao processamento de dados em computadores para informação dos voos” (General-de-Divisão Luiz Augusto Cavalcante Moniz de Aragão, Tomo 12, pg. 121-122).

 

Acertos no campo social: BNH, FGTS, Estatuto da Terra, Mobral

“O BNH [Banco Nacional da Habitação] foi importante, foi extremamente importante; o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) foi importantíssimo. O Estatuto da Terra editado pelo Presidente Castello Branco; o Mobral, também, foi muito bom. Eu fiz o IPM do Mobral comunista, que era o PNA (Programa Nacional de Alfabetização), associado ao Movimento de Cultura Popular, que eles usavam para doutrinação dos favelados. O coordenador nacional desse PNA era o Betinho – Herbert José de Souza. Primeiro, da AP (Ação Popular) do meio estudantil, depois comunista quando adquiriu mais asas. Aí, ele, então, se revelou totalmente. Ele foi o Coordenador do Programa Nacional de Alfabetização, que era um programa de alfabetização, mas de linha comunista. Inicialmente, quando quiseram anular esse PNA, fizeram o Mobral. Nas mãos do Simonsen [Mário Henrique Simonsen], os resultados foram muito bons” (General-de-Brigada Celso dos Santos Meyer, Tomo 10, pg. 142).

 

Planos estratégicos, projeto de Nação

“O que houve de extraordinário para o Brasil foi que cresceram nossas responsabilidades no plano de possibilidades estratégicas, de projeto de Nação – estudamos e pensamos o Brasil por toda a vida – convivemos com a gente brasileira ao longo de todas as regiões do nosso País. As Forças Armadas são uma universidade natural do povo, a presença do oficial, do sargento, dos quadros profissionais, enfim, lá nos ermos da Amazônia, no interior do Nordeste, de Minas, do Rio Grande do Sul, nas grandes capitais. Essa interação com as populações civis nos oferece essa lição de Brasil que se projetava dentro dos programas de desenvolvimento amplo da Revolução, do qual destaco o Segundo Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND), que é um marco no Governo Geisel, e abrange todas essas grandes linhas do desenvolvimento nacional.

Ali, notamos a sensibilidade para a priorização da área tecnológica, para onde teremos que ir – o salto é por aí – e vieram as verbas, não só para a área militar, para os projetos da Marinha na área tecnológica, projetos nucleares importantes, para os projetos do Exército, na área bélica, quando o mundo se assustou com os nossos blindados, fruto de pesquisas tecnológicas inteiramente conduzidas por brasileiros: o Urutu, o Cascavel, o Sucuri, o Osório, além da Embraer, mísseis, satélites, foguetes etc.

A priorização foi em ambos os sentidos, não só na parte militar, mas na civil, como o Centro de Pesquisas de Telecomunicações, da Embratel, em Campinas, que é o maior do mundo, e onde nasceu a fibra ótica; a Eletrometal, que é a primeira indústria mundial a beneficiar o nióbio, fazendo a mistura daqueles aços especiais necessários à corrida espacial e outras aplicações dessa notável tecnologia de ponta.

Sempre houve uma tentativa de equilíbrio, não priorizando projetos desenvolvimentistas ou demandas só do Exército. Os projetos desencadeados de avançadas e ousadas conquistas nas áreas espacial, de telecomunicações, energética; na agricultura, como a Embrapa, com tecnologias pioneiras e extraordinários experimentos científicos etc., tudo isso foi um projeto global e não podemos jamais ser acusados de tratamento especial, no que diz respeito a interesse estratégico militar” (Coronel Francimá de Luna Máximo, Tomo 11, pg. 238-239).

Obs.

Sobre a Embrapa, veja o trabalho inovador que o ministro Alysson Paolinelli fez na estatal - https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/05/alysson-paolinelli-o-motor-da-embrapa.html.

O plano que reinventou o campo - Alysson Paolinelli - https://www.youtube.com/watch?v=6GkTMPuJ5nA.

F. Maier

 

Programa Nuclear Brasileiro

“O programa nuclear brasileiro foi justificado, também, a partir de uma previsão de esgotamento do potencial hidrelétrico na região centro-sul. Não havia também a certeza da viabilidade técnico-econômica da transmissão elétrica a distâncias superiores a 2.000 km. Por outro lado, havia a plena consciência de que o quilowatt oriundo de uma usina termonuclear era bem superior ao da hidroeletricidade e, desde a década de 1950, com a experiência do Almirante Álvaro Alberto, sabia-se que os países detentores da tecnologia nuclear dificilmente concordariam em transferi-la, mas apenas estariam dispostos a vender ‘caixas-pretas’.

Em 1967 e 1968, dois grupos técnicos recomendaram a instalação de uma usina nuclear com capacidade da ordem de 500 MW.

Em 1971, após concorrência internacional, foi assinado contrato com o consórcio Westinghouse e Empresa Brasileira de Engenharia, para o fornecimento e montagem de uma Central Nuclear de 625 MW, utilizando Reator a Água Leve Pressurizada (PWR), utilizando-se como combustível o urânio enriquecido e no esquema ‘caixa-preta’.

A seguir, começaram as articulações para a instalação de mais seis ou oito centrais nucleares. Foi quando surgiu a alternativa do acordo com a República Federal da Alemanha (1975), dentro da premissa de que o Brasil não devia nem podia limitar-se a adquirir no exterior, em operações isoladas, centrais nucleares, sem cogitar de um programa de cooperação tecnológica e industrial, tanto no que se refere a centrais quanto ao ciclo do combustível, que proporcionasse uma autonomia progressiva.

A base da cooperação foi uma programação da instalação de oito centrais nucleares até 1990, de 1.300 MW de potência cada uma, com a participação progressiva da indústria nacional no fornecimento dos componentes. O valor global do programa – centrais mais ciclo do combustível – foi estimado, na época, em cerca de US$ 20 bilhões.

O protocolo previa a constituição de 11 empresas mistas entre a Nuclebras e cerca de vinte grandes empresas e bancos alemães ou suas subsidiárias. Apenas cinco dessas empresas foram constituídas, dentre elas estão: Nuclep, fábrica de componentes pesados de reatores; Nuclen, empresa de engenharia nuclear; Nuclam, empresa de mineração e prospecção de urânio; Nuclei, serviços de enriquecimento, e Nusteg, pesquisas para aperfeiçoamento jet-nozzle de enriquecimento.

Como se sabe, os preços dos fornecedores alemães começaram a subir, em especial após o segundo choque do petróleo, e a economia brasileira também viu-se bastante fragilizada. Foi necessário, portanto, uma expressiva redução do programa como um todo, embora não tenha sido paralisado.

Assim, da Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto, cujo nome homenageia um dos maiores incentivadores do programa nuclear brasileiro, foram construídas apenas a Angra-1, já citada, e a Angra-2, com potência de 1.300 KW, embora a maior parte dos equipamentos de Angra-3 já estejam comprados.

O que coube às Forças Armadas no Programa Nuclear Brasileiro? [entrevistador]

A partir de 1982, o Exército Brasileiro participou do esforço pelo domínio da energia nuclear com o Projeto Atlântico, que contemplou o estudo da viabilidade técnica da construção de um reator de potência moderada a grafite, refrigerado a ar, e da produção, no Brasil, de frafite nuclearmente pura. Neste contexto, foi criado o Instituto de Projetos Especiais, em Guaratiba, no Rio de Janeiro, que objetivava a construção de um reator crítico de potência entre 10 e 20 MW e a instalação de uma usina para a produção de grafite naquelas condições. Com a Nova República, o projeto foi esvaziado, sobretudo, a partir do desastroso Governo Collor de Mello, o mesmo acontecendo nos oito anos de FHC até ser finalmente extinto, juntamente com o IPE, em 2003, no atual Governo, que não disse ainda a que veio.

A Marinha do Brasil vem realizando, desde o 2º. semestre de 1979, um grande esforço de pesquisa e desenvolvimento que tem como objetivo final a obtenção de um submarino nacional de propulsão nuclear. A missão coube ao Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP), que criou no município de Iperó, São Paulo, o seu centro experimental Aramar. Tendo conseguido, continuamente, recursos bem expressivos, o projeto da Marinha vem obtendo seguidos êxitos apesar de todas as restrições encontradas em fornecedores internacionais, o que vem lhe obrigando a executar um profundo e eficiente trabalho de pesquisa e desenvolvimento, cujo destaque maior foi o desenvolvimento das ultracentrífugas que já operam em cascatas, em escala-piloto, em Aramar” (General-de-Divisão Luiz Augusto Cavalcante Moniz de Aragão, Tomo 12, pg. 114-116).

 

Acordo Nuclear secreto com a China

“O Presidente Figueiredo, em janeiro de 1981, por intermédio do Embaixador Paulo Nogueira Batista, Presidente da Nuclebras, encaminhou uma carta pessoal ao Presidente Reagan, às vésperas da posse deste último, mostrando que o Governo brasileiro se reservava o direito de questionar a validade da Lei de Não-Proliferação aprovada em 1978, já que nós tínhamos acordos firmados com os Estados Unidos e o acordo, uma vez chancelado, deve ser cumprido.

O Embaixador foi recebido pelo Vice-Presidente da República eleito, o Sr. George Bush, pai do atual Presidente dos Estados Unidos, e quatro dias depois informou ao Embaixador Paulo Nogueira Batista o seguinte: o Presidente Reagan compreende a posição do Presidente Figueiredo e verbalmente transmite ao Presidente Figueiredo a sua posição. Ele não tomará nenhuma iniciativa que possa criar problemas se o Brasil buscar o seu desenvolvimento na área nuclear, em outras áreas, fora da forma como foi acertado no acordo com os Estados Unidos.

De forma que entendo o seguinte: independentemente de partido, Democrata ou Republicano, a sociedade americana, uma vez ajustado o procedimento, se esquece dos parceiros e passa a raciocinar só com aquilo que é considerado válido para ela.

(...)

Só para retornar, essa Comissão, a CPI atuou em 1990? [entrevistador]

Em 1990. A Comissão mista do Congresso era dirigida pela Deputada Ana Maria Rattes, e o relator, o Senador Severo Gomes. Então passemos, agora, à parte de debates.

Questionaram que não havia informações claras sobre o Projeto Solimões, um projeto desenvolvido pelo Centro Tecnológica da Aeronáutica, em São José dos Campos, e que buscava o enriquecimento do urânio com base no raio laser.

Outro ponto muito comentado pelos parlamentares foi o embarque de urânio para o Iraque, que teria sido feito no Governo Figueiredo, e que explicitei ter resultado de um acordo-quadro aprovado pelo Congresso Nacional e promulgado pelo Vice-Presidente da República Antônio Aureliano Chaves, no exercício da Presidência da República.

No debate, deixei patente que estava sendo apreciado o que eles chamavam de projeto paralelo autônomo de produção da energia nuclear. Havia mistério sobre como isso começou, como foi obtido urânio enriquecido para o reator da Marinha e do IPEN. Duas ou três vezes, o Deputado Luiz Salomão enfatizou que o problema não nasceu no Brasil. Nasceu em algum lugar.

Eu expliquei a eles o seguinte: cuidarei do aspecto institucional, ou seja, as negociações de governo para governo e deixarei, como ajustado anteriormente, que os aspectos técnicos sejam explicitados pelo Doutor Rex Nazareth Alves. Acontece que no ano a que Vossa Excelência, Deputado Luiz Salomão, se refere, o que encontrou nas instalações de Aramar, no Estado de São Paulo, foi negociado pelo País com a China. Como parte do acordo feito com aquele país, foram exigidas aquelas duas premissas: primeiro a do sigilo, que o nome da China não fosse revelado; o segundo compromisso explícito é que seria usado para fins pacíficos.

E aí invoquei o regimento do Senado Federal, Artigo 117; eu não posso omitir de Vossa Excelência os dados, mas tenho inclusive obrigações das quais, para cumprir o ajuste feito com o país que nos forneceu o urânio enriquecido, não posso declinar. Quanto ao Iraque, não há dificuldade nenhuma, lembro-me do texto claro. Solicito a Vossa Excelência que, para o primeiro caso, o do urânio enriquecido, só estejam em plenário os parlamentares. A reunião naquele momento tornou-se secreta.

É porque no ajuste que fizemos com a China não tínhamos autorização para revelar que nos forneciam a quantidade de urânio desejada para enriquecermos o nosso urânio.

Isso foi quando, General? [entrevistador]

Isso foi no dia 24 de outubro de 1990.

Mas quanto à China fornecer urânio para enriquecer o nosso... [entrevistador]

Em 1982.

Então o nosso Governo revolucionário fez um acordo com a China e isso a oposição não cita? [entrevistador]

Não lhes convém.

O Tratado com a China, de país para país, sobre um problema tão sensível. A nossa imprensa, na época, não tratava disso, talvez por ser sigiloso, nunca foi citado esse acordo. [entrevistador]

(...)

A senhora Ana Maria Rattes, Presidente da CPI, fez uma indagação: seria regimental, dentro da casa, a criação de um mecanismo que fiscalizasse e controlasse o programa autônomo de energia nuclear? E nos perguntou, a mim e ao doutor Rex, se acharíamos mais fácil a Comissão conduzir o processo de fiscalização e controle.

Pedi um prazo para ouvir os meus colaboradores. Depois de consultá-los, considerei válida a proposição, inclusive coloquei o doutor Rex Nazareth à disposição, para dar um arcabouço àquele controle.

Mas desejava, também, tratar da parte da desinformação e até mesmo da má fé. Apresentaram-me os termos de uma declaração do Professor José Goldemberg, Secretário de Ciência e Tecnologia do Governo Collor, que se referiu, em Nova York, a uma publicação do Estado de São Paulo, no dia 10 de outubro: ‘o Presidente Fernando Collor pôs fim a um programa militar secreto para construção da bomba atômica brasileira. Os militares estavam há um ou dois anos construindo uma bomba semelhante à que destruiu Hiroshima’. Palavras do Secretário de Ciência e Tecnologia, querendo mostrar a dificuldade da decisão do Presidente da República, e a importância de possuir instrumentos que permitam a sociedade informada, de existir um nível decisório sobre o que deve ser feito, e como fiscalizar. Essa é a questão. Assim, examinei a proposta da Deputada Ana Maria Rattes.

Depois que ouviram e receberam informações sob juramento, de pessoas qualificadas que efetivamente conheceram o programa nuclear, e depois de visitar os centros de pesquisa das três Forças Armadas, o Senador Severo Gomes concluiu seu relatório. Primeiro, o programa nuclear paralelo e autônomo conseguiu, através do esforço das Forças Armadas e da Comissão Nacional de Energia Nuclear, avanços significativos na área nuclear. A Marinha, no Centro Experimental de Aramar, em Iperó, São Paulo, já enriqueceu urânio; a Aeronáutica, em São José dos Campos, também em São Paulo, trabalha com seu projeto de enriquecimento por raio laser, e o Exército, em Guaratiba, Rio de Janeiro, está se preparando para construir um reator de urânio natural, movido a grafite e refrigerado a gás.

Esses resultados são significativos para a pesquisa nacional, uma vez que foram atingidos com base nos esforços exclusivamente brasileiros. Com investimento, técnicos, equipamentos totalmente brasileiros, as empresas utilizadas no programa já estão perto da escala industrial. Isso significa que o Brasil conseguiu tornar-se independente e autossuficiente nesse setor. O resultado indica, também, que a tecnologia nuclear brasileira deve ser protegida e que a pesquisa e os estudos do setor precisam ser incentivados” (General-de-Brigada Danilo Venturini, Tomo 15, pg. 182-185).

Obs.:

Sobre o Programa Nuclear Brasileiro, veja os textos disponíveis em https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/06/programa-nuclear-brasileiro.html.

Em 1990, o Presidente Collor fechou o buraco na Serra do Cachimbo, Pará, que serviria para testes nucleares.

https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/06/presidente-collor-fecha-buraco-na-serra.html

F. Maier

 

Uma síntese das principais realizações dos governos da Revolução

“Devem ser destacados, especialmente:

- o chamado milagre econômico, no período de 1968-1974, caracterizado pela taxa média de crescimento do PIB de 10%;

- a profunda mudança no perfil energético do País, acelerada a partir de 1979, para fazer frente ao segundo choque do petróleo (1979);

- as grandes obras de infraestrutura em estradas, portos e aeroportos;

- os grandes sistemas da Eletrobras (distribuição de energia) e Telebras;

- na área social, a criação do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), o Sistema Financeiro e de Poupança e o Sistema de Habitação, centrado no Banco Nacional de Habitação (BNH) e o Funrural, beneficiando milhões de brasileiros que trabalham no campo.

Como consequência do desenvolvimento econômico, o crescimento do número de empregos e da renda nacional, com seus efeitos inseparáveis na renda individual.

- na área educacional, o destaque maior parece-me que foi a eliminação da figura vergonhosa e desalentadora dos milhares de ‘excedentes’ anuais. Aqueles estudantes aprovados em concursos para as universidades, porém não matriculados por falta de vagas, e o Projeto Rondon, que o Governo FHC manteve com outro nome;

- programa de construção de hidroelétricas, com destaque para Itaipu, Tucuruí e Sobradinho;

- programa de aceleração da busca de autossuficiência de petróleo, a partir de 1979, com destaque para a exploração da Bacia de Campos;

- programa de desenvolvimento da energia nuclear, que permitiu ao País incorporar essa tecnologia estratégica;

- programa de substituição de importações de insumos básicos e bens de capital, com destaque para a criação e expansão de siderúrgicas e fábricas de cimento e a implantação de polos petroquímicos;

- Programa Nacional do Álcool, com destaque para a criação de empregos no campo, acompanhada de melhoria salarial nessa área, e para a ampla fabricação de carros a álcool;

- o amplo programa de mineração, com destaque para o Projeto Carajás;

- o amplo programa de construção rodoviária, com destaque para a efetivação das interligações de todas as capitais do Sul, Sudeste, Nordeste, Centro-Oeste e Norte-Ocidental, além das ligações com Brasília;

- a Ponte Rio-Niterói;

- a implantação de corredores de exportação;

- o grande programa de construção de aeroportos internacionais e do Sistema Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo (SINDACTA);

- os desenvolvimentos regionais com os Programa Indicativo Nacional (PIN), Programa de Redistribuição de Terras (Proterra), Progres;

- o extraordinário êxito da Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco (CODEVASF) em pleno Nordeste brasileiro na produção agrícola;

- a expansão da agricultura e pecuária, apoiada pelas empresas de pesquisas agropecuárias, que integraram grandes áreas, antes consideradas inservíveis para o plantio. Essa expansão passou a gerar receitas crescentes de exportação;

- investimentos e apoio à área de pesquisa e desenvolvimento, com a criação ou reaparelhamento de inúmeros centros de pesquisa e apoio a projeto;

- investimentos elevados em educação e saúde;

- a criação da Fundação MOBRASL – Movimento Brasileiro de Alfabetização -, com o objetivo de cuidar da alfabetização e da educação contínua de adolescentes e adultos;

- programas e ações políticas do Governo, que garantiram a participação do nosso País em pesquisas na Antártica” (General-de-Divisão Luiz Augusto Cavalcante Moniz de Aragão, Tomo 12, pg 122-123).

 

Projeto Radam-Brasil

“Quando o Presidente Figueiredo assumiu o Governo, já encontrou o projeto de grande alcance conhecido por Projeto Radm-Brasil. O Presidente Ernesto Geisel, em sua mensagem ao Congresso, em 1975, considerou que, pela sua capacidade e pelo número de questões envolvidas, o Projeto RADAM deveria transformar-se num projeto nacional. Daí o nome Projeto Radam-Brasil. Com um programa de trabalho estreitamente ligado ao processo de desenvolvimento econômico das áreas mais pobres, sobretudo no Nordeste e Centro Oeste.

Até para conhecer melhor o Brasil, não? [entrevistador]

É, e promover a integração dessas áreas menos favorecidas com o Centro-Sul. Esses programas foram organizados em cooperação com a Fundação Getúlio Vargas e centros de estudos, nacionais e de desenvolvimento regional e local. Entre as principais atividades do Projeto Radam-Brasil – agora passo para a administração do Presidente Figueiredo, de 1979 a 1984 – foi descoberto um corpo carbonário no Morro de Seis Lagoas, na margem esquerda do Rio Negro, Amazonas. Ele revelou reservas de 2,4 bilhões de toneladas de minério de nióbio, os quais representam 70% das reservas mundiais do metal.

Identificação, no Estado do Paraná e no norte de Santa Catarina, de associações rochosas passíveis de serem mineralizadas em ouro, cromo, níquel e cobre. Identificação e delimitação de mais de 8 milhões de hectares de terras com excelente potencial para irrigação, no Nordeste brasileiro, dos quais 60% situam-se no Vale do Rio São Francisco” (General-de-Brigada Danilo Venturini, Tomo 15, pg. 201-202)

 

Pró-Álcool: 80% dos carros a álcool

“Outra importante realização foi o Pró-Álcool, posteriormente desprezado e até extinto, fruto da pressão exercida pelo cartel do petróleo, infelizmente. Sob o ponto de vista econômico, teria sido uma grande saída para o Brasil. Além de substituir o petróleo, essa energia alternativa gerava uma grande massa de empregos na agricultura. O Pró-Álcool era tão importante que, durante alguns anos, a produção de carros a álcool chegou a 80%, contra 20% de carros movidos a gasolina e a óleo diesel, o que dá uma ideia da magnitude do programa, que deveria ter sido intensificado, e não extinto” (Economista Paulo Roberto Coelho Pinto, Tomo 12, pg. 256).

“Ainda sobre os recursos renováveis, há que se destacar o Programa do Álcool, ou Pró-Álcool, um desafio de grande repercussão internacional, uma resposta clara do Brasil à crise energética. Este nosso País é surpreendente, a sua criatividade não pode deixar de ser desenvolvida. Atualmente, lamenta-se o desestímulo que os seus administradores vêm inoculando na sociedade, fruto da falta de visão. E naquela época houve – é preciso que se diga – o boicote permanente, a reação surda, a oposição disfarçada ao Pró-Álcool, desafios enfrentados corajosamente pelo Presidente João Figueiredo.

(...)

Em termos práticos, em 15 de março de 1979 – data que assinala a posse de Figueiredo na Presidência da República – o Brasil possuía zero carro à álcool. Seis anos depois, ao deixar a Presidência, entregara ao País uma frota de 1,2 milhão de veículos movidos a álcool, conquista que se deve à competência dos técnicos do Centro Tecnológico de Aeronáutica (CTA), sediado em São José dos Campos, São Paulo. O próprio Presidente passou boa parte do seu governo utilizando um carro a álcool” (Engenheiro César Cals de Oliveira Neto, Tomo 12, pg. 276).

 

O Brasil ajudou a evitar a Operação Suriname, que seria uma invasão dos EUA naquele país

“Em 1982, o Presidente Reagan mandou uma delegação ao nosso País, com fotografias ampliadas, várias fotografias. Propuseram a realização de uma reunião, que aconteceu na Granja do Torto e à qual compareceram, para assessorar o Presidente, além de mim, Ministro Chefe do SNI, o General Venturini, Secretário do CSN e o General Ludwig, Ministro Chefe da Casa Militar. A reunião realizou-se na Granja do Torto e pelos EUA participaram o Embaixador Antony Motley, o General Clark (Assessor do Presidente Reagan), um oficial da CIE, de nome Claridge, e um outro Assessor da Casa Branca.

Os americanos contaram que estavam prestes a fazer uma manobra naval no Caribe, quando iriam aproveitar para desembarcar e ocupar o território do Suriname. Um momento de suspense. O pivô da história: Cuba. A embaixada cubana, sem alarmar, pretendia internar no Suriname pessoal deles e o Reagan não aceitava isso.

Aquelas fotografias, falei nelas mas não expliquei, eram principalmente de desembarque de navios e aviões russos, na Nicarágua e nas ilhas do Caribe. Depois que descreveram tudo sobre o perigo que imaginavam existir, pelo crescimento da influência cubana no Suriname, viraram-se para o João e disseram: ‘Precisamos que o senhor ponha um Batalhão de paraquedistas no aeroporto do Suriname.’ O João quase morreu, coitado. Depois, ele comentou: ‘Puxa, nunca esperei por essa.’

(...) Nesse momento, disse: ‘João, pede licença para nos retirarmos. Vamos fazer uma pequena conferência em separado.’ Saímos e fomos ao gabinete dele, de onde os americanos nada poderiam ouvir. Fui o primeiro a falar: ‘João, não negue, porque se você disser não e bater o pé, haverá consequências no nosso relacionamento com os Estados Unidos, e alguns óbices, principalmente na área econômica.’ O Presidente, então, perguntou: ‘O que você sugere?’ Respondi: ‘Peça a eles um tempo, informando que vamos mandar uma comitiva com a missão de conversar com o Presidente daquele país.’ O Presidente do Suriname era um tipo despreparado. A ideia era inverter o papel. Argumentar sobre o absurdo de Cuba querer apossar-se do Suriname; ressaltar que a América Latina não tinha a ver com o comunismo.

Oferecíamos diversos tipos de assistência e apoio, como matrículas de surinameses em cursos, no Brasil, envio de técnicos experimentados para trabalhar na construção de linhas telefônicas, comunicações rádio e outros benefícios. O João comentou: ‘Você é ‘de morte’, Medeiros. Perguntei: ‘Mas você vai fazer isso?’ Ele respondeu: ‘Vou.’ Conversamos mais um pouco naquele local e voltamos para a sala onde os americanos aguardavam. O João, ele mesmo, fez a exposição de nossos propósitos, que foram prontamente acatados. Gostaram, porque saíram de mais uma encrenca: invadir um outro país. Estava suspensa a Operação Suriname.

E o emprego de nosso Batalhão seria contraproducente, em virtude de nossos princípios de não intervenção... [entrevistador]

Não tinha ‘nem pé nem cabeça’. Partiram satisfeitos e, dias depois, após o contato com o Presidente Bouterse, o Venturini viajou para o Suriname. Seguiu com dois coronéis; estávamos na Semana Santa. Havia 8 elementos de segurança do SNI embarcados no avião. Não apareceram nenhuma vez. Passaram um dia inteiro, lá, como se fossem segurança pessoal e ninguém desconfiou. O Venturini foi muito bem recebido, voltou feliz da vida, todos aplaudimos o sucesso de sua missão e, imediatamente, começamos a cumprir o que tínhamos prometido.

A participação brasileira no Suriname foi muito apreciada pelo Governo americano. Ela evitou, certamente, a perda de vidas de militares americanos e de muitos surinameses, além de um enorme desperdício para os Estados Unidos. O Presidente Regan ficou muito impressionado e agradecido pela pronta e eficaz ação do Governo brasileiro.

A esse propósito, quando o Presidente Reagan veio ao Brasil visitar o Presidente Figueiredo, me convidou a visitá-lo na Casa Branca. Viajei aos EUA, visitei a sede da CIA, em Langley, Virgínia, e depois encontrei-me na Casa Branca com o Presidente Reagan, presentes o Embaixador Motley e o General Clark, oportunidade em que o Presidente americano renovou os seus agradecimento pela ação brasileira, mostrando-se imensamente feliz pelo êxito da mesma” (General-de-Exército Octávio Aguiar de Medeiros, Tomo 15, pg. 45-46).

 

O Brasil ajudou a abrandar o confronto Peru-Equador, em 1981

“O General Adhemar da Costa Machado me contou uma história que serve para mostrar um pouco do temperamento do Presidente Figueiredo. Não sei se o senhor foi testemunha. Existia um litígio entre o Peru e o Equador, até acabou havendo perigo de enfrentamento militar entre eles, ao longo da Rodovia Pan-americana. A tropa do Peru de um lado e a do Equador, do outro.

O Presidente Figueiredo quis mandar alguém lá, a fim de tentar resolver a situação. Escolheu o General Adhemar da Costa Machado, que servia no Estado-Maior do Exército, como 2º. Subchefe. Seguiu com 2 Coronéis, um deles chamava-se Ilson Nunes da Silva. O General Adhemar contou-me que foi ao Itamaraty, para saber dos detalhes, e lhe disseram: ‘Olha, a parte diplomática já acabou, não existe como, diplomaticamente, resolver isso. O Presidente quer que, pelo menos, vá um militar para tentar evitar o confronto bélico.’ Resolveu, então, ir ao Presidente, para pedir orientação e procurou o General Venturini, Chefe do Gabinete Militar. Segundo o General Adhemar, vou ser fiel aqui, porque os dois faleceram, o General Venturini voltou, com o seguinte recado: ‘Olha, o General Figueiredo mandou você ir à ‘m....’, pois se tivesse orientação já a teria dado, há muito tempo. O fato é que não há orientação a ser dada; vai lá e vê o que você consegue.’ [entrevistador]

Isso é bem do João Figueiredo.

O General Adhemar foi e conseguiu abrandar a situação, tanto que naquele período nada mais ocorreu. O problema foi surgir, novamente, em 1994. [entrevistador]” (General-de-Exército Octávio Aguiar de Medeiros, Tomo 15, pg. 48).

 

Obs.:

Sobre os vários conflitos de fronteira entre o Peru e o Equador, acesse https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/06/conflitos-fronteiricos-entre-peru-e.html.

F. Maier

 

Sem a Revolução, o que seríamos?

“Caso não tivesse ocorrido a Revolução de 1964, na melhor das hipóteses, teríamos nos transformado, na década de 1980, em um País de padrão médio africano, pela total falta de condições de enfrentar as duas crises do petróleo e pelo excesso de tolerância com o MCI. Na pior das hipóteses, teríamos nos tornado em um teatro de operações, com algumas características do TO da Guerra do Vietnam. Ocupado por guerrilhas urbanas e rurais e invadido por tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) ou da Organização das Nações Unidas (ONU). Hoje, o que seríamos?” (General-de-Divisão Luiz Augusto Cavalcante Moniz de Aragão, Tomo 12, pg 124).

 

Método Cooper é popularizado no Brasil pelo Capitão Cláudio Coutinho

“Os acertos foram muitos, mas gostaria de citar um fato, na minha área, na minha especialidade, que é Educação Física e esporte. Vi um amigo, um companheiro – Capitão Cláudio Coutinho, infelizmente já falecido, prematuramente, foi meu companheiro na área de Educação Física, fomos Instrutores na Escola de Educação Física do Exército – que teve oportunidade de fazer um curso com o professor Cooper, Kenneth Cooper, nos Estados Unidos e, quando ele voltou, com esses conhecimentos que ele auferiu, foi chamado pela então Confederação Brasileira de Desportos (CBD) para integrar a comissão técnica da Seleção Brasileira que ia disputar a Copa de 1970, no México. E, conforme todos sabemos, aquela Copa teve um êxito extraordinário, principalmente na preparação física, que nos levou a enfrentar muito bem a altitude do México, que, até então, era um mito. E nós tivemos a melhor preparação física da Copa.

Isso teve muito a ver com o trabalho do Coutinho, junto com o Chirol, com o Parreira, que são também pessoas de muito valor. Mas com o êxito da Copa do Mundo, o que aconteceu? O método Cooper começou a se popularizar, livros foram editados, porque até então era difícil ver, nas ruas das cidades brasileiras, alguém correndo; quando se via alguém correndo, era militar.

E hoje, o que é que se vê? Por exemplo, vejo aqui na Avenida Atlântica: há dias que você não consegue andar, tal é a quantidade de pessoas que passaram a se preocupar com o seu físico. E isso começou com certeza nesse trabalho oriundo do êxito na Copa do Mundo, em que o meu amigo Cláudio Coutinho – uma inteligência viva a serviço do esporte nacional – teve uma parcela considerável” (Tenente-Coronel Reginaldo Pontes Bielinski, Tomo 11, pg. 325).

Obs.:

Cláudio Coutinho faleceu em 1981, aos 42 anos de idade, quando praticava pesca submarina nas Ilhas Cagarras, próximo a Ipanema. Foi treinador do Flamengo e da Seleção Brasileira. Na Copa da Argentina, em 1978, logrou o terceiro lugar, invicto. O torneio foi marcado por polêmica que existe até hoje, devido ao jogo em que o Peru teria “se vendido” aos argentinos, em derrota de 6 x 0.

F. Maier

 

ERROS DA REVOLUÇÃO

O AI-5 deveria ser o primeiro Ato, segundo o jornalista Themístocles de Castro e Silva e o engenheiro Accioly de Carvalho

“Um movimento como este, quando explode e se torna vitorioso, gera as suas próprias leis. Se foi vitorioso e respaldado pelo povo, foi porque a ordem jurídica anterior estava fendida e não teve forças para detê-lo, claro. Então, o Movimento de 31 de Março tinha que gerar as suas próprias leis e seguir em frente. Mas não: primeiro, dividiu logo a vitória com o outro lado, admitindo para Vice-Presidente da República o Sr. José Maria Alkmin, representante da situação deposta, Juscelino e Jango. Depois, com o Presidente Costa e Silva, a Revolução cometeu o mesmo equívoco, indicando para vice-presidente um cidadão muito ilustre, um cultor do Direito, o Dr. Pedro Aleixo, politicamente, entretanto, contrário ao Movimento vitorioso. Tanto assim que se recusou a assinar o AI-5, que deveria ter sido editado no começo da Revolução.

Exatamente porque a Revolução não quis, ela própria, gerar as suas leis, surgiram as crises posteriores, impondo corretivos graduais através dos primeiros Atos Institucionais. Primeira crise, ato 1. Segunda crise, ato 2. Terceira crise, ato 3. Na primeira eleição que se fez, deu-se a vitória do outro lado, para os governadores do Rio de Janeiro, da Guanabara e de Minas Gerais” (Jornalista Themístocles de Castro e Silva, Tomo 4, pg. 280).

“No que diz respeito ao Ato Institucional no. 5 (AI-5), eu diria que ao comando revolucionário, logo no início – depois transferido ao Presidente Castello, quando eleito – deveria ter sido concedido os poderes contidos naquela Ato, editado anos mais tarde. Defendo a tese de que o AI-5 deveria ter entrado em vigor no dia da Revolução, encerrando-se com um mandado de seis anos para o Presidente Castello Branco. Ao fim deste período, o Presidente Castello estaria em condições de convocar as eleições, depois de ter feito a limpeza política. Assim, a decretação do AI-5 demorou muito” (Engenheiro João Paulo Simões Accioly de Carvalho, Tomo 12, pg. 292).

 

Jarbas Passarinho fala sobre ter assinado o AI-5

“Pago até hoje por ter assinado o AI-5. Quando me perguntam: ‘O senhor assinaria?’ Respondo: ‘Nas mesmas circunstâncias, assinaria.’ Sabe, era ainda um coronel, por isso mesmo, quando o Médici indicou meu nome para ser candidato, conta-se que, no Alto Comando, o General Orlando Geisel disse: ‘Gosto muito do Passarinho, mas não faço continências para coronel.’ Então a minha possível candidatura morreu ali. (...)

Então, naquele momento em plena reunião, assisto o quê? O Ministro do Exército, General Lira Tavares, depois que Pedro Aleixo sugerira, apenas, o estado de sítio, toma a palavra e diz: ‘Não é possível, o Exército não tem condições de manter a ordem no país diante das guerrilhas que estão aí, das violências que são praticadas.’ E exemplificava: ‘Marighela, um comunista notório, tradicional a vida inteira, foi preso num determinado momento, antes do AI-5. Em seguida – os bacharéis em Direito sabem melhor do que eu – entrou o habeas corpus. Foi preso, mas três dias depois estava fora. Não havia como manter as liberdades fundamentais para lutar contra um grupo que queria acabar com nossa liberdade, se chegasse ao Poder.’ Por isso o AI-5 foi uma medida correta: primeiro, porque foi uma resposta, ao contrário do que propalam – lê-se neste mesmo livro ‘A Esquerda Armada...’ – eles adotam uma cronologia onde mostram que isso começou em 1965, ainda no Governo Castello, com o Coronel Cardim, nome parnasiano, Jefferson Cardim de Alencar Osório. Repetem sempre que a guerrilha foi uma resposta ao AI-5. Não, a resposta é que foi o AI-5. (...) Quando chegou a minha vez de falar, fui o primeiro, exceto o Vice-Presidente, a usar a expressão ‘para não chegarmos à ditadura.’ Inicialmente, fiz o elogio da posição do Vice-Presidente, Pedro Aleixo, tentando fazê-lo caminhar conosco, porque ele não estava numa luta contra nós, mostrava apenas que podia haver um estágio intermediário. E, a minha frase está lá, reproduzida, agora, pelos jornais: ‘A mim me repugna, senhor Presidente, como a Vossa Excelência, enveredar pelo caminho da ditadura, mas se eu não tenho alternativas, às favas os meus escrúpulos de consciência.’ Pago por isso, repito, até hoje” (Senador Jarbas Gonçalves Passarinho, Tomo 5, pg. 63).

“Revolução é quando se tem um líder e se pretende fazer uma mudança radical. Porque nós pretendíamos fazer uma mudança radical. Essa mudança não foi feita, infelizmente, não foi feita. Que mudança seria essa? A Revolução de 1964, no meu entender, deveria ter fechado tudo, passa a borracha e vamos comçar de novo. Significa o seguinte: não tem que aceitar aquele ‘congressinho’ para manter a fisionomia da frente. Fecha, todo mundo na rua. Fecha a Justiça – todo mundo para a rua. Vamos fazer de novo, vamos botar gente nova. Colocar interventores nos Estados, acabar com a Câmara de Vereadores, acabar mesmo! Vamos fazer uma faxina, vamos empregar a linguagem que, hoje em dia, se usa tanto – vamos passar o Brasil a limpo. Aquela ocasião era a hora de passar o Brasil a limpo. Passar a borracha. Começar de novo.

Depois, sim, eleições livres em todos os níveis com normas e regras bem definidas, de maneira que não se permitissem situações abusivas como se vê hoje – essa justiça morosa, realmente lenta e, a todo momento, apresentando, como no Congresso, casos de corrupção. É uma vergonha!

Era isso que deveria ter sido feito pela Revolução, como se pretendia! Vamos ao Chile. Pinochet passou a borracha. Veja o Chile como está hoje. Ele não teve nenhum remorso em fechar o Congresso, fechar a Câmara dos Deputados. Fechou tudo, inclusive a Justiça. Estabeleceu uma junta e governou com ‘punho-de-ferro’.

Em qualquer revolução, em qualquer ação de força, a injustiça faz parte do sistema. Não podemos querer fazer uma revolução ‘boazinha’. Ah!, não. Paga o justo pelo pecador? Paga. Mas o preço que se paga ou que ser teria pago seria muito menor do que o preço que estamos pagando hoje com uma violência urbana fora de controle, com a corrupção instaurada no País e com o descrédito das instituições. Se nós tivéssemos feito isso, hoje, com certeza, teríamos um outro Brasil’” (Coronel Tomás de Aquino de Carvalho Lima Sampaio, Tomo 10, pg. 391-392).

 

Primeiro erro: Castello Branco é obrigado a submeter-se à eleição do Congresso Nacional

“O que observei, lá do Nordeste, acerca da atitude do Congresso, ao ser deflagrada a Revolução, foi o propósito de, imediatamente, apossar-se do Governo, como acontecera, anteriormente, com a saída do Jânio e em outras ocasiões. Não conseguindo, seguiu-se a linha da omissão. Por ocasião da eleição do General Castello Branco à Presidência da República, tentaram até ausentar-se, obrigando-nos, no IV Exército, a buscar cada um dos deputados e senadores e indicar-lhes local e hora para o embarque. Eles não queriam nem votar.

E, depois de terem votado, começaram a abraçar o Castello [Entrevistador].

Para o desempenho do General Castello, foi altamente negativo sua eleição ter sido realizada pelo voto dos senadores e deputados. Eles não mereciam ter esse privilégio. Foi o primeiro e, talvez, o maior erro da Revolução que se iniciava” (General-de-Brigada Hélio Ibiapina Lima, Tomo 2, pg. 180-181).

“No dia 15 de abril de 1964, o General Castello Branco assume a Presidência da República. A meu ver, por ser um militar muito competente, mas extremamente legalista, talvez não fosse o mais indicado para ser o primeiro presidente revolucionário. O General Castello Branco, por seu temperamento, e fiel à legalidade, procurou dar à Revolução o aspecto mais democrático possível, limitando-se a corrigir os fatos mais graves, preocupado em fazer tudo de um modo pacífico, conciliando com o Judiciário, com o Congresso” (Coronel José Antônio Bayma Kerth, Tomo 4, pg. 107).

“O Castello era um democrata. Foi meu comandante na Escola de Estado-Maior e mantinha pressão permanente, afirmando: ‘O Exército não pode, ao mesmo tempo, servir a dois senhores. Ou se é militar, ou se é político, porque até juramentos podem conflitar numa hora dessas. O Exército, se fizer política, não é mais força armada, é milícia” (Senador Jarbas Gonçalves Passarinho, Tomo 5, pg. 56).

 

Atritos entre castellistas e costistas

“Nós, militares, compreendemos que, nos primeiros tempos da Revolução, que duraram um ano e meio a dois anos, houve uma divisão, um pouquinho forçada por alguns, entre o que se chamaria os ‘castellistas’ e os ‘costistas’ – Castello Branco e Costa e Silva. Eu digo que a divisão foi forçada porque 90% dos militares, inclusive dos revolucionários, e eu me incluo nesse grupo, 90% não estávamos preocupados em saber se vai ser fulano ou beltrano. Estávamos preocupados era em ter um chefe à altura e que logo assumisse a chefia, para não ficarmos acéfalos depois de ter vencido” (General-de-Exército Jonas de Morais Correia Neto, Tomo 9, pg. 48).

“Na Secretaria Geral do Conselho [de Segurança Nacional], assisti ao delinear de um conflito virulento e de consequências lamentáveis para a Revolução e para o Exército. Foi a guerra de atrito entre o ‘grupo Costa e Silva’ e o ‘grupo Castello Branco’. Sem economizar palavras, seus líderes odiavam-se. Portella não tolerava os Geisel, e não tolerava o que ele chamava 'o pessoal da Sorbonne’, que era o pessoal dos Geisel, Golbery à frente. Desse último tinha ódio; em certa medida correspondido” (Coronel Luís de Alencar Araripe, Tomo 2, pg. 228).

“Fizemos com que entre nós a cizânia crescesse. A mesma que vai aparecer mais tarde, na luta entre os chamados radicais, que vão se opor, inclusive, ao fim do chamado regime militar, permitindo aquelas coisas que nos levaram até a uma participação em terrorismo, como as bombas atiradas em certos lugares – a questão do Riocentro. Aqueles fatos ocorreram, porque um grupo ainda não tinha se disposto a aceitar a passagem do governo para a área civil” (Senador Jarbas Gonçalves Passarinho, Tomo 5, pg. 59).

“O que o povo esperava da Contrarrevolução que passou a se chamar de Revolução?

Esperava desenvolvimento, honestidade, austeridade, ordem e segurança: isto de fato aconteceu. O Governo de Castello, porém, não ouvia ‘o grupo revolucionário’, que havia desencadeado a Revolução. Ligava-se pouco ou quase nada, devido às sequelas por ocasião da renúncia do Jânio. Falavam-se pouco e não se cumprimentavam.

Uma desunião. [entrevistador]

Exato. Tanto que ao ocupar a Presidência da República, Castello Branco enfrentou problemas com este grupo. O Ato Institucional No. 2 (AI-2) só saiu porque os paraquedistas pressionaram. Quartéis pressionaram, comandados pelo Plínio Pitaluga, ainda vivo, o Confúcio, o Sebastião Chaves, que comandava o Regimento Floriano. Resolveram depor o Castello e colocaram as tropas na rua. A Marinha, chefiada pelo Almirante Heck, dispunha-se, também, a bloquear a barra do Rio, para exigir a saída do Catello. O General Costa e Silva, Ministro da Guerra, foi à Avenida Brasil num carro-comando, reunir-se com os coronéis para um acordo. Antes, ao sentir a crise, Costa e Silva foi até o Castello, cuja filha, Antonieta – Nieta -, pediu-lhe:

- Salve o papai!

Era um carro-comando PC, ou seja, Posto de Comando instalado na viatura. [entrevistador]

Exatamente. Nesse carro-comando, Costa e Silva fez um acordo com os coronéis. Estes oficiais tinham o apoio da Força Aérea, inclusive, pelo Haroldo Veloso. Em suas bases, encontravam-se prontos para a ação. Nesse dia, na Av. Brasil, surgiu a candidatura do Costa e Silva e saiu o AI-2. Costa e Silva assumira o compromisso de arrancar tudo o que os coronéis queriam do Castello” (Doutor Carlos Eduardo Guimarães Lousada, Tomo 7, pg. 348-349).

 

A doença de Costa e Silva, sonegada aos brasileiros

“Sabemos de fonte segura que na ocasião em que foi escolhido, o General Costa e Silva estava gravemente enfermo. A equipe dele, seus assessores e elementos mais chegados já sabiam disso e sonegaram essa informação por interesse do mandato. Pouco depois o Presidente teve problemas, ficou incapacitado e precisou ser substituído. Já a escolha do novo Presidente deu-se através de uma eleição de forma militarizada. Tudo porque a situação era de inquietação, estávamos vivendo aquela fase de contestação que apresentava sinal de rápida deterioração” (General-de-Divisão Rymundo Maximiano Negrão Torres, Tomo 8, pg. 99).

 

Costa e Silva pensava em devolver o poder a um civil

“O Costa e Silva, quando assumiu, pensou em acabar, devolver para o civil. Isto eu sei devido às reuniões dele com o General Lyra Tavares, cujo gabinete em Brasília, eu chefiei até a crise devido ao problema de saúde do Costa. O General Lyra conversava muito comigo, era falante, uma cultura privilegiada. Ele chegou a me confidenciar, uma vez, a conversa do Costa e Silva com ele, sobre a sucessão. Ele achava que estava na hora de devolver o bastão ao mundo civil, porque a Revolução, com o passar do tempo, estava se desgastando. Ao paisano em geral, não interessava ter poder de tirar, de botar, de prender. Ele gosta da bagunça, em poder fazer negociatas, de comprar A, comprar B, de realizar um bom negócio. Ele não está muito interessado em coisas certas” (General-de-Brigada Celso dos Santos Meyer, Tomo 10, pg. 143).

 

Desenvolvimento & Segurança

“As Forças Armadas estão inseridas naquele binômio que tanto se fala na Escola Superior de Guerra: Segurança e Desenvolvimento, binômio que foi se desequilibrando ao longo da Revolução cada vez mais e só ficou no campo do Desenvolvimento e nada para o da Segurança. Então, perdemos uma oportunidade com os presidentes militares, por pruridos, acho pruridos justificáveis, de modernizar as nossas Forças, de ter uma Força mais ágil, modernizada, tecnologicamente falando. Não precisávamos ter grandes efetivos, precisamos ter uma força moderna e adestrada. Esse aspecto perdemos e considero isso uma das falhas da Revolução” (General-de-Exército Luiz Gonzaga Schroeder Lessa, Tomo 10, pg. 70-71).

 

Uma síntese dos principais erros

“Já se falou aqui dos vários acertos, mas, e os erros da Revolução. Quais foram? [entrevistador]

Não ter feito a reforma agrária que o Presidente Castello Branco planejou. Não ter distribuído mais a renda. Não ter feito a reforma do Judiciário. Ter deixado a mídia e a educação nas mãos da esquerda. Esses me parecem ser os erros mais graves” (General-de-Brigada Durval Antunes Machado Pereira de Andrade Nery, Tomo 10, pg. 187).

 

Prolongamento dos governos militares

Os entrevistadores são quase unânimes em afirmar que a Revolução durou mais do que o necessário, provocando um grande desgaste nas Forças Armadas, principalmente no Exército. Afirmam que o Governo Federal deveria ter sido devolvido aos civis ao final do Governo Médici, ocasião em que os grupos terroristas estavam todos derrotados. Alguns afirmam que isso não foi feito devido à Guerrilha do Araguaia, que ainda não estava derrotada.

O general Leonidas afirma que “O General Castello Branco sempre teve como objetivo transformar o Brasil, o quanto antes, numa democracia. Acontece que, fustigado pelos antagonistas, essa transformação demorou mais do que devia. (...) Acho que nós cometemos dois erros, no que tange à permanência da Revolução:

- O primeiro, limitar o governo de Castello Branco. A Revolução estava legitimada por si mesma, não tinha que ‘concluir outro mandato’ – nós devíamos ter começado ‘o mandato de Castello Branco’, de seis anos, por hipótese, findos os quais nós voltaríamos à democracia. Foi um erro que, na época, eu, um jovem Tenente-Coronel, já dizia e comentávamos. Não se trata de um erro que eu analiso agora – mas, repito, não nos deixaram outro caminho. O General Castello Branco tinha verdadeira obsessão de ser considerado um ditador, não gostava dessa situação.

- O segundo erro foi o de prolongarmos demais a Revolução, o que nos trouxe uma carga negativa muito grande, que é essa que nos persegue até hoje, que nos desgastou, inclusive, na opinião pública, trabalhada pela mídia quase toda esquerdista, que hoje nos antagoniza. Insistem em dizer que somos torturadores, matadores etc. Esqueceram-se de que nós salvamos o Brasil” (Tomo 1, pg. 91-92).

“A intenção do Presidente Castello Branco era de que os Atos Institucionais terminassem no seu governo. Queria que seu sucessor saísse de eleições normais e passasse o governo para um civil. Inclusive, já tinha alguns nomes. Mas, na época da transferência do governo de Castello Branco, as guerrilhas começaram, gerando um clima difícil para a liberalização. Foram as guerrilhas, as agressões, que, do meu ponto de vista, provocaram o prolongamento dos governos revolucionários” (General-de-Exército Carlos de Meira Mattos, Tomo 1, pg. 234).

“Até o final do Governo Médici, o panorama político foi francamente favorável aos Governos da Revolução de 1964, tanto no que diz respeito ao Congresso Nacional, como à opinião pública.

Tal era a maioria política no Congresso, obtida nas eleições anteriores pela ARENA, partido governista, que muitos políticos previam, ao início do Governo Geisel, a iminência de virmos a ficar com um partido político único nas eleições daquele ano, à semelhança da situação do PRI no México. Adotando tais previsões, o Governo Geisel resolveu, para as eleições do primeiro ano de seu mandato, incentivar e ajudar politicamente o MDB, para que este partido melhorasse numericamente sua representação no Congresso. O resultado dessas eleições constituiu enorme surpresa para todos, pois o MDB conseguiu maioria no Congresso. Este grave erro de apreciação política prejudicou e condicionou a ação do Governo Geisel até o final do seu mandato” (Coronel Helio Mendes, Tomo 1, pg. 266).

O senhor julga que o Poder foi entregue aos civis no momento justo? [entrevistador]

Não, com certeza não. Deveria ter sido entregue ao término do terceiro período, ao final do Governo Médici. Antes não havia possibilidade por causa das ocorrências de 1968. Demorou-se um pouco para fazer a entrega total do Poder aos civis e sofremos por isso um desgaste natural. Todo o governante sofre esse desgaste. Embora houvesse alternância no Poder, os políticos e os analistas achavam que sendo um general o presidente, o governo era militar, era uma ditadura.

Como aluno da Escola de Estado-maior, aprendi que o Poder não admite vácuo e ao mesmo tempo encanta. Ninguém daquelas corriolas queria se desengajar. Penso que demoramos um pouco além do devido para entregar o Governo” (General-de-Brigada Carlos Augusto Fernandes dos Santos, Tomo 8, pg. 288).

“Julga o senhor que a Revolução se demorou muito no governo? [entrevistador]

Acho que sim. Geisel, com o início da distensão lenta, gradual e segura, levou quatro anos: de 1975 a 1978. Em 1979, entrou o Figueiredo. Ficou de 1979 até janeiro de 1985. Então, demorou além do necessário; acredito que, no final da década de 1970, Geisel poderia ter concluído a abertura porque já não havia mais a luta armada. Entendo que Geisel poderia ter convocado eleições diretas e entregue o Poder aos civis, já que ele iniciou, ele deveria ter concluído. Essa é a minha opinião. Não havia razão de haver mais um governo dito revolucionário depois da extinção do AI-5, feita pelo próprio Geisel” (Coronel Romeu Antonio Ferreira, Tomo 9, pg. 372).

“Talvez o tempo de duração da Revolução de vinte anos tenha sido um desses principais enganos. Por outro lado, esse tempo mais longo pode ser atribuído às forças que surgiram para contestar a Revolução, com armas nas mãos. Por exemplo, as guerrilhas; falsas guerrilhas, porque os homens que as fizeram não conheciam, apesar de terem se preparado no estrangeiro, a sua técnica. Escolheram mal a região de atuação, distante das reais [?] de contato com o exterior. Revolução, da maneira que pretenderam, não se faz sem o apoio de fora. A área escolhida [Xambioá] ficava tão distante de Belém que seria muito difícil de lá advir o apoio que se fazia necessário. Foi baseada somente na audácia e no espírito de aventura, sob uma visão restrita, de idealistas impregnados pela ideologia comunista, que não conheciam nada sobre guerrilha, mesmo com participantes orientados no exterior” (General-de-Brigada Plinio Pitaluga, Tomo 11, pg. 80).

“Em entrevista recentemente concedida à Rede Cultura de Televisão, indagado por que a Revolução tanto se demorou no Poder, Jarbas Passarinho – que esteve muito próximo dos governos militares, já que foi, em duas ocasiões diferentes, Ministro do Trabalho e da Educação – respondeu: ‘Debito à esquerda a duração do período revolucionário’, querendo referir-se, sem dúvida, à exacerbação da violência e à prática de atos terroristas por parte da esquerda de Carlos Marighella. Estas, sim, foram as verdadeiras causas do prolongamento dos governos revolucionários” (General-de-Divisão Théo Espindola Basto, Tomo 12, pg. 132).

 

Legislação político-eleitoral ficou quase intocável

“Um aspecto que conheço bem de perto e, lamentavelmente, ficou quase que intocável foi a legislação político-eleitoral. Os prejuízos ao País foram incríveis. Vemos que a vida política traduz-se de forma grosseira e desonesta, com a invasão de muitos tipos inescrupulosos que conseguem triunfar. O problema é simples de entender; basta comparar os ganhos de um deputado federal com os gastos nababescos de uma campanha política. A diferença é chocante e o sistema eleitoral brasileiro conduz, lamentavelmente, à desonestidade.

(...)

Por força dessa situação, está ocorrendo uma queda cultural e de seriedade dos elementos que representam a sociedade. O Congresso Nacional, hoje, reflete o interesse de grupos confessáveis e inconfessáveis e não os ideais do Bem Comum, o interesse da coletividade como um todo, como queria São Tomás de Aquino, por exemplo, na Suma Teológica. São pessoas jurídicas ou igrejas ou outros grupos que têm condições econômicas de eleger os seus representantes: deputados de empresas, de igrejas, de traficantes, dos contrabandistas, enfim, pessoas jurídicas, em última análise. Uma pessoa física, a não ser muito rico, não tem condições econômicas de bancar uma campanha política nos moldes em que ela se realiza no Brasil” (Doutor Emílio Antonio Mallet de Souza Aguiar Nina Ribeiro, Tomo 10, pg. 259).

Obs.

Nina Ribeiro cita o exemplo do voto distrital puro para a eleição dos representantes do Congresso Nacional como um modelo mais democrático, por estar o político mais perto do povo no subúrbio onde mora.

F. Maier

 

Ditadura ou ditabranda?

“Gostaria, agora, embora sucintamente, de tecer um comentário sobre a relação entre o Movimento de 1964 e o Poder Judiciário. A Revolução preservou muito a Justiça, praticamente não tocou na Justiça. Ainda hoje eu digo: na época da Revolução de 64 – nesse período eu já era juiz – nunca um militar se dirigiu a mim dizendo que eu julgasse desse ou daquele jeito ou dizendo a alguém que não cumprisse um mandado de um juiz” (Desembargador Edgar Carlos de Amorim, Tomo 4, pg. 259).

 “Quero, agora, ressaltar a liberdade que gozamos no Brasil e que poucos povos do mundo desfrutam. É uma ilusão dizer que há liberdade em determinados países. Durante o Governo Médici, colega holandês da faculdade, casado com uma brasileira, vivia se lamentando das dificuldades em levar os filhos para visitar seus avós, na Holanda. Havia uma taxa, um tipo de empréstimo compulsório, obrigando-o a pagar o dobro da passagem. Brinquei com ele:

- Está vendo! Você sai da Holanda, país democrático, e vem para o Brasil, que acusam de ditatorial... Por que você saiu da Holanda?

- Ah! Aqui temos liberdade. Na Holanda sou vigiado pelo meu vizinho, sou vigiado pela polícia e sou vigiado pelo governo” (General-de-Brigada Oacyr Pizzotti Minervino, Tomo 7, pg. 131).

“Era uma ditadura que tinha o Pasquim circulando, jornais circulando, justiça funcionando sem restrição, tinha o Congresso, eleição de governadores, prefeitos, senadores, deputados e vereadores. Que ditadura é essa?!” (Coronel Carlos Alberto Guedes, Tomo 9, pg. 274).

“Episódio também digno de ser lembrado foi o convite a mim feito por Carlos Caldeira, um dos proprietários da Folha, para um almoço na sede do jornal.

Qual minha surpresa! Fora convidado, também, o Cardeal Dom Paulo Arns. Participaram desse almoço eu, o Cardeal, Caldeira e Otávio Frias, pai e filho. Justificou o meu velho amigo Carlos Caldeira o desejo de proporcionar um diálogo sugerido pelo Cardeal. Fato notório eram nossas divergências políticas irreversíveis.

Durante o almoço, o Cardeal nos solicitou uma melhor solução para os ditos ‘presos políticos’ condenados pela Justiça Militar e que estavam cumprindo penas em vários presídios, inclusive no Hipódromo e na Casa de Detenção. Alegara o Cardeal as condições subumanas desses presos, merecendo respeito seus ‘direitos humanos’. Aleguei de pronto que o problema não era de nossa alçada e sim da Justiça Militar, bem como não reconhecia ‘direitos’ a ‘terroristas e assassinos’ condenados. Por insistência dos participantes a favor de Dom Paulo, prometi estudar o assunto.

Depois de algumas tratativas propus uma solução dentro das possibilidades da Secretaria de Segurança, que deveria ter o aval do Poder Judiciário. Esse aval foi conseguido e minha proposta aceita. Com verbas próprias do Gabinete do Secretário, em tempo recorde foi construído na área do Barro Branco da Polícia Militar um autêntico presídio ‘3 estrelas’, para todos os condenados da Justiça Militar.

Pareceu-nos que concentrada a fina flor da subversão e terrorismo, além de tê-los sob nossa guarda direta, o que proporcionou o acompanhamento de todas as suas ligações com o exterior e que vinha realmente a nos servir coo ‘informações’, também, deixavam de fazer proselitismo junto a outros tantos apenados.

Fui aquinhoado com a Ordem do Mérito Judiciário Militar, por contribuir para solucionar o problema de um presídio da Justiça Federal” (Coronel Antonio Erasmo Dias, Tomo 7, pg. 151).

“Em 1983, fui demitido sumariamente da CESP, simplesmente por ser um oficial do Exército. Eu e mais uns três ou quatro oficiais que trabalhavam lá, o Governador mandou nos demitir.

Quem era o Governador?

André Franco Montoro mandou nos demitir por sermos oficiais do Exército e por isso faço questão de dizer o seguinte: Isso aconteceu durante o Governo militar, que eles chamam de ‘ditadura’ e muito mais; mas não era ditadura, porque fomos mandados embora por um civil, por sermos militares, e ficou tudo por isso mesmo. Se fosse uma ditadura jamais teria ocorrido” (Tenente-Coronel Roberto de Andrade Ninô, tomo 7, pg. 280).

“Em 1964, a Guarnição de Santa Maria foi capaz de, em uma condição de risco e de perigo, como no imediato período pós-Revolução, respeitar a sacralidade dos lares! As patrulhas cercavam a casa do indivíduo, viam que ele estava queimando documentos, mas só o prendiam ao clarear do dia, o que nos causou enorme dificuldade, porque tínhamos que ir em busca de prova testemunhal, uma vez que a prova documental tinha sido queimada, com a permissão de um Exército cristão que, no seu todo, respeitou os direitos individuais dos suspeitos. Isso está escrito! Nós agimos com elegância total e dignidade completa. Pelo menos foi o que vi aqui, nesta cidade. E, com certeza, deve ter-se repetido Brasil afora. Foi exemplar! Então, não posso aceitar ‘revanchismo’. Isso sim é indigno, é antifraterno, é um verdadeiro lesa-pátria” (Tenente-Coronel Alexandre Máximo Chaves Amêndola, Tomo 8, pg. 399).

“Qual foi a atitude do Congresso Nacional quando da eclosão da Revolução? [entrevistador]

Na ocasião, o Senador Auro de Moura Andrade declarou vago o cargo de presidente, empossando Ranieri Mazzili, e nomeou Costa e Silva, Ministro da Guerra; o Almirante Augusto Rademaker, Ministro da Marinha; e o Brigadeiro Corrêa de Melo, Ministro da Aeronáutica. Na mesma noite, foi tudo resolvido, sem correr sangue, sem morrer ninguém. Caíram de podre, o termo é esse” (Tenente-Coronel Carlos Claudio Miguez Suarez, Tomo 9, pg. 385).

 

Ausência de renovação da elite política

“O primeiro [erro] foi considerar todos os opositores como inimigos, adversários. Se a Revolução tivesse aproveitado melhor a nossa elite política, a influência exercida pela Revolução sobre a juventude teria sido muito melhor. Para mim, foi o grande erro do Movimento. Havia muita gente boa que, embora pensasse diferente de nós, poderia ter sido chamada a colaborar, o que engrandeceria os quadros à disposição dos grandes ideais que nortearam o nosso Movimento.

Por outro lado, não se tratou, com o rigor devido, os inimigos, exploradores do povo brasileiro, traidores do Brasil. Esses indivíduos, que haviam sido enxotados pela opinião pública nacional, voltaram ao Poder a partir de 1985, fato que vem se agravando de 1990 aos dias atuais. Tudo isso deu azo ao ‘revanchismo’ desenfreado dos últimos 15 anos, que desembocou na tragédia nacional do momento presente” (General-de-Divisão Tasso Villar de Aquino, Tomo 9, pg. 85).

“O primeiro erro foi que ela permaneceu por tempo excessivo. Tenho a impressão de que, se a Revolução tivesse terminado ao fim do Governo Médici, teria sido consagrada por toda a História.

Um outro erro muito sério foi que, a pretexto de manter a juventude afastada da fermentação política, não permitiu a criação de lideranças jovens comprometidas com o espírito da Revolução. A juventude é o futuro de todo o país; portanto, os jovens tinham que participar. Já os partidos comunistas, de todos os matizes, foram às universidades, identificaram as lideranças, principalmente aquelas descontentes, e as recrutaram. Esse foi o segundo erro.

O terceiro foi a perda da guerra pela mídia, que, depois de um certo período, foi empalmada pelos comunistas e seus aliados. Estes infiltraram os seus seguidores nas faculdades de formação de ciências humanas e aí está a origem de todo o ‘revanchismo’ e da mentira que hoje é difundida.

A Revolução permitiu, ainda, que os verdadeiros revolucionários, mais adiante, fossem substituídos pelos oportunistas. Foi quando tivemos o império da tecnoburocracia, que tantos malefícios trouxe à imagem da Revolução. Também foi grave a ausência de solução para alguns problemas sociais, com aquela mentalidade de primeiro deixar crescer o bolo para depois dividir. Nós nos deveríamos ter engajado violentamente na solução dos problemas sociais brasileiros. Por fim, como oficial da Marinha, noto que foi dada muita ênfase à malha rodoviária em detrimento da ferrovia e da hidrovia. Isso foi um erro estratégico notório, responsável em boa parte, na atualidade, pelo elevado ‘custo Brasil’, que retira competitividade dos nossos produtos no mercado internacional” (Vice-Almirante Sérgio Tasso Vásquez de Aquino, Tomo 9, pg. 103-104).

“Existem críticas à Revolução de 1964. É claro que em todo movimento, ainda mais num movimento de força, ocorrem acertos e erros. Felizmente, houve mais acertos. Entre os erros, eu salientaria que o Movimento não permitiu ou dificultou o surgimento de novas e autênticas lideranças política, no seio das forças democráticas. Quando os militares deixaram o Poder, as lideranças políticas eram as mesmas causadoras da Revolução” (General-de-Brigada Adalberto Bueno da Cruz, Tomo 12, pg. 155).

 

A corrupção não foi combatida como deveria ter sido

“Trabalhei numa empresa, que eu não vou citar, muito boa empresa. O trabalho dela era de primeira linha, uma empreiteira. Eles nunca me pediram nada que atingisse a minha formação, sempre me respeitaram e a rigor nunca me solicitaram nada. Eu era uma espécie de garantia para eles. Todos, naquela época da Revolução, queriam ter um militar a seu lado. E muitos militares se beneficiaram. Eu, de certa forma, também. A empresa me empregou durante 11 anos, depois uma outra o mesmo tempo. Achei que estava na hora de parar e me afastei. O dono da empresa dizia, depois que ficamos mais íntimos: ‘Eu dou o meu preço, preço certo, correto, proposta técnica, proposta comercial. Agora, em cima disso, entra o preço político’. Chamavam de preço político – era o preço que queriam pagar, sempre muito superior e estamos conversados. Um exemplo disso é a ferrovia Belém-Brasília, naquele trecho que construíram trezentos quilômetros. Três empresas ganharam. ‘Deram para mim, porque dei o preço político que queriam. Dei o meu preço comercial e técnico, agora pagaram o preço político, não para mim, preste atenção, três vezes mais – método tri, isto é, pagaram três vezes mais o preço que era cobrado, embora para a empresa venha só o preço certo, o preço comercial, o restante não sei bem para onde vai’.

A Revolução não conseguiu impedir essas práticas, mas dificultava. Há uma passagem com o General Frota, com quem eu servi. Quando ele estava no Comando do antigo I Exército, um dia eu chego e ele estava numa reunião com os seus oficiais – eu nem era de lá, eu era da Escola Superior de Guerra. Ele estava reunido com o General Bento, Chefe do Estado-Maior, Coronel Ourique, Subchefe, e o Fiúza, que era do DOI/CODI. Eu, da ESG, passei por lá. E ele disse: ‘Agora, acabou a corrupção, não há mais corrupção com o AI-5’. Eu lhe disse: “O senhor está enganado. Vai ficar mais difícil, porque se tornará mais perigoso, mas vai aumentar o preço e aumentando o preço vai haver quem acha que compensa arriscar. Diria para o senhor que ficará mais caro’. E foi o que aconteceu. A licitação da ferrovia Belém-Brasília, para aqueles trezentos quilômetros, pagaram três vezes mais o metro do trilho do que o normal, do que a Vale desembolsava para fazer as suas ferrovias. Esse é um fato que assusta a nós militares, mas que não causa espanto àqueles cuja formação é bem diferente da nossa...” (General-de-Brigada Celso dos Santos Meyer, Tomo 10, pg. 143-144).

“Outro erro foi que não se deu muita importância ao combate à corrupção; não que ela não tivesse sido combatida, o foi, mas não com a profundidade que desejávamos.

Lembro-me de que houve alguns casos em que era o Serviço Nacional de Informações (SNI) que ‘pegava’; era o SNI atrás da corrupção, aqui e acolá. Mas lembro-me também de que o Governo deixava o combate à corrupção principalmente para as polícias, o que não foi bom. O Governo estava preocupado mesmo com a luta armada e a subversão” (Coronel Romeu Antonio Ferreira, Tomo 9, pg. 369).

“Uma das coisas pelas quais nos procuravam muito se relacionava à mineração. Incluía-se aí o cristal de rocha. Naquela época, o único cristal de rocha com propriedade piezo-elétrica, que servia para válvulas osciladoras, era o cristal brasileiro. E esse cristal era exportado para o mundo inteiro como lasca de cristal de cinquenta centavos de dólar o quilo, quando na verdade, saíam blocos de cristal, cujo valor era 10, 15 dólares o quilo. Fizemos levantamento disso, devido a vários informantes que nos procuravam, fazendo denúncias.

Diamantes, nós vimos no mercado de Amsterdã, Londres, Nova Iorque. Eram gemas brasileiras que chegavam lá com valores extraordinários, sem que aqui houvesse qualquer registro. Havia também esmeraldas e outras coisas desse tipo. E existia a célebre draga Xica da Silva, no Rio Jequitinhonha, que consumia a ‘brincadeira’ de seis mil litros de óleo diesel diariamente, com toda aquela estrutura. E nada produzia! Só que nos rejeitos da draga, um grupo de garimpeiros colhia diamantes industriais, esses pequeninos. E não havia produção! Fizemos levantamento junto com o pessoal da Aeronáutica, tendo descoberto algo inacreditável. Não sabíamos bem e até tivemos um pouco de cuidado. O valor que saía sem qualquer registro, mesmo dividido por dois, ainda dava mais do que o orçamento da União.

E não havia qualquer sanção. Conheciam-se as ligações do Costa Cavalcanti, Ministro das Minas e Energia, com o mundo empresarial de mineração, com os grupos todos. Sabíamos desses fatos, mas nada frutificava, não se chegava a um resultado, o que causava muita frustração. Mas, de qualquer maneira, essas coisas foram levantadas” (Coronel José Campedelli, Tomo 15, pg. 295-296).

Obs.

Sobre a corrupção havida durante o governo militar, há um texto de Marcelo Freire, do UOL São Paulo – cfr. https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2015/04/01/conheca-dez-historias-de-corrupcao-durante-a-ditadura-militar.htm.

Delfim Netto, quando foi embaixador em Paris, era conhecido como “Monsieur Dix Pour Cent” (Senhor 10%) – Cfr. https://epge.fgv.br/files/default/13-03.pdf.

F. Maier

 

A batalha da comunicação social foi perdida, assim como a Educação

“Nós não só perdemos a ‘guerra da comunicação social’, como também a da educação. Não soubemos, após ocuparmos o governo por vinte e um anos, orientar o Sistema Educacional Brasileiro e perdemos completamente a guerra da comunicação. Se você analisar, em quase todos os institutos de estudos superiores do Brasil, universidades, faculdades, as facções que dominam são as da esquerda, mesmo, em pequeno número. Esses elementos dominantes continuam praticando o ‘revanchismo’, não dando chances para quem não for do grupo deles, de esquerda” (General-de-Exército Carlos de Meira Mattos, Tomo 1, pg. 236).

“Entendo que não perdemos a ‘batalha da comunicação social’, simplesmente porque nunca nos engajamos nela. Tive um colega – não citarei o nome – que disse assim: ‘A galinha põe o ovo e canta’, mas não aprendemos isso na Escola Militar. Nós realizamos, porque temos que realizar, porque é parte do nosso trabalho, porque é parte da nossa profissão, porque é o nosso idela, nosso amor ao Exército, porque faz parte do nosso amor à Pátria.

Nós não estamos habituados a trabalhar em troca de recompensas. Acredito que a gente pense o seguinte: ‘O meu trabalho, os outros hão de reconhecer.’ Assim pensava o Presidente Castello Branco” (General-de-Divisão Geraldo de Araújo Ferreira Braga, Tomo 2, pg. 111).

“A batalha da comunicação social, perdida pela Revolução, começou logo nos primeiros dias do Movimento. Castello tinha profunda aversão a qualquer idéia de DIP, o Departamento de Imprensa e Propaganda, da ditadura de Getúlio Vargas, ícone de muitos libertários anti-Revolução. Os outros governos da Revolução participavam dessa idéia, embora, com certo acanhamento, tenham divulgado suas realizações. Mas, não cuidaram da conquista da opinião pública. No Governo Médici, a Assessoria de Relações Públicas da Presidência da República, sob a orientação extraordinariamente capaz do então Coronel Octávio Costa, realizou um trabalho que lembra, mas não é igual, aos dos marqueteiros dos nossos dias. Trabalho facilitado pelo alto desempenho da economia e pela imagem de Médici. Os outros presidentes, por excesso de escrúpulo, não atuaram sobre a opinião pública, deixando livre o espaço para as esquerdas, extremamente ativas, dentro e fora do Brasil. Foi um erro fatal para a imagem da Revolução” (Coronel Luís de Alencar Araripe, Tomo 2, pg. 246).

“O Presidente Geisel iniciou a abertura política, uma das metas do seu Governo, mesmo lutando contra algumas resistências, e o fez muito bem. Creio que houve um erro de estratégia, porque a abertura política começou pela imprensa, a primeira coisa foi a distensão da imprensa, realmente o setor mais controlado. (...) Mas a liberação da imprensa, talvez tenha sido um erro estratégico, porque todos os esquerdistas que estavam sem poder atuar, tolhidos pela ação enérgica de repressão, correram para lá, e lá estão até hoje. Assim, a grande mídia atual, que sempre contou com pessoal competente, absorveu muitos desses elementos de esquerda, que continuam a fazer jorrar sangue daquela época. Sofremos, ainda, as consequências disso” (General-de-Exército Domingos Miguel Antonio Gazzineo, Tomo 4, pg. 39).

“Não podemos deixar de reconhecer que houve algumas falhas. Erro mesmo só reconheço um: perdemos a ‘guerra da comunicação social’. Os adversários da Revolução foram muito inteligentes: infiltraram-se na Igreja, nos cursos de comunicação social e na mídia” (General-de-Divisão Francisco Batista Torres de Melo, Tomo 4, pg. 65-66).

 

“Brazil: love it or leave it!”

“Eu vi particularmente o que foi feito no Governo Médici pela Assessoria Especial de Relações Públicas (AERP), sob a direção do Coronel Octávio Costa (Octávio Pereira da Costa), oficial conhecido pela sua criatividade e inteligência. A AERP foi um excelente exemplo para o Brasil de como um setor de comunicação social deve atuar. Lembram do ‘Sugismundo’, aquela campanha contra a sujeira? E do ‘Ame-o ou Deixe-o’, hoje tão execrado? Foram mensagens criadas pela Assessoria Especial de Relações Públicas e que, antes do patrulhamento esquerdista, a sociedade absorvia com naturalidade” (General-de-Brigada Léo Guedes Etchegoyen, Tomo 8, pg. 186-187).

“Se houve algum erro a lamentar, foi o da despreocupação da Revolução com a penetração e o domínio dos comunistas na área da Educação, o que, também, adveio da prioridade dada pela Revolução ao combate aos extremistas voltados para a luta armada, deixando, em consequência, livre de controle os comunistas que atuavam nas mentes, no ensino superior, principalmente na formação dos jornalistas, ou seja, do pessoal de comunicação social como um todo, bem como dos que, mais tarde, estariam na cátedra universitária, em especial, à frente das cadeiras de história e geografia” (Coronel Hamilton Otero Sanches, Tomo 9, pg. 345).

“Mas o grande erro da Revolução foi que os governos militares subestimaram o poder da mídia, o poder do domínio da cultura. Parece que eles pensavam assim: ‘Não vamos gastar dinheiro público com propaganda ou com o que estamos fazendo, pois o que estamos fazendo são fatos e os fatos vão predominar’. Quando sabemos que isso não acontece: fatos nada significam, o que importa é o significado dado a esses fatos. Ainda hoje, existe muito   que não faz nada, mas é considerado lá em cima, apenas porque conta com o poder da mídia. E a Revolução nunca deu valor a isso. Nós ganhamos a batalha contra a guerrilha rural e urbana, mas perdemos a batalha da comunicação social. Essa é a minha opinião” (Coronel Romeu Antonio Ferreira, Tomo 9, pg. 369).

“Perdemos a guerra da informação. A anistia ‘ampla, geral e irrestrita’ só vale para um lado; a ‘constituição cidadã’ vive sendo modificada; o chamado ‘entulho autoritário’ é objeto de escárnio; o ‘revanchismo’ grassa à solta, oriundo do próprio Governo; a mídia, primordialmente ‘revanchista’, reflete a história recontada e não a história verdadeira. É essa história recontada que os estudantes aprendem até mesmo, pasmem, na AMAN, cujos professores do QCO e os contratados tiveram formação universitária com essa distorção. É preciso atentarmos para isso. Perdemos e continuamos perdendo a guerra da informação. Até quando? (General-de-Exército Carlos Tinoco Ribeiro Gomes, Tomo 10, pg. 39).

 

Atos desnecessários de censura

“No campo de minhas atividades específicas de Relações Públicas, Comunicação Social, eu mesmo consegui arrolar erros e falhas que, embora aparentemente pequenos, poderiam ter sido evitados.

Como exemplo, cito a censura em alguns verbetes da Pequena Enciclopédia de Moral e Civismo, do Padre Fernando Bastos de Ávila, publicado pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC). Não havia razão para isso: o trabalho era e é magnífico; verdadeira preciosidade pedagógica, útil para estudantes e professores de nível médio e superior, como, aliás, para todos os cidadãos, além de imparcial e apolítico.

Eu, por exemplo, tenho esse livro e comprei um livro para cada um de meus filhos. Um livro desses é um repositório de informações e definições: O que é governo? O que é Parlamento? É um livro apolítico e de grande importância vindo de um padre inteligentíssimo.

No último trimestre de 1969, a proibição de noticiar os progressos lentos, porém inegáveis, da recuperação do derrame sofrido pelo Presidente Costa e Silva em fins de agosto, reputo uma decisão errada. Ele sofreu o derrame, mas não morreu de derrame; e sim, de enfarto ocorrido depois.

(...)

A ausência total de notícias sob o desenrolar de episódios da guerra revolucionária da Serra do Caparaó foi outro erro. A gente não ouvia falar no Vale da Ribeira, mais tarde em Xambioá, como se eles não existissem. A gente ouvia sussurrar, a gente ouvia boatos, não a verdade, que não saía em lugar nenhum, oficialmente nada” (Coronel Hernani D’Aguiar, Tomo 9, pg. 190).

 

O Coronel Portocarrero enumera vários erros cometidos pelos militares

“O maior e talvez o mais grave erro cometido foi a sua perpetuação por cerca de duas décadas. Os dois últimos governos do período revolucionário acarretaram um desgaste bastante apreciável à Revolução e ao Poder Militar diante da população brasileira em geral, cujos reflexos são sentidos até os nossos dias. Podemos ainda enumerar alguns equívocos, a nosso ver cometidos:

- priorizar o campo econômico em detrimento do psicossocial, despreocupando-se da preparação de lideranças políticas para dar continuidade à Revolução;

- não ter conseguido neutralizar a elite política que criou o caos e foi afastada do governo pela Revolução de 31 de Março de 1964, permitindo que voltassem ao Poder, sabotando-o e buscando a desforra em todas as oportunidades;

- haver perdido a ‘batalha da comunicação social’, por omissão, por falta de aplicação de recursos na atividade ou exagerada confiança, permitindo que uma minoria atuante e ensandecida de brasileiros comunistas, aproveitadores e políticos inescrupulosos montasse uma estrutura que passou a dilacerar a verdade a ponto de transformar terroristas assassinos em heróis nacionais, como estão fazendo com Carlos Marighella, Carlos Lamarca, Luís Carlos Prestes e outros que hoje ocupam o primeiro escalão dos governos federais, estaduais e municipais;

- permitir que a esquerda e os revanchistas derrotados em 1964 e de 1968 a 1973 dominassem a mídia, a ponto de criar uma nova estória do Brasil, inculcando nas mentes dos mais desavisados que o que vem dos governos revolucionários é violência. Toda prisão foi sem motivo, todo preso foi torturado e todo morto assassinado. A Revolução se tornou impopular a partir de 1975 – porque ela não o era, principalmente no Governo Médici – porque não soube se comunicar. O muito que fez, o tanto que reformou, o muito que modernizou, o enorme crescimento que imprimiu ao País, tudo isso a mídia faz questão de ignorar; a lei do silêncio deve imperar sobre tudo de positivo que foi realizado. Atualmente, o inimigo tem feito o máximo esforço para o esvaziamento, o enfraquecimento e o sucateamento das Forças Armadas e, se possível, sua destruição, com o beneplácito do atual Governo [FHC]” (Coronel Luiz Mario Portocarrero de Castro Sá Freire, Tomo 11, pg. 173-174).

 

Atos contra antigos revolucionários

“Já a partir do Governo Geisel, houve uma mudança nas ações do governo revolucionário. Ao mesmo tempo em que o governo praticava atos de força contra o Congresso – senadores biônicos, cassações para modificar as ‘maiorias’ no legislativo -, houve também ações dirigidas nitidamente para afastar oficiais ‘afinados ainda’ com os princípios da Revolução de 31 de Março. Não esquecer que, nesse Governo, o Chefe da Casa Civil era o velho conhecido General Golbery, cujo secretário era Heitor de Aquino.

Ambos aliados dos maiores inimigos do Movimento de 1964, como o comunista-revanchista Elio Gaspari. Veja com quem essa dupla foi se meter! Não precisa acrescentar mais nada! [entrevistador]

Em São Paulo, para agradar setores que não eram revolucionários ou que, então, já estavam trabalhando mesmo contra a Revolução, refiro-me ao Governador de São Paulo Egídio Martins e ao Cardeal Paulo Evaristo Arns, o General Geisel cometeu aquela barbaridade que foi o afastamento do Comando do II Exército, do General Ednardo D’Ávila Melo, um dos melhores homens que já conheci em toda minha vida.

Outra liderança foi afastada com a demissão do Ministro Sylvio Frota, para facilitar a ‘eleição’ do General Figueiredo à Presidência. O livro do General Hugo Abreu mostra perfeitamente essa manobra da dupla Geisel-Golbery.

A partir daí, já não mais se falava em Revolução de 31 de Março.

Então foi fácil – a mídia, totalmente infiltrada, dominou os meios de comunicação e ganhou a batalha da comunicação social (que não houve)” (Brigadeiro-do-Ar Carlos Affonso Dellamora, Tomo 10, pg. 121).

 

Envolvimento das Forças Armadas na repressão

“Comete-se grandes erros ao condenar o Movimento de 1964. A posteriori, é muito fácil. Errou o Movimento de 1964 ao entregar a repressão aos militares. Vargas não fez isso. Entregou a repressão total à polícia, polícia civil e aos ‘cabeças vermelhas’ ali do Morro de Santo Antônio, a famosa Polícia Especial. Fizeram barbaridades, fizeram horrores, mas o Exército de então foi preservado. Cometemos esse erro, envolvendo o Exército na repressão. Criamos os CODI e os DOI. Entregamos a centralização das ações ‘na mão’ do comando unificado, construímos essa unidade de comando. É possível que tivesse de ser feito, mas foi uma lástima que tivesse acontecido. Pagamos até hoje por isso” (General-de-Divisão Octávio Pereira da Costa, Tomo 2, pg. 89-90).

“Durante o período de implantação dos DOI, era reduzido o número dos militares qualificados para trabalhar nesse tipo de organização. E o que aconteceu? Tivemos que pedir a contribuição da Polícia Civil, da Polícia Federal e da Polícia Militar, e isso foi o calcanhar-de-aquiles, porque o pessoal que vinha trabalhar conosco trouxe o mau hábito policial, isto é, bater para conseguir informação. Cabia ao condutor do trabalho não deixar que isso acontecesse, mas nem todos estavam presentes na hora do interrogatório de um preso. Não porque não quisessem e sim porque estavam em outra operação, e aí, nesse caso, ocorria excesso e quando o responsável chegava de volta, o erro já tinha sido cometido. Por isso repito, não posso afirmar que não tenha ocorrido. Deve ter existido. Mas foi episódico, esporádico, talvez até por força da quantidade de pessoas que atuavam dentro de um organismo dessa natureza, para fazer interrogatórios” (Coronel Hahenderson Vieira, Tomo 5, pg. 282).

“Fala-se muito na Operação Bandeirantes (OBAN). Lá havia uma grande quantidade de policiais civis que pertenciam ao Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) paulista. As turmas de operações, de análise, de busca, de carceragem, revezavam-se por vinte e quatro horas. Saía uma turma que estava interrogando, da Marinha, por exemplo, e entrava uma do DOPS; sabe-se que a polícia está calejada, tem a pele curtida pelo trato com a bandidagem. Então, se um delegado daquele se excedia, a OBAN se excedeu!

Havia excessos, mas não das instituições. A partir do momento em que você vai torturar, iguala-se a eles. No fim, não se sabe quem é o bandido e quem é o mocinho” (Tenente-Coronel Hiran Gomes Cavalcanti, Tomo 6, pg. 268).

“Uma guerra suja, sem dúvida, utiliza processos sujos e isso deve servir como ensinamento também. O Getúlio tomou uma decisão histórica nesse campo: ele criou uma polícia e não envolveu diretamente o Exército na repressão interna. O oficial do Exército é formado para uma guerra ética. Para isso ele exercita diariamente os valores do cidadão, do cumprimento do dever, da honra, da dignidade, que são, podemos dizer, o contraponto dessa guerra suja. Então considero que o grande erro dos governos que enfrentaram a subversão foi não terem criado uma polícia especial, desvinculada das Forças Armadas, para conduzir aquela guerra” (General-de-Brigada Carlos Augusto Fernandes dos Santos, Tomo 8, pg. 286).

“O Exército, para não envolver a Força nessas operações, criou esses órgãos específicos [DOI/CODI] para atendê-las. Esses órgãos, sem uma vivência nesse setor, buscaram uma aproximação muito grande com a Polícia. Todas aquelas distorções e arbitrariedades usadas pela Polícia foram absorvidas, porque a Polícia, no dia a dia, vive num ambiente antagônico de violência e logicamente qualquer ser humano se embrutece em face dessa realidade. No entanto, vale lembrar que os criminosos que enfrentamos, no período da luta armada, não tinham nenhum comedimento, porque os terroristas são, por si só, elementos desumanos” (Coronel Amaury Friese Cardoso, Tomo 10, pg. 355).

 

Prisão de mulheres em local inadequado

“Em 1965, no Regimento-Escola de Infantaria estava comandando a Companhia de Carros de Combate Médios. Toda vez que a minha Companhia entrava de guarnição, tinha por norma percorrer todos os postos em que meus soldados estavam dando serviço dentro do Regimento.

Quando chego no xadrez, encontra uma postura inadequada da tropa, risinhos etc. O que havia? Havia cinco mulheres presas que foram encontradas num aparelho, sendo, então, recolhidas lá. E as instalações sanitárias, com aquelas privadas turcas, sem portas, eram evidentemente inadequadas.

A guarda ficava toda ativa, porque de vem em quando aquelas mulheres iam procurar a instalação sanitária para fazer as suas necessidades. Ao presenciar esse fato, fui direto ao comandante do Regimento e disse: ‘Não é possível continuar essa promiscuidade. Os elementos que imputo responsabilidade estão perdendo a seriedade no serviço’. O resultado foi a remoção das tais mulheres para o Batalhão de Comunicações, em Deodoro, onde havia condições de maior privacidade” (Coronel Amaury Friese Cardoso, Tomo 10, pg. 355).

A carne é fraca...

“Nos locais onde servi não me lembro de mulher presa, mas existia na Fortaleza de São João, no Rio, onde fiz bastante contato, pela necessidade de deslocamentos para lá. Não sei o número.

E esse era um outro problema que se criava, seriíssimo. Companheiros, tenentes como eu, comentavam: as presas se despiam na frente dos oficiais, como provocação. O camarada tinha de fazer uma revista, em determinada hora, e quando chegava lá ela estava totalmente nua, justamente para provocar.

Na Fortaleza de São João era proibido um oficial ir sozinho visitar o local onde estavam as mulheres, tinha que ser em dupla, ou três, porque a carne é fraca e ficava a mulher se atirando para cima dele, podia acontecer algo...” (Coronel Antônio Oswaldo de Mello Carneiro Lacerda, Tomo 6, pg. 209).

 

Obs.

Em 1970, quando servi na 13ª. Companhia de Infantaria (atual 30º. BIMtz), em Apucarana, PR, durante certo tempo havia estudantes universitários de Maringá presos no quartel, inclusive algumas mulheres. As instalações, improvisadas, eram adequadas aos presos, separados por sexo. Havia proibição terminante aos soldados de guarda, de falar com os presos.

F. Maier

 

Desprestígio de alguns chefes militares revolucionários autênticos

“Depois da Revolução consumada, no meu ponto de vista, cometeu-se um engano, ao prestigiar os oficiais considerados mais prudentes, mais moderados, em detrimento dos revolucionários autênticos. Vou citar dois exemplos recaídos sobre oficiais cearenses: na Brigada Paraquedista, o Comandante de um Grupo de Artilharia, o Coronel Boaventura, oficial muito competente – foi até secretário na ONU -, militar de grande valor intelectual e revolucionário atuante; no Regimento Santos Dumont, o Coronel José Aragão Cavalcante, também de grande valor profissional, revolucionário autêntico, desde os idos de 1954. Pois bem, esses oficiais, que teriam mais tarde, papel destacado na Revolução, ainda antes do 31 de março, haviam recebido ordem para sequestrar o Sr. Carlos Lacerda, Governador do Rio de Janeiro [na realidade, do Estado da Guanabara]. Ambos se recusaram a cumpri-la. Se o Lacerda tivesse sido sequestrado, será que a Revolução ganharia a força que ganhou? Lacerda foi o maior líder civil da Revolução, o único que tinha um discurso, uma capacidade oratória muito convincente. Por sua brilhante inteligência, foi um político terrível, um aliado poderosíssimo da Revolução. Aqueles dois oficiais com participação decisiva na Revolução, logo em seguida, foram promovidos ao posto de Coronel, por merecimento. Quando entraram no quadro de acesso para General, entretanto, começaram a ser ultrapassados, sem qualquer justificativa mais plausível” (Coronel José Antônio Bayma Kerth, Tomo 4, pg. 108-109).

“Infelizmente, o Ato Institucional no. 5 (AI-5) me afastou definitivamente do processo revolucionário. Entendo que ele alijou as lideranças inteligentes do País. Eu estava muito envolvido com os Governadores Carlos Lacerda e Magalhães Pinto, e buscávamos insistentemente uma saída civil, para sucessor do General Costa e Silva, alguém que tivesse uma experiência marcante como dirigente de um Estado. Por isso, a meu juízo, o AI-5 foi a grande quartelada do Poder Militar do Movimento de 1964. Além de Carlos Lacerda, esvaziou-se um grupo muito ativo, ‘o grupo dos coronéis’, integrado, entre outros, pelo Coronel Francisco Boaventura Cavalcante, que frequentemente reunia seus integrantes com o objetivo de oferecer, procurar, propiciar um novo rumo, uma mudança política para o nosso País” (Tentente-Coronel Artur de Freitas Torres de Melo, Tomo 12, pg. 211).

“O General Mourão pouco ou nada tinha a perder. Ao descer das ‘Alterosas’, foi reunindo todas as iras, desconfianças, antipatias e ressentimentos contra o Jango, represados desde 1961. Tratava-se da hora da revanche que foi catalisada na operação Mourão. E um detalhe importante: quando ele colocou o pé dentro do Gabinete do Costa e Silva, já havia sido destituído da prerrogativa de líder da Revolução a que fora alçado pela sua audácia; o haviam congelado, e ele sofreu muito a partir dali. Ele, que tinha feito a guerra, sentiu que a tinha perdido, antes de chegar ao Gabinete do Costa e Silva, onde conheceu os novos donos da situação” (Coronel Celso Chagas da Costa, Tomo 13, pg. 300).

 

“Cofre das Vaidades” e a “Política da Chaleira”, a política de Golbery, o Bruxinho que Era Bom...

“Mas terá sido, certamente, a ligação íntima com o ‘Turco’ [colunista social Ibrahim Sued] que terá dado a Élio Gaspari a ferramenta com que aprendeu a abrir o ‘cofre das vaidades’ de certas figuras da ‘ditadura’ – como Ernesto Geisel, Golbery do Couto e Silva e Heitor de Aquino Ferreira – de onde saíram os papéis de arquivos oficiais – transformados leviana e criminosamente em arquivos pessoais – e os ‘diários’ e as fitas, secretamente gravadas, com que montou sua mais recente e longeva obra, cujos primeiros volumes, logo que lançados, com impressionante publicidade, já despontavam na lista dos mais vendidos, mostrando que Sirkis tinha razão, mesmo que o apontado fascínio seja o resultado de longas e trabalhosas compilações – via computador – do que muitos outros já escreveram, com uma conveniente e capciosa seletividade de fatos e fontes, ao bel-prazer do autor, de declarações com o velho ‘cheiro do Galeão’ e de um texto bem escrito, mas recheado de equívocos, erros grosseiros, meias-verdades e mentiras completas, próprias ou encampadas. Falhas que começam a ser apontadas publicamente, porque ainda estão vivas muitas das testemunhas dos fatos e que agora se dispõem a corrigi-lo e a contar o que sabem” (General-de-Divisão Raymundo Maximiano Negrão Torres, Tomo 14, pg. 51-52).

“Não concordo com isso, a tal ‘política da chaleira’. Então se tem água quente numa chaleira é bom que tenha uma pontinha aberta para escoar, senão explode. Mas não foi bem isso, porque a luta armada, conduzida pelos extremistas de esquerda, começou antes da Revolução de 1964. O ‘grupo dos onze’ do Brizola falava em matar os prisioneiros. Nas ‘Ligas Camponesas’, defendiam abertamente a luta armada. Antes da Revolução, vários militantes do então Partido Comunista do Brasil (PC do B) foram fazer curso na China para implantar a guerrilha.

Tivemos dezenas e dezenas de bombas jogadas pelos comunistas antes do AI-5. Mas eles dizem que a luta armada foi desencadeada depois do AI-5, após dezembro de 1968. Mentira! Porque a bomba de Guararapes foi em julho de 1966. Uma série de mortes, que lembramos bem até hoje, ocorreram antes. Mais uma mentira que eles tentam transformar em verdade pela repetição. Ninguém de bom senso, que viveu na época, concorda com isso. É mais uma empulhação desses críticos embusteiros” (Coronel Romeu Antonio Ferreira, Tomo 9, pg. 371).

Obs.

Para conhecer a ligação estreita do quarteto fantástico Geisel-Golbery-Aquino-Gaspari, leia meu texto “Elio Gaspari e Golbery - o Bruxinho Que Era Bom”, uma analogia do clássico de Maria Clara Machado: https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/04/elio-gaspari-e-golbery-o-bruxinho-que.html

F. Maier

 

O Pacote de Abril, do Presidente Geisel, que deu poder exorbitante aos parlamentares das regiões Norte e Nordeste

“Jamais deveríamos ter aceitado o tardio ‘pacote’ do Geisel. O Nordeste tinha que ser tratado, politicamente, como o restante do País, pois todos os prejuízos que viessem, teriam sido menores do que esta fórmula esdrúxula de conduzir a política nacional, que até hoje nos prejudica. Há mais de quinze anos falei que as bancadas não poderiam ser constituídas como o são. Se vocês procurarem nos anais eternos da Assembleia Legislativa, lá está o meu pronunciamento veemente contrário ao ‘pacote de abril’ de 1977.

Descuido ou intencionalmente, a bancada de um Estado como Sergipe – eu o cito por ser o menor da Federação – se antepõe à do Rio Grande do Sul. Os Estados do Norte e do Nordeste, menos populosos, garantiram boa representação no Congresso. E até hoje somos governados de uma maneira completamente errada. Não podemos continuar com esse Congresso artificial. As bancadas têm que ser proporcionais à população. Ninguém tem coragem de mexer. Basta contar o número de deputados de cada região. E onde está o maior PIB? E onde ferve a política? Aqui! E lá? É aquela política de sempre, capitaneada por líderes como o Antonio Carlos Magalhães e Jáder Barbalho, que estão brigando entre si” (Coronel Pedro Américo Leal, Tomo 13, pg. 249-250).

Obs.

Hoje, principalmente o Nordeste, é governado por caciques do PT e do PC do B, que fazem ferrenha oposição ao Governo Bolsonaro, tendo como curral eleitoral os milhões de dependentes do Bolsa Família.

F. Maier

 

A ênfase deveria ter sido a Educação da criança, o Ensino Fundamental

“Não nos engajamos na comunicação social e também não o fizemos, como devíamos, na Educação. A Educação é tudo. Eu era menino e o meu pai já dizia: ‘O problema número um do Brasil é a Educação.’ Inclusive, nesse período dos presidentes militares, fomos cuidar do Mobral, o adulto não tem paciência e fomos cuidar do adulto deixando as crianças, que têm curiosidade e aprendem. A minha empregada frequentou o Mobral quatro anos, gostava da escola, mas não aprendeu nada, e os que aprenderam, depois desaprenderam, porque não podiam comprar livros ou jornais e se tornaram analfabetos novamente. Penso que a ênfase deveria ter sido a criança, o ensino fundamental, o qual, enquanto não for levado a sério, não deslancharemos. No sentido lato da palavra, não é só ensinar a ler e a escrever não, é a educação integral. Quando a criança com dois anos bate o pezinho no chão, já deve ganhar uma palmada, a educação é fundamental, porque quem tem Educação cuida também da saúde, cuida de todas as outras coisas, a Educação é tudo.

Outra coisa, deixamos os comunistas assumirem as universidades. A juventude está sendo preparada por professores, na sua grande maioria, esquerdistas, comunistas, todos internacionalistas, o que é um desastre” (General-de-Brigada Augusto Cid de Camargo Osório, Tomo 14, pg. 128).

 

Faltou a Revolução de 31 de Março reformar o Judiciário

“E temos algo impressionante no sistema de governo, o Brasil é uma República presidencialista com um Judiciário ‘monárquico’. E o Poder Judiciário contraria o Artigo 1º. da Constituição, que diz que ‘todo poder emana do povo e em seu nome é exercido’. Agora, não existe no panorama político nenhum momento em que o Poder Judiciário emanou do povo. O Poder Judiciário assumiu o poder do imperador com a Proclamação da República e não largou mais.

As revoluções que tivemos foram contra o Executivo, não foram revoluções contra o Judiciário. Então, eles usurparam, diria isso, o poder do imperador e o mantiveram, pois não sofreram revoluções. Dessa forma, temos o poder monárquico do Judiciário, o poder presidencialista republicano do Executivo e do Legislativo em busca de seus próprios interesses. Isso não nos leva a lugar algum porque são forças totalmente heterogêneas e não harmônicas“ (Doutor Antônio José Ribas Paiva, Tomo 7, pg. 334).

“Não reformaram a Justiça, não fizeram uma limpeza mais profunda, como deveria ter sido feita. Lembro-me, certa ocasião, de um dos meus companheiros de turma que possuía um calhamaço de provas sobre elementos que deveriam ser cassados, afirmava ele, com tudo comprovado e que não o foram, porque decidiram não prosseguir.

Se a decisão foi sábia ou não, temos que analisar, porque realmente deixou-se de fazer ‘uma limpa’ em certos locais. Num desses locais em que estive, um dos chefes da agência do Serviço Nacional de Informações (SNI) estava fazendo um apanhado sobre um determinado indivíduo e me mostrou: ‘estou reunindo estas informações e é um negócio que assusta’, porque, naquela época, o cidadão já estava metido com drogas, lenocínio, terras, tudo que podia, ações próprias do crime organizado. Qual não foi minha surpresa, quando ao voltar, uns poucos anos depois, uns dois ou três anos, o tal indivíduo era o Governador do Estado. E foi indicado para a função. Aí você vê como as coisas não conjugam, porque sempre ocorre o problema da perseguição política. Torna-se difícil, realmente, porque o adversário político utiliza todas as armas” (General-de-Divisão Orlando Morgado, Tomo 5, pg. 88).

“A Revolução considerou o Judiciário intocável – sem dúvida, um outro erro. Nunca quis entrar, por exemplo, numa reforma judicial cartorária. Temos esses feudos nos cartórios, essa justiça lenta que a Revolução não quis modificar” (Coronel Romeu Antonio Ferreira, Tomo 9. Pg. 369).

“O Poder Judiciário permaneceu ileso: ninguém tocou na Justiça, que, a meu ver, deveria ter passado por uma reforma radical. Por isso, insisto, não fizemos uma Revolução, pois não mudamos os costumes políticos, não mudamos a Justiça, Poder que estava e continuou arcaico, sem servir à Nação” (Tenente-Coronel Artur de Freitas Torres de Melo, Tomo 12, pg. 209).

 

Dependência do petróleo externo

“O único problema que tivemos foi que não atacamos a questão do petróleo, como devíamos, e sem petróleo não há país que viva. Ficamos dependendo do petróleo barato e quando o preço foi lá em cima, passamos a pagar uma conta altíssima. Foi a forma que encontraram no exterior para impedir a nossa evolução. Lembro de uma notícia de jornal dizendo que nós pagávamos 900 milhões de dólares por ano com a importação do petróleo e, dois anos depois, passamos a pagar 12 bilhões. Não há economia que resista” (Coronel João Franco Pontes Filho, Tomo 11, pg. 136).

 

Atraso do Pró-Álcool; Reserva de Mercado de Informática

“O desenvolvimento foi extraordinário, e talvez não tenha sido melhor, porque o próprio General Geisel, com aquele espírito dele, não digo nacionalista, mas corporativista, atrasou muito algumas coisas; estou numa área, hoje ligada ao álcool como combustível, que atrasou demais, porque não se quis mexer como se devia, para não se mexer com a estrutura da Petrobras, à qual ele era ligado por uma série de motivos.

Então, são problemas... Essa reserva que se fez da informática, por exemplo, atrasou muito o nosso desenvolvimento” (Coronel Carlos Alberto Guedes, Tomo 9, pg. 267).

Obs.

A Reserva de Mercado de Informática foi praticamente esquecida pelos entrevistadores. Atrasou em pelo menos 20 anos o desenvolvimento tecnológico brasileiro.

Os produtos oferecidos, na época, especialmente da Itautec, eram caixotes embutidos por peças pirateadas dos “tigres asiáticos”, inclusive seu sistema operacional, com preços exorbitantes e que chegavam nas prateleiras já defasados tecnologicamente em relação aos produtos externos.

No texto “Nacionalismo e Esquerdismo nas Forças Armadas”, de minha autoria link https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/04/nacionalismo-e-esquerdismo-nas-forcas.html, consta:

“Em 1978, o Governo Geisel criou a Secretaria Especial de Informática (SEI), que instituiu a política de reserva de informática no País, que tinha por objetivo inventar a roda, ou seja, o computador, que seria genuinamente nacional. Propostas de instalações de fábricas da IBM e da Hewlett Packard no Brasil foram rejeitadas; não foi sequer permitida a produção desses equipamentos no Brasil, que seriam destinados exclusivamente para a exportação. Agradecem, até hoje, o Japão, a Coréia do Sul e a China, que estão pelo menos a duas décadas na nossa frente - os três países, em termos de produção de hardware e software; os dois primeiros, em termos de inclusão digital de sua população. [Hoje, a China supera os outros dois, exponencialmente.]

A xenofobia informática não era exclusiva dos militares retrógrados: ‘personalidades e associações profissionais e culturais de todo o país formavam um grande bloco com os cidadãos fardados, imitando a campanha do petróleo dos anos 50’ (PAIM, 2002: 81).

Os talibãs da SEI ‘declararam que o 'Sisne 3.000', da brasileira Scopus, era funcionalmente equivalente ao DOS, da Microsoft. E o programa dito brasileiro era mera cópia do DOS, cópia autorizada e legalizada pela SEI’ (PAIM, 2002: 86). O industrial Ricardo Semler ‘descrevia a indústria de informática como sendo um CCP - misto de cartório, contrabando e pirataria (PAIM, 2002: 86).”

F. Maier

 

Tortura, a palavra mágica

“Quando o Presidente Castello tomou conhecimento de denúncias, de que estaria havendo tortura no Nordeste, mandou o General Geisel, imediatamente, ir até o local. De lá, foi a Fernando de Noronha. Hoje, tenho o testemunho de uma pessoa que foi presa na ocasião, um líder sindical petroleiro que mais tarde elegeu-se Deputado Federal, o Mário Lima, da Bahia. Era engenheiro da Petrobras, quando eu ocupava o cargo de superintendente da Empresa e me contou como o General Geisel foi de absoluta correção. Encontrava-se preso lá o Arraes. Penso que posso dizer isso, Mário Lima não vai me desmentir aqui: o Arraes chorava. Deu testemunho em relação a um Costa e Silva, coronel, que era o comandante de Fernando de Noronha, e que os tratou com absoluta correção e dignidade. Mário, por ter dado esse depoimento, foi criticado pelos comunistas, porque não deveria tê-lo feito. O ator Mário Lago, certa vez escreveu assim: ‘o comunista nunca diz que foi bem tratado, diz que foi torturado’, para criar de pronto um problema” (Senador Jarbas Gonçalves Passarinho, Tomo 5, pg. 67-68).

 “A tortura veio aparecer mais tarde. Veja que o Frota era um general de posição definida, um home de direita; o pensamento dele era nitidamente de direita. Dizia-se sobre o Frota, jocosamente, que, se o camarada chegasse com uma camisa ou com a gravata vermelha, ele já o colocava no Partido Comunista, direto, tal sua rigidez; mas não aceitava tortura, também. Não somente isso. Inclusive dava incertas nas prisões do I Exército. O que ‘eles’ fizeram? Uma casa em Petrópolis. Nessa casa, em Petrópolis, havia violências físicas. E um tal de Jarbas Passarinho foi citado numa das sessões de tortura feitas com uma presa chamada Inês Etiene Romeu, que agora deu testemunho, inclusive por escrito. Ela ouvia um camarada dizer: ‘Olha, primeiro vocês todos que pegaram em arma serão mortos; segundo, todos os quadros do Partido Comunista, porque são comunistas e devem ser mortos; terceiro, esses liberais que estão infiltrados entre nós, como esse Ministro da Educação, o Jarbas Passarinho, que é uma melancia, verde por fora mas é vermelho por dentro.’ Eu seria o próximo. E ainda me perguntam sobre coesão” (Jarbas Gonçalves Passarinho, Tomo 5, pg. 69-70).

“No DOI de São Paulo, passaram 2.541 subversivos presos. Todos eles prestaram as suas declarações preliminares no DOI. Era um interrogatório comum. Quando já estava pronto para ir embora do DOI, a fim de ser conduzido ao presídio, colocávamos o preso numa sala, dávamos para ele uma folha de papel almaço, uma caneta e dizíamos: ‘Bem, agora você vai escrever tudo sobre a sua vida de subversão. Estão aqui o papel e o lápis’.

Fechávamos a porta, ele ficava lá, sozinho e, de próprio punho, fazia o depoimento. Onde estão esses depoimentos originais? Estão todos no Superior Tribunal Militar, no processo de cada um desses presos. Qualquer pessoa bem-intencionada que leia os depoimentos, facilmente vai chegar à conclusão de que aqueles documentos nunca foram redigidos enquanto o autor estivesse sendo torturado, ou sob pressão. A maneira como a pessoa descreve, como escreve; a letra, a letra firme, a maneira como aborda as questões. Qualquer um, mesmo que não seja especialista, tenho certeza, chegará a essa conclusão.

Depois, ele ia para o inquérito policial, no Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), e confirmava o que havia dito no DOI. Posteriormente, era levado para a Auditoria. Na Auditoria, negava tudo. Negava e, se lembrado do que declarara antes, no DOI, alegava que falava sob tortura.

E por que faziam isso? Bom, primeiro, porque na Auditoria procuravam negar, é claro, para ver se a pena que iriam receber não seria tão grande. Segundo, tinham que justificar perante a esquerda, perante seus companheiros porque, no interrogatório do DOI, haviam entregado a organização, denunciado seus companheiros, confessado a localização dos seus aparelhos. E, terceiro, porque tinham certeza de que jamais seriam reconhecidos.

Não conseguimos nunca testemunhas oculares. Assaltavam bancos, os bancários viam, sabiam quem eram, mas, quando chamados, não os reconheciam, não sabiam de nada, por quê? Porque os primeiros bancários que fizeram o reconhecimento foram assassinados; ameaçados, sabiam que todos aqueles que reconhecessem os assaltantes teriam o mesmo destino. Nunca mais ninguém neste País quis depor contra os terroristas.

Temos também o caso da atriz e ex-Deputada Bete Mendes, que falou tudo no DOI, prestou depoimento na Polícia, também o fez na Auditoria e, 14 anos depois, veio a público dizer que tinha sido torturada.

(...)

Bom, como conclusão a respeito da tortura, posso dizer que a mídia explora a tortura com estardalhado e sensacionalismo. Os ex-terroristas procuram justificar o que confessaram, dizendo que falavam sob tortura. Hoje o curriculum vitae de uma pessoa é bastante valorizado quando afirma que foi torturada na época da ditadura, como dizem. Excessos condenáveis devem ter sido cometidos pela repressão, mas foram muito poucos, uma exceção” (Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, Tomo 5, pg. 228-232).

“Quanto à tortura, irmã gêmea da censura, no esforço de muitos para denegrir o prestígio das Forças Armadas, por meio de patrulhamento explícito, eu nunca vi. Fui preso em 1964 pelo Governo João Goulart, passei quinze dias recolhido à Fortaleza de São João, sem direito a sair de uma área limitada ao refeitório e a um apartamento. Segundo o noticiário da esquerda, também eu estaria sendo torturado, porque durante aquele período não pude receber qualquer tipo de visita familiar. As únicas visitas permitidas eram de militares fardados” (Tenente-Coronel Artur de Freitas Torres de Melo, Tomo 12, pg. 212).

 

A esposa do Major Ustra passeava no pátio do DOI com as presas. Que tortura era essa?

“Mais tarde vou ter a oportunidade de me referir a esse tipo de problema: da quebra dos vínculos da pessoa com a família. Milton Barbosa, o sargento [da Marinha] que caiu na clandestinidade, utilizou como um dos lugares para exercícios de tiro de arma portátil, a praia de Itaipuaçu, que naquela época era muito deserta. Houve um tiroteio entre os seus quadros e o pessoal do DOI de São Paulo, do II Exército, e ele faleceu em decorrência desse tiroteio e aquela moça, Linda Taiá, que era professora primária, foi atingida por um disparo na altura do frontal, perdendo uma parte do osso. Ficou muito tempo presa conosco no DOI em São Paulo, depois se recuperou.

Inclusive quando foi presa, estava grávida e teve a criança lá dentro do DOI. Isso veio a desmentir os maus-tratos que muitos diziam que praticávamos contra as pessoas presas. Até a própria esposa do nosso comandante, do então Major Carlos Alberto Brilhante Ustra [Joseita Ustra], ia lá dentro do xadrez, muitas vezes, para conversar com as moças que estavam presas e passeava com elas no pátio. Então, tinha todo esse tom de humanidade e que, infelizmente, os meios de divulgação do País jamais propalaram nada dessa natureza. Tínhamos que ter divulgado toda essa verdade, inclusive do DOI, que não perdeu o seu lado humano, como estou relatando, apesar de ter enfrentado os mais perigosos terroristas, que foram os que atuaram em São Paulo, durante a Operação Bandeirante (OBAN)” (Tenente-Coronel Orestes Raphael Rocha Cavalcanti, Tomo 11, pg. 289).

“Merecem registro os episódios envolvendo um oficial da Polícia Militar [Tenente José Ferreira de Almeida], um jornalista [Vladimir Herzog] e um metalúrgico [Manoel Fiel Filho], detidos no DOI-CODI para averiguações de envolvimento em atividades atentatórias ao regime, que foram encontrados mortos naquela dependência. Particularmente a morte do oficial da Polícia Militar mereceu de nossa parte e do então Comandante da Polícia Militar, questionamento junto ao Chefe do DOI-CODI pela maneira como se procedia, detendo elementos da Polícia Militar supostamente envolvidos em atividades subversivas sem o nosso conhecimento.

Sempre aceitamos e colaboramos com o DOI-CODI, reconhecendo a difícil tarefa de combater o terrorismo, que impunha o exercício de certas normas garantidoras da surpresa necessária a esse tipo de combate. À época citada, entretanto, o terrorismo já fora eliminado. Mantinham atividades subversivas grupos de menor expressão, como seria o caso da célula comunista na Polícia Militar” (Coronel Antonio Erasmo Dias, Tomo 7, pg. 142).

“Nas vésperas de eu passar o comando da Cia Cmdo da 2ª. Região Militar, um oficial, Tenente Rodrigues, meu subcomandante, foi fazer uma ‘paquera’ na Rua São João.

Quando ele estava paquerando, um carro veio e deu uma batidinha no carro dele, pela retaguarda, e aí começou uma briga. Ele, tenente subcomandante, talvez entusiasmado, ligou para o corpo da guarda da Companhia e acionou uma patrulha para ir lá. Essa patrulha foi, pegou o rapaz que tinha batido no carro dele e fizeram algumas boçalidades com ele.

Não tinham que ter prendido, não tinham que ter envolvido a tropa. Ele, para castigar, por causa da batida, cometeu umas barbaridades, que nem vêm ao caso aqui, e foi embora, e os sargentos e os soldados acabaram torturando esse rapaz, sem razão.

(...) Então, o que é que se fez? Prendeu-se o tenente e se fez um inquérito. Para simplificar: os sargentos e os cabos foram punidos e o tenente foi preso, condenado, e acabou se suicidando, porque a pressão contra ele foi forte. Todos os seus superiores ficaram indignados com aquele procedimento” (Coronel Carlos Alberto Guedes, Tomo 9, pg. 275).

Obs.

Hoje, a Rede Globo oferece o Troféu Mário Lago a personalidades do meio cultural e artístico.

Mário Lago, ator, compositor, advogado, comunista, orientava os terroristas e “militantes de esquerda” para dizer que foram torturados, quando saíssem da cadeia, mesmo que isso fosse mentira.

Cfr. depoimento de Miriam Macedo, “A verdade: eu menti” - https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/05/a-verdade-eu-menti-por-miriam-macedo.html.

F. Maier

 

A desinformação do livro “Brasil: Nunca Mais”, da Arquidiocese de São Paulo

“Tempos atrás fui a um sebo e curiosamente estavam lá os livros ‘Governo Castello Branco’ – que comprei – e o ‘Brasil Nunca Mais’, do Cardeal de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, livro que eu não conhecia. Este contém um depoimento de dois camaradas do MR-8 presos aqui no Paraná, casos que tratei nos meus livros, em que eles falsificam tudo de uma maneira vergonhosa. Inclusive um camarada declarou que fora torturado mesmo ferido. Ora, o terrorista tentou sacar uma arma e foi baleado; salvou-se por milagre; nós levamos o cidadão para o Hospital Militar e ele ficou baixado na enfermaria dos presos; depois disse que fora torturado no DOPS. Sei lá; se ele foi torturado foi em outro lugar, depois que saiu de nossa jurisdição. Mas ser torturado depois de tanto tempo? Para quê?

O outro era um camarada com mulher e filhos, que alugou uma casa no centro de Curitiba, na Rua Alferes Poli. O nosso pessoal os descobriu – era um dos chefes do MR-8 (codinome Fyatt) – montou uma situação para prendê-lo quando voltasse de uma viagem que fazia. Por medida de segurança, tiramos a esposa e os filhos da casa, pois poderia haver tiroteio. O Cardeal Dom Arns diz no livro que prenderam a esposa e os filhos para obrigá-lo a confessar. É mentira absoluta, deslavada; eu estava aqui, participei, pois era o E2. No apartamento daquele outro que disse ter sido torturado mesmo ferido, havia uma portuguesa e não sabíamos o que fazer com ela, porque no início estávamos inteiramente despreparados, então a colocamos em um quartinho lá no quarto andar do hospital militar. Ela ficou presa até seguir destino. Fui visitá-la. Tive vontade de lhe dar um bofete na cara porque ela me xingou: Assassino! Pois acreditava que tínhamos matado o rapaz, seu amante. Hoje, com certeza, ela deve contar que foi estuprada. Então, a estratégia era sempre alegar tortura nos ‘porões’ ” (General-de-Divisão Raymundo Maximiano Negrão Torres, Tomo 8, pg. 101-102).

Obs.

O livro “Brasil: Nunca Mais”, lançado pela Arquidiocese de São Paulo em 1985, tem como fonte principal processos surrupiados do Superior Tribunal Militar (STM), onde consta o depoimento de réus que dizem ter sido torturados e onde há uma bem-informada relação de grupos terroristas que aterrorizaram o Brasil nas décadas de 1960 e 1970, assim como as várias dissidências que ocorreram no período. Mas não é citado um único crime dos terroristas e investigados  que foram processados pelo STM, como assassinatos, “justiçamentos” (assassinato de kamaradas), roubos a bancos, a casas d’armas, a quartéis, a supermercados e a pedreiras (para obter explosivos), como se os militares tivessem covardemente matado e torturado inocentes anjinhos sem crime nenhum nas costas, pelo simples prazer em matar e torturar.

É um panfleto escandaloso, desenvolvido sob a ótica comunista, de modo a ferir mortalmente as Forças de Segurança do período pós-1964. É a aplicação radical da logomaquia, que criou palavras e expressões como “burguês”, “elites”, “democracia”, “inimigo do povo”, “tortura” e mais recentemente, “antifascista” (Antifa), “me too”, “black lives matter”, “manifestações antidemocráticas”, com o intuito de promover a divisão da sociedade, e ridicularizar e destruir os adversários políticos.

O panfleto de Arns afirma, p. ex., que havia 2.181 grupos das Ligas Camponesas, espalhadas no Brasil por 20 Estados. No entanto, não informa quantos canaviais foram queimados pelos terroristas, nem quantas usinas de cana-de-açúcar foram destruídas, nem quantos fazendeiros e posseiros foram mortos.

Como resposta ao panfleto do “caríssimo amigo de Fidel Castro” - Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, em 1986 o então 2º. Sargento do Exército, Marco Pollo Giordani, lançou “Brasil, Sempre!”, disponível em http://www.docvirt.com/docreader.net/DocReader.aspx?bib=bibliotbnm&pagfis=752.

“A Logomaquia - ‘batalha com tiros de palavras’ - começa nas invectivas. Espontaneamente o homem procura exprimir a sua raiva por vocábulos que tendem a diminuir, ridicularizar e tornar ainda mais odioso o inimigo. Note-se que o insulto é pior se é dirigido a uma coletividade, raça ou família, em vez de a um indivíduo. (...) Certas expressões logomáquicas foram construídas com muita felicidade. ‘Inimigo do povo’, por exemplo, durante a Revolução Francesa. Tratar alguém como ‘inimigo do povo’ era apelar à solidariedade de todo o povo contra um único homem, era assim transformar este homem no bode expiratório que todos os outros estavam dispostos a aniquilar. ‘Burguês’ também não está mal, porque já era uma palavra desprezível no vocabulário aristocrático, e, consequentemente, ninguém queria ser ‘burguês’, visto de cima ou de baixo. (...) Jean Ferré gosta de sublinhar o golpe de magia logomáquico realizado com as palavras ‘aristocrata’ e ‘democrata’, que seriam antônimos rigorosamente simétricos, um significando ‘partidário do governo das elites’ e o outro ‘partidário do governo do povo’. Quando ‘aristocrata’ passou a significar ‘nobre’, ‘democrata’ ficou sem antônimo, o que é prático para os democratas, mas desastroso para um pensamento político privado da indispensável dialética dos contrários. Para opor a democracia só se encontrou o conceito de ditadura, o que é tão mais lamentável e desconcertante quanto as ditaduras, de César a Hitler, são quase sempre de origem e mesmo de vocação democrática, isto é, popular. Portanto uma confusão talvez não tão inocente” (VOLKOFF, 125-6).

F. Maier

 

Excessiva estatização

“Nas Forças Armadas sempre preponderou um espírito nacionalista, no bom sentido da palavra, de grande apego e amor aos valores nacionais e com o intuito de defendê-lo contra os valores extrínsecos à Pátria. Mas, infelizmente, parte dos militares nacionalistas foi influenciada pelas ideias totalitárias do dirigismo econômico e se tornaram favoráveis a regimes estatizantes. Para esses também mandamos os livros. Reconhecíamos neles pessoas mal-informadas e não mal-intencionadas como eram os jornalistas, escritores e políticos da esquerda. Distribuímos com todo cuidado esses livros favoráveis à livre iniciativa, para um melhor esclarecimento.

O General Ernesto Geisel foi o expoente desse tipo de pensamento nacionalista militar, no Brasil. Para se ter uma ideia, quando seu Governo terminou, mais de 50% da economia brasileira estava nas mãos do Estado. Lembro-me de um professor de inglês, que esteve aqui no Brasil, dizer: ‘O estado atual da economia do Brasil é o sonho dos partidos socialistas da Europa daqui a trinta anos.’ Esse era o tempo necessário que eles imaginavam para poderem estatizar a economia e chegar à situação do Governo do General Geisel, que lveou quatro anos para fazê-lo” (Doutor Adolpho Lindenberg, Tomo 7, pg. 301).

 

Desengajamento: hora de “desmontar do tigre”

“Já se dava uma desmobilização grande, quando aconteceu a primeira ocorrência, em julho de 1966, o atentado no aeroporto de Guararapes, em Recife, tentando vitimar o candidato Costa e Silva. Morreram um almirante e um jornalista, além da existência de vários feridos graves, entre eles, o Coronel Sylvio, mais tarde General, que ficou com o corpo cheio de estilhaços.

Por que eles nunca se preocuparam com a atentado de Guararapes como fazem em relação ao Riocentro? Isso não demonstra ‘revanchismo’ [entrevistador]?

Pois sabe o porquê? Não houve punição. O inquérito conduzido pela Aeronáutica – o atentado ocorreu dentro do aeroporto – foi muito malfeito. Apesar disso, na prática, soube-se quem foi o responsável. O terrorista errou ao confiar demais no operário bombeiro que fez o dispositivo: um cano de duas polegadas, para encher de explosivo. Visitou-o três vezes. Quando aconteceu a explosão, e os jornais começaram a noticiar, o bombeiro apresentou-se na Aeronáutica para confessar o que sabia, e apontou o engenheiro Ricardo Zaratinni.

Hoje, o pessoal de esquerda tenta inocentar o Zaratinni, mas foi ele” (General-de-Brigada Hélio Ibiapina Lima, Tomo 2, pg. 182).

“As manchetes dos jornais de 15 de dezembro de 1970 reproduziam frases do discurso do Chefe do Estado-Maior do Exército, General Alfredo Souto Malan, preconizando o que chamou de ‘o desengajamento controlado das Forças Armadas de outras atividades que não fossem as de soldado, e o advento de um Brasil democrático, forte e livre’. Estávamos no segundo ano do Governo Médici, nos, agora, cognominados, por importação do francês, ‘anos de chumbo’.

(...)

A idéia do ‘desengajamento controlado foi mais tarde reproduzida por Golbery, com o nome de ‘distensão, lenta e segura’. É a mesma coisa. Tratava-se de desmontar do tigre, sem ser por ele devorado.

Ullysses Guimarães, em 1964, fora co-autor de um projeto de Ato Institucional que previa cassações por 15, em lugar de 10 anos. Em 1970, na oposição, líder do MDB, exasperava-se: ‘Enquanto houver cachaça, samba, carnaval, mulata e campeonato de futebol, não haverá rebelião no Brasil. O Corinthians segura mais o povo do que a Lei de Segurança Nacional’. Existe mesmo um desabafo do ex-Capitão Lamarca, terrorista em fuga para a Bahia: ‘Há três anos o Brasil está crescendo a 10%, ao ano, e a esquerda foi a última a saber’. Tudo isso está registrado em livro do brasilianista Thomas Skidmore [BRASIL – De Castello a Tancredo, Editora Paz e Terra, 1988 – Traduzido do original em inglês The Politics of Military Rule in Brazil – 1964-1985].

Quanto ao cidadão comum, perguntava ele: ‘Se está dando certo, para que mudar?’; e não se aceitava a resposta de ser quando tudo está dando certo é que é a hora de mudar. Quando a situação está ruim, não se pode. Naquele momento, era hora de ‘desmontar do tigre’. Se deixar o tigre com fome, ele nos devora. Aliás, a demora em desmontar vai-nos fazer perder bons nacos de carne abocanhados pelas jaguatiricas revanchistas.

(...)

Médici, em depoimento prestado a um jornalista, pouco antes de falecer, disse que não teria sido viável ser sucedido por um civil, porque ainda havia a subversão. Realmente, a guerrilha de Xambioá não havia sido debelada. Embora em História seja difícil falar-se em hipóteses, é possível que a luta contra as esquerdas armadas pudesse ter sido ultimada sob um presidente civil, com forças policiais, desonerando o Exército desse ônus. Afinal, a subversão nunca conseguiu o apoio da população, que via, na ordem, a garantia do bom estado da economia.

O Presidente tinha um prestígio imenso. Sua figura inspirava respeito, parecia um grande patriarca. Que presidente arrisca-se a ir ao Estádio do Maracanã? Nenhum, só o Médici. Pediram-lhe um palpite sobre o resultado do jogo contra a Itália, pela decisão da Copa do Mundo de futebol de 1970, e ele acertou a vitória do Brasil por 4 a 1. Tinha o dom que Napoleão dizia ser indispensável aos generais: sorte.

É preciso restaurar essas verdades, contrapondo-as ao constante fustigamento à memória do Presidente Médici. Quanto ao desengajamento, perdeu-se a oportunidade, e nada mais há que fazer, senão melancolicamente, registrar essa perda” (Coronel Luís de Alencar Araripe, Tomo 2, pg. 236-237).

“O Presidente Médici durante todo o seu mandato foi amado pelo povo, o que até adversários da Revolução reconhecem. Só não foi amado pelos terroristas, guerrilheiros e elementos que os apoiavam – uma minoria sem nenhuma expressão no contexto nacional. Pelo povo trabalhador, diligente, que dá duro e ganha pouco na luta pela sobrevivência, o Presidente Médici era muito querido.

No entanto, depois de tantos e tão expressivos acertos, não posso deixar de consignar o seu grande e único erro: deveria ter passado o Governo para um civil, entregaria o Governo com a casa arruada, com o PIB crescendo a mais de 10% ao ano, com a inflação de 15% ao ano, inflação que viera dos 400% ao ano, no tempo do incompetente Jango Goulart; passaria a um civil, um País que se transformou totalmente naqueles dez anos – 1964 a 1974.

Ernesto Geisel recebeu a casa arrumada, mas, como dizia o meu amigo Ministro Frota, sendo ele um socialista disfarçado, criou 254 empresas estatais. Além disso, fez-se acompanhar daquele que fora o ‘anjo mau’ do Castello Branco – Golbery do Couto e Silva. O retorno do Golbery ao Governo, aquele homem que conheci coronel no QG da ID 4 – Infantaria Divisionária da 4ª. DI -, ‘exilado’ do Rio de Janeiro e aceito pelo meu pai em Belo Horizonte. A sua ‘expulsão’ do Rio de Janeiro teve como causa o episódio do discurso do Coronel Bizarria Mamede, discurso que teve uma repercussão enorme, no enterro do General Canrobert Pereira da Costa, Presidente do Clube Militar” (Coronel Henrique Carlos Guedes, Tomo 3, pg. 267).

“Em vez de realizar um trabalho de peso para que a democracia fosse reforçada nas universidades, fortalecendo a cátedra democrática, procurando penetrar nos diretórios estudantis – todos comandados por comunistas -, dificultando, de forma inteligente, a ação livre do MCI no ensino superior, o ‘intelectual’ fez ao contrário, tornou a universidade uma ‘área liberada’ de todas as correntes comunistas – marxistas, trotskistas, maoístas. Médicos, engenheiros, professores, advogados, jornalistas etc. nas universidades do Governo, foram formados por professores quase todos marxistas. E, ainda, inventaram a profissão de sociólogo. O que faz um sociólogo? Tudo é um artifício para difundir o marxismo, abertamente, e com o aval de serem diplomados” (Coronel Henrique Carlos Guedes, Tomo 3, pg. 269-270).

“Alguns elementos, principalmente da mídia, procuram caracterizá-lo [Presidente Médici] como um ditador impiedoso, carrasco, torturador. Muito ao contrário, era um homem afável, de boníssimo coração e que prestou inestimável serviço ao País. Sua popularidade era tão grande que um fato ocorrido com ele jamais aconteceu com outra autoridade no Brasil. Ao assistir a um jogo de futebol entre o Vasco e o Flamengo, no Rio de Janeiro, por dificuldades de trânsito, chegou uns dez minutos depois de iniciado o jogo. Quando entrou no estádio, na Tribuna de Honra, ao anunciarem o seu nome, todo o estádio se levantou e, de pé, o aplaudiu entusiasticamente” (General-de-Brigada Luciano Salgado Campos, Tomo 4, pg. 76).

“Devíamos ter entregue [o Poder] em 1974. Deram-se mais cinco anos e depois mais seis. Estou convencido de que a conjuntura internacional, então, já era completamente diferente e, digamos assim, o regime militar, o regime autoritário, caiu de moda. Caiu de moda na verdade. Foi um instrumento importante, mas produziu um cansaço. Não tinha mais condição daquilo funcionar, principalmente depois da crise mundial de 1982. Essa crise, digo e repito, já disse aqui, foi de tal profundidade que se permitiu dizer o seguinte: os ‘marqueteiros’, os manipuladores de opinião, conseguiram convencer o Brasil de que a crise era brasileira, de que a crise era do Governo brasileiro. Quer dizer, quem levou o mundo ao default foi o Brasil, falso absolutamente. O Brasil foi arrastado no default, mas a crise era mundial. Eu digo, os Estados Unidos tiveram uma recessão poderosíssima porque, veja, a taxa de juros americana era de 21%. Se falar isso para alguém hoje...

As pessoas pensam que foi o Gorbatchov que acabou com a União Soviética. Nada. Quem acabou com ela foi a recessão de 1982. Em 1982 ficou claro: quebrou a Polônia, quebrou a Romênia, quebrou a Bulgária, quebrou a União Soviética. Quer dizer, depois daquilo, a URSS era uma máquina faltando engrenagem. O Gorbatchov só veio para completar. Quem acabou com o mundo chamado comunista foi a recessão capitalista de 1982, que desintegrou tudo aquilo. Uma das coisas mais fantásticas é você ver a esquerda – claro que há exceções – na média, é de uma ignorância monumental. O susto com a esquerda não é o seu programa, é a ignorância com que eles pensam que vão implementar o programa. Então o que acontecia? As pessoas criticavam o Brasil: ‘vocês viram? Estão se endividando’.

O caso brasileiro era uma coisa... Em 1974, o Brasil tinha 12 bilhões de dólares de dívida, tinha reserva de 6 bilhões e exportava 6 bilhões, ou seja, a dívida era um ano de exportação. Hoje, a dívida é quatro anos de exportação, cinco anos – já foi até mais. Mas, os países da União Soviética, que usavam a Rússia como paradigma, estavam se endividando ainda mais e eles não tinham conhecimento disso. É uma coisa deliciosa ler, hoje, os documentos que escreveram naqueles anos, porque mostra que eles não tinham o menor conhecimento do que estava se passando e, na verdade, foram adquirindo esse conhecimento ao longo desses anos” (Deputado Federal Antônio Delfim Neto, Tomo 5, pg. 163).

“O desengajamento foi lento e gradual, conforme queriam os teóricos Jda Revolução. Pena que as transformações necessárias no campo político não chegaram a realizar-se. As cassações foram casuísticas e os políticos que apoiavam a Revolução, na sua maioria, eram fisiológicos e aproveitadores das vantagens de estarem próximos do Poder. Infelizmente, os governos que se seguiram ao ciclo revolucionário caracterizaram-se pela incompetência, despreparo e corrupção. Isto era mais ou menos previsível, mas não se esperava esta desqualificação nos níveis apresentados. Não concordo com alguns chefes militares entrevistados na pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas, que consideram que a Revolução deveria ter acabado antes. Nem aceito o continuísmo daqueles radicais que pretendiam o regime autoritário para sempre” (General-de-Divisão João Carlos Rotta, Tomo 8, pg. 152).

“Progressivamente, houve o fechamento do Poder, promovido por aqueles grupos quem não interessava qualquer mudança que comprometesse seus privilégios.

Reagiram contra a abertura aqueles que desfrutavam de vantagens, facilitadas pela grande latitude atribuída ao exercício do Poder, às vezes sem freios, contenções e limites. Para defender seus interesses se fecharam em torno do Presidente Médici, sem admitir abertura. Para se ter uma ideia, durante o Governo Figueiredo, já sem a égide do AI-5, eu, um simples General, conversando com um Secretário de Estado da Bahia, na Ilha de Itaparica, ouvi da parte dele:

- Vocês não podem abrir, não podem entregar o Poder. Vocês têm é que fechar, senão perderemos tudo o que foi conquistado.

Quanto mais se fecha, mais difícil fica para se promover uma abertura no sentido da institucionalização democrática. O Presidente Médici não teve a felicidade de fazer o que ele poderia ter feito e, lamentavelmente, é estigmatizado – há uma distorção da sua imagem – só porque teve sucesso no combate ao terrorismo” (General-de-Brigada Egêo Corrêa de Oliveira Freitas, Tomo 8, pg. 227).

 

O Alto Comando do Exército queria o afastamento do Presidente Geisel. Mas, foi afastado o Ministro do Exército, Sylvio Frota.

“Ainda em 1975, ocorreu um fato de maior gravidade: o discurso ofensivo ao Exército feito pelo Senador Francisco Leite Chaves, por ocasião da morte do jornalista Vladimir Herzog. Ele gerou grande crise entre o Alto Comando do Exército e a Presidência da República. Três ou quatro meses depois, já em 1976, novo desencontro, com as proporções de uma crise ainda maior, ocorreu com a exoneração do Comandante do II Exército, General Ednardo D’Ávila Mello. Em ambas as ocasiões, o Ministro teve uma atitude firme de lealdade ao Presidente, já que o pensamento da maioria do Alto Comando do Exército, onde predominava a corrente revolucionária, era de que o Presidente Ernesto Geisel fosse afastado. Mau pai, como Ministro, não concordou com isto, embora divergisse da posição do Presidente.

No ano de 1977, surgiu o episódio do ‘Pacote de Abril’, quando Geisel iludiu seu ministério, inclusive seu Ministro do Exército. Houve, também, a tentativa de mudança das Diretrizes de Segurança Interna, procurando-se, dessa forma, neutralizar o sistema de repressão. Meu pai, novamente, conseguiu que seu pensamento prevalecesse, mas às custas de outro atrito. Houve também vários problemas relacionados com as promoções de oficiais-generais, em que era visível a tentativa do Presidente Geisel de afastar os homens simpáticos à linha revolucionária.

(...)

Esses eventos, ao chegar o ano de 1977, foram evidenciando o choque entre a corrente revolucionária, defendida por meu pai e outros companheiros, e a dos homens do Palácio do Planalto. Alguns desses eventos geraram atritos pessoais e, a partir do problema da Ordem-do-Dia de 25 de agosto de 1977, meu pai estava convencido de que a permanência dele no Governo não seria longa. Ele continuava pensando que o Alto Comando do Exército, assim como os das demais Forças, deveria sempre dar a palavra final sobre os rumos da Revolução e não que estes fossem determinados pela vontade de um único homem, que, naquele momento, não estava integrado ao pensamento revolucionário.

Em que data o Ministro Sylvio Frota foi demitido? [entrevistador]

Foi demitido em 12 de outubro de 1977.

(...)

Aliás, a respeito da saída do Generall Golbery existe um fato interessante. Meu pai, nos idos de 1981, recebeu em sua residência a visita de um industrial, amigo comum dele e do Ministro de Estado Armando Falcão, que frequentava constantemente a casa do ex-Presidente Ernesto Geisel. Esse senhor narrou o que o Ministro Falcão lhe dissera ter ouvido, quando o ex-Presidente comentou a saída do Ministro Golbery do Governo, com a seguinte frase: ‘O Frota tinha razão, o Figueiredo não vale nada!’ Creio que o Presidente Geisel percebeu tarde o erro que havia cometido” (Contra-Almirante Luiz Pragana da Frota, Tomo 14, pg. 178-182).

 

Governo Figueiredo, um desastre no processo sucessório

“Figueiredo foi escolhido para dar prosseguimento à ‘abertura’. Aparentemente, não foi bem-sucedido. Seu governo foi marcado pela exacerbação da opinião pública, pela campanha das ‘diretas já’, pela ação de terroristas de direita, pelo descontrole da dívida externa e pela sua inapetência por governar. Destacou-se, sobretudo, pela incompetência para conduzir o processo sucessório. Figueiredo, direto e franco na aparência, não conseguia passar essa imagem para o seu governo. Abatido pela crise de saúde, mostrava-se oblíquo e dissimulado, não encarava de frente os reais problemas. Dizia-se que ele perdera a vontade de governar” (Coronel José Firmino Dias Lopes, Tomo 12, pg. 202).

“O General Figueiredo e seu grupo mais importante de assessores desejavam o Poder, não só pela satisfação de vaidades pessoais, mas também para desfrutar de suas benesses. O Governo Figueiredo foi um completo fracasso, marcado pela corrupção, repleto de escândalos, inflação alta, dívida externa crescente e avanço da subversão marxista em todo o País. Seu mandato eu os argumentos aos comunistas para denegrir a Revolução, tal o seu descalabro, embora o seu Governo nada mais tivesse a ver com o Movimento. Era apenas um grupo de aproveitadores e interesseiros que se utilizaram do sistema revolucionário para chegarem ao Poder e desfrutá-lo” (Contra-Almirante Luiz Pragana da Frota, Tomo 14, pgl 181-182).

 

Médici, um exemplo de cidadão e de militar

“Sempre cito um fato, para comparar o que hoje existe por aí: certa vez, necessitávamos de aumentar o preço da carne, que estava congelado. (...) Pois bem, havíamos congelado o preço da carne, devido a uma dificuldade de suprimento, ‘bateu no teto’ e tivemos que pedir para mexer no preço da carne. O Presidente ficou um pouco triste, mas disse: ‘vou decidir isso daqui a uns dias, não quero tomar decisão agora’. Dois dias depois me telefonou o Dr. Leitão e falou: ‘o Presidente autorizou você a liberar o preço da carne’. Aí, fiquei curioso para saber o que tinha havido e o Leitão me disse que ele mandara vender os bois que tinha para não se aproveitar do aumento do preço da carne. Isso devia servir de exemplo” (Deputado Federal Antônio Delfim Neto, Tomo 5, pg. 158-159).

“Realmente, a crítica mordaz e injusta dos contrários está sempre presente. Mas eu pergunto: ‘Por que um presidente que assumiu contra a sua própria vontade, que reduziu em quase dois anos seu mandato e que não admitia que se falasse em continuísmo, ia precisar de uma máquina para exaltar sua pessoa? Será que um presidente com essas características precisaria de um Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) de Getúlio Vargas para segurá-lo no poder por 15 anos?’ ” (Engenheiro Roberto Nogueira Médici, Tomo 14, pg. 193).

 

“Em tempos de guerra, não existe imprensa livre”

“No governo de meu pai [Presidente Médici], havia uma guerra a ser vencida e, em tempos de guerra, não existe imprensa livre. Não existe nação, por mais democrática que seja, que não imponha censura à imprensa em tempo de guerra.

A relativa liberdade que os americanos deram à mídia, durante a guerra do Vietnam, foi, em grande parte, responsável pela derrota que amargaram. Já na Guerra do Golfo, nada, nenhuma notícia, fugia do controle militar” (Engenheiro Roberto Nogueira Médici, Tomo 14, pg. 196).

 

Médici converteu, pelo menos, um comunista...

“No Governo Emílio Garrastazu Médici, a presença do Presidente na televisão era como um calmante: de fala pausada, sincero, honesto, correto. Quero contar um fato, breve. Na época, como diretor do Departamento de Obras da Universidade Federal do Ceará, eu estava com um projeto de expansão do campus universitário e viajava sempre a Brasília. Numa das viagens, a meu lado, no avião, um jovem de aproximadamente 20 anos foi logo puxando conversa, dizendo que era estudante, líder estudantil, comunista convicto. Mas, ao ver e ouvir o Presidente Médici na televisão, acreditou nele e mudou radicalmente de convicção política” (Major Geraldo Nogueira Diógenes, tomo 12, pg. 231).

“O Presidente Médici tornou-se simpático, também, ao poro, pelo hábito de assistir aos jogos ouvindo o radinho de pilha. Porém, a guerrilha e a perturbação da ordem levaram-no a agir com máo-de-ferro, razão por que o pessoal da esquerda chama o seu período de governo dos ‘anos de chumbo’. Para mim, ‘anos de ouro’, anos do milagre brasileiro. E se os terroristas sofreram, foram perseguidos, os cidadãos comuns, todos aqueles que trabalhavam pela grandeza, pelo crescimento do País, experimentaram um período de prosperidade” (Tenente-Coronel Affonso Taboza Pereira, Tomo 12, pg. 222).

“Certa vez, quando acompanhei o Presidente Médici e o General Sardenberg ao Maracanã, em dia de jogo, pude ver oitenta mil pessoas, de pé, o estádio inteiro, aplaudindo o Presidente. Hoje, onde se poderia ver algo parecido? Atualmente, se o Presidente da República for anunciado no Maracanã, certamente será vaiado. É uma prova, quer queiram quer não, da popularidade do Presidente Médici” (General-de-Brigada Flávio Oscar Maurer, Tomo 8, pg. 312).

Obs.

Palavras proféticas: em 2007, o Presidente Lula da Silva foi vaiado durante a abertura dos Jogos Pan-americanos, no Maracanã – cfr. em https://oglobo.globo.com/esportes/lula-vaiado-quatro-vezes-nao-faz-abertura-do-pan-4171774.

A Presidente Dilma também foi vaiada, durante a abertura da Copa das Confederações, no Mané Garrincha, em Brasília, em 2013 – cfr. https://oglobo.globo.com/brasil/dilma-vaiada-na-abertura-da-copa-das-confederacoes-8701173.

F. Maier

 

 

NOVA ORDEM MUNDIAL

“O Brasil é o único país, dito democrático, no qual a imprensa é 100% esquerdista, e só fala a linguagem ditada pelo partido único de todos os países comunistas.

Agora, a ameaça do outro lado também existe, e não é coisa de agora. Os norte-americanos e seus aliados ingleses nos vêem como verdadeira colônia, exportadora de bens primários, a preço de banana, e importadores de tudo o mais.

(...)

Para demonstrar que esta ameaça não é coisa de agora, volto à década de 1970. Naquela década – pouca gente sabe disso – o Brasil encomendou, num estaleiro da Inglaterra, uma plataforma de extração de petróleo em alto-mar. Pagou ‘uma nota’ para exploração em águas profundas, onde está o grosso do nosso óleo. Vocês sabem em que dia os ingleses puseram essa plataforma para navegar em direção ao Brasil? No dia da maior tempestade no Mar do Norte. Aí, a plataforma naufragou e a Companhia de Seguros indenizou a Petrobras, mas o naufrágio atrasou a nossa nova prospecção em mais de três anos, com prejuízos incalculáveis para o Brasil e os brasileiros que dependem de mais óleo diesel, de mais gasolina, de gás etc.

Um outro fato, ligado, ainda, aos ingleses: Vamos falar da conferência do Almirante Aquino, responsável pelo programa do submarino nuclear de nossa Marinha de Guerra, realizada no auditório do Comando Militar do Sudeste, em São Paulo. Contou o almirante que uma das turbinas do submarino construídas no Brasil deveria ser testada na Inglaterra, por falta de condições de fazê-lo no País. A turbina, enviada para a Inglaterra, ficou lá por mais de um ano e não voltava. Foram feitas todas as gestões possíveis para tê-la de volta, mas tudo foi em vão, inclusive a participação, para esse fim, do Ministério das Relações Exteriores. Após quase dois anos sem que a peça retornasse, concluiu-se que ela deveria ser de muito boa qualidade, motivo por que os ingleses resolveram retê-la. O referido fato fez com que a Marinha decidisse investir no processo e no material para testar a turbina semelhante. Após um ano de trabalho e dias antes daquela palestra, o teste da turbina, agora realizado por brasileiros, mostrou a excelência do equipamento, exatamente como se desconfiava, pela retenção, na Inglaterra, de turbina semelhante” (Coronel Henrique Carlos Guedes, Tomo 3, pg. 277).

“A Amazônia vem-se constituindo numa enorme preocupação. Acho que o Governo já deveria ter feito um alerta internacional para enfatizar um basta nas intenções manifestas das potências mundiais. Sobre essas intenções manifestas, separei algumas declarações transcritas de um impresso distribuído pelo Clube Militar: Margareth Thatcher, ex-Primeira-Ministra inglesa: ‘Se os países subdesenvolvidos não conseguem pagar suas dívidas, que vendam suas riquezas, seus territórios e suas fábricas’; Al Gore, candidato a Presidente dos EUA, pelo Partido Democrata: ‘Ao contrário do que pensam os brasileiros, a Amazônia não é deles, mas de todos nós.’ Parece que a diferença que há entre Al Gore e Bush, é que Bush admite que a Amazônia seja dada como pagamento da dívida externa, e Al Gore acha que a Amazônia deve ser internacionalizada. François Mitterrand, ex-Presidente da Frnça: ‘O Brasil precisa aceitar uma soberania relativa sobre a Amazônia’. Pode-se, como militar, aceitar essa expressão ‘soberania relativa’? John Major, Primeiro-Ministro da Inglaterra: ‘As nações desenvolvidas devem estender o domínio da lei ao que é comum a todo o mundo. As campanhas ecológicas das ONGs internacionais, sobre a região da Amazônia, estão deixando a fase propagandista para dar início à fase operacional, que pode, definitivamente, ensejar intervenções militares diretas sobre a região” (Coronel Luciano Moreira de Souza, Tomo 4, pg. 129-130).

 

O comunismo não desapareceu

“O comunismo não desapareceu, nem com o fim da bipolaridade ideológica, nem com a queda do Muro de Berlim. Apenas vestiu novas roupagens, em particular nos países do chamado Terceiro Mundo, o Brasil entre eles. Prova disso são as novas siglas que defendem as mesmas ideias e pululam na América Latina, inclusive no Brasil. Aí estão o MST (Movimento dos Sem-Terra) e FSP (Foro de São Paulo) para confirmá-lo, além de uma série de partidos comunistas, com diferentes siglas” (Coronel Ney Salles, Tomo 14, pg. 251).

 

Forças Armadas em Forças Policiais?

“Esquecem que o Exército é parte integrante da Nação. Penso que a permanente interferência do segmento militar no processo político ao longo da história do Brasil, diferentemente dos Estados Unidos, exacerba os ódios e a incompreensões quanto ao papel das Forças Armadas. No meu último ano na ativa, participei de uma conferência em Washington, e foi estarrecedor ouvir uma pregação sobre a inutilidade do Exército, com uma proposta de modificação das Forças Armadas tornando-as Forças Policiais. Ora, as instituições militares brasileiras são a coluna vertebral desse País e a sua história se confunde intensamente com a história do Brasil” (General-de-Brigada Carlos Augusto Fernandes dos Santos, Tomo 8, pg. 286).

“A chamada guerra fria decorreu do fato de os EUA e a URSS, potências emergentes da Segunda Guerra Mundial, aliadas no conflito, mas ideologicamente separadas e já com claras divergências no final da guerra, terem começado uma verdadeira corrida armamentista e espacial, baseada em tecnologias cada vez mais avançadas. Isso forçou a realização de alianças envolvendo, de um lado, os EUA e a Europa Ocidental, e do outro, a URSS e o Leste da Europa.

Foram criadas a OTAN e o Pacto de Varsóvia. Com o colapso da URSS e com ele o desaparecimento do MCI, acabou o conflito Leste-Oeste, de conotação fundamentalmente econômica, onde a potência hegemônica que restou (EUA) busca impor sua vontade e suas políticas, onde se inclui o chamado ‘liberalismo’ ” (General-de-Exército Carlos Tinoco Ribeiro Gomes, Tomo 10, pg. 45).

Obs.

Após o colapso da URSS, os analistas de Inteligência do Brasil passaram a ver os EUA como o novo inimigo, principalmente por ter bases militares em países da América do Sul, formando um “arco de ameaça” em torno do nosso País. A preocupação brasileira aumentou quando os EUA fizeram a Guerra do Golfo, depois da invasão iraquiana no Kuwait, demonstrando que os americanos haviam se tornado a “polícia do mundo”. A mesma preocupação ocorreu quando houve a invasão do Afeganistão e a destruição completa do Iraque após o ataque às Torres Gêmeas, em Nova York, em 2001.

Acrescente-se a essa preocupação dos militares o fato de os governos democratas dos EUA, além da ONU - tomada por militantes ambientalistas - fazerem pressão sobre o Brasil no que tange à preservação da Amazônia, como se fosse um patrimônio de toda a humanidade. Há um documento americano que prevê a invasão de países que tenham problemas sérios com meio ambiente, tráfico de drogas, assassinato de indígenas, entre outros motivos. Uma senha para assaltar a Amazônia, via ONU - vale dizer, os EUA.

Leia, de minha autoria, “Doutrina Lake: o Big Sick Atualizado”, em http://felixmaier1950.blogspot.com/2020/10/doutrina-lake-o-big-stick-atualizado.html.

F. Maier

 

Desapareceu o comunismo? Não no Brasil.

“Todos pensávamos que, com a queda do Muro de Berlim e o desaparecimento da União Soviética, o comunismo estaria fadado a desaparecer. Ledo engano: está mais forte que antes desses episódios. Aqui, no Brasil, os comunistas estão por toda parte. Estão no governo, dentro de grande parte dos partidos políticos. Na Igreja há um teólogo que faz apologia do PT e de Fidel Castro, um tal frei Beto que foi comparsa do Marighella e agora é colunista de O Globo, assim como o tal frei Leonardo Boff, da Teologia da Libertação, transformado pela esquerda em jornalista, com coluna no Jornal do Brasil”(Brigadeiro-do-Ar Carlos Affonso Dellamora, Tomo 10, pg. 125).

 

A globalização começou com Vasco da Gama, com Marco Polo, com Colombo, com Cabral. No entanto, a ignorância é cada vez maior.

“Agora, no presente, juntam-se os terroristas de ontem com os neoliberais de hoje, para implantarem, no Brasil, uma globalização de interesse puramente externo, com a alienação completa do nosso povo. O que fazer? Todos nós sabemos que a globalização foi uma imposição das grandes potências aos países mais fracos, em desenvolvimento. Os governos atuais desses países aceitaram-na, embora jamais tivessem a simpatia do povo, que nem foi consultado” (Coronel Francisco Sobreira de Alencar, Tomo 12, pg. 191).

Obs.:

Pelo visto acima, falta um bom professor de Economia na AMAN.

F. Maier

 

AMAZÔNIA E ECOLOGIA

“Entre os inúmeros problemas que temos de enfrentar nos dias de joje, e que muito me preocupam, tomemos o exemplo da Amazônia. Já existem crianças dizendo que não se pode mexer na floresta, exclusividade dos animais irracionais. Paradoxalmente, a Organização das Nações Unidas (ONU) declarou o território ianomâmi protetorado, ‘patrimônio da humanidade’. E a nossa soberania? Ora, lembremo-nos de que, durante o Segundo Reinado, o Exército Imperial brasileiro chegou a trocar tiros com ingleses na Amazônia. E não só ingleses, mas também alemães, franceses, espanhóis.

Precisamos, sim, fortalecer as Forças Armadas naquela região, dar todas as condições para que ocupem os espaços vazios e retomem o Projeto Calha Norte. E, ao mesmo tempo, precisamos trazer os índios à civilização, como Anchieta, Nóbrega e tantos outros fizeram no passado. Não manter os nossos índios no tempo da pedra lascada, vivendo na barbárie. Promover o desenvolvimento sustentado da Amazônia e a sua integração com todo o Brasil. Matizar bem o problema da ecologia, proibindo nivelar o homem aos animais. Isso, sim, precisa ser encarado e enfrentado” (Advogado Juvenal Antonio Araújo de Arruda Furtado, Tomo 12, pg. 240-241).

Obs.

Sobre “trazer os índios para a civilização”, escrevi “Bantustões Brasileiros” - https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/06/bantustoes-brasileiros.html.

F. Maier

 

 

BRASÍLIA VIROU, DE FATO, A CAPITAL DO BRASIL GRAÇAS AOS MILITARES

Em 1964, Brasília já era a capital do Brasil (desde 1960), porém muitos ministérios permaneciam no Rio de Janeiro, incluindo o próprio staff do Governo Goulart.

“Embora houvesse um escalão avançado, o próprio Jânio Quadros, quando renunciou, segundo dizem, se sentia muito isolado lá em Brasília. Pressentiu que, de Brasília, não governava coisa alguma. Brasília era completamente isolada. Quem levou o Governo para Brasília foi Castello Branco. Assim, em 1964, o principal objetivo estratégico, ainda, era a Cidade do Rio de Janeiro” (Tenente-Coronel Moacir Véras, Tomo II, comentando por que a força revolucionária principal partiu de Minas para o Rio, e não Brasília – assim como São Paulo, que também se deslocou para o Rio).

“Não podia ir a Brasília, onde se dizia serem Varig e Vasp os nomes dos bons médicos da cidade” (Coronel Luís de Alencar Araripe, Tomo 2, pg. 233).

“Uma coisa que a gente não vê escrito hoje nem se ouve falar é que a consolidação de Brasília foi feita pela Revolução. Brasília era uma cidade que, em 1964, tinha apenas quatro anos, estava beirando os seus quatro anos quando aconteceu a Revolução de 31 de Março e todos esperavam que Brasília acabasse e que a capital voltasse ao Rio de Janeiro. Aconteceu o inverso – quem realmente consolidou Brasília foi Castello Branco que, além de ir para lá, fez a mudança de todos os ministérios, militares e civis, para Brasília, consolidando Brasília como Capital Federal, consolidação esta que trouxe como grande consequência a incorporação de todo o Centro-Oeste ao ecúmeno brasileiro.

Hoje, ninguém pode imaginar que Mato Grosso, Goiás, Tocantins etc. estejam à parte da área mais desenvolvida brasileira, incorporação que se deu a partir da criação de Brasília – mérito que ninguém pode tirar de JK, mas que esteve muito perto de ser perdido e de se tornar uma capitalzinha de província, uma cidadezinha de interior, se não tivesse havido a ação firme e decidida dos presidentes militares em mudar toda a cúpula administrativa para Brasília, porque esta cúpula administrativa não estava lá” (General-de-Exército Luiz Gonzaga Schroeder Lessa, Tomo 10, pg. 66).

“Logo no começo do Governo, o Presidente Jânio Quadros apresentou um sistema de administração e de condução da política do País que não correspondia à esperança que nele se depositara. Em vez de mergulhar no âmago dos problemas que afligiam a Nação, ocupou-se de assuntos insignificantes ante a importância do cargo: a proibição do lança-perfume, do biquíni e das brigas de galo. Decepcionou a todos os que nele votaram ao condecorar o guerrilheiro Che Guevara com a Ordem do Cruzeiro do Sul” (Tenente-Coronel Affonso Taboza Pereira, Tomo 12, pg.217).

“Durante a campanha política, [Jânio Quadros] aparecia empunhando uma vassoura, simbolizando o combate à corrupção e à fraude. Ao assumir, não se viu nada disso e sim probleminhas tolos, corriqueiros: proibiu a rinha de galos, o uso do biquíni nas praias e lançou a moda do uso de uniforme cáqui para os funcionários públicos. Ele mesmo usava esse traje. Logo no início do mandato, brigou com o Congresso e não conseguiu praticamente nada. De repente, renunciou à Presidência da República e comunicou a sua decisão ao Congresso Nacional. A seguir, viajou para São Paulo, na esperança de voltar nos braços do povo, com maiores poderes. Felizmente, isto não aconteceu” (Major Geraldo Nogueira Diógenes, Tomo 12, pg. 229).

Obs.

Sobre o assunto, leia o texto do Coronel Manoel Soriano Neto, historiador militar, “O Exército e a Mudança da Capital Federal” - http://felixmaier1950.blogspot.com/2020/07/o-exercito-e-mudanca-da-capital-federal.html

 

F. Maier

 

 

GEISEL TERIA ACEITADO SER CANDIDATO A PRESIDENTE DA REPÚBLICA SE MÉDICI MANTIVESSE O AI-5 EM VIGOR

“O nome Geisel só foi confirmado depois de [Médici] certificar-se, pela palavra de seu Chefe da Casa Militar, General João Figueiredo, do seu afastamento do General Golbery. Sempre teve desprezo por esse oficial e dos artifícios que usava para estar sempre ao lado do Poder. Desprezo que evoluiu para asco cívico depois que esse senhor, após ter criado e dirigido, no Governo Castello Branco, o Serviço Nacional de Informações, que lhe a oportunidade de conhecer o direito e o avesso de todos os homens importantes desse País, ter tido o despudor de colocar essas informações a serviço de uma multinacional. De ter tido a coragem de ser um mandante remunerado, um abridor de portas da Dow Chemical. Mercadejando um produto que não lhe pertencia, a dignidade de um oficial do Exército Brasileiro.

Sabedor da influência que Golbery exercia sobre Geisel, não queria correr o risco de vê-lo na futura equipe de governo. Eliminada essa possibilidade, pois para meu pai, que acreditava em honra militar, era inconcebível que um general Chefe da Casa Militar pudesse mentir ao seu presidente, comunicou pessoalmente ao Geisel a intenção de indicá-lo ao Congresso como candidato do Governo à presidência da República que, sem impor nenhuma condicionante, de pronto aceitou. Comunicou sua decisão aos chefes militares e a sua liderança política o pedido de que respaldassem. Geisel a partir de então, até pelo prestígio de quem o indicava (meu pai terminou o governo com 82% de aprovação), já era o futuro presidente do Brasil. Quando, a pedido do meu pai, o Dr. Leitão de Abreu, seu Chefe na Casa Civil, foi ao encontro de Geisel formalizar o convite e oferecer os préstimos do governo, este, para surpresa e estupefação do enviado, declarou: ‘Só aceito com o AI-5 em vigor.’ A meu pai só cabia curtir a traição. Já não tinha mais espaço de manobra para articular outra candidatura.

Quando mais tarde Geisel anunciou seu ministério e nele viu figurar Golbery e João Figueiredo, soube com amargura que também tinha sido traído pelo seu Chefe da Casa Militar. Ficou, então, sabendo que Geisel precisava do AI-5 para remunerar Figueiredo por serviços prestados. Para impô-lo como seu sucessor. E como foi generoso e agradecido. Deu-lhe um mandato de 6 anos. Mais uma vez a troika - Geisel, Golbery e Figueiredo - que havia, por amor desmedido ao Pooder, contribuído substancialmente para afastar o Governo Castello Branco dos objetivos da Revolução de 1964, assumia novamente as rédeas do Movimdento e mais uma vez postergava o retorno do País à democracia. Agora, para enxovalhá-lo e manchar o prestígio das Forças Armadas que até hoje sofrem as consequências de um desengajamento que poderia ter sido honrado e vitorioso, mas que foi uma vergonhosa debandada.

Geisel, com o ‘Pacote de Abril’, se proclamou em Assembleia Constituinte. Fechou o Congresso Nacional, criou o ‘senador biônico’, cassou um senador e, para dar maioria no Congresso ao partido que dava sustentação a seu governo, deu maior peso político aos Estados do Nordeste e do Norte, subvertendo completamente a representação dos Estados na composição da Câmara dos Deputados. A sociedade viu que estava à frente de um presidente arrogante que, jogando fora o esforço de pacificação do governo anterior, usava a força para humilhar e impor sua vontade. Por outro lado, a determinação de fazer Figueiredo seu sucessor agitou o quartel. O nome de Figueiredo não era bem recebido e a violência para impô-lo, como as demissões do Chefe da Casa Militar, General Hugo de Abreu, e do Ministro do Exército, General Sylvio Frota, quebrou a unidade da Corporação. Quando Figueiredo assumiu, a Revolução de 1964 já era repudiada pela sociedade civil e pleos militares idealistas que não se deixaram amolecer pelos anos de Poder. Queriam, no mais breve espaço de tempo, desvincular as Forças Armadas de um governo que estava sujando sua imagem. Só restava a Figueiredo a retirada. Sua Lei de Anistia não foi um ato de clemência de um vencedor, mas um gesto obrigatório e encabulado de quem sai pela porta dos fundos. Fou mais uma ata de rendição. Por isso mesmo, até hoje, só protege os que se opuseram à Revolução” (Engenheiro Roberto Nogueira Médici, Tomo 14, pg. 199-200).

Obs.

No livro “Ernesto Geisel”, publicado pela Editora Fundação Getúlio Vargas, 5ª. Edição, 1998, à pg. 233 Geisel desmente a versão de que teria imposto a continuação do AI-5 para ser Presidente:

“Há tempos, depois de o Médici já ter morrido e eu já estar fora da presidência da República, no governo Sarney, o Jornal do Brasil revolveu ouvir algumas ex-primeiras-damas. E aí apareceu a senhora do Médici, uma senhora muito distinta, muito retraída, com a história de que o Médici, no fim do governo, queria acabar com o AI-5, queria normalizar a situação, e que eu me opus, declarando ao Médici que, nesse caso, eu não assumiria a presidência da República. Isto tudo é uma grande inverdade. Houve uma tentativa no governo Médici, feita pelo Leitão de Abreu. O sr. Huntington, cientista político americano, em visita ao Brasil, conversou com o Leitão de Abreu sobre as possibilidades de normalização do país, sem que obtivesse resultado prático. Depois, quando eu já era presidente, ele esteve uma ou duas vezes com o Golbery também para tratar do mesmo problema. Também não deu em nada. O que eu posso afirmar é que essa conversa em que o Médici teria manifestado o desejo de acabar com o AI-5 e que eu me teria oposto não existiu”.

Verdade ou não, Geisel utilizou o AI-5 com gosto, até 13 de outubro de 1978, quando foi extinto, quase no final do seu governo, que se estendeu de 15 de março de 1974 a 15 de março de 1979.

F. Maier

 

CASO RIOCENTRO

“Fui ouvido num inquérito este ano sobre o Riocentro. Quero dar o testemunho, que fique gravado isso aqui, que foi a verdade. O [Caso] Riocentro ocorreu em 30 de abril, na véspera do feriado de 1º. de maio. Toda noite de 30 de abril para 1º. de maio havia um show no Riocentro em que a ideia era colher recursos para o Partido Comunista Brasileiro, e a nossa gente gostava, desculpe o termo, de ‘sacanear’ o pessoal do PCB.

Em 1980, eu já era o segundo homem da estrutura do DOI. Dois anos antes, já não mais prendíamos, apenas atuávamos colhendo informações, encaminhando-as. Naquela época, recebi uma proposta de algumas pessoas para jogar uma bomba no Riocentro. Essa bomba era para estourar na caixa de força, com a finalidade de apagar a luz e o show parar. Não era para ser jogada nem lá dentro do Riocentro nem era para matar ninguém. A ideia era acabar com o show do PCB por falta de energia. Discordei daquilo, não gostei da proposta, por achar que era completamente extemporâneo, não tendo mais nada a ver com o clima em que vivíamos naquela época. E proibi a ação; isso foi em abril de 1980 – proibi a ação e ela não foi feita.

Em janeiro de 1981, fui cursar a ECEME, pois tinha ingresso garantido, porque havia conseguido o segundo lugar na EsAO. Logicamente, acredito, é uma suposição, uma especulação, que o que ocorreu lá no Rio Centro tenha sido, talvez, a mesma proposta de jogar uma bomba na caixa de força para acabar a luz. Aquilo que proibi antes, alguém autorizou depois e ocorreu aquele triste episódio do Riocentro no qual morreu um sargento do Exército [Guilherme Pereira do Rosário] e ficou ferido um capitão [Wilson Luís Chaves Machado].

Prestei este testemunho no inquérito que foi feito pelo General Sérgio Conforto, da minha turma, meu amigo. Disse exatamente isso nesse inquérito que estou agora repetindo” (Coronel Romeu Antonio Ferreira, Tomo 9, pg. 358-359).

“O episódio do Riocentro afetou o General Figueiredo? Atrapalhou a condução do Governo, que estava na fase de instalação da ‘abertura’? [entrevistador]

Nem um pouquinho. Em minha posição, no meu cargo, do lado de dentro do Governo, acompanhava e sentia tudo. Penso que exageraram um pouco, porque sempre fica no ar um vago receio, uma coisa indefinida... Mas, absolutamente, o Governo não balançou, nem um pouquinho, até porque já sabíamos do fato muitos meses antes, um mês e meio antes, mais ou menos. Tratava-se de um oficial do Destacamento de Operações de Informações (DOI), vinculado ao Centro de Operações de Defesa Interna (CODI), no Rio de Janeiro, e de um sargento, auxiliar dele naquela organização. Mais um personagem, um carpinteiro, filho de Minas Gerais, que fabricava bombas.

Bem, outro oficial, que morreu, infelizmente, sujeito formidável, contou para o Chefe da Agência Central que havia isso assim, assim... com o propósito de tumultuar uma reunião que seria realizada no Riocentro. O General Newton Cruz relatou-me o que ouvira e disse: ‘Olha, você fique tranquilo, não precisa nem falar com o Presidente, porque vamos atuar em cima desses dois e impedi-los de agir.’ Poucos dias depois, o Newton voltou a mim e informou: ‘Olha, aquele problema do Riocentro já está resolvido e os rapazes prometeram que não vão fazer nada.’ Respondi: ‘Está bem, vamos esperar. Você acha que a gente pode confiar?’ Newton disse: ‘Penso que sim, porque o oficial que trabalhou a cabeça deles e falou comigo é de toda confiança.’ De qualquer maneira, contei para o João Figueiredo. Informei, ainda, ao Venturini, bem como ao Ministro da Aeronáutica, meu amigo (Briadeiro Délio Jardim de Matos). Pedi que mantivessem sigilo.

Entretanto, mesmo com as recomendações, o Capitão resolveu fazer a besteira. O Sargento apanhou a bomba que o carpinteiro havia preparado, colocou no carro e o grupo dirigiu-se ao Riocentro. Deixaram o carro no estacionamento principal, depois saíram, foram explorar o local onde iriam colocar a bomba, mas resolveram voltar para casa.

Sem fazer nada? [entrevistador]

Sem fazer nada. Mas, nesse abrir de porta e sentar, o artefato explodiu.

A ideia deles seria perturbar a ‘abertura’? [ entrevistador]

Tumultuar a festa que se realizava no Riocentro. Não visava a ‘abertura’.

Agora o interessante, General, é que uma intenção primária dessas gerou tamanha repercussão. [entrevistador]

Ah, o Riocentro estava lotado! No auge da anistia, todos queriam participar da maneira que pudessem: ‘Agora vamos fazer o que queremos e ninguém vai nos prender’.

E o Presidente Figueiredo? Ficou surpreso? No dia em que o senhor falou sobre a ideia maluca, ele ficou tranquilo? O Presidente se sentiu traído? [entrevistador]

Sentiu-se; as consequências foram imediatas: acabou tirando o Newton Cruz da Agência Central, e aprovou o nome de outro oficial que eu apresentei. No entanto, permaneceu um ambiente irrespirável, desagradável. Não precisava acontecer. No final, o petardo explodiu e matou um sargento, à toa” (General-de-Exército Octávio Aguiar de Medeiros, Tomo 15, pg. 55-56).

 

 

 

 

Obs.

Estranho foi a Agência Central não ter feito nada para impedir as ações do Capitão Wilson Luís Chaves Machado e do Sargento Guilherme Pereira do Rosário, já que sabia que poderiam colocar uma bomba no Riocentro, na noite de 30 de abril de 1981, véspera do feriado do Dia do Trabalho. No mínimo, deveria tê-los colocado sob rigorosa vigilância, ou melhor, tê-los mantido no quartel ou em casa à força.

Antes do Caso Riocentro, nos anos de 1980 e 1981, durante 16 meses, houve cerca de 40 atentados contra bancas de jornais e órgãos que faziam oposição ao governo Figueiredo, com muitos feridos e pelo menos uma morte, a da secretária da OAB-RJ, Lyda Monteiro da Silva, ocorrida em 27 de agosto de 1980. Nenhum desses atentados foi elucidado. Leia o livro de Dickson Melges Grael sobre o assunto, “Aventura, Corrupção e Terrorismo – À Sombra da Impunidade” (2ª. edição), Editora Vozes, Petrópolis, 1985.

O Coronel Dickson Grael é pai dos Grael (Lars, Torben e Axel) e avô de Martine Grael, todos velejadores náuticos.

Os “duros” do governo Figueiredo não queriam que os militares “desmontassem do tigre”...

Sobre o Caso Riocentro e os 40 atentados, leia texto de minha autoria em - http://wikiterrorismobrasil.blogspot.com/2014/07/caso-riocentro-33-anos-depois.html.

F. Maier

 

O PROJETO “ORVIL” (“LIVRO”, LIDO AO CONTRÁRIO)

“Em 1981 e 1982, cursei a ECEME, indo, em seguida, para Brasília, onde, após estagiar por três meses na 2ª. Seção do Comando Militar do Planalto, fui para o CIE, onde desempenhei as funções de analista de Inteligência, de 1983 a 1985.

(...) Lembro-me de que, naquela época, redigi um ou dois documentos defendendo a ideia de que já estava na hora do Exército escrever a história de sua participação na luta armada. Seria importante que o Exército contasse a sua versão dos fatos, que já estavam sendo deturpados. Diziam eles – os terroristas – que defendiam a democracia e nós não, quando, na verdade, fizemos todo aquele nosso trabalho pela democracia contra o comunismo, contra os extremistas de esquerda que queriam a tomada do Poder para implantação de um regime totalitário. Hoje dizem, cinicamente, que lutavam pela redemocratização.

Recordo-me bem que fim um documento a esse respeito. O meu chefe da S1/01, Seção de Análise e Informações, era um grande Coronel, depois General, Agnaldo Del Nero Augusto, incentivador da ideia de que devíamos escrever a respeito. E a gente pode até fazer uma brincadeira aqui: ele era de Cavalaria, mas muito inteligente! A gente brinca com o pessoal de Cavalaria, mas tem admiração por eles. Ele era um oficial leal que lutava permanentemente por ideais nobres.

Vamos esperar a sua publicação. Este livro deve estar relacionado ao que eu vou dizer agora aqui. No final de 1985, o Coronel Del Nero determinou que, na nossa Seção, os analistas começassem a escrever a história do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), a história da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), VAR-Palmares etc. Mas não deu certo e explico o motivo.

Lembro-me de que, uma vez, ele solicitou que eu fizesse uma análise de um trabalho elaborado por um companheiro sobre 1968. Vi que esse trabalho tinha até mortos que estavam assaltando bancos. Então, não poderia ser assim. Não poderia um analista continuar desempenhando o seu papel de analista, com todos os documentos que ele tinha que produzir, e, ao mesmo tempo, escrever a História da Lula Armada. Era impossível! Então, o que fez o Coronel Del Nero? Ele designou a mim, para que deixasse o trabalho de análise e determinou que eu ocupasse uma sala grande, como esta, que era a antiga sala de estar dos oficiais do CIE, para começar a pesquisar e escrever. E comecei a fazer isso em janeiro de 1986.

Mas começamos a ver que o trabalho era uma loucura e decidimos também fazer um trabalho ano a ano. O que havia ocorrido em 1967? Quais as organizações que existiam? Fazer um histórico da VPR, da VAR-Palmares, da ALN, ano a ano. E começamos inclusive antes da Revolução, nos pródromos da Revolução de 1964.

E não existia nada pronto. O que tínhamos era uma grande quantidade de dossiês de pessoas e organizações. Então, eu pedia, por exemplo, o dossiê da VPR e recebia quatro ou cinco pastas enormes com milhares e milhares de documentos.

O trabalho se tornava muito grande, levando-me a dizer para ele: ‘Sozinho, deverei demorar uns dois ou três anos para concluir a tarefa que o senhor me atribuiu. Não vai dar!’ Sugeri então um amigo meu, de Cavalaria, oficial do mais elevado gabarito, e esse oficial passou a trabalhar comigo em maio/junho de 1986. Todo esse ano de 1986, inicialmente sozinho, depois, eu e esse coronel ficamos mais ou menos até janeiro de 1987 escrevendo esse livro, pesquisando e escrevendo. Era um trabalho insano. Começávamos às 8h da manhã e íamos direto até 20h30min, às vezes 21h. Inclusive, passamos a trabalhar aos sábados e domingos, pesquisando e escrevendo. Foi um ano de um trabalho intenso. Mas foi o que ficou.

Em janeiro de 1987, quando saí do CIE e voltei ao Rio, para comandar o Forte Copacabana, o livro já estava praticamente terminado, faltando apenas algumas introduções de uns poucos capítulos, alguns encerramentos de outros, o trabalho de coordenação das páginas etc. Mas o ‘grosso’ já estava terminado.

Em junho ou julho de 1987, recebi um radiograma do Coronel Del Nero dizendo que o livro já estava encerrado, que continha cerca de 1.200 páginas, que havia sido entregue para o Ministro do Exército e que me cumprimentava pelo trabalho. O Coronel Del Nero foi o coordenador de tudo. Os dois escribas principalmente fomos eu e esse coronel de Cavalaria. Esse livro nunca foi publicado e não entendi o porquê, talvez o próprio General Leônidas e outros ministros tenham suas razões” (Coronel Romeu Antonio Ferreira, Tomo 9, pg. 359-361).

Obs.

Inicialmente, o “ORVIL”, classificado como “RESERVADO”, apareceu digitalizado no site A Verdade Sufocada, da esposa do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, Joselita Ustra -https://www.averdadesufocada.com/images/orvil/orvil_completo.pdf.

O livro do General Del Nero, “A Grande Mentira”, está baseado no conteúdo do “ORVIL”.

Em 2008, o Tenente-Coronel reformado Lício Augusto Maciel e o Tenente reformado José Conegundes Nascimento lançaram a obra em livro, “ORVIL – Tentativas de Tomada do Poder”, pela Editora Schoba  -https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/04/orvil-tentativa-de-tomada-do-poder-no.html.

F. Maier


CONTINUAÇÃO:

Parte I

http://felixmaier1950.blogspot.com/2020/09/historia-oral-do-exercito-31-de-marco.html

 

PARTE II

http://felixmaier1950.blogspot.com/2020/09/historia-oral-do-exercito-31-de-marco_3.html  

 

PARTE III

http://felixmaier1950.blogspot.com/2020/09/historia-oral-do-exercito-31-de-marco_72.html

 

PARTE IV

http://felixmaier1950.blogspot.com/2020/09/historia-oral-do-exerctio-31-de-marco.html


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HISTÓRIA ORAL DO EXÉRCITO - 31 DE MARÇO DE 1964

Em 15 Tomos

Biblioteca do Exército Editora, Rio de Janeiro, 2003

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Tomo 1

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BIBLIOGRAFIA:

 

MOTTA, Aricildes de Moraes (Coordenador Geral). História Oral do Exército - 1964 - 31 de Março - O Movimento Revolucionário e sua História. Tomos 1 a 15. Bibliex, Rio, 2003.




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