MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

HISTÓRIA ORAL DO EXÉRCITO - 31 DE MARÇO DE 1964 - PARTE II

HISTÓRIA ORAL DO EXÉRCITO

31 DE MARÇO DE 1964 

PARTE II




Havia um golpe de Jango em andamento, que estava previsto para ocorrer no dia 1º. de maio de 1964, Dia do Trabalho, com fechamento do Congresso Nacional e do STF, e decretação do Estado de Sítio

Brizola informou esse fato secretamente ao governador de São Paulo, Adhemar de Barros, que ficou na moita, concordando tacitamente com o golpe.

Assim, São Paulo seria o primeiro Estado a se sublevar, para a instalação de uma República Sindicalista.

“No meu entender, foi uma Contrarrevolução, porque a revolução estava preparada para eclodir no dia 1º. de maio, conforme o então Deputado Leonel de Moura Brizola anunciara para o Adhemar de Barros. A Capital de São Paulo fora escolhida para sediar o início do evento, conforme declarou o próprio Governador paulista. Por algum tempo, manteve silêncio, porque eram aliados políticos. Mas Adhemar viu mais alto e rompeu, uns meses antes, com a turma do Brizola” (Major João Barcelos de Souza, Tomo 15, pg. 358-359).

“Houve um fato muito importante, em fevereiro de 1964, que foram as denúncias feitas pelo Governador Adhemar de Barros, que afirmava ter sido instado pelo Presidente João Goulart a participar de uma reforma política da Constituição, que transformaria o País em uma república sindicalista. Os governadores que não estivessem de acordo sofreriam intervenção federal em seus Estados. Isto preocupou muito as lideranças políticas. Sei disso porque ele procurou o Marechal Denys em sua residência, em fevereiro de 1964. O Marechal, na ocasião, pediu-lhe que divulgasse, o mais que pudesse, aquelas denúncias” (General-de-Exército Rubens Bayma Denys, Tomo 1, pg. 161). O General Bayma Denys é filho do Marechal Denys.

 

 

Adhemar de Barros e a compra fracassada de armamento na Argentina

“No início de 1964, creio que perto de janeiro, recebi e Uruguaiana o Coronel-Aviador Carlos Affonso Dellamora, meu concunhado, com a missão de conseguir armamento na Argentina, para ser levado a São Paulo, porque não se sabia o que iria acontecer. Fazíamos uma avaliação do que estava ocorrendo em todo o Brasil, e são Paulo também estava preparado para dar um basta naquela situação.

Estabeleci contato com a Argentina, e isso era uma coisa anormal, pelo fato de um E2 estar fazendo ligação... Graças a Deus, não acarretou complicação, e deu-se um encontro na casa de um arquiteto, chamado Osvaldo silva, no lado brasileiro. Essa família Silva era uma família udenista ‘roxa’: além do Osvaldo, o Trajano, o Carlos e o Antônio. Eram os homens da mais inteira confiança e totalmente integrados à conspiração. Eles é que providenciaram o encontro do Dellamora com argentino, para concretizar a aquisição.

(...)

Bem, dali o Dellamora foi a uma estância próxima a Uruguaiana, fez a demarcação de um campo de pouso para DC3, justamente para levar esse armamento. Isso aconteceu no início de 1964, mas não chegou a se concretizar. Apenas, ocorreu o seguinte: o contrabandista de armamento foi preso na Argentina, e o comandante da Guarnição, Coronel Rodolfo Noé, Comandante do Regimento de Infantaria, fez-me um convite para ir a Paso de Los Libres. Fui, já sabendo da prisão do encarregado do contrabando.

(...)

Liberaram a pessoa e o armamento? [entrevistador]

Não, não tinha armamento. Aquele camarada ainda estava negociando. Mais tarde, fiquei sabendo que o suprimento financeiro correria por conta do Adhemar de Barros. Ele estava atrás de toda história e o intermediário com o Dellamora tinha sido o Brigadeiro Bournier” (Coronel José Campedelli, Tomo 15, pg. 277-278).

 

Em 2 de março de 1964, estudantes impediram a aula inaugural do reitor da Universidade Federal da Bahia, Clemente Mariani

O fato pode ser conferido no link http://felixmaier1950.blogspot.com/2020/07/reitor-e-proibido-de-proferir-aula.html.

 

 

Comício da Central do Brasil, em 13 de março de 1964

 

Em 13 de março de 1964, em comício na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, Jango começou a cavar sua cova política.

O Comício da Central foi realizado estrategicamente no terminal de trens no centro do Rio de Janeiro; com a paralização dos trens feita pelos sindicatos no final do dia, a população não pode voltar para casa e se aglomerou no terminal, próximo ao Ministério da Guerra (Palácio Duque de Caxias); além disso, o governo Goulart disponibilizou dezenas de ônibus, para trazer manifestantes de vários bairros e cidades da Baixada Fluminense, com os custos pagos pela Petrobras. Sempre a Petrobras...

As medidas anunciadas por Jango, nesse Comício, incluíam a reforma agrária, estatização das refinarias de petróleo privadas, direito a voto a analfabetos, cabos e soldados, reforma constitucional, legalização do Partido Comunista.

O que se viu no Comício, entre outras aberrações, foi o presidente do Brasil estar cercado de militares, desde o ministro da Guerra, até o mais simples soldado, quebrando os princípios basilares da hierarquia e da disciplina, coluna dorsal das Forças Armadas. O general Castello Branco, chefe do EME, também foi convidado para o evento, mas declinou do vil convite.

Calcula-se que houve cerca de 300 mil pessoas nesse Comício.

Cfr. imagens em https://www.youtube.com/watch?v=iQ_Y5TiyngA

 

“Os Generais Castello Branco, Costa e Silva e Cordeiro de Faria fizeram de tudo para afastar Jango dos comunistas; chegaram a ir ao Ministro Jair, juntos e separados, para dizer: ‘Jair, fala com o Presidente, que ele largue os comunistas e nós o apoiaremos. Ele não pode continuar como está, dominado pelos comunistas.’ Jair foi, voltou e disse: ‘Eu não posso fazer nada.’ Fomos procurar outros emissários. Nós tínhamos Kruel. Kruel foi ao próprio Presidente, de quem era amigo, para convencê-lo a largar os comunistas e também não conseguiu nada. Jango estava completamente dominado pelo Partido Comunista, todo mundo viu Oswaldo Pacheco, no palanque, ao lado de Jango, soprar o que ele devia dizer. Pacheco foi o grande mentor do comício de 13 de março, e todo o mundo percebeu, e isto fez com que, nas Forças Armadas, aqueles que ainda duvidavam não tivessem mais dúvidas, e muitos daqueles que estavam indecisos vieram imediatamente até nós para nos apoiar (General-do-Exército Antonio Carlos da Silva Muricy, Tomo 14, pg. 38).

 

“Comício das lavadeiras”

“No dia 13 [de março de 1964], deu-se o comício da Central do Brasil, ao lado do edifício do então Ministério da Guerra e do Comando do I Exército. A turbamulta foi se formando nas proximidades da Praça da República e se concentrou em frente à Central do Brasil, protegida pela Polícia do Exército, por determinação do Comando do I Exército. As provocações prosseguiam sob a batuta das lideranças comunistas e entidades comprometidas, como UNE, CGT, CNTI e outras. Ao comício, compareceram o Presidente da República e todos os ministros, inclusive os militares. Os oradores, que não foram poucos, exigiam as ‘reformas na lei ou na marra’, a instalação de uma Constituinte, o fechamento do Congresso Nacional e todo o poder para os sindicatos” (General-de-Brigada Manoel Theóphilo Gaspar de Oliveira Neto, Tomo 4, pg. 96-97).

“Para o comício do dia 13, na Central do Brasil, o presidente da Petrobras, General Osvino Ferreira Alves, paralisou os serviços da empresa e pagou ônibus e alimentação para que seus funcionários participassem da massa que compôs o comício. Outros setores da administração também tomaram essas providências. É como se faz quando se arregimenta gente para comício de quem quer que seja. Em Brasília pegavam até mendigo, morador embaixo de ponte, para participar destes ‘atos cívicos’. Esperava-se então uma reação desses grupos, o que não aconteceu.

Enquanto isso, o Chefe da Casa Militar, General Argemiro de Assis Brasil, alardeava que seu esquema militar estava a postos e pronto para agir. Os fatos mostram que não existia o tal esquema. Apenas alguns comandos – mais por lealdade ao então Ministro Jair Dantas Ribeiro, que no momento estava doente – se posicionaram contra a Revolução. Acho que na área militar, praticamente, não havia vinculação político-ideológica com o Governo. Daí o fracasso do esquema montada pelo General Assis Brasil. Na hora, falou amis alto aos militares a preocupação com os destinos da Pátria” “General-de-Brigada Egêo Corrêa de Oliveira Freitas, Tomo 8, pgl 216-217).

“Há até uma piada feita na época, chamando o comício da Central de ‘comício das lavadeiras’: só tinha tanque e trouxa. Os tanques eram os carros de combate e os trouxas eram os caras que estavam lá.

(...)

É só consultar as revistas da época: bandeiras vermelhas com foice e martelo, viva Cuba, fora os gorilas... Uma provocação e agora querem tapar o sol com a peneira...

Havia uma revolução comunista em andamento em nosso País. Eles queriam tomar não só o Brasil na América Latina, mas a Argentina, o Uruguai, o Paraguai, a Bolívia, o Peru, a Colômbia e o Chile” (Tenente-Coronel Carlos Claudio Miguez Suarez, Tomo 9, pg. 385).

“O comício do dia 13 foi a maior farsa da história, porque eles marcaram o comício para a praça em frente à Central do Brasil, do lado do Ministério da Guerra. Os encarregados do comício bloquearam todas as linhas de trem do subúrbio e da periferia do Estado da Guanabara; ninguém podia embarcar para os ramais de Santa Cruz e Japeri, a partir das 5h da tarde; então, começou a juntar gente que queria ir para casa e não podia. Não tendo outra alternativa, ficavam ali para assistir. O planejamento para aumentar a assistência foi muito bem bolado! O pessoal do Exército, principalmente o de Informações, assistiu ao comício das janelas laterais do Palácio Duque de Caxias, em frente à praça.

Não obstante, além das cento e tantas mil pessoas que ficaram retidas na Central do Brasil, outras foram trazidas da Baixada Fluminense e até de Volta Redonda em ônibus alugados pela Petrobras, com o dinheiro da Petrobras, da Presidência da República e dos empreiteiros que deviam favores a Jango. Isso quem conta é o Samuel Wainer, não sou deu, ele conta porque assistiu às negociações.

Outro que fala dessas negociações é o Aberlardo Jurema, no livro ‘Sexta-Feira 13’. Por causa do comício, ele batizou o livro de ‘Sexta-Feira 13’ ” (Coronel-Aviador Gustavo Eugenio de Oliveira Borges, Tomo 10, pg. 288-289).

 

Documento “Lealdade ao Exército”

“Nessa altura, já estávamos convencidos de que teríamos de sair da atividade ofensiva, antes que pudéssemos ser surpreendidos pelo golpe que o Governo iria dar. E começávamos então a nos articular para a luta, agora já abertamente. Viajava-se para cá, viajava-se para lá, mandava-se emissários. Redigiu-se o documento ‘LeEx’ (Lealdade ao Exército), que foi formulado basicamente pelo General Cintra, levado ao Cordeiro, depois ao Castello, e foi batido à máquina pelo Superintendente da Cruzeiro do Sul, o Ribeiro Dantas. Esse documento que foi espalhado pelo Brasil inteiro informou muitos militares sobre o nosso movimento.

Depois da Revolução, a um oficial vindo do Sul, que encontrei no Rio, o Coronel Léo Etchegoyen, perguntei: ‘Como é, Léo? O Rio Grande estava tão difícil...’ ‘Ah, o documento LeEx nos esclareceu muito e fez com que pudéssemos ganhar muitos elementos para o nosso lado” (General-do-Exército Antonio Carlos da Silva Muricy, Tomo 14, pg. 38-39).

 

Velas acesas nas janelas dos apartamentos do Rio de Janeiro

“O desencadeamento mesmo foi feito pelas mulheres, porque depois do comício da Central do Brasil, em todo o trajeto desde a Avenida Rio Branco até o fim da Zona Sul do Rio, havia velas acesas nas janelas dos apartamentos em sinal de tristeza pela situação e pedindo a Deus que desse uma solução. Aquele protesto evoluiu para as Marchas da Família com Deus pela Liberdade, que só no Rio de Janeiro reuniu quase um milhão de pessoas e em São Paulo outro tanto.

E a maior resistência? Vou dizer, a maior resistência foi a dos militares. É difícil quebrar a disciplina, a hierarquia e aquele amor à legalidade que são apanágios do militar. Ele é muito enquadrado; fazê-lo revoltar-se não é fácil” (General-de-Exército Ruy de Paula Couto, Tomo 13, pg. 42).

Obs.:

Na entrevista, o General Ruy de Paula Couto entrega um Anexo, que foi transcrito no livro, “A REVOLUÇÃO DE 31 DE MARÇO DE 1964 NA 3ª. DI”, assinado pelo Gen Div José Canavarro Pereira, Cmt da 3ª. DI, onde são descritos com detalhe a evolução da Revolução no Sul do Brasil, os antecedentes, a ação final, bem como o apoio da população e o moral da tropa - pg. 48-82.

À pg. 66, lê-se:

“Cerca de 17:00 horas o Gen Poppe de Figueiredo [Comandante da 3ª. DI] foi chamado ao telefone pelo Gen Ladário [Comandante do III Exército]. Nesse contato, o Gen Poppe de Figueiredo deu-lhe conhecimento de sua decisão.

O Gen Ladário Pereira Telles então disse-lhe:

- ‘Poppe, você está cometendo uma traição’.

Ao que o Gen Poppe de Figueiredo respondeu-lhe:

- ‘Traição está cometendo você, permitindo a comunização do País’.

Após essas palavras o Gen Ladário Pereira Telles disse:

- ‘Está bem, vou desligar’.

F. Maier

 

CGT dá ultimado ao Congresso Nacional

“Já se sabia, antes de março de 1964, do desejo explícito do Presidente João Goulart – com o apoio parlamentar de que dispunha – de transformar o Brasil numa república sindicalista, inclusive com data certa para a deflagração do golpe: 1º. de maio de 1964. A frente parlamentar que foi instituída no Congresso Nacional não permite dúvida sobre ter sido a força primeira que daria respaldo ao presidente, para a implementação deste seu desejo” (Juiz Stênio Rocha Carvalho Lima, Tomo 12, pg. 316).

“No dia 16 [de março de 1964], o CGT, aquele que ia me tirar da EsAO... deu um ultimato ao Congresso Nacional. Isto parece mentira, mas aconteceu. Pergunto: que democracia é esta, que admite uma organização de trabalhadores dar um ultimato ao Congresso? Deu um ultimato: ‘Tem trinta dias para fazer a reforma da Constituição ou, então, nós vamos tomar medidas concretas’. E, aí, surgiu a célebre expressão ‘na lei ou na marra’, dita pelo CGT, através de seus principais dirigentes, os pelegos Dante Pelacani, Oswaldo Pacheco, Clodsmith Riani e aquela gente toda, especializada em baderna e ameaças” (General-de-Exército Jonas de Morais Correia Neto, Tomo 9, pg. 39).

“No dia 16 de março, o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) deu um ultimato ao Congresso Nacional, exigindo que fosse votado o regime sindicalista, com vigência a partir do dia 1º. de maio. Esse fato veio a ser confirmado pelo embaixador soviético acreditado no Brasil e por documentos dos arquivos de Moscou, liberados aos pesquisadores” (General-de-Divisão Théo Espindola Basto, Tomo 12, pg. 129).

 

MARCHAS DA FAMÍLIA COM DEUS PELA LIBERDADE

 

No dia 19 de março de 1964, Dia de São José, padroeiro da família, houve a resposta da população ordeira, que promoveu a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, em São Paulo, com mais de 500 mil pessoas, que pediam a Deus e às Forças Armadas que impedissem que o Brasil se transformasse em um país comunista.

Cfr. https://www.youtube.com/watch?v=dzOENN8WiJY

 

Pedido de socorro aos militares

 

“Passamos a divulgar nossas teses através de cursos, aulas, conferências e publicações. Editamos um jornal chamado Catolicismo, que substituiu O Legionário, que fora confiscado pelo Cardeal [Mota]. Enfim, colaboramos muito na preparação da opinião pública católica para preveni-la contra o crescimento abusivo da socialização, no Brasil.

Posso afirmar que as Marchas da Família com Deus pela Liberdade, tanto em São Paulo como em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, não foram promovidas pela TFP, mas nasceram de uma ação adrede preparada da TFP, esclarecendo os meios católicos de que a Igreja era contrária aos princípios marxistas. Creio que se não houvesse essa atuação, eles não teriam aderido a essa marcha. Assim, a grande preparadora psicológica das marchas foi a TFP e essa, na minha opinião, foi a maior colaboração da TFP à Revolução de 31 de Março de 1964” (Doutor Adolpho Lindenberg, Tomo 7, pg. 299).

“A Igreja estava do nosso lado, muito preocupada com o avanço do comunismo internacional, até porque a Igreja já tinha pago um preço muito alto numa revolução pouco citada, que foi, aliás, a Guerra Civil na Espanha, onde os religiosos, tanto homens como mulheres, era trucidados pelas tropas chamadas de republicanos. Os republicanos da revolução eram comunistas, apenas eles nunca se declaram abertamente como comunistas, eram republicanos. Mas massacravam os conventos, violentavam as irmãs de caridade, castravam os padres, morticínio terrível. Isso nos anos de 1937, 1938 e 1939. Foi o que passou à História como a Guerra Civil na Espanha.

Depois, eles já tinham pago um preço altíssimo na Rússia, porque muitas igrejas católicas de lá – o cristianismo ortodoxo – foram incendiadas e outras transformadas em museus, em depósitos de suprimentos, mudando a sua finalidade. Como o espírito religioso russo é muito acentuado, eles não conseguiram destruir esse espírito e a prova disso foi observada quando caiu o Muro de Berlim, símbolo da queda do regime comunista na Rússia, e a Igreja ressurgiu com força redobrada, porque jamais tinha deixado de existir apesar de todo anticlericalismo dos comunistas russos” (General-de-Brigada Acrísio Figueira, Tomo 14, pg. 139).

 

 

Agradecimento aos militares

 

“No dia 31 de março, obedecendo a ordens superiores, dirigi-me à Casa de Detenção [Recife, PE], comandando um destacamento, e rendi a guarda da Polícia, que não ofereceu resistência: saiu, em forma, direitinho para o seu aquartelamento.

 

Ocupei a Casa de Detenção com o meu contingente, respondendo pelo cargo de diretor daquele estabelecimento penal, por dois dias.

 

Fato interessante é que, no primeiro ou segundo dia, estava no gabinete, quando um soldado veio dizer-me que havia uma comissão de senhoras da sociedade do Recife, na calçada, querendo falar comigo.

 

Era a Marcha da Família com Deus pela Liberdade.

 

Fui até a calçada e recebi as homenagens daquelas senhoras capitaneadas pela esposa do escritor Gilberto Freyre, dona Madalena Freyre, que me presenteou com uma corbelha. Fiquei assim muito agradecido por aquele reconhecimento público da sociedade pernambucana, pelo serviço que nós, do Exército, estávamos prestando, ao eliminarmos a ameaça que pairava sobre a cidade do Recife, mantendo a Casa de Detenção em nossas mãos” (Tenente-Coronel José Lyra de Almeida, Tomo 6, pg. 248).

 

“Devo mencionar, ainda, outro belíssimo espetáculo, hoje igualmente deixado em conveniente esquecimento: a grande Marcha de Agradecimento ao Exército, quando cinquenta mil pessoas percorreram, sob palmas, a principal artéria urbana da cidade [Santa Maria, RS], que termina em face do atual quartel da 6ª. Brigada de Infantaria Blindada (6ª. Bda Inf Bld). Espontânea descarga emocional de uma população que, por infindáveis meses, vivera aterrorizada por ameaças de ‘paredón’, como se aqui fosse Cuba; por arreganhos contra os ‘gorilas’; por fechamento, sob pressão, das lojas de comércio; por tensão interminável; por greves e comícios de inaudita truculência” (Tenente-Coronel Alexandre Máximo Chaves Amêndola, Tomo 8, pg. 411).

 

“A Igreja, tenho as fotografias, posicionou-se contra a comunização do País, começando por São Paulo, onde participou da primeira Marcha da Família com Deus pela Liberdade, realizada em 19 de março de 1964. Naquela oportunidade, reuniram quase um milhão de pessoas, com destaque para as mulheres paulistanas. Posteriormente, no dia 2 de abril, depois de vitoriosa a Revolução, reuniram cerca de um milhão de pessoas no Rio de Janeiro, com a Igreja apoiando integralmente. E o Cardeal Evaristo Arns foi abençoar as tropas mineiras na chegada ao Rio de Janeiro” (Tenente-Coronel Carlos Claudio Miguez Suarez, Tomo 9, pg. 384).

 

“Emociona-me lembrar dessa marcha. Minha pranteada mãe participou desse movimento junto com as senhoras da CAMDE (Campanha da Mulher pela Democracia). Na Cidade de Petrópolis, onde tínhamos a nossa casa, ela entregou um ramo de flores ao General Muricy (Antonio Carlos da Silva Muricy). Na ocasião, minha mãe fez o discurso, em nome das senhoras presentes, quando de forma eloquente se concedeu ao General a honra ao mérito pela participação no Movimento. O General Muricy representava as Forças Armadas, particularmente o Exército, que tornou possível a vitória do Movimento 31 de Março. Sem o Exército, espinha dorsal do Movimento, não haveria o triunfo, mas o campo psicossocial, tão bem simbolizado na Marcha da Família com Deus pela Liberdade, foi muito importante” (Doutor Emílio Antonio Mallet de Souza Aguiar Nina Ribeiro, Tomo 10, pg. 251).

 

“Aproximadamente dois meses após o 31 de Março, já vivendo a rotina da vida acadêmica, ao retornar à ala da Artilharia após um dia de instrução, recebi a notícia de que haveria um desfile em Belo Horizonte para comemorar a vitória da Revolução e que quatro cadetes de Artilharia seriam sorteados para integrar a representação da AMAN. Eu fui um dos sorteados!

 

Viajamos numa aeronave C-47, decolando do campo de aviação de Resende. Só estou citando isso porque o desfile que fizemos em Belo Horizonte foi a mais apoteótica manifestação de apoio ao Exército que me lembro de ter visto em toda a minha vida! Basta dizer que, enquanto desfilávamos, a população, maciçamente presente nas ruas, jogava sobre nós pétalas de rosas. Ao final, o itinerário do desfile estava literalmente coberto de flores; foi uma festa popular grandiosa, como se a população estivesse expressando, com o máximo entusiasmo possível, o agradecimento pelo alívio que lhe trouxemos, ao colocar um ponto final na agitação insuportável vivida pelo País. Nenhuma outra manifestação poderia ilustrar de forma mais clara o irrestrito, absoluto e incondicional apoio do povo brasileiro ao Movimento de 31 de Março de 1964” (General-de-Divisão Ulisses Lisboa Perazzo Lannes, Tomo 15, pg. 130-131).

 

Circular Reservada, do general Castello Branco, chefe do EME, emitida em 20 de março de 1964

Alertava o País sobre o avanço do comunismo, afirmando que “A insurreição é um recurso legítimo do povo”.

“Quando Castello Branco escreveu, a 20 de março de 1964, a Circular Reservada dirigida ‘aos generais e demais militares do EME e das Organizações subordinadas’, desejou mostrá-la ao General Jair Dantas Ribeiro, Ministro da Guerra, antes de sua distribuição. Infelizmente, o Ministro estava doente, mas redigiu-lhe uma carta, contendo a interpretação de cada trecho da Circular. Todos tinham noção de qual era o seu pensamento. Eu levei a carta até a residência do General Jair, no bairro Riachuelo, subúrbio do Rio, que após lê-la disse-me: ‘Depois eu falarei com o Castello’ ” (Coronel Anysio Alves Negrão, Tomo 15, pg. 340).

Obs.:

Em 1964, o Coronel Anysio Negrão era Capitão Ajudante-de-Ordens do General Castello Branco.

Cfr. a “Circular Reservada” do General Castello Branco em https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/04/circular-reservada-do-chefe-de-estado.html

F. Maier

 

A Revolta dos Marinheiros no Sindicato dos Metalúrgicos, em Benfica, Rio, no dia 25 de março

Marinheiros e fuzileiros rebelados, em passeata, sob liderança do Cabo Anselmo, carregaram nos ombros o Almirante Cândido Aragão

“Poucos dias mais tarde, um grupo de marinheiros, liderados pelo tal cabo Anselmo, revoltou-se e promoveu agitada reunião no Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro. Tropas do Exército cercaram o edifício e após horas de confabulação, prenderam os insurretos, mas João Goulart determinou que os mesmos fossem libertados e demitiu o Ministro da Marinha.

A ordem presidencial para a liberação dos marinheiros presos, a presença do comunista Hércules Corrêa e outros, nos quartéis, para verificar o cumprimento da ordem do Presidente, e a passeata vexatória que se seguiu, com marinheiros desuniformizados carregando o Almirante Aragão nos ombros, atingiram violentamente os brios dos militares – oficiais, sargentos e soldados – ferindo a dignidade das Forças Armadas” (General-de-Brigada Niaze Almeida Gerude, Tomo 11, pg. 95-96).

“Não satisfeitos em fazerem o Comício da Central do Brasil, eles promoveram a rebelião dos marinheiros, a revolta dos marinheiros. É interessante assinalar que, naquela época, o filme sobre o Encouraçado Potenkin – onde houve uma revolta de marinheiros em que os oficiais russos foram jogados ao mar por eles – era passado em todos os quartéis da Marinha de Guerra, justamente para servir de exemplo, para que os nossos marinheiros seguissem e fizessem a mesma coisa com os seus oficiais. Inclusive, tínhamos um almirante fuzileiro naval que, na tal revolta, deixou-se carregar nos ombros dos marinheiros: era o Almirante Cândido Aragão, que optara por dar golpes fatais na hierarquia e na disciplina. Isso tudo para nós, tenentes e capitães, era inconcebível. Como é que um almirante fardado se deixava carregar nos ombros por marinheiros em impressionante baderna? Era uma inversão total de tudo que havíamos aprendido na vida militar. Quer dizer, era um chefe populista que estava fazendo o jogo do Governo do Presidente João Goulart” (General-de-Brigada Acrísio Figueira, Tomo 14, pg. 136-137).

Obs.:

Nos anos de 1970, eu vi o filme “Encouraçado Potenkim” na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no Centro do Rio de Janeiro. Na saída, havia distribuição de folhetos criticando o governo militar. O filme, do russo Serguei Eisenstein, pode ser visto em https://www.youtube.com/watch?v=3U_SsH9Rl2E.

Na mesma época, fiz um cursinho no Centro do Rio, sobre Economia e Finanças, com vistas a um concurso público da Receita Federal que não prosperou. Um dos professores, ao falar sobre o AI-5 – o que fazia com frequência -, dava uma rebolada e dizia: “Ai, cinco!”.

Que ditadura foi essa, companheiro?

F. Maier

 

Em 26 de março, Carlos Marighella declara:

“O Partido [PCB] precisa se preparar, pois está em vias de assumir o Poder” (in “A Verdade Sufocada”, pg. 67).

 

A reunião de sargentos no Automóvel Clube, no Rio de Janeiro, em 30 março

Com a presença do presidente João Goulart, foi a “gota d’água” para o desencadeamento da Revolução de 31 de Março de 1964:

“A quebra de disciplina nas Forças Armadas foi proposta pelo Comandante-em-Chefe, João Goulart, no Automóvel Clube do Brasil, na reunião com os marinheiros, um espetáculo terrível de indisciplina. Foi assistido pela televisão, praças e sargentos jogando gorros para o ar, abraços, e ele, o Presidente, se inflama, sai do roteiro – estava lendo o discurso que defendia aquelas reformas que pretendia – e conclamava à indisciplina: ‘que os graduados se unam ao povo e vamos, todos, impor ao Congresso a nossa vontade’. Isso foi sugerido pelo Comandante-em-Chefe das Forças Armadas, pelo Presidente da República” (General-de-Divisão Geraldo de Araújo Ferreira Braga, Tomo 2, pg. 103-104).

“No dia 30 [de março de 1964], no Automóvel Clube do Brasil, no Rio de Janeiro, sargentos, cabos e soldados ofereceram um almoço ao Presidente da República e a seus ministros, ocasião em que se repetiram as mesmas exigências do dia 13, com o apoio e reforço do Chefe do Governo. Era a agressão frontal à ordem vigente, comandada pelo próprio Presidente da República, com desrespeito à Constituição e ao Congresso Nacional, com a intenção de desestabilizar as Forças Armadas, quebrando-lhes a disciplina e afrontando-a. Era, sobretudo, uma agressão ao povo e à Nação, cuja tranquilidade deu lugar a uma inquietação indefinida e constrangedora” (General-de-Brigada Manoel Theóphilo Gaspar de Oliveira Neto, Tomo 4, pg. 97).

“É provável que este terceiro fato [reunião no Automóvel Clube do Brasil] tenha feito o General Mourão Filho precipitar os acontecimentos, pois a eclosão do Movimento estava prevista para 2 de abril de 1964, por razões táticas, como já disse. De qualquer forma, essa eclosão tinha que ocorrer antes de 1º. de maio de 1964, Dia do Trabalho, data que vários documentos da cúpula comunista indicavam para a implantação final do comunismo no Brasil” (Coronel Genivaldo Catão Torquato, Tomo 4, pg. 142).

“Vale lembrar que o General Mourão Filho, em Minas Gerais, estava dentro da conspiração com o Cordeiro de Farias e com o Marechal Denys que se deslocou para Juiz de Fora. O Mourão Filho foi dormir cedo no dia 30 de março, ele dormia muito cedo e acordava muito cedo, como bom ‘milico’.

Por volta das 7h, 8h da noite, sua esposa acordou-o e disse: ‘Mourão, você tem que assistir isso aqui’. Era a televisão, mostrando a reunião do Automóvel Clube do Brasil. Muito a contragosto, ele se levantou e sentou diante da televisão.

Quando acabou a reunião do Automóvel Clube do Brasil, ele já estava fardado, 45 na cintura, caminhando para a 4ª Região Militar, em Juiz de Fora, para dar partida no Movimento armado, para acionar a tropa, adotando aquele princípio da surpresa do Sun Tsu, general chinês que sabia tudo sobre guerra. As coisas que aquele homem deixou escrito são impressionantes e o General Mourão as leu e adotou.

Deu partida, portanto, no dia 31 de março, antecipando-se à proposta, ainda meio no ar, de outras lideranças de iniciar a Revolução no dia 3 de abril. Ele se antecipou. E, segundo Sun Tsu, ele tinha razão, porque textualmente ele diz que a precipitação, às vezes, é prejudicial, mas quem não se antecipa aos fatos está fadado à derrota” (Coronel-Aviador Gustavo Eugenio de Oliveira Borges, Tomo 10, pg. 290-291).

 

Em 30 de março, a ECEME estava rebelada

“O Coronel Cesário (Luiz Cesário da Silva), pai do General que hoje chefia o Centro de Comunicação Social do Exército (CComSEx), chegou a nossa sala e suspendeu a aula em curso. Informou que a Escola estava rebelada e que a partir daquele momento só obedeceria às ordens do Chefe do Estado-Maior do Exército, General Castello Branco” (Coronel Hélio Lourenço Ceratti, Tomo 13, pg. 183).

 

Em 30 de março, o General Guedes se declara rebelado

O Comandante da 4ª. Infantaria Divisionária (ID/4), sediada em Belo Horizonte, General Carlos Luís Guedes, reúne os oficiais no quartel e se declara rebelado.

 

31 DE MARÇO DE 1964: O “GRANDE MUDO”, ENFIM, FALOU!

Em 31 de março, o General Olympio Mourão Filho anuncia a rebelião de Minas Gerais e escolhe o General Muricy para comandar o Destacamento Tiradentes em direção ao Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo, cria o Destacamento Caicó, para progredir em direção a Brasília.

“Naquela época, havia um jornalista de muito prestígio aqui no Rio de Janeiro, David Nasser, que fez um artigo que ficou muito conhecido, chamando o Exército de o grande mudo, porque não estava se pronunciando diante do clima de subversão e de desordem implantado de Norte a Sul do País. Até que o Exército se pronunciou e o nosso prestígio era de tal monta que só o fato da tropa sair de Minas e tomar o caminho do Rio de Janeiro, sucessivas adesões de tropas se seguiram, inclusive de Unidades que eram consideradas da confiança do Presidente da República, todas aderindo ao Movimento Revolucionário de 31 de Março de 1964, que uniu a grande maioria dos brasileiros contra o governo do caos” (General-de-Brigada Acrísio Figueira, Tomo 14, pg. 137-138).

 

Revolução Redentora e Contrarrevolução – antecipação ao golpe de 1º. de maio de 1964

 

“Redentora, porque a Revolução de 1964 foi o óbice à segunda tentativa de comunizar este País, não há dúvida nenhuma. Temos várias declarações muito importantes sobre isso, ninguém pode negar. Em dois de junho daquele ano, a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), constituída por pessoas gabaritadas e preparadas que, em função de sua responsabilidade, não saíam dizendo coisas desbaratadas, assim se manifestou: ‘Graças às Forças Armadas que nos tiraram das mãos do comunismo, agora podemos respirar livremente’.

 

Outra declaração também importante foi a do General Amaury Kruel, Comandante do II Exército, que tarde da noite de 31, talvez vinte e três horas, telefonou para o Presidente Jango, dizendo-lhe que ele o apoiaria, desde que abandonasse os comunistas. Jango respondeu que não poderia abandonar as suas bases. Esse diálogo foi presenciado pelo Décio Freitas, atual colunista dominical da Zero Hora. Parece clara essa parte, redimimos o Brasil.

 

Contrarrevolução, porque está mais do que provada a pretensão de se instalar uma República Comuno-Sindicalista. Dois relatos comprovam isso: no início de 1964, Adhemar de Barros confidenciou aos íntimos que Brizola lhe falara em uma República Sindicalista a ser proclamada no Brasil por João Goulart durante o discurso comemorativo do 1º. de maio – uma tradição trabalhista de Vargas. Em março do mesmo ano, Adhemar procurou o Marechal Denys em sua casa e, muito agitado, disse-lhe:

 

- Vim agora mesmo do Palácio do Planalto onde o Jango me convidou para o golpe que dará.

 

E explicou como seria:

 

- No dia 19 de abril – aniversário de Getúlio Vargas – haverá um grande comício comemorativo em Belo Horizonte. Nele ocorrerão badernas de grandes proporções para justificar a intervenção em Minas Gerais e, no dia 1º. de maio, será outorgada a Constituição que implantará no País o regime sindicalista.

 

A situação estava nesse pé, avermelhando-se dia a dia e a nação assombrada. Nós, que vivemos aquela época, embora julgássemos que quase tudo estava perdido, continuávamos firmes na resistência. Um dia eu disse para o General:

 

- Se amanhã tivermos que sair para a rua só com um pelotão, vamos sair.

 

Era horrível, tal a propaganda espalhada. Felizmente, o povo e principalmente as mulheres foram tomando consciência, ficando apavorados e organizaram as grandes passeatas em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo, que tiveram uma enorme influência nesse processo; milhares de pessoas espontaneamente na rua com o slogan: Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Sobre isso o General Cordeiro de Faria (Oswaldo Cordeiro de Faria) comentou o apelo de várias mulheres que chegavam a ele quase em tom de insulto:

 

- O que os senhores estão esperando que façamos, para saírem às ruas?” (General-de-Brigada Ramão Menna Barreto, Tomo 13, pg. 137-138).

 

 

A Revolução era para começar no dia 4 ou 5 de abril de 1964

 

“O Governador Magalhães Pinto e o General Olympio Mourão Filho tinham a convicção de que tudo que era necessário fazer fora realizado. O retardamento só traria dificuldades mais adiante. Mas o que desejava o Presidente Castello Branco? Já comentamos isso: a conversa do Coronel Confúcio Pamplona com o General Adalberto Pereira dos Santos, Comandante da 6ª. Divisão de Infantaria, em Porto Alegre. Castello Branco, no dia 31, enviou o General Alfredo Malan, que levava uma data para o início da Revolução: 4 ou 5 de abril.

 

O General Alfredo Malan confirmaria ao General Adalberto Pereira dos Santos, em Porto Alegre, Comandante da 6ª. DI, que o início do movimento estava previsto para 4 ou 5...

 

Primeiro, o Coronel Confúcio Pamplona, que entregou mensagem redigida de próprio punho pelo General Castello.

 

Mas não houve precipitação. Apenas o Governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto, e o Comandante da 4ª. Região Militar, General Olympio Mourão Filho, entenderam que não havia mais o que esperar. E quanto mais cedo melhor, até porque o fator surpresa seria peça importante naquela empreitada” (General-de-Brigada Danilo Venturini, Tomo 15, pg. 154).

 

Um aparato brancaleone sai de Minas Gerais

 

As unidades rebeladas que saíram de Minas para o Rio de Janeiro eram um aparato bastante improvisado, que tiveram o apoio de aviões de aeroclubes, radioamadores, ônibus, caminhões e fuscas, cedidos ao Exército por empresários e cidadãos comuns, além de combustível para os carros do Exército e dos civis.

 

“Eu sempre mantive muito contato com o General Mourão, desde a minha época de 2º. Tenente, quando ele foi meu Comandante no 19º. RI. Ao longo dos anos, essa amizade continuou e se consolidou, mesmo depois da Revolução que teve nele um dos principais artífices. Tenho uma carta do Mourão em que ele externa em que condições sua tropa partiu de Minas Gerais. Em princípio, diz o seguinte:

 

‘Leal, como é que o movimento poderia ter sido planejado se eu estava avançando com soldados que não sabiam nem atirar? Fico pasmo de ter acontecido uma Revolução com uma tropa tão bisonha. A maioria dos soldados tinha só dois meses de instrução e estavam ainda no período de adaptação’.

 

A carta está lá para quem quiser ver. Foi o que aconteceu. O precursor da Revolução comandando uma tropa que não sabia atirar(Coronel Pedro Américo Leal, Tomo 13, pg. 257).

 

 

O General Guedes dá início à sublevação em 30 de março. Porém, o General Mourão escolhe o General Muricy para comandar as tropas de Minas, em direção ao Rio de Janeiro, em 31 de março.

 

“O Guedes, no dia 30 de março, reuniu seus oficiais em Belo Horizonte e lhes disse: ‘Não recebo mais ordens do Governo! Eu estou revoltado! Quem quiser fique comigo.’

 

E o General Guedes, ainda no dia 30 de março, começou a movimentar sua tropa. Eu, aqui, no Rio, fui informado dessa situação. Liguei para o General Geisel:

 

- Ernesto, você ouviu no rádio? Que é que há?

 

- Eu não sei, vou procurar saber.

 

Não tivemos confirmação da notícia, mas continuaram os boatos de que havia um movimento de tropas em Minas.

 

Em fins de 1963, o General Mourão, em Minas, queria um Comandante para as tropas locais quando viesse a Revolução. Eu estava sem comando. Ele tinha vindo ao Rio, em novembro ou dezembro, para ver a quem ele entregaria o comando de uma tropa. Ao convidar-me, aceitei. Eu estava sem comando e não podia ficar olhando os acontecimentos, não é do meu temperamento. Por isso aceitei.

 

Mourão não era propriamente um líder dentro do Exército, era um General com qualidades e defeitos, e sobre ele pesavam certas acusações a respeito do célebre Plano Cohen, que tinha dado margens, ou acirrado, aos acontecimentos de 1935. Ele era o homem do Plano Cohen, e não gozava de um prestígio 100%.

 

Guedes, que sempre servira em Minas, era um oficial inteligente, mas também sem penetração dentro do Exército. Mourão, quando veio ao Rio no fim do ano, me disse: ‘Muricy, quero um homem para comandar minha tropa e não acredito no Guedes” (General-de-Exército Antonio Carlos da Silva Muricy, Tomo 14, pg. 39-40).

 

“Salvo” por uma lavadeira

 

“Em torno do dia 20, o Mourão mandou dois emissários falarem comigo: o Ministro Antonio Neder – naquele tempo Juiz em Petrópolis -, e um filho do Marechal Denys, o Roberto, para saber se eu iria mesmo comandar sua tropa no movimento que se aproximava. Eu lhes disse: ‘Agora estou engajado aqui no rio, preciso ver onde sou mais útil, se lá ou cá. Amanhã dou uma resposta.’ No dia seguinte, fui falar com o Castello, com o Ademar, com o Orlando Geisel, com o Ernesto Geisel e eles disseram: ‘Você para nós é muito mais importante lá em Minas do que aqui. Lá em Minas nós não temos gente para agir.’ Então mandei um recado para o Mourão: ‘Estou à sua disposição.’ E me preparei para ir para Minas, com o então Coronel Walter Pires (Walter Pires de Carvalho e Albuquerque) e com o Tenente-Coronel Caracas Linhares (Heitor de Caracas Linhares), que seriam do meu Estado-Maior e começamos a planejar nossa ida para Minas e as ações que teríamos que executar antes de nossa partida.

 

E estávamos nesse trabalho quando veio o dia 30 e o Guedes se revolta e movimenta sua tropa. Conversa com o Mourão e com o Magalhães Pinto, que acham precipitada sua decisão mas que acabam concordando em revoltar Minas. Magalhães Pinto, que tinha preparado um pronunciamento brando, muda-o para um mais forte e iniciam juntos a revolução desejada pelo povo brasileiro.

 

Eu estava em casa no dia 31 de março, quando à 6h da manhã toca o telefone e um companheiro me perguntou:

 

- Muricy, como é? Sai hoje ou não sai?

 

- Não sei ainda!

 

Estava ouvindo notícias do movimento em Minas, o rádio avisando. Mas mal eu acabava de desligar o telefone, veio um telefonema do Ministro Neder.

 

- Olhe, General Muricy, o nosso homem partiu, o nosso homem arrancou, e quer saber a que horas o senhor estará aqui em Juiz de Fora.

 

- Bom, são 7h; tenho que pegar meus companheiros que vão commigo para Minas, mas ao meio-dia estarei em Juiz de Fora.

 

Realmente, cheguei a Juiz de Fora pouco depois do meio-dia, tendo saído do Rio às 9h pela estrada União e Indústria, dirigindo.

 

Quero dizer aqui o que disse anteriormente: nunca houve quem fizesse mais contravenções de trânsito do que eu nesse dia. Saí como um louco, mas cheguei a tempo.

 

No caminho, ocorreu um fato anedótico: Estava preocupado com o caminho a seguir e pensava com meus botões: ‘Vou para Juiz de Fora, passando por Petrópolis ou dou a volta por Teresópolis, lá por cima? Vai depender da tropa de Petrópolis, o 1º. Batalhão de Caçadores, que poderá nos prender.’

 

Mas, quando entrei na Avenida Brasil, passei pela porta do 1º. Batalhão de Carros de Combate e vi uma lavadeira com uma trouxa na cabeça entrando no Portão das Armas. Concluí: ‘Não há prontidão! Logo, eles não estão sabendo ainda o que está se passando. Vamos embora direto por Petrópolis’ ” (General-de-Exército Antonio Carlos da Silva Muricy, Tomo 14, pg. 40-41).

 

Obs.:

 

O General Muricy relata nas pg. 41 a 46 sua marcha de Minas para o Rio, as adesões de Unidades que recebe no caminho, inclusive as tropas do Regimento Sampaio, que partiram do Rio para enfrentar as tropas rebeladas de Minas.

Após o General Cunha Melo retrair sua tropa, o General Muricy prossegue no seu deslocamento:

“Passou-se uma hora e eu meti a tropa na estrada. Quando cheguei à altura de Pedro do Rio, próximo a Petrópolis, encontrei o 3º. RI inteiro, à beira da estrada: ‘General, a tropa é sua.’ Avancei mais um pouco e encontrei outra Unidade: ‘General, a tropa é sua.’ De maneira que quando entrei no Rio de Janeiro, na manhã do dia 2, eu, que tinha saído de Minas com 3 mil homens estava agora com cerca de 6 mil.

Quando cheguei, o Governador Carlos Lacerda veio ao meu encontro, abraçou-me e colocou o estádio do Maracanã à minha disposição para eu estacionar a tropa.

Aqui no Rio a situação era muito confusa. Ainda havia possibilidade de alguma reação. O General Costa e Silva, o mais antigo general da Guarnição, havia assumido o Ministério do Exército [na verdade, o Ministério da Guerra].

Deixando a tropa no Maracanã, fui ao encontro dos chefes militares. Pediram-me que mantivesse a tropa mineira aqui, pronta para agir, até que a situação ficasse tranquila. Foi o que fiz” (pg. 44-45).

 

F. Maier

 

 

O Rio Grande do Sul, por ser a terra de Jango e Brizola, mereceu um cuidado especial dos revolucionários de 1964, pois havia sério risco de ocorrer uma guerra civil, com Unidades do Exército comandadas por chefes pró e anti-Jango.

“O General Poppe foi convencido a assumir o Comando do III Exército, por ser o mais antigo. Assim sendo, o problema se resolveu da periferia [Santa Maria] para o centro [Porto Alegre].

Paralelamente a tudo isso, o Governador Leonel Brizola, ensandecido, histérico, aos gritos desesperados, mandava insistentes mensagens para os sargentos de Uruguaiana, principalmente do 4º. Grupo de Artilharia, durante a jornada de 1º. de abril. Exortava-os a pendurar, nos postes da Praça Central, em frente ao QG, e nas ruas principais, o Comandante e os oficiais. Dizia que, enquanto não conseguissem fazer isso, que pegassem suas mulheres e filhos. Mandava pendurar no poste com as solas dos pés cortadas – como faziam os farroupilhas, que penduravam o inimigo em um poste, ou numa árvore qualquer, com as solas dos pés cortadas. Em minutos, a pessoa morria, porque a sola do pé é extremamente irrigada por capilares. Tanto que os orientais usam muito os pés na acupuntura. Permitam-me estar reproduzindo, mas são expressões textuais do Brizola.

A mensagem era repetida o dia inteiro, por horas, A certa altura, dizia: ‘Aos heroicos e bravos sargentos do 4º. Grupo. Reproduzam o feito dos irmãos de Bagé. (...)

O problema mais sério ocorreu no 5º. RC de Quaraí, onde 49 sargentos, dos 53 existentes, se recusaram a cumprir ordens de se deslocarem, na manhã de 2 de abril, junto com o Regimento, para a região de Harmonia. Apenas quatro sargentos haviam permanecido fiéis ao Movimento. Um sargento disse: ‘Eu não sei o que está ocorrendo. Nós estamos com o Presidente’, e 48 o acompanharam. O Comandante os substituiu por cabos que foram comissionados para as funções desses sargentos e o Regimento deslocou-se para cumprir sua missão. Os 49 sargentos foram recolhidos ao meu Grupo, onde ficaram presos, tendo o quartel por ménage. Houve, além desses, o recolhimento de um capitão, do Grupo de Artilharia de Alegrete, que estimulara a reação dos sargentos, sobre quem, aliás, já pairava uma dúvida, agora confirmada. Excelente oficial, por sinal.

No dia 2 de abril, os sargentos e o oficial ocupavam todas as instalações da Unidade. Assim, os líderes comunistas civis foram trancafiados em compartimentos adaptados para prisão. Entre eles, um arquimilionário que jogava todas as noites na Associação Comercial e era tido como líder comunista, no Rio Grande do Sul. Na verdade, era um grande burguês. Foi o primeiro a ser preso” (Coronel Amerino Raposo Filho, Tomo 2, pg. 272).

“No trajeto para o Rio, fomos panfletados por um avião, incitando que deixássemos de cumprir o nosso intento e retornássemos. Depois, fiquei sabendo que íamos ser bombardeados por aeronave da Força Aérea, que viria do Rio de Janeiro. Por alguma razão que eu desconheço, acabou não acontecendo.

O deslocamento prosseguiu pela noite. Ao alvorecer do dia 2, adentrávamos a área urbana do Rio de Janeiro. Uma parcela do 10º. RI se dirigiu para ocupar a Refinaria Duque de Caxias e a Fábrica Nacional de Motores, e a parcela da qual eu participava encaminhou-se para o estádio do Maracanã, onde ficamos acantonados.

Fomos alertados de que a nossa tropa iria permanecer no Rio de Janeiro, por desejo do Escalão Superior, pelo fato de ser uma tropa altamente leal, enquanto a situação no Rio se definia, naquele momento de mudanças nos comandos” (Coronel Reynaldo de Biasi Silva Rocha, Tomo 3, pg. 311).

“Ainda nesse dia 2 de abril, em seguida, fui destacado, juntamente com meu Pelotão – eu era da 4ª. Companhia [do BGP] – para apresentar-me ao Comandante do 3º. Esquadrão C Mec, que estava na sede do Comando Militar de Brasília, na Esplanada. Os carros de combate estavam todos lá. Cheguei e apresentei-me ao Comandante do Esquadrão. Era o Capitão Casales (Luciano Phaelante Casales). Apresentei-me e fiquei aguardando ordens. Por volta de uma hora da manhã, fui chamado pelo Chefe do Estado-Maior, dizendo que eu deveria cumprir a seguinte missão: deslocar-me, com meu pelotão, pela BR 040, até a altura onde se encontravam as antenas da Rádio Nacional. Lá, teria que lacrar os transmissores. A Polícia Militar estava tomando conta da instalação da Rádio Nacional. Com meu pelotão deveria cercar a área e prender todos os elementos da Polícia Militar e lacrar os transmissores. Recebi a ordem e levei comigo um Major de Comunicações. Esse oficial iria lacrar os transmissores, mas estava com receio de ser preso pelas tropas de Minas Gerais. Permanecia o tempo todo com a pistola na mão, e eu alertava:

- Major, guarda essa pistola, o senhor está nervoso, daqui a pouco o senhor dá um tiro e se acidente com essa arma. Aí, o Major acalmou-se.

Chegamos no local, ele ficou na estrada e eu avancei com o pelotão; posicionei o sargento mais antigo para cobrir o meu flanco. Os PMs que estavam lá dentro não notaram a nossa chegada. Já eram duas e pouco da manhã, a maioria estava dormindo. Abri a porta, entrei e rendi todos que estavam lá. Uns dois ou três tentaram fugir, mas fechamos a porta e não conseguiram sair. Desarmamos todos eles e, a partir desse momento, avisei o Major:

- Pode chegar que há segurança para o senhor lacrar os transmissores.

Então, lacrou todos os transmissores, botou a data, assinou. A partir daí, a rede da legalidade foi neutralizada, porque o que estava ocorrendo em Brasília, era a rede da legalidade, por intermédio da qual agitadores insuflavam os candangos a quebrar lojas comerciais, a entrar nas residências etc. Silenciamos a rádio da legalidade” (Coronel Carlos Fernando Freitas Almeida, Tomo 5, pg. 290-291).

“O General Santa Rosa pregou a indisciplina no Núcleo Paraquedista, usou a tropa para desocupar um terreno particular dele. Saiu do comando. O General Pinheiro tentou a operação ‘Mata Lacerda’, dizendo que era missão para paraquedista, ganhou um apartamento da Caixa Econômica Federal para ficar calado e foi para casa. Esses homens não lideravam nada. Esquema? Era o esquema dos aproveitadores. Dos homens que tinham desvirtuado os nossos princípios, que não seguiram aqueles ensinamentos que obtivemos na caserna. Essa é a verdade! Não eram líderes, não eram chefes! Não havia esquema. O próprio Chefe da Casa Civil do Governo Goulart – Darci Ribeiro – cobrou, na hora, do General Assis Brasil, Chefe da Casa Militar, o esquema, a tropa para a defesa do Governo João Goulart. Simplesmente, não existia!” (General-de-Brigada Durval Antunes Machado Pereira de Andrade Nery, Tomo 10, pg. 185).

“O desmoronamento rápido e sem derramamento de sangue processou-se porque o esquema montado, tendo à frente o General Assis Brasil, baseava-se em benefícios, inclusive financeiros, em privilégios, promoções, numa série de favores e não numa adesão consciente.

Como já lhes falei, financiavam também casas para oficiais subalternos e capitães do QOA e QOE, sargentos e cabos engajados. Era um esquema implantado em cima de interesses.

Os comandos da Vila Militar foram entregues a coronéis do esquema, os quais, quando quiseram deslocar a tropa para enfrentar a Revolução, para confrontar conosco, não obtiveram êxito. O Governo e seus seguidores se equivocaram porque pensavam que, por conseguirem deslocar tropas durante os comícios, para dar-lhes apoio, segurança, proteção, dentro da cidade, conseguiriam também efetuar os deslocamentos que se fizessem necessários para apoiá-los politicamente em qualquer situação. O Governo enganou-se redondamente quando entendeu que as tropas que evitavam desordens nos comícios, como no do dia 13 de março, eram tropas de adesão à causa deles. Ledo engano!... Assim, os comandantes no Rio não conseguiram conscientizar a tropa no sentido da causa defendida por eles. Isso aconteceu, por exemplo, com o Comandante do Grupo-Escola que, ao deslocar-se contra São Paulo, ficou sozinho na estrada, porque, no primeiro descuido, as baterias o abandonaram passando para o lado das tropas revolucionárias. O mesmo aconteceu com o ‘general do povo’ [general Cunha Mello] que comandava a Força contra Minas; voltou para casa frustrado.

O desmoronamento processou-se porque não havia a menor capacidade de liderança naqueles que se aliaram ao governo das bravatas, ao governo da mazorca, ao governo das reformas ‘na lei ou na marra’. Além de tudo, não contavam com o mínimo prestígio no seio do povo, embora quisessem passar à História como generais e almirantes do povo” (General-de-Brigada Gerando Luiz Nery da Silva, Tomo 10, pg. 222-223).

“Quero sublinhar que ninguém melhor do que os homens responsáveis que marchavam de São Paulo contra o Rio de Janeiro, cônscios de suas limitações e deficiências, em termos de pessoal e material, ninguém melhor do que eles para avaliar o valor incomensurável desse emprego. As poucas tropas do II Exército ali envolvidas – 5º. RI, 2º. RO 105, a Bateria do CPOR/SP, BCCL (que veio de trem) e o 2º Esqd Rec Mec, hoje 2º. Esqd C Mec -, ao conhecerem a decisão do Comando da AMAN, tiveram o seu moral extremamente fortalecido.

Quanto às operações militares, o senhor pode precisar alguns objetivos estratégicos visados pelas tropas que deflagraram a Revolução? [entrevistador]

As [tropas] de Minas elegeram corretamente o Rio de Janeiro e Brasília como os objetivos estratégicos de maior relevância para definir a situação.

O Rio de Janeiro concentrava, naquela época, os Ministérios Militares, Chefias de Estado-Maior e de Departamentos e a maior parte das tropas das três Forças Singulares, além de vários órgãos de Ministérios civis, ainda não transferidos para Brasília, que era outro objetivo estratégico pro ser a capital da República.

Brasília foi também o objetivo das tropas de Mato Grosso (Cuiabá) que partiram, sob o comando do Coronel Meira Mattos, que lá desempenhou um papel relevante, sobretudo junto ao Congresso Nacional.

Para o II Exército, o principal objetivo estratégico era o Rio de Janeiro, onde estavam os ‘generais e almirantes do povo’.

As tropas do IV Exército tinham que se impor lá no Nordeste (o principal objetivo estratégico estava em Recife), assim como as do III Exército, no Rio Grande do Sul, sobretudo em Porto Alegre.

Houve deslocamento de tropas de São Paulo para o Sul, a partir do dia 2 de abril (4º. RI e 12º. GAC, na época 2º. GO 155), mas que não precisaram chegar ao destino pela rápida definição da situação em favor dos objetivos da Revolução de 31 de Março de 1964, com a fuga de Goulart” (General-de-Brigada Geraldo Luiz Nery da Silva, Tomo 10, pg. 224-225).

 

Feridos no Forte Copacabana

 

“Então sinalizei para a nossa tropa que estava tudo bem, que não era nada contra o Forte Copacabana, confesso que, de momento, não identifiquei o Coronel Montagna, mesmo porque eu não o conhecia pessoalmente. Aí, nesse momento, foi possível aos oficiais do Forte de Copacabana já alertados, inclusive por alguns tiros que aconteceram lá, virem à frente do Forte e ajudarem a completar a tomada do QG.

 

Nesse episódio, houve dois feridos: um deles foi um sargento do próprio QG, que, até onde pude saber, levou um tiro de cima para baixo, do pessoal que estava pulando o muro, porque ele teria ameaçado a vida de alguém, e um dos alunos da ECEME, que eu não sei quem, foi ferido pela baioneta de um soldado, no ombro, felizmente sem gravidade. Então, essas foram as perdas, na tomada do QG ACos/1” (Coronel Nelson Roberto Bianco, Tomo 14, pg. 331).

 

 

Um aparato brancaleone também sai de São Paulo

 

“Tínhamos a informação de que iriam dificultar o nosso movimento. Em comunicações, estávamos paupérrimos, como sempre. Rádio nós não tínhamos nada: zero. Lembro de quando fui comandar lá em Jundiaí, tínhamos cerca de oitenta estações de rádio: nenhuma funcionava. Quem nos ajudou foram os radioamadores que, em cadeia, fora da faixa, trabalharam e nos apoiaram, nos colocaram em contato com o Brasil inteiro. O próprio Comandante do II Exército falou com o Comandante da 8ª. Região Militar, de quem eu não me lembro mais o nome, para incentivá-lo a entrar na Revolução, através de ligação feita por radioamador.

 

Transporte, estávamos também a zero! Então, começamos a levantar, com antecedência, as necessidades de transporte e, quando o Chefe da 4ª. Seção da Região me procurou no II Exército para saber quais as nossas necessidades em transporte, eu lhe disse: ‘Vá à rua tal, número tal, que é o escritório do doutor Paulo Egídio Martins – que depois foi Governador de São Paulo – e lá está a nossa mobilização de transporte.’ Eu já tinha dado a ele as nossas necessidades de transporte para o pessoal a pé, inclusive para o Regimento de Cavalaria de Pirassununga.

 

Lembro-me de que nós passamos por São Paulo, indo para Resende, e eles cruzaram conosco, de ônibus. [entrevistador]

 

Toda a mobilização de transporte foi feita por civis do gabinete do Paulo Egídio Martins. O Presidente do Clube de Engenharia tomou parte nisso – João Soares do Amaral Neto – que era um engenheiro muito distinto.

 

E quanto ao Regimento foi por via férrea? [entrevistador]

 

Os carros embarcaram no trem, na Santos-Jundiaí, e ‘eles’ desligaram a energia elétrica.

 

O inimigo interno desligou a energia elétrica e ficamos sem condições de prosseguimento. [entrevistador]

 

Os trens ficaram sem poder se movimentar, com os carros embarcados. O Paulo Ferraz, da Soma – tradicional fábrica de vagões, de quem eu falei, me procurou e disse que queria uma garantia: a colocação, nas máquinas, de gente ou soldados armados, para garantir o pessoal deles, que levariam os trens até o Vale do Paraíba. E, assim, eles foram pela Santos-Jundiaí, depois entraram  numa linha da Central e foram até perto de Resende.

 

(...)

 

O que o senhor gostaria de destacar, ainda, no dia da Revolução? [entrevistador]

 

Tenho, ainda, um episódio para contar. No dia da Revolução, Kruel ainda em dúvida, foi jantar, e eu fui procurado por um amigo, colega de Turma, coronel de artilharia, engenheiro militar, um irmão que eu tinha, Paulo Peçanha. Era um técnico excelente. Ele montou uma indústria que chegou a ser a maior fábrica de fórmica no Brasil, fórmica não ferrosa, de grande capacidade. Mas ele, embora na reserva, trabalhou na Revolução comigo, foi comigo à casa do Kruel no dia 31 de março.

 

O Kruel interrompeu o jantar – do qual participaram o Vinicius Kruel, seu sobrinho, depois General, e o seu assistente Paulo, Major de Cavalaria – e fomos para o quartel. Quando chegamos ao quartel, ele entrou no gabinete comigo, sozinho, fechou a porta e me perguntou: ‘Como é Cid, como está a coisa? Temos ou não temos dissensões?’ E eu lhe disse: ‘O senhor pode iniciar o movimento que não teremos dissensões, não haverá problema.’ Ele disse: ‘Então você se arme, avise aos companheiros para ficarem aqui perto do gabinete, que vou chamar os generais e, se eles não aderirem, vocês entrem que nós vamos prender os generais.’ E ficamos esperando...

 

(...)

 

Saíram dizendo que iam aderir, e não aderiram nada. O Comandante da Região, Bandeira de Moraes, fugiu e se escondeu oito dias na Companhia de Comando e Serviço da Região.

 

O Aluísio Miranda Mendes, Comandante da 2ª. DI, passou no PI (Ponto Inicial) às 7h da manhã, mas só chegou em Resende às 4h da tarde e ‘segurou’ o Esquadrão que ele devia ter lançado no reconhecimento à frente. O Esquadrão é para isso, você o lança em busca do inimigo; e o Esquadrão ficou ‘preso’ atrás dele.

 

(...)

 

Outra coisa: saímos blefando, não tínhamos munição. Foi na época em que estavam trocando também o armamento, do Mauser para o FAL (Fuzil Automático Leve), o fuzil belga que, depois, passamos a fabricar no Brasil. Então, tínhamos pouco munição do fuzil Mauser e pouca munição do FAL. O Carlos Alberto levou os dois, ele estava motorizado. Também, em matéria de transporte, estávamos péssimos, não tínhamos nada.

 

Todos aqueles Regimentos do Vale do Paraíba eram praticamente a pé. [entrevistador]

 

Todos eram a pé. Mas mesmo na Artilharia, todo o material era velhíssimo. Só para você ter uma ideia: quando eu cheguei lá em Jundiaí, para comandar o 2º. GO, de 13 tratores – aqueles tratores de 12 toneladas, com motor de avião – só um funcionava. Eram tratores muito velhos, com motor e painel de avião, difíceis de tratorar. Então, comecei a ensinar aos oficiais das Baterias, aos sargentos das Peças e cabos apontadores a tratorar, ficando, em consequência, bem suprido de tratoristas. E estava tentando ver se comprava caminhões, para tirar aqueles tratores arcaicos. Imagine que um trator daquele gastava dois litros de gasolina por quilômetro.

 

(...)

 

Mas o fato é que fizemos a Revolução blefando, pois não tínhamos nada” (General-de-Brigada Augusto Cid de Camargo Osório, Tomo 14, pg. 118-123).

 

 

Metralhadoras dos Fuzileiros Navais no alto do Morro da Urca?

 

“A maior preocupação de todos nós, se os fuzileiros invadissem a Praia Vermelha, era com as nossas famílias, com a leva de pessoas desordeiras que poderiam vir depois.

Tratei, então, no dia 31  de março, de levar minha esposa, que estava grávida do meu primeiro filho, para o apartamento em Copacabana, e fiquei sozinho na Praia Vermelha. Se acontecesse algo, seria comigo, e não com ela. Falou-se, certa ocasião, que o Coronel Zilio, administrador do edifício Praia Vermelha, subira o morro da Urca com um grupo de oficiais da ECEME e apreendera algumas metralhadoras que os fuzileiros navais estariam instalando por lá. Comentou-se, mas não sei se é verdade. De fato, apareceram umas metralhadoras, mas não sei se eram as tais” (Tentente-Coronel Affonso Taboza Pereira, Tomo 12, pg. 220).

 

 

O Kerensky brasileiro

 

“Quando a situação se definiu, entramos naquela fase de prontidão relativa, em que se permitia, pelo sistema de rodízio, que oficiais e sargentos fossem até suas residências para visitar os familiares e buscar roupas. Ainda não estava definida a segurança do Movimento, o Brasil estava se aquietando. Tenho a impressão de que os generais dos grandes comandos, no centro do País, já se haviam definido, mas ainda havia dúvidas sobre certas Unidades.

 

Sei de um que resistiu até quase o fim – o 1º. BC de Petrópolis, RJ -, não pelas armas; era comandado pelo Kerensky Túlio Motta, nortista e muito estudioso; foi o segundo colocado na minha turma e que era comunista. Eu sabia que ainda havia uma resistência, pelas notícias que ouvíamos” (General-de-Brigada José Mattos de Marsillac Motta, Tomo 13, pg. 118).

 

 

18º. RI, covil de comunistas

 

“Quando o Poppe de Figueiredo assumiu o III Exército, ele já sabia da razão de eu ter sido transferido para Pelotas. Então me trouxe para comandar o 18º., porque o Comandante, Coronel Bandeira de Mello (Lauro Bandeira de Mello), que o enchera o Regimento de comunistas notórios – os tenentes-coronéis Liberato (Liberato Vieira da Cunha), Quadros (Wilson Quadros de Oliveira), Palmeiro (Eduardo Palmeiro da Costa) e outros – tinha sido destituído do comando e preso.

 

O único fora do ninho daquela turma era o Nunes que servia no 19º. [entrevistador]

 

O Regimento era um covil de comunistas. Então me trouxeram para comandá-lo; assumi o comando como Tenente-Coronel. A primeira medida que tomei foi pedir para retirarem do quartel os oficiais comunistas que estavam presos lá. Aleguei que não poderia ficar com aqueles oficiais que tinham servido lá, inclusive, comandantes de Batalhão. Fui atendido” (General-de-Brigada José Mattos de Marsillac Motta, Tomo 13, pg. 120).

 

 

O Coronel-Aviador Moreira Lima faz rasante sobre o Destacamento do General Mourão Filho

 

“Quando chegou a Revolução de 1964, eu era Comandante da Base Aérea de Santa Cruz. Lá, um dia, recebi fora do plano de transferência o Capitão Juarez, que foi para Santa Cruz com o intuito de me prender, acredito que dentro do esquema da Revolução, o que ficou claro, porque, uma semana antes de 31 de março, ele foi à Vila dos Sargentos junto com o Major Mascarenhas, que havia estado em Aragarças – foram, em um sábado de madrugada, falar com os graduados da Vila dos Sargentos da Base, propondo minha prisão e a sublevação da Base.

Veja que maluquice, ele falou com o sargento Mascarenhas, que era irmão desse Major Mascarenhas. O sargento protestou e denunciou o que estava acontecendo, telefonando-me em seguida. Tomei as providências devidas, apresentando o Capitão Juarez, na segunda-feira, preso ao Comandante da 3ª. Zona Aérea, solicitando que fosse aberta uma sindicância a respeito.

 

No final do expediente, fui ao Brigadeiro Teixeira, Comandante da 3ª. Zona Aérea, e perguntei sobre o destino do Capitão Juarez, e ele disse: ‘Eu o mandei embora, é um garoto’. Muito aborrecido com o Teixeira, disse: ‘Então, esse Capitão vai para a Vila dos Sargentos tentar tomar a Base, eu o mando preso para cá e o senhor simplesmente o liberta? Francamente, o caso é real e o senhor não está levando a sério. Estou comandando uma Base onde existem três mil e tantas pessoas, entre civis, sargentos e oficiais. Tenho três Unidades aqui sediadas – o 1º. Grupo de Caça, o 1º. Grupo de Aviação Embarcada e o Grupo de Controle e Alarme. Venho dormindo na Base quatro dias por semana, como se eu estivesse de mal com a minha mulher e o senhor faz uma coisa dessas?’ ‘Calma, rapaz, isso não vai dar em nada’.

 

Mas o 31 de Março foi a resposta que tivemos. As previsões do Brigadeiro Teixeira não se confirmaram. O General Mourão pôs a tropa na estrada e marchou contra o Rio de Janeiro. Por duas vezes, o Conselho de Segurança, através de um colega que já morreu, me telefonou: ‘Rui, dá uma corrida nessa coluna do Mourão, basta uma passagem que você faz o serviço nele. Eles vão embora.’

 

Eu lhe disse: ‘Olha, tenho uma cadeia de comando e a cadeia de comando é o Brigadeiro Teixeira, é ele quem manda na Zona Aérea, e na minha Base.’ Se der a ordem e eu puder cumpri-la vou fazê-lo; hoje, no entanto, com esse mau tempo, parece que não há jeito. Atacar uma coluna de blindados é fácil. Sou doutor em coluna, porque só fiz isso na Guerra. Se eu quiser para a coluna, sem morrer ninguém, basta atirar no carro da testa e no último. Com esse procedimento o pessoal foge. Depois é só botar fogo nos outros. Mas não vou fazer; sem ordem, não faço isso.

 

Impaciente por esperar, lá pelas 16h decolei no jatinho Paris, tendo como co-piloto o Tenente-Coronel Berthier, Comandante do 1º. Grupo de Caça. Passei para o topo das nuvens – 5.500m – chamei o radar do Galeão, pedindo ao operador que me levasse à vertical da cidade de Paraíba do Sul. Fiz a primeira tentativa e encontrei a coluna próxima a Areal. Assinalei no mapa da revista Quatro Rodas. Quando passei pelas viaturas, foi uma correria só. Pânico total, por falta de espaço para manobrar, em plena Serra do Mar e com o tempo reinante, voltei a 5.500m e fiz nova tentativa.

 

Chamei de novo o Galeão para me levar outra vez para cima de Paraíba do Sul. As palavras do Berthier – que era meu amigo, mas estava formal, com um constrangimento terrível – foram essas: ‘Coronel Rui, nessa segunda tentativa, vamos morrer’. Eu lhe respondi com essa frase: ‘A gente só morre uma vez’.

 

Nova passagem sobre a coluna, novo pânico. Voltei ao topo das nuvens novamente e chamei o Galeão que me transmitiu a seguinte mensagem: ‘O Brigadeiro Teixeira está pedindo a sua presença na 3ª Zona Aérea.’ Respondi: ‘Você avisa o Brigadeiro Teixeira que estou com o Comandante do 1º. Grupo de Caça a bordo, vou deixá-lo em Santa Cruz e volta para falar com ele.’

 

Deixei o Berthier em Santa Cruz e fui para o Santos Dumont falar com o Brigadeiro Teixeira. Encontrei-o no corredor, acompanhado de umas quinze pessoas, indo para a pista. Ao ver-me, falou informalmente: ‘A Vila Militar entregou a rapadura.’ ‘E agora?’ ‘Estamos indo para a casa do Ministro Botelho ouvir suas instruções, suas ordens.’

 

Eles usaram um C-47 da Base do Galeão e eu segui no jatinho Paris. Na casa do Ministro Botelho, fomos recebidos – ele emocionado, com lágrimas – nos disse: ‘Meus amigos, o Presidente estava aqui no Rio e sem comunicar nada a ninguém foi para Brasília. Em Brasília, também, sem comunicar nada a ninguém, foi para o Rio Grande do Sul. Então, a minha ordem – que foi dada no dia 1º. de abril - é a seguinte: Voltem para suas Unidades e aguardem instruções. Nós perdemos a Vila, que não reagiu, e o General Mourão está chegando aí. Regressem, pois, às suas Unidades e aguardem novas instruções.

 

Para não deixar dúvida sobre meu voo sobre a coluna do General Mourão, nem uma vez, repito, nem uma vez, eu disse que ia bombardear essa coluna. O avião a jato Paris era uma aeronave de turismo, usada pelo GTE para conduzir passageiros importantes. Estou lhe dizendo agora que esse foi o fato. Realmente, queria saber a posição da coluna, porque, se parasse a chuva e me mandassem atirar na coluna, eu sei como parar uma coluna. Cumpriria a ordem, sem matar ninguém. Sempre agi em obediência à carta de meu pai: ‘Nos momentos de loucura coletiva, deves ser prudente, não atentando contra a vida dos teus concidadãos.’ A carta do meu pai esteve sempre presente... até hoje. As minhas palavras quando saí de Santa Cruz foram inspiradas nessa carta. Uma mensagem para o 1º. Grupo de Caça: ‘Vocês estão sentados numa arma perigosíssima, com quatro canhões 20mm, com foguetes, com bomba incendiária e bomba de demolição. Não as usem contra o povo brasileiro; não façam o papel que o Perón fez lá na Casa Rosada” (Major-Brigadeiro-do-Ar Rui Barbosa Moreira Lima, tomo 12, pg. 57-59).

 

 

O sargento Venaldino feriu a tiros os aspirantes Flávio Oscar Maurer e Aloysio Oséas, e depois se matou

Quanto tempo o Aspirante Maurer ficou hospitalizado por causa dos tiros do Sargento Venaldino? [entrevistador]

Considerando as diversas cirurgias que fiz, passei uns quatro meses no hospital. Em 25 de agosto, época da promoção a Segundo-Tenente, ainda me encontrava em recuperação. A Junta de Saúde foi condescendente comigo na hora da inspeção. Eu ainda enfrentava dificuldade para falar, não conseguia pronunciar as palavras com clareza, e os médicos então abriram uma exceção para que pudesse ser promovido na data aprazada.

Um colega seu de turma, o Aspirante Aloysio Oséas, também foi ferido pelo Sargento Venaldino? [entrevistador]

Como eu, foi ferido aqui dentro do Batalhão [19º. RI, atual 19º. BIMtz, São Leopoldo, RS], na escada. Levou quatro tiros. Só que ele teve mais sorte, as balas entraram de cima para baixo. O Venaldino encontrava-se no topo da escada e o Oséas colocou a mão como anteparo e as balas, felizmente, atingiram o braço e a perna dele, uma outra entrou na barriga, mas sem nenhum risco de morte. Foi submetido apenas a uma cirurgia e não restaram sequelas da agressão. Quinze dias depois ele estava recuperado.

O tiro do rosto provocou um estrago muito grande, já que a bala entrou de um lado e saiu do outro. Todo o lado esquerdo da face foi arrebentado. Precisei passar por várias intervenções cirúrgicas. O Doutor Demétrio Mércio Xavier Filho, Capitão que servia no Hospital Geral de Porto Alegre (HGPA) e o Dr. Nathan Goldstein, um civil já falecido, fizeram as plásticas para a reconstituição do meu rosto. Tudo muito bem-sucedido. O Dr. Goldstein, por exemplo, ao final ainda queria tirar uma pequena cicatriz. Eu disse para ele:

- Pelo amor de Deus, deixe alguma coisa na cara que comprove toda a minha história, senão depois quando contar o que me ocorreu e os ferimentos que sofre na cabeça, quem vai acreditar em mi?” (General-de-Brigada Flávio Oscar Maurer, Tomo 8, pg. 313-314).

“Apresentei-me ao Tenente-Coronel Borba e ele ordenou que eu providenciasse um xadrez para o Sargento Venaldino Saraiva que acabara de ser preso. No decurso do inquérito sobre as suas atividades subversivas no quartel no dia 31 de março, o seu envolvimento havia sido definitivamente comprovado na recém-terminada acareação com outros colegas. Eram os sargentos que eu encontrara na escada.

Desci e verifiquei que havia um xadrez livre o qual poderia ser ocupado pelo Venaldino. Instruí o comandante-da-guarda, bem como o sargento-adjunto do iria acontecer e subi novamente. Perguntei ao Subcomandante onde estava o preso e ele me apontou o Gabinete do Comandante. Apenas para lembrar: Venaldino era aquele graduado que comandara um grupo armado no dia da Revolução, ocupando posições de tiro junto à caixa d’água do quartel [ID/6]. O Gabinete do Comandante era constituído de duas salas. Em uma ficava a mesa de despacho e na outra, contígua, aconteciam as reuniões de oficiais, eram recebidas autoridades etc.

Entrei na primeira sala e encontrei o Major Ruy [Ruy de Paula Couto, mais tarde General-de-Exército] – encarregado do inquérito – que, justamente naquele instante, saía da outra dependência e me informou, de passagem, que o Vanaldino lá se encontrava. Ao chegar no umbral da porta que separava os dois ambientes, vi o sargento. Ele estava parado, de costas para mim e de frente para uma janela, olhando a rua. Vestia japona e estava com a mão direita enfiada entre os botões da frente do uniforme, num gesto típico de quem a abriga do frio. Ato contínuo, falei para ele:

- Vamos, Venaldino.

Ele girou o corpo rapidamente e voltou-se para mim, apontando uma pistola. Disparou de imediato e continuamente três tiros. Naturalmente, tinha a arma escondida sob a japona. Como ele não foi revistado antes do interrogatório é a típica indagação que só se faz depois que as tragédias acontecem.

O fato é que tudo foi muito rápido, tanto que o Major Ruy ainda estava na outra sala, atrás de mim. O primeiro tiro ele errou, passou a uns 3cm da minha cabeça, alojando-se no marco da porta. A marca da bala está lá até hoje para quem quiser ver. O segundo tiro pegou de raspão no meu tórax, furando meu uniforme em dois lugares. Já o terceiro me acertou em cheio.

Como o meu corpo estava em rotação procurando abrigo no vão da porta à minha retaguarda, eles último tiro penetrou atrás da minha orelha direita, perfurando toda a cabeça e saiu em baixo do olho esquerdo estraçalhando o osso malar. A arma do Venaldino era uma pistola Beretta 6.35. O projetil, com capa de aço e grande velocidade inicial, na sua trajetória encontrou osso somente na saída, onde fez o seu estrago maior, abrindo um rombo.

No início do seu percurso, até a bala encontrar os ossos malares, a sorte foi minha aliada. Ela passou justamente na bifurcação da veia jugular – na sua parte superior – e foi tangenciando o cérebro por baixo e a arcada bucal por cima, sem encontrar grande resistência.

Dei alguns passos, coloquei a mão no rosto e senti o sangue jorrando profusamente. A seguir, senti frio e tremor no corpo todo e uma fraqueza muito grande nas pernas. Antes de desabar em frente à mesa do Comandante, ainda percebi que atiravam na direção do Gabinete onde estava o Venaldino que respondia aos tiros.

(...)

Enlouquecido, o sargento prosseguiu na sua sanha assassina, dirigindo-se para o outro lado do corredor, até chegar às escadarias da Sala Marechal Floriano. Ao descê-las, se deparou com o Aspirante Oséas que vinha subindo e atirou nele quatro vezes. Acertou nos braços e na barriga, tudo sem muita gravidade mas que, mesmo assim, fez com que o Oséas caísse, liberando-lhe a passagem. Ao chegar no pátio, correu até o meio dele e em um derradeiro e tresloucado gesto, desferiu o último tiro da sua arma contra a própria cabeça. O fato foi testemunhado por dezenas de militares da Unidade, já que eram mais ou menos 17h30min, hora do toque de ordem” (General-de-Brigada Flávio Oscar Maurer, Tomo 8, pg. 324-325).

 

Tropas argentinas na fronteira

“Durante toda a noite de 1º. Para 2, ouviu-se ronco de aviões. Ficamos sabendo que os argentinos estavam trazendo tropas de várias partes do país para a fronteira, porque não sabiam o que iria acontecer no Brasil. Lá pelo dia 3, mais ou menos, o Comandante da Guarnição e outros oficiais argentinos vieram fazer uma visita de cortesia ao general e informar que a fronteira estava toda guarnecida etc. e que contássemos com a solidariedade deles. O comandante argentino veio, oficialmente, hipotecar solidariedade à Revolução.

Uns dias depois, apareceu o Vernon Walters, Adido Militar dos EUA. Encaramos sua presença na área, muito ligeira, muita rápida, como algo natural. Seu Governo, a fim de reconhece o Poder Revolucionário, estava interessado em saber qual era a situação real. Por isso, como um bom adido militar, estava se inteirando da situação no Rio Grande do Sul. Esclareço, porque se fala muito da interferência estrangeira, inclusive há alguns brasilianistas, cidadãos dos Estados Unidos, que especulam sobre uma eventual interferência americana, que aqui manteriam alguns títeres, um deles possivelmente o Golbery. Isso tudo é uma mentira grosseira” (Coronel José Campedelli, Tomo 15, pg. 288).

 

 

O Coronel Rui Moreira Lima é preso no navio Barroso Pereira

 

“O Brigadeiro Baiena – Nelson Baiena de Miranda – oficial do seu Estado-Maior, telefonou-me: ‘Moreira Lima, você podia dar um pulinho aqui no Estado-Maior?’ ‘Tem que levar escova de dente, toalha, chinelo?’ ‘É, é melhor você trazer’. Então, fui lá, onde houve, também, um incidente. Essas coisas são assim e eu até nem gosto de falar nisso, mas cheguei lá e disse: ‘Quero ver o meu mandado de prisão.’ Tomei conhecimento, indignado, de que o meu inquiridor do IPM da Força Aérea Brasileira seria o Tenente-Brigadeiro Antonio Guedes Muniz.

Guedes Muniz era uma figura conhecida nas Forças Armadas como um quatro estrelas, formado em engenharia aeronáutica, era piloto, projetou e construiu os aviões de instrução Muniz-7 e Muniz-9, enfim, tinha todos os méritos na FAB. Mas ele foi muito mal falado administrativamente quando dirigiu a Fábrica Nacional de Motores (FNM). ‘Brigadeiro Baiena, com a má fama que o Muniz tem, não o reconheço com moral para me inquirir nesse IPM. Se acontecer, declararei isso em público e não responderei suas perguntas.’ O Brigadeiro Muniz foi substituído no IPM, na véspera em que eu deveria ser interrogado. Talvez minha recusa inicial tenha influído na substituição do Brigadeiro Muniz pelo Marechal-do-Ar Ajalmar Vieira Mascarenhas.

 

(...)

 

Quem me acompanhou até o Estado-Maior da Aeronáutica foi o Coronel Helio de Amorim Gonçalves, meu cunhado, amigo e herói de Montese.

O Coronel Amorim tem história, foi ferido em combate, é herói da FEB. Deu uma ótima entrevista registrada no Tomo 4, da História Oral do Exército na Segunda Guerra Mundial. Não esqueci. [entrevistador]

 

Exatamente, ferido em combate. Ele é uma pessoa extraordinária; é revolucionário de 1964, pensamento completamente diferente do meu, vamos dizer assim, o pensamento nosso era contrário, tínhamos ideias opostas.

 

Ele é seu cunhado. [entrevistador]

 

Irmão de minha mulher, irmão de Julinha. O Hélio me acompanhou a pedido de Julinha e, de repente, testemunhou as cenas descritas. Pouco depois de ir lá para baixo, chega o Zamir – Coronel-Aviador Zamir de Barros Pinto. Percebi que ele seria minha escolta: ‘Rui, estou numa situação difícil, vou te acompanhar.’ ‘Ah, rapaz, nem sabia que você estava aqui por isso. Então, vamos embora.

 

Fomos para o 1º. Distrito Naval e mal chegamos na porta do quartel, fomos recebidos por dois fuzileiros e um capitão-tenente. Continências e tal e ele me entregou o ofício ao capitão: ‘Está entregue o prisioneiro.’ ‘Assim não, Zamir, você observe que nós dois estamos com a nossa farda, somos coronéis, isso é o azul barateia do nosso uniforme, é a nossa glória, é a nossa honra, é a nossa dignidade. Não aceito que um capitão me receba aqui com ofício, como se eu fosse um prisioneiro qualquer. Desta forma, eu não aceito. Deve haver lá em cima uma autoridade responsável por isso'.

 

Era um almirante, não me lembro o nome, era um homem magro e muito educado, foi de uma delicadeza enorme comigo. ‘Almirante, estou exausto, muito cansado. Por favor, mande-me logo para a prisão.’ Ele chamou um oficial meu conhecido e que, agora, não estou lembrando o nome, mas foi corredor de 800 e 1.500 metros na Taça Laje. Mais tarde, corremos pelo Fluminense. Foi ele que me acompanhou e me levou para o navio Barroso Pereira.

 

(...)

 

Fui, então, para bordo do Barroso Pereira e nesse navio fiquei convivendo num ambiente de barata, de rato, num lugar sórdido à beça. O meu sanitário era daquele que você equilibra no pé em um buraco, muito chato aquilo. Não tinha chuveiro, tinha pia. Então resolvi fazer uma greve de fome. Passei três dias lá, sinceramente confesso a vocês, quando a gente quer, o sujeito aguenta. Aguentei esses três dias pelo menos com uma fome danada, doido para comer qualquer coisa, mas tinha um compromisso, eu disse que não ia comer e cumpri. Iria, sei lá, até às últimas consequências. E quando eles vinham com a comida e colocavam o prato no chão, um prato de esmalte – e este escorregava para chegar ao fundo. Estávamos no último deque. Eu pegava o prato e o jogava lá; arremessava na porta que acabara de fechar. Aquilo tudo ficou impregnado de sujeira.

 

Três dias depois, veio um capitão e disse: ‘O senhor vai mudar de prisão.’ Disse-lhe, então: ‘Está ótimo.’

 

Nesse ínterim, Julinha foi ao Brigadeiro Nero Moura e disse: ‘Brigadeiro, eu não peço nada para o Rui. Quero apenas que ele não seja discriminado: ele está num navio diferente, sozinho.’ O Brigadeiro Nero falou com o Castello Branco. O Castello Branco havia me elogiado em boletim por ocasião da Guerra, foi meu professor duas vezes na manobra de 11 de novembro, quando era Comandante da ECEME e eu estava justamente naquela manobra de fim de ano. E ele prontamente atendeu ao Brigadeiro Nero e me mandou para o Princesa Leopoldina.

 

(...)

 

Observei de cara que o navio ostentava o galhardete de almirante. O navio-prisão guardava três brigadeiros, dois almirantes e dois generais. Ainda hoje não sei, mas acho que o galhardete de almirante deveria obedecer a esse detalhe.

 

(...)

 

Daí em diante, o gelo foi quebrado antes de ser recolhido ao camarote. Disse-lhe: ‘Santos Lima [Comandante do navio-prisão], acho que agora que nos conhecemos melhor, você já pode me mandar para o porão desse belo navio’, disse rindo. ‘Não senhor, o senhor vai para um camarote com ar-condicionado. Aqui não há nenhum prisioneiro, oficial ou sargento, preso em porão, todos estão em camarotes com ar-condicionado’.

 

(...)

 

Após 47 dias de prisão na Marinha, o pessoal da Força Aérea voltou a seus pagos. Fomos transferidos para o quartel da 3ª. Zona Aérea, sob o comando do correto Brigadeiro João Adil de Oliveira. É o ex-Coronel Adil que chefiou o inquérito da República do Galeão. Bem que a ‘República da Diretoria de Rotas’ esperava que o Adil fosse torturar o Gregório e seus asseclas, sob sua custódia. Tratou-os como suspeitos, sem cometer nem permitir violências. As pessoas importantes que foram ouvidas, como o veterano do 1º. Grupo de Aviação de Caça – o ex-Tenente Médico Luthero Vargas – filho do Presidente Vargas e muitos outros foram tratados com respeito e dignidade. Quando a imprensa noticiou falsamente que Dona Darcy Vargas iria ser interrogada, o Coronel Adil desmentiu categoricamente, protestando contra a infâmia divulgada. Enfim, os presos do Princesa Leopoldina passaram a ser os presos da 3ª. Zona Aérea, com direito a usar o telefone, usar a área do Quartel-General por ménage e receber visitas. João Adil não se contaminou com a linha dura que assumiu o Poder” (Major-Brigadeiro-do-Ar Rui Barbosa Moreira Lima, Tomo 12, pg. 65-71).

 

 

Aviões de caça em troca de algodão

 

“Como Ministro da Aeronáutica, Nero Moura inaugurou a era jato, adquirindo na Inglaterra setenta Gloster Meteor Mark-8. A Força Aérea Brasileira, sob sua batuta, conquistou um espaço entre seus pares sul-americanos, reequipando-a com a aquisição desses setenta aviões. A compra desse tipo de aeronave foi altamente benéfica para o Brasil. Trocamos uma safra de algodão estocada no Brasil por setenta modernos caças bi-reatores tipo Gloster Meteor. Ganhou a Inglaterra que não tinha matéria-prima – algodão – para alimentar sua indústria têxtil e ganhou o Brasil que em boa hora ingressou na era jato, modernizando a Força Aérea Brasieira, com aeronaves saídas da fábrica para as Bases de Caça de Santa Cruz e Canoas. O velho guerreiro – o caça P-47 Thunderbolt – cedeu ao tempo, sendo substituído pelos Mark-8 ingleses.

 

Participei da equipe que foi à Inglaterra receber os setenta jatos. Foi justamente nessa ocasião que deixei o Brigadeiro Nero e voltei para meus pagos – minha Aviação de Caça” (Major-Brigadeiro-do-Ar Rui Barbosa Moreira Lima, Tomo 12, pgl 74).

 

 

 

O General Zerbini foi preso, por impedir o avanço de tropas de São Paulo para o Rio de Janeiro

 

“Chegamos à Academia por volta das 15 h [do dia 1º. de abril], ocasião em que o General Emílio Garratazu Médici, Comandante da AMAN, com seu Estado-Maior, que ali realizava contínuo estudo de situação, recebeu a oficialidade do Escalão Avançado do I Grupo do 2º. RO 105. Depois de destacar a importância de nosso concurso para o êxito do Movimento Revolucionário contra o caos instalado no País, entregou, pessoalmente, uma flâmula da AMAN a cada oficial, assinando a que foi destinada ao Coronel Benedicto, Comandante do nosso Regimento ali presente. Foi um episódio inesquecível!

 

Em seguida, o Coronel Benedicto nos informou de que íamos ficar alojados no Curso de Artilharia da AMAN, onde permaneceria ao comboio, após reabastecimento, em condições de, no dia seguinte, 2 de abril, substituir a Bateria da AMAN que se encontrava ocupando posição, em apoio ao Curso de Infantaria, cuja missão era impedir o acesso a Resende das tropas oriundas do Rio de Janeiro.

 

No conjunto principal, minutos após esse inesquecível evento, juntos aos elevadores próximos à sala do Oficial-de-Dia e do Estado-Maior da AMAN, assisti à prisão do General Zerbini, o que se deu elegantemente através de um convite para tomar café, feito pelo 1º. Tenente José Pordeus Maia, no momento em que ele tentava sair da Academia e foi impedido por determinação do General Médici. O General Zerbini, Cmt da ID/2 (Infantaria Divisionária da 2ª. DI) foi quem segurara, nos quartéis, os Regimentos que deveríamos apoiar – o 4º. e o 6º. RI – pois o único que saiu e à revelia foi o 5º. RI, de Lorena. Pude observar que o referido General não queria voltar para tomar o café, mas o Tenente Maia não o deixou recusar o convite, fazendo-o praticamente retornar ao elevador por onde descera. Eu conversava com o Maia naquele local quando ele passou a dar cumprimento à ordem recebida.

Naquela mesma tarde, chegou à AMAN A Bateria de Artilharia do CPOR de São Paulo, assim como duas Baterias do Grupo-Escola (GEsA), que deixaram o Coronel Aldo Pereira, Comandante do Grupo, na estrada e passaram para o lado da Revolução, apresentando-se às tropas da AMAN. Seus integrantes ficaram alojados na Seção de Educação Física da Academia, onde tive a oportunidade de rever meu amigo de turma – 1º. Tenente Armindo da Luz Matheus -, que servira comigo em Itu, como Aspirante e 2º. Tenente, nos anos de 1961 e 1962” (General-de-Brigada Geraldo Luiz Nery da Silva, Tomo 10, pg. 211).

 

 

O Comandante do 3º. Batalhão Rodoviário, em Vacaria, RS, era contra a Revolução, foi preso e cassado

 

“No contexto do Movimento, o 3º. Rodoviário foi uma Unidade atípica, pois acredito que foi a última a aderir. O seu Comandante, Coronel João Guerreiro Brito, era radicalmente contra a Revolução. Obviamente, alguns dos seus comandados estavam com ele e outros contra, ou seja, favoráveis ou contrários ao Movimento. Ficávamos por lá, ociosos ou recebendo esclarecimentos de um ou de outro sobre o que estava acontecendo, enquanto o ambiente se tornava cada vez mais tenso. A situação evoluía e sentia que poderia haver uma precipitação para pior naquele clima.

 

Inclusive, um fato que também nos alarmou foi a decisão do cabo Podalírio – um praça velho com quase trinta anos de serviço – encarregado do armamento. Ele distribuiu aos soldados fuzis e metralhadoras, municiou-os e colocou-os em torno da reserva, protegida por sacos de areia em toda a volta. E foi taxativo:

 

- Aqui não chega ninguém. Nem cabo, nem sargento, nem capitão e nem coronel.

 

E não deixou ninguém chegar na reserva. O clima realmente era de muita tensão. Oficiais e sargentos sestrosos, cada um olhando desconfiado para o companheiro, a maioria sem saber quem estava a favor ou contra, nem para que lado ir. Em visto disso, acredito que o cabo Podalírio tomou a atitude certa não permitindo a entrada do pessoal na reserva, pois qualquer armamento, além do individual, de posse de algum radical ou exaltado, seria um perigo” (Capitão QAO Emerson Rogério de Oliveira, Tomo 13, pg. 335).

 

 

EMPREGO DOS CADETES DA AMAN NA REVOLUÇÃO

Todos os militares entrevistados afirmam que foi correta a decisão do General Médici, Comandante da AMAN, de empregar os cadetes enquanto a Revolução não estava definida.

“Eu era aspirante-a-Oficial do Exército – que não deixa de ser um cadete do quarto ano – quando fui, com a Força Expedicionária Brasileira, combater na Itália, portanto estou certo de que foi acertada a decisão do General Médici, quando empregou os cadetes da Academia. A nossa formação profissional visa ao combate, à luta; não somos formados para professor de escola pública, mas para ser militar. Assim, a tropa constituída por cadetes é da melhor qualidade e bem adestrada. Tenho que empregar a tropa de que disponho.

Principalmente, em se tratando da soberania do País [entrevistador].

O grande objetivo, afinal.

Os cadetes também foram empregados na Intentona Comunista, contra os Afonsos (Base Aérea dos Afonsos). E foi acertado o seu emprego. É a melhor tropa combatente de que se dispõe. Ninguém deixou os cadetes trancados em Realengo.

Apreciando a nossa Revolução de 1964, o General Médici agiu muito bem, evitando, inclusive, o possível confronto entre as tropas do I e do II Exércitos” (General-de-Divisão Geraldo de Araújo Ferreira Braga, Tomo 2, pg. 106-107).

”A juventude militar, que se prepara para defender o Brasil com sacrifício da própria vida, não poderia ficar indiferente, omissa a um movimento de tal expressão nacional como a Revolução de 31 de Março de 1964.

A participação da AMAN teve muita importância. A atitude corajosa do General Emílio Médici, colocando os cadetes em posição de combate, foi correta. A nossa juventude não poderia ficar de fora.

Essa atitude evitou o ataque das tropas legais à Academia e levou o I Exército, sediado no Rio de Janeiro, a aderir à Revolução. Nenhum chefe militar atacaria a ‘alma-mater’ do Exército” (General-de-Divisão Tasso Villar de Aquino, Tomo 9, pg. 84).

“Sei muito mais sobre a Revolução por causa do meu pai, General Tasso Villar de Aquino. Sei, por exemplo, que o General Âncora, um grande e respeitável chefe militar, como Comandante do I Exército e sem nenhuma intenção de usufruir vantagem, optou por defender a ordem vigente. Foi por uma questão de consciência; quem o conhece sabe que ele era um homem absolutamente correto, probo, um excelente chefe militar. Então, ele dirigiu-se para Resende e teve um encontro histórico com o General Amaury Kruel, que viera de São Paulo. Esse encontro foi na AMAN. O General Âncora, como qualquer chefe digno, jamais atacaria a AMAN. Ele se compôs com o General Kruel e não houve nenhum derramamento de sangue. Por isso, digo que o posicionamento dos cadetes da AMAN foi decisivo para a vitória da Revolução” (Vice-Almirante Sérgio Tasso Vásquez de Aquino, Tomo 9, pg. 100-101).

 

“Jango! Jango!”

“Na noite de 31 de março para 1º. de abril, estava na minha casa, na Tijuca, ouvindo as notícias pelo rádio. A televisão naquele tempo ainda era meio difícil...

Ao saber que o General Castello estava reunindo um comando da Revolução na Escola de Comando e Estado-Maior (ECEME), pensei: ‘Bom, vou me apresentar lá’, mas sabia que para sair da Tijuca, no meu carro – que, aliás, era uma Kombi – com um outro colega, eu teria – naquele tempo não havia o Túnel Santa Bárbara – que passar pela Avenida Presidente Vargas.

Quando estávamos chegando, vi aquele alvoroço, um turba, o pessoal na Central, gritando o nome do Jango, com aquelas bandeiras vermelhas, foice e martelo, e eu disse: ‘Bom, para eu passar agora, vou ter que imaginar um meio’. A maneira encontrada foi gritarmos, eu e meu colega, das janelas da Kombi: ‘Jango!, Jango!’, e, devagarzinho, conseguimos passar, e fomos para a ECEME, chegamos lá já escurecendo, era 1º. de abril, no fim do dia.

Apresentamo-nos na Escola, à paisana, porque tinha essa circunstância de ter de passar pelo Centro do Rio de Janeiro. O fato é que o General Castello estava na Escola, chefiando grupos, para fazer a Revolução aqui no Rio de Janeiro” (General-de-Exército Mario Orlando Ribeiro Sampaio, Tomo 11, pg. 30).

 

BRIZOLA E JANGO SERIAM PRESOS EM URUGUAIANA NO DIA 4 DE ABRIL DE 1964

“Quando estourou a Revolução em Minas Gerais, soubemos através do rádio. Antes de tomar conhecimento do que estava acontecendo em Minas Gerais, já havia um planejamento, porque o Brizola e o João Goulart iriam fazer um comício em Uruguaiana no dia 4 de abril. Isso é muito interessante, porque, antes, o Carlos Lacerda tinha estado em Uruguaiana e ali houve um comício que suplantou todas as expectativas, considerando que ali era um ninho do PTB. Houve esse comício com o Carlos Lacerda e eles quiseram fazer um outro comício em represália, marcado para o dia 4 de abril, e quando o avião – isso pouca gente sabe – pousasse no aeroporto, ia haver uma guarda de honra para receber o Presidente, e estava previsto que esta guarda, constituída por elementos do 8º. RC, sob o comando do Capitão Tolentino, ia, na hora, prender o João Goulart e o Brizola, quando descessem do avião.

Então, não tinha nada a ver com o movimento de Minas Gerais, foi uma coisa planejada separadamente, espontânea, mas como o de Minas Gerais eclodiu quatro ou cinco dias antes, nosso planejamento não aconteceu. Tinha até local para onde eles seriam levados presos, porque a sociedade de Uruguaiana estava apoiando o movimento, principalmente os estancieiros. Todos iam ficar presos numa estância de um daqueles que apoiavam a Revolução. São fatos que precisam ser contados” (Tenente-Coronel Carlos Claudio Miguez Suarez, Tomo 9, pg. 378-379).

“Em janeiro de 1964, Carlos Lacerda fez um comício em Uruguaiana; um verdadeiro sucesso, lotou a praça. Contou com o apoio do pessoal da família Silva, aqueles fazendeiros todos, o pessoal conservador. O Capitão-de-Mar-e-Guerra Dylo Modesto de Almeida, da Capitania dos Portos do Rio Uruguai, engajou-se ‘até os miolos’ com o comício do Lacerda. (...)

(...) O pessoal favorável ao Jango resolveu marcar um comício para o dia 4 de abril, em revide a esse do Carlos Lacerda. Compareceria o Presidente da República João Goulart, agora já no regime presidencialista, o Brizola e todos aqueles próceres da situação. Deveria transformar-se num tremendo festival do pessoal comunista e paracomunista. Circulariam ônibus e trens de graça; seria algo fantástico, tudo em Uruguaian.

Depois de estudar a situação, resolvemos que no dia 4 de abril seria provocada enorme confusão no Aeroporto, durante o desembarque da comitiva, e o Presidente da República e o Brizola seriam ‘sequestrados’. Os civis é que iriam fazer esse ‘negócio’, com a nossa cobertura. Eles, também, fizeram contato com oficiais argentino, que firmaram compromisso no sentido de que Jango e Brizola fossem aparecer lá pelos Andes, mas nunca na fronteira. Não sabíamos exatamente o que aqueles civis iriam arrumar, mas faríamos a cobertura.

(...)

Não haveria comício, desapareceria tudo. Foi preparado um plano detalhando as missões das Unidades e demais providências. O nosso E4 era o Gaspar Albite Chuy – bom artilheiro o Chuy -, que tratou dos estoques de suprimento. Em Uruguaiana existia uma refinaria, fizemos um acordo com os empresários da refinaria para diminuir a distribuição e estocar combustível.

Esta refinaria é a origem da empresa Petróleos Ipiranga. [entrevistador]

Exatamente. Esta empresa possuía uma refinaria em Uruguaiana, que parece ter sido a primeira refinaria do Brasil. Bem, no quadro da situação, foi atualizado o plano de requisição de viaturas e tomas todas as providências necessárias para a operação do dia 4. Os fatos, no entanto, começaram a se precipitar.

(...)

Íamos detonar o movimento. Mas, ocorreu o comício localizado próximo à Central do Brasil, no Rio de Janeiro, no dia 13 de março de 1964, uma sexta-feira, se não me engano. Nessa mesma noite, houve uma reunião na casa – acho que foi na residência do Apolônio – e resolvemos antecipar o que estava previsto para detonar em 4 de abril. Para tal, teríamos que sublevar as Unidades. Lembro-me de uqe tiraram o coitado do Capitão Tolentino (Tolentino Job Barbieri), nosso homem no 8º. Regimento de Cavalaria, da cama, e ele compareceu à reunião.

Inteligente, comentou: ‘Olha, vou cumprir a missão de vocês, agora tem uma coisa: vou levantar só a guarda do quartel! Hoje é sábado, não há ninguém lá no aquartelamento. Vou sublevar a guarda!’ Refletimos e vimos que sublevar a guarda... Iria dar complicação. Seria preciso prender o Coronel, ‘fazer o diabo’; o Carlos Ramos de Alencar era o Comandante. Desistimos da ideia da antecipação” (Coronel José Campedelli, Tomo 15, pg. 282-283).

 

O QUASE CONFRONTO ENTRE TROPAS DO EXÉRCITO

Como em 1961 - quando alguns chefes militares não admitiam que João Goulart assumisse a Presidência da República depois da renúncia de Jânio Quadros -, em 1964 houve também o deslocamento de tropas, a favor e contra a Revolução, abrangendo os Estados de MG, MT, DF, RJ, SP, PR, SC e RS.

No III Exército (atual Comando Militar do Sul), a situação foi mais tensa, até que o General Poppe de Figueiredo assumiu o Comando Revolucionário do III Exército, em Santa Maria, no dia 2 de abril de 1964. A respeito desses fatos, há um relato pormenorizado feito pelo entrevistado da História Oral, General-de-Brigada Gabriel D’Annunzio Agostini, Tomo 2, pg. 125-142.

Sobre os acontecimentos do dia 1º. de abril de 1964, na Vila Militar, no Rio de Janeiro, há um relato sucinto do General-de-Brigada Ruy Leal Campello, Tomo III, pg. 63-65. Envolve as ações do General Orlando Geisel e de auxiliares, como o coronel Ariel Pacca da Fonseca, o tenente-coronel Darcy Lázaro, o major Leônidas Pires Gonçalves, o major Ivan de Souza Mendes – além do então tenente-coronel Campello.

“Eu servia no 1º. Batalhão de Engenharia de Combate (1º. BE Cmb), em Santa Cruz, muito próximo à Base Aérea. O Rio de Janeiro ainda se comportava como a capital política do País. O Exército, neste clima, também encontrava-se agitado. (...)

Entre os oficiais não havia [dissensões], mas entre as praças, quase a totalidade do Batalhão era favorável ao Governo João Goulart. Para se ter uma ideia, cerca de 16 a 18 subtenentes e sargentos foram alcançados pelo Ato Institucional no. 1, em meados de abril de 1964.

No dia 31 de março, quando tivemos notícia de que o General Olympio Mourão Filho se deslocava para o Rio de Janeiro, a partir de Minas, e que de São Paulo aguardava-se outra coluna apoiada pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), o Comandante do I Exército determinou o deslocamento de tropas para formar uma linha balizada por Brarra Mansa, Volta Redonda, Paracambi, a fim de conter esses elementos que marchavam de Minas e de São Paulo.

O nosso Comandante de Unidade, Coronel Mário Miranda Santa Rosa – depois afastado pela Revolução – recebeu a ordem de deslocar uma Companhia de Engenharia sob o comando do Capitão Almir Taranto de Mendonça, como se fosse de Infantaria, certamente com deficiência.

Às 7h da noite, em meio ao desencontro das informações – o canal oficial ficou tumultuado e nos valíamos das estações de rádio, ouvidas nos aparelhos a pilha – o Capitão Mendonça resolveu voltar ao quartel com a tropa. Os subtenentes e sargentos decidiram não obedecer, assumiram o comando da tropa, prenderam o capitão, o tenente e o aspirante.

Depois dessa violência, chegaram a um acordo: soltaram os oficiais que voltaram sozinhos e chegaram ao quartel, sob forte impacto emocional.

À 1h da manhã de 1º de abril chega a Companhia, totalmente desmoralizada, uma vez que a tropa do I Exército aderira ao Movimento. Em frente ao Batalhão de Engenharia existe uma grande praça cimentada onde a Companhia entrou em forma e foi apresentada ao Capitão Mendonça: no subtenente que a apresentou, ele deu um soco na cara.

Os sargentos saíram de forma correndo e se abrigaram no quartel, com medo. Foram reunidos no cassino aqueles de quem tínhamos informação que discordavam do Movimento revolucionário, e deixamos sob guarda.

O quartel ficava muito próximo da Base Aérea de Santa Cruz, onde havia quase mil sargentos; o comandante era o Coronel-Aviador Rui Moreira Lima, herói da Segunda Guerra Mundial, muito respeitado, mas totalmente de esquerda. O grande temor era a base rebelar-se.

(...)

Encontramos na casa de alguns subtenentes e sargentos do BECmb muita documentação dos ‘grupos dos onze’, criação de Leonel Brizola, inclusive com os objetivos: atacar a casa do comandante, atacar o paiol etc. Isso era uma tática de guerrilha de inspiração chinesa: empregar pequenos grupos” (Tenente-Coronel Hiran Gomes Cavalcanti, Tomo 6, pg. 265).

“Em São Paulo, contudo, o desenvolvimento dos fatos não transcorreu facilmente, no meio militar. O General Amaury Kruel, Comandante do II Exército, ficou em meio à dúvida, por ser gaúcho, ter sido promovido por Getúlio Vargas e ser amigo de João Goulart, não se decidiu. O Comandante do 4º. RI, o então Coronel Carlos Alberto Cabral Ribeiro, foi ao QG do II Exército – na época era II Exército -, expôs os fatos ao General Kruel, disse-lhe que o 4º. RI apoiava o Movimento e saiu dali com a adesão do General. A tropa permaneceu aquartelada, de prontidão, e atenta às manifestações contrárias, praticamente nulas.

Houve uma indecisão no Sul do País, terra de João Goulart e de Brizola. A tendência seria o III Exército, com sede em Porto Alegre, manter-se a favor de João Goulart. Em consequência, em São Paulo, constituiu-se um grupamento tático, organizado com base no 4º. RI e reforçado com peças de artilharia do Grupo de Itu. A coluna de marcha, de mais ou menos 5 km, partiu em direção a Porto Alegre.

Nessa hora, foi possível constatar a situação em que se encontrava o nosso Exército. Como não tínhamos viaturas para o transporte de todo o pessoal, foram requisitados ônibus da Companhia Municipal de Transportes Coletivos, de São Paulo. As peças de artilharia foram praticamente ‘amarradas’ em caminhões retirados do parque industrial, apenas o chassi e a cabine do motorista. Nos postos de gasolina, fazia-se, mediante requisição, o reabastecimento das viaturas

Quando chegamos em Curitiba, a situação em Porto Alegre já havia sido resolvida. Com a destituição do seu Comandante, que se evadira da cidade, o III Exército aderiu ao Movimento. Sendo assim, de Curitiba retornamos para São Paulo. Na chegada à capital paulista, fomos surpreendidos por uma manifestação popular em apoio ao 4º. RI e, por conseguinte, à Revolução. Desfilamos no Vale do Anhangabaú, na Avenida 9 de Julho, sob aclamação entusiasmada de grande parte da população, que se deslocou em atendimento ao anúncio do desfile da tropa. Indubitavelmente, acontecimento da maior importância, pouco comentado” (General-de-Brigada Adalberto Bueno da Cruz, Tomo 12, pg. 149).

 

TENTATIVA DE ASSALTO DOS FUZILEIROS AO PALÁCIO GUANABARA

“Foram milhares de pessoas, com lenço azul e branco, para defender o Palácio de qualquer maneira. Apareceu gente com canivete, com faca de cozinha, com pica-pau, garrucha, espingarda de mil e oitocentos e alguma coisa, aparecia de tudo, impressionante.

Tinha juiz, tinha padre, todo mundo aparecia e se oferecia para defender o Palácio Guanabara, foi uma adesão impressionante do povo.

É importante dizer isso, pois mostra como é que o povo se manifestou e hoje eles, os derrotados, omitem tudo isso. [entrevistador]

Exatamente. Tínhamos um plano, caso viessem os tanques pela Rua Paissandu e Rua Ipiranga, que dão acesso à Pinheiro Machado e ao Palácio, portanto. Tínhamos um plano de fazer uma chuva de coquetel molotov em cima dos blindados do Exército ou dos Fuzileiros Navais, o que viesse.

No sexto andar de todos aqueles prédios, nessas duas ruas, ficaram agentes do DOPS com a sacola de feira cheia de garrafa de coca-cola, com o pavio pronto para dar a partida. Eles conversavam com o dono do apartamento e pediam para ficar na janela em posição de jogar aquelas garrafinhas se aparecesse algum blindado.

Todos esses funcionários do DOPS foram recebidos de braços aberto, com cafezinho, comida, cadeira para sentar, todas as mordomias possíveis e imagináveis daquelas famílias da Rua Paissandu.

Ninguém aguentava mais aquela anarquia. Em suma, foi aquela adesão do povo, todo mundo foi para lá, todo mundo queria cooperar... [entrevistador]

Em dado momento, nos sentimos um pouco fracos no Palácio Guanabara em termos de defesa, apenas com sacos de areia para aquela espécie de casamata.

Apareceu um português, proprietário de uma pedreira em Jacarepaguá, que em poucas horas trouxe uns três ou quatro caminhões cheios de pó de pedra, ensacou aquilo tudo e fez um verdadeiro fortim no Palácio Guanabara. Tudo dele, ideia, dinheiro, caminhão e pó de pedra.

(...)

No dia 1º. de abril, não me lembro mais a que horas, apareceram uns grupos de soldados na crista de um morro que dá nos fundos do Palácio Guanabara. E alguém, um desses voluntários, viu aquilo e deu um grito de alarme, achando que os fuzileiros estavam atacando, mas era a própria PM, o 2º. Batalhão da Polícia Militar tomando posição, pois eu tinha determinado que eles defendessem os fundos do Palácio.

O 2º. Batalhão da PM defendeu os fundos do Palácio e aquela garganta que tem na Rua Farani, aquele corte na pedra. Eles ficaram lá em cima, apontando armas, e o Coronel Burnier, João Paulo Moreira Burnier, outro sujeito extraordinário, que depois foi injuriado pelo Departamento de Desinformação da KGB. Trouxe até um documento sobre isso; as desinformações da KGB eram muito eficientes.

O Coronel Burnier aorganizou o pessoal de lenço azul e branco, ele tinha retirado da Base Aérea de Santa Cruz dois trilhos, dois suportes de foguete ar-ar ou ar-terra, foquetinhos pequenos de 5 polegadas que os aviões levam embaixo da asa, e quando eles veem um alto interessante no chão fazem a pontaria e disparam os foguetes.

Ele retirou os trilhos, porque a Base Aérea não estava conosco; havia vários janguistas lá dentro. Depois acabou ficando nas nossas mãos com a prisão dos contrários e os brizolistas não se mexeram. Ameaçaram de bombardear para atender ao apelo do Brizola do rádio. O próprio Luís Carlos Prestes, no seu livro, confessa que deu ordem ao seu Partido para movimentar os elementos comunistas dentro da Base de Santa Cruz, para que Santa Cruz atacasse o Palácio Guanabara com os foguetes dos aviões e gasolina gelatinosa dos bimotores Meteoros, que, naquele tempo, era o avião de caça do Brasil, um bimotor com dois jatinhos.

Voltando ao Palácio Guanabara, quando foi dado o alarme, todo mundo pensou que era o ataque dos fuzileiros do Aragão. Eu até fiquei chateado, porque era responsável por aquela segurança toda, e como é que deram o alarme, achando que os fuzileiros tinham chegado nos fundos do Palácio e eu não sabia, a minha tropa não sabia? Isso não podia acontecer, como, aliás, não aconteceu. Era o meu pessoal que estava chegando para ocupar posição. Quem se precipitou era uma pessoa desinformada!” (Coronel-Aviador Gustavo Eugenio de Oliveira Borges, Tomo 10, pg. 298).

 

Blindados sob o comando do Tenente Perdigão protegem o Palácio Guanabara

“Gostaria de destacar um aspecto que até hoje é obscuro na história da Revolução, para fazer justiça a um amigo, Tenente Perdigão. Durante a Revolução, no dia 29 de março, fui preso pelo Comandante da Base Aérea de Santa Cruz, Coronel Rui Moreira Lima, em virtude de estar fazendo parte de uma conspiração para derrubada do Governo João Goulart. Fui conduzido preso – naquela época era Zona Aérea – para a 3ª. Zona Aérea e, no mesmo dia 29, fugi, porque já estava combinado com o Brigadeiro Burnier que eles estariam me aguardando no Palácio Guanabara. Desloquei-me à noite, para o Palácio e lá fiquei, provavelmente, até o dia 2 ou 3 de abril.

No dia 31 de março, estava com três sargentos, dois cabos e 27 soldados da Polícia Militar, guardando a entrada da Rua das Laranjeiras, um dos acessos ao Palácio Guanabara. Em determinado momento, vislumbrei, ao longe, dois blindados. Chamei um sargento e um cabo e, cada um de nós com quatro granadas, nos dirigimos para jogar as granadas nas lagartas dos blindados. Não sabíamos quem estava nos carros. Para nós, eram blindados que estavam vindo para invadir o Palácio Guanabara. Quando nos aproximamos, o tenente, que estava comandando os dois blindados, acenou com um lenço branco. Falei com o sargento e o cabo: ‘Vamos ver do que se trata’. Ele parou os blindados e eu perguntei: ‘Quem é você?’ ‘Sou o Tenente Perdigão e vim aderir à Revolução no Palácio Guanabara. Esses blindados foram enviados para proteger o Presidente João Goulart, no Palácio do Catete. Nós desviamos e viemos para cá’. Faço questão de que isso seja ressaltado, porque existe uma história que esses blindados teriam sido levados ao Palácio Guanabara pelos irmãos Etchegoyen, o que não é verdade. Quem recebeu os blindados fui eu.

(...)

Saíra uma reportagem na revista O Cruzeiro, dizendo que o Ciro e o Leo haviam levado os blindados. Eles, o Ciro e o Leo, estavam no Palácio Guanabara comigo, na época. Se não me engano, o Leo fazia parte do estado-maior formado pelo Brigadeiro Burnier, o Brigadeiro Souza e Silva e o Coronel Mendes, do Exército. Eles constituíram um estado-maior na Escola Anne Frank, que é anexa ao Palácio Guanabara” (Tenente-Coronel-Aviador Juarez de Deus Gomes da Silva, Tomo 10, pg. 406-407).

 

 

O Coronel Alfeu Monteiro tentou matar o Brigadeiro Nelson Lavanère Wanderley na passagem de comando e foi morto

 

“O Brigadeiro Lavanère Wanderley, que logo depois da eclosão da Revolução foi nomeado comandante da 5ª. Zona Aérea e lá chegando aparece um coronel da FAB, Alfeu Alcântara, que era janguista, e dá um tiro de 45, cara a cara com o Lavanère, mas o sujeito era muito ruim de tiro e a bala raspou, só fez um risco na cabeça do Lavanère Wanderley.

 

Outro oficial da FAB, chamado Hipóllyto da Csota, que estava ao lado do Brigadeiro Lavanère Wanderley, puxou a 45 e eu um tiro nesse coronel comunista, matando-o na hora. Conto esse fato no livro com todos os detalhes.

 

“Por volta da meia-noite [do dia 2 ou 3 de abril de 1964, segundo o entrevistado], recebi uma ordem para que me deslocasse com a minha Companhia para ocupar o quartel-general da 5ª. Zona Aérea, hoje V COMAR. Naquele quartel, tinha havido uma série de incidentes. O Brigadeiro Nelson Lavanère Wanderley tinha vindo assumir o Comando do V COMAR, mas foi contestado pelo Coronel Alfeu Monteiro, que pertencia ao Estado-Maior e estava interino no Comando, por ser o oficial mais antigo.

 

No COMAR também, como acontecera no Exército e na Marinha, os sargentos haviam sofrido uma forte doutrinação ideológica, só que, lá, as coisas ficaram mais sérias. O Coronel Alfeu erra um homem da linha esquerdista, amigo particular de João Goulart. Quando o Brigadeiro chegou para assumir o Comando do COMAR, o Comandante interino disse que não passava o Comando e atirou no Brigadeiro Lavanère Wanderley, isso no seu gabinete – era uma passagem de Comando em gabinete. Atirou no Brigadeiro e o feriu. Um dos oficiais que acompanhava o Brigadeiro, o Coronel Roberto Hipólito da Costa, puxou de sua arma e com um tiro certeiro matou o Coronel Alfeu.

 

Isso criou um clima insustentável na 5ª. Zona Aérea. Os sargentos praticamente se levantaram, porque é preciso notar que a impregnação ideológica dos sargentos foi muito grande; é preciso notar que o Coronel, que acabara de falecer, era um homem aliado a eles, criando um clima insuportável, onde os sargentos iriam invadir a Vila dos Oficiais etc. Esse era o clima no V COMAR. Quem estava no Comando de Porto Alegre já não era o General Osvino, o grande aliado de João Goulart. Enfim, nós fomos acionados, recebemos ordens para que ocupássemos aquele quartel da Força Aérea. Essa ordem foi dada a mim. A outra Companhia de Fuzileiros saiu para ocupar a refinaria Alberto Pasqualine e também foi feito um movimento à noite” (General-de-Exército Luiz Gonzaga Schroeder Lessa, Tomo 10, pg. 54-55).

 

Obs.

 

Apesar de um IPM ter inocentado o Coronel Roberto Hipólito da Costa pela morte do Coronel Alfeu, por ter agido em legítima defesa da vida do Brigadeiro Lavanère, a Comissão de Mortos e Desaparecidos concedeu pensão à família do morto. Pior, a Comissão baseou-se em livro de Elio Gaspari, onde consta que o morto recebeu 16 tiros nas costas, uma mentira deslavada que não consta do Inquérito.

 

Um soldado que partiu com o Destacamento Caicó, de Minas para Brasília, foi dado como desaparecido na Capital do Brasil, conforme depoimento do Coronel Luiz Marques Tavares (Tomo 6, pg. 230).

 

O sargento Venaldino Saraiva tentou matar os aspirantes Flávio Maurer e Aloysio Oséas e depois se suicidou.

 

Dois militares ficaram feridos no Forte de Copacabana, um aluno da ECEME e um sargento, conforme relato do Coronel Nelson Roberto Bianco (Tomo 14, pg. 331).

 

Assim, pode-se dizer que a Revolução de 31 de Março de 1964 foi a mais incruenta de toda a História da Humanidade: dois mortos, alguns feridos (quatro?) e um desaparecido.

 

F. Maier

 

O último itinerário de Jango no Brasil, como Presidente, foi viajar do Palácio das Laranjeiras (Rio de Janeiro) para Brasília (Granja do Torto), depois para Porto Alegre, São Borja e Uruguai.

Quando começou o Movimento, a equipe de Jango estava em Brasília? [entrevistador]

Eu estava com o Presidente no Palácio das Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Na manhã do dia 1º. de abril, o General Moraes Âncora (Armando de Moraes Âncora Filho) sugeriu ao Presidente que deixasse a cidade, pela falta de segurança. Na viagem até a Base Aérea do Galeão, o carro foi apenas com o Jango, o Eugênio Caillar Ferreira – seu secretário particular – e eu; o Presidente não determinou providência especial no sentido de sua segurança pessoal.

Na Granja do Torto, discutiu-se duas linhas de ação: abandono de Brasília e constituição de um núcleo de resistência no rio Grande do Sul ou permanecer em Brasília porque, mesmo admitindo que a Capital Federal não apresentava condições de segurança, era importante preservar o caráter da legalidade do Governo. A opção foi pela primeira linha de ação e à noite, após vários boatos, inclusive a versão de sabotagem ou defeito no Coronado da Varig, viajamos para Porto Alegre, parece que em um Avro da Força Aérea Brasileira (FAB).

E o Ladário veio junto? [entrevistador]

Não. Penso que o General Ladário veio para o Rio Grande do Sul após a Semana Santa, porque ele fora nomeado Comandante da 6ª. DI e, como General mais antigo, passara a comandar o III Exército, pois o General Galhardo (Benjamim Rodrigues Galhardo) assumira o Estado-Maior do Exército. Tudo isso ocorrera porque o então Comandante da 6ª. DI, General Adalberto (Adalberto Pereira dos Santos) e o General Castello Branco não mereciam mais a confiança do Governo; havia informações que eles conspiravam.

Quando os senhores chegaram aqui foram direto para... [entrevistador]

Ficamos na residência do Comandante do III Exército, localizada na Avenida Cristóvão Colombo, próximo ao Hospital Militar de Porto Alegre.

Cite alguns nomes que estavam na reunião que houve na residência do Comandante do III Exército. O Brizola estava? [entrevistador]

O Brizola não. Estavam presentes os Generais Ladário e Floriano (Floriano de Silva Machado), seu Chefe de Estado-Maior, além de outras pessoas que não me recordo. Discutiram a possibilidade de reagir, porque haveria tropas – inclusive Jaguarão – que não haviam aderido ao levante militar. Lembro das palavras do General Ladário – um guerreiro – para o Presidente:

- Se nós iniciarmos a reação, isso se alastra e o Rio Grande do Sul se torna uma nova Legalidade.

- Uma pergunta só – ponderou o Presidente Jango. Vai correr sangue?

- Ah, vai! – respondeu o General de modo taxativo.

- Então eu não concordo.

Mais tarde, o General Ladário, referindo-se ao fato, comentou:

- Bah! O Presidente esqueceu que tivemos o Antônio João que morreu abraçado ao mastro defendendo a Bandeira e a Pátria.

Lembrei do que ele falou porque agora o Fontourinha (Carlos Joaquim da Fontoura Rodrigues) também se enrolou na Bandeira para não entrega-la aos sem-terra. Já virou símbolo de coragem utilizar-se da Bandeira para reagir a uma situação adversa.

Desde que houvesse possibilidade de derramamento de sangue entre irmãos, Jango não queria a constituição de um núcleo de resistência no Rio Grande do Sul, para preservar o caráter de legalidade do Governo. Ele era da Paz.

E ele saiu daqui para o Uruguai? [entrevistador]

Não, daqui fomos para São Borja. Ficamos no Rancho Grande mais uns dois ou três dias. A permanência naquele local era uma temeridade. A segurança inexistia e constava que o Regimento sediado em São Borja recebera ordem para cercar a fazenda. Então ele foi para um rancho de sua propriedade às margens do Rio Uruguai. A comitiva que o acompanhara permaneceu na fazenda Rancho Grande, de onde, por ordem do Presidente, retornou para Porto Alegre. Ele, após alguns dias, seguiu para o Uruguai em um avião particular, sob o comando de seu piloto Manoel Soares Leães, vulgo Maneco, que morreu há pouco tempo.

Você estava com ele? [entrevistador]

Como já referi, por determinação dele, retornamos para Porto Alegre. Aqui fomos presos e nos mandaram para Brasília. Cerca de dois dias depois, nos embarcaram para o Rio de Janeiro. Não me deram tempo para fazer nada, nem para arrumar as malas. Minha esposa permaneceu em Brasília, tratando da mudança, só mais tarde viajou para o Rio de Janeiro, onde nos reencontramos. Tudo aconteceu com tal rapidez que fomos obrigados a deixar nosso carro em Brasília. Posteriormente, um amigo – Roberto Godinho, genro de João Tamer, radicado na capital federal – o levou ao Rio para mim.

Eu tive sorte porque tinha onde morar, pois quando fui convidado pelo Presidente Jango eu era solteiro – casei em agosto de 1963 – servia no Rio e alugara um apartamento na Rua Professor Gastão Bahiana, que mantive comigo nos anos seguintes. Alguns companheiros tiveram que entregar o apartamento funcional a toque de caixa, não tinham nem lugar para onde ir...

No Rio, vocês foram desingados para alguma comissão? Ficaram presos? Dormiam no quartel? [entrevistador]

Ficamos apenas adidos ao I Exército, à disposição dos vários inquéritos instaurados para verificar o comprometimento com a subversão.

Não ficamos presos. Dormíamos em casa e nos apresentávamos todos os dias no Ministério da Guerra. Depois de algum tempo, a paciência deles se esgotou e passaram a exigir uma apresentação semanal. Mais tarde, só nos exigiam uma apresentação no fim do mês, a fim de recebermos os vencimentos” (Tenente-Coronel Ernani Corrêa de Azambuja, Tomo 13, pg. 274-275).

Obs.:

Após o episódio da Legalidade, o então Capitão Azambuja passou a ser Ajudante-de-Ordens de Jango. Após o Movimento de 1964, não foi preso, ficando adido ao I Exército e depois classificado na 23ª. CR (Circunscrição de Recrutamento), em João Pessoa, atual 23ª. Circunscrição do Serviço Militar (23ª. CSM).  “Eu brincava dizendo que fora mandado para o Centro de Recuperação (CR)” (pg. 276).

Por duas vezes, o “pseudo-subversivo” Azambuja foi proibido de prestar concurso para a ECEME. Como Tenente-Coronel, pediu transferência para a Reserva em 1969.

Graduou-se em Engenharia Civil pela UFRGS, em 1971.

O episódio envolvendo o Coronel Fontoura e o MST pode ser visto em https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/06/o-patriota-coronel-carlos-fontoura.html.

F. Maier

 

Comandante de Unidade Militar estaria tramando a morte de oficiais anti-Jango

 

“Uma tarde, durante aquela fase que a Revolução ainda estava se consolidando, chegou lá no Regimento o Dr. Apodyr, da Liga de Defesa Nacional. Éramos amigos porque eu também pertencia à Liga. Foi logo falando:

 

- Marsillac, quero falar com o Comandante do Regimento e só com ele.

 

- Antes de tudo – fui sincero com ele – vou perguntar ao Comandante se ele quer te receber.

 

Afirmei antes que o Coronel não andava mais pelo quartel, depois da reunião lá na sala de refeições. Ficou encerrado no quarto dele o tempo todo, não participando das atividades; sumiu do mapa. Como nossos gabinetes eram contíguos, bati na porta do Danton [Danton do Amaral Duro] e entrei. Ele estava sentado junto à mesa de despacho. Disse-lhe:

 

- O Dr. Apodyr quer falar contigo, e disse que é só contigo, porque o motivo é muito grave e afeta a segurança do Regimento. Vou fazê-lo entrar.

 

- Manda esse fofoqueiro embora, não vou ouvir ninguém, não quero encher o meu ouvido de fofoca. Manda ele embora.

 

- Danton – ponderei -, tu não podes fazer isso, o Dr. Apodyr representa uma parte da sociedade local. Quer relatar um fato que afeta a segurança do Regomento; mesmo que seja fofoca, tu tens que recebe-lo.

 

- Mas não vou recebê-lo, faz o que tu quiseres.

 

Voltei para o meu gabinete e disse ao Apodyr:

 

- Doutor, o Comandante não vai recebê-lo. Resta-lhe falar comigo ou se retirar.

 

- Marsillac, é grave, não sei nem como começar.

 

- Agora tu não sairás daqui sem dizer do que se trata.

 

- Então te direi tudo.

 

Contou-me que corria na cidade a notícia de que o Danton tornaria ‘vira-casaca’ e movimentaria o Regimento para defender o Governo Jango Goulart. Para tal, ele tramava a minha morte e dos oficiais que me seguissem.

 

Relativamente há pouco tempo, uns cinco ou seis anos, quando me encontrei com o jornalista Menezes na Liga de Defesa Nacional, ele me disse, confidencialmente, que o tal boato já se transformara em notícia. Ele sabia do assunto em detalhes. Ainda ontem, na solenidade do Dia da Bandeira, no Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR), ele me disse:

 

- Marsillac, tu podias não estar aqui, assistindo esta cerimônia.

 

Estava conosco o Coronel Johhy (Jonny Gomes Prange), que perguntou o porquê. A resposta veio pronta:

 

- Porque ele seria morto pelo Comandante do 9º. RI (General-de-Brigada José Mattos de Marsillac Motta, Tomo 13, pg. 116-117).

 

 

AFINAL, FOI GOLPE, CONTRAGOLPE, REVOLUÇÃO OU CONTRARREVOLUÇÃO?

 

Neste ano de 2021, comemoramos 57 anos do Movimento Cívico-Militar de 31 de Março de 1964.

 

Alguns dos analistas entrevistados na História Oral tratam o episódio como Revolução, pelos avanços sócio-econômicos alcançados, tirando o Brasil da vergonhosa 46a. posição entre as nações e colocando nosso País entre as 8 maiores economias do Planeta.

 

Outros tratam o fato histórico como Contrarrevolução, por ter brecado a Revolução Sindicalista em curso, por obra da dupla Jango-Brizola, que dilapidou a hierarquia e a disciplina nas Forças Armadas, e prometia fechar o Congresso Nacional e decretar o Estado de Sítio, para implantar as “reformas de base, na lei ou na marra".

 

Outros, ainda, tratam o fato histórico como Movimento Cívico-Militar de 31 de Março de 1964.

 

A esquerda toda afirma que se trata de Golpe pura e simplesmente, fingindo não saber que a intervenção dos militares só ocorreu devido à forte pressão da população nas ruas, para acabar com a baderna estabelecida, com greves em cima de greves, desabastecimento geral, inflação em alta, desrespeito às instituições e às Forças Armadas, e a ameaça de um golpe comunista.

 

“O fato é que uma revolução exige medidas duras, extremamente enérgicas, a revolução lembra sangue e a nossa foi muito branda, muito complacente. Por isso estamos sofrendo as consequências agora. Nós devíamos ‘ter cortado algumas cabeças’ e alijado algumas figuras que até hoje não deixam o País progredir” (Coronel Italo Mandarino, Tomo 3, pg. 193).

 

 

Revolução ou golpe?

 

“O nome tem que ser Revolução mesmo. É diferente de um golpe, de uma quartelada, fruto de um grupinho que se reúne e vai tomar o Poder. O que houve foi a vontade nacional, o povo brasileiro mobilizado a fim de transformar, para melhor, a vida do País. E uma quartelada, um golpe, não se mantém por muito tempo, porque lhe falta a base de sustentação. E a Revolução se manteve por tanto tempo, exatamente porque tinha o apoio popular” (General-de-Exército Domingos Miguel Antonio Gazzineo, Tomo 4, pg. 48).

 

“No meu entender, a Revolução de 1964 não foi só para se opor àquela revolução em marcha. Ela teve objetivos muito mais amplos, objetivos de reformas políticas, de implantar uma nova mentalidade em nossos políticos, uma nova mentalidade na nossa sociedade, o desenvolvimento da economia em novos parâmetros. Então, nesse sentido bem mais amplo, acho que o termo Revolução está correto. O termo utilizado historicamente por nós foi Revolução por ser mais pertinente” (Coronel Romeu Antonio Ferreira, Tomo 9, pg. 367).

 

“Isto está claro na doutrina de Direito. Ainda ontem, tive uma discussão doutrinária com uma funcionária da ‘Defesa Nacional’, aqui no pátio (do Palácio Duque de Caxias). Ela chamou de ‘golpe’ e eu retruquei.

 

- O Senhor não acha!?

 

- Não, não é golpe – e expliquei. Dá-se o nome de golpe a toda ação política, cujo objetivo é estruir o que está estabelecido e vem de cima para baixo.

 

Por exemplo: a criação do Estado Novo foi um golpe perpetrado por Getúlio, pois o povo não participou. Cito um outro caso: quando Napoleão se coroou imperador da França, foi um golpe, porque o povo não pediu que ele se tornasse imperador.

 

Revolução dá-se de baixo para cima, com a participação da maioria do povo que decide apear do Poder as autoridades constituídas. Assim foi a Revolução Francesa, onde o povo terminou com a monarquia, e a própria Revolução Bolchevista russa, que expulsou do Poder a família imperial.

 

A nossa Revolução foi o povo que a quis, como nós já comentamos aqui. Agora, a mídia, esquerdista, querendo menosprezar o Movimento, chama-o de golpe. Mas eu não aceito esse epíteto” (Coronel José Tancredo Ramos Jubé, Tomo II, pg. 337).

 

“De acordo com o “Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa’, de Aurélio Buarque de Holanda, o termo revolução significa sublevação, mudança violenta da forma de governo. Toda mudança repentina e radical das instituições fundamentais do estado e da sociedade realizada pela força. É isso que diz Buarque de Holanda. E o termo revolucionário quer dizer excitar a revolução, sublevar, instigar a revolta, agitar moralmente. Era justamente o que o Governo anárquico de João Goulart estava preparando com os comunistas nacionais e apoiado por comunistas internacionais; estava sublevando, instigando a revolta, caminhando a passos largos para a revolução comunista, com o fim deliberado de implantar a ditadura do proletariado, a ditadura dos sindicalistas, a ditadura dos paredões, como em Cuba.

As Forças Armadas desencadearam, portanto, uma revolução para impedir a eclosão de outra revolução. O termo correto, consequentemente, é contrarrevolução, ou seja, movimento que fez abortar uma revolução em marcha. Contudo, ficou mais conhecido com o nome de Movimento Revolucionário de 31 de Março de 1964” (General-de-Brigada Niaze Almeida Gerude, Tomo 11, pg. 107).

 

Obs.:

 

O que eu acho, em minha singela análise, na condição de um simples pica-fumo? Creio que começou como Movimento Cívico-Militar Contrarrevolucionário – porque havia um movimento golpista em andamento -, progrediu com Castello Branco para uma Revolução do tipo “Ditadura Envergonhada” (apud Elio Gaspari), virou “Ditadura Escancarada” (apud Elio Gaspari) com o AI-5, em 1968, durante os governos de Costa e Silva, Médici e do "déspota esclarecido" Ernesto Geisel, e retornou à normalidade democrática com a promulgação da Lei da Anistia, geral e irrestrita, em 1979, no início do Governo Figueiredo.

 

Resumindo, foram 10 anos de ditadura e 10 anos de “ditabranda” ou “ditamole”. O resto é fake history.

 

F. Maier

 

 

 

TEM INÍCIO O GOVERNO DO MOVIMENTO REVOLUCIONÁRIO DE 31 DE MARÇO DE 1964

 

MANCHETES DE “O GLOBO”:

“FUGIU GOULART E A DEMOCRACIA ESTÁ SENDO RESTABELECIDA”.

“EMPOSSADO MAZZILLI NA PRESIDÊNCIA”

“Ressurge a Democracia!”

 

 

O povo, a Igreja Católica e a mídia apoiaram o Movimento de 31 de Março de 1964

 

Tanto o povo, quanto a Igreja Católica e a mídia, em peso, apoiaram o Movimento de 31 de Março de 1964. Basta ver as manchetes dos jornais e das revistas da época.

Uma Edição Especial da revista Manchete ilustra o ocorrido: (https://www.conjur.com.br/dl/manchete-abr1964.pdf  https://www.youtube.com/watch?v=oZ9QX1t3JSs).

Reader’s Digest: “Uma Nação que se salvou por si mesma”: (https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/04/a-nacao-que-salvou-si-mesma-historia.html).

Em 1964, a imprensa disse SIM ao povo e aos militares. Confira no link abaixo as manchetes dos jornais:

https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/04/em-1964-imprensa-disse-sim-ao-povo-e.html

“Jornais da maior respeitabilidade e aceitação do público manifestaram expressamente a sua adesão ao movimento que defendia as instituições democráticas contra os propósitos espúrios daqueles que buscavam degradá-las. Basta citar o respeitável Jornal do Brasil, que, em sua edição de 1º. de abril de 1964, assim se pronunciou: ‘A legalidade está conosco e não com o caudilho aliado dos comunistas” (Desembargador Nelson Pecegueiro do Amaral, Tomo 14, pg. 108).

“O mais interessante foi presenciar, sentir a vibração do povo do Rio. Por onde passasse alguém fardado, o pessoal aplaudia, chamava para entrar em casa, almoçar, era uma vibração geral! Não foram o Exército, a Marinha e a Força Aérea que fizeram a Revolução. Foi o povo brasileiro quem a fez. Decorridos alguns meses, já estávamos sob o entusiasmo da ‘campanha do ouro para o bem do Brasil’ ” (General-de-Exército Domingos Miguel Antonio Gazzineo, Tomo 4, pg. 37).

 “Na mídia, vou destacar, antes de tudo, uma figura que ficou no esquecimento do Brasil: o radialista, o homem de televisão, Flávio Cavalcante. Flávio Cavalcante, antes da Revolução, fez um programa – que me marcou bastante – onde ele levou vários pracinhas e enalteceu o valor do militar. Mostrou a importância do militar brasileiro e o espírito de liberdade que os pracinhas defenderam. O anticomunismo que ele pregou, diretamente, no seu programa e a coragem que teve me marcaram muito. Foi um profissional que caiu no esquecimento, porque ele não era da linha esquerdista” (Coronel Reynaldo de Biasi Silva Rocha, Tomo 3, pg. 325).

“A essência da Igreja Católica, a perseguição e o martírio de padres católicos nos países comunistas e a negação marxista da religião jamais levariam a Igreja a apoiar a comunização do Brasil. Na verdade, a grande maioria dos padres e bispos católicos não só apoiaram, mas estimularam as Marchas da Família com Deus pela Liberdade, o que significava antecipar aprovação a qualquer movimento que anulasse o esquema comunojanguista. Da mesma maneira se vinha comportando a Imprensa. Os grandes jornais da época – O Globo, O Estado de S. Paulo, a Folha de S. Paulo, o Jornal do Brasil e outros – investiam frequentemente contra a desordem criada e até estimulavam o surgimento de algo que pusesse fim àquela situação. Era a manifestação do apoio antecipado à Revolução. Não incluo aqui os jornais governistas, como a Última Hora, que alimentavam lá os seus interesses” (Tenente-Coronel Elias Lima Barros, Tomo 4, pg. 196).

“Naquela oportunidade, a Igreja, no Nordeste, tinha o pessoal conservador, sob a orientação de Dom Eugênio Sales, que não aceitava interferência política. Ainda hoje há muito padre que não aceita isso. Do outro lado, tínhamos a Igreja progressista, que optava pela política, servindo somente às esquerdas, a exemplo das reuniões de Dom Evaristo Arns, num estádio de futebol em São Paulo. Aqui mesmo no Ceará, naquela época, tínhamos dificuldades de conseguir sequer que Dom José Delgado, arcebispo local, celebrasse uma missa por nós” (Tenente-Coronel Murilo Walderk Menezes de Serpa, Tomo 4, pg. 206).

“Naquele tempo, o clero, com poucas exceções, deu todo o apoio a esses movimentos [Marchas da Família], embora, depois, se tenham ampliado as divergências contra a Revolução. Aqui no Ceará podemos citar, entre outros, dois exemplos de opositores: Dom José Delgado, arcebispo de Fortaleza, e Dom Antônio Fragoso, bispo de Crateús, mais por pendor ideológico surgido de interpretação do Vaticano II do que por doutrina religiosa. Mas tudo indica que essa parcela divergente do clero, ou ignorava as perversidades e as violências cometidas pelas esquerdas ou era adepta dela” (Empresário Francisco Martins de Lima, Tomo 4, pg. 265).

“Na realidade, devo asseverar a bem da verdade, como o fez o jornalista Roberto Marinho no editorial de O Globo de 7 de outubro de 1984, o povo foi quem nos colocou na rua. Fomos à rua como mensageiro, como porta-voz do povo que não queria que aquele estado de coisas perdurasse. Tanto é verdade que, vitoriosa a Revolução, aqui no Rio aconteceu a maior manifestação que a cidade já vira com cerca de um milhão de pessoas na rua, em 2 de abril, a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, idêntica a de São Paulo, que estava programada e que veio, na realidade, em consolidação da Revolução, chamada de Marcha da Vitória” (General-de-Exército Luiz Gonzaga Schroeder Lessa, Tomo 10, pg. 62).

“Jornais como o Jornal do Brasil, O Estado de São Paulo, o Correio da Manhã, a Folha da Tarde, o Estado de Minas e naturalmente O Globo, para não citar outros mais, estamparam em suas primeiras páginas nas edições de 31 de março e 1º. de abril, editoriais exaltando o papel das Forças Armadas na defesa da democracia e agradecendo aos ‘bravos militares que os protegeram de seus inimigos’. O senhor Roberto Marinho, através de seu jornal, publicava em editorial no dia 31 de março: ‘Como dissemos muitas vezes, a democracia não deve ser um regime suicida, que dê a seus adversários o direito de trucidá-la, para não incorrer no risco de ferir uma legalidade que esses adversários são os primeiros a desrespeitar’. Mais recentemente, em editorial do mesmo jornal do dia 7 de outubro de 1984, após mais de vinte anos decorridos da eclosão da Revolução de 31 de Março, assim se expressava o senhor Roberto Marinho: ‘Volvendo os olhos para as realizações nacionais dos últimos vinte anos, há que se reconhecer um avanço impressionante’. Mais adiante, nesse mesmo artigo, assim se expressa o articulista: ‘Não há memória de que haja ocorrido aqui, ou em qualquer outro País, que um regime de força, consolidado há mais de dez anos, se tenha utilizado do seu próprio arbítrio para se autolimitar, extinguindo os poderes de exceção, anistiando adversários, ensejando novos quadros partidários, em plena liberdade de imprensa. É esse, indubitavelmente, o maior feito da Revolução de 1964.’ Lamentavelmente, como mudam os homens!” (Coronel Luiz Mario Portocarrero de Castro Sá Freire, Tomo 11, pg. 170-171).

Obs.

O General Lessa e o Coronel Portocarrero se referem ao editorial de Roberto Marinho, “Julgamento da Revolução”, que foi a última demonstração de apoio do Grupo Globo à Revolução de 31 de Março de 1964 - https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/04/julgamento-da-revolucao-por-roberto.html.

Depois, só veio massacre, com o revanchismo de “Anos Rebeldes” - https://memoriaglobo.globo.com/entretenimento/minisseries/anos-rebeldes/ e “Os Dias Eram Assim” - https://pt.wikipedia.org/wiki/Os_Dias_Eram_Assim, e a “retratação” da Rede Globo sobre a Revolução, em 2013, feita por William Bonner, dizendo que “foi um erro” a Globo ter apoiado a Revolução de 1964.

F. Maier

 

LÍDERES MILITARES E CIVIS DO MOVIMENTO DE 1964

 

“A coisa foi sendo ampliada gradativamente e fiquei na expectativa de que algo de positivo acontecesse, fruto de tudo aquilo. É bem verdade que, na manhã do dia 31 de março de 1964, o Major Leo Etchegoyen chegou do Rio de Janeiro com uma mensagem, praticamente codificada, que dava a entender que, depois daquele aparato que houve no dia 30 de março de 1964 no Automóvel Clube do Brasil, com a presença do Presidente da República, um movimento armado, até o dia 4 de abril, eclodiria, como resposta àquela inversão completa de valores. Mas para surpresa minha, no mesmo dia 31, quando estávamos em forma na nossa Unidade, para a leitura do boletim, houve uma interrupção para dizer que tinha sido deflagrado o Movimento em Minas Gerais, liderado pelo General Olympio Mourão Filho” (Major-Brigadeiro-do-Ar Max Alvim, Tomo 10, pg. 76; na época, o Brigadeiro Alvim era piloto da Base Aérea de Canoas, RS, no posto de capitão).

“Indiscutivelmente, o grande articulador do Movimento de 1964 foi o Marechal Odylio Denys. Iniciou sua ativa atuação como conspirador contra Goulart, logo após ter o mesmo voltado a desfrutar de todos os poderes presidencialistas, em seguida ao plebiscito que deu fim ao parlamentarismo. Diretamente ligado ao Marechal, nessa atividade, estiveram os Generais Nelson de Mello, Cordeiro de Faria, Poppe de Figueiredo, Olympio Mourão Filho, Carlos Luís Guedes e vários outros chefes militares. Realizou um trabalho árduo e eficaz, no sentido de criar um dispositivo revolucionário forte, com ramificações por todo o País, mantendo o sigilo para obter a surpresa. Articulou-se com a Marinha e a Aeronáutica, por intermédio de contatos com o Almirante Sylvio Heck e Brigadeiro Grüm Moss. Seu trabalho de aliciamento de militares que serviam em comandos importantes foi decisivo para o êxito do Movimento” (General-de-Exército Sebastião José Ramos de Castro, Tomo 1, pg. 120-121).

A liderança do Marechal Denys foi decisiva para o avanço do Destacamento Tiradentes, comandado pelo general Muricy, de Minas até o Rio de Janeiro, ao convencer por telefone o coronel Raimundo Ferreira de Souza – que havia sido seu Assistente-Secretário, comandante do Regimento Sampaio, vanguarda da coluna do General Cunha Mello, um dos “generais do povo”, enviada para combater as tropas da 4ª. Região Militar:

“- Mas é o senhor que está aí, Marechal? – disse surpreso o Coronel Raimundo.

- Estou aqui do lado do Brasil e da democracia, e gostaria de contar com você – respondeu o Marechal e deu-lhe outras informações.

- O Senhor conta comigo, estou do seu lado – assim se expressou o Coronel.

- Então você espera aí que que vou ao seu encontro – isso era quase meia-noite – para acertar a passagem de linha do seu Regimento, com o Muricy, Comandante do nosso Destacamento – concluiu o Marechal” (General-de-Exército Rubens Bayma Denys, Tomo 1, pg. 171).

Castello Branco foi outro líder do Movimento de 31 de Março de 1964, porém não concordou com o levante de Minas, tentando convencer os líderes revoltosos a abortar a Revolução.

“Indiscutivelmente, Castello nunca foi um revolucionário. Ele era um legalista por excelência. Cabe aqui recordar que no dia 25 de Março de 1964, quando começou o motim dos marinheiros, Castello Branco já estava convencido de que devia tornar-se um revolucionário.

Lembro-me de que o meu irmão pediu-me que o levasse à casa do Castello Branco, em Ipanema, se não me falha a memória, na Rua Redentor, e eu o fiz. Lá chegando, apresentei meu irmão, que falou: ‘General, queremos ver a sua liderança. A Marinha, respondo por ela, pois os almirantes não mandam mais, ficará totalmente do seu lado. Assuma a revolução’.

Talvez esse momento tenha sido a gota d’água que fez quebrar a legalidade. Considero Castello um monumental estadista. Esse homem deu ao Brasil três coisas que bastariam para caracterizar um governo: o fundo de garantia, a queda da inflação e, principalmente, um decreto que considero um primor: o Decreto-Lei 200. No dia em que o Brasil cumpri-lo à risca, seremos uma grande nação” (Coronel Mário Dias, Tomo 2, pg. 303).

“Às horas tantas, explodiu no apartamento um telefonema de Costa e Silva a Portella [Coronel Jayme Portella de Mello, depois general e chefe do Gabinete Militar de Costa e Silva]. O General anunciava que iria para o QG (o então Quartel-General do Exército, na Praça Duque de Caxias – Campo de Santana).

- Mas, General, o senhor vai para o QG?! A Revolução ‘estourou’ em Minas e o senhor vai para lá?! – perguntou admirado Portella. –  Costa e Silva explicou que não queria ir. Mas acrescentou:

- O Castello está lá. Não sei o que deu na cabeça dele. Disse-lhe que não fosse e ele foi. Não vou deixá-lo sozinho (*).

Nenhum de nós aceitou a explicação, e passamos a conjecturar sobre ela.

Eram típicos do Costa e Silva esses rompantes, esses lances gauchescos, no caso, um tanto sem sentido. E lá se foi Costa e Silva para o QG. Não terem prendido os dois dá uma idéia do que chamavam de ‘dispositivo militar’ do Governo. Chegaram a mandar fechar os portões e não deixar ninguém sair. Mas Castello, Costa e Silva e os seus oficiais saíram” (Coronel Luís de Alencar Araripe, Tomo 2, pg. 222).

(*) “O General Carlos Luís Guedes, em Tinha que ser Minas – Editora Nova Fronteira, 1979, escreveu que Castello, depois de tentar convencê-lo a mandar a tropas de Minas de volta aos quartéis, foi para seu gabinete no Estado-Maior do Exército, pois estava certo do fracasso do Movimento. Até hoje, não encontrei outra explicação para a ida de Castello para o QG” (citado pelo Coronel Luís de Alencar Araripe, Tomo 2, pg. 222, Nota de rodapé).

“Castello Branco acreditava – e nisso, no meu entender, demonstrou extrema falta de capacidade de julgamento – que a crise de Jango se resolveria, como todas as crises brasileiras, através de um jogo político. Como acontecera com a renúncia de Jânio, sem haver o comprometimento do Exército, o apelo à força. Não queria a Revolução. Quando ela triunfou, fez o que lhe pareceu adequado para que fosse de curta duração. O resultado foi o contrário.

O General Guedes, Comandante da Infantaria Divisionária da 4ª. Região Militar (Belo Horizonte), conta haver Castello lhe telefonado e, depois, telefonado ao Governador Magalhães Pinto, instando que fizessem suas tropas voltar a quartéis, porque seriam massacradas. Seguindo o conselho, teria sido o desastre total. Alertado, o Governo de Jango tomaria medidas que fariam extremamente difícil nova eclosão do Movimento. Castello, com todas as suas inegáveis qualidades de chefe militar, no episódio, foi de uma falta de visão surpreendente.

Ele cismou que aquilo era uma ‘quartelada’? [Entrevistador]

Castello cismou que o Movimento eclodido em Minas era uma quartelada, e ele não queria uma quartelada, até porque a julgava fadada ao fracasso” (Coronel Luís de Alencar Araripe, Tomo 2, pg. 229).

Não se pode esquecer da liderança feminina, em prol do sucesso da Revolução de 1964, como a CAMDE:

“Sobre visitas, e a propósito da adesão do povo à Revolução, há um episódio interessante. Portella, certa feita, chamou-me e ordenou:

- Araripe, estou muito ocupado, e há umas mulheres da CAMDE (Campanha da Mulher pela Democracia) que pediram uma entrevista. Você as recebe.

Ingenuamente, preparei-me para uma amena conversa com circunspetas damas da sociedade. A CAMDE era uma associação de senhoras, militantes, muito aguerridas, e que representaram papel relevante na mobilização do povo em favor do Movimento. Elas chegaram, bem-vestidas, falantes, seguras. Nos sentamos, foi servido cafezinho de estilo, e em dois minutos a cerimônia havia sido posta de lado. Subitamente, uma das senhoras virou-se para mim e disparou:

- Os senhores estão pensando que fizeram a Revolução? Quem fez a Revolução fomos nós, os senhores aderiram.

Não estava longe da verdade. Cordeiro de Faria dá grande crédito à participação civil, em particular das mulheres, no desencadear da Revolução. Esse fato contrapõe-se à qualificação de golpe militar do Movimento de 1964. Não há dúvida de que as mulheres foram atuantes, saíram para as ruas, fizeram discursos e reuniram gente. A Revolução andou mal em não lhes cultivar o apoio.

As senhoras, em coro, continuaram:

- Os senhores estão sendo muito moles com essa gente. Eles vão enterrar os senhores. A nossa Revolução vai para o ‘buraco’ pela fraqueza dos senhores. Os senhores não sabem com quem estão lidando” (Coronel Luís de Calencar Araripe, Tomo 2, pg. 227).

“No Congresso Nacional, como hoje, existiam vários partidos, partidos demais e, como sempre, as agremiações giravam em torno de homens e não de idéias, o que, para mim, é um defeito, um pecado mortal da nossa política. Entretanto, muitos apontavam os erros do Governo. Recordo-me de alguns nomes notáveis, como Bilac Pinto, que, por intermédio de belíssimos discursos, mostrava que o País caminhava para a guerra revolucionária, objetivo claro da esquerda.

Lembro-me, também, do Padre José Godinho, Deputado por São Paulo, orador de grande cultura humanística que, decididamente, alertava sobre a situação deletéria que estávamos vivendo. O Deputado João Calmon, do Espírito Santo, foi outro corajoso combatente no campo político, que procurava alertar o Congresso.

(...)

No Rio de Janeiro, Dom Jaime de Barros Câmara, Cardeal na ocasião, tinha um programa de rádio chamado A Voz do Pastor, onde chamava a atenção dos ouvintes sobre os fatos que estavam acontecendo. Dizia que o povo estava sendo conduzido para uma realidade diferente e alertava para os perigos do comunismo.

No Rio Grande do Sul, Dom Vicente Scherer, o célebre Arcebispo de Porto Alegre, mostrava que a situação era catastrófica para o País.

Na Câmara dos Deputados, as vozes do Padre Godinho, já citado, e do Monsenhor Arruda Câmara juntavam-se ao coro daqueles que alertavam sobre o perigo dos rumos seguidos pelo governo” (Coronel José Tancredo Ramos Jubé, Tomo II, pg. 327-328).

Obs.:

Convém acrescentar a importante obra do Arcebispo Dom Geraldo de Proença Sigaud, “Catecismo Antiocomunista”, disponível na internet - https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/04/catecismo-anticomunista-dom-geraldo-de.html

F. Maier

 

“Dentre os militares, é importante, ainda, destacar, no caso de Minas Gerais, o Comandante da Polícia Militar do Estado, o Coronel PM José Geraldo de Oliveira, que foi extremamente valioso para o êxito da Revolução.

A única Polícia Militar em que o General Castello Branco não precisou intervir para melhorar a disciplina foi a de Minas, cujo efetivo, na sua maioria, era oriundo do Exército. O Comandante da Polícia Militar – Coronel José Geraldo – exerceu um decisivo papel à frente de sua Polícia e junto à população de Minas Gerais, o que repercutiu nos demais Estados da Federação. O Coronel José Geraldo foi um admirável e convicto colaborador. Na instrução do pessoal, no trato do material, na apresentação de seus policiais, na participação austera, em tudo, estava bem viva a sua ação de comando” (Coronel Waldir Abbês, Tomo 3, pg. 293).

“Tem uma coisa interessante, e isso eu gostaria de enfatizar. É um ponto de vista pessoal: diria que a Revolução de 1964 foi um Movimento de capitães e tenentes.

O ardor era dos tenentes e capitães. Os oficiais superiores estavam querendo sair com a gente, mas eles já tinham passado por outros ‘morros’, em outras épocas, e já não tinham aquele entusiasmo que tínhamos.

(...)

Nós, lá no quartel, combinamos que: ‘se, por acaso, nossos comandantes superiores falharem, sairemos, comandados por capitães e tenentes. Vamos levar esse Quartel [ID/4, Infantaria Divisionária da 4ª. Divisão de Infantaria] para o Rio de Janeiro’. Havia essa determinação.

E lá, na ponte do Paraibuna, conversando com os 2º. Tenentes Bini e Moraes, atualmente generais, combinamos o seguinte: se por acaso falhasse o movimento, nós iríamos partir para a guerrilha, não voltaríamos aos quartéis, seríamos guerrilheiros dali para frente.

Eu queria complementar: meu pai comandava o 13º. BC, de Joinvile, eu tinha um irmão no 1º. BIB em Barra Mansa – Tenente Remo Rocha Filho – e o meu cunhado também servia no 13º. BC. A nossa convicção era tanta que eu, com toda pureza de coração, pensava naquela época: ‘quem vier do lado de lá eu atiro. Que não venha meu pai ou parente, porque eu vou atirar” (Coronel Reynaldo de Biasi Silva Rocha, Tomo 3, pg. 312-313).

“Quando estávamos no Rio, no Maracanã, comandava a CCS (Companhia de Comando e Serviços) do 10º. RI o Capitão Kleber Caldas Camerino, filho do General Camerino. E, ali, havia alguns sargentos que não tinham sido detidos em Juiz de Fora, antes de sair, e que começaram a fazer umas anotações.

E pegou-se uma pasta de um deles, com anotações de ‘gorilas’ etc. Percebemos o perigo e ficamos atentos, tanto que começamos a patrulhar as arquibancadas; mas foram dois ou três elementos, uma coisa muito pequena.

O Camerino, na época, se ofereceu ao Coronel Bretas, que havia retomado o comando de sua tropa, no Rio, e dele ouviu palavras que até hoje me arrepio em dizer: ‘Coronel, ofereço-me para fuzilar esses sargentos. Eu sou responsável pela Companhia e cabe-me fuzilá-los’. O Coronel falou: ‘Não faça isso, Camerino, o nosso quartel tem um moral muito elevado e não podemos perder isso. De maneira que vocês vão ter que continuar policiando, convivendo com esse pessoal’ “ (Coronel Reynaldo de Biasi Silva Rocha, Tomo 3, pg. 318-319).

“Os generais que a iniciaram foram, praticamente, preteridos no Governo da Revolução. Nenhum deles desempenhou cargos importantes. Nenhum deles recebeu do governo revolucionário a atenção que merecia, muito menos qualquer privilégio. Os generais mineiros quando leram aquele documento ‘Lealdade ao Exército’ achavam, vamos dizer na nossa linguagem, fraco. Eles queriam uma ordem de partida e não um toque de reunir. E foi, então, que a Revolução eclodiu, e se não eclodisse, naquele dia, com a forte motivação da reunião do Automóvel Clube do Brasil, no Rio de Janeiro, talvez a história fosse outra, porque os generais, apesar do forte clamor do povo, custam a quebrar a inércia, pesam demais as consequências de seus atos. O próprio Ministro do Exército, General Jair Dantas Ribeiro, estava do outro lado.

Todos os fatos geradores da Revolução – a rebelião dos sargentos da Marinha e da Aeronáutica em Brasília, em setembro de 1963; o comício da Central do Brasil em 13 de março de 1964; a rebelião dos marinheiros e fuzileiros, liderada pelo Cabo Anselmo, contando com o apoio do Almirante Aragão – provocaram a difusão desse documento ‘Lealdade ao Exército’. Ele precisa ser lido e interpretado. Provocou o ‘pontapé inicial’ ” (Tenente-Coronel Pedro Cândido Ferreira Filho, Tomo 3, pg. 351).

“O General Amauri Kruel, que era compadre de João Goulart, foi procurá-lo para tentar convencê-lo a dissolver o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), o Pacto de Unidade e Ação (PUA), o Fórum Sindical de Debates e outras entidades que estavam intranquilizando a Nação, promovendo greve por cima de greve, reivindicação por cima de reivindicação. Ainda me lembro, através de um registro que os jornais fizeram, de que o Porto de Santos, o maior da América Latina, parou trezentas embarcações carregadas – as mercadorias apodreceram – em solidariedade a seis enfermeiras da Santa Casa, que entraram em greve.

Mas eu me referia ao encontro do General Kruel com o Presidente João Goulart. Depois da exposição do general, o presidente virou-se e disse: ‘E não posso dissolver essas entidades, porque elas são o meu V Exército.’ Na época, só havia os I, II, III e IV Exércitos. Então, o general despediu-se e foi embora e todo mundo sabe o que houve em 31 de março: o V Exército não apareceu” (Jornalista Themístocles de Castro e Silva, Tomo 4, pg. 279).

 “O noticiário dos jornais apontava, como uma reserva moral e cultural, o General Castello Branco, o Comandante do IV Exército, no Recife, de onde teria sido transferido por interferência de Miguel Arraes” (Jornalista Themístocles de Castro e Silva, Tomo 4, pg. 282).

“No 11º. RI de São João Del Rei, soube mais tarde, a maioria dos sargentos fora presa. Também muitas prisões de civis, comunistas e simpatizantes, foram feitas em Belo Horizonte e Juiz de Fora. O mais ativo deles, de quem não recordo o nome, tinha planos de atacar quartéis e até colocar veneno na caixa d’água da Cidade de Belo Horizonte.

(...)

Meu destacamento, chamado de Caicó – homenagem à terra do Coronel Vale – deixou o quartel sob aplausos e choros de civis. Havia certa euforia e temor pelo que nos esperava no caminho de Brasília. Poderia haver reações dos grupos de esquerda, emboscadas e sabotagens, o que nos deixava de sobreaviso. Até mesmo quando a coluna foi sobrevoada por um ‘teco-teco’ tivemos que sair às pressas dos transportes e nos proteger de um ataque aéreo. Era simplesmente um civil, acompanhado de um oficial de ligação que vistoriava a coluna e atirava mensagens.

Chegamos a Brasília no final da tarde, sem problemas, e guiados pela Polícia do Exército e Polícia Rodoviária fomos estacionar no quartel do 1º. Regimento de Cavalaria Mecanizado (1º. RCMec), ainda em construção. Foram tomadas as medidas de praxe e realizamos, durante a noite, patrulhas para evitar surpresas. Tive a infelicidade de, nos primeiros dias, perder um soldado. Ele simplesmente desapareceu e nunca mais foi encontrado” (Coronel Luiz Marques Tavares, Tomo 6, pg. 230).

 

O General Kruel se decide a favor da Revolução

“Na sequência dos fatos, começou a agravar-se a situação no Rio de Janeiro; houve o comício da Central do Brasil – antes acontecera a revolta dos sargentos, em Brasília -, a revolta dos marinheiros, o comício no Automóvel Clube do Brasil e fui ao Coronel Carlos Alberto Cabral Ribeiro [Comandante do 4º. RI], perguntar:

- Coronel, o senhor tem alguma instrução, já que agora estou comandando?

- Tenho – respondeu. É preciso tomar uma providência urgente e agora com você posso fazer isso. Quero que prepare uma operação de ocupação, mediante ordem, de todas as pontes sobre o Rio Pinheiros, garantindo não só a posse mas, se necessário, até a sua destruição, dependendo da evolução dos acontecimentos. Essa operação vai ser designada como ‘Operação X’.

Fui para a Unidade, preparei vários pelotões comandados por tenentes e programei instruções de ocupação das pontes como se fosse uma situação normal. Fiz isso várias vezes, de tal maneiras que meus tenentes já estavam senhores da ocupação da Ponte da Cidade Jardim, da Ponte Rebouças, da Ponte Cidade Universitária etc. No dia em que o General Olympio Mourão Filho deu início ao Movimento, de Minas Gerais, fui a Coronel Carlos Alberto e disse:

- Coronel, estou achando que a situação não está muito boa.

- Coloque a sua Unidade em ordem de marcha e fique aguardando – disse ele.

O Movimento prosseguiu e na noite de 31 de março fui chamado à guarnição e ele me informou:

- Renato, estou mandando vários comandantes de Batalhão, e você vai também, à residência do General Kruel. Deixe o seu Subcomandante com a Unidade e vai lá!

Deveria ser mais ou menos umas 9h da noite quando cheguei à casa do General Kruel e, ao entrar, olhei e vi diversos companheiros da guarnição de São Paulo, em comando – alguns já estão mortos. Estavam presentes, ainda, além do próprio General Amaury Kruel, o General Riograndino Kruel, o General Macedo, o General Agostinho Cortes, o General Franco Pontes, que era o Comandante da Polícia Militar de São Paulo. Foi perguntado ao General Kruel:

- General, e o problema lá de Minas Gerais, o que o senhor acha?

O General Riograndino Kruel, que era mais velho e tinha acesso fácil ao General Amary Kruel, sugeriu:

- Olha, você deve tomar uma decisão, antes que esses meninos tomem a sua.

Casualmente ao lado do General Kruel, eu o vi dirigir-se a um telefone, pertinho de onde estava; ligou para um número que não conhecia mas tenho certeaza de que o interlocutor que atendeu do outro lado foi o Presidente, porque o General utilizou uma expressão coloquial que só ele poderia empregar:

- Compadre Jango, sou eu, Amaury.

Afastei-me e fiquei de longe, observando. Notei que ocorreu um diálogo áspero, no qual o General insistia em algo. Não sei qual foi a resposta de lá, mas Kruel acabou dizendo: ‘Bem, então vou tomar minha providência.’ Desligou o telefone, virou-se para nós e ordenou:

- Meus senhores, São Paulo está na Revolução! Aos quartéis!

(...)

O GT-4 era um Grupamento Tático que tinha como base o 4º. RI completo e mais uma Bateria do Grupo de Canhões Automático 40mm, com o apoio de suprimento da minha Unidade e ainda da Companhia Leve de Manutenção. Inclusive, tinha até helicóptero.

E o GT-4, uma vez pronto, partiu para o Rio de Janeiro para enfrentar as forças do I Exército. Quando chegou perto de Caçapava, foi informado de que o Comandante do I Exército havia entrado em acordo com seus possíveis opositores e que estava sendo realizada uma reunião na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), com o General Emílio Garrastazu Médici. Então, fizemos meia-volta e partimos, cruzando São Paulo, e fomos parar em Ponta Grossa, para enfrentar forças do III Exército que vinham sob o comando do General Ladário Pereira Telles.

Nessa altura, o Presidente João Goulart tomou um avião, saiu do Rio de Janeiro e foi para o Uruguai, razão pela qual o III Exército não prosseguiu avançando.

Esse comboio foi até Ponta Grossa? Entrou no Estado do Paraná?

Foi até o Paraná e depois voltou. O combustível do helicóptero posto à disposição foi transportado pela minha Unidade [Depósito Regional de Motomecanização da 2ª. Região Militar – DRMM/2]. Nós o abastecíamos e ele sobrevoava o deslocamento da Unidade.

Como foi o contato com os companheiros do 13º. RI, em Ponta Grossa? [Entrevistador]

Sobre esse detalhe nada posso dizer, porque fiquei na retaguarda. Quem permaneceu lá na frente foi o GT-4, eu apenas prestava o apoio de suprimento, combustível, gasolina e material bélico.

A adesão do III Exército e do 13º. RI à Revolução foram confirmadas, sobretudo em seguida à chegada da informação de que João Goulart tinha fugido. Automaticamente, chegou-se à conclusão de que qualquer resistência era desnecessária, era inócua. Partimos para um outro Brasil.

Houve a participação total da população ao Movimento. Fomos recebidos, no retorno, de maneira extraordinária. Não tenho dúvida de que a população apoiava o Exército” (Tenente-Coronel Renato Guimarães, Tomo 7, pg. 258-261).

“Principais líderes civis da Revolução: Carlos Lacerda, José de Magalhães Pinto, Adhemar de Barros, José Maria Alkmin, Nascimento Brito, Pedro Aleixo, Milton Campos, Rondon Pacheco, Amaral Neto, Cunha Bueno, Daniel Krieger, Herbert Levi, Júlio de Mesquita Filho, os irmãos Marinho – Roberto, Ricardo e Rogério -, Bilac Pinto, Armando Falcão, João Calmon, Aristóteles Drummond, Osvaldo Pieruceti, Abreu Sodré, Gama e Silva, Adauto Cardoso, Afonso Arinos, Antonio Neder, Aliomar Baleeiro, Eugênio Gudin, Sandra Cavalcanti, Monteiro de Castro, Frederico Viotti, Laudo Natel, Padre Calazans,  Murilo Melo filho e muitos outros.

Principais líderes militares: eu não estou dando os cargos nem os postos para abreviar a apresentação: Humberto de Alencar Castello Branco, Arthur da Costa e Silva, Emílio Médici, Ernesto Geisel, João Figueiredo, Odylio Denys, Olympio Mourão Filho, que afinal foi quem desencadeou as primeiras operações, Carlos Guedes, seu subordinado e Antonio Muricy, que veio comandando o Destacamento Tiradentes (de Juiz de Fora para o Rio de Janeiro). Jaime Portela, incansável no trabalho que realizou, com extraordinário idealismo, em prol da Revolução. Bizarria Mamede, Luis Serff Selmann, Amerino Raposo, Osvaldo Cordeiro de Farias, Amaury Kruel, Antonio Bandeira, Hélio Ibiapina, D’Ávila Mello, Cesar Montanha, Carlos de Meira Mattos, os três irmãos Andrada Serpa – Antônio Carlos, José Maria e Luíz Gonzaga -, Erasmo Dias, Rubens Resstel, um coronel recém-promovido, mas uma grande liderança que teve uma participação muito forte em São Paulo, Hugo Abreu, Francisco Boaventura, Mário Andreazza, Clóvis Bandeira, Syzeno Sarmento e muitos outros do Exército.

Rademaker, Sylvio Heck, Silveira Lobo, Heitor Lopes de Souza, Waldeck Vampé, Ernesto de Mello Baptista e muitos outros da Marinha. Eduardo Gomes, Grüm Moss, Márcio Mello, Roberto Carrão, Roberto Hipólito, Lavanère Wanderley, Heveraldo Breves e muitos outros da Aeronáutica. Naturalmente, que fui muito menos extenso nas Forças irmãs porque sou ex-participante do Exército. Muitos outros nomes são ainda encontrados no livro ‘A Revolução por Dentro’, páginas 104 a 107” (Coronel Hernani D’Aguiar, Tomo 9, pg. 180-181).

 

O pai de Tarso Genro apoiou o Movimento de 1964

“A marcha que fizemos nos moldes da Marcha da Família com Deus pela Liberdade foi impressionante. Lotou a Avenida Dr. Bozzano. Montamos um palanque ao lado do QG, no fim da avenida, ali em frente ao Sétimo. Nesse palanque estavam todas as autoridades que haviam nos apoiado, inclusive o Prefeito em exercício [de Santa Maria, RS], Adelmo Simas Genro, pai do Tarso Genro – na época um garotão que, por sinal, foi até preso, porque andou fazendo anarquia na cidade. Aquela avenida ficou lotada, de ponta a ponta; nunca houvera, nem haverá, manifestação igual” (General-de-Exército Rui de Paula Couto, Tomo 13, pg. 40).

 

Magalhães Pinto, candidato natural para assumir a Presidência em 1964?

“Voltando a 1964; para nós, tenentes, o General Castello já pertencia a esse rol de líderes consagrados como era o Marechal Mascarenhas. E como a ação dele era muito firme, muito segura, e muito política – para mim, particularmente – era um ponto de referência muito importante. Mas teria sido ela a primeira opção política para a situação?

E, aí, vêm as raízes mineiras. Houve toda uma tentativa de um governo civil: Magalhães Pinto, Governador de Minas, era o líder civil do Movimento e o candidato natural. Essa tentativa se frustrou devido ao veto a Magalhães por parte de Lacerda, Governador da Guanabara, e Adhemar de Barros, Governador de São Paulo, além de alguns chefes militares. Se optou pela solução não de um governo militar, mas de um militar para exercer a Presidência, concluindo o período correspondente ao mandato dos que se elegeram em 1960. Segundo o previsto na Constituição em vigor, coube ao Congresso a escolha dos novos Presidente e Vice-Presidente.

O grande articulador dessa solução foi Alkmin (José Maria), que era amigo de meu pai, a quem eu, menino, conheci dentro da minha casa, já secretário, já político.

Ele articulou isso, junto com outros – Israel Pinheiro e outros – e aí a necessidade de outro pequeno detalhe, também mineiro, que também se pode verificar: Castello era casado em Minas, Dona Argentina era de Belo Horizonte, e o pai dela, sogro do Castello, é que era a pessoa ligada a esses políticos; ele não tinha militância política maior, mas era ligado a esses políticos, e alguns deles que, mais tarde, estavam na Oposição, inclusive Israel Pinheiro e Francisco Negrão de Lima, era pessoas em quem o General Castello tinha confiança, e que seriam incapazes de criar um problema para ele” (Coronel Luiz Carlos Carneiro de Paula, Tomo 9, pg. 304-305).

 

Navio-presídio Rui Barbosa

“E há um detalhe curioso. Enquanto estavam se desenrolando todos aqueles fatos da Revolução, recebi na minha Unidade um chamado para comparecer ao Quartel-General. O General Kruel me recebeu e entregou um papel. Ele disse:

- Prenda todos esses subtenentes e sargentos – eram da minha Unidade – e recolha-os ao navio-presídio, em Santos.

(...)

Vieram os caminhões, encostaram, cada viatura com um oficial na cabine, atrás mais um oficia, um tenente, cada um com uma metralhadora e foram distribuídos os 32 praças graduados, em cerca de três ou quatro caminhões. Organizado o comboio, partiu para Santos e todos os sargentos foram recolhidos ao navio-presídio Rui Barbosa que lá se encontrava atracado.

(...)

O problema era consequência de um inquérito na área do III Exército. Na casa de um sargento chamado Croco foi encontrada uma lista completa de todo pessoal suspeito da minha Unidade. No papel estava escrito, em seguida do nome: contra ou a favor ou pode aderir. O encarregado do inquérito, dando o certo pelo duvidoso, pediu ao General Kruel para prender todos os que constavam da lista do Croco, com a observação ‘pode aderir’.

Croco era um comunista fichado e, afinal, todos foram presos.

(...)

Quando o inquérito se encerrou, já sabia o resultado: dos 32, somente dois, realmente, eram perigosos. Haviam preparado, inclusive, uma lista na qual estava escrito: ‘Fulano de Tal, Sicrano e Beltrano... têm que ser mortos na hora que nós ganharmos.’

Inclusive eu, é claro” (Tenente-Coronel Renato Guimarães, Tomo 7, pg. 262-263).

 

 

Documento “Planejamento das Esquerdas”: paredón para os oficiais

 

“Na sequência das ações revolucionárias, atribuíram-me a missão de ocupar a Prefeitura de Osasco, em face de sérias denúncias de corrupção e de desvio de recursos. Posteriormente, recebi a ordem de me dirigir à moradia de um sargento e trazê-lo preso ao quartel, devendo revistar a casa à procura de documentos que comprovassem sua participação na subversão. (...) No exame da residência, encontramos alguns livros russos e recortes de jornais. Para evitar um maior embaraço, para ele e para ele e para a família, mandei que parte do destacamento o levasse para o quartel, enquanto fazia a revista.

 

Fiz questão de narrar este episódio, a fim de salientar a desarmonia e os malefícios que a infiltração comunista produziu no seio das Forças Armadas, entre os próprios companheiros.

 

Comprovou-se que a subversão, em São Paulo, atingira elevado grau, principalmente nos sindicatos e no meio estudantil, liderado pela União Nacional dos Estudantes. A apreensão do documento ‘Planejamento das Esquerdas’, em São Paulo, revelou que, vencedor o comunismo, todos os oficiais seriam justiçados e submetidos ao paredón. Isso ninguém conta, ninguém comenta, ninguém escreve.

 

Hoje, a juventude e a maioria das pessoas desconhecem o que é o paredón, um muro, uma parede que existia em Cuba, onde os adeptos do ‘democrata’ Fidel Castro fuzilavam todos os seus oponentes, não lhes dando direito algum de defesa ou de julgamento justo. Fidel Castro, com a autoridade de Presidente de Cuba, extirpou da Ilha seus opositores e todos os seus companheiros revolucionários que eram contra a manutenção da ditadura comunista. Pretendia-se, em São Paulo, fazer o mesmo com aqueles que se opunham à implantação do regime comunista no Brasil” (General-de-Brigada Adalberto Bueno da Cruz, Tomo 12, pg. 150).

 

 

Presidente de sindicato ainda achava que mandava no Recife

“O Porto do Recife era escolhido pelos agitadores para início de tumultos e de agitação, mesmo porque existiam verbas fantásticas que eram desviadas para aquele esquema da esquerda radical. Era um local de muita agitação e contrabando organizado.

(...)

O Porto era dirigido por um presidente de sindicato, o nome dele era Cícero Targino Dantas.

A força dele era tão grande que entrava no palácio, abria a porta e não esperava formalidades para falar com o Governador [Miguel Arraes]; tinha comando total sobre o Estado de Pernambuco e o Nordeste, em questões sindicais. Vivia como gangster e era muito ligado ao revolucionário esquerdista Gregório Bezerra. Faziam reuniões no Porto do Recife.

O Cícero Targino Dantas, no segundo dia da minha gestão no Porto do Recife, apareceu, pediu uma audiência, disse que era presidente do sindicato e deu a entender que, em consequência, eu devia obedecer às determinações dele. Respondi:

- Targino, aqui no Porto, pelo menos durante a minha gestão, só existe um líder; quer dizer, existem diversos líderes, mas existe um líder maior que é o superintendente do Porto. Não reconheço a sua liderança da maneira como você está apresentando.

Em função daquilo, ele começaria uma agitação pesada.

Mas, poucos instantes depois, já estava indiciado em inquérito: o Coronel Ibiapina o ouviu e ele foi enviado para Fernando de Noronha, enquanto se fazia o inquérito” (General João José Cavalcanti de Albuquerque, Tomo 6, pg. 74-75).

 

Guarnição de São Borja esperava que Jango reassumisse a Presidência 40 dias após o Movimento de 31 de Março

“Vitorioso o Movimento, como já mencionei, passei à disposição do Serviço Federal de Informações e Contrainformações. Viajei muito pelo Brasil, coletando dados para subsidiar os inquéritos em andamento. Nos primeiros dias de maio, recebi a missão de buscar a declaração de renda do ex-Presidente João Goulart na Delegacia da Receita Federal de Uruguaiana.

Ainda estava naquela cidade providenciando os documentos solicitados, quando recebi nova missão: ir a São Borja ouvir o advogado Taufik Saad, assessor de Jango. Eu e o Major Ehlers (Jaime Ehlers), da 2ª. Seção DC (Uruguaiana), seguimos para lá no dia 10 de maio. Para surpresa nossa, toda a Guarnição de São Borja estava aguardando informações e ordens, e a tendência da maioria era de solidariedade e apoio a Jango e não a Castello. Quarenta dias após a Revolução e praticamente não havia nenhum revolucionário por lá.

Afirmo isso porque ficamos hospedados no 2º. Regimento de Cavalaria, inicialmente na condição de detidos pelo Comandante da Guarnição e do 2º. Grupo de Artilharia 75 a Cavalo, Coronel Hélio (Hélio Nunes). Nós o conhecíamos porque ele era casado em Uruguaiana e servira muito tempo naquela cidade. Ele logo suspendeu nossa detenção e nos confidenciou:

- Aqui somos pela legalidade e ainda tempos esperança de que o Presidente Jango reassuma a Presidência” (Coronel Hélio Lourenço Ceratti, Tomo 13, pg. 186).

 

 

O General Olympio Mourão Filho foi acusado de ser um dos autores do Plano Cohen

 

“Sempre me correspondi com o General Mourão (Olympio Mourão Filho), meu ex-comandante e tão amigo que esteve no meu casamento. Era viúvo e ficou muito traumatizado quando perdera um neto, em Santa Maria, no início dos anos de 1962.

 

Atropelado por um carro. [entrevistador]

 

É, aquilo o perturbou muito. Quando vinha a Porto Alegre, em geral tomava café comigo lá em casa, ali na Rua Casemiro de Abreu, 610. Ele tinha uma mágoa muito grande, porque foi acusado de ter sido um dos autores do Plano Cohen e não cansava de dizer que aquilo tinha sido uma artimanha do Estado-Maior do Exército (EME) e do Getúlio. As ideias dele me empolgavam e me colocavam em ebulição; trocávamos informações, principalmente depois que conquistamos o Círculo Militar, pois ficamos mais fortes e passou a haver uma  coordenação natural” (Coronel Pedro Américo Leal, Tomo 13, pg. 247).

 

Obs.:

 

O nome "Cohen" foi dado em referência ao líder comunista Bela Kun-Cohen, que havia governado a Hungria entre março e julho de 1919.

 

O Plano Cohen teria sido forjado pelo Estado-Maior do Exército (EME) e atribuído ao Movimento Comunista Internacional, fato que teria redundado na criação da ditadura do Estado Novo.

 

Sobre o Plano Cohen, leia texto do CPDOC/FGV https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/06/plano-cohen.html.

 

F. Maier

 

 

RUSGAS ENTRE OS GENERAIS CASTELLO E MOURÃO?

“Quando acabou a reunião [de Jango com cabos e soldados, no Automóvel Clube do Brasil], acordei a minha mulher e meus filhos, peguei o carro e voltei rapidamente para Juiz de Fora, porque, depois daquilo, ninguém mais podia esperar outra coisa, a não ser a nossa revolta contra a tal sucessão de ignomínias.

Cheguei à casa por volta das seis ou sete horas da manhã, uniformizei-me, fui para o quartel, e já tínhamos começado a Revolução. O General Mourão explicou-me o que estava havendo, e me mandou para a 3ª. Seção do Estado-Maior, onde fiquei poucas horas, porque, logo depois, o próprio General Mourão disse-me: ‘Cid, você vai para o Destacamento Tiradentes, com destino ao Rio de Janeiro, vai integrar o Estado-Maior do Destacamento.

Lá pelas quatro horas da tarde, mais ou menos, há nos encontrávamos com todo o dispositivo pronto, o Esquadrão na estrada, deslocando-se em direção ao Rio de Janeiro, fazendo a vanguarda, quando dirigi-me ao gabinete do General Mourão, a chamado dele. Nesse momento, o telefone tocou e o Major Antônio Cúrcio Neto, que era o assistente do General, atendeu e disse: ‘É o General Castello.’ O General Mourão atendeu, e pelo que pude deduzir, do que ouvi, informava ao General Castello que não podia mais retornar, que já estava com a tropa toda na rua, e não havia mais nenhuma possibilidade de voltar atrás” (General-de-Brigada Cid de Gofredo Fonseca, Tomo 3, pg. 83).

“O encontro que presenciei foi com um batalhão do Regimento Sampaio, comandado, na época, pelo Coronel Raimundo.

Ele vinha formando um grupo tático, com um Grupo 105 do Regimento Floriano, da Vila Militar.

Nesta oportunidade – vivi esse problema – conseguimos colocar o Marechal Denys, que já se encontrava em Juiz de Fora, no QG, sabendo da presença do Regimento Sampaio, diante de nós, em comunicação com o Coronel Raimundo, Comandante da Unidade, pelo Seletivo da Central do Brasil. O Marechal Denys manteve um contato importantíssimo com o Coronel Raimundo: ‘Raimundinho, venha para o nosso lado!’ E o Coronel passou para cá, integrando-se ao grupamento. O Coronel Raimundo havia sido Assistente-Secretário do Marechal, pelo qual tinha um especial apreço e admiração.

O Grupo do Regimento Floriano quis voltar, não quis incorporar-se à tropa, mas, nesse momento, o General Muricy agiu com muita rapidez, colocou um caminhão interceptadno a estrada, e o Grupo permaneceu conosco” (General-de-Brigada Cid de Gofredo Fonseca, Tomo 3, pg. 84-85).

Por pressão de políticos de Minas Gerais, o Congresso Nacional promoveu Mourão ao posto de General-de-Exército.

“Embora existam pessoas com pensamento diferente, para mim, o General Mourão foi um grande líder da Revolução de 31 de Março de 1964.

É verdade, inclusive designaram alguém para o exterior – o Magalhães Pinto intercedeu nesse sentido – para abrir a tal vaga que não existia [entrevistador].

Sim, mas quem o promoveu a General-de-Exército foi o Congresso e não o Governo. Entre o Castello Branco e o Mourão, não sei o motivo real, havia certa inimizade ou algum tipo de desacerto.

Talvez tenha ficado uma mágoa pelo fato do Mourão ter concluído o curso da Escola Militar em quarto lugar, na frente de Castello, que foi o décimo, e ter sido ultrapassado por ele, nas promoções. Sei disso porque o Mourão me mostrou o boletim de classificação, ao serem declarados aspirantes. Registre-se, contudo, que em nenhum momento o Castello, uma pessoa excepcional, fez algo contra seu companheiro de turma” (General-de-Brigada José Antônio Barbosa de Moraes, Tomo 2, pg. 209).

[A título de informação, registre-se que o General Costa e Silva, da mesma turma de Castello e Mourão, ficou em 1º. lugar na Escola Militar. Registre-se, ainda, que uma possível rusga entre Castello e Mourão deve ter existido ao longo do tempo, devido ao fato de Mourão ter saído de Minas, com as tropas, em direção ao Rio de Janeiro, no dia 31 de Março de 1964, contrariando ordem de Castello.]

“Registre-se que houve os revolucionários de primeira e os de última hora.

Meu pai [General Carlos Luis Guedes] nunca foi perdoado pelo General Costa e Silva porque, perguntado sobre ele, por um jornalista, perguntou: ‘Olha, só tive conhecimento de que o General Costa e Silva era revolucionário, no dia 2 de abril, antes não sabia.’ Diante de nova pergunta: ‘E o General Castello?’ ele disse: ‘O General Castello tomou algumas providências mas, na hora em que a Revolução eclodiu, telefonou-me para que eu voltasse com as minhas tropas, e deu expediente no QG, no Rio, em 31 de março, como se nada houvesse acontecido, para que, se alguma coisa desse errado, poderia dizer que nada tinha a ver com o movimento iniciado’ “ (Coronel Henrique Carlos Guedes, Tomo 3, pg. 259).

“O General Castello – é outra coisa que eu friso aqui – ele não era contra o Movimento que eclodiu em Minas, nas não era a favor; quando eu digo que não era a favor, é que, aqui no Ministério da Guerra, se faziam elucubrações, havia conversas, havia contatos, visando acabar com a baderna que estava acontecendo no País, e Minas precipitou os acontecimentos no seu entender.

Tanto que às 9h da manhã do dia 31 de março, o General Castello, que era Chefe do Estado-Maior do Expercito (EME), ligou para meu pai [General Carlos Luís Guedes], dizendo que estava ouvindo rumores de que havia tropa em Minas se movimentando contra o Governo, dirigindo-se ao Rio de Janeiro, e meu pai falou assim: ‘Não são rumores, a tropa já está se deslocando’.

E o General Castello Branco, na ocasião, ficou preocupado: ‘Cuidado, vocês vão ‘botar’ tudo a perder, porque estamos prevendo, programando...’ Ele estava fazendo um estudo no  EME, talvez para fazer um movimento integrado, coordenado por aquele Alto Órgão, para acabar com aquela situação.

E o meu pai falou: ‘Não há mais como voltar...’ O ‘silêncio rádio’ era até a hora do início do deslocamento da tropa...

Às 11h30min, novamente, o General Castello Branco ligou comunicando que não havia conseguido fazer os contatos que meu pai havia pedido, e que era melhor a tropa voltar, para não ser derrotada e ainda ligou para o Governador Magalhães Pinto, que falou: ‘Olha, General, agora é preferível voltar derrotada do que voltar frustrada, porque já saiu, já está andando, e o Movimento não tem retorno, agora fica...’ Na parte da tarde, é que o General Mamede, que era Comandante da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), pegou o General Castello e o levou, até por uma questão de segurança, para a Escola. E há um outro detalhe nesse Movimento – é que o general mais antigo, em função no Rio, era o General Costa e Silva, porque o General Âncora estava adoentado e o Ministro, hospitalizado, então o General Costa e Silva assumiu, vamos dizer assim, o que seria o Comando do Exército.

Tanto que o meu pai ainda se aborreceu com o General Mourão, porque ele, como era o General Comandante da 4ª. Região Militar, integrante, portanto, do I Exército, deveria ter assumido o I Exército, mas o Costa e Silva, quando assumiu a função vaga, vamos dizer assim, de Ministro da Guerra, colocou lá um outro general, o Terra Ururahy, se não me engano, quando quem deveria ter assumido era o General Mourão...

O Mourão autorizou o acantonamento das tropas no Maracanã, e foi até em casa – para dar um pouco mais de assistência à mulher, Dona Maria, porque ele tinha casado há poucos dias, estava em lua-de-mel e tinha um apartamento na Avenida Atlântida.

Quem recebeu o General Mourão – pouca gente sabe disso – em frente à Refinaria Presidente Vargas, em Duque de Caxias, foi o Juscelino, que foi quem havia promovido o Mourão a General.

Quando o General Mourão chegou aqui no QG e foi conversar com o General Costa e Silva, que era o quatro-estrelas mais antigo, ele achou ótimo o Mourão ir para a Presidência da Petrobras, que era um antro de comunistas, já que ele iria para a compulsória em maio.

Isso o Mourão falou com o meu pai, que disse: ‘Mas você está ficando doido, você, o Comandante do Movimento, pensar em compulsória, em ir para casa, quando você deveria ter assumido o Comando do I Exército, e não pensar em compulsória, porque o seu caminho não poderia ser outro’.

Tanto que, mais tarde, fizeram uma lei especial e o General Mourão foi promovido a quatro estrelas antes da época, porque não dava para esperar a promoção, ainda em função, sem cair na compulsória. Então, o Congresso o promoveu, por proposta do Presidente, a quatro estrelas, por ter chefiado o Movimento” (Coronel Carlos Alberto Guedes, Tomo 9, pg. 257-258).

Obs.

O Coronel Carlos Alberto Guedes informa ainda, na pg. 259 do Tomo 9, que o nome da família “Guedes” tem origem alemã, mas é “meio falsificado, deveria ser Gäede, com trema no a, mas o meu avô, que era comerciante, aportuguesou o nome depois da guerra, da Primeira Grande Guerra, então virou Guedes; os Guedes nossos são apenas os oriundos de São João Del Rey, os outros não são parentes”.

F. Maier

 

O GENERAL MOURÃO ERA PRIMO DE JUSCELINO KUBITSCHEK

“Eu sou mineiro. Nunca servi com o General Mourão. O que conheço dele – eu era mineiro e ele era coronel – é o fato de ele ser primo do Juscelino, lá de Diamantina; era isso que eu conhecia dele, lembranças de menino, lá nas minhas Minas Gerais.

Mas há uma coisa que eu conheci, já tenente: primeiro, a promoção [a general-de-exército?] dele se deve ao Juscelino. Ele não seria promovido, normalmente. Na época, isso era sabido, e, de certa forma, eu tive, não oficialmente, alguma confirmação disso.

Contra ele, que sempre fora anticomunista, daqueles anticomunistas ferrenhos, pesava a acusação de ser o autor do Plano Cohen, que foi um dos pretextos para instalação do Estado Novo” (Coronel Luiz Carlos Carneiro de Paula, Tomo 9, pg. 299-300).

Obs.

Breve currículo do General Mourão pode ser visto em https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/04/general-olimpio-mourao-filho.html.

F. Maier

 

JOBOATÃO, CONHECIDO COMO “MOSCOUZINHO”

Além dessa atividade [ocupar a Casa de Detenção, Recife, PE], houve outras que o senhor tivesse desempenhado a serviço do Movimento Revolucionário? [entrevistador]

Sim. A Rede Ferroviária do Nordeste, que pertencia à Rede Ferroviária Federal (RFFSA), era um foco permanente de agitação.

E esse foco irradiava-se, principalmente, de Joboatão, município da Grande Recife, onde estavam as principais oficinas da Rede Ferroviária do Nordeste.

Nas oficinas de Jaboatão trabalhavam cerca de 1.200 operários; o município, era conhecido como ‘Moscouzinho’, tal a agitação que faziam, explícita agitação ‘vermelha’.

Assumiu a superintendência da Rede Ferroviária do Nordeste o Major de Engenharia Waldo Sette de Albuquerque, que tinha ligações com os ferroviários e já havia sido superintendente, certa vez.

O Coronel Waldo Sette, muito preocupado com Jaboatão, convidou-me e, concomitantemente, o General Comandante do IV Exército designou-me para assumir a chefia do Departamento de Mecânica da Rede Ferroviária do Nordeste, dentro das oficinas do Jaboatão.

(...)

Na Rede Ferroviária do Nordeste havia uma inversão muito grande de valores. Os chefes, engenheiros e mestres não tinham moral, não mandavam na oficina. As ordens vinham dos funcionários que representavam o sindicato.

O sindicato, ligado a Almir Braga, o superintendente da Rede, era que mandava.

Havia muito desvio de material.

Passei um ano e dois meses chefiando diretamente as oficinas de Jaboatão; outras duas oficinas, que, também, faziam parte do Departamento de Mecânica, eu chefiava indiretamente, porque tinham efetivos menores e não havia aquela baderna.

No início de minha gestão, mais de uma vez, fui avisado de que havia acidentes preparados para mim. Certa vez, descobri uma locomotiva suspensa numa altura muito além do necessário para fazer o serviço, esperando que eu passasse por baixo dela.

Mas não ocorreu, felizmente, nenhum atentado contra a minha pessoa. Depois de algum tempo, nos impusemos pelo exemplo, pela ordem, mostrando que estávamos ali para fazer com que a coisa andasse direito e não para perseguir aqueles esquerdistas que faziam as bagunças” (Tenente-Coronel José Lyra de Almeida, Tomo 6, pg. 249).

 

MARCO MACIEL FEZ CURSO DE EXPLOSIVOS EM CUBA

“A infiltração era tão grande que o pessoal já não tinha mais cuidado. Veja, por exemplo, o atual Vice-Presidente da República, Dr. Marco Antonio Maciel. Era advogado e tinha um escritório em atividade; ganhava muito dinheiro. Nessa época, o Coronel Antonio Bandeira era o E2 do IV Exército. Pois bem, o Dr. Marco Maciel foi fazer um curso de capacitação política em Cuba, inclusive, aprender a trabalhar com explosivos. Certo dia, o Bandeira, que já comandava o 14º. R, e eu assumira a função de E2, me disse:

- Ibiapina, o Marco Antonio Maciel está querendo uma carteirinha de agente.

Eram cartões de agente do IV Exército, semelhantes àquelas de anotação dos cadetes que usávamos para os ‘olheiros e informantes’. Respondi:

- Não dou! Você conhece a ficha dele no IV Exército, afinal, você era o E2! Por que você não dá como Comandante do 14º. RI?

Não deu.

Depois o Marco Antonio Maciel se arrependeu muito de ter ido fazer aquele curso. Na época do Geisel, já era Deputado, quis ser líder do MDB – naquele tempo era só MDB. Chegou, apresentou-se no Congresso, como candidato a candidato a líder. O Golbery mandou chama-lo:

- Venha cá, você vai ser líder?

- Eu tenho direito! Sou Deputado! – interrompeu o Marco Maciel.

- Olha, mas com essa ficha aqui... – o Golbery mostrou a ficha para ele.

- Bem, então, até logo... Felicidade...

- Mas, vai embora? Não vai mais fazer força? – perguntou surpreso, o Golbery, acerca de sua intenção de ser líder do MDB.

- Como o senhor, naturalmente, vai publicar tudo isso...

- Lógico que vou. Mas, você não conhece ninguém que possa dizer que você foi lá por um outro motivo? – atalhou Golbery.

Hoje, aquela ficha o ajudaria muito, mas, naquela época, não ajudou. [entrevistador]

O Marco Maciel escreveu ao General Antonio Bandeira, Comandante do III Exército, à época. Bandeira, então, preparou uma carta, declarando que o Marco Maciel tinha ido, como Representante do IV Exército etc. Mas sei que não foi. Essa carta parou diretamente nas mãos do Golbery. Daí em diante, ele foi... líder e mais outras coisas.

Mas, quando afirmo sobre a grande infiltração que havia, você pode constatar como um rapaz, com profissão liberal assentada, organizada, se manda para fazer um curso de capacitação política, em Cuba. Por isso, anos depois, no Governo Geisel, ele teve problemas para ser líder do MDB, pois o Golbery era ‘seguro na virada’ ” (General-de-Brigada Hélio Ibiapina Lima, Tomo 2, pg. 179-180).

 

CARLOS LACERDA – UM CAPÍTULO À PARTE

Lacerda tinha uma língua terrível

“Há um livro de memórias, muito interessante, do Roberto Campos, ‘A Lanterna na Popa’ – um livraço, com mil e trezentas páginas, por aí – que é uma pedrada nos imbecis! Ele conta a viagem do Lacerda à Europa, logo depois da Revolução, onde o Governador da Guanabara foi recebido com honras etc. e tal. E o francês, que é um cara chato, é chato que é danado, numa entrevista, no aeroporto de Orly, o jornalista perguntou:

- Governador, estão dizendo que foram os americanos que ajudaram esse Movimento.

O Lacerda tinha uma língua terrível. Respondeu:

- Como? Acho que você está enganado. O que foi feito com o apoio dos americanos foi a libertação da França.

Deu um pontapé no orgulho francês. O Lacerda era terrível! Era um gênio. E a entrevista continuou:

- Como é que o senhor pode explicar uma Revolução em que não correu sangue?

- Isso é muito simples. É porque as revoluções no Brasil são como os casamentos na França – respondeu o Lacerda.

De Gaulle não quis mais recebê-lo” (Coronel José Maria Covas Pereira, Tomo 3, pg. 164)

 

Jango tinha ódio mortal do Lacerda:

- Boicote à construção do Sistema Guandu

- Escolha para policiais da Guanabara optarem pelo Governo Federal

“O Jango tinha ódio mortal do Lacerda. Acredito que era mais fruto de inveja, porque ele era um incompetente, um bronco completo, um playboy de fronteira, que passara a juventude indo a cabarés e farras. Até mesmo depois de Presidente da República, ele organizava orgias num apartamento ao lado do Copacabana Palace, era a sua maior preocupação.

Enquanto o Lacerda era um tribuno, um jornalista respeitável. [entrevistador]

Um homem respeitado, que estava fazendo um excelente governo no Estado da Guanabara. O Jango adotou várias linhas de ação para destruir o Lacerda.

Primeiro foram ‘futricas’ para atingir a parte econômica do Estado, impedindo ou dificultando o Estado para tomar um empréstimo para fazer a obra da água que está aí até hoje. Nós temos água hoje graças a Carlos Lacerda.

O Lacerda conseguiu um empréstimo por fora, sem garantia do Tesouro, sem aval do Tesouro, sem garantia do Banco do Brasil, sem nada, apesar da oposição do Jango. No fim, ele provocou uma outra...

Lembrar que a Zona Sul do Rio de Janeiro não tinha água, era um inferno... [entrevistador]

Não tinha, eu morava na Zona Sul... Passavam-se vinte, trinta dias, sem pingar uma gota d’água.

Em Copacabana era uma coisa terrível. A solução veio com o Lacerda, valendo-se da água do Guandu, sozinho, sem nenhum apoio do Governo Federal. [entrevistador]

O Estado teve que custear tudo sozinho, apenas com apoio do BID, Banco Interamericano de Desenvolvimento, um empréstimo sem o aval do Banco do Brasil.

Tendo o Lacerda conseguido o empréstimo e dada partida no projeto da água, o Jango ficou desesperado e pôs em prática a ideia do Aberlardo Jurema, Ministro da Justiça, armando a seguinte armadilha: numa lei de aprovação do Orçamento da República, ele incluiu um artigo dando o direito aos policiais da Guanabara de optarem pelo Governo Federal. Os policiais da Guanabara eram aqueles que tinham ficado no Rio, na época da mudança da Capital para Brasília, e por decreto do Juscelino eles permaneceram aqui, para não desfalcar completamente a Polícia e o Corpo de Bombeiros do Estado, para a cidade não ficar abandonada. Em Brasília, só havia barraco naquela época – era a tal ‘Cidade Livre’ dos candangos – e o Goulart criou, então, essa possibilidade.

Inseriu esse artigo na Lei de Meios e com isso conseguiu esvaziar a Polícia. Ele tirou do Corpo de Bombeiros e da Polícia, em três ou quatro dias, cerca de dois mil bombeiros, três mil e tantos policiais militares e mais dois mil da Polícia Civil” (Coronel-Aviador Gustavo Eugenio de Oliveira Borges, Tomo 10, pg. 277).

Obs.:

Em 1964, o Coronel-Aviador Oliveira Borges era Secretário de Segurança do Governador da Guanabara, Carlos Lacerda.

Em seu depoimento, o Coronel Borges narra a “Operação Mata Lacerda”, em longa entrevista, com riqueza de detalhes, que não consta do presente “fichamento” porque os fatos são narrados abaixo pelo Coronel Renato Brilhante Ustra, irmão do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, autor dos livros “Rompendo o Silêncio” e “A Verdade Sufocada”.

Esses fatos são também narrados abaixo pelo General-de-Brigada Durval Antunes Machado Pereira de Andrade Nery.

F. Maier

 

Operação Mata Lacerda

“Em mais uma noitada, também numa boate em Copacabana, se não me engano, no Copacabana Palace, foi intentada uma ação que, se tivesse logrado êxito, teria sido fundamental para o fortalecimento do esquema militar do Governo João Goulart. As informações que tivemos indicam que, naquela madrugada, reuniram-se na boate, o Presidente da República, o Chefe da Casa Civil, General Assis Brasil, que acreditava no esquema militar, o General Pinheiro, Comandante da Brigada Paraquedista, e o Coronel Mafra, Chefe do Estado-Maior. O Presidente da República, que utilizava como guarda pessoal, em Brasília, os oficiais paraquedistas, estava se ligando à Brigada Paraquedista. Nessa noitada dos quatro, então, a decisão tomada foi a de que deveria ser ordenada a uma unidade paraquedista, a prisão do Governador Carlos Lacerda, quando de sua visita, na manhã seguinte, ao Hospital Miguel Couto, na Lagoa. O Lacerda deveria fazer a inauguração de uma ala destinada ao atendimento de emergência, no hospital. Tudo fazendo parecer que teria sido uma atitude de iniciativa própria dos paraquedistas, em desagravo a possíveis palavras ofensivas do Governador às Forças Armadas.

Mais uma vez não apareceu o planejamento, foi só coisa de boca. A ordem era verbal. Sabia-se que o Governador dispunha de forte esquema de segurança, lógico supor que tal ato desencadearia ações e reações bem além do controle, as quais poderiam levar a uma situação de grande intranquilidade, até mesmo em nível nacional. Ao amanhecer, o Presidente da República retornou a Brasília, e deu entrada no Congresso com o pedido de estado de sítio. Tal pedido seria retirado, sem qualquer explicação, após o almoço no mesmo dia.

(...)

Na GU Paraquedista o normal era o seguinte: sempre havia uma subunidade de prontidão, fosse ela do Grupo Paraquedista, do Batalhão Santos Dumont, do Batalhão Logístico, ou mesmo da Companhia de Engenharia. Naquela noite, estava de prontidão uma Bateria, do Grupo de Artilharia Paraquedista, comandada por um dos oficiais esquerdistas bastante comprometido. Então, a essa Bateria caberia a missão de prender o Governador Lacerda, mas tudo de forma a parecer uma reação intempestiva dos paraquedistas e não uma ação desencadeada mediante ordem.

Nada por escrito. Pessoas presentes na mesma boate, na qual houve a inusitada reunião e a não menos inusitada decisão, ouviram o que estava sendo decidido e um desses ouvintes comunicou, ainda na madrugada, ao Coronel Aragão, o oficial que estava de superior de dia na Brigada Paraquedista. Alguém na boate ouviu e denunciou:

- Olha, vai sair daqui uma ordem para prender e matar o Lacerda, prepara que a confusão...

O que fez o Aragão? Pegou o telefone, ligou para o Coronel Boaventura, Comandante do Grupo Paraquedista, e disse:

- Olha, vão utilizar uma Bateria do Grupo para prender o Lacerda. Vem para o quartel rápido.

O Coronel Aragão, ao mesmo tempo, pegou o telefone e ligou para o Coronel Gustavo Borges, o Secretário de Segurança do Lacerda.

- Olha, vão matar o Lacerda amanhã!

O Gustavo Borges me disse pessoalmente – conversando comigo dias atrás – que alertou o Lacerda, só que o Lacerda tomou uma atitude inesperada. Perguntando se iria cancelar a visita ao hospital, respondeu:

- Cancelar? Não, vou bem mais cedo, vou antecipar o horário.

O Coronel Boaventura dirigiu-se ao quartel e, ao chegar, reuniu os oficiais sabidamente não comprometidos com tal esquema, para evitar que, em último caso, houvesse a possibilidade de sair qualquer viatura do quartel. O que ele fez? Conversou comigo, que era subordinado de confiança dele, Oficial de Munições, e ordenou: ‘Pegue a chave do paiol, reúna a munição e não deixe ninguém entrar’; a seguir, mandou chamar os outros oficiais, o Abreu Morais, e determinou: ‘Olha, vocês neutralizem as viaturas, tirem a bateria, tirem o cabo da bateria’.

(...)

O Coronel Boaventura, imediatamente, dirigiu-se ao Quartel-General para tentar esclarecer a ordem, junto ao General Comandante, Alfredo Pinheiro Soares Filho. O Coronel Boaventura regressou ao Grupo e determinou uma reunião de oficiais, subtenentes e sargentos dentro do Cassino dos Oficiais. A reunião, faço questão de dizer, foi muito fiel ao estilo, ou seja: o Subcomandante da Unidade, os Comandantes de Bateria à testa e os sargentos e subtenentes à retaguarda. O Comandante chegou ao recinto, recebeu a apresentação, determinou que fosse comandado ‘descansar’ e proferiu as seguintes palavras:

‘Hoje pela manhã, recebi ordem do Comandante do Núcleo da Divisão Aeroterrestre, por intermédio do seu Chefe de Estado-Maior, para deslocar a Bateria de prontidão para a região do Hospital Miguel Couto, a fim de prender o Governador Carlos Lacerda. Pedi ao Chefe de Estado-Maior para falar com o General Comandante, no que fui atendido. Recebido em seu gabinete, solicitei que tal ordem, por conter características especiais e inusitadas, fosse a mim transmitida por escrito, conforme prevê o regulamento. O general disse que não pedira, de quem a recebera, por escrito e, portanto, não a daria por escrito. Respondi que enquanto não recebesse a ordem por escrito, não a cumpriria e me retirei do gabinete’.

Encerrando a reunião, disse o Coronel Boaventura aos seus oficiais e sargentos

‘Enquanto for Comandante, ordens como essas não serão cumpridas.’

Obviamente, o Coronel Boaventura foi exonerado.

Agora, para completar a história, a Subunidade que entraria no dia seguinte de prontidão seria a Companhia de Engenharia. A Subunidade começava o expediente às 7h30min. Até reunir a Companhia, iniciaram o deslocamento do quartel quase às nove horas, e o Lacerda já tinha se retirado há muito tempo” (Coronel Renato Brilhante Ustra, Tomo 5, pg. 246-248).

“Um dia de madrugada – 2h da manhã – fomos chamados ao quartel. Foi acionado o plano de chamada. No quartel, aquele alvoroço! ‘O que está acontecendo?’ ‘Uma operação para matar o Governador da Guanabara, Carlos Lacerda. Ele vai ser eliminado, vai haver agitação no Rio de Janeiro, o presidente vai pedir estado de sítio ao Congresso, justamente, pela agitação que vai ocorrer pela morte do governador’. Daí seria criada a república sindicalista comunista da América do Sul – que era o objetivo deles. E nós sabíamos por que a imprensa anunciava! Se pegarmos os jornais da época, vamos ver que isso estava quse todos os dias na imprensa. E estávamos com essa motivação.

Já tínhamos as nossas ligações com os grupos do Marechal Denys e do General Aragão, Moniz de Aragão. A nossa ligação era o Capitão Tarcísio, Assistente do General Aragão – Coronel Tarcísio, hoje. Deles, veio a informação sobre a operação ‘Mata Lacerda’. O nosso comandante chegou e disse assim: ‘Estou sendo chamado para ir ao comando do Núcleo da Divisão Aeroterrestre’. Não era mais o General Santa Rosa, que havia sido movimentado para outra função. Era o General Alfredo Pinheiro, paraquedista, conhecido por ‘Faz Tudo’. O Coronel José Aragão Cavalcanti, nosso comandante – não era parente do General, havia sido professor de geopolítica, na AMAN -, reuniu os oficiais, nós já estávamos movimentando a tropa, armando o pessoal, aquela movimentação de uma prontidão, um aprestamento em ordem-de-marcha, isso de madrugada. Ele disse: ‘Fui chamado para me apresentar, agora, ao comandante, no Núcleo da Divisão, no quartel-general, mas sei a missão que vou receber’. A missão que lhe seria dada de ‘deslocar o Regimento para emboscar e matar o Governador da Guanabara quando ele inaugurar o pavilhão do Hospital Miguel Couto, no Leblon, às 9h da manhã’. Claro que não iríamos fazer isso! Nem o nosso comandante! Ele seguiu para o quartel-general e nós ficamos aguardando.

Retornou, dizendo que falou para o General Pinheiro que já sabia do planejamento a ser executado. A missão que ele recebeu foi a seguinte: ‘Coronel, o Brasil já está em estado de sítio. O Presidente acabou de solicitar ao Congresso o estado de sítio, porque o Governador da Guanabara está agitando o País e tem que ser preso. Você vai prendê-lo’. Ele disse: ‘Não é isso que sei, General. Não houve o pedido ainda, de estado de sítio. O Congresso está fechado. Não amanheceu ainda e a sessão do Congresso vai ser realizada de manhã. O pedido não ocorreu. Sei que vai ser ao contrário – nós vamos matar o Governador Lacerda – aí sim, vai haver motivo para o estado de sítio. Essa missão o senhor não pode me dar’.

O Chefe do Estado-Maior do Núcleo da Divisão Aeroterrestre – Coronel Mafra – disse para o General: ‘Deixa, vamos chamar o comandante do Grupo de Obuses Aeroterrestre’. Na época, era o Coronel Francisco Boaventura Cavalcanti Júnior. Só que estávamos em ligação permanente – o nosso Regimento com o Grupo – 24 horas em contato. O Coronel Boaventura foi ao quartel-general e respondeu da mesma maneira para o Chefe do Estado-Maior.

Sabendo que a missão seria cumprida de qualquer maneira, o Coronel Aragão determinou que um oficial do Regimento Santos Dumont se deslocasse para a porta de cada unidade paraquedista, para observar a movimentação. Depois de uma hora, mais ou menos, vem o Tenente José Alves Machado, de carro, meu companheiro de turma – que tinha sido designado para verificar a situação do Grupamento de Unidades Divisionárias, aquela série de Companhias de Serviços que formam um grupamento, ao comando de um oficial superior. Pois não é que o Chefe do Estado-maior se dirigiu à Companhia de Engenharia para comandá-la na operação ‘Mata Lacerda’. O Alves Machado, quando viu que a Companhia já estava se preparando para sair, e ia sair mesmo, retornou ao Regimento e avisou ao nosso comandante. Foi instantâneo. Sem ordem, todos nós embarcamos no comboio para sair, para impedir a passagem daquela Companhia que tinha a missão de eliminar o Governador da Guanabara.

Não queríamos que o Brasil entrasse em uma guerra civil, quando sabíamos que o inimigo era outro. Mais uma cilada, planejada para envolver os militares, para envolver as Forças Armadas, como aquela em que fui envolvido em Xerém contra aquele ‘grupo dos onze’ que, na verdade, era para proteger o terreno dos sócios do Automóvel Clube do Brasil! Quando nós corremos para embarcar, o Coronel Aragão apitou, reuniu os oficiais e disse: ‘Não precisa, calma. Já falamos com o Governador Lacerda que a Companhia de Engenharia iria sair. Não, não, não se preocupe’. Às 4h da manhã, o Major Monção, que era paraquedista, ligara para o Governador Carlos Lacerda, que estava em Petrópolis, na sua casa – casa do governador – e o avisou. O que ele fez? Inverteu as inaugurações daquela manhã. O pavilhão do Hospital Miguel Couto que estava previsto para as 9h, passou para as 5h. O Coronel Aragão disse: ‘Deixa a tropa sair. A Companhia de Engenharia pode se deslocar. Não vai haver problema nenhum’. Vamos ver quem mora perto? Tenente Brandão: ‘Eu moro em frente ao hospital’. O Coronel Aragão determinou que ele ligasse para a sua casa e ficamos aguardando. O Brandão, pelo telefone, ia passando para nós o que a sua esposa na janela, olhando o que acontecia na porta do Miguel Couto, transmitia.

A Companhia de Engenharia saiu? [entrevistador]

Saiu, sim. Incrível! O Coronel Mafra entrou na Companhia de Engenharia composta de um capitão, três tenentes e quinze sargentos, aproximadamente, todos jovens. Sabe como é a tropa paraquedista – aguerrida, bem treinada- autoestima – ele chega e diz: ‘Capitão, tem uma missão. Reúna os seus oficiais e sargentos. Tem uma missão para paraquedista, muito importante. Quem estiver com medo pode se retirar. Alguém está com medo?’ Meu Deus! Jovens oficiais, jovens sargentos vão dizer para um chefe que estão com medo! ‘Então, armem-se e vamos embora. Eu vou comandar a Companhia’. E assim ele saiu.

Cabe lembrar que apareceram quatro oficiais paraquedistas armados de fuzis com lunetas. Sabíamos, desde o início, que aquela missão fora planejada no apartamento no. 15 do Anexo do Copacabana Palace, então apartamento do Presidente da República João Goulart. Contou com a presença do então Governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, do Ministro da Justiça, Abelardo Jurema, do Comandante da tropa paraquedista, General Pinheiro, e do Coronel João Sarmento, do Gabinete Militar. Planejaram que a solução para antecipar a criação da república sindicalista comunista seria criar um caos no Estado da Guanabara, com a decretação do estado de sítio. E como criar um caos? Aí, o general paraquedista disse: ‘Deixa comigo, isso é missão para paraquedista’ – tropa pretoriana. A ordem para prender e ‘atirar para matar’ Carlos Lacerda na manhã do dia 4 de outubro de 1963, quando da sua visita ao Hospital Miguel Couto, no Leblon, foi transmitida naquele apartamento, ao General Alfredo Pinheiro, pelo Ministro da Justiça, Deputado Abelardo Jurema, que esclareceu ao General Pinheiro que o Ministro da Guerra, General Jair Dantas Ribeiro, estava a par de todo o plano e dera sua aprovação. Nós estávamos sendo usados como tropa pretoriana. O General Pinheiro, dali mesmo, ligou para o oficial que estava de Superior-de-Dia no quartel-general – o qual representava o comandante na ausência deste – ‘Capitão, desencadeie o plano de chamada que nós temos uma missão para a tropa paraquedista’.

Mas o que ele não sabia era que nós, do Regimento Santos Dumont e do Grupo de Artilharia, já estávamos no quartel. Já tínhamos sido avisados daquela reunião, durante toda a madrugada regada a uísque. Sabíamos de todos os detalhes da reunião. Por isso, quando o Coronel Aragão recebeu a missão do General, ele disse: ‘Não é isso, General Pinheiro, tenho a certeza do que está ocorrendo’.

(...)

A esposa do Tenente Brandão ficou da janela anunciando: a tropa chegou, desembarcou, os soldados deitaram, ocuparam posição... Depois de mais de uma ou duas horas, lá pelas 11h da manhã, ela disse: ‘Alguém se levantou, está vindo na direção do prédio, no térreo’ – era um bar. Foi, realmente, um oficial que ligou para dizer: ‘Não apareceu ninguém!’ Depois disso, deram ordem para retrair. Essa foi a operação ‘Mata Lacerda’. Os quatro oficiais que estavam armados com fuzis e lunetas, que não pertenciam à Companhia de Engenharia, foram com a missão de eliminar o governador. A esposa do Tenente Brandão viu esses oficiais, com os respectivos fuzis e com as lunetas, nas mãos. Ela era esposa de um oficial – ela sabia o que estava dizendo – ela falou em fuzil dom luneta.

(...)

(...) O inquérito foi aberto, queríamos ser ouvidos. Surpresa! O Major Monção foi transferido para o interior do Brasil, para ficar bem longe, justamente aquele oficial que ligou para o Governador Lacerda e avisou. Mais tarde, merecidamente, foi promovido a General. Todos os oficiais que participaram ou que sabiam da história não foram ouvidos no inquérito.

O Major Monção fez uma carta, que foi publicada nos jornais da época, contando a verdade. Um escândalo, um escândalo! Nós exigimos o inquérito, queríamos ser ouvidos no inquérito e o que ocorreu? O General Pinheiro, Comandante da Brigada, o General ‘Faz Tudo’, é bom lembrar, mandou reunir os oficiais do Regimento Santos Dumont. Entra, com uma garrafa de uísque debaixo do braço, fardado, como Comandante, e diz: ‘Companheiros, vim aqui para falar com vocês, roupa suja se lava em casa. Nós não devemos comparecer ao inquérito para contar o que houve’. Abriu a garrafa de uísque. Com a exceção de uns dois ou três, fomos nos retirando do local e ele ficou ali para beber o seu uísque. Esse era o Exército, o Núcleo da Divisão de Paraquedistas, em 1962 e 1963.

Por terem se negado a comandar a ‘Operação Mata Lacerda’, também foram transferidos para o interior do Brasil, os coronéis José Aragão Cavalcanti e Francisco Boaventura Cavalcanti Júnior, comandantes do Regimento Santos Dumont e do Grupo de Obuses Aeroterrestre, respectivamente” (General-de-Brigada Durval Antunes Machado Pereira de Andrade Nery, Tomo 10 pg. 163-167).

“O Comandante do nosso Rebimento [Santos Dumont, paraquedista] – o Tenente-Coronel José Aragão Cavalcante – foi instado por um grupo de oficiais, notadamente pelos então capitães Carlos Alberto de Lima Mena Barreto e Acrísio Figueira, para que ele passasse a ter uma segurança permanente de dois oficiais. Depois desse evento – atentado ao Lacerda, do qual o Coronel Aragão não admitiu que o seu Regimento participasse – e as evidências, como disse, eram gritantes – de indisciplina e da ação deletéria ideológica marxista-leninista, com todos os seus panfletos distribuídos nos quartéis, vilas e clubes militares – o Coronel passou a ser escoltado, ora pelo Capitão Paulo Rubens Brandão, ora por mim, que era solteiro e ambos morando no Leblon e Ipanema. Íamos no jipe dele, e ele não vinha diretamente para o quartel. Veja a que ponto as coisas chegaram!

Ele se dirigia para a chamada ‘área A’, que é na região de Vila Valqueire, onde moravam os oficiais, onde morava o Tenente Adalto Luiz Lupi Barreiros, o Tenente Gilseno Nunes Ribeiro, o Tenente Andrade Nery – Durval Antunes Machado Pereira de Andrade Nery -, que era da minha Companhia, onde morava o Tenente Eglair Barcellos Alves e, a partir daquele ponto, era que o Coronel Aragão se deslocava, com um cortejo dos seus oficiais, para o quartel, para assegurar que ele estava em segurança e não seria alvo de uma ação, no prosseguimento desses atos” (Coronel Francimá De Luna Máximo, Tomo 11, pg. 202-203).

Obs.:

O Coronel Aragão, antes de ser transferido, ficou preso por 30 dias (Cfr. Tomo 10, pg. 168).

F. Maier

“Quando nós o procuramos para protegê-lo, em 1954, dissemos: ‘Carlos, nós temos a obrigação de defender a sua integridade, porque você é o único que pode falar aquilo que desejamos e não podemos. Não podemos, porque o regulamento proíbe, porque não temos a sua capacidade, a sua eloquência, a sua dialética e os seus conhecimentos do Partido Comunista’.

‘Nós sabemos o que queremos, a democracia, mas não temos os meios que você tem, então vamos protegê-lo, dar segurança para que você possa continuar nessa campanha’. E a sua campanha infernizou o Jango e sua malta.

Tanto ele incomodava, tanto ele era líder que o Jango tentou mata-lo várias vezes. O Getúlio também tentou...

Vocês vão ver no livro, antes do atentado da Tonelero que alguém da guarda pessoal do Getúlio tentou matar o Lacerda, jogando uma bomba de dinamite numa lancha, quando a gente estava atracando na Ilha de Paquetá. Eu estava a bordo da lancha, ninguém me contou, eu vi explodira a banana de dinamite.

Como escaparam? [entrevistador]

Foi uma questão de segundos. A banana de dinamite caiu na água, abriu um rombo na lancha por baixo e na hora nós não percebemos. Descemos da lancha e mal tínhamos passado pelo pontão, aquela ponte de atracação das barcas, veio um marinheiro corrento e afirmando que a lancha estava afundando.

Nós corremos para ver que realmente já estava com água pela metade, arrastamos a lancha para a praia e apareceu o rombo, tipicamente provocado por dinamite” (Coronel-Aviador Gustavo Eugenio de Oliveira Borges, Tomo 10, pg. 294-295).

“Três meses antes do assassinato do Major Rubem Vaz, colegas da Diretoria de Rotas, tentaram cooptar-me. Recusei a proposta com essas palavras: ‘É muito caro para a Nação contratar um Major para guarda-costas particular de um político. Esse político é inimigo da família Vargas e não duvido de que alguém da guarda pessoal do Presidente possa matar o Lacerda. Como vocês são amadores e bala não tem endereço, pode acontecer que uma delas bata na testa’ – toquei o dedo na testa do Souza Leão – e aí o Cotonifício Bezerra de Melo vai perder um sócio ilustre. Souza Leão era Major-Aviador e meu colega de turma. Retirei-me da reunião – era aniversário de um dos colegas – dizendo que a função de Major-Aviador merecia tratamento mais digno. O episódio me colocou em oposição declarada, ficando eu mais uma vez marcado pelos futuros ganhadores da Revolução de 31 de Março de 1964.

Três meses depois, o Vaz foi morto pelo pistoleiro João Alcino, amigo e comparsa dos homens da Guarda Pessoal do Presidente, entre eles Gregório Fortunato e um tal de Climério. No instante em que João Alcino atirou em Lacerda, seu guarda-costas do dia, o Major Rubem Vaz, estava na porta da casa do Lacerda – Rua Tonelero, em Copacabana – e correu para pegar sua pistola .45 que estava no porta-luvas do seu carro. João Alcino o matou pelas costas, exatamente após abrir a porta do carro e abaixar-se na tentativa de pegar a arma. Eu tinha razão – os guarda-costas de Lacerda eram amadores” (Major-Brigadeiro-do-Ar Rui Barbosa Moreira Lima, Tomo 12, pg. 45).

“Entre os civis, os mais destacados, sem dúvida, foram (...); o Governador da Guanabara, Carlos Lacerda, um crítico mordaz do Governo, que, por pouco, não foi morto numa trama diabólica arquitetada em reunião presidida pelo próprio Presidente da República, na qual se encomendou o seu assassinato ao General Pinheiro, Comandante do Núcleo da Divisão Aeroterrestre, que, por uma série de motivos, não conseguiu colocar em execução o plano. Por muito pouco ele não foi morto, porque houve recusa de vários comandantes de unidades paraquedistas em cumprir a missão, até que um aceitou e saiu para executá-lo e acabou não tendo êxito, por um estratagema no qual o Governador, ao ser informado do problema, fez uma mudança no horário de uma inauguração” (General-de-Exército Luiz Gonzaga Schroeder Lessa, Tomo 10, pg. 64).

 

Desinformação da KGB 1: Caso dos mendigos jogados no Rio da Guarda

“Esse documento que mostro aqui para as câmeras é a história do Departamento de Desinformação da KGB. A KGB criou esse Departamento para fazer o que eles chamam de desinformátsiya. Trata-se de indicar informações passadas – falsas, incompletas ou dúbias – fornecidas ou confirmadas a outros países, a fim de fazer com que seus governos cheguem a conclusões errôneas sobre a Rússia, sendo, inclusive, induzidos a ações benéficas para com a Rússia.

Essa máquina continua, é feito máquina sem freio, tomou aquele embalo e não cessa. Caiu o Muro de Berlim, caiu a União Soviética, mas eles continuam funcionando dentro de todos os jornais com a desinformátsiya.

Esses documentos do Departamento de Desinformação da KGB, pela sua influência e pelos seus danosos resultados, tratarei mais a fundo no meu próximo livro.

As grandes operações da desinformátsiya aqui no Rio de Janeiro foram o caso dos mendigos e o caso do Brigadeiro Burnier. Dizem que o Burnier ia explodir o gasômetro, no caso do Sérgio Macaco – um trapalhão que conseguiu promoções na Justiça ao arrepio da lei. Um absurdo! Como um Capitão Intendente sem os Cursos de Aperfeiçoamento e de Comando e Estado-Maior chega a Brigadeiro?! É o próprio Samba do Crioulo Doido, é a negação a tudo que está escrito sobre promoções, prejudicando a imagem do Judiciário!

A questão dos mendigos começou com um fato concreto, realmente estavam matando mendigos e jogavam os cadáveres no Rio da Guarda. Amarravam as mãos do mendigo atrás, davam uma bordoada na cabeça e jogavam no Rio da Guarda, de cima de uma ponte.

Até que uma mendiga, não deram com força suficiente, acordou, era exímia nadadora porque era filha de pescador, e nadou até a margem, apesar de estar com as mãos amarradas, foi batendo o pé, encalhou na areia. Um caboclo a salvou e a levou para a delegacia.

Mas ela era completamente demente, levou uns quinze dias dizendo coisas sem nexo. Aos poucos, o delegado de Santa Cruz conseguiu formar uma história coerente, abriu um inquérito e me comunicou.

Saí correndo e fui avisar o Lacerda, uma coisa horrorosa estava acontecendo, já havia mais de dez mendigos, dez cadáveres encontrados no Rio da Guarda, e a Última Hora estava dizendo que ele estava matando mendigos.

Ele mandou abrir um inquérito administrativo e policial. O delegado de Santa Cruz tinha traçado a origem como sendo o Serviço de Mendicância, que era em Olaria, um abrigo de mendigos administrado pela Polícia.

Mandei cercar o lugar com a PM e prendi todo mundo que estava lá dentro, do último mendigo até o chefe que era policial de carreira, prendi todo mundo. Foram todos para o Regimento de Cavalaria da Polícia Militar e lá tudo foi esclarecido.

Era um guarda civil antigão, nomeado muito antes do Lacerda assumir o Governo, que começou a dizer para os outros que ele falava com Cristo. Falava com Jesus Cristo e que Jesus Cristo o tinha encarregado de beneficiar os mendigos sob sua guarda que ele achasse irrecuperáveis, os quais deveria matar e jogar no rio.

Ele se mancomunou com o motorista, cujo nome já diz tudo, o apelido era ‘Tranca Ruas’, a gente já vê que não era boa coisa. Ele levava os mendigos para o Rio da Guarda junto com esse motorista e matava. A Última Hora fez um escarcéu tremendo.

A KGB espalhou isso no mundo inteiro, recebi telegramas de uns quatro ou cinco países, apelando para que eu parasse de matar mendigos. O Lacerda então recebeu pilhas. Peguei todos esses telegramas, fiz um cálculo, porque conhecia o sistema de tarifa de telegramas: a KGB gastou da ordem de 600 mil dólares só de telegramas, foi quanto custou essa campanha dos mendigos. E, anos depois, vinha gente me perguntar: ‘Mas, Coronel, é verdade que o senhor matava mendigo?’, porque as notícias da Última Hora eram categóricas: ‘ele mandou, foi ele que tramou, foi ele que imaginou, que mandou a Polícia segurar os mendigos e matar com uma bordoada na cabeça’, prejudicando o Governo e a imagem do Lacerda também, já nem falo na minha pessoa.

Faz sentido o Governador Lacerda sair das suas obrigações para mandar matar mendigos a bordoada? Mas o povo acreditava, pois era dito tantas vezes, com tanta firmeza...

Há um filósofo francês que diz: ‘Menti, menti, caluniai, sempre ficará alguma coisa.

Gramsci, membro do Comitê Central do Partido Comunista Italiano, usava isso” (Coronel-Aviador Gustavo Eugenio de Oliveira Borges, Tomo 10, pg. 302-304).

Obs.:

Cansei de ver, em debate na TV, a professora e deputada Sandra Cavalcanti, que foi Secretária de Serviços Sociais do Governo Lacerda, ser acusada por adversários políticos, como Miro Teixeira, de ser responsável pela morte de mendigos, jogados no Rio da Guarda e no Rio Guandu. Cfr. em https://pt.wikipedia.org/wiki/Sandra_Cavalcanti.

F. Maier

 

Lacerda ficou 48h acompanhando reparo da Adutora Guandu

“Entre os civis, destacaria, sem dúvida, em primeiro lugar, Carlos Lacerda. Homem de talento, bravura e idealismo, conseguiu ser o maior tribuno de todos os tempos no nosso parlamento. Na Revolução foi um bravo. Destacou-se como administrador. Compartilhei da sua ação administrativa, onde mostrou que não era apenas um demolidor, mas sabia construir, também. Lembro-me de que poucos dias depois de assumir o Governo do Estado da, então Guanabara, começou a faltar água. A adutora do Guandu estourou e o Rio de Janeiro ficou sem água. Normalmente, nesses casos, o governador expede suas ordens e fica em casa. Era um fim de semana. Lacerda foi pra lá e ficou mais de 48 horas sem arredar um instante, comendo sanduíche e em pé. Eu disse: ‘Governador, o senhor precisa descansar’. Ele respondeu: ‘Não saio daqui, enquanto o Rio de Janeiro não voltar a ter água. Faço questão de dar o exemplo’ ” (Doutor Emílio Antonio Mallet de Souza Aguiar Nina Ribeiro, Tomo 10, pg. 253).

 

Lacerda, criador de anedotas infames

“Aberta a sucessão, o nome do Ministro Costa e Silva naturalmente surgiu. Eu e Jubé identificamos uma campanha difamatória contra ele, uma série de anedotas deste nível: ‘Ele usa óculos escuros, porque ao ver o verde da grama, vai querer pastar’.

Decidimos levantar a origem dessas piadas infames e maldosas. A melhor maneira de destruir alguém é fazê-lo via anedota. Ridicularizar através de um humorismo inteligente, porém difamante, é pior que uma bomba nuclear, destrói qualquer coisa. Aquilo me preocupou pois era publicado na Imprensa, minha área. As investigações descobriram que as anedotas eram lançadas nos corredores do Congresso, trazidas por um oficial – não vou dizer se da Marinha ou da Aeronáutica – da assessoria parlamentar. Ele foi seguido e descobrimos que frequentava o Gabinete do Carlos Lacerda, na Galeria Avenida, no Rio de Janeiro, de onde as anedotas saíam. Lacerda estava preocupado com o crescimento da candidatura de Costa e Silva. (...)

Devo dizer que levava as anedotas ao conhecimento do Costa e Silva, que as achava engraçadas e até ria. (...)

Descoberta a origem, ficou mais fácil o combate. Quando diziam que era imbecil, que se tratava de um boçal, que Costa e Silva não servia nem para sargento, imprimíamos uma fotografia dele e no verso colocávamos um currículo resumido. No final, esclarecíamos que Costa e Silva fora o primeiro colocado da Infantaria na Escola Militar de Realengo, mesma turma de Castello [7º. Colocado]” General-de-Exército Oswaldo Muniz Oliva, Tomo 7, pg. 57).

“Encontrava-me na sala de aula [ECEME] com mais alguns companheiros, quando foram chamados oficiais dispostos, aqueles que ‘topavam qualquer parada’. (...) O Coronel Figueiredo (João Baptista de Oliveira Figueiredo), instrutor, dirigiu-se a nós:

- Nós os escolhemos porque tempos confiança em vocês e vamos cumprir uma missão muito árdua. O Palácio Guanabara enviou um pedido para que mandássemos alguns oficiais para organizar a defesa do Palácio, sede do Governo do Estado, onde se encontrava o senhor Carlos Lacerda e o pessoal mais chegado a ele. Consta que vão ser atacados pelos fuzileiros navais do Aragão; já estão lá três ou quatro oficiais da Aeronáutica, comandados pelo Coronel Burnier, que confessam não saberem fazer defesa terrestre. A Escola só pode dar a condução de ida para vocês. Alguém não deseja ou não aceita a missão?

- Não senhor! – respondemos – nós iremos” (Coronel Godofredo de Araújo Neves, Tomo 7, pg. 160).

 

Frente Ampla: suicídio político de Lacerda

“O AI-2 extinguiu os partidos, criando o bipartidarismo, e adotou uma série de outras medidas, mas o mais importante não foi feito, fruto do firme desejo de Castello, a reeleição do Presidente. Automaticamente, abriu a sucessão. Talvez não tenha pensado nessa consequência.

Nesse momento, quando ele abriu a sucessão, Lacerda surgiu como candidato, mas Costa e Silva, também, passou a ser um nome poderosos, preferido dos militares e alguns políticos. Lacerda erradamente, a meu ver, resolveu fazer uma reunião em Portugal para criar a Frente Ampla, com Jango e Juscelino. Nesse instante, perdeu a confiança nele depositada. (...)

(...)

Lacerda era o nosso candidato, mas passou a atacar a Revolução, distanciando-se do apoio militar. Começou a errar e a ‘engrossar’, quando Castello decidiu transformar a eleição em indiretas. Milton Campos, Ministro da Justiça, homem da mais alta dignidade, foi convocado para enviar mensagem ao Congresso, a respeito do assunto. Castello chamou Magalhães Pinto e Lacerda, dois líderes civis da Revolução, à Brasília, para contar-lhes. Nenhum dos dois receber as acusações, justa ou injustamente lançadas sobre Adhemar de Barros, que foi essencial para a Revolução. Lacerda saiu do Palácio, chegou ao Rio e, na televisão, desafiou Castello a manter a eleição direta, já sabendo que seria indireta.

Tao atitude de Lacerda deixou Castello muito aborrecido. No instante em que Lacerda antagonizou-se com Castello, ficaram dois candidatos militares, Oswaldo Cordeiro de Farias e Costa e Silva” (General-de-Exército Oswaldo Muniz Oliva, Tomo 7, pg. 59-60).

“Por uma questão de idoneidade histórica, vou criticar um pouco o próprio Governador Lacerda de quem fui tanto amigo. Quando ele achou que era seu dever participar da ‘Frente Ampla’, lealmente fui à presença dele e disse-lhe: ‘A partir desse momento não lhe sirvo mais, embora continue lacerdista. O senhor é que está deixando de sê-lo’. Ele tomou um susto, ficou espantado e, também, achou engraçado. Passados os anos, voltamos a nos visitar e estreitar o nosso relacionamento, até o seu perecimento. Naquele momento, creio que estava mal-aconselhado ou mal-inspirado.

Ele possuía uma inteligência brilhante e o gênio tem esses  altos e baixos. Naquele momento, infelizmente, me permiti discordar. Não era um robô, mas um adepto sincero de suas ideias. Foi um dos líderes incontestes da Revolução de 1964” (Doutor Emílio Antonio Mallet de Souza Aguiar Nina Ribeiro, Tomo 10, pg. 253-254).

“Há uma passagem do Governador Carlos Lacerda, que foi um homem decisivo na época da Revolução para a vitória do Movimento. Ele tinha ambições de ser Presidente da República e quando os elementos militares mais radicais, vamos falar assim, não queriam que se passasse logo o governo para um civil, quando Lacerda percebeu que não seria o candidato nas eleições que deveriam vir em seguida... ele saiu com uma frase que os jornais estamparam na época, para nós considerada uma ofensa grave ao Marechal Humberto Castello Branco. Ele diz: ‘Eu acho que o Marechal Castello Branco é mais feio por dentro do que por fora.’ Um homem que tinha sido um dos líderes da Revolução, só porque se viu tolhido e frustrado por não poder se candidatar à presidência logo em seguida, como sonhara, se voltou contra nós. E vamos ver, logo em seguida, uma reunião que houve de Lacerda, Jango e creio que Juscelino, com a ideia de formar uma frente ampla para tratar dos interesses de seus líderes” (General-de-Brigada Acrísio Figueira, Tomo 14, pg. 150).

Obs:

A título de informação, o Ministro San Thiago Dantas desejava unir todas as esquerdas em uma “Frente Única” (1963), para dar suporte consistente ao Governo João Goulart e suas “Reformas de Base”. Os partidos comunistas e o exibicionismo de Brizola impediram a formação dessa Frente. A “Frente Popular” de Jango, com o PCB e as organizações dominadas pelo “Partidão”, foi o que sobrou da pretensa “Frente Única”.

A “Frente Única” pelo menos serviu como inspiração para a moda da década de 1960, sendo uma peça feminina bastante “sexy” – ao mesmo tempo em que debutavam as chinelas hawaianas e a camisa “ban-lon”, também conhecida como “camisa volta ao mundo”.

F. Maier

 

Desinformação da KGB 2: Caso Sérgio Macaco

“O outro foi o Sérgio Macaco. Em dado momento, o Partido Comunista começou a char que Burnier estava incomodando muito, eles ficaram furiosos num episódio de um sequestro de um Caravelle no Geleão.

O avião foi sequestrado ainda no chão, renderam os pilotos, e pelo rádio exigiram mais gasolina, porque eles queriam voar direto para Cuba. Mas o Burnier, que não era de brincadeira, cercou o avião, deu uma rajada de metralhadora em cada pneumático, furou todos os pneus do avião e começou a bolar uma solução.

Demorou algumas horas até que cristalizou um plano global para tomar o avião de volta. Ele cobriu o avião com espuma, valendo-se do carro de bombeiro do aeroporto, do qual sai aquele jato de água que quando cai em cima do fogo faz uma imensa bolha de espuma e com isso abafa o fogo.

Ele cobriu o avião com espuma de incêndio, com isso ele tirou a visibilidade das janelas, inclusive da janela do piloto e do comandante. Os três terroristas, dois sujeitos e uma mulher, ficaram dentro do avião sem conseguir olhar para o lado de fora e não sabiam onde estava a tropa da FAB.

Ele teve tempo de preparar o seguinte: injetar pela tomada de ar-condicionado gás lacrimogêneo da polícia. Em dado momento, estava tudo preparado, inclusive uma tropa de elite, para invadir o avião.

Ele apertou, disparou as garrafinhas de gás lacrimogêneo, os terroristas ficaram meio tontos, com os olhos congestionados, aí o Burnier arrombou a porta do avião, entrou com a sua tropa, prenderam a mulher e um terrorista e mataram o outro, que estava querendo eliminar o comandante.

O comandante, quando viu aquele movimento de gás lacrimogêneo, saiu por uma portinha e caiu embaixo no pátio, mas, como é mito alto, quebrou a perna no salto e ficou caído, deitado.

O terrorista veio ali na janela, começou a atirar no comandante. Esse comandante está vivo, pertenceu à empresa Cruzeiro do Sul, era meu amigo. A tropa do Burnier não teve outro jeito senão fuzilar esse terrorista, ou fuzilava o terrorista ou ele matava o piloto.

Era preciso anular o Burnier, então acionaram a desinformátsiya, engendraram estórias fantásticas e desmoralizantes para o Burnier. Disso foi encarregado um oficial comunista da FAB, Sérgio Macaco, que já era mau elemento desde cadete. O Eduardo Gomes gostava dele, não por quê, e passou a mão na cabeça dele em várias instâncias. Ele deveria ter sido expulso e não foi, foi ficando, dizendo que ia se regenerar.

Sei que passaram a mão na cabeça do Sérgio Macaco e ele começou a acusar o Burnier de umas coisas muito engraçadas. Causa espanto o fato de esses fatos serem aceitos pela opinião pública, apesar dos absurdos.

O  Burnier foi acusado de planejar a explosão do gasômetro [do Rio de Janeiro, próximo à Rodoviária Novo Rio]. Acontece que o gasômetro está a um quilômetro e meio da casa onde o Burnier morava, logo, se aquele gasômetro explodisse, a casa do Burnier iria para o espaço. Evidentemente, ele não ia explodir o gasômetro. E o que ele ia conseguir com a explosão do gasômetro? Nada. Poderia acusar, dizer que aquilo era coisa dos comunistas, mas a Revolução tinha ganho, não precisava de desculpa para explodir coisa nenhuma, para combater os comunistas, nós já tínhamos ganho a guerra.

Passaram a acusar o Burnier de levar os comunistas a bordo de aviões e ameaçar jogá-los do avião em alto-mar, mas não deram por falta de ninguém.

O mais ridículo de tudo é que o Burnier tinha vendido a Amazônia. Veja o absurdo, vendido a Amazônia para um general americano, comandante da 82ª. Aerotransportada. Como é que um general americano ia comprar, com que dinheiro? Ele precisaria de vários caminhões de ouro maciço para comprar a Amazônia e o Burnier ie fazer o que com esse ouro todo?

É um absurdo, lembra o caso da Zuzu Angel, eles mesmos sabem que á a maior fantasia do mundo, mas fingem que acreditam. [entrevistador]

É outra operação da KGB...

Da KGB, que aceita que alguém a uma distância enorme pudesse ver, de noite, que um carro da repressão fechou outro que era da Zuzu Angel – uma mentira deslavada, insuportável! [entrevistador]

O acidente do Juscelino – tentaram inventar um pseudo-assassinato. Um caminhão atravessa a pista, dá de cara com o carro dele e aquilo foi tramado pelo Exército. Brincadeira” (Coronel-Aviador Gustavo Eugenio de Oliveira Borges, Tomo 10, pg. 304-305).

Obs.:

A famigerada Comissão Nacional da Verdade (CNV), instalada no Governo da antiga terrorista da VAR-Palmares, Dilma Rousseff, “descobriu” o autor do “atentado”, só porque ele estava numa foto após o acidente: o Coronel Freddie Perdigão. Por que as outras pessoas que estão na foto não se tornaram suspeitas? - https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/05/foto-liga-militar-acidente-de-zuzu.html.

A mesma CNV, em seu Relatório Final, elenca 377 agentes de Estado que teriam cometido crimes durante a ditadura, incluindo os 5 presidentes militares – Castello Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo – cfr. http://felixmaier1950.blogspot.com/2020/07/comissao-nacional-da-verdade-377.html.

Em 21 de novembro de 2012, eu enviei uma carta à Comissão Nacional da Calúnia (no dizer do General Maynard Marques de Santa Rosa), com resposta do Ouvidor da CNV e minha tréplica – Cfr. em http://felixmaier1950.blogspot.com/2020/07/carta-comissao-nacional-da-verdade-por.html

“Essa arraia-miúda [esquerda brasileira] embevecida pela própria retórica domina as universidades, a imprensa e o movimento editorial, onde penetrou desde a década de 1930 ajudada pelas verbas culturais do KGB (uma história que Sader provavelmente ignora) e onde reina até hoje pelo boicote sistemático aos adversários superiores em inteligência, cultura e honestidade. A esquerda não tem nada, intelectualmente, exceto dois ou três pensadores medianos como Lukács e Horkheimer (sempre patrulhados pela própria esquerda), e exceto, naturalmente, aquilo que rouba: nosso descarado professor [Emir Sader] contabiliza no patrimônio esquerdista até mesmo Freud, um moralista conservador (ver Philip Rieff, Freud: The Mind of a Moralist), e Bertrand Russell, que só aderiu à esquerda em plena senilidade e que na época do seu maior esplendor intelectual propunha nada menos que uma guerra atômica preventiva contra a URSS” (Olavo de Carvalho, in “O Imbecil Coletivo”, pg. 295-296).

F. Maier

 

PROFESSOR OLAVO LUIZ PIMENTEL DE CARVALHO, DE JORNALISTA COMUNISTA A DEFENSOR DO MOVIMENTO DE 1964

 

Uma história que está sendo reescrita pela esquerda terrorista derrotada

“Minha satisfação de estar presente, neste momento, deve-se  sobretudo à natureza deste projeto, a de uma memória da História do Brasil que está sendo apagada; a memória do que se passou nos últimos quarenta anos está sendo totalmente apagada, caricaturada, recortada, reescrita, safenada, já fizeram ‘o diabo’ com essa história. E é importante lembrar que, ao eclodir a Revolução, eu me encontrava exatamente do lado contrário. Quer dizer, não posso de maneira alguma ser acusado de ter algum preconceito a favor do Movimento de 31 de Março de 1964. Muito aos poucos, revendo o que se passou, de maneira muito gradativa e cuidadosa, fui mudando de opinião” (Tomo 3, pg. 102).

“Nos meses que antecederam o Movimento de 1964, havia, no colégio em que estudava – era estudante secundarista na época, aluno do Colégio Estadual de São Paulo – facções políticas bem definidas, com uma maioria esquerdista e uma minoria (mas não tão minoria assim) à direita, que depois apoiou o Movimento de 1964.

Mas a parte esquerdista era, naturalmente, a mais ativa, e fui diretamente envolvido por ela, sem ter tido muito contato com a outra facção. Tão logo perceberam que eu existia, já me cercaram, curiosamente, com o pretexto católico. Era a esquerda dita católica, liderada, ali na escola, por uma moça muito simpática, muito bonita, muito sedutora. Era mais velha do que nós, e exercia uma liderança fantástica sobre aquela meninada toda. Creio que estavam todos de algum modo apaixonados por ela, e ela usava isto muito bem. Pouca coisa sei da vida da personagem, mas via a atuação dela.

Então, a pretexto de catolicismo, de catequese e até de Primeira Comunhão, se colocavam ideias flagrantemente marxistas na cabaça de cada menino. Muitos anos depois, por uma coincidência da vida, voltei a encontrar essa pessoa num ambiente de trabalho – mas quase dez anos depois – e aí fiquei sabendo que nunca tinha sido católica coisíssima nenhuma, que aquilo era exclusivamente uma atividade política. Isso é para se ter ideia do ponto em que as coisas já se encontravam no ambiente secundarista.

Não vejo por que citar o nome da criatura. Ela era importante no movimento secundarista da época: era ligada à AP (Ação Popular), o mesmo movimento em que militava o Presidente da República atual e o seu candidato, o ‘vice-rei’ José Serra, presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), na época” (Tomo 3, pg. 103).

 

Cárcere privado para kamarada suspeito de namorar agente do Governo

“Tão logo me convidaram para entrar no Partido [PCB], comecei a frequentar as reuniões de base – as unidades mínimas do Partido chamam-se bases -; tinha uma base na Folha de S. Paulo, uma base no Estadão etc. Na base da Folha de S. Paulo, onde se reuniam os jornalistas que trabalhavam nos vários jornais da organização Folha, comecei a minha atividade.

Mas, poucas reuniões depois, apareceu um sujeito do comitê estadual, que na ausência do chefe da base, nos reuniu e disse o seguinte: ‘Companheiros, o companheiro fulano de tal – que era o chefe da base – criou uma situação extremamente delicada. Arrumou uma amante que, temos sérias razões para acreditar, é uma agente do DOPS (Departamento da Ordem Política e Social). Então decidimos isolá-lo durante algum tempo, para podermos investigar e tirar a limpo esta coisa. Precisamos arrumar um lugar para depositar esse camarada, deixá-lo meio sem contato com o pessoal da profissão durante algum tempo, até que possamos esclarecer tudo.’

Em suma, o que ele queria dizer era cárcere privado, em última instância. E nomeou quatro idiotas para achar um lugar para colocar o camarada.

E um dos quatro era eu. Não me recordo exatamente quem eram os outros. Um dos quatro, salvo engano, era o jornalista Rocco Bonfiglio, irmão da Mônica Bonfiglio, que aliás faz programas de TV sobre anjos, essa coisa toda. Muito boa pessoa, eram muito meu amigo também, naquela época.

(...) ... no fim, colocamos o sujeito lá e, de três em três dias, alguém ia levar comida e cigarros para ele. E o sujeito ficou depositado lá um tempão. Levei comida para ele três ou quatro vezes. Depois designaram outras pessoas para fazer isso, e eu não soube de mais nada. Um dia escuto, entre dois militantes, na redação a seguinte conversa:

- Sabe quem estava aí, na portaria? Aquele f. d. p. do fulano de tal – que era aquele antigo chefe da base. Não deixamos nem entrar.

Isso queria dizer que o sujeito estava virtualmente excluído. Junto da exclusão do Partido, estava excluído da profissão, pelo menos em São Paulo. Achei aquilo tudo normal, porque pareciam medidas de segurança, e passados outros meses, certo dia, estou num bar na frente da Folha de S. Paulo, tomando um cafezinho, e aparece o tal do sujeito, magro, chupado, barbudo, com um ar de mendigo. E vem falar comigo. E eu, como militante devotado, virei-lhe as costas e não falei com ele.

Também levei anos para compreender a significação moral – ou imoral – daquilo que fiz, porque na verdade ocorreu o seguinte: houve um cárcere privado, exclusão da profissão, descriminação odiosa, a destruição total de uma vida, de uma carreira, no fim das contas, por causa de uma desconfiança. E todo mundo considerou isso normal, porque o Partido tinha todo o direito de agir assim. Nem se questionava.

Não tive o menor problema moral na época por ter procedido assim. O bem estava conosco; do outro lado não eram nem gente. Portanto, ninguém iria perder tempo tendo bons sentimentos para com um sujeito que pensa de outra forma e tem outra orientação política.

Na época, estive insensível a esta coisa. Entretanto, mais tarde, analisando o que se passou, eu vejo... Por exemplo, hoje, esses que pedem indenização porque dizem que ‘foram excluídos da profissão’ e não sei o que mais. Ao contrário, no Partido era normal excluir uma pessoa, fechar uma boda, jogar um cidadão na miséria, na exclusão, no silêncio e no isolamento total. Então, esse negócio de que ‘fomos discriminados’, são ‘lágrimas de crocodilo’. Isso é a coisa mais falsa e torpe a que se pode assistir. É uma coisa medonha, que não considero moralmente justificável” (Tomo 3, pg. 108-109).

 

Os “democráticos” terroristas foram buscar “ajuda democrática” em Cuba

“Uma prova inequívoca dessa desproporção no julgamento, de si e dos outros, foi justamente o que aconteceu nos anos seguintes, à medida que a esquerda – e sobretudo a ala mais radical do Partido Comunista – reagindo contra um regime autoritário mas muito brando e que havia se imposto sem a menor violência, foram buscar ajuda logo de quem? Da ditadura mais sangrenta que havia na América Latina, a de Fidel Castro. Até àquela altura, Fidel Castro já havia fuzilado 17 mil cubanos e logo depois, para a intervenção em Angola, matou 100 mil angolanos no prazo de poucas semanas.

(...)

Eu poderia até ser contra o novo regime, mas o novo regime não era um regime assassino, não era um regime violento, não era um regime cruento. E eles foram pedir ajuda e se aliar ao que havia de mais violento, de mais cruel na América Latina. Qual a justificativa moral que se pode apresentar para isso? Moralmente, qual é o sentido que faz uma coisa dessas? Com um único ato deste, o indivíduo já desmascara o seu intuito na mesma hora.

Porque, se o sujeito, para reagir contra o Governo do Marechal Castello Branco, vai pedir ajuda a Fidel Castro, isto significa claramente que o indivíduo nada tem contra o uso da violência, nada tem contra o derramamento de sangue, nada tem contra o genocídio. Tem apenas contra o Marechal Castello Branco, é o que se entende” (Tomo 3, pg. 109-110).

 

“Neurose é uma mentira esquecida na qual você ainda acredita”

“Então, esses dois capítulos – a covardia inicial, seguida dessa escolha errada do Partido – são capítulos da novela psicótica da esquerda nacional. Eu não tenho a menor dúvida de que toda a esquerda nacional, desde então, está possuída por uma fantasia psicótica.

É por isso que hoje em dia eu não aceito mais quando a pessoa diz: ‘Temos que discutir as divergências ideológicas, respeitosamente.’ Respondo: ‘Está bem, uma divergência ideológica pode-se discutir respeitosamente, mas uma psicose não.’ Uma psicose não se respeita, e aliás nem se desrespeita: uma psicose se diagnostica e se cura.

Agora, como é que se cura uma psicose? Pelo velho método psicanalítico do desmascaramento. Tenho um amigo, um grande gênio da psicologia clínica, que dava a seguinte definição para neurose: ‘Neurose é uma mentira esquecida na qual você ainda acredita.’ Até hoje, toda a história da esquerda brasileira é exatamente a história dessas duas mentiras esquecidas: a covardia de 1964 e a aliança macabra com um governo genocida para combater um autoritarismo brando” (Tomo 3, pg. 111).

 

Caio Prado, o ídolo intelectual dos comunistas

“Com base no livro do Caio Prado [A Revolução Brasileira], vai se formando uma ala radical disposta a romper com a estratégia clássica do PCB, que era a aliança com a burguesia, e partir para uma solução violenta. Essa é a origem das guerrilhas.

É evidente que toda a argumentação usada para levar a decisão à guerrilha era falsa. Toda ela era uma racionalização neurótica – como se diz em psicanálise – para ocultar o fato básico. O fato básico é que a esquerda já vivia na mentira e na covardia muitos anos antes. Por quê? Porque a guerrilha já tinha começado em 1961 e, em 1961, Cuba já estava dando ajuda às ‘Ligas Camponesas’ do Francisco Julião para fazer uma guerrilha no Brasil.

Portanto, veja que coisa absurda: se já havia a guerrilha, já havia a ala radical, e a guerrilha já estava em ação desde 1961, como é que o fracasso poderia ser explicado por culpa da estratégia pacifista do Prestes? Não tinha estratégia pacifista nenhuma, eles já estavam fazendo guerrilhas antes! E no entanto, toda aquela argumentação pomposa e pseudo-intelectual do Caio Prado (aqui para mim e cá entre nós, acho ele um palhaço) que vem desde a história colonial, baseada em dados econômicos, mas ocultando o básico. Se ele estava argumentando que não existe burguesia nacional e, portanto, a estratégia pacífica foi a culpada do nosso fracasso, ele está simplesmente omitindo o fato de que não havia estratégia pacíifica nenhuma, de vez que já havia guerrilha, aqui, desde 1961” (Tomo 3, pg. 113).

“O Caio Prado era o ídolo filosófico dos comunistas, na época, e os anarquistas também tinham o seu ídolo filosófico, que era o falecido Mário Ferreira dos Santos, este sim de uma capacidade fantástica.

Certo dia realizaram um debate para analisar uma questão do ponto de vista marxista e do ponto de vista do Proudhon, do anarquismo. Chamaram então o Caio Prado para apresentar o pondo de vista marxista e o Mário Ferreira para apresentar o ponto de vista anarquista. Falou primeiro o Caio Prado, aquela coisa toda elegante; quando terminou, o Mario Ferreira se levantou e disse: ‘Olha, o pondo de vista marxista não é esse que você disse, não. De modo que eu vou refazer a sua conferência, antes de começar a minha’. E refez toda a conferência do Caio Prado. Quando foi dito que iriam publicar a transcrição, o pessoal comunista ameaçou jogar uma bomba na gráfica anarquista para evitar que o seu filósofo fosse exposto àquela vergonha. Isso é só para dar uma ideia do que um filósofo de maior envergadura pode fazer com um Caio Prado da vida.

Note bem, destes intelectuais do Partido Comunista, o único que respeito, pelo trabalho intelectual, é o Jacob Gorender. Seu livro, O Escravismo Colonial, é um trabalho realmente de muito peso para a gente” (Tomo 3, pg. 114).

 

Os dois discursos do Partido Comunista: um público, outro secreto

“Na história do Partido Comunista, sempre houve dois discursos, uma para dentro e um para fora. Tem o discurso em petit comité, o discurso dos congressos dos partidos, e tem a propaganda para fora, que é totalmente diferente. No Partido dos Trabalhadores (PT), ocorre exatamente a mesma coisa. Se você acompanha as discussões nos congressos do PT, verá que não têm absolutamente nada a ver com o discurso que é feito, depois, para o público.

Essa duplicidade é uma coisa crônica na história do comunismo. Mentir, representar outro papel, para o comunista é uma coisa natural, principalmente aqueles que tiveram a experiência da clandestinidade. A clandestinidade é uma mentira, é ter uma vida de mentira. Você representa um papel fictício para fora e outro para dentro. Só que, durante o tempo em que você está na clandestinidade, é obrigado a fazer isso, porque, teoricamente, está correndo um risco. Mas acontece que, ao passar o risco, você continua a praticar aquilo que se incorporou à sua personalidade.

Significa dizer que a hipocrisia, a mentira, a farsa, fazem parte da estrutura de caráter do comunista; são treinados para isso, e acabam incorporando estes hábitos nefandos. No fim, aquilo se torna inteiramente natural, a duplicidade de consciência. E observei muitos e muitos casos disso aí.

São exemplos que não acabam mais. Quer dizer: para o comunista, encarar a sua atuação política num certo plano e a sua vida pessoal num outro plano inteiramente diferente, sem ser capaz de julgar uma pela outra, é a coisa mais normal do mundo.

Por exemplo, Karl Marx tem páginas muito ácidas sobre os burqueses que exploram sexualmente as suas empregadas. Entretanto, Karl Marx teve um filho com a sua própria empregada, e jamais deixou que esse filho se sentasse à mesa junto com a família. E ele não percebia nada de incoerente nisso, porque já estava na mentalidade dupla.

E este mesmo tipo de conduta observa-se, também, no total desprezo para com as mulheres do povo que você usa sexualmente. Notei isto em todos os militantes comunistas que conheci, com exceção daqueles que eram casados com mulheres muito ciumentas e não podiam se dar ao luxo dessa brincadeira. Usavam a mulher, assim, como se fosse um lixo.

(...)

Eram discípulos [de Karl Marx] no sentido psicológico, não doutrinário. Você não precisa conhecer o pensamento do sujeito para imitar uma conduta psicológica que já se tornou tradicional dentro daquele meio. Essa duplicidade de caráter, duplicidade de língua – o famoso bilinguis maledictus, de que fala a Bíblia, ‘maldito homem de duas línguas1 – isto aí é a coisa mais comum, e era considerado normal.

Creio que não existe obra mais significativa da mentalidade comunista do que a de Bertolt Brecht. Brecht dizia assim, cinicamente: ‘A verdade ou a mentira são igualmente úteis, desde que sirvam ao comunismo1. Quer dizer, o comunismo está acima da verdade e da mentira. O sujeito educado assim está autorizado a mentir o quanto queira, inclusive para si próprio. Isso eu observei muito (Tomo 3, pg. 114-115).

 

Marcuse dava o pretexto ideológico e Gramsci a modalidade de organização partidária

“Marcuse usava uma expressão absolutamente fantástica: dizia que a estratégia deveria ser não a de atacar diretamente o sistema, mas a de fazer a sua decomposição difusa. Isto é, você espalharia, por tudo quanto é lado, militantes e intelectuais – sem ligação aparente uns com os outros – que iriam corroendo, aos poucos, todos os valores, instituições etc., e destruindo sua estrutura de dentro para fora.

Essa estratégia, aplicada nos Estados Unidos, deu certo, e, hoje, os Estados Unidos não são mais, de maneira alguma, a a mesma nação que fora até a década de 1960. A cultura americana tornou-se uma cultura francamente antiamericana. Nunca, houve, em país nenhum do mundo, uma classe letrada que estivesse maciçamente contra o próprio país, como nos EUA.

Os Estados Unidos são o maior exportador de propaganda antiamericana que existe; a propaganda antiamericana que circula no mundo é 80% produzida em Hollywood e Nova York, e isso tudo foi um estado de coisas criado pela tal da ‘revolução cultural’ que, nos Estados Unidos, foi mais marcuseana, na verdade, do que gramsciana. Mesmo nos Estados Unidos, a difusão de Gramsci é bem posterior.

(...)

Assim, a primeira faixa que Marcuse via como revolucionária – como substituta do proletariado – seria a de estudantes. A segunda faixa reuniria as pessoas que estão marginalizadas por um motivo moral: as prostitutas, os gays, os delinquentes.

A segunda seria o lumpemproletariado. Marcuse foi o primeiro a dizer claramente que o lumpemproletariado era sempre ideologicamente ambíguo – adquiria uma força revolucionária na nova situação – no capitalismo já mundializado, bem-sucedido economicamente).

A terceira seriam as chamadas minorias insatisfeitas, entre as quais as nações mais pobres do Terceiro Mundo. Com isso você pode ver que Marcuse formulou toda a atmosfera e toda a simbologia da esquerda de hoje. A esquerda essencialmente marcuseana é uma esquerda que já não arregimenta proletários, mas arregimenta prostitutas, gays, minorias raciais etc.

As obras de Marcuse começaram a ser editadas no Brasil mais ou menos por essa época, 1965-1966, enquanto desenrolava aquela discussão dentro do Partido. Ao mesmo tempo, a Editora Civilização Brasileira do falecido Enio Silveira, a maior editora do Partido, começava a publicar as obras de Antônio Gramsci. Antônio Gramsci praticamente organiza e articula a estratégia da revolução cultural, cujo conteúdo ideológico e publicitário, por outro lado, o pessoal tinha absorvido de Marcuse.

Não houve nenhum contato entre os dois, evidentemente. Gramsci nunca soube da existência de um sujeito chamado Marcuse, mas, antes mesmo da difusão das ideias de Marcuse, Gramsci já criara um aparato para operacionalizar – e, portanto, viabilizar – aquilo tudo.

Marcuse dava o pretexto ideológico e Gramsci a modalidade de organização partidária. Tudo estava sendo estudado pelos ‘velhos’ do Partido, pelo pessoal do Prestes. Então, enquanto uma meia dúzia de malucos se dedicava à guerrilha, ia para a guerrilha para morrer, o que fazia o Partidão? Fazia, por exemplo, o treinamento de pessoas para ocuparem as cátedras de Educação Moral e Cívica abertas pelo Governo.

(...)

 

Educação Moral e Cívica é usada para a ação comunista

Como é que eu sei disso? É muito simples: minha própria mulher trabalhou nessa empreitada, na época, fazendo exatamente isso. Era muito comum. Ela estudava Ciências Sociais na Pontifícia Universidade Católica (PUC). E havia um grande número de estudantes de Ciências Sociais, militantes de esquerda, que foram ocupar as cátedras de Educação Moral e Cívica e as transformaram em instrumentos de pregação comunista subsidiados pelo Governo militar.

Uma outra iniciativa que começou, então, foi a ocupação sistemática das chamadas ‘Sociedades Amigos de Bairros’, que, dentre as suas atividades, faziam reivindicações à Prefeitura, como tapar buraco, fazer um encanamento de esgoto, coisas assim. Enquanto a ala do Marighella se dedicava àquela coisa estéril da guerrilha, o pessoal do Partidão ia se infiltrando em todas essas organizações. Outro detalhe importante foi a organização da classe jornalística. Nisto, como no caso da Educação Moral e Cívica, quem criou inadvertidamente o instrumento para a ação comunista foi o próprio Governo, regulamentando a profissão de jornalista e tornando obrigatória a sindicalização.

(...)

Então, nós nos dedicávamos a sindicalizar as pessoas e colocá-las automaticamente em nossa órbita ideológica. Isso começa em 1965-1966. Ao chegar à metade da década de 1970, podemos dizer que o Partidão já tinha o controle praticamente total da bolsa de empregos na profissão jornalística no Estado de São Paulo(Tomo 3, pg. 118-121).

 “Enquanto eles estavam fazendo guerrilha, o lado dos ‘velhos’ estava montando o aparato cultural inteiro. Estava tomando todas as universidades, os meios de comunicação, as instituições de cultura – que, hoje, dominam totalmente, da maneira mais cínica que se possa imaginar. E o Governo militar estava totalmente alheio, totalmente voltado para a luta armada e, propositadamente, deixava a esquerda pacífica atuar como quisesse, primeiro, porque o Governo não tinha nada contra a esquerda pacífica. Ele só não queria dois tipos de coisa: a luta armada e a corrupção. Se não ocorresse nenhuma dessas, os esquerdistas podiam fazer propaganda ideológica à vontade.

Era a teoria do Golbery, a teoria da panela de pressão. Ele dizia: ‘Não pode fechar a panela de pressão por todos os lados que ela explode. É preciso deixar uma válvula de escape’.

Ora, a válvula que foi deixada foram as instituições de cultura, os meios de comunicação, as universidades... (Tomo 3, pg. 125).

Obs.:

Como afirma Olavo, “o Partidão usou a turma da guerrilha, como diz o caipira, como ‘boi-de-piranha’ ”, concentrando o Governo seus esforços no combate à guerrilha, deixando as universidades inteiramente à disposição da “esquerda pacífica”. Deu no que deu, a balbúrdia denunciada em 2020 pelo ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub. Prova? Em 2020, o Brasil não tinha nenhuma universidade entre as 200 melhores do mundo.

https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/2020/09/02/brasil-nao-tem-nenhuma-universidade-entre-200-melhores-do-mundo-diz-ranking

F. Maier

 

MST, os sovietes brasileiros

“O MST não é uma organização sindical, não é um partido político, não é uma guerrilha: é uma mistura de tudo isso. O que era exatamente uma mistura de tudo isso era o soviete na Rússia. A organização do MST – quem estudar um pouquinho o assunto verá – é rigorosamente a cópia do soviete, e o soviete serve para quê? Para desmantelar a estrutura agrária e preparar a futura administração socialista do campo. É exatamente isso que o MST está fazendo.

Na Rússia, a criação dos sovietes levou décadas. Aqui, tudo foi feito em oito anos, com o dinheiro do Governo. Portanto, o MST deveria erguer uma estátua para o Fernando Henrique, porque ele é seu verdadeiro criador. Mas sempre, para o esquerdista, é normal entrar dentro do aparato do adversário, e consentir ser publicamente identificado como adversário, enquanto trabalha para a esquerda. É exatamente o que fez o Fernando Henrique” (Tomo 3, pg. 128).

 

Fabian Society

“Esta questão da Nova Ordem Mundial está sendo discutida e planejada pelo menos desde a década de 1920. Houve um projeto inteiro – em 1928 já estava totalmente formulado – que saiu num livro de Herbert George Wells, intitulado The Open Conspiracy. Toda a Nova Ordem Mundial está delineada ali.

A ideia da nova ordem mundial é essencialmente uma criação da chamada Fabian Society, Sociedade Fabiana. Os socialistas fabianos são socialistas moderados, inventores da chamada ‘terceira via’ que também já estava formulada na década de 1920.

Onde surge a ‘terceira via’? Surge de um fator muito simples: o capitalismo é um regime que produz uma tal riqueza, uma tal prosperidade que acaba criando, junto com a prosperidade geral, certas fortunas que transcendem a própria mecânica do capitalismo. Por exemplo, um sujeito que cresceu e que enriqueceu num regime de livre concorrência, quando chega ao topo do capitalismo, isto é, se tornou uma das grandes fortunas, percebe que, embora a sua fortuna tenha sido criada pelo regime de livre concorrência, ele já não pode estar submetido à mesma. Nesse momento, surge o problema dinástico, porque ele aspira passar aquela fortuna para seus descendentes e perpetuá-la. Então ele já não quer mais livre concorrência, porque deseja garantir a continuidade.

Isso quer dizer que a classe capitalista se forma na livre concorrência, mas se consolida como um poder dinástico, e, portanto, já não mais de tipo capitalista, e sim de tipo aristocrátic9.

(...)

Então, é isto que explica o seguinte: se você pegar as duzentas maiores fortunas dos Estados Unidos – a começar por Rockefeller, Morgan etc. -, você verá que, nas eleições americanas, desde o começo do século, eles jamais apoiaram o candidato pró-capitalista, mas sempre o candidato estatista, intervencionista, controlador da economia, semi-socialista. Isso acontece porque essas grandes fortunas, esses grandes bancos internacionais, vivem de emprestar dinheiro para o governo, que é o grande cliente deles. Precisando do endividamento público, precisam do governo intervencionista.

(...)

Teoricamente, Reagan seria um homem do capitalismo liberal, uma espécie de Margareth Thatcher – ex-Primeira-Ministra britânica – de terno e gravata, mas, quando você vai ver, o que é que o Reagan fez? Ele fez o maior endividamento público de toda a história americana.

Quer dizer, durante a administração Reagan, o Estado cresce mais ainda. Eles sempre apoiaram mais uma política intervencionista. Ao mesmo tempo, essa mesma elite sempre usou a União Soviética – e o movimento comunista de modo geral – como instrumento de pressão em cima do governo americano. Se você for ver a própria história da União Soviética, sua história inteirinha, você vai ver que a União Soviética só existiu graças à ajuda americana.

(...)

Quando vemos que esses grandes bancos vivem do endividamento público, eles têm que ser contra o capitalismo liberal, e têm que ser a favor de um regime intervencionista. Mas o comunismo total, por outro lado, também não serve para eles. Então o que fizeram? A ‘terceira via’ foi a solução que encontraram, pois já tinham pensado nisso. Tudo está escrito, publicado, desde a década de 1920.

Então, esse pessoal vai empurrando o mundo cada vez mais para uma espécie de socialismo mezzo a mezzo, um socialismo que, no fundo, seria idêntico à economia fascista, à economia nazista – porque é um regime estatista -, mas conservando-se o Poder das grandes empresas, como você tem na China hoje, também.

(...)                                                                      

Quando identificamos a Nova Ordem Mundial com a ideia de interesse nacional americano, estamos cometendo um erro, porque a Nova Ordem Mundial nada tem a ver com o interesse americano, mas tem vínculos com duzentos banqueiros. Se, para formar a Nova Ordem Mundial, for necessário destruir os Estados Unidos, como de fato vem sendo feito – a cultura americana já foi destruída -, eles o farão” (Tomo 3, pg. 132-135).

 

Terrorismo cultural – a falsa caça às bruxas

“Quando dizem que o pensamento brasileiro foi sufocado, isto é autolisonja. Pensamento brasileiro à época? Que eu saiba... Que grandes pensadores existiam aqui? Havia o Mário Ferreira dos Santos, que a esquerda toda ignorava e que continua ignorando; havia o Miguel Reale; havia o Vilém Flusser, um emigrado tcheco que chegou aqui e, em três anos, aprendeu a escrever em português – escrevia um português maravilhoso. Flusser era um grande filósofo, e nunca lhe deram a menor atenção. Flusser acabou indo embora, na década de 1970, por não suportar mais a mesquinhez do meio. Não foi perseguido por ninguém, não foi posto para fora por ninguém. Os caras que foram demitidos da USP e de outras universidades, eram para ser demitidos mesmo, mas não por motivo político: eram para ser demitidos por inépcia.

A visão que esse pessoal tem da coisa é tão falsedada que existe um livro sobre a época, intitulado A Fúria de Calibã, escrito por Nelson Werneck Sodré – general e historiador comunista – que tenta traçar o panorama do que define como caça às bruxas da época – o tal ‘terrorismo cultural’, essa coisa toda. E conta que um foi demitido, o outro exilado etc. Ninguém de verdadeiro relevo intelectual. No meio da narrativa, Sodré adianta que, naquele ano (refere-se a 1965, creio) publicou oito livros que foram comentados e aplaudidos por toda a imprensa. Quer dizer, o homem publicou livremente as suas obras naquele ano, foi aplaudido na imprensa, e ainda tomou posse no Instituto Brasileiro de História e Geografia Militar, numa cerimônia à qual estava presente o Presidente da República. Agora você imagina se, em Cuba, é possível uma situação dessas: Fidel Castro comparecer a uma cerimônia na qual vai tomar posse, na Academia, um homem da oposição. O próprio Nelson Werneck se desmascara no livro” (Tomo 3, pg. 136-137).

 

Revanchismo & neurose = compensação financeira

“É mais do que um ‘revanchismo’, é uma vontade de dissipar aquele sentimento confuso que você tem dentro de si (a culpa mal conscientizada, a culpa não declarada). Isso cria uma configuração neurótica, da qual o sujeito tenta escapar mediante a busca de compensações morais. Então eles têm que estar continuamente fazendo homenagens a sim mesmos, dizendo: ‘Éramos mártires, éramos patriotas, éramos maravilhosos’. Um puxa o saco do outro, joga confete no próximo etc.; mas isto também não basta; é preciso poder; mas poder também não basta: é preciso dinheiro. Em suma, são satisfações neuróticas buscadas para compensar o próprio quadro neurótico que eles mesmos criaram com suas mentiras existenciais. Estão todos mentindo para si mesmos há trinta anos. É aquela coisa: ‘Neurose é uma mentira esquecida na qual você ainda acredita’. Isto é a vida deles. Eles mentiram em 1964 e já esqueceram a mentira, mas continuam vivendo com base nela.

Quando você vai procurar apoio de Cuba e diz que é para instaurar a democracia, você está mentindo, evidentemente. Mas esse fato é melhor esquecer. Você não é capaz de contar mais a sua história com sinceridade, não é capaz de dizer: ‘Éramos comunistas, queríamos aqui uma ditadura como a de Fidel Castro mesmo, queríamos fuzilar todo mundo e não nos deixaram, e ficamos loucos da vida porque não nos deixaram’.

Não podendo confessar isso em público0 – e talvez não confessem nem para si mesmos -, vivem na base da mentira, e é justamente isso que os induz a buscar compensações morais, psicológicas, financeiras etc. Quer dizer, o destino do País está sendo decidido pela neurose de um grupo – pela neurose, pela mentira existencial de um grupo de idiotas pretensiosos” (Tomo 3, pg. 139-140).

Obs.:

Um artigo histórico de Olavo de Carvalho, “A História Oficial de 1964”, pode ser visto em https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/06/a-historia-oficial-de-1964-por-olavo-de.html.

No livro “O Imbecil Coletivo”, à pg. 291, Olavo diz:

“Pertenci à ala marighelista do PCB, assisti de perto à preparação do que viria a ser o movimento guerrilheiro, e nunca vi lá dentro, exceto na arraia-miúda desprezada como ‘massa de manobra’, o menor sinal de romantismo e idealismo. O que vi foi apenas uma indignação fanática que o treinamento acabava por transformar em ódio frio e em absoluta incapacidade de enxergar qualquer coisa de humano no rosto do adversário, sempre reduzido a uma caricatura monstruosa. Muitos militantes acabaram por assimilar definitivamente esses traços à sua personalidade. É precisamente o caso de José Dirceu, cuja oratória tem por isso, até hoje, aquela típica ‘eloquência canina’ do acusador compulsivo”.

Os detratores de Olavo de Carvalho o chamam de bruxo, de negacionista (“a Terra é plana”, “o homem não descende do macaco”), de supremacista branco, de astrólogo, de guru de Jair Bolsonaro e seus simpatizantes, de “filósofo autonomeado” e “filósofo autointitulado”, embora saibam que ele sempre se apresentou apenas como escritor e jornalista. Quem afirmou que o mesmo é filósofo, primeiro foi o Jornal do Brasil, depois outros jornais e revistas. Quem denomina Olavo de “filósofo” é a Academia Brasileira de Filosofia, o Instituto Brasileiro de Filosofia, a Universidade da Cidade e a Universidade Católica do Salvador (cfr. “O Imbecil Coletivo, pg. 307-308).

F. Maier

 

 

A IMAGEM DO EXÉRCITO APÓS A REVOLUÇÃO

 

Há um inconsciente antimilitarismo

“A imagem do Exército nos primeiros anos da Revolução foi exaltada. Posteriormente, desgastou-se um pouco, como é natural.

Quando Castello Branco assumiu o Governo, a ideia geral era de que o Brasil estava falido. Na Praça da Independência (no Recife) existia uma farmácia chamada Simões Barbosa; dentro dessa farmácia instalou-se uma comissão para receber donativos da população para salvar o Brasil da bancarrota.

Formaram-se filas para as doações, a fim de salvar o Brasil. Eram doados relógios, anéis, joias e outros objetos. Isso vi, porque naqueles primeiros dias sempre fazíamos ronda pela Pracinha para ver se existia alguma aglomeração ou presença de agitadores. Testemunhei a fila de populares fazendo entrega, à comissão de recepção que estava instalada dentro da Farmácia Simões Barbosa, de donativos para salvar o Brasil.

O senhor crê que exista uma mobilização política contra os militares, nos dias de hoje? [entrevistador]

Existe, de um modo geral, esse inconsciente, certo preconceito contra os militares; como existe um inconsciente anticomunismo, existe no Brasil, atualmente, um inconsciente antimilitarismo.

A criação do Ministério da Defesa afastou, de saída, quatro militares do primeiro escalão do Governo: Ministros da Marinha, do Exército, da Aeronáutica e o Ministro-Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas.

Os militares das Forças Armadas estão proibidos, por leis estaduais, de comandar as polícias militares dos Estados (Coronel Petrônio Araújo Gonçalves Ferreira, Tomo 6, pg. 189).

 

Fazendeiros do RS se queixam da repressão ao contrabando de gado e de trigo

“Em 1966, fui transferido para a 2ª. Divisão de Cavalaria, em Uruguaiana. Naquela época, já começávamos a sentir contra nós a reação de uma parte da população. Os mais críticos eram os fazendeiros que, com o tempo, sentindo os seus interesses particulares prejudicados pela rigorosa fiscalização do Exército, começaram a se voltar contra o regime. A maioria deles era taxativa e se queixava a todo o momento de que ‘não fora para isso’ que haviam apoiado a Revolução. A causa da contrariedade era a repressão ao contrabando de gado em pé, carne, lã e trigo, na fronteira do Uruguai e da Argentina, atividade, até então, considerada normal. No momento em que começamos a reprimir a contravenção, perdemos os falsos aliados.

Com a abertura do comércio, o contrabando na fronteira do Rio Grande do Sul praticamente desapareceu. Tanto isto é verdade que os grandes contrabandistas sumiram de Uruguaiana. Um deles, contraventor famoso, apelidado de ‘General’, trocou Uruguaiana pela Cidade do Cabo, na África do Sul, e depois foi para os Estados Unidos, onde passou a promover a entrada clandestina de mexicanos naquele país. Quando o FBI ameaçou prendê-lo, voltou para Uruguaiana” (Coronel Hélio Lourenço Ceratti, Tomo 13, pg. 190).

 

A via crucis do Coronel Rui Barbosa Moreira Lima: perseguido pela Aeronáutica e pelo SNI, foi proibido de voar, e até vendedor de alpiste ele foi, para sobreviver

 

“Eu fui solto. (...) Saí, e fui para a vida civil, vamos dizer assim, competir na vida civil. Na vida civil, a primeira coisa que fiz foi procurar uma companhia de aviação. Eu já tinha requerido à DAC (Diretoria de Aeronáutica Civil, hoje Departamento) a carteira de piloto civil, carteira de piloto de linha aérea; eu, o Caldeira, o Malta e o Anízio, todos nós quatro tínhamos feito o requerimento.

 

Fiquei pensando que aquilo seria um passeio, vão me dar logo, pois eu já era profissional de voo, voava bastante e razoavelmente bem, era veterano em viagens para o estrangeiro, sabia o suficiente para operar em Paris, em Atenas, enfim, em qualquer lugar do mundo. Já tinha descido em Washington, quando servi lá; voei, tirei licença de voo de piloto. Em certa viagem da CAB (Comissão Aeronáutica Brasileira), alugava o avião em vez de pagar a passagem, era mais barato e contava com a vantagem, como piloto de linha aérea, de ter o hotel mais barato e ainda fazia essa economia para a própria CAB. Então, eu sabia voar, era um troço que eu sabia fazer era voar.

 

Pedi a minha licença de voo e foi negada por uma portaria – isso eu lamento – que o Ministro Wanderley, um companheiro de guerra, tenha feito por pressão de maus companheiros. E lamento ainda mais que um homem que eu admiro e continuo admirando, admiração sincera, não estou fazendo demagogia, acho que ele foi um homem necessário ao Brasil, foi um líder, e é justo que ele seja o Patrono da Aeronáutica, o Brigadeiro Eduardo Gomes tenha ratificado essa portaria, estendendo essa violência a todos os pilotos – civis e militares – era como se desejasse que aeronautas e aeroviários morressem de fome. Todos tiveram que mudar a profissão. Foi uma agressão aos direitos humanos. (...)

 

Teve gente que viveu 15 ou 16 anos lá na África, voando na Argelia Airline! Eu não, eu não saí do Brasil e não me arrependo.

 

A Paraense me contratou para ser o Diretor de Manutenção, sem voar, portanto, aceitei. Quando me preparava para mudar para Belém, o Brigadeiro Clovis Travassos disse a um dos diretores da Paraense – Brigadeiro Átila Gomes Ribeiro – se vocês contratarem o Rui, a Companhia vai sofrer sanções. Ele era o Diretor do DAC.

 

‘Olha, o Rui não pode se empregar na aviação; se vocês o empregarem, vamos cortar os subsídios, cortar as vantagens que vocês têm. Eles eram empresários, tinham que sobreviver, o Rui era apenas um nome – corta-se o Rui.’

 

Fui, então, trabalhar na Companhia Grassi, em São Paulo, companhia que produz carrocerias de ônibus. Fiz um concurso no Departamento de Pessoal. Menos de uma semana, eu estava almoçando com o Doutor Bruno Grassi, que era o dono, era o patriarca lá da empresa e diretor, e ele me disse: ‘Ah, eu não sabia que o senhor era Coronel, o senhor é Coronel?’ ‘Sou, sim senhor.’ ‘Mas o senhor quando fez a sua apresentação aqui não disse que era Coronel.’

 

Eu lhe respondi: ‘Não me perguntaram, queriam saber se eu sabia dirigir o pessoal, se conhecia as leis, se sabia lidar com o INPS, esses impostos, essas coisas todas, eu estudei isso e fiz.’ (...)

 

‘Esse dedo-duro que disse ao senhor que eu sou Coronel, deve ter influído. Agora, peço-lhe que abra o jogo e diga logo o que tenho que fazer, porque já estou pronto, tenho até passagem de volta.’ ‘Não, eu ia pagar a passagem do senhor.’ ‘Então, não pague não, Doutor Bruno, eu trouxe passagem de volta.’

 

(...)

 

Aí, voltei ao Rio de Janeiro. (...)

 

Indo a um coquetel, ali no Copacabana Palace, encontrei um francês, que tinha uma firma de representação de alimentos aqui no Brasil. Fui convidado para esse coquetel pelo Coronel Souza Leão, meu colega de turma na Escola de Aeronáutica, (...)

 

(...) [Coronel Souza Leão] apresentou-me a esse francês que falava português. Ele me perguntou: ‘O que é que o senhor faz?’ Eu disse: ‘Estou disponível para trabalhar.’ ‘O senhor quer ser o meu gerente de vendas, da representação que tenho aqui?’ ‘Se o senhor confiar, vou tentar, asseguro-lhe, porém, de que nunca vendi nada comercialmente.’ Fui nove vezes à América e nunca trouxe um automóvel para vender, porque achava que não podia fazer comércio como oficial da Força Aérea Brasileira. No meu entender, qualquer coisa que comprasse na América e vendesse no Brasil era comércio. Todos fizeram, todo mundo faz, não tirou pedaço de ninguém, ninguém deixou de ser honesto por isso, mas eu tinha certos princípios, era minha ética. ‘Mas o que o senhor tem, qual é o produto?’

 

Ele tinha vários produtos. Era calcaia produzida lá no Paraná; era fubá mimoso, milho de pipoca, grão-de-bico, arroz, feijão, óleo de girassol, alfazema, alpiste, tinha de tudo. Era uma sacolinha de 250 g e ½ kg. Aquilo eu botava na mala e ia vender. Só que ele tinha a representante dele, que era uma moça, essa moça tinha a Cooperativa do Banco do Brasil como prato cheio, quer dizer, o cliente grosso dele e mais alguns clientes, eram 23 ou 24 clientes. Eu, em três meses, tinha 502 ou 503. Entrava nos botecos e o português já estava me comprando o material.

 

Nessa coisa de vender, pensei na Dona Sandra Cavalcante com o Plano da Cooperativa Habitacional (COOPHAB). Assim, de produtos alimentícios, passei a vender apartamentos. Trabalhei no Consórcio Nacional de Imóveis (CNI), que era vendedor exclusivo da COOPHAB. Para tanto, tirei o curso de corretor de imóveis e, junto com mais ou menos uns quarenta cassados, passamos a vender mais apartamentos que todos os outros corretores, porque os apartamentos não foram vendidos, foram comprados, tal a procura. Na época, não havia inflação, não havendo inflação, todo mundo queria comprar. Então, o sujeito chegava e a gente perguntava: ‘Sabe ler e escrever?’ ‘Sei.’ ‘Então escreve o seu noe aí, pela assinatura do sujeito a gente já sabia o grau de instrução dele e já designava um grupo para cuidar dele. Então, a velocidade de venda era muito grande, porque a gente preparava para o sujeito aquela documentação toda, ele só tinha que assinar.

 

Dona Sandra nos pagou a comissão combinada. Um quinto correspondia à comissão. Essa comissão foi o primeiro dinheiro que ganhei aí fora, assim grosso, que me permitiu fazer uma reforma no meu apartamento.

 

Aí fui vender laje pré-fabricada, fui vender caminhão Mercedez-Benz, tratores e máquinas pesadas usadas e transformei-me num home de vendas.

 

(...)

 

Mário Henrique Simonsen, quando era Ministro, disse que os escritórios não podiam fazer aquele tipo de negócio – captação de incentivos fiscais de pessoa jurídica – tratando-se de um mercado de títulos, somente empresas registradas no Banco Central poderiam exercer essa atividade. Comprei uma carta patente que estava à venda e fui registrá-la no Banco Central. Quando fui fazer o registro, a perseguição do SNI, inspirada pela Aeronáutica, quase me impede de fazê-lo. Durou três meses minha via crucis nos gabinetes do Banco Central. O responsável pelo registro era sobrinho de um companheiro do atletismo no Fluminense – Alberto Murguel – da equipe 4x100 metros. Seu nome de guerra também era Murguel. Um dia, perdia a paciência e perguntei: ‘Ô Murguel, o que é que está havendo que vocês não registram minha Distribuidora de Valores?’ ‘O SNI não está deixando registrar sua Distribuidora baseado em informações da Aeronáutica.’ Decidi ir ao SNI, ali no Ministério da Fazenda, num salão daqueles, sei que era grande, com muitas divisórias, eu me apresentei com a minha carteira...

 

O SNI era no 13º. Andar. Quando cheguei, me identifiquei como um cidadão – devia ser o segurança, dublê de recepcionista, e disse: ‘Sou coronel e quero falar com alguém do meu posto aqui. Pode ser coronel de qualquer Força’. Veio me receber o Coronel Murad, de Cavalaria, irmão do Coronel-Aviador Murad, ambos meus amigos, desde Realengo. Quando vi o Murad se aproximar, disse em voz alta: ‘Poxa, Murad, vocês querem me matar de fome? Estou aqui trabalhando, fazendo meu serviço, comprei uma carta patente para poder ficar de acordo com o Mercado de Capitais e vocês negam a registrá-la? Basta dessa perseguição mesquinha. Já me proibiram de voar e agora essa?’ ‘Espera aí, Rui, calma.’ ‘Não vou ter calma coisa nenhuma, não posso admitir mais essa torpeza comigo.’ Parecia que eu era o dono do SNI, tal a atitude tomada.

 

‘Vem cá’, me levou para uma sala, ‘fique aí, por favor, não fale mais nada’. Fiquei quieto. Saiu e foi falar com o General Médici, que era o Diretor do SNI. Ao voltar, me disse: ‘O General Médici e eu consultamos o seu prontuário, não há nada contra você. Você está trabalhando e o General Médici disse que quando você chegar no seu escritório, sua carta patente já estará registrada no Banco Central.’ Em menos de uma semana, consegui o registro. Aquilo que o Médici disse foi feito em um prazo relativamente pequeno, apesar da série de requisitos burocráticos exigidos.

 

A carta patente pertencia à Rumo Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários Ltda. Aí, entrei no mercado.

 

Com a Distribuidora Jambock, fui eleito Vice-Presidente da Associação das Distribuidoras de Valores (ADAVAL), por 16 anos. Não sei se conheceram o Coronel Wolfango de Mendonça. Foi Comandante de Companhia do Major Sizeno Sarmento no Batalhão dele, na Guerra. Na época, era titular de uma Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários (DTVM), registrado no Banco Central.

 

Ele era o presidente da ADAVAL. O Wolfango, meu companheiro de Guerra, me acolheu bem e nossa chapa foi vitoriosa. Nas eleições seguintes, por 16 anos, mudava o presidente, mas o vice-presidente era eu. Por que vice-presidente? Porque o SNI não deixava que eu fosse presidente, não permitia, mas eu também não me incomodava, continuando a fazer a minha vida. E minha distribuidora se tornou forte no mercado de capitais, de incentivos fiscais.

 

A nossa firma era tão eficiente, tão eficaz, tão competente, a Jambock Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários Ltda que, quando havia um consórcio, um lançamento de uma multinacional, vinham os Bancos, puxando o carro chefe e com eles, lá estava a Jacel Jambock. O meu capital registrado era mínimo, mas eu entendia daquilo. Terminei pegando a exclusividade do Cimento Aratu – Multinacional do Grupo Lone Star (Estados Unidos da América) – numa competição com o Roberto Campos, quer era presidente de um conceituado Banco de Financiamento do Brasil, aliás, ele era o dono do Banco.

 

Na abertura da licitação, o presidente do Cimento Mauá – Mister Kibble – declarou: ‘Doutor Campos, seu preço é igual ao do Coronel Lima, mas vou ficar com ele: o senhor tem um Banco, tem muita coisa para se preocupar; ele só se preocupa com o incentivo fiscal, vou ficar com ele.’ Isso me deu um empurrão muito grande para o sucesso da captação de incentivos fiscais.

 

(...)

 

A Jambock DTVM Ltda operou no Mercado de Capitais, atuando no setor de incentivos fiscais de pessoas jurídicas, durante 17 anos. Em 1970, cheguei a ter 13 salas – duas próprias – 24 telefones e 31 funcionários. Era fiscalizado pelo Banco Central de dois em dois meses e, às vezes, de três em três, imposição do SNI. Trabalhava duro e corretamente.

 

De repente, em novembro de 1970, fui preso violentamente pelo Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI/CODI). Antes de me procurarem na Distribuidora, foram à minha casa, prenderam meu filho Pedro Luiz, de 17 anos, para indicar onde eu estava trabalhando. Meu Deus do céu, que SNI e DOI-CODI são esses que ignoravam meu endereço comercial. O próprio SNI sabia que eu era titular da Distribuidora Jambock, pois foi o General Médici que ordenou o registro de minha carta patente. O que os autores dessa violência desejavam mesmo é ver meu fim. Fui preso por oito indivíduos, chefiados por um 2º. Sargento do Exército. Durante a prisão, fui encapuzado e levado para o Rec-Mec de Campinho, onde me puseram num espaço que mal cabia um catre, cujas molas estavam fora de lugar e o colchão era uma esteira de fibra de tronco de bananeira, daquele jeito era impossível alguém deitar na cama.

 

Aquilo me deixou muito triste e o General Sizeno Sarmento passou três dias para me achar, três dias para me localizar. Não quero entrar nos nomes que me fizeram isso porque essa pessoa que me prendeu, eu tenho até pena.

 

(...) Sei que ele foi forçado pelo Burnier, porque o Burnier, soube depois, quis me prender pela FAB. (...) O Burnier tinha essa coisa comigo, uma fixação em me fazer mal, na minha opinião. Deus que o perdoe, ele já se foi.

 

Terminei os meus negócios da seguinte maneira: dezessete anos depois, veio a anistia e eu criei uma firma paralela, era a Jacel Jambock Turismo. E nós entramos, eu e o meu companheiro sócio, no setor de turismo. Ele praticamente me obrigou. Eu não queria fazer turismo, embora soubesse fazer, mas é uma coisa para gente moço e é difícil você ser um bom agente de turismo. (...) Entra também dólar; você precisa ter um caixa dois, para poder satisfazer aquele sujeito que quer o dólar naquela hora e isso é proibido. Então, eram uma coisa que não estava dentro do meu caderno. Mas o colega insistiu.

 

Contratamos um rapaz que hoje tem um clube de nudismo. Esse canalha tem um clube de nudismo lá em Búzios, não sei o que ele está explorando. Esse sujeito nos roubou e eu, de repente, estava com títulos apontados, devendo a todos os hotéis do Rio de Janeiro. Fui, visitei os hotéis, levando os contratos da Jacel Jambock Distribuidora, os contratos que eu tinha com reflorestadoras, com as outras empresas do Nordeste e disse: ‘Tenho esses contratos, tenho o compromisso da Esso, tenho o compromisso da Shell, tenho o compromisso da Xerox, tenho muitos compromissos.’

 

Esse pessoal está aplicando em mim; isso vai dar para pagar todas as contas no fim do ano para vocês; até outubro, estou com isso pago. Se vocês vierem tomar, tomem o meu apartamento, um terreno que tenho lá em Brasília, um outro que tenho ali na Rua Soares Cabral, e acabou. Todos toparam me dar o prazo e eu, antes de outubro, paguei a todos. Aí disse: ‘Quer saber de uma coisa, chega de ser galego, chega de estar vendendo, encerrei minhas contas e fiquei por aí.’

 

Qual foi a razão pela qual o senhor foi preso novamente em 1970? [entrevistador]

 

Nenhuma razão foi dada. Eles mandaram, tenho uma carta que escrevi para o Octavio Costa, essa carta nunca saiu do cofre. Essa carta dizia assim: ‘Prezado Octavio Costa, quem está falando aqui não é um estranho para você, é o Rui Moreira Lima, seu companheiro de turma do segundo ano fundamental da Escola Militar do Realengo. Essa carta, realmente, não é para você, é para o General Médici, Presidente da República, porque o General Médici inclusive é um homem justo.’ Aí, contei para ele aquele fato que ele mandou registrar a minha firma, deixou que eu trabalhasse. Eu vou lhe dizer o que é que aconteceu comigo: ‘Eles me cercaram, eu tinha um apartamento em Teresópolis, um apartamento para passar fim de semana.’ E, num dia, foi no feriado de 2 de novembro, o dia dos mortos, eles me fecharam, me cercaram, fizeram uma patrulha lá na estrada Rio-Petrópolis para me prender.

 

Você já imaginou, eu vinha com a minha filha, a minha garotinha, e o meu garoto, minha mulher, Aí, vêm os caras para me prenderem. Se eu estivesse armado, eu estava morto, porque eu ia lutar como um cão, entendeu? Mas, então, era um negócio muito sério esse. E eu vim e ao chegar aqui no dia seguinte, quando voltei do meu passeio lá de Teresópolis, fui trabalhar. Estava lá no meu escritório quando esses caras foram lá na minha casa na Rua Raul Pompeia, 240, edifício Jambock, era meu, passei quarenta anos lá.

 

Aí o sujeito chegou e disse para Pedro Luiz, o meu garoto de 17 anos: ‘Cadê o teu pai?’ ‘Ah, o meu pai está trabalhando.’ ‘Você vai dizer onde ele está?’, como se eu estivesse escondido. Eu estava com treze salas, 24 telefones, com uma série de empregados, com tudo, dentro do mercado.

 

É isso aí, a ordem era para fazer violência. Os meus inimigos na Aeronáutica, de onde partiu essa ordem, devem ter dito: ‘Prende esse cara de qualquer jeito...’ Outros foram presos, que eram sujeitos com fama de comunistas, e todos ficaram nos quartéis por ménage; eles foram avisados da prisão por telefone. Então, o único sujeito preso, com essa violência, fui eu. Quando tinha na Aeronáutica aqueles homens de sempre, só eu fui preso, no episódio de 1964, eu que nunca fiz política. Mas aquilo me deixou nervoso.

 

(...)

 

A nossa Revolução, a nossa Revolução de 31 de Março, quanta coisa boa essa Revolução fez! Quanta coisa boa! Foi a Revolução mais nacionalista que eu vi, foi aqui que se criou tudo, todas essas grandes empresas de eletricidade, empresas de telecomunicações que não existiam, uma beleza que foi feita nesse período. As telecomunicações, as hidrelétricas, o crescimento da Petrobras, tudo isso foi dentro dessa Revolução.

 

Agora, não se pode evitar na Revolução o que aconteceu comigo. Fui encapuzado... Para fazer uma necessidade fisiológica, ficava um soldado armado do meu lado. Puxa vida, isso é uma indecência, é uma excrescência” (Major-Brigadeiro-do-Ar Rui Barbosa Moreira Lima, Tomo 12, pg. 79-86).

 

Obs.:

 

O Brigadeiro Moreira Lima é herói da 2ª. Guerra Mundial e publicou os livros “Senta a Pua”, pela Bibliex, em 1980, e “Rui Moreira Lima: O Diário de Guerra”, pela Editora Adler, em 2008, nos quais relata suas missões de combate aéreo na Itália.

Na recomendação aos seus pilotos de caça, de que não atirassem “contra o povo brasileiro”, o avião a que Moreira Lima se refere é o Gloster Meteor F-8. Na Argentina, o ataque contra a Casa Rosada, ordenado por Perón, matando civis na Praça de Mayo, foi feito com o Gloster - Mark 4, semelhante ao Gloster Meteor F-8.

O Brigadeiro foi cassado pelo Contragolpe Militar de 1964, preso, e depois anistiado. Faleceu no dia 13 de agosto de 2013, no Hospital da Aeronáutica, no Rio de Janeiro.

O que esse herói de guerra falou sobre a Revolução (transcrito acima) prova que se trata de um verdadeiro patriota, que reconheceu os acertos da Revolução, ainda que tenha sofrido perseguições mesquinhas.

Em 2016, Moreira Lima foi promovido, post mortem, a Major-Brigadeiro-do-Ar.

 

F. Maier

 

 

IDEOLOGIA

O Movimento de 31 de Março era baseado em alguma ideologia? [entrevistador]

Ah, vou lhe dizer que não, inicialmente não, principalmente por eu aceitar uma definição plenamente satisfatória, corrente nos meus anos esguianos de 1970 a 1978, que, textualmente, define: ‘Ideologia é o conjunto articulado de ideias, fins e propósitos que orientam os membros de um sistema político no sentido de interpretar o passado, explicar o presente e oferecer uma visão do futuro’.

Nossa Revolução não seguiu esse roteiro. Na práxis das coisas, sua ideologia consistiu basicamente, de início, no combate à ameaça comunista, à corrupção e à consequente inflação que impedia o desenvolvimento nacional. De saída, não vi nenhuma ideologia.

A posteriori, o General Carlos de Meira Mattos sugeriu os fundamentos para a criação de uma política. Quer dizer, uma eleição de objetivos e, para isso, definiu como conceitos importantes bem-estar, bem-comum, segurança, desenvolvimento e deles procurou ampliar suas sugestões até chegar a uma doutrina para ser seguida pela Revolução. O livro ‘A Revolução por Dentro’, da página 287 até 300, nos esboça seus esforços nesse sentido. Ele ofereceu e foi publicado em revistas e até em jornais. Uma doutrina tirada da interpretação e definição desses fundamentos de grande importância” (Coronel Hernani D’Aguiar, Tomo 9, pg. 186).

 

COMEÇA A REAÇÃO COMUNISTA NO BRASIL

Quando a fera aparece

“Vivi, no Oriente Médio, em 1967, a Guerra dos Seis Dias [nota de rodapé, pg. 311: ‘O entrevistado participou da Força de Paz na ONU na região do Canal de Suez, integrando um Batalhão do Exército Brasileiro, justamente quando ocorreu o conflito mais violento entre judeus e palestinos’]. Pouca gente teve a triste oportunidade de assistir a brutalidade em toda a sua plenitude. O que acontece durante uma guerra é absolutamente inacreditável em termos de violência. Surpreendi-me a ver, no Egito, o soldado israelense cometendo verdadeiras atrocidades contra populações civis. E eram militares de alto nível cultural, quase todos universitários.

Participando daquele conflito, aprendi algo que me acompanhará pelo resto da vida: a cultura da nossa civilização é uma pequena crosta que nos envolve. Ela se estruturou ao longo de séculos e séculos, até de milênios, com base na religião, na vida em grupo, nas leis e regulamentos que ordenam nossas atividades dentro da sociedade e contribuem para a existência dessa espécie de anteparo que segura a fera que temos aprisionada dentro de nós mesmos. Mas, basta romper esse verniz que nos cobre para que, de dentro de cada um, a fera se libere – mais violenta em uns do que em outros. Assim, acho que alguns daqueles que viveram o período de combate ao terrorismo e à luta armada devem ter sofrido uma exteriorização mais acentuada desse sentimento selvagem, desse quase instinto, que ainda guardamos dos primórdios das nossas vidas. Essa espécie de atavismo, esses exageros, infelizmente sempre existiram e continuarão existindo” (General-de-Brigada Flávio Oscar Maurer, Tomo 8, pg. 311).

 

O terrorista é ainda pior que o torturador

“O sequestrador, o terrorista, na verdade – o Professor Olavo de Carvalho mostrou isso muito bem – é pior que o torturador, porque ele atinge um grupo de pessoas desavisadas, pessoas que não tem nada a ver com o problema. O terrorismo é impiedoso, não escolhe o alvo. Já a tortura é localizada, é pessoal, é contra o terrorista. Enquanto o terrorista, o sequestrador, que também é torturador, é contra todos, porque atinge pessoas inocentes, que morrem ou ficam aleijadas sem a menor vinculação com os objetivos desses criminosos” (General-de-Brigada Nilton de Albuquerque Cerqueira, Tomo 9, pg. 134).

 

Cursos na China, na URSS, em Cuba

“Não há como concordar com os críticos da Revolução, quando alegam que a inexistência de canais para a manifestação dos opositores ao Regime provocou a luta armada. (...)

Acima de qualquer outra razão, o objetivo da luta armada, no campo e na cidade, era desestabilizar o Governo, anulá-lo. A orientação vinha de Cuba, da Rússia, da França, da Itália e do Chile. O apoio vinha da China, da Bélgica, da Itália e da Albânia. Isso, sem dúvida nenhuma, ficou comprovado, não só na fase inicial da Revolução, como mais tarde. Recebiam auxílio expressivo” (General-de-Brigada Hélio Ibiapina Lima, Tomo 2, pg. 191).

“Houve censura. Se ocorreu um movimento revolucionário armado é porque o status anterior não era bom, nem mesmo aceitável. A Revolução estabelece e impõe um novo Poder e ela mesmo se legaliza. Quem está contra terá que ser cerceado” (Tenente-Coronel Moacir Véras), Tomo II, pg. 364).

“O apoio mais significativo vinha de Cuba, onde vários terroristas, inclusive o atual Presidente da Petrobras, o tal Henri [Henri Philippe Reichstul], tiraram cursos de guerrilha. A China maoísta também contribuiu, instruindo alguns militantes da época” (Coronel Ronaldo Pecego de Moraes Coutinho, Tomo 11, pg. 190).

Obs.:

No livro “A Verdade Sufocada”, do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, às pg. 139 e 140, lê-se:

“A partir de 1964, os cursos em Cuba se intensificaram. As rotas de saída do Brasil para Cuba eram muitas. Uma delas se iniciava no Uruguai, passava pela Argentina e de lá, pela Air France, chegava-se a Paris. Lá, o ex-deputado pelo PTB – cassado – Max da Costa Santos esperava os viajantes. Os documentos iniciais eram substituídos. De Paris seguiam para a Tchecoslováquia e, finalmente, para Cuba.

Ao chegar em Havana, eram recebidos por um oficial do serviço secreto cubano, que fazia um levantamento dos antecedentes pessoais e da vida política dos futuros alunos. Depois de um período de adaptação, iam para Pinar del Río, onde os instrutores cubanos ensinavam:

- táticas de guerrilha rural e urbana;

- manuseio e fabricação de armas;

- manuseio de explosivos e fabricação de bombas;

- leitura de mapas;

- construção de abrigos individuais e coletivos;

- técnicas de sabotagem; e

- marchas e sobrevivência na selva.”

F. Maier

 

Os quintas-colunas da Igreja Católica

“A religião católica, assim como outros credos, não ficou imune à nefasta ação da poderosa arma de que se utilizava o Império Vermelho para liquidá-la. Lênin, por sinal, já enfatizava que, para acabar com a religião, era muito mais importante introduzir no seio da Igreja a luta de classes do que atacá-la de frente. Por isso que a infiltração, que começara há muitos anos – pois já em 1949, o Monsenhor Foulton Sheen, bispo auxiliar de Nova York, denunciava a existência, no Ocidente, de mil padres infiltrados, formados na Cortina de Ferro – tentava desagregar, criar focos antagônicos entre os fiéis, sobretudo nos meios eclesiásticos e religiosos; separar os bispos em blocos de ‘conservadores’ e de ‘progressistas’, a fim de vencer a Igreja por dentro.

Esqueceram os comunistas que Jesus, quando fundou a sua Igreja, disse que as ‘portas do inferno não prevaleceriam contra ela’. Marcel Clément, em editorial de 5 de abril de 1957, de L’Omme Nouveau, referindo-se ao movimento de infiltração surgido na Polônia, afirmou que os comunistas se esforçavam em dividir e debilitar a Igreja para nela introduzir a dialética.

Tudo explica a longa e paradoxal permanência, nas funções que ocupavam, dos senhores Casaldáliga, Adriano Hipólito, Hélder Câmara, Evaristo Arns e tantos outros. A revista espanhola Que Pasa, em determinada época, acusava o Brasil de possuir 53 bispos comunistas.

A Teologia passou a ser um dos principais alvos da infiltração e tal fato esclarece por que a salvação do homem sofreu tão forte distorção, passando do plano teológico para o plano político, sob a designação de ‘Teologia da Libertação’ ” (General-de-Brigada Niaze Almeida Gerude, Tomo 11, pg. 97-98).

 

ATENTADO TERRORISTA NO AEROPORTO DOS GUARARAPES

 

“Em 31 de março de 1966, tiveram início os atos terroristas, com a violenta explosão no prédio dos Correios, no Recife, próximo ao Parque 13 de Maio, onde havia uma aglomeração de estudantes, particularmente, para comemoração do segundo aniversário da Revolução – naquela época ainda se comemorava o aniversário da Revolução. Deu-se, ainda, uma segunda explosão na residência do Comandante do IV Exército (sem maior gravidade0 e foi encontrada uma bomba falhada na Câmara Municipal, onde ocorrera uma sessão solene – também se fazia sessão solene – comemorativa do aniversário da Revolução. Cinquenta dias depois, foram lançados coquetéis molotov contra a Assembléia Legislativa. No dia 25 de julho, uma série de três bombas voltou a sacudir Recife, uma das quais no aeroporto de Guararapes. Esta última provocou a morte de duas pessoas, um jornalista de um almirante reformado, e ferimento em outras 15 pessoas, três das quais gravemente, inclusive um guarda-civil que teve uma das pernas amputada. Apenas o acaso, representado pela pane do avião que transportaria o Marechal Costa e Silva – candidato a presidente – até o Recife, evitou uma tragédia de maiores proporções com aquele atentado. No aeroporto, informaram que o General não viria de avião, e sim de carro, deslocando-se direto para a sede da SUDENE (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste), que era seu destino final, em Recife. A aglomeração já estava se desfazendo e por isso o atentado não provocou uma tragédia de maiores proporções” (General-de-Divisão Agnaldo Del Nero Augusto, Tomo 5, pg. 113).

 

O General Sylvio Ferreira da Silva narra como sofreu mutilações no atentado terrorista do Aeroporto dos Guararapes

“Depois do 31 de Março, o senhor cumpriu missão em Suez e, no retorno, foi para o IV Exército. Qual a sua função, naquele Comando e por que motivo foi ao Aeroporto dos Guararapes aguardar o desembarque do General Costa e Silva? Agora, vamos tratar do atentado. [entrevistador]

No retorno ao IV Exército, fui designado adjunto da 3ª. Seção. Algum tempo decorrido, corria o ano de 1966, surgiu um problema na Secretaria de Segurança Pública de Pernambuco e o titular da mesma pediu demissão. Por indicação do Comandante do IV Exército, na época o General Portugal (Francisco Damasceno Ferreira Portugal), fui nomeado Secretário de Segurança de Pernambuco. Devo dizer que foram apenas 6 meses. Minha saída ocorreu em decorrência de questões administrativas relacionadas à moradia. Residia em próprio residencial do Exército e mudei-me para a casa do Comandante da Polícia Militar. A partir do momento em que tive de sair dessa última residência, fiz ver ao Governador que se não tivesse outro local de moradia, não teria condições de permanecer à frente da Secretaria.

Desse modo, retornei à função que exercia no IV Exército. Passam-se os dia e veio a confirmação da notícia de que o General Costa e Silva, candidato presidencial pela Aliança Renovadora Nacional (Arena) visitaria Recife. Fui escalado para fazer parte da segurança à paisana, durante o desembarque no aeroporto. Às 8h15min, hora prevista para a recepção ao General, o Aeroporto dos Guararapes estava lotado, mas o alto-falante anunciou que ele viria de automóvel de João Pessoa ao Recife.

O senhor lembra em que dia foi? [entrevistador]

25 de julho de 1966, dia de São Cristóvão, padroeiro dos motoristas.

Deslocando-se via terrestre, a missão do aeroporto acabou? [entrevistador]

Ante o aviso do alto-falante, as pessoas que lá estavam para recebê-lo tomaram seus destinos. O aeroporto ficou relativamente vazio. Mas eu, como tinha dois assuntos a tratar, um com o Secretário de Administração estadual e outro com o Chefe do Serviço Social Contra o Mocambo, pedi-lhes mais algum tempo, justamente para esta conversa. Ficamos os três no saguão do aeroporto, em pé, na seguinte situação: à minha frente o Doutor Haroldo Collares, Chefe do Serviço Social Contra o Mocambo e, à minha direita, o jornalista Edson Régis de Carvalho, Secretário de Administração.

Estávamos conversando sobre as questões por mim apresentadas, quando um guarda, conhecido pela alcunha de ‘Paraíba’ desde a época em que jogava futebol, aproximou-se. Pertencia à Polícia Militar de Pernambuco e trazia uma maleta na mão direita. Parou à minha esquerda e dirigindo-se ao Dr. Haroldo, que também era Inspetor de Polícia, comunicou-lhe que, avisado por alguém, tinha encontrado a maleta abandonada no chão do saguão do aeroporto. O Dr. Haroldo Collares o orientou que a entregasse no Departamento de Aviação Civil (DAC). Nesse exato momento em que ele apontou a direção da curva, local do DAC, com o braço direito, a maleta explodiu. A explosão jogou todos no chão.

As consequências foram terríveis. O guarda que portava a maleta fraturou a perna direita. Depois de dois meses no pronto-socorro, a perna não pôde ser salva e tiveram que amputá-la.

Ele chegou a colocar a maleta no chão? [entrevistador]

Não, a maleta explodiu na mão do guarda.

Os demais, também, sofreram ferimentos gravíssimos. O Doutor Haroldo Collares, que se encontrava à minha frente, recebeu uns duzentos cacos de vidro no corpo. A bomba dentro da maleta estava calçada com jornal e envolvida com cacos de garrafa de cerveja e outros de cor marrom. Já o jornalista Edson Régis, que se encontrava à minha direita, recebeu fortíssimo impacto de estilhaços de ferro na altura do abdômen, atingindo-lhe as vísceras. No hospital, não resistiu e veio a falecer por volta de uma hora mais tarde.

Quanto a mim, os ferimentos foram todos no lado esquerdo do corpo: na perna – o mesmo que o guarda recebeu na perna direita – nos dedos da mão e na nádega. Os piores foram a fratura exposta do fêmur e a perda dos dedos da mão esquerda.

O senhor se lembra como se deu o socorro? [entrevistador]

Graças a Deus, não perdi a consciência em nenhum momento. Inicialmente, tentaram colocar-me dentro de um Fusca, mas não deu. Fui transportado no Aero Willys do Secretário do Interior e Justiça. Quando o carro ia tomar o rumo do centro do Recife, na saída do aeroporto, exclamei: ‘Não! Não! Vamos para o Hospital da Aeronáutica, que é mais perto.’ Seguindo por Santa Luzia, chegamos ao Hospital da Aeronáutica. Minha felicidade foi que o dia 25 de julho de 1966 era uma segunda-feira. Os médicos do hospital ainda se encontravam naquela reunião matinal que ocorre todos os dias nas unidades militares. Cheguei na hora em que os médicos estavam prontos para iniciar suas atividades.

Todos os feridos foram levados para o Hospital da Aeronáutica? [entrevistador]

O Edson Régis e, também, outras pessoas feridas, porque não foram somente os 4 que estavam junto da bomba que sofreram as consequências da explosão. Quanto ao guarda e alguns feridos, foram conduzidos para o pronto-socorro do Recife.

do Além jornalista Edson Régis, mais alguém morreu nesse atentado cometido pela esquerda brasileira? [entrevistador]

O Almirante Nelson Gomes Fernandes, que se encontrava um pouco distante, fora do saguão, olhando para o pátio das aeronaves, recebeu na nuca, como se fosse um tiro, o bujão da bomba e caiu já morto.

Quanto tempo o senhor permaneceu no hospital? [entrevistador]

No Hospital da Aeronáutica do Recife, fiquei quase 8 meses.

(...)

A pessoa que fez o artefato adquiriu um cano de duas polegadas de diâmetro e um metro e vinte de comprimento. Seccionou-o em três pedaços de quarenta centímetros, fez roscas, colocou as luvas e os bujões. Apertou bem de um lado e deixou frouxa a tampa da outra extremidade, para que pudesse carregar. Carregou com uma substância corrosiva, de modo que pela própria corrosão dentro de um determinado espaço de tempo aquilo explodiria.

Nesta fotografia, o futuro Presidente Costa e Silva olha um estilhaço. Aliás, que estilhaço é esse que o senhor tem aqui, General? [entrevistador]

Esse estilhaço de ferro com ‘T’ do Tupi, é o pedaço da luva do cano. Observe que tem uma rosca do outro lado. Ele foi retirado, depois, da minha coxa. Já esse aqui, atravessou a região abdominal e, também mais tarde, foi extraído pelo lado direito, mais ou menos pelo lugar da hérnia inguinal.

(...)

General, o senhor poderia relatar o tratamento na sua mão, recebido no hospital dos Estados Unidos da América (EUA)? [entrevistador]

Não foi só da mão, mas da perna, também, devido à imobilidade a que foi submetida no longo período de tratamento. No caso da minha mão, sem o polegar, perdi a capacidade de pinça. Não conseguia segurar. Fui para os EUA para que eles substituíssem o polegar, e o dedo que melhor combina com o polegar é o anelar. Eles tiraram o pedaço do anelar que sobrou e o implantaram na minha mao, transformando-o em polegar. Para fazê-lo, demoraram 22 dias.

Uma particularidade, quando fui fazer fisioterapia na perna, depois do implante do polegar, os EUA estavam em pleno envolvimento com a Guerra do Vietnã. Corria o ano de 1967. Assisti à chegada de levas de militares mutilados e juntei-me a eles naquela fase de fisioterapia. Sou conhecedor de todo o tipo de fraturado que se possa admitir. No meu quarto, éramos três baixados. Quando consegui fazer algum movimento de flexão da perna e me senti em condições muito melhores do que as daqueles combatentes, resolvi parar.

O seu dedo polegar não pôde ser implantado? Naquela época, existia essa técnica? [entrevistador]

Hoje, seria microcirurgia. Naquela época, não se fazia isso. O polegar ficou pendurado, seguro apenas pela pele. Se fosse hoje, teria sido aproveitado.

Qual o nome do hospital americano que o atendeu? [entrevistador]

Hospital do Exército dos Estados Unidos, o Walter Reed Army Medical Center, em Washington” (General-de-Divisão Sylvio Ferreira da Silva,Tomo 15, pg. 119-123).

Obs.:

O Padre Alípio de Freitas é considerado o autor intelectual do atentado terrorista no Aeroporto dos Guararapes, em 1966, quando foram assassinados um almirante e um jornalista, e 15 pessoas ficaram gravemente feridas. Pela sua ação anticristã, foi indenizado em mais de R$ 1 milhão pela comissão dos desaparecidos e aparecidos, criada no  governo FHC – cfr. outros felizardos milionários em https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/04/anistiados-milionarios-no-brasil-o.html.

Sobre o assunto, leia também, de minha autoria, “Ação Popular – A ala terrorista da Igreja Católica” - http://wikiterrorismobrasil.blogspot.com/2012/09/acao-popular-ala-terrorista-oriunda-da.html.

F. Maier

 

A TRICONTINENTAL E A ORGANIZAÇÃO LATINO-AMERICANA DE SOLIDARIEDADE (OLAS)

“É preciso considerar também que, entre 3 e 15 de janeiro de 1966, realizou-se em Havana a primeira conferência de solidariedade dos povos da África, Ásia e América Latina, mais conhecida como Tricontinental. Nessa conferência, a tônica foi a defesa da luta armada, desde o discurso inicial do Presidente de Cuba até o discurso de encerramento de Fidel Castro. Ao término da Tricontinental e por proposta do Allende, que já tinha sido eleito Presidente do Chile, foi criada, pelos países latino-americanos que haviam participado, a Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS), cujo propósito era unir, coordenar e estimular a luta contra o imperialismo norte-americano. Essa sigla, como é sabido, em espanhol significa ondas. O que se pretendia com essa organização era inundar a América Latina com imensos vagalhões de luta armada” (General-de-Divisão Agnaldo Del Nero Augusto, Tomo 5, pg. 115).

 

Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS)

“Como atuou a guerrilha urbana, responsável por sequestros e outros atos terroristas abomináveis, obrigando o Exército à criação dos Departamentos de Operações de Informações, para derrotá-la definitivamente? [entrevistador]

Acho que tudo começou em 1967, quando foi idealizado, em Havana (Cuba), um congresso com a sigla OLAS (Organização Latino-Americana de Solidariedade). A partir daquele evento, ficou decidido que seria desencadeado, em toda a América Latina, um processo de luta armada. Vivíamos a fase da guerra do Vietnã, e o propósito disso, declarado em manifesto de Che Guevara, era ‘... Criar um, dois, três, mil vietnãs em toda a América Latina’. Houve, no entanto, uma cisão na esquerda, hoje sabemos disso. Alguns – mais inteligentes ou menos ousados – perceberam que a empreitada estaria fadada ao fracasso, enquanto outros não entenderam assim e acabaram por causar tanto sofrimento à nossa população e à de países vizinhos. Felizmente, os promotores da luta armada foram derrotados, mas à custa de muito sacrifício e muito sangue” (General-de-Divisão Ulisses Lisboa Perazzo Lannes, Tomo 15, pg. 138).

 

Congresso Latino-Americano de Estudantes (CLAE)

“Na Semana Santa, é tradicional haver procissão em que o Comandante da Guarnição, o General, segurava o ‘palium’ junto com as autoridades do Estado, a fim de homenagear o nosso Deus. Estava me preparando para ir para a procissão, quando D. Eugênio [Cardeal Dom Eugênio Salles] chegou e me disse:

- General, vou pedir uma coisa ao senhor; não vá segurar o ‘palium’.

- Por quê?

- Porque o Prefeito de Natal, que é comunista, quer segurá-lo e eu não quero.

- Pode ficar descansado.

O Prefeito de Natal era o senhor Djalma Maranhão, um homem que tinha qualidades, mas era comunista por convicção, e era um homem atuante no partido.

Outro episódio: nessa ocasião, os cubanos organizaram em Natal o 4º. Congresso Latino-Americano dos Estudante, 4º. CLAE.

O 4º. CLAE não logrou dominar o ambiente porque D. Eugênio conseguiu colocar gente sua dentro do Congresso; e assim anulou e enfrentou os comunistas e conquistou adeptos. Por isso, os estudantes comunistas prepararam um novo Congresso; eu estava no meu Quartel-General quando chegou um oficial meu e disse:

- General, os estudantes vão tirar o Congresso de Natal e levar para Mossoró; eles estão se armando e vão preparar um motim e uma baderna por lá.

Naturalmente, eu saí e fui procurar o Governador.

- Dr. Aluízio, está havendo isso, isso e isso...

- Eu vou tomar providência, vou fazer isso, isso...

- Já tenho gente lá – respondeu D. Eugênio.

O Congresso não se realizou. Até hoje, eles têm raiva porque não se realizou o Congresso de Mossoró. Atitude corajosa, a de D. Eugênio” (General-de-Exército Antonio Carlos da Silva Muricy, Tomo 14, pg. 30-31).

“Ainda estudante universitário, lembro da União Nacional dos Estudantes (UNE), verdadeiro instrumento de dominação comunista. Certa feita, eu e mais três ou quatro ‘gatos pingados’, colegas de faculdade, fomos à UNE para protestar contra o reatamento das relações diplomáticas com a Rússia. Seria realizada uma palestra do Chanceler Oswaldo Aranha. Ousei interpelá-lo, lembrando-lhe dos pródromos do rompimento, ao tempo do brioso e ínclito Marechal Dutra. Num aparte, disse-lhe: ‘Será que é preciso sacrificar a honra nacional, visto que ainda persistem os motivos que levaram o Governo do eminente Marchal Dutra a romper as relações com o nosso País. Ainda mais agora que estamos assistindo desenfreada expansão da ideologia comunista’. Só não fomos massacrados, dentro do prédio da UNE, na Praia do Flamengo, porque iria repercutir muito mal para o próprio Oswaldo Aranha. A equipe de segurança do ministro fez uma parede humana e nos protegeu da pancadaria que iria ‘chover’ sobre nós, por parte da esmagadora maioria dos comunistas, na UNE.

Em outro episódio, também, sofri a fúria dos comunistas por contrariá-los. Tive a honra de representar o corpo discente da Pontifícia Universidade Católica (PUC) num congresso de estudantes – III Congresso Latino-Americano de Estudantes (CLAE), em Caracas. O congresso estava inteiramente dominado pelos enviados de Fidel Castro e quando eu e mais quatro da Colômbia, as únicas vozes destoantes, protestamos, cassaram nossas credenciais e, também, fomos vítimas de agressão física. O jornal O Globo publicou em primeira página. Naquele momento, tive que me homiziar num convento de jesuítas para poder escapar da malta de estudantes comunistas que queriam nos massacrar, simplesmente porque éramos antimarxistas e manifestávamos a nossa opinião” (Doutor Emílio Antonio Mallet de Souza Aguiar Nina Ribeiro, Tomo 10, pg 246-247).

 

Obs.

O Congresso Latino-Americano de Estudantes (CLAE) era um suporte dos onagros soviéticos. O IV CLAE foi realizado de 29/6 a 11/7/1966, em Havana, Cuba. O representante brasileiro foi José Fidélis Augusto Sarno, militante da Ação Popular e então Presidente da UNE. No IV CLAE foi aprovada uma Resolução Geral em que proclamava que “a luta armada constitui, hoje, a mais efetiva e consequente forma de luta... a tomada do poder político, em diferentes países da América Latina, em proveito das classes populares, não poderá ser feita pela via eleitoral ou parlamentarista, mas pela violência revolucionária”. Desse encontro originou-se a OLAS, que tinha como objetivo criar vários Vietnãs na América Latina. Para instrumentalizar suas resoluções, o IV CLAE criou a Organização Continental Latino-Americana de Estudantes (OCLAE), com sede em Havana. O representante brasileiro da OCLAE foi José Jarbas Diniz Cerqueira, da Ação Popular.

OLAS - Organización Latinoamericana de Solidaridad: no dia 16/1/1966, um dia após o término da Tricontinental, em Havana, Cuba, as 27 delegações latino-americanas reuniram-se para a criação da OLAS, proposta por Salvador Allende. O terrorista brasileiro Carlos Marighella foi convidado oficial para a Conferência da OLAS em 1967, em Cuba. Ola, em espanhol, significa “onda”, seriam, pois, ondas, vagalhões de focos guerrilheiros espalhados por toda a América Latina, como disse o próprio Fidel Castro: “Faremos um Vietnã em cada país da América Latina”. Após a Conferência, começam a surgir movimentos guerrilheiros em vários países da América Latina, principalmente no Chile, Peru, Colômbia, Bolívia, Brasil, Argentina, Uruguai e Venezuela. A OLAS, substituída pela JCR, tem sua continuidade no Foro de São Paulo (FSP) e no Fórum Social Mundial (FSM).

Onagro - Termo utilizado por Jacques Vindex e Gabriel Veraldi a respeito das “caixas de ressonância” ocidentais na análise dos “agentes influenciadores soviéticos, de Lenine a Gorbachev”. Segundo os dicionários, onagro é: 1. Espécie de burro de grande porte; 2. Máquina de guerra que serve para destruir muralhas. “Os autores observaram, em 1988, que ‘a URSS tem necessidade de lavar a sua psico-estratégia tal como a Máfia de lavar o seu dinheiro sujo. O recuo tático dos noventa partidos comunistas atingiu, numa primeira linha, as organizações de fachada’. A sua análise não foi contestada e não será desinteressante reproduzir aqui a lista que eles forneciam três anos antes da queda do regime comunista, perguntando-nos de que se ocupam hoje estas organizações:

1.   Conselho Mundial da Paz (Helsinque);

2.   Federação Sindical Mundial (Praga);

3.   Organização de Solidariedade com os Povos Afro-Asiáticos (Cairo);

4.   Federação Mundial da Juventude Democrática (Budapeste);

5.   União Internacional dos Estudantes (Praga);

6.   Instituto Internacional da Paz (Estocolmo);

7.   Organização Internacional dos Jornalistas (Praga);

8.   Conferência Cristã para a Paz (Praga);

9.   Federação Internacional Democrática das Mulheres (Berlim Leste);

10.      Federação Internacional dos Advogados Democráticos (Bruxelas);

11.      Conferência Asiática e Budista para a Paz (Ulan Bator, URSS);

12.      Organização de Solidariedade com os Povos da África, Ásia e América - a famosa ‘Tricontinental’ (Havana);

13.      Federação Mundial dos Trabalhadores Científicos (Londres)” (VOLKOF, 2004: 144-5).

 

O comunista inglês Douglas Hyde, autor de “A realidade era outra”, foi fundador do onagro Amigos da União Soviética; posteriormente, ele e sua esposa se converteram ao catolicismo.

Exemplos recentes de onagros comunistas: Associações de Amizade a Cuba, Associação Cultural Jose Martí (ACJM), Foro de São Paulo, Fórum Social Mundial, Antifa.

F. Maier

 

 

GUERRILHA DO ARAGUAIA

Indícios da Guerrilha não são levados a sério

“No curto período em que estive à frente da 2ª. Seção do CMP aconteceram alguns fatos interessantes que merecem constar deste relato. Lembro-me de que, em 1969, apareceu um informe oriundo da Polícia Militar de Goiás sobre a presença de pessoas estranhas na região de Xambioá, no extremo norte do Estado. Por falta de recursos, o referido informe não foi processado. Uma investigação na área – como foi sugerida por nós – poderia ter abortado a instalação de guerrilha em Xambioá que depois, durante vários anos, incomodou o País” (General-de-Divisão João Carlos Rotta, Tomo 8, pg. 145).

“Em 1969, meses antes de assumir a chefia da Agência do SNI em Manaus, eu estava estagiando na Seção de Coordenação das Informações da Amazônia, da Agência do SNI de Brasília, chefiada pelo então Coronel Salgado (Luciano Salgado Campos). Quando recebemos esses informes a que o senhor se referiu, não tínhamos condições de apurá-los, então os remetemos para o Comando da 8ª. Região Militar verificar; foi o que fizemos.

O Comandante da Região era o General José Horácio da Cunha Garcia, oriundo de Cavalaria; ele não acreditou muito e mandou fazer apenas uma Ação Cívico-Social (ACISO) naquela área, que nada conseguiu confirmar. Se ele tivesse determinado a implementação dos devidos pedidos de busca, talvez pudéssemos ter impedido o progresso da guerrilha que estava se instalando e que tanto trabalho nos deu” (Coronel Roberto Monteiro de Oliveira, Tomo 13, pg. 221).

 

Che Guevara em Xambioá?

“O País chegou à oitava potência econômica do mundo. Alguns erros foram cometidos, é claro. Porém, o maior erro foi cometido pelo outro grupo de brasileiros, o da esquerda, que, no meio do caminho, contra o império americano, influenciado por falsas lideranças do Movimento Comunista Internacional, mudou seus objetivos e virou suas armas contra nós, em Xambioá, no sul do Pará, sob a liderança do mineiro de Passa Quatro, ex-tenente da reserva, Osvaldo Orlando Rodrigues da Costa, o Osvaldão, formado em guerrilha na China e na Tchecoslováquia.

Desenvolveu, naquela área, uma feroz guerrilha rural, que contou com a supervisão de Ernesto Che Guevara que lá esteve em 1966, antes de morrer, e com financiamento e apoio de Fidel Castro” (General-de-Brigada Durval Antunes Machado Pereira de Andrade Nery, Tomo 10, pg. 193).

 

Guerrilha do Araguaia – três fases

“Você acompanhou de perto as operações em Xambioá? [entrevistador]

Foram três fases. Não alcancei as duas primeiras. Já cheguei na parte final da operação. A primeira fase foi o caos total, pois quando ficou estabelecido que havia uma guerrilha no sudeste do Pará, todas as Grandes Unidades resolveram correr para lá.

Era uma área comum a várias Regiões Militares, o que fragilizou o apoio logístico necessário.

Havia a 8ª., a 9ª. a 10ª. e o CMP/11ª. RM, no mínimo. Além do mais, o Rio de Janeiro mandou fuzileiros e paraquedistas. Foi um caos. Três mil homens para acabar com noventa e não se entendiam.

Mas os noventa estavam espalhados no meio da selva; missão dificílima! [entrevistador]

Não existiam as características necessárias para uma operação clássica militar.

Há documentos inclusive que contestam o mito Araguaia, onde ocorreu o fracasso inicial porque se usou uma operação de guerra clássica.

Essa foi a primeira fase e só serviu para todos contraírem malária. Eu sei porque conhecia um dos Capitães que foi mandado para lá. Ele me disse o que lhe falaram: ‘você é infante, cearense, e muito bom paraquedista’ – e era bom mesmo, daqueles meio doido – ‘reúna a sua Companhia e vá embora’. Foi jogado na selva sem nenhum preparo. Menos de um mês depois, talvez duas semanas, e todos estavam de volta com malária.

Foram para lá, não prenderam ninguém e nem desbarataram nenhuma organização; só ficaram doentes. Já a segunda fase foi coordenada pelo CIE através de operações de informações muito bem-feitas durante quase um ano no Alto Goiás, próximo de Estreito. Montaram uma central em uma casa e depois fizeram as infiltrações devidas. ‘Plantaram’ um sargento com um bar no meio da selva, em um local apropriado, montaram um prostíbulo e uma série de outras coisas. Fizeram um levantamento completo. Aí sim, deu resultado e quando se iniciou a terceira fase – a da repressão – sabíamos onde estavam os guerrilheiros” (Coronel Amarcy de Castro e Araújo, Tomo 8, pg. 374).

“Então, em 1962, houve essa dissidência do PCB e o João Amazonas continuou no Partido e o Maurício Gragois afastou-se, fundando o PC do B, de linha chinesa, que era a luta armada. De 1966 para 1967, uma ala vermelha do PC do B organizou um grupo de guerrilha rural no Araguaia, em Xambioá, ao sul do Pará, neutralizada pelo Exército Brasileiro, em 1973 e 1974. Até disseram que as forças militares matavam todo mundo, mas o José Genoino está vivo para provar o contrário” (Tenente-Coronel Orestes Raphael Rocha Cavalcanti, Tomo 11, pg 291).

 

O Coronel Lício Maciel narra o “Caso Sônia”

Coronel Lício, como foi o caso ‘Sônia’? [entrevistador]

Ela fazia parte de um numeroso grupo (depois confirmado, com dezoito subversivos do grupa A, do Paulo).

Estávamos seguindo o grupo na mata e, em determinado momento, a Sônia voltou inesperadamente, recebendo voz de prisão, repetida três vezes, e mais as advertências ‘não faça isso’, à medida que ela tentava sacar o revólver do coldre.

Após a terceira advertência, como Sônia continuava, já tendo a arma na mão, foi alvejada na perna e caiu. Fui rapidamente até ele e, enquanto procurava o revólver, disse-lhe para ficar quieta que iríamos salvá-la.

Não achei o revólver no meio da espessa folhagem, já com razoável escuridão na mata fechada. Tivemos que ir em perseguição ao restante do grupo de subversivos, que fugiu, atravessando um córrego e atirando em nossa direção.

Como anoitecia – a mata já ficava bem escura – voltamos; atravessar o córrego seria expor-se muito ao inimigo.

Aproximando-me da Sônia, caída, ela abriu fogo, à queima-roupa, pois tinha encontrado o revólver. Incontinenti, nossa equipe reagiu, alvejando-a mortalmente. Caí desacordado e fui socorrido pelos meus companheiros.

Levei dois tiros, um no rosto e outro na mão; o Capitão Curió, que vinha atrás de mim, foi atingido no braço.

(...)

Fui levado para a vila de São José, de lá para Marabá e, em seguida, para Belém, onde permaneci algum tempo para me recuperar, principalmente, da perda de sangue.

Depois, fui evacuado para Brasília, operado no Hospital das Forças Armadas para retirada do projétil. Operação delicada, pois o projétil estava alojado no pescoço, próximo à coluna e eu poderia ficar paraplégico. Após um mês, fui submetido a uma pequena cirurgia corretiva na feia cicatriz do rosto.

Três meses depois do incidente fui mandado de volta à área, já recuperado, aparentemente. Até hoje tenho sequelas: perdi vários dentes, com a arcada abalada sem possibilidade de correção; fiquei completamente surdo do ouvido direito e uma sinusite crônica surgiu no rasto dos resíduos de chumbo deixado pelo projétil. (...) Com o Curió, o projétil atravessou o braço, sem maiores consequências. Diz Elio Gaspari que este foi o episódio mais notável da guerrilha, enaltecendo o fanatismo da Sônia, o que demostra o pouco apreço que tem pela exatidão do que escreve” (Tenente-Coronel Lício Augusto Ribeiro Maciel, Tomo 7, pg. 292-293).

 

O Coronel Aluísio Madruga participou da “Operação Sucuri”

“Como aconteceu a sua participação no combate à Guerrilha do Araguaia? [entrevistador]

Na época, era Capitão Comandante do PIC e respondia pelo Comando do DOI/3ª. Bda Inf Mtz. Então, tive a oportunidade de participar efetivamente no combate à Guerrilha do Araguaia, desde o seu início que podemos considerar como sendo a 12 de abril de 1972, e acompanhei o desenrolar da mesma até janeiro de 1974. E ainda participei de todo o planejamento e execução da Operação de Inteligência, conhecida como Operação Sucuri, iniciada a 14 de maio e finda a 8 de outubro de 1973.

Quais foram as missões e os momentos mais difíceis? [entrevistador]

Entendo que os momentos mais difíceis possivelmente não tenham ocorrido durante o combate à Guerrilha do Araguaia e sim durante as várias situações nas quais tivemos que reagir contra disparos de armas de fogo realizadas por elementos terroristas, ‘estouro de aparelhos’ e outros. Quanto à missão mais difícil, sem dúvida alguma, foi a realizada quando ocupei o cargo de Subcoordenador da Operação Sucuri” (Coronel Aluísio Madruga de Moura e Souza, Tomo 15, pg. 353).

 

Obs.

O coronel Lício Maciel publicou o livro “Guerrilha do Araguaia – Relato de um Combatente”, Schoba Editora, São Paulo, 2011.

Nesse livro, no Anexo X, há um texto parcial de minha autoria, “Meu tio Arno”, sobre meu tio materno Arno Preis, militante da ALN de Carlos Marighella e do Movimento de Libertação Popular (Molipo), ao qual também pertenceu José Dirceu. Cfr. o texto completo em https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/04/tio-arno-preis.html.

Veja a Sessão Solene na Câmara dos Deputados em memória dos militares que morreram na Guerrilha do Araguaia, com o Tenente-Coronel Licio Augusto Maciel falando sobre a prisão de José Genoino - https://www.youtube.com/watch?v=e_lSoH62y_I&feature=youtu.be

O Coronel Aluísio Madruga é autor de dois livros, “Guerrilha do Araguaia – Revanchismo – A Grande Verdade”, abc BSB Gráfica e Editora Ltda, Brasília, DF, 2002; e “Documentário: Desfazendo Mitos da Luta Armada”, abc BSB Gráfica e Editora Ltda, Brasília, DF, 2006.

Fiz um fichamento do livro “BACABA – Memórias de um Guerreiro de Selva da Guerrilha do Araguaia”, do Tenente José Vargas Jiménez, codinome “Chico Dólar” - https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/04/chico-dolar-narra-guerrilha-do-araguaia.html

Em 2018, o jornalista e escritor Hugo Studart lançou o livro “Borboletas e Lobisomens – Vidas, sonhos e mortes dos guerrilheiros do Araguaia”, pela Francisco Alves, Rio de Janeiro, que desagradou tanto o espectro esquerdista (PC do B, em particular), quanto o espectro direitista (especialmente o militar), o que faz do livro de 658 pg. uma obra histórica e, principalmente, honesta.

Cfr. entrevista de Hugo Studart em http://felixmaier1950.blogspot.com/2020/08/guerrilha-do-aragauaia-borboletas-e.html

F. Maier

 

Que bobagem!

“Combatemos e não sei por que se impôs uma censura que não permitia que nada fosse divulgado. Na minha opinião, faltaram os correspondentes de guerra, como se faz hoje no mundo inteiro, correspondentes confiáveis, presentes na área e que publicariam tudo que acontecia: quem morreu, quem matou. Assim, saberíamos quais foram os que combateram no Araguaia, quais foram os que morreram pela Pátria e quais foram os que morreram combatendo a Pátria” (General-de-Brigada Gentil Nogueira Paes, Tomo 12, pg. 142).

Obs.:

O sigilo das operações da Guerrilha do Araguaia foi essencial para evitar que países como Cuba, URSS e China, principalmente, se envolvessem diretamente nos combates, enviando tropas e armamento.

Foi evitado um Vietnã no Brasil, como queria Fidel Castro e sua OLAS.

Foi evitada a criação de uma “FARB” – a exemplo das FARC da Colômbia, que poderia ter matado centenas de milhares de brasileiros, e que ainda estariam matando hoje em dia.

F. Maier

 

Ação pós-Guerrilha do Araguaia: Criação de Destacamento em São Geraldo do Araguaia e expulsão de padres franceses

“Foram construídos o aquartelamento, hospital, escola e residências para alguns elementos que não poderiam morar em barracões. Um outro aspecto a destacar é que o projeto de urbanização manteve a quase totalidade da vegetação. Era um babaçual muito bonito.

A localidade onde foi instalado o Destacamento foi São Geraldo do Araguaia-PA, que é vizinha a Xambioá, do outro lado do Rio Araguaia.

(...)

Esse Destacamento veio a se chamar Destacamento Rodrigo Octávio em homenagem a um grande General que tanto defendeu a área amazônica. Outra coisa interessante é que a Companhia de Engenharia foi reforçada por um Pelotão de Equipamento, para fazer a manutenção do material, uma Seção de Assistência Social, com Setor de Saúde, Hospedagem e Armazém; um Setor de Administração, com Contabilidade, Pessoal, Compras, Aprovisionamento, além de uma Seção de Informações e uma Seção de Ligação com o Fundo Rural.

(...)

É importante destacar o valor da presença do poder do Estado. A nossa presença influiu muito, tranquilizou a área, melhorou a assistência social.

Na primeira fase da obra, estava prevista a implantação de uma primeira ligação da Fundação Brasil Central ao entroncamento com a Rodovia Transamazônica, a BR-230, com um ponto de passagem obrigatório em São Geraldo do Araguaia, numa extensão aproximada de duzentos quilômetros. Houve posteriormente outras etapas para os trabalhos.

Minha atuação ocorreu na instalação do Destacamento. Deram prosseguimento às obras os sucessivos comandantes do 2º. BEC, os coronéis engenheiros militares QEMA Antônio José Blanco e Arby Ilgo Rech.

Na primeira visita de reconhecimento àquela região, contatei um dos dois padres franceses que atuavam na área (já não lembro qual) – os Padres Aristiles Camiou e Miguel Lemois.

O sucesso da atuação do Destacamento acabou, tudo indica, provocando nova onda de conflitos, levando ao episódio da expulsão dos padres do País (de grande repercussão na imprensa) durante a Presidência Interina do Vice-Presidente Aureliano Chaves, enquanto o Presidente Figueiredo estava sendo operado em Cleveland, nos EUA.

Infelizmente, o Destacamento teve vida curta e as instalações foram transferidas para a Polícia Militar do Pará” (General-de-Divisão Sergio Ruschel Bergamaschi, Tomo 11, pg 64-65).

 

Os bispos vermelhos do Pará e o massacre dos Davis feito por João Baiano, do PC do B

“Tudo começou quando o Presidente Médici decidiu implantar a Transamazônica. A propaganda alardeava que era um projeto com o objetivo de assentar ‘homens sem terra nas terras sem homens’.

A abertura daquela rodovia trouxe levas de retirantes do Nordeste, de Minas e do Espírito Santo. (...) Então, começaram a haver conflitos fundiários – este é o nome correto – na área. Ainda não existia o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e ‘reforma agrária’ era uma expressão pouco usada.

(...) E, para adensar os conflitos fundiários na região, sofríamos a influência de Dom Alano Penna na prelazia de Marabá, de Dom Estevão Cardoso em Conceição do Araguaia e, lá embaixo, em São Félix do Araguaia, de Dom Pedro Casaldáliga. Era uma linha reta de três bispos extremamente radicais, a favor dos posseiros na questão agrária. A estação de rádio de Conceição do Araguaia colocava no ar, entre outras, as seguintes expressões:

- Os tubarões têm direito a vinte, trinta mil hectares! E você não tem direito a nada. Se você estiver em uma área que tomou posse há mais de um ano, não saia dela, a não ser mediante mandado de reintegração de posse exarado pelo juiz da Comarca.

Acontece que o juiz era do lado deles. Então o dono da terra, que tinha o título de propriedade, estava com um pedido de reintegração de posse e a justiça não despachava. E aquilo foi se arrastando, se avolumando e a tensão cada vez era maior.

Bem no meio do Pará, havia uma importante estrada de terra batida – PA-70, depois mudou para PA-150 – que interligava Marabá, Vila Rondon e o chamado ‘ponto zero’, o entroncamento da Belém-Brasília com essa PA. Ela cortava terras – vi o título de propriedade – que o Estado do Pará havia vendido para um americano chamado – se não me engano – John Davis. Ele fora piloto voluntário da RAF (Força Aérea Britânica) na Segunda Grande Guerra, um militar orgulhoso de ter pertencido à Força Aérea de Sua Majestade. Um homem muito decente, chefe de uma família cristã-presbiteriana: marido, mulher, quatro filhos, cunhado etc.; foram para lá e compraram quatrocentos mil hectares de terras do Estado do Pará.

O Sr. Davis foi lá no QG várias vezes e mostrou os títulos registrados em Cartório de Imóveis: a escritura de compra e venda feita pelo ITERRA (Instituto de Terras do Pará) e o registro no Cartório de Registro de Imóveis. Absolutamente regular.

O Governador Alacid Nunces (Alacid da Silva Nunes) – Coronel da Reserva), em conversa comigo sobre isso, garantiu:

- O americano comprou! Nós vendemos! O Instituto de Terras do Pará pode confirmar isso.

E aí começaram as invasões a cavaleiro da PA-70 ou 150. Vila Rondon era um vilarejo situado no meio das terras dos Davis. Não eram invasões de cinquenta ou cem hectares; era quatrocentos, até mil hectares. Em uma área mais ao Norte, um invasor, que nunca conseguimos chegar até ele, ocupou três mil e quinhentos hectares. Quando mandamos um emissário dizer que queríamos conversar, ele simplesmente respondeu:

- Não vou; se quiserem, venham me buscar!

Era invasões pelas quais você não podeia ter nenhuma simpatia. Uma das consequências, foi a emboscada que armaram para a família do americano, quando mataram dois dos rapazes e deixaram o velho agonizante. Qual foi o objetivo daquele horror, que aconteceu no dia 3 de julho?

No dia seguinte, 4 de julho, aniversário da independência dos Estados Unidos, a imprensa internacional publicaria a manchete. E foi como saiu no New York Times, no Financial Times, no Washington Post: ‘Massacre da família Davis no Pará’.

Quando soubemos, o general acionou o Destacamento de Operações de Informações (DOI). Fomos ao local, prendemos todos e os levamos para Marabá. Descobrimos que tudo tinha sido coordenado por um tal de João Baiano, oriundo do Espírito Santo. Pedimos inclusive os antecedentes dele à polícia capixaba que nos informou ser ele um conhecido militante do Partido Comunista do Brasil (PC do B).

Então, havia uma dupla motivação. Os homens da base queriam ficar com as terras que tinham invadido. E aceitavam a liderança de alguém que sabia o que estava fazendo. E o fazia por uma motivação ideológica. O plano foi o seguinte: na véspera, o João Baiano reuniu o pessoal e estabeleceu itinerários diferentes, de maneira que eles chegassem mais ou menos à mesma hora no local onde deveriam destruir as cercas da gleba. Uma verdadeira operação de guerra. Mandou uma equipe dizer para o Davis:

- Vá lá, porque vão derrubar todas as tuas cercas.

E ele foi com todos os filhos. A filha escapou da chacina porque, ao chegarem na região onde os invasores tinham preparado a emboscada, ele pediu para a mocinha ir à Vila Rondon e trazer de lá uns soldados, para impedir que derrubassem as cercas.

Os invasores estavam todos tocaiados, foi tiro para lá e tiro para cá. Depois que dois dos rapazes estavam agonizantes, um dos emboscados encostou uma espingarda e explodiu a cara de um deles; o outro, também com uma espingarda de chumbo, estufou o peito do segundo filho. O pai, já todo baleado, recebeu ainda um tiro de trinta e oito que se alojou na coluna vertebral e foi a causa da sua morte. Ele foi levado em um avião da FAB para Belém. Já no hospital, onde ainda viveu alguns dias, cheguei a conversar com ele. Fiquei muito penalizado com aquele terrível massacre” (Coronel Roberto Monteiro de Oliveira, Tomo 13, pg. 210-212).


CONTINUAÇÃO:

Parte I

http://felixmaier1950.blogspot.com/2020/09/historia-oral-do-exercito-31-de-marco.html

 

PARTE II

http://felixmaier1950.blogspot.com/2020/09/historia-oral-do-exercito-31-de-marco_3.html  

 

PARTE III

http://felixmaier1950.blogspot.com/2020/09/historia-oral-do-exercito-31-de-marco_72.html

 

PARTE IV

http://felixmaier1950.blogspot.com/2020/09/historia-oral-do-exerctio-31-de-marco.html


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HISTÓRIA ORAL DO EXÉRCITO - 31 DE MARÇO DE 1964

Em 15 Tomos

Biblioteca do Exército Editora, Rio de Janeiro, 2003

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https://bdex.eb.mil.br/jspui/bitstream/123456789/7345/1/31_Marco_1964-Tomo-9.pdf

 

Tomo 10

https://bdex.eb.mil.br/jspui/bitstream/123456789/7346/1/31_Marco_1964-Tomo-10.pdf

 

Tomo 11

https://bdex.eb.mil.br/jspui/bitstream/123456789/7347/1/31_Marco_1964-Tomo-11.pdf

 

Tomo 12

https://bdex.eb.mil.br/jspui/bitstream/123456789/7348/1/31_Marco_1964-Tomo-12.pdf

 

Tomo 13

https://bdex.eb.mil.br/jspui/bitstream/123456789/7349/1/31_Marco_1964-Tomo-13.pdf

 

Tomo 14

https://bdex.eb.mil.br/jspui/bitstream/123456789/7350/1/31_Marco_1964-Tomo-14.pdf

 

Tomo 15

https://bdex.eb.mil.br/jspui/bitstream/123456789/7351/1/31_Marco_1964-Tomo-15.pdf

 

BIBLIOGRAFIA:

 

MOTTA, Aricildes de Moraes (Coordenador Geral). História Oral do Exército - 1964 - 31 de Março - O Movimento Revolucionário e sua História. Tomos 1 a 15. Bibliex, Rio, 2003.


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