MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

sábado, 28 de março de 2026

31 de Março de 1964: Acredite no seu avô de 80 anos, não no professor marxista de História - Por Félix Maier

 

 31 de março de 1964:

acredite no seu avô de 80 anos,

não no professor marxista de história

 Félix Maier

Março de 1964 não chegou de repente; ele foi se formando lentamente, como um temporal que se anuncia muito antes do primeiro trovão. O Brasil daqueles anos vivia sob uma atmosfera carregada, em que o cotidiano já não era apenas rotina, mas tensão acumulada. Desde a crise institucional iniciada com a renúncia de Jânio Quadros, em 25 de agosto de 1961, o qual havia condecorado Che Guevara com a Ordem do Cruzeiro do Sul seis dias antes, o país entrara numa fase de instabilidade política que parecia não encontrar ponto de equilíbrio.

A solução improvisada do parlamentarismo, criada para viabilizar a posse de João Goulart, durou pouco e revelou, desde o início, a fragilidade das instituições diante de um cenário radicalizado. Quando o presidencialismo foi restaurado pelo plebiscito de 1963, devolvendo plenos poderes a Jango, o que se viu não foi a pacificação, mas o agravamento de tensões que já vinham fermentando, com o avanço do movimento comunista dentro do governo.

No pano de fundo, o mundo vivia o auge da Guerra Fria. O mapa geopolítico parecia, aos olhos de muitos contemporâneos, tingir-se progressivamente de vermelho, à medida que regimes alinhados ao bloco soviético e à China se consolidavam ou surgiam em diferentes regiões.

A Revolução Cubana, vitoriosa em 1959, exercia impacto direto sobre a América Latina, não apenas como símbolo, mas como agente ativo de influência política e ideológica. Documentos, depoimentos e estudos posteriores indicam que havia, de fato, circulação de ideias, apoio logístico e tentativas de articulação de movimentos revolucionários em vários países do continente. Para setores expressivos da sociedade brasileira, esse contexto internacional não era abstrato: era uma ameaça concreta, percebida como risco de desestabilização interna e eventual ruptura institucional em moldes revolucionários.

Desde 1961, já havia agentes cubanos em território brasileiro, insuflando as massas no sertão nordestino, junto com as Ligas Camponesas de Francisco Julião. Canaviais eram incendiados. Usinas de açúcar eram depredadas. No Porto de Santos, navios ao largo continham bens perecíveis, que apodreciam devido a greves sucessivas; quem tentava furar a greve, tinha as pernas quebradas com barras de ferro. Greves pipocavam toda hora, deixando milhões de pessoas sem transporte no fim do dia, especialmente no Rio de Janeiro. A inflação disparava, havia desabastecimento e o Exército distribuía alimentos nos bairros pobres do Rio de Janeiro.

A pesquisadora Denise Rollemberg, da UFRJ, autora do livro O apoio de Cuba à luta armada no Brasil: o treinamento guerrilheiro afirma que "o primeiro auxílio de Fidel foi no Governo João Goulart, por intermédio do apoio às Ligas Camponesas, lendário movimento rural chefiado por Francisco Julião. (...) O apoio cubano concretizou-se no fornecimento de armas e dinheiro, além da compra de fazendas em Goiás, Acre, Bahia e Pernambuco, para funcionar como campos de treinamento”. Em sua língua de pau, Rollemberg se refere a incêndios a canaviais e depredação de usinas, verdadeiros atos terroristas, como um lendário movimento rural.

Uma pequena amostra daquele movimento pré-revolucionário comunista pode ser conhecida lendo os verbetes FMP, Folhetos cubanos, Foquismo, G-11, Ligas Camponesas, MEB, MEP, Revolução Cubana e ULTAB (veja link abaixo, Movimento pré-revolucionário comunista, que antecedeu o ano de 1964).

Dentro do Brasil, as tensões sociais e econômicas contribuíam para esse ambiente de inquietação. A inflação corroía o poder de compra, as greves se multiplicavam e os conflitos no campo ganhavam visibilidade crescente. As chamadas Reformas de Base, defendidas pelo governo de João Goulart, mobilizavam paixões opostas. Para seus apoiadores, tratava-se de corrigir desigualdades históricas e modernizar o país; para seus críticos, havia o temor de que tais medidas abrissem caminho para uma reorganização radical da ordem social e econômica, com possíveis desdobramentos autoritários com viés socialista.

A figura de Leonel Brizola, cunhado de Jango e liderança influente, também contribuía para a percepção de radicalização, sobretudo entre aqueles que viam em seus discursos e propostas um tom mais combativo e menos conciliador. Durante a Campanha da Legalidade, assim vociferava o último dos maragatos nas estações de rádio: "Atenção, sargentos do III Exército, atenção sargentos das unidades chefiadas por esses militares golpistas. Atenção, oficiais nacionalistas… O povo pede que os sargentos se levantem, tomem os quartéis e prendam os gorilas… tomem a iniciativa à unha mesmo, com o que tiverem na mão, tomem as armas desses gorilas, tomem conta dos quartéis e prendam os traidores. Os postes de luz em Porto Alegre não serão suficientes para pendurar os gorilas."

O país, assim, não apenas se dividia — ele se tensionava internamente, como se cada grupo social passasse a interpretar os acontecimentos por lentes cada vez mais opostas.

As ruas se tornaram palco dessa divisão. Em março de 1964, o comício da Central do Brasil reuniu milhares de pessoas que foram impedidas de tomar o trem da Central, além de ônibus disponíveis para o populacho chegar ao centro do Rio, com verba da Petrobras (o Petrolão é ainda mais antigo do que supúnhamos...). No entanto, a falsa multidão ajudou a narrativa dos comunistas, em apoio às Reformas de Base, pregadas por setores radicais alinhados ao governo. Em resposta, poucos dias depois, ocorreram as Marchas da Família com Deus pela Liberdade, que também levaram multidões às ruas, mas sem greve na Central do Brasil, e sem ônibus da Petrobras, especialmente no Rio e em São Paulo, expressando rejeição ao rumo político do país e clamando por ordem e estabilidade. Era um Brasil que se manifestava em massa — mas em direções contrárias.

Ao mesmo tempo, episódios envolvendo a quebra de disciplina em setores militares, como a Revolta dos Sargentos em Brasília e a Revolta dos Marinheiros no Rio de Janeiro, aprofundaram o desconforto dentro das Forças Armadas. Para muitos oficiais, a hierarquia — elemento central da instituição — estava sendo corroída, o que ampliava a percepção de que o país caminhava para uma situação de descontrole. Esse sentimento estava presente em segmentos significativos da oficialidade. Com a propaganda comunista sendo feita abertamente entre os Sargentos dentro dos quartéis, com a anuência dos generais do povo na cúpula do governo (como o general Osvino Ferreira Alves e o almirante Cândido Aragão – o tal esquema militar, golpista), o medo era tanto que o oficial-de-dia das Unidades das Forças Armadas ficava andando a noite toda no quartel, igual um zumbi, com medo de ser assassinado na cama, como ocorreu na Intentona Comunista, em 1935.

Nesse ambiente, marcado por medo, expectativa e desconfiança, consolidou-se a ideia, entre diversos grupos civis e militares, de que uma ruptura seria inevitável. Para uns, tratava-se de impedir um processo de radicalização política; para outros, era a própria ruptura que representava a ameaça à ordem democrática. O fato é que, no fim de março de 1964, o País já não se encontrava em equilíbrio, com a massa popular tomando as ruas das grandes cidades, pedindo socorro às Forças Armadas.

Quando as tropas começaram a se movimentar na noite de 31 de março, a partir de Minas Gerais, o desfecho foi rápido. A adesão de diferentes comandos militares ao movimento acelerou os acontecimentos, e João Goulart deixou o país poucos dias depois.

O esquema militar de Jango e seus generais do povo, de cooptação dos militares de baixas patentes, foi para o brejo, ainda que a sargentada tenha feito fila para o próprio presidente João Goulart assinar a compra de um Gordini ou de um apartamento via Caixa Econômica, um absurdo! Imagine Bolsonaro fazer isso, ao grito dos paraquedistas: Mito! Mito! Mito! 

O episódio, que alguns denominam revolução e outros classificam como golpe, marcaria profundamente a história brasileira, dando início a um período prolongado de governo militar, cujas consequências seriam sentidas por décadas. O correto é qualificar o episódio como contragolpe, pois havia um golpe comunista a caminho, para ser deflagrado em 1/5/1964 (cfr. manchete de O Globo, de 6/4/1964).

Com o passar do tempo, vieram também os relatos de militantes que participaram de movimentos armados de esquerda, alguns dos quais reconheceram, em depoimentos e memórias, a existência de projetos revolucionários inspirados em experiências internacionais, inclusive com referências à estratégia de guerra prolongada e à criação de focos insurgentes no continente. Militantes políticos (eufemismo para terroristas de esquerda), como Fernando Gabeira, foram dos poucos que afirmaram, com todas as letras, que os movimentos armados não tinham o objetivo de restabelecer a democracia no Brasil, mas implantar a ditadura do proletariado, ou seja, a ditadura comunista, nos moldes de Cuba do paredón e de mais de 100.000 mortos e 20% de sua população fugindo para o exterior, principalmente para a Flórida.

O que emerge desse período não é uma narrativa convergente, mas um mosaico complexo, formado por percepções, interesses, medos e projetos distintos. Havia, sem dúvida, uma disputa ideológica intensa, alimentada tanto por fatores internos quanto pelo contexto global da Guerra Fria. Havia também mobilização popular real, em diferentes sentidos, refletindo um país que participava ativamente de seu próprio destino, ainda que de forma conflituosa.

Décadas depois, o eco de 1964 continua presente. O ano de 1964 teima em não terminar. Não apenas nos livros de história, mas nas conversas familiares, nas memórias transmitidas entre gerações, nos relatos de quem viveu aquele tempo. O avô que testemunhou os acontecimentos guarda impressões diretas, moldadas pela experiência vivida. O professor marxista que hoje ensina História trabalha com narrativas, aprendidas na Prova do ENEM, na universidade, na mídia e na cultura, especialmente teatro e cinema, órgãos totalmente tomados pela esquerda a partir do final dos anos 1970.

Filmes como Olga, O que é isso companheiro? Lamarca, Marighella, Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto são provas desse maniqueísmo barato, do nós, os democratas, contra eles os fascistas, em que terroristas sanguinários são tratados como heróis, enquanto os militares que os combateram são tratados como assassinos e torturadores. Infelizmente, muitas vezes o neto passa a acreditar mais nesses patifes do que no avô que viveu aquela época e sabe muito bem o que de fato ocorreu.

A compreensão do passado exige mais do que adesão a uma versão única: exige escuta, comparação, análise. A História recente do Brasil — como toda história viva — permanece aberta à interpretação, não porque os fatos sejam inexistentes, mas porque seu significado é disputado como se fosse um Fla x Flu.

E talvez seja justamente nesse ponto que reside o maior desafio para as novas gerações: estudar a sério o que houve naquele período, buscar manchetes e textos dos jornais e revistas da época, não ser mera pombinha dócil comendo milho podre oferecido pela esquerda pérfida, assassina por natureza.

No fim das contas, talvez a melhor imagem para encerrar essa história esteja dentro de casa, na conversa entre gerações. O neto de hoje cresce cercado por interpretações acadêmicas, livros didáticos e debates ideológicos que tentam explicar o passado com as lentes do presente. Mas diante dele também está o avô de oitenta anos, homem comum, honesto, que viu aqueles dias com os próprios olhos, sentiu o clima nas ruas, ouviu os discursos no rádio, acompanhou as marchas, as inquietações e os temores de uma época em que o mundo era dividido em dois campos cada vez mais inconciliáveis.

A memória de quem viveu aquela época não substitui o estudo da História, mas também não pode ser descartada como se fosse irrelevante. Muitas vezes, é nesse testemunho direto — imperfeito, humano, porém sincero — que o jovem encontra uma dimensão do passado que nenhum manual consegue transmitir por completo. Talvez a sabedoria esteja justamente em ouvir com atenção quem viveu aqueles dias e, ao mesmo tempo, confrontar essa memória com os documentos e registros do período, para que a compreensão do Brasil não seja feita apenas de versões prontas, narrativas enganosas, mas de diálogo entre experiência e reflexão.


***


        Há cerca de 30 anos, eu venho estudando o Movimento Cívico-Militar de 31 de Março de 1964. Tive um tio, Arno Preis, que participou do grupo terrorista Ação Libertadora Nacional (ALN) de Carlos Marighella, depois de se formar em Direito na USP, e teve um fim trágico, em 1972. Li muitos livros sobre o assunto, tanto dos que defendem o Movimento, como daqueles que o desprezam. O longo governo dos militares, de 21 anos — tão longo quanto o PT de hoje — teve altos e baixos, como ocorre com todo governo, por mais sério que ele seja. Porém, trouxe o Brasil à modernidade, da 46ª. para a 8ª. economia do planeta, com obras de infraestrutura que perduram até hoje.

        Assim, deixo meus trabalhos sobre o assunto principalmente para os netos de hoje, de modo que não caiam fácil no canto da sereia progressista, que um dia foi comunista, depois socialista, mas continua com o mesmo DNA totalitário comunista de sempre, que deixou mais de 100.000.000 de mortos pelo caminho durante o século XX.

        Boa leitura!

 

LEITURA RECOMENDADA:

 

1. Movimento pré-revolucionário comunista, que antecedeu o ano de 1964

Por Félix Maier

https://felixmaier1950.blogspot.com/2026/03/movimento-pre-revolucionario-comunista.html

 

2. ANTECEDENTES DO MOVIMENTO CÍVICO-MILITAR DE 31 DE MARÇO DE 1964 (HISTÓRIA ORAL DO EXÉRCITO – BIBLIEX, RIO DE JANEIRO – 2003)

Fichamento de Félix Maier

https://felixmaier1950.blogspot.com/2021/03/antecedentes-do-movimento-civico.html

 

3. 31 DE MARÇO DE 1964: CRONOLOGIA E TEXTOS HISTÓRICOS

Organizado por Félix Maier 

https://drive.google.com/file/d/1o4JLrW9wc0dgUD50kuA6iQP3QEd3U1O3/view 

 

4. Operação “Mata Lacerda”

História Oral do Exército – 31 Março 1964 (fichamento de Félix Maier)

https://felixmaier1950.blogspot.com/2021/04/operacao-mata-lacerda-por-historia-oral.html

 

5. Revolta dos Sargentos em Brasília

História Oral do Exército – 31 Março 1964 (fichamento de Félix Maier)

https://felixmaier1950.blogspot.com/2021/03/revolta-dos-sargentos-em-brasilia.html

 

6. As manchetes do contragolpe de 1964

Jornais e revistas

https://felixmaier1950.blogspot.com/2021/03/as-manchetes-do-contragolpe-de-1964.html

 

7. HISTÓRIA ORAL DO EXÉRCITO - 31 MARÇO 1964

Fichamento (dos 15 Tomos publicados pela Biblioteca do Exército) feito por Félix Maier

https://drive.google.com/file/d/1fsbc3zFomx0w1xoEDT8MTWew3MT03ggo/view 

 

8. MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

Seleção de textos feita por Félix Maier

https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/09/memorial-31-de-marco-de-1964-textos.html

 

9. ARNO PREIS E OS IDOS DE MARÇO DE 1964

Por Félix Maier

https://drive.google.com/file/d/1qlly7cvMHL0ia6NjXBD9Oqq22Z81Xlm9/view

 

10. AÇÕES ARMADAS COMUNISTAS NA AMÉRICA LATINA - Da Intentona Comunista às ações de Cuba

Organizado por Félix Maier

https://drive.google.com/file/d/1NM-YQGMFYok4sA6fbzkXi-3PqQeRTX1r/view

 

11. MEMORIAL DAS VÍTIMAS DO COMUNISMO

Organizado por Félix Maier

https://drive.google.com/file/d/1h3QBf3-wZQhdqWRGjdR3a5hjJyk6GJjd/view

 

12. A LÍNGUA DE PAU - Uma história da intolerância e da desinformação

Por Félix Maier

https://drive.google.com/file/d/1wDHV0YJFOZSoBwlJSSrHdl68CfJokMmf/view

 

Obs.: 

A novela histórica em forma de e-book MEMORIAL DE LUZERNA, A PÉROLA DO RIO DO PEIXE - Uma saga teuto-brasileira, de minha autoria, é ambientada, em parte, no pré e pós 1964, com uma abordagem leve e algum sarcasmo sobre aquela época conturbada. 

Baixe o livro em https://felixmaier1950.blogspot.com/2025/10/memorial-de-luzerna-perola-do-rio-do.html.

Acompanhe meus escritos no Blog PIRACEMA - Nadando contra a corrente -https://felixmaier1950.blogspot.com/.


LEIA TAMBÉM:

 

1. 57º. ANIVERSÁRIO DO MOVIMENTO CÍVICO-MILITAR DE 31 DE MARÇO DE 1964 - EDIÇÃO HISTÓRICA

Jornal Inconfidência nº. 288, de 31 de março de 2021

https://drive.google.com/file/d/15IYSa-qEsSufEjgSpNX9RuODzUOghOLh/view


2. Telegramas revelam ações subversivas cubanas no Brasil 

Arquivos secretos divulgados por Trump mostram que Fidel Castro enviou dinheiro e armas para deflagrar outras revoluções na América Latina

Por Duda Teixeira

https://crusoe.com.br/diario/telegramas-revelam-acoes-subversivas-cubanas-no-brasil/


Manchetes de O Globo, de 2/4/1964
Ressurge a democracia! e
A VIOLÊNCIA CONTRA "O GLOBO"

Em 1/4/1964, não houve edição de O Globo.
Fuzileiros navais, sob o comando do general do povo
Almirante Cândido Aragão,
impediram a impressão do Jornal.


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