diagnóstico
de uma cidade enferma
Félix Maier
Brasília, vista de cima, parece ser perfeita: asas abertas, eixos monumentais, palácios, tesourinhas, esplanada dos ministérios, superquadras habitacionais numeradas como páginas de um livro bem diagramado — há até cópia de totem (placa) do Plano Piloto no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA NY). Vista de perto, porém, a história começa a ranger.
Há
quem diga que a má fama da capital não lhe pertence. Que é um empréstimo
involuntário, um tipo de bagagem extraviada deixada por deputados e senadores
que chegam com discursos e saem com escândalos. Brasília, coitada, seria apenas
o palco, nunca o ator. Mas como toda cidade, ela também tem seus bastidores. E,
neles, o figurino nem sempre é tão elegante quanto o do plenário.
Foi
nesse cenário que surgiu a Belascar, não como um empreendimento qualquer, mas
como uma espécie de confissão coletiva. Quando uma cidade precisa criar um
serviço de transporte exclusivo para mulheres, não está apenas inovando: está
admitindo. Admitindo que, em algum ponto do percurso, Brasília falhou. Que
entre o embarque e o destino, algo se perdeu: o respeito básico, aquele que
deveria vir de fábrica em qualquer cidadão minimamente civilizado.
Lorrany
Andrade, ao decidir criar esse tipo de serviço, não estava apenas empreendendo.
Estava reagindo. Reagindo a olhares que atravessam como mãos invisíveis, a
comentários que não pedem licença, a silêncios constrangidos que se acumulam
como poeira nos cantos dos ônibus. A Belascar, com suas 400 motoristas e mais
de 10 mil passageiras, não é apenas uma rede de transporte. É um sintoma.
E
sintomas, por mais que incomodem, têm a virtude de revelar doenças.
O
que dizer de uma cidade que precisa reservar um vagão de metrô exclusivamente
para mulheres? Um vagão rosa, identificado, delimitado, quase como uma zona de
proteção em meio a um território hostil. Funciona nos horários de pico,
justamente quando a cidade mais se parece com ela mesma: apressada, lotada,
impaciente.
Ali,
naquele primeiro carro, mulheres entram com um misto de alívio e resignação.
Alívio por estarem, enfim, em um espaço onde o corpo não precisa estar em
alerta constante. Resignação por saberem que esse espaço precisa existir.
Porque fora dele, a regra é outra.
O
homem brasiliense — ou melhor, uma parcela dele — parece não ter entendido que
o século mudou. Que o corpo feminino não é paisagem pública, nem convite, nem
distração para tarados sexuais. Há algo de profundamente primitivo nesse
comportamento, como se, por baixo do terno, ainda habitasse um sujeito das
cavernas, mal adaptado ao concreto armado. Esses brutamontes são hienas e
chacais que veem o corpo feminino apenas como um naco de carne a ser devorado.
E
não se trata apenas de casos extremos, desses que viram manchete. A degradação
cotidiana é mais silenciosa, mais persistente. Está no roçar acidental
que se repete, no olhar que demora além do necessário, no comentário murmurado
que se pretende engraçado. Pequenas violências que, somadas, constroem um
ambiente onde a mulher aprende a calcular cada passo, e cada parada.
Dentro
dos ônibus, a cena se repete com uma frequência que já não surpreende. O
sujeito que se aproxima mais do que o espaço permite. O que se aproveita da
lotação como desculpa. O que testa limites como quem empurra uma porta para ver
se está trancada. E, do outro lado, a mulher que se encolhe, que muda de lugar,
que finge não perceber para evitar o confronto.
Há
uma covardia nisso tudo. Uma covardia latente, quase burocrática, que se
esconde na multidão. Porque é fácil ser valente quando ninguém está olhando.
Difícil é sustentar o respeito quando ele não rende aplausos.
Brasília,
com toda sua vocação para o planejamento, parece ter falhado em um ponto
essencial: o planejamento do convívio. Construiu avenidas largas, mas esqueceu
de alargar a consciência. Organizou setores, mas não organizou valores. Criou
espaços monumentais, mas negligenciou o mais básico dos monumentos: o respeito
ao outro.
E
então surgem soluções como a Belascar e o vagão exclusivo. Soluções
necessárias, sem dúvida. Mas que carregam, em sua existência, uma espécie de
derrota. São remendos em um tecido social que deveria ser inteiro. É o
diagnóstico de uma cidade enferma.
É
curioso como a cidade reage a isso. Há quem celebre a iniciativa, como se fosse
um avanço civilizatório. E, em certo sentido, é. Mas há também um desconforto
silencioso, uma sensação de que algo está fora do lugar. Porque o ideal não
seria separar, mas integrar. Não criar ilhas de segurança, mas um continente
inteiro onde ela fosse desnecessária.
O
problema é que o ideal, em Brasília, muitas vezes fica restrito ao papel. Assim
como o traçado da cidade, que no projeto parecia impecável, mas na prática
revelou suas limitações. A vida real, com suas urgências e imperfeições, não tinha
como caber na prancheta de Lúcio Costa.
E
talvez seja isso que mais envergonhe. Não o fato de existirem iniciativas como
a Belascar, mas o motivo pelo qual elas existem. A necessidade de criar espaços
protegidos em pleno século XXI, na capital de um país que se pretende moderno, que seria o produto
de um sonho de Dom Bosco, e que expõe uma contradição difícil de ignorar.
Brasília
gosta de culpar os outros por sua má fama. Os políticos, os forasteiros, os
escândalos que chegam de avião e ocupam gabinetes. Mas, aos poucos, a cidade
vai sendo obrigada a olhar também para si mesma. E o que vê não é apenas o
reflexo de decisões tomadas no Congresso, mas de comportamentos cultivados nos
bastidores do cotidiano.
A
patifaria, afinal, não é exclusividade de quem usa gravata. Ela também se
manifesta no sujeito que acha normal invadir o espaço alheio. No que ri de uma
situação constrangedora. No que se cala diante de um abuso evidente. Há uma
cumplicidade difusa, uma espécie de conivência que se espalha como um rumor.
E é
aí que a vergonha ganha contornos mais nítidos. Não é a vergonha pública,
escancarada, que aparece nas manchetes. É uma vergonha íntima, quase doméstica.
A vergonha de saber que a cidade precisa se proteger de seus próprios
habitantes. Que mulheres precisam reorganizar seus trajetos, escolher serviços
específicos, ocupar vagões separados, simplesmente para existir com um mínimo
de tranquilidade.
Há
algo de profundamente errado nisso. E não se resolve apenas com leis ou
iniciativas isoladas. Porque o problema não está apenas na estrutura, mas na
cultura. Na forma como certos homens foram ensinados — ou deixaram de ser
ensinados — a lidar com a mulher.
Respeito
não é uma política pública. É um hábito. E hábitos, como se sabe, não se criam
por decreto.
Talvez
um dia o vagão rosa deixe de existir. Não por falta de demanda, mas por falta
de necessidade. Talvez serviços como a Belascar se tornem apenas mais uma
opção, e não um refúgio. Mas, para isso, Brasília precisará passar por um tipo
de reforma que não se faz com concreto, nem com espelho d’água, nem com
orçamento.
Uma
reforma moral.
Até
lá, Brasília seguirá convivendo com essa contradição: a capital do país,
símbolo de modernidade e planejamento, ainda lutando contra impulsos imundos
que insistem em não passar.
E,
no meio desse cenário, o vagão rosa e o aplicativo da Belascar seguem seu
trajeto diário. Chegam, abrem as portas, acolhem. Um pequeno gesto de proteção
em uma cidade que, apesar de toda sua grandiosidade, ainda está aprendendo o
básico.
Respeitar.
Sem precisar de placas, cores ou avisos.


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