MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

quinta-feira, 19 de março de 2026

O vagão rosa e a Belascar: Diagnóstico de uma cidade enferma - Por Félix Maier


O vagão rosa e a Belascar:

diagnóstico de uma cidade enferma

Félix Maier

Brasília, vista de cima, parece ser perfeita: asas abertas, eixos monumentais, palácios, tesourinhas, esplanada dos ministérios, superquadras habitacionais numeradas como páginas de um livro bem diagramado  há até cópia de totem (placa) do Plano Piloto no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA NY). Vista de perto, porém, a história começa a ranger.

Há quem diga que a má fama da capital não lhe pertence. Que é um empréstimo involuntário, um tipo de bagagem extraviada deixada por deputados e senadores que chegam com discursos e saem com escândalos. Brasília, coitada, seria apenas o palco, nunca o ator. Mas como toda cidade, ela também tem seus bastidores. E, neles, o figurino nem sempre é tão elegante quanto o do plenário.

Foi nesse cenário que surgiu a Belascar, não como um empreendimento qualquer, mas como uma espécie de confissão coletiva. Quando uma cidade precisa criar um serviço de transporte exclusivo para mulheres, não está apenas inovando: está admitindo. Admitindo que, em algum ponto do percurso, Brasília falhou. Que entre o embarque e o destino, algo se perdeu: o respeito básico, aquele que deveria vir de fábrica em qualquer cidadão minimamente civilizado.

Lorrany Andrade, ao decidir criar esse tipo de serviço, não estava apenas empreendendo. Estava reagindo. Reagindo a olhares que atravessam como mãos invisíveis, a comentários que não pedem licença, a silêncios constrangidos que se acumulam como poeira nos cantos dos ônibus. A Belascar, com suas 400 motoristas e mais de 10 mil passageiras, não é apenas uma rede de transporte. É um sintoma.

E sintomas, por mais que incomodem, têm a virtude de revelar doenças.

O que dizer de uma cidade que precisa reservar um vagão de metrô exclusivamente para mulheres? Um vagão rosa, identificado, delimitado, quase como uma zona de proteção em meio a um território hostil. Funciona nos horários de pico, justamente quando a cidade mais se parece com ela mesma: apressada, lotada, impaciente.

Ali, naquele primeiro carro, mulheres entram com um misto de alívio e resignação. Alívio por estarem, enfim, em um espaço onde o corpo não precisa estar em alerta constante. Resignação por saberem que esse espaço precisa existir. Porque fora dele, a regra é outra.

O homem brasiliense — ou melhor, uma parcela dele — parece não ter entendido que o século mudou. Que o corpo feminino não é paisagem pública, nem convite, nem distração para tarados sexuais. Há algo de profundamente primitivo nesse comportamento, como se, por baixo do terno, ainda habitasse um sujeito das cavernas, mal adaptado ao concreto armado. Esses brutamontes são hienas e chacais que veem o corpo feminino apenas como um naco de carne a ser devorado.

E não se trata apenas de casos extremos, desses que viram manchete. A degradação cotidiana é mais silenciosa, mais persistente. Está no roçar acidental que se repete, no olhar que demora além do necessário, no comentário murmurado que se pretende engraçado. Pequenas violências que, somadas, constroem um ambiente onde a mulher aprende a calcular cada passo, e cada parada.

Dentro dos ônibus, a cena se repete com uma frequência que já não surpreende. O sujeito que se aproxima mais do que o espaço permite. O que se aproveita da lotação como desculpa. O que testa limites como quem empurra uma porta para ver se está trancada. E, do outro lado, a mulher que se encolhe, que muda de lugar, que finge não perceber para evitar o confronto.

Há uma covardia nisso tudo. Uma covardia latente, quase burocrática, que se esconde na multidão. Porque é fácil ser valente quando ninguém está olhando. Difícil é sustentar o respeito quando ele não rende aplausos.

Brasília, com toda sua vocação para o planejamento, parece ter falhado em um ponto essencial: o planejamento do convívio. Construiu avenidas largas, mas esqueceu de alargar a consciência. Organizou setores, mas não organizou valores. Criou espaços monumentais, mas negligenciou o mais básico dos monumentos: o respeito ao outro.

E então surgem soluções como a Belascar e o vagão exclusivo. Soluções necessárias, sem dúvida. Mas que carregam, em sua existência, uma espécie de derrota. São remendos em um tecido social que deveria ser inteiro. É o diagnóstico de uma cidade enferma.

É curioso como a cidade reage a isso. Há quem celebre a iniciativa, como se fosse um avanço civilizatório. E, em certo sentido, é. Mas há também um desconforto silencioso, uma sensação de que algo está fora do lugar. Porque o ideal não seria separar, mas integrar. Não criar ilhas de segurança, mas um continente inteiro onde ela fosse desnecessária.

O problema é que o ideal, em Brasília, muitas vezes fica restrito ao papel. Assim como o traçado da cidade, que no projeto parecia impecável, mas na prática revelou suas limitações. A vida real, com suas urgências e imperfeições, não tinha como caber na prancheta de Lúcio Costa.

E talvez seja isso que mais envergonhe. Não o fato de existirem iniciativas como a Belascar, mas o motivo pelo qual elas existem. A necessidade de criar espaços protegidos em pleno século XXI, na capital de um país que se pretende moderno, que seria o produto de um sonho de Dom Bosco, e que expõe uma contradição difícil de ignorar.

Brasília gosta de culpar os outros por sua má fama. Os políticos, os forasteiros, os escândalos que chegam de avião e ocupam gabinetes. Mas, aos poucos, a cidade vai sendo obrigada a olhar também para si mesma. E o que vê não é apenas o reflexo de decisões tomadas no Congresso, mas de comportamentos cultivados nos bastidores do cotidiano.

A patifaria, afinal, não é exclusividade de quem usa gravata. Ela também se manifesta no sujeito que acha normal invadir o espaço alheio. No que ri de uma situação constrangedora. No que se cala diante de um abuso evidente. Há uma cumplicidade difusa, uma espécie de conivência que se espalha como um rumor.

E é aí que a vergonha ganha contornos mais nítidos. Não é a vergonha pública, escancarada, que aparece nas manchetes. É uma vergonha íntima, quase doméstica. A vergonha de saber que a cidade precisa se proteger de seus próprios habitantes. Que mulheres precisam reorganizar seus trajetos, escolher serviços específicos, ocupar vagões separados, simplesmente para existir com um mínimo de tranquilidade.

Há algo de profundamente errado nisso. E não se resolve apenas com leis ou iniciativas isoladas. Porque o problema não está apenas na estrutura, mas na cultura. Na forma como certos homens foram ensinados — ou deixaram de ser ensinados — a lidar com a mulher.

Respeito não é uma política pública. É um hábito. E hábitos, como se sabe, não se criam por decreto.

Talvez um dia o vagão rosa deixe de existir. Não por falta de demanda, mas por falta de necessidade. Talvez serviços como a Belascar se tornem apenas mais uma opção, e não um refúgio. Mas, para isso, Brasília precisará passar por um tipo de reforma que não se faz com concreto, nem com espelho d’água, nem com orçamento.

Uma reforma moral.

Até lá, Brasília seguirá convivendo com essa contradição: a capital do país, símbolo de modernidade e planejamento, ainda lutando contra impulsos imundos que insistem em não passar.

E, no meio desse cenário, o vagão rosa e o aplicativo da Belascar seguem seu trajeto diário. Chegam, abrem as portas, acolhem. Um pequeno gesto de proteção em uma cidade que, apesar de toda sua grandiosidade, ainda está aprendendo o básico.

Respeitar.

Sem precisar de placas, cores ou avisos.


Totem no MoMA NY


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