Restos de Brasil
Félix Maier
Acordei hoje com a sensação de que moro
num ferro-velho de país. Tudo range, tudo fede, tudo tem dono, menos a
dignidade humana. O Brasil parece aquele carro abandonado no acostamento da
história: já roubaram o motor de arranque, as quatro rodas, o estepe e o rádio,
mas ainda há sujeito jurando que vai dar partida.
Os séculos passam, e a nação continua
empurrando o calhambeque da esperança. As gerações se sucedem como mecânicos
inexperientes: cada um promete trocar o óleo moral do país, mas acaba vendendo
a bateria no mercado paralelo da Feira do Rolo.
O brasileiro é um sobrevivente de si
mesmo. Já enfrentamos impérios, ditaduras, ditamoles, pandemias e reality
shows, e seguimos vivos, embora não saibamos se isso é mérito ou castigo.
Em certos dias, olho o noticiário e
penso que a Bíblia perdeu um bom enredo. Em vez de Restos de Israel,
poderíamos ter Restos de Brasil: o povo eleito que sobreviveu à
corrupção, à anomia, ao STF, ao VAR e ao TikTok.
São milagres diários de resistência
cívica, só que sem o glamour de Moisés. Aqui, o mar não se abre: ele engole.
Sempre me fascinou essa ideia de restos.
Restos de civilização, restos de ética, restos de bom senso. Vivemos de sobras,
e ainda assim, nos orgulhamos delas.
Do povo hebreu herdamos a fé. De nós
mesmos herdamos a teimosia. Quando o profeta Jeremias falava dos Restos de
Israel, não os cativos hebreus na Babilônia de Nabucodonosor, mas os da
própria Judá, onde testemunhou a queda de Jerusalém e viu suas profecias se
cumprirem pedra por pedra, talvez imaginasse um povo que, mesmo entre cinzas,
ainda encontrava forças para orar a Jeová. No Brasil, os restos também rezam.
Mas rezam com outras urgências: para o Pix cair, para o juiz ser transferido, para
a bala perdida não entrar em casa, para o bandido não voltar.
É a nossa liturgia cotidiana, feita
menos de esperança e mais de sobrevivência. E há algo quase comovente nessa
teologia dos escombros: um país que não acredita mais em nada, mas continua
acendendo vela para tudo. Se há seca, reza-se por chuva; se chove demais,
reza-se por teto; se o teto desaba, reza-se pelo auxílio-reconstrução de Painho.
É um milagre cotidiano de fé e desespero, uma missa campal onde o altar é o
caixa eletrônico e a hóstia, o cartão de crédito.
Durante a pandemia da Covid-19,
inventaram o novo normal. Só esqueceram de avisar que o normal antigo já
era anormal o suficiente. Enquanto o vírus andava de avião, a droga andava de moto. O delivery da desgraça não parou: o país trancado em casa, e as esquinas
abertas em flor, flor de plástico, claro, cultivada no asfalto e regada com
fumaça de crack.
A República Democrack do Brasil
é um projeto de nação alternativo: tem tráfico, tem zumbis, tem rave e,
sobretudo, tem influencer. As ONGs discursam, os sociólogos escrevem teses, os
padres abençoam os desesperados e as cracolândias seguem firmes, expandindo-se
como franquia de fast food, principalmente depois que o STF garantiu aos
viciados o porte de 40 g de maconha. A elite intelectual chama isso de fenômeno
social complexo. Eu chamo de bagunça institucionalizada com verniz
acadêmico. É um país paralelo onde cada nóia é uma estatística ambulante e cada
político é um traficante de esperança adulterada.
E é nessa orgia moral que a juventude
ensaia sua independência química e emocional. Fumar
é vício, mas postar virou vocação. A droga preferida do século XXI não vem em
papelote; vem com Wi-Fi, filtro de beleza, nessa estrovenga eletrônica chamada
smartphone, que transforma qualquer rosto em vitrine e cada selfie em munição
para like ou hate. Saímos da sensual Cavalgada, de Roberto Carlos, e
desabamos na coreografia pornográfica explícita de Na Boquinha da Garrafa,
com crianças rebolando como se aquilo fosse uma simples brincadeira. Nunca
cavamos um abismo tão fundo e tenebroso em tão pouco tempo.
Apesar de tudo — ou por causa de tudo —
o brasileiro continua viciado em esperança. É o único entorpecente que nunca
foi criminalizado. Talvez porque seja o único capaz de fazer o país suportar a
própria ressaca.
Vivemos num futuro que já nasce cansado
e num passado que foi adulterado na CPI da História: no Brasil, até o
passado é incerto, disse o diplomata e ex-ministro da Fazenda, Pedro Malan.
Mesmo assim, insistimos em acreditar que agora vai, que o próximo
governo será diferente, que com fé tudo melhora. A fé, no Brasil,
o País do Futuro, é uma commodity, e quanto mais escassa a razão, mais
valorizada ela fica.
Somos um povo que ri do próprio
naufrágio, brinde à mão, cantando Deixa a vida me levar. Enquanto o
barco afunda, o brasileiro tira selfie com o iceberg. E a esperança, essa marvada,
reaparece todo dia, vestida de verde-e-amarelo, gritando: Bora, dá pra
recomeçar! Recomeçamos tanto que já devíamos ter um 13º de começos.
Às vezes penso que o Brasil é um país à
prova de apocalipse. Deus pode até enviar as pragas, mas o brasileiro já vive com mosquito,
corrupção e fake news desde sempre. A diferença é que aqui o dilúvio não
leva, recicla.
Restos de Brasil: somos os
sobreviventes da própria comédia. Um povo que tropeça, levanta, xinga, ri, e volta a tropeçar, agora com mais
estilo. Vivemos de meme em meme, de milagre em milagre, de eleição em eleição.
E, de resto em resto, seguimos inteiros restos.
Há uma beleza melancólica nisso: a de
quem não desiste nem quando tudo já acabou. Talvez sejamos mesmo os restos
fiéis de uma nação que nunca existiu, mas que teima em sonhar que está
viva.
E assim seguimos, altivos,
desorganizados e um pouco bêbados de esperança, acreditando que amanhã vai ser
diferente, mesmo sabendo que amanhã é só hoje com outro disfarce.
Se os profetas bíblicos estivessem por
aqui, diriam: Bem-aventurados os Restos de Brasil, porque deles será o país
que sobrar.

Nenhum comentário:
Postar um comentário