MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

sexta-feira, 27 de março de 2026

Restos de Brasil - Por Félix Maier

 


Restos de Brasil

Félix Maier

Acordei hoje com a sensação de que moro num ferro-velho de país. Tudo range, tudo fede, tudo tem dono, menos a dignidade humana. O Brasil parece aquele carro abandonado no acostamento da história: já roubaram o motor de arranque, as quatro rodas, o estepe e o rádio, mas ainda há sujeito jurando que vai dar partida.

Os séculos passam, e a nação continua empurrando o calhambeque da esperança. As gerações se sucedem como mecânicos inexperientes: cada um promete trocar o óleo moral do país, mas acaba vendendo a bateria no mercado paralelo da Feira do Rolo.

O brasileiro é um sobrevivente de si mesmo. Já enfrentamos impérios, ditaduras, ditamoles, pandemias e reality shows, e seguimos vivos, embora não saibamos se isso é mérito ou castigo.

Em certos dias, olho o noticiário e penso que a Bíblia perdeu um bom enredo. Em vez de Restos de Israel, poderíamos ter Restos de Brasil: o povo eleito que sobreviveu à corrupção, à anomia, ao STF, ao VAR e ao TikTok.

São milagres diários de resistência cívica, só que sem o glamour de Moisés. Aqui, o mar não se abre: ele engole.

Sempre me fascinou essa ideia de restos. Restos de civilização, restos de ética, restos de bom senso. Vivemos de sobras, e ainda assim, nos orgulhamos delas.

Do povo hebreu herdamos a fé. De nós mesmos herdamos a teimosia. Quando o profeta Jeremias falava dos Restos de Israel, não os cativos hebreus na Babilônia de Nabucodonosor, mas os da própria Judá, onde testemunhou a queda de Jerusalém e viu suas profecias se cumprirem pedra por pedra, talvez imaginasse um povo que, mesmo entre cinzas, ainda encontrava forças para orar a Jeová. No Brasil, os restos também rezam. Mas rezam com outras urgências: para o Pix cair, para o juiz ser transferido, para a bala perdida não entrar em casa, para o bandido não voltar.

É a nossa liturgia cotidiana, feita menos de esperança e mais de sobrevivência. E há algo quase comovente nessa teologia dos escombros: um país que não acredita mais em nada, mas continua acendendo vela para tudo. Se há seca, reza-se por chuva; se chove demais, reza-se por teto; se o teto desaba, reza-se pelo auxílio-reconstrução de Painho. É um milagre cotidiano de fé e desespero, uma missa campal onde o altar é o caixa eletrônico e a hóstia, o cartão de crédito.

Durante a pandemia da Covid-19, inventaram o novo normal. Só esqueceram de avisar que o normal antigo já era anormal o suficiente. Enquanto o vírus andava de avião, a droga andava de moto. O delivery da desgraça não parou: o país trancado em casa, e as esquinas abertas em flor, flor de plástico, claro, cultivada no asfalto e regada com fumaça de crack.

A República Democrack do Brasil é um projeto de nação alternativo: tem tráfico, tem zumbis, tem rave e, sobretudo, tem influencer. As ONGs discursam, os sociólogos escrevem teses, os padres abençoam os desesperados e as cracolândias seguem firmes, expandindo-se como franquia de fast food, principalmente depois que o STF garantiu aos viciados o porte de 40 g de maconha. A elite intelectual chama isso de fenômeno social complexo. Eu chamo de bagunça institucionalizada com verniz acadêmico. É um país paralelo onde cada nóia é uma estatística ambulante e cada político é um traficante de esperança adulterada.

E é nessa orgia moral que a juventude ensaia sua independência química e emocional. Fumar é vício, mas postar virou vocação. A droga preferida do século XXI não vem em papelote; vem com Wi-Fi, filtro de beleza, nessa estrovenga eletrônica chamada smartphone, que transforma qualquer rosto em vitrine e cada selfie em munição para like ou hate. Saímos da sensual Cavalgada, de Roberto Carlos, e desabamos na coreografia pornográfica explícita de Na Boquinha da Garrafa, com crianças rebolando como se aquilo fosse uma simples brincadeira. Nunca cavamos um abismo tão fundo e tenebroso em tão pouco tempo.

Apesar de tudo — ou por causa de tudo — o brasileiro continua viciado em esperança. É o único entorpecente que nunca foi criminalizado. Talvez porque seja o único capaz de fazer o país suportar a própria ressaca.

Vivemos num futuro que já nasce cansado e num passado que foi adulterado na CPI da História: no Brasil, até o passado é incerto, disse o diplomata e ex-ministro da Fazenda, Pedro Malan. Mesmo assim, insistimos em acreditar que agora vai, que o próximo governo será diferente, que com fé tudo melhora. A fé, no Brasil, o País do Futuro, é uma commodity, e quanto mais escassa a razão, mais valorizada ela fica.

Somos um povo que ri do próprio naufrágio, brinde à mão, cantando Deixa a vida me levar. Enquanto o barco afunda, o brasileiro tira selfie com o iceberg. E a esperança, essa marvada, reaparece todo dia, vestida de verde-e-amarelo, gritando: Bora, dá pra recomeçar! Recomeçamos tanto que já devíamos ter um 13º de começos.

Às vezes penso que o Brasil é um país à prova de apocalipse. Deus pode até enviar as pragas, mas o brasileiro já vive com mosquito, corrupção e fake news desde sempre. A diferença é que aqui o dilúvio não leva, recicla.

Restos de Brasil: somos os sobreviventes da própria comédia. Um povo que tropeça, levanta, xinga, ri, e volta a tropeçar, agora com mais estilo. Vivemos de meme em meme, de milagre em milagre, de eleição em eleição. E, de resto em resto, seguimos inteiros restos.

Há uma beleza melancólica nisso: a de quem não desiste nem quando tudo já acabou. Talvez sejamos mesmo os restos fiéis de uma nação que nunca existiu, mas que teima em sonhar que está viva.

E assim seguimos, altivos, desorganizados e um pouco bêbados de esperança, acreditando que amanhã vai ser diferente, mesmo sabendo que amanhã é só hoje com outro disfarce.

Se os profetas bíblicos estivessem por aqui, diriam: Bem-aventurados os Restos de Brasil, porque deles será o país que sobrar.



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