MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

quinta-feira, 12 de março de 2026

O dia em que Alexandre mandou prender Moraes - Por Félix Maier

 


O dia em que Alexandre

mandou prender Moraes

 Félix Maier 

No Brasilistão — país tropical onde o absurdo tira RG e causídico não passa em concurso, mas acaba nomeado para cargo vitalício — aconteceu algo que nem os cronistas de realismo mágico como Gabriel García Márquez teriam coragem de inventar: o dia em que Alexandre mandou prender Moraes.

Não foi metáfora. Não foi alegoria. Foi despacho.

A sessão começou às nove da manhã na Suprema Corte, um edifício imponente onde as colunas de mármore sustentam não apenas o teto, mas também uma certa elasticidade conceitual do direito desde que o Ogro de Nove Dedos e a Estocadora de Vento aparelharam o STF com sete líderes do PT.

No centro da mesa, com a gravidade de quem carrega o peso da Constituição e algumas condenações surpreendentes, como a do Presidente Jair Bolsonaro (sejam criativos! sempre diz a seus subordinados), estava o excelentíssimo ministro Alexandre.

Do outro lado, ajustando a toga e alisando a careca com expressão contrariada, estava o réu do processo: o excelentíssimo ministro Moraes.

Ambos se entreolharam por alguns segundos.

O ministro Moraes havia dispensado os 12 advogados da banca de sua esposa, que iriam defendê-lo, deixando-os à toa na sala do tribunal. Ele mesmo iria fazer sua defesa.

— Ministro Moraes — disse o ministro Alexandre, abrindo um calhamaço de papéis — o senhor está sendo acusado de uma série de irregularidades bastante… criativas.

Moraes pigarreou.

— Criativas em que sentido?

— Em vários sentidos — respondeu Alexandre. — Financeiro, logístico, etílico e, segundo consta nos autos, também turístico.

Um capinha colocou sobre a mesa de Alexandre três volumes encadernados.

Volume I: Banco Master e as alquimias bancárias envolvendo empresa advocatícia de Viviane Barci de Moraes.

Volume II: Viagens pedagógicas regadas a uísque em Londres.

Volume III: Eventos culturais com loiras nórdicas em Trancoso, Lisboa, Sicília e Caribe, e iluminação temática na Alameda Lorena, em Sampa.

Moraes recebeu e folheou rapidamente o terceiro volume.

— Excelência, isso aqui está muito mal redigido.

— Em que ponto, exatamente?

— Aqui diz Festança digna das Mil e Uma Noites com DJ escandinavo e dançarinas vindas de Oslo, em Trancoso. Eu jamais contrataria DJ de Oslo. Musicalmente, são muito frios.

Alexandre fez uma anotação.

— Fica registrado o protesto do réu quanto à qualidade do DJ, escolha mal feita por Daniel Vorcaro.

O escrivão assentiu.

— Registrado.

Alexandre continuou:

— Passando ao primeiro ponto. O Banco Master.

— Ah — disse Moraes, cruzando os braços — já começaram as narrativas: Bolsomaster para um lado, Lulamaster para outro. A verdade é que há personagens da extrema direita à extremidade da esquerda radical. Ideologicamente, tudo muito harmonioso, como convém a um Estado democrático de direito.

— Segundo os autos, houve reuniões discretas, encontros reservados e pelo menos três jantares institucionais em que a conta milionária foi paga por um banqueiro extremamente generoso. Na Sicília, diz a mídia, houve festança de quatro dias num condomínio de luxo, ao custo de 200 milhões de reais, com participação de artistas como Coldplay, Andrea Bocelli, Michael Bublé e o DJ David Guetta. O tenor Andrea Bocelli aproveitou para cantar Nesun Dorma. Que ninguém durma. Muito espirituoso, esse Bocelli...

— Excelência — respondeu Moraes — jantar não é crime. Nem ouvir tenor italiano cantando ária da ópera Turandot, de Giacomo Puccini. A propósito, nem estive na Itália.

— Concordo. Vejo que você gosta de óperas, eu também gosto. Roberto Jefferson também gostava de cantar essa ária de Puccini no banheiro, em Brasília, na época do Mensalão, depois de dizer ao José Dirceu, o Zé do Caroço, quando era chefe da Casa Civil: Zé Dirceu, se você não sair daí rápido, você vai fazer réu um homem inocente que é o presidente Lula.

— Uísque também não é crime.

— Depende da quantidade.

— E networking financeiro é parte da vida republicana.

— E os 129 milhões envolvendo o escritório de advocacia de sua esposa junto ao Banco Master?

— O que eu tenho a ver com isso? Isso é misoginia! Uma mulher não pode ter sucesso financeiro, só homem? Um escritório de primeira grandeza cobra caro, excelência. Lembra do advogado Thomaz Bastos? Carlinhos Cachoeira, um Zé Ninguém, teve que desembolsar 15 milhões. Sabe quanto cobra o Kakay?

Alexandre folheou outro documento.

— O problema não é o networking. É quando ele vira master working jurídico de alta rentabilidade, misturando interesses cruzados de vossa excelência e da banca de advogados de sua mulher com o dono do Banco Master.

O silêncio na sala ficou espesso.

Um dos 12 advogados do escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes teve um mal súbito, desmaiou e foi levado para o Hospital de Base.

Um estagiário deixou cair o notebook, depois de derramar um copo d’água.

Alexandre prosseguiu:

— Temos registro de voos para Londres, em 2024, para o Fórum Jurídico “Brasil de Ideias”, onde constam nomes como de vossa excelência, Dias Toffoli, Ricardo Lewandovski, Hugo Motta e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. Até o Paulo Gonet, o Procurador que Não Procura, estava lá. E Benedito Gonçalves, o Bochechinha do Lula, que cochichou no seu ouvido, missão dada é missão cumprida, deu também uma escapadinha nesse clube privado em Mayfair, ao custo de R$ 31 milhões.

— Conferências jurídicas, como o nome indica: Fórum Jurídico.

— Em clube privado.

— Ambiente acadêmico alternativo.

— Com degustação de single malt.

— Pesquisa comparada de jurisprudência.

— Às três da manhã.

— Horário em que os precedentes vinculantes britânicos ficam mais claros.

Alexandre levantou os olhos lentamente.

— Ministro Moraes, o senhor está dificultando sua própria defesa.

Moraes suspirou.

— Excelência… sejamos francos. No Brasilistão, o que seria exatamente uma defesa adequada?

Alexandre pensou por um momento.

— Para começar, algo que não envolvesse planilhas de uísque 30 anos.

— Aquilo foi erro de contabilidade.

— O senhor chamou 48 garrafas de Macallan Double Cask, R$ 57.000,00 a unidade, de material de estudo.

— Eram notas de degustação jurídica.

O escrivão, com os olhos arregalados, voltou a escrever depois de uma pequena pausa.

Nesse momento, outro capinha entrou na sala trazendo um grande envelope lacrado.

— Excelência, chegou novo material probatório.

Alexandre abriu.

Dentro havia fotos. Muitas fotos. Trancoso. Lisboa. Caribe. Sicília. Alameda Lorena, em Sampa, iluminada como se fosse réveillon em Dubai.

Em várias delas aparecia Moraes, sorrindo com a naturalidade do Papa dando a bênção urbi et orbi na janela do Vaticano, na hora do Angelus dominical.

Alexandre levantou uma sobrancelha.

— Ministro Moraes… quem são essas pessoas?

Moraes olhou rapidamente.

— Intercâmbio cultural.

— Todas loiras, em Trancoso?

— Mudança climática.

— Vindas da Rússia, da Ucrânia e da Noruega?

— Países amigos. Um brasileiro-norueguês até nos deu um ouro nas Olimpíadas de Inverno Milano-Cortina.

Alexandre virou outra foto.

— Aqui o senhor está vestido de sultão.

— Festa temática.

— Aqui está numa jacuzzi com empresários, regada a uísque.

— Reunião líquida, para limpar os poros do corpo, depois de longa viagem de avião.

— Aqui está brindando com o banqueiro Daniel Vorcaro.

— Cooperação institucional. Cada país tem o Jeffrey Epstein que consegue bancar.

— Aqui o senhor está dançando lambada com uma violinista sueca. E um senador está com uma loira no colo, e uísque na mão.

Moraes coçou o queixo.

— Intercâmbio cultural.

O silêncio voltou a dominar a sala.

Alexandre respirou fundo. Por fim, perguntou:

— No dia em que Vorcaro foi preso, ele mandou uma mensagem enigmática para vossa excelência: conseguiu bloquear? Era para bloquear o quê? O que o senhor tem a dizer?

— É fake news, espalhada pela jornalista Malu Gaspar. Não sei por que a Globo não nos está apoiando, como sempre fazia.

— Ministro Moraes, o senhor percebe que a situação é muito grave? Que estão pedindo seu impeachment no Senado?

— Percebo.

— Há indícios de favorecimento financeiro, viagens suspeitas e uma vida noturna incompatível com a sobriedade de um magistrado.

— Excelência, o senhor fala como se nunca tivesse sido jovem.

— Eu fui jovem.

— E nunca foi a Trancoso?

— Fui.

— E nunca bebeu uísque em Londres?

— Bebi.

— E nunca dançou com escandinavas?

Alexandre ficou pensativo por um instante. E respondeu:

— Isso é irrelevante para o processo. Sou eu que faço as perguntas aqui, e você responde.

Moraes inclinou-se para frente.

— Excelência… sejamos honestos.

— Estamos sendo.

— Somos a mesma pessoa.

O escrivão parou de escrever.

Os advogados tossiram em seco.

O ar-condicionado fez um ruído nervoso e suspeito.

Alexandre ajeitou a toga.

— No Brasilistão, isso não constitui impedimento processual.

— Eu sei.

— Pelo contrário. Demonstra profundo conhecimento do investigado.

— Isso é verdade.

Alexandre folheou o último documento.

— Diante de tudo isso, resta apenas uma pergunta.

— Qual?

— O senhor tem algo a declarar em sua defesa final?

Moraes pensou por alguns segundos. Depois respondeu com serenidade:

— Apenas que, se eu for condenado, quem assume o caso sou eu mesmo.

Alexandre refletiu.

— Isso cria um precedente curioso.

— Mas eficiente.

— E quem julga o recurso?

— Nós dois.

Alexandre bateu levemente o martelo imaginário, com aquele sorriso sinistro de Lord Voldemort conhecido de todos.

— Muito bem!

Ele endireitou os papéis e leu solenemente:

— Considerando os fatos, as fotos, os recibos de uísque escocês, as notas fiscais de DJs nórdicos, e os depoimentos dos vigias de Trancoso e das violinistas suecas…

Fez uma pausa dramática.

... este tribunal decide, por unanimidade absoluta de mim mesmo…

Mais uma pausa.

… mandar prender o ministro Moraes...

Uma pausa mais longa.

— ... por 12 anos...

Outra pausa longa.

 — ... na Papuda.

Moraes assentiu com dignidade.

— É justo. Papuda é um bom lugar, tem boa comida e bom atendimento médico. O Bolsonaro nunca mais reclamou.

— O senhor aceita a decisão?

— Aceito.

— Pretende recorrer?

— Naturalmente. Para reduzir a dosimetria, para 2 anos, de modo a poder usufruir o benefício de sursis e ficar livre como o coronel Mauro Cid.

— Vai ser difícil, porque o Fux queria te dar 27 anos. Caso não consiga a sursis, vossa excelência pretende fazer delação premiada?

— Claro. Você não tem ideia do que eu tenho pra contar...

— Vai recorrer a quem?

Moraes sorriu o sorriso sinistro de sempre.

— Ao ministro Alexandre.

Alexandre fechou o processo.

— Então está resolvido.

E apertaram as mãos, com a gravidade que a ocasião exigia.

O escrivão perguntou:

— Excelências… quem lavra a ata?

Alexandre respondeu:

— Nós dois. Alexandre e Moraes.

E assim terminou o mais extraordinário julgamento da história do Brasilistão, nunca antes visto neste País.

Um processo em que acusador, réu, juiz, carrasco, tribunal e instância recursal eram, essencialmente, a mesma pessoa — prova definitiva de que, em certas latitudes tropicais, a realidade não apenas supera a ficção. Ela a processa. A condena.

E, quando convém (sempre convém!), assina o próprio alvará de soltura.


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