MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

segunda-feira, 23 de março de 2026

O tico-tico e o vira-bosta - Por Félix Maier

 

O Tico-tico e o vira-bosta

 Félix Maier 

Há cenas da natureza que, se não fossem reais, seriam recusadas por qualquer editor de filme por excesso de alegoria. Uma delas é a rotina do tico-tico — esse pequeno operário, diligente, organizado, de penas cinzentas, com colarinho vermelho no pescoço — que constrói seu ninho com a paciência de um artesão medieval, sem saber que, em breve, será vítima de uma fraude biológica.

Entra em cena o chupim, também chamado de vira-bosta, nome que, por si só, já dispensa maiores comentários taxonômicos. Não constrói casa, não planta, mas colhe, com notável eficiência, na horta alheia. Como o cuco, o vira-bosta é especialista em terceirizar responsabilidades, deposita seu ovo no ninho alheio e sai assobiando, como quem acabou de protocolar um projeto bem-sucedido em alguma repartição invisível da natureza.

O tico-tico, alheio à trama, choca o ovo estranho junto com os seus. E aí se desenrola o drama: o filhote intruso nasce antes, cresce mais rápido, ocupa mais espaço, exige mais comida. Logo, o ninho vira pequeno demais para tanta voracidade. Um a um, os legítimos herdeiros do lar vão sendo empurrados para fora, não por maldade, mas por simples ineficiência estrutural do ninho, diria algum tecnocrata de plantão. Caem no chão, são devorados, nem viram estatística, desaparecem na indiferença ecológica.

O tico-tico, exausto, continua alimentando aquele bico insaciável, sem perceber que está sustentando o algoz da própria linhagem.

Se isso lhe soa familiar, não é coincidência. A natureza, às vezes, escreve crônicas políticas com antecedência.

No Brasil — esse grande aviário tropical — há quem veja no programa Bolsa Família uma versão institucionalizada desse fenômeno. A ideia, na superfície, parece nobre: amparar os mais pobres, garantir um mínimo de dignidade, impedir que a fome dite as regras do jogo. Quem ousaria ser contra isso sem parecer um vilão de novela das nove? 

Afinal, estava certo Betinho, ao dizer que quem tem fome tem pressa, o mesmo Betinho da esquerdista Ação Popular, o pombo-correio que levou pelo menos 200 mil dólares de Fidel Castro a Leonel Brizola, no Uruguai, para promover uma Revolução Sindicalista no Brasil, no pós-1964.

Mas a crítica — feita em tom mais ou menos ácido, dependendo do humor do cronista — aponta para outro aspecto: a dependência crônica, o ciclo vicioso, o estímulo indireto à perpetuação da pobreza como ativo político. O ovo no ninho alheio, digamos assim. A vagabundagem sendo premiada.

Segundo essa leitura, o programa teria sido elevado à categoria de estratégia eleitoral por figuras como Luiz Inácio Lula da Silva — aqui apelidado, com o sarcasmo de certas rodas de conversa, de Ogro de Nove Dedos — e sonhado em escala ainda mais ambiciosa por José Dirceu, o Zé do Caroço, o “Daniel” do grupo terrorista Molipo, que era, assim como o Ogro, amigo íntimo de Fidel Castro e do Comandante Barbarroja, do serviço secreto cubano. Segundo vazamento de um cable (telegrama diplomático) americano, em 2010, atribuído ao WikiLeaks, Zé do Caroço havia demonstrado entusiasmo político com o programa Bolsa Família, de que poderia gerar algo em torno de 40 milhões de votos.

Segundo cálculos obtidos na web, cerca de 21 milhões de famílias recebem o Bolsa Família, sendo 63 milhões de pessoas vivendo nesse ninho do tico-tico. Considerando que cerca de 50% dessa população tem mais de 16 anos, os eleitores seriam algo entre 30 a 33 milhões. Se somarmos os benefícios doados por Estados e Municípios, o total chega a cerca de 94 milhões de beneficiários para uma população estimada em 213,4 milhões (dados de 2025). Quase a metade da população.

O mapa do Brasil, quando tingido com as cores da dependência parasitária, parece confirmar a metáfora para muitos observadores: quanto mais se sobe rumo ao Norte e ao Nordeste, maior a densidade de beneficiários. Quanto mais se desce do Centro-Oeste ao Sudeste e ao Sul, mais rarefeito é o fenômeno, ao menos proporcionalmente.

E assim se constrói a narrativa: os tico-ticos do Centro-Sul, industriosos e tributados, sustentando uma crescente população de vira-bostas sociais do Norte e do Nordeste, alimentados por um sistema que premia a permanência no ninho.

É uma caricatura, claro. Mas toda caricatura exagera traços reais.

O escritor Emil Farhat, em seu livro O Paraíso do Vira-Bosta (1987), já havia intuído algo semelhante, ainda que em outro contexto. Seu país fictício era governado por uma elite de parasitas engravatados — vira-bostas de cartola — que se alimentavam do erário com uma desenvoltura quase artística. Criavam repartições inúteis, inventavam carimbos, multiplicavam papéis, os trens sempre saíam mais tarde, para os ferroviários ganharem hora extra. O cidadão comum trabalhava; eles administravam.

Era o patrimonialismo em estado puro, herança que remonta aos tempos de Pedro Álvares Cabral e da velha tradição ibérica de confundir o público com o privado, o Estado com a extensão da casa-grande.

A diferença, dirá o cronista contemporâneo, é que antes o peso recaía sobre poucos vira-bostas de alto escalão e funcionários de estatais. Hoje, o sistema teria se democratizado. Popularizou-se. Espalhou-se. Tornou-se capilar. Tomou conta quase da metade da sociedade.

Se antes eram alguns milhares, agora são quase cem milhões.

E assim chegamos ao presente, onde novos programas surgem como variações do mesmo tema: auxílio aqui, subsídio ali, incentivo acolá. Pé de Meia, Gás do Povo, Luz Grátis, crédito, bônus, fim da jornada 6x1, uma sinfonia de benefícios que, para uns, representa inclusão social; para outros, uma engenharia de dependência cuidadosamente calibrada para se perpetuar.

Enquanto isso, o tico-tico segue trabalhando, em dobro. Acorda cedo, paga impostos, enfrenta burocracia, financia o sistema e, no fim do dia, ainda ouve que deveria cantar mais baixo, para não incomodar a harmonia do aviário.

Há algo de tragicômico nisso. Porque o tico-tico, apesar de tudo, continua acreditando que o ninho é seu.

No alto das árvores institucionais, paira ainda o olhar vigilante do Supremo Tribunal Federal, guardião da Constituição e árbitro das disputas de tico-ticos e vira-bostas. Para os críticos mais ferozes, porém, o tribunal teria deixado de ser um observador imparcial para se tornar os dentes mais fortes da engrenagem do Sistema Toga Petralha, pois todos os órgãos públicos foram aparelhados por petistas, um feito magistral do Ogro de Nove Dedos e da Estocadora de Vento. Um aliado nada tácito na manutenção do equilíbrio entre tico-ticos trabalhadores e vira-bostas parasitas.

Aqui, a crônica escorrega deliberadamente para o exagero, território natural do sarcasmo. Fala-se em ditadura perfeita (Bienvenidos a Brazuela!), em sistema fechado, em engrenagem sem freios e sem contrapesos. São imagens fortes, talvez desproporcionais, mas reveladoras do sentimento da maior parcela da sociedade. Porque, no fundo, toda metáfora carrega uma conhecença ancestral irrefutável.

E então surge a pergunta inevitável: há saída para o tico-tico?

Na natureza, a resposta é dura: jamais! O instinto não lhe permite reconhecer o invasor. O tico-tico alimenta o filhote estranho até o fim, mesmo que isso signifique a extinção de sua própria prole.

Na sociedade humana, porém, a história é menos determinista. Há debate, voto, alternância de poder (quando?), revisão de políticas. Há, ao menos em teoria, a possibilidade de romper o ciclo vicioso criado pelo PT.

Mas isso exige algo que o vira-bosta brasileiro não possui: consciência na hora de votar. Sem trocadilho, prefere fazer bicos, nada de emprego formal, para continuar votando no PT e receber o Bolsa Família. Xô, carteira assinada!

Minha Bela e Santa Catarina constitui-se em Estado modelo, seja pelo forte empreendedorismo e pelo emprego quase pleno de sua população, seja pelo avanço socioeconômico mais relevante do País, com apenas 4,4% de sua população sendo assistida por programas sociais. Já o Maranhão dos Sarney e dos Dinos, ocupa o primeiro lugar de vira-bostas metidos nos ninhos dos tico-ticos, com 41,3% de sua população usufruindo as benesses do Estado cada vez mais socialista.

Enquanto a tal consciência política não vem, o aviário segue seu curso. O vira-bosta cresce, o ninho range, os filhotes de tico-tico caem e são comidos por predadores. E o tico-tico, incansável, continua trazendo alimento no bico, em dobro, para alimentar o Bebezão Vira-Bosta cada vez mais faminto, sem perceber que, a cada viagem, reforça a estrutura que o aprisiona.

Talvez, no fim das contas, a maior ironia não esteja no chupim, que apenas segue sua natureza oportunista. Mas no tico-tico, que insiste em não reconhecer o próprio destino. 

P. S.: Parabéns, Floripa, a Ilha da Magia, que completa hoje (23 de março de 2026) o aniversário de 353 anos.



Como no filme A Substância, com Demi Moore, o Ogro de 
Nove Dedos se renova a cada campanha presidencial.






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