O Tico-tico e o vira-bosta
Há
cenas da natureza que, se não fossem reais, seriam recusadas por qualquer
editor de filme por excesso de alegoria. Uma delas é a rotina do tico-tico —
esse pequeno operário, diligente, organizado, de penas cinzentas, com colarinho
vermelho no pescoço — que constrói seu ninho com a paciência de um artesão
medieval, sem saber que, em breve, será vítima de uma fraude biológica.
Entra
em cena o chupim, também chamado de vira-bosta, nome que, por si só, já
dispensa maiores comentários taxonômicos. Não constrói casa, não planta, mas
colhe, com notável eficiência, na horta alheia. Como o cuco, o vira-bosta é especialista
em terceirizar responsabilidades, deposita seu ovo no ninho alheio e sai
assobiando, como quem acabou de protocolar um projeto bem-sucedido em alguma
repartição invisível da natureza.
O
tico-tico, alheio à trama, choca o ovo estranho junto com os seus. E aí se
desenrola o drama: o filhote intruso nasce antes, cresce mais rápido, ocupa
mais espaço, exige mais comida. Logo, o ninho vira pequeno demais para tanta
voracidade. Um a um, os legítimos herdeiros do lar vão sendo empurrados para
fora, não por maldade, mas por simples ineficiência estrutural do ninho,
diria algum tecnocrata de plantão. Caem no chão, são devorados, nem viram
estatística, desaparecem na indiferença ecológica.
O
tico-tico, exausto, continua alimentando aquele bico insaciável, sem perceber
que está sustentando o algoz da própria linhagem.
Se
isso lhe soa familiar, não é coincidência. A natureza, às vezes, escreve
crônicas políticas com antecedência.
No Brasil — esse grande aviário tropical — há quem veja no programa Bolsa Família uma versão institucionalizada desse fenômeno. A ideia, na superfície, parece nobre: amparar os mais pobres, garantir um mínimo de dignidade, impedir que a fome dite as regras do jogo. Quem ousaria ser contra isso sem parecer um vilão de novela das nove?
Afinal, estava certo Betinho, ao dizer que quem tem fome tem pressa, o mesmo Betinho da esquerdista Ação Popular, o pombo-correio que levou pelo menos 200 mil dólares de Fidel Castro a Leonel Brizola, no Uruguai, para promover uma Revolução Sindicalista no Brasil, no pós-1964.
Mas
a crítica — feita em tom mais ou menos ácido, dependendo do humor do cronista —
aponta para outro aspecto: a dependência crônica, o ciclo vicioso, o estímulo
indireto à perpetuação da pobreza como ativo político. O ovo no ninho alheio,
digamos assim. A vagabundagem sendo premiada.
Segundo
essa leitura, o programa teria sido elevado à categoria de estratégia eleitoral
por figuras como Luiz Inácio Lula da Silva — aqui apelidado, com o sarcasmo de
certas rodas de conversa, de Ogro de Nove Dedos — e sonhado em escala
ainda mais ambiciosa por José Dirceu, o Zé do Caroço, o “Daniel” do grupo
terrorista Molipo, que era, assim como o Ogro, amigo íntimo de Fidel Castro e
do Comandante Barbarroja, do serviço secreto cubano. Segundo vazamento de um cable (telegrama
diplomático) americano, em 2010, atribuído ao WikiLeaks, Zé do Caroço havia
demonstrado entusiasmo político com o programa Bolsa Família, de
que poderia gerar algo em torno de 40 milhões de votos.
Segundo
cálculos obtidos na web, cerca de 21 milhões de famílias recebem o Bolsa
Família, sendo 63 milhões de pessoas vivendo nesse ninho do tico-tico.
Considerando que cerca de 50% dessa população tem mais de 16 anos, os eleitores
seriam algo entre 30 a 33 milhões. Se somarmos os benefícios doados por Estados
e Municípios, o total chega a cerca de 94 milhões de beneficiários para uma
população estimada em 213,4 milhões (dados de 2025). Quase a metade da
população.
O
mapa do Brasil, quando tingido com as cores da dependência parasitária, parece
confirmar a metáfora para muitos observadores: quanto mais se sobe rumo ao
Norte e ao Nordeste, maior a densidade de beneficiários. Quanto mais se desce do
Centro-Oeste ao Sudeste e ao Sul, mais rarefeito é o fenômeno, ao menos
proporcionalmente.
E
assim se constrói a narrativa: os tico-ticos do Centro-Sul, industriosos e
tributados, sustentando uma crescente população de vira-bostas sociais do Norte
e do Nordeste, alimentados por um sistema que premia a permanência no ninho.
É
uma caricatura, claro. Mas toda caricatura exagera traços reais.
O
escritor Emil Farhat, em seu livro O Paraíso do Vira-Bosta (1987), já
havia intuído algo semelhante, ainda que em outro contexto. Seu país fictício
era governado por uma elite de parasitas engravatados — vira-bostas de cartola
— que se alimentavam do erário com uma desenvoltura quase artística. Criavam
repartições inúteis, inventavam carimbos, multiplicavam papéis, os trens sempre
saíam mais tarde, para os ferroviários ganharem hora extra. O cidadão comum
trabalhava; eles administravam.
Era
o patrimonialismo em estado puro, herança que remonta aos tempos de Pedro
Álvares Cabral e da velha tradição ibérica de confundir o público com o
privado, o Estado com a extensão da casa-grande.
A
diferença, dirá o cronista contemporâneo, é que antes o peso recaía sobre
poucos vira-bostas de alto escalão e funcionários de estatais. Hoje, o sistema
teria se democratizado. Popularizou-se. Espalhou-se. Tornou-se capilar. Tomou
conta quase da metade da sociedade.
Se
antes eram alguns milhares, agora são quase cem milhões.
E
assim chegamos ao presente, onde novos programas surgem como variações do mesmo
tema: auxílio aqui, subsídio ali, incentivo acolá. Pé de Meia, Gás do Povo, Luz
Grátis, crédito, bônus, fim da jornada 6x1, uma sinfonia de benefícios que,
para uns, representa inclusão social; para outros, uma engenharia de
dependência cuidadosamente calibrada para se perpetuar.
Enquanto
isso, o tico-tico segue trabalhando, em dobro. Acorda cedo, paga impostos,
enfrenta burocracia, financia o sistema e, no fim do dia, ainda ouve que
deveria cantar mais baixo, para não incomodar a harmonia do aviário.
Há
algo de tragicômico nisso. Porque o tico-tico, apesar de tudo, continua
acreditando que o ninho é seu.
No
alto das árvores institucionais, paira ainda o olhar vigilante do Supremo
Tribunal Federal, guardião da Constituição e árbitro das disputas de tico-ticos
e vira-bostas. Para os críticos mais ferozes, porém, o tribunal teria deixado
de ser um observador imparcial para se tornar os dentes mais fortes da
engrenagem do Sistema Toga Petralha, pois todos os órgãos públicos foram
aparelhados por petistas, um feito magistral do Ogro de Nove Dedos e da
Estocadora de Vento. Um aliado nada tácito na manutenção do equilíbrio entre
tico-ticos trabalhadores e vira-bostas parasitas.
Aqui,
a crônica escorrega deliberadamente para o exagero, território natural do
sarcasmo. Fala-se em ditadura perfeita (Bienvenidos a Brazuela!), em
sistema fechado, em engrenagem sem freios e sem contrapesos. São imagens
fortes, talvez desproporcionais, mas reveladoras do sentimento da maior parcela
da sociedade. Porque, no fundo, toda metáfora carrega uma conhecença ancestral
irrefutável.
E
então surge a pergunta inevitável: há saída para o tico-tico?
Na
natureza, a resposta é dura: jamais! O instinto não lhe permite reconhecer o
invasor. O tico-tico alimenta o filhote estranho até o fim, mesmo que isso
signifique a extinção de sua própria prole.
Na
sociedade humana, porém, a história é menos determinista. Há debate, voto,
alternância de poder (quando?), revisão de políticas. Há, ao menos em teoria, a
possibilidade de romper o ciclo vicioso criado pelo PT.
Mas
isso exige algo que o vira-bosta brasileiro não possui: consciência na hora de
votar. Sem trocadilho, prefere fazer bicos, nada de emprego formal, para
continuar votando no PT e receber o Bolsa Família. Xô, carteira assinada!
Minha
Bela e Santa Catarina constitui-se em Estado modelo, seja pelo forte empreendedorismo
e pelo emprego quase pleno de sua população, seja pelo avanço socioeconômico
mais relevante do País, com apenas 4,4% de sua população sendo assistida por
programas sociais. Já o Maranhão dos Sarney e dos Dinos, ocupa o primeiro lugar
de vira-bostas metidos nos ninhos dos tico-ticos, com 41,3% de sua população
usufruindo as benesses do Estado cada vez mais socialista.
Enquanto
a tal consciência política não vem, o aviário segue seu curso. O vira-bosta
cresce, o ninho range, os filhotes de tico-tico caem e são comidos por
predadores. E o tico-tico, incansável, continua trazendo alimento no bico, em
dobro, para alimentar o Bebezão Vira-Bosta cada vez mais faminto, sem perceber
que, a cada viagem, reforça a estrutura que o aprisiona.
Talvez, no fim das contas, a maior ironia não esteja no chupim, que apenas segue sua natureza oportunista. Mas no tico-tico, que insiste em não reconhecer o próprio destino.
P. S.: Parabéns,
Floripa, a Ilha da Magia, que completa hoje (23 de março de 2026) o aniversário
de 353 anos.



Nenhum comentário:
Postar um comentário