Félix
Maier
Houve
um tempo, não muito distante, em que o brasileiro temia vírus invisíveis,
desses que se espalham pelo ar, rondam maçanetas e entram pela porta sem pedir
licença. Depois, como quem amadurece na marra, passou a temer algo bem mais
sutil e persistente: números. Não números quaisquer, mas aqueles que aparecem
no fim do ano, no rodapé dos relatórios, nas entrelinhas das contas públicas —
números que não tossem, não espirram, mas deixam sequelas prolongadas. O vírus
vinha com febre; o déficit vem com hábito. E, no Brasil, convenhamos, o hábito
costuma ser mais difícil de erradicar.
Tudo
começa com um susto aparentemente banal, desses que não merecem manchete de
primeira página, mas que, repetidos com a regularidade de um relógio suíço — ou
de uma repartição tropical —, acabam se tornando um modo de vida. Abre-se o
balanço das estatais, passa-se o olho com a displicência de quem já espera o
pior, e lá está ele, o velho conhecido: o rombo. Em 2023, rombo de R$ 2,2
bilhões; em 2024, um rombo mais encorpado, de R$ 6,73 bilhões; em 2025, outro
rombo, de R$ 5,1 bilhões, já com ares de reincidência respeitável. Segundo o
Banco Central, o rombo no período seria entre 14 e 15 bilhões de reais. Quanta
saudade do Governo Jair Bolsonaro, que em 2019 conseguiu superávit de R$ 10,3
bilhões nas estatais! É por isso que o PT e seus genéricos foram contra a
privatização dos Correios, sugerida por Bolsonaro. Como iria continuar o rombo?
O
que chama a atenção é a persistência do método, a coerência interna de um
sistema que, longe de parecer acidental, revela uma impressionante continuidade
histórica. Não se trata de um tropeço ocasional, de um erro técnico ou de uma
planilha mal preenchida por um funcionário distraído; trata-se de algo mais
elaborado, mais resiliente, pedagógico em sua repetição. O rombo — ou roubo, se
o leitor preferir — faz parte do Plano de Governo do PT, sempre fez.
Quem
olhar com um pouco de memória há de lembrar que essa história não começou
ontem. Houve um capítulo inaugural, didático até, em que o país descobriu que a
governabilidade podia ser organizada em parcelas mensais, com direito a
calendário, regularidade e, por assim dizer, fidelização de clientes. Chamaram
aquilo de Mensalão, talvez por uma feliz coincidência linguística ou por
uma sinceridade involuntária, e ali se desenhou um modelo no qual o apoio
político deixava de ser uma construção abstrata para se tornar um fluxo
financeiro concreto, previsível, administrativo. Os valores envolvidos, que na
época escandalizaram a República, hoje soam quase modestos, como se fossem o
rascunho de algo maior, uma espécie de ensaio geral para ambições mais amplas.
E
foi justamente isso que veio a seguir, com a sofisticação de quem aprende
rápido e com eficiência. O Petrolão, como ficou conhecido, não foi
apenas um escândalo; foi uma mudança de patamar. Se antes a engrenagem girava
em torno de pagamentos diretos para assegurar apoio político, agora ela se
expandia para o coração das grandes estatais, transformando contratos, obras e
licitações em canais de irrigação financeira de proporções bilionárias. As
cifras, que já não cabiam mais em anotações discretas, passaram a exigir
gráficos em Power Point, relatórios e investigações de fôlego, revelando perdas
que chegaram à casa das dezenas de bilhões de reais, dependendo do critério
adotado. O país, que já havia se acostumado a pequenos sobressaltos, percebeu
então que a corrupção também podia crescer como uma empresa bem-sucedida, com
planejamento, escala e diversificação de portfólio.
E
como toda grande engrenagem precisa de método, veio à luz um dos capítulos mais
pitorescos — e reveladores — dessa história: as célebres planilhas de
propina da Odebrecht, verdadeiras obras de criatividade aplicada ao
ilícito, nas quais políticos deixavam de ser nomes e passavam a ser
personagens, identificados por apelidos que
iam do afetuoso ao francamente irônico, como Amante, Lindinho e Decrépito.
Não se tratava de improviso, mas de um sistema organizado, com registros,
códigos e controle, como se a corrupção houvesse sido promovida a departamento
formal, com direito a fluxo de caixa e metas implícitas a conquistar. Contas na
Suíça eram abastecidas com centenas de milhões de dólares para irrigar o
esquema, com destaque para propinas ligadas ao Partido então no poder. Quem
quiser entender a engrenagem em seus detalhes mais íntimos encontrará no livro A
Organização, de Malu Gaspar, um retrato minucioso dessa
arquitetura, em que a clandestinidade não excluía a disciplina e onde o
improviso brasileiro cedia lugar a uma eficiência de relógio suíço.
As campeãs
nacionais Odebrecht, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão e OAS realizaram obras no
exterior, especialmente em países ditatoriais, próximos da companheirada
petista, como Cuba, Venezuela, Equador, Angola, financiadas com dinheiro do
BNDES, com garantia do Tesouro Nacional. Cuba e Venezuela já devem R$ 4,6
bilhões, em 2026, um calote longe de ser desfeito.
O
mais intrigante, contudo, não está apenas nos números, mas na sensação de
familiaridade que eles provocam. Mudam-se os governos, ajustam-se os discursos,
trocam-se os personagens de lugar — alguns mais discretos, outros mais
expansivos, uns mais afeitos a gabinetes, outros a ambientes mais festivos,
como degustação de uísque em Londres e festanças com modelos nórdicas em
Trancoso —, e ainda assim o enredo mantém uma surpreendente fidelidade a si
mesmo, como se obedecesse a um roteiro já testado e aprovado. Há, nisso tudo,
algo de realismo mágico, mas não daquele exuberante e colorido descrito por
Gabriel García Márquez, e sim de uma variante contábil, na qual cifras
desaparecem, reaparecem e se reorganizam com uma naturalidade desconcertante.
Enquanto
isso, o cidadão comum segue sua rotina com a resignação pragmática de quem já
entendeu que a indignação, no Brasil, precisa ser administrada com parcimônia
para não se tornar insustentável. Ele paga seus impostos como quem mantém uma
assinatura que não lembra de ter contratado, mas que continua sendo debitada
mês após mês, com a vaga sensação de que está financiando um espetáculo ao qual
nunca foi formalmente convidado. Observa, de longe, as notícias, os escândalos,
as reviravoltas, as descondenações e enterro da Lava Jato, e desenvolve
uma espécie de ceticismo funcional, que lhe permite seguir adiante sem sucumbir
ao espanto permanente nestes Restos
de Brasil.
Há
quem insista em tratar a corrupção como desvio, como exceção a um sistema que,
em tese, funcionaria bem não fossem alguns maus atores. Mas, quando se alinham
os episódios ao longo do tempo, começa a emergir outra leitura, menos
indulgente e talvez mais incômoda: a de que não se trata de um acidente, mas de
um padrão; não de uma falha, mas de um método. O Mensalão, nesse sentido, teria
sido a fase de estruturação clePTopolítica; o Petrolão, a expansão econômica; e
os desdobramentos mais recentes, como o assalto aos velhinhos do INSS e o
enredo orgíaco do Casanova de Trancoso à frente do Banco Master, a manutenção
de um modelo que se adapta às circunstâncias sem perder sua lógica interna.
Os
números ajudam a compor esse quadro, ainda que não o esgotem. Estimativas
apontam que a corrupção pode custar ao país centenas de bilhões de reais por
ano, não apenas em valores diretamente desviados, mas também em ineficiência,
distorções e oportunidades perdidas. Trata-se de uma espécie de erosão
contínua, menos espetacular do que uma crise aguda de Covid, mas igualmente —
ou talvez mais — danosa ao longo do tempo. É como uma infiltração persistente:
no início, parece apenas um detalhe incômodo; quando se percebe, a estrutura
inteira já foi comprometida e está colapsando.
E
assim voltamos ao rombo, esse velho conhecido que insiste em marcar presença,
governo do PT após governo do PT, como um personagem que se recusa a deixar o
palco. Ora cresce, ora diminui, ora muda de roupagem, mas permanece ali,
lembrando que, no Brasil, certos problemas não são propriamente resolvidos,
apenas administrados, reconfigurados ou, no máximo, temporariamente
disfarçados.
A
comparação com uma pandemia, portanto, pode soar exagerada à primeira vista,
mas guarda uma ironia reveladora. A pandemia assusta pela velocidade com que se
instala e pelos efeitos imediatos que provoca, com centenas de covas sendo abertas
no cemitério; o rombo, por sua vez, assusta pela constância, pela capacidade de
se infiltrar no cotidiano e de produzir consequências que se acumulam
silenciosamente ao longo dos anos. Um é um evento; o outro, um processo. E
processos, como se sabe, são mais difíceis de interromper do que eventos.
No
fim das contas, talvez o brasileiro já tenha feito as pazes com essa realidade,
não por concordar com ela, mas por reconhecê-la como parte do cenário em que
vive. Entre vírus e planilhas, entre discursos e investigações, entre déficits
e promessas de ajuste, ele segue adiante, sustentado por uma combinação
peculiar de humor, resignação e esperança intermitente. E, ao olhar para esse
conjunto de números, escândalos e recorrências, talvez chegue à conclusão mais
simples — e, por isso mesmo, mais perturbadora — de todas: no Brasil, o
problema nunca foi exatamente a falta de recursos, mas a forma como
desaparecem, reaparecem e, sobretudo, deixam de cumprir o destino que deveriam
ter.
Afinal,
desde os tempos do Mensalão à atualidade, em quanto o cidadão brasileiro já foi
lesado? É um número difícil de fechar, por envolver um cipoal de maracutaias
nunca antes visto neste País. Há quem afirme que o valor estimado está entre R$
50 bilhões e R$ 80 bilhões, excluindo a roubalheira recente no INSS e o caso do
Banco Master, que deve ser muito maior do que aqueles números.
P. S.:
França 2 x 1 Brasil (26/03/2026, em Boston, EUA)
Vai,
Brasa!
Vai,
Brasa!
Vai,
Brasa! em campo o azul se faz mistério,
Tecido caro em fios de estranha sina.
Na camisa, um vulto — sombra toxina —
Insinua um vil disfarce deletério.
A fé
já não sustenta o império
Que outrora foi de arte cristalina:
Pelé a luz, Garrincha a ginga divina,
Paira no ar um eco de vitupério.
Cadê
Didi, Vavá, o riso de Ronaldinho?
E o golpe exato de Romário na área?
Hoje o talento é sopro mais franzino.
Se
há pacto oculto em noite temerária,
Que a rede balance, enfim, nesse destino,
Mas não venda a alma a vil imaginária.


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