MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

sexta-feira, 27 de março de 2026

O PT é mais letal que a Covid-19 - Por Félix Maier

 


 O PT É MAIS LETAL QUE A COVID-19

Félix Maier

Houve um tempo, não muito distante, em que o brasileiro temia vírus invisíveis, desses que se espalham pelo ar, rondam maçanetas e entram pela porta sem pedir licença. Depois, como quem amadurece na marra, passou a temer algo bem mais sutil e persistente: números. Não números quaisquer, mas aqueles que aparecem no fim do ano, no rodapé dos relatórios, nas entrelinhas das contas públicas — números que não tossem, não espirram, mas deixam sequelas prolongadas. O vírus vinha com febre; o déficit vem com hábito. E, no Brasil, convenhamos, o hábito costuma ser mais difícil de erradicar.

Tudo começa com um susto aparentemente banal, desses que não merecem manchete de primeira página, mas que, repetidos com a regularidade de um relógio suíço — ou de uma repartição tropical —, acabam se tornando um modo de vida. Abre-se o balanço das estatais, passa-se o olho com a displicência de quem já espera o pior, e lá está ele, o velho conhecido: o rombo. Em 2023, rombo de R$ 2,2 bilhões; em 2024, um rombo mais encorpado, de R$ 6,73 bilhões; em 2025, outro rombo, de R$ 5,1 bilhões, já com ares de reincidência respeitável. Segundo o Banco Central, o rombo no período seria entre 14 e 15 bilhões de reais. Quanta saudade do Governo Jair Bolsonaro, que em 2019 conseguiu superávit de R$ 10,3 bilhões nas estatais! É por isso que o PT e seus genéricos foram contra a privatização dos Correios, sugerida por Bolsonaro. Como iria continuar o rombo?

O que chama a atenção é a persistência do método, a coerência interna de um sistema que, longe de parecer acidental, revela uma impressionante continuidade histórica. Não se trata de um tropeço ocasional, de um erro técnico ou de uma planilha mal preenchida por um funcionário distraído; trata-se de algo mais elaborado, mais resiliente, pedagógico em sua repetição. O rombo — ou roubo, se o leitor preferir — faz parte do Plano de Governo do PT, sempre fez.

Quem olhar com um pouco de memória há de lembrar que essa história não começou ontem. Houve um capítulo inaugural, didático até, em que o país descobriu que a governabilidade podia ser organizada em parcelas mensais, com direito a calendário, regularidade e, por assim dizer, fidelização de clientes. Chamaram aquilo de Mensalão, talvez por uma feliz coincidência linguística ou por uma sinceridade involuntária, e ali se desenhou um modelo no qual o apoio político deixava de ser uma construção abstrata para se tornar um fluxo financeiro concreto, previsível, administrativo. Os valores envolvidos, que na época escandalizaram a República, hoje soam quase modestos, como se fossem o rascunho de algo maior, uma espécie de ensaio geral para ambições mais amplas.

E foi justamente isso que veio a seguir, com a sofisticação de quem aprende rápido e com eficiência. O Petrolão, como ficou conhecido, não foi apenas um escândalo; foi uma mudança de patamar. Se antes a engrenagem girava em torno de pagamentos diretos para assegurar apoio político, agora ela se expandia para o coração das grandes estatais, transformando contratos, obras e licitações em canais de irrigação financeira de proporções bilionárias. As cifras, que já não cabiam mais em anotações discretas, passaram a exigir gráficos em Power Point, relatórios e investigações de fôlego, revelando perdas que chegaram à casa das dezenas de bilhões de reais, dependendo do critério adotado. O país, que já havia se acostumado a pequenos sobressaltos, percebeu então que a corrupção também podia crescer como uma empresa bem-sucedida, com planejamento, escala e diversificação de portfólio.

E como toda grande engrenagem precisa de método, veio à luz um dos capítulos mais pitorescos — e reveladores — dessa história: as célebres planilhas de propina da Odebrecht, verdadeiras obras de criatividade aplicada ao ilícito, nas quais políticos deixavam de ser nomes e passavam a ser personagens, identificados por apelidos que iam do afetuoso ao francamente irônico, como Amante, Lindinho e Decrépito. Não se tratava de improviso, mas de um sistema organizado, com registros, códigos e controle, como se a corrupção houvesse sido promovida a departamento formal, com direito a fluxo de caixa e metas implícitas a conquistar. Contas na Suíça eram abastecidas com centenas de milhões de dólares para irrigar o esquema, com destaque para propinas ligadas ao Partido então no poder. Quem quiser entender a engrenagem em seus detalhes mais íntimos encontrará no livro A Organização, de Malu Gaspar, um retrato minucioso dessa arquitetura, em que a clandestinidade não excluía a disciplina e onde o improviso brasileiro cedia lugar a uma eficiência de relógio suíço.

As campeãs nacionais Odebrecht, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão e OAS realizaram obras no exterior, especialmente em países ditatoriais, próximos da companheirada petista, como Cuba, Venezuela, Equador, Angola, financiadas com dinheiro do BNDES, com garantia do Tesouro Nacional. Cuba e Venezuela já devem R$ 4,6 bilhões, em 2026, um calote longe de ser desfeito.

O mais intrigante, contudo, não está apenas nos números, mas na sensação de familiaridade que eles provocam. Mudam-se os governos, ajustam-se os discursos, trocam-se os personagens de lugar — alguns mais discretos, outros mais expansivos, uns mais afeitos a gabinetes, outros a ambientes mais festivos, como degustação de uísque em Londres e festanças com modelos nórdicas em Trancoso —, e ainda assim o enredo mantém uma surpreendente fidelidade a si mesmo, como se obedecesse a um roteiro já testado e aprovado. Há, nisso tudo, algo de realismo mágico, mas não daquele exuberante e colorido descrito por Gabriel García Márquez, e sim de uma variante contábil, na qual cifras desaparecem, reaparecem e se reorganizam com uma naturalidade desconcertante.

Enquanto isso, o cidadão comum segue sua rotina com a resignação pragmática de quem já entendeu que a indignação, no Brasil, precisa ser administrada com parcimônia para não se tornar insustentável. Ele paga seus impostos como quem mantém uma assinatura que não lembra de ter contratado, mas que continua sendo debitada mês após mês, com a vaga sensação de que está financiando um espetáculo ao qual nunca foi formalmente convidado. Observa, de longe, as notícias, os escândalos, as reviravoltas, as descondenações e enterro da Lava Jato, e desenvolve uma espécie de ceticismo funcional, que lhe permite seguir adiante sem sucumbir ao espanto permanente nestes Restos de Brasil.

Há quem insista em tratar a corrupção como desvio, como exceção a um sistema que, em tese, funcionaria bem não fossem alguns maus atores. Mas, quando se alinham os episódios ao longo do tempo, começa a emergir outra leitura, menos indulgente e talvez mais incômoda: a de que não se trata de um acidente, mas de um padrão; não de uma falha, mas de um método. O Mensalão, nesse sentido, teria sido a fase de estruturação clePTopolítica; o Petrolão, a expansão econômica; e os desdobramentos mais recentes, como o assalto aos velhinhos do INSS e o enredo orgíaco do Casanova de Trancoso à frente do Banco Master, a manutenção de um modelo que se adapta às circunstâncias sem perder sua lógica interna.

Os números ajudam a compor esse quadro, ainda que não o esgotem. Estimativas apontam que a corrupção pode custar ao país centenas de bilhões de reais por ano, não apenas em valores diretamente desviados, mas também em ineficiência, distorções e oportunidades perdidas. Trata-se de uma espécie de erosão contínua, menos espetacular do que uma crise aguda de Covid, mas igualmente — ou talvez mais — danosa ao longo do tempo. É como uma infiltração persistente: no início, parece apenas um detalhe incômodo; quando se percebe, a estrutura inteira já foi comprometida e está colapsando.

E assim voltamos ao rombo, esse velho conhecido que insiste em marcar presença, governo do PT após governo do PT, como um personagem que se recusa a deixar o palco. Ora cresce, ora diminui, ora muda de roupagem, mas permanece ali, lembrando que, no Brasil, certos problemas não são propriamente resolvidos, apenas administrados, reconfigurados ou, no máximo, temporariamente disfarçados.

A comparação com uma pandemia, portanto, pode soar exagerada à primeira vista, mas guarda uma ironia reveladora. A pandemia assusta pela velocidade com que se instala e pelos efeitos imediatos que provoca, com centenas de covas sendo abertas no cemitério; o rombo, por sua vez, assusta pela constância, pela capacidade de se infiltrar no cotidiano e de produzir consequências que se acumulam silenciosamente ao longo dos anos. Um é um evento; o outro, um processo. E processos, como se sabe, são mais difíceis de interromper do que eventos.

No fim das contas, talvez o brasileiro já tenha feito as pazes com essa realidade, não por concordar com ela, mas por reconhecê-la como parte do cenário em que vive. Entre vírus e planilhas, entre discursos e investigações, entre déficits e promessas de ajuste, ele segue adiante, sustentado por uma combinação peculiar de humor, resignação e esperança intermitente. E, ao olhar para esse conjunto de números, escândalos e recorrências, talvez chegue à conclusão mais simples — e, por isso mesmo, mais perturbadora — de todas: no Brasil, o problema nunca foi exatamente a falta de recursos, mas a forma como desaparecem, reaparecem e, sobretudo, deixam de cumprir o destino que deveriam ter.

Afinal, desde os tempos do Mensalão à atualidade, em quanto o cidadão brasileiro já foi lesado? É um número difícil de fechar, por envolver um cipoal de maracutaias nunca antes visto neste País. Há quem afirme que o valor estimado está entre R$ 50 bilhões e R$ 80 bilhões, excluindo a roubalheira recente no INSS e o caso do Banco Master, que deve ser muito maior do que aqueles números.


P. S.:

França 2 x 1 Brasil (26/03/2026, em Boston, EUA)

Vai, Brasa!

 

Vai, Brasa!

Vai, Brasa! em campo o azul se faz mistério,
Tecido caro em fios de estranha sina.
Na camisa, um vulto — sombra toxina —
Insinua um vil disfarce deletério.

A fé já não sustenta o império
Que outrora foi de arte cristalina:
Pelé a luz, Garrincha a ginga divina,
Paira no ar um eco de vitupério.

Cadê Didi, Vavá, o riso de Ronaldinho?
E o golpe exato de Romário na área?
Hoje o talento é sopro mais franzino.

Se há pacto oculto em noite temerária,
Que a rede balance, enfim, nesse destino,
Mas não venda a alma a vil imaginária.


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