MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

sexta-feira, 6 de março de 2026

Arcabouço Fiscal & Sicário - Por Félix Maier

 

Paulo Freire e sua Pedagogia do Oprimido
 

Arcabouço fiscal & Sicário

Félix Maier

O Brasil sempre foi um país generoso em novidades inesperadas. Não apenas nas safras de frutas tropicais (faz duas colheitas de uva por ano no Cerrado), nos modismos musicais ou nas promessas eleitorais que brotam a cada quatro anos com vigor de cogumelo em bosta de vaca no potreiro. Também na linguagem oficial, que de tempos em tempos resolve presentear o povo com uma palavra nova, dessas que ninguém nunca ouviu, mas que de repente passam a frequentar jornais, discursos, entrevistas e pronunciamentos como se fossem velhas conhecidas da família.

Foi assim, por exemplo, com arcabouço.

Até pouco tempo atrás, essa palavra vivia quieta no fundo dos dicionários, como um objeto antigo guardado em armário de biblioteca municipal. De repente, saltou das páginas amareladas para a boca das autoridades. Surgiu com solenidade técnica, gravata bem passada e expressão professoral: arcabouço fiscal.

Na semana seguinte, o país já estava alfabetizado na nova palavra, mesmo sem ajuda de Paulo Freire.

Arcabouço pra cá.

Arcabouço pra lá.

Arcabouço em discurso.

Arcabouço em funk.

Arcabouço em PowerPoint.

Parecia nome de bloco de carnaval.

O brasileiro médio, que até então lidava com vocábulos econômicos mais diretos — imposto, inflação, dívida, rombo — passou a ouvir, repetidas vezes, essa palavra de sabor vagamente medieval. Arcabouço. Arcabouço fiscal. Arcabouço das contas públicas.

Nas rádios, nos telejornais, nos debates de especialistas, nos gráficos coloridos dos noticiários, lá estava ela, repetida com entusiasmo didático até pelo professor Pasquale Cipro Neto, como se fosse indispensável para a sobrevivência da República.

A curiosidade popular foi inevitável. Afinal, que diabo seria um arcabouço?

Consultados os dicionários — Aurélio, Houaiss, Michaelis, Aulete e demais autoridades lexicográficas — descobriu-se que arcabouço é, essencialmente, uma estrutura, uma armação, um conjunto de peças que sustenta alguma coisa. Em termos anatômicos, quase um esqueleto.

A revelação foi esclarecedora.

Se o arcabouço é o esqueleto — concluiu muita gente —, então o tal arcabouço fiscal seria a ossatura do sistema econômico. O problema é que, na prática brasileira, esqueletos raramente aparecem sem fantasmas por perto. Era o que dizia a prefeita petista Luíza Erundina sobre as Ossadas de Perus, em Sampa.

E foi então que alguém, com aquela sagacidade popular que nenhuma universidade consegue ensinar, fez a tradução espontânea: aquilo que estava sendo vendido como arcabouço fiscal parecia, na verdade, um calabouço fatal.

Porque, no fundo, o mecanismo tinha uma função bastante simples: organizar a maneira como o Estado continuaria arrecadando, gastando e justificando a necessidade de arrecadar ainda mais.

E arrecadar, convenhamos, não é tarefa trivial quando se precisa alimentar uma máquina pública que ostenta algo próximo de quarenta ministérios — número que transforma a Esplanada dos Ministérios numa espécie de condomínio administrativo de luxo, com direito a elevadores políticos, assessores de todas as cores ideológicas e despesas que crescem com a voluptuosidade de capim depois de chuva grossa.

Manter essa engrenagem funcionando exige criatividade fiscal. E criatividade fiscal, no Brasil, costuma significar uma engenhosa multiplicação de impostos, contribuições, taxas, contribuições sobre taxas e taxas sobre contribuições. Tudo, naturalmente, dentro de um sólido arcabouço fiscal que nada fiscaliza, só gasta. E lindamente endossado pelo IBGE de Harry Pochmann, o mago engolidor de números.

Mas o enriquecimento cultural do povo brasileiro não parou aí. Quando a nação ainda se acostumava a pronunciar arcabouço sem tropeçar na sílaba bou, se era com ç ou ss, surgiu outra palavra nova, dessas que parecem saídas de romance policial ambientado junto as máfias da Sicília: Sicário.

Durante alguns dias, o país mergulhou em mais uma aula involuntária de vocabulário. Não que no Brasil nunca tivesse havido sicários. Deve haver mais do que na Sicília, com certeza. Mas não com esse nome.

Sicário, explicaram jornais e comentaristas, vem do latim sicarius e designava originalmente o indivíduo que usava um punhal — a sica — para eliminar desafetos. Em português contemporâneo, a definição é mais direta: assassino de aluguel.

O termo apareceu ligado a um episódio envolvendo o chefão de uma instituição financeira, o Banco Master, liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central, e um personagem descrito como executor profissional de serviços nada ortodoxos, que era conhecido como Sicário. De repente, o noticiário estava repleto de análises sobre o tal Sicário. Especialistas discutiam suas conexões, comentaristas descreviam sua função no suposto esquema, e até professores universitários eram convocados para explicar a origem histórica do vocábulo.

O brasileiro comum, que até então nunca tinha usado a palavra na vida, começou a experimentá-la na conversa cotidiana, com certo cuidado fonético, como quem testa um sapato novo: si-cá-rio.

Mas a pedagogia nacional tem dessas ironias. Assim como apareceu de repente, o personagem central da história desapareceu com a velocidade de uma punhalada dada no Imbroxável, em 2018.

O Sicário — com inicial maiúscula, porque é nome próprio — morreu quando deu entrada na Polícia Federal, em Belo Horizonte. Dizem que tentou o suicídio. Morte encefálica, disseram, que já é considerada morte morrida, ainda que esteja em estado de coma. Ainda não se sabe se algum ministro do STF mandou sequestrar as imagens de vídeo naquela instituição.

Sicário morreu sob custódia oficial, dentro de uma repartição onde, em tese, a segurança deveria ser absoluta. A notícia foi divulgada com aquela cautela burocrática que caracteriza episódios incômodos. Falou-se em morte súbita, em circunstâncias a esclarecer, em investigações internas.

O povo, que mal havia terminado de aprender a nova palavra, ficou com a impressão de que o capítulo da nova novela tinha sido encerrado cedo demais. Alguns preferiram classificar o episódio com uma expressão antiga e muito brasileira: queima de arquivo. Foi uma morte matada, dizem, não morrida.

Outros limitaram-se a observar que, neste país de vocabulário sempre renovado, personagens costumam desaparecer antes mesmo que a plateia consiga decorar seus nomes.

Foi assim com Paulo César Farias. Foi assim com o prefeito de Santo André, Celso Daniel. Foi assim com a queda suspeita do avião em que viajava o ministro do STF, Teori Zavascki. Na República Federativa dos Bandidos, tudo passou a ser suspeito, especialmente as tias do Zap e as velhinhas com Bíblia na mão no 8 de janeiro.

Enquanto se discute se Sicário está de fato morto, os maiorais da República Federativa dos Bandidos estão discutindo como apresentar a melhor narrativa da morte do criminoso a seus eleitores. Esse cara não pode abrir a boca, tem muita coisa pra contar. Com frio na espinha, já devem estar fazendo lobyy na PF ou no IML, para que o sujeito seja imediatamente sepultado ou cremado.

Afinal, a podridão envolvendo o Banco Master atingiu a alta cúpula dos Três Poderes em Brasília, da extrema direita aos extremos radicais da esquerda — sem falar nas festas orgíacas ocorridas no Caribe, em Lisboa, em Trancoso, na Alameda Lorena, com mulheres espetaculares trazidas da Europa, com cachês de fazer inveja aos jogadores da Premier League. Imagina aparecer a foto ou o vídeo de um senador sisudo, moralista, com uma loira no colo e um copo de uísque na mão...

Enquanto isso, o arcabouço fiscal continuava avançando como um trem de carga administrativo, acompanhado de gráficos técnicos, entrevistas tranquilizadoras e promessas de equilíbrio das contas públicas feitas por Haddinho das Finanças – ainda que o rombo fiscal  nos últimos três anos seja acima de 1 trilhão de reais.

No plano político, porém, a paisagem permanecia fiel às tradições nacionais. Surgiam novas investigações, novas comissões parlamentares de inquérito e novos escândalos envolvendo estruturas públicas que deveriam proteger justamente os cidadãos mais frágeis.

Entre eles, os aposentados.

Notícias sobre irregularidades no sistema previdenciário voltaram a circular, trazendo à tona denúncias de descontos indevidos e fraudes que atingiam justamente aqueles que já haviam contribuído durante toda a vida laboral.

Alguns personagens eram mencionados com frequência. Outros, curiosamente, pareciam atravessar a tempestade com impressionante impermeabilidade jurídica. Blindagens institucionais — palavra elegante para designar a antiga arte de sobreviver politicamente — pareciam funcionar com eficiência admirável. Como costuma acontecer nesses episódios, nomes conhecidos demais precisaram de rápida ajuda na CPMI do INSS, como o irmão e o filho do Ogro de Nove Dedos, rapidamente blindados por um serviçal petista, Flávio Dino, colocado no Supremo pelo... pelo... próprio Ogro.

E assim o país prosseguia sua rotina peculiar: um lugar onde o cidadão aprende novas palavras com rapidez surpreendente, enquanto tenta compreender os enredos igualmente complexos que elas descrevem.

Arcabouço.

Sicário.

CPI.

INSS.

Banco Master.

Narrativa.

Expressões que vão entrando no vocabulário nacional como personagens de um grande romance coletivo, um romance que mistura economia, política, escândalo e humor involuntário.

No fim das contas, talvez seja essa a verdadeira vocação pedagógica da República Federativa dos Bandidos: ensinar linguística aplicada à realidade.

Porque, no Brasil, o povo pode até não entender completamente os mecanismos técnicos do poder, mas acaba desenvolvendo um faro quase infalível para traduzir discursos oficiais em linguagem doméstica.

E nessa tradução popular, às vezes implacável, o elegante arcabouço fiscal corre o risco permanente de virar apenas aquilo que muitos suspeitam desde o começo: um calabouço cuidadosamente decorado para jogar o contribuinte lá dentro.

Ah! E o Sicário? Continua em coma? Ainda não mexeu sequer o dedo indicador, o dedo do gatilho? Já pode ser enterrado?



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