MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

segunda-feira, 9 de março de 2026

Rachadinha e Rachadão - Por Félix Maier

 

Rachadinha e Rachadão

Félix Maier

  Rachadinha e Rachadão bem que poderia ser o nome de uma dupla sertaneja cantando nos inferninhos do entorno de Goiânia. Um violão desafinado, uma sanfona cansada e dois sujeitos de chapelão cantando sofrência orçamentária: Você levou meu coração… e metade do salário do assessor. Seria até poético. No intervalo entre uma moda de viola e outra, venderiam CD pirata e selfies com eleitores arrependidos. Mas não. No Brasil, como sempre acontece, a realidade consegue ser mais criativa que a piada.

  O Brasil é um país de dimensões continentais e de imaginação política igualmente continental. Aqui se inventou o samba, o pão de queijo, a jabuticaba em tronco de árvore e uma série de modalidades administrativas que fariam corar até um pirata caribenho com pós-graduação em pilhagem na Malásia nos tempos de Sandokan.

  Entre essas invenções nacionais, uma merece destaque especial: a rachadinha. Não é exatamente uma instituição formal — ainda não aparece no Diário Oficial nem no currículo de nenhum curso de administração pública, como da ENAP — mas está tão disseminada na prática política que poderia muito bem ser considerada patrimônio imaterial de nossa República Federativa dos Bandidos.

    Mas antes de falar da rachadinha, precisamos voltar ao grande campeonato nacional de 2022. O campeonato dos extremos

   Em 2022, a disputa pela Presidência da República foi um espetáculo que nenhum roteirista de novela teria coragem de escrever. Era o tipo de roteiro que faria um editor de televisão dizer:

    — Não, isso está exagerado demais. O público não vai acreditar.

    Mas o público brasileiro acredita em tudo, especialmente quando vota.

    O campeonato dos campeonatos colocou frente a frente duas figuras que poderiam muito bem ser personagens de uma tragicomédia mexicana ou turca: de um lado, o Cavalão; do outro, o Ladrão.

    Mais de sessenta milhões de brasileiros, num gesto cívico que mistura fé, resignação e talvez uma pitada de masoquismo eleitoral, fizeram o famoso L de Ladrão, trazendo o velho personagem pela terceira vez de volta à cena do crime, como havia dito anos antes seu Vice, Geraldo Alckmin. O Picolé de Chuchu achou que seria a última oportunidade para assinar documentos oficiais como Presidente, o que poderia fazer inúmeras vezes, pois o Ogro recém-casado iria promover uma lua-de-mel de quatro anos de duração mundo afora. Esperto, esse Chuchu!

    E assim começou o segundo ato de uma peça que muitos juravam já ter terminado. Surge o desafio de 2026

  Mas a história brasileira não gosta de finais tranquilos. Ela prefere continuações, reviravoltas, cenas picantes e sequências improváveis, como Game of Thrones.

    Por isso, o ano de 2026 promete uma nova batalha épica, uma competição master para o maior cargo público do Brasil. De um lado estará Rachadinha. Do outro, o temido Rachadão.

    A missão de Rachadinha será muito difícil: impedir que Rachadão, com toda a máquina administrativa e cartão corporativo a seu lado, conquiste o tetra. Um cartão master, de gastos sigilosos de R$ 1,4 bilhão em três anos. Rachadão já merece o convite de um Amex Black e de um J. P. Morgan Reserve.

    Não será tarefa simples para Rachadinha.

    Quem viu o filme A Substância, com Demi Moore, sabe que certas coisas parecem impossíveis de destruir. Elas se regeneram, voltam à vida e continuam caminhando como se nada tivesse acontecido. É o caso de Rachadão, que se renova a cada campanha eleitoral.

    Na política brasileira ocorre algo parecido.

    A arte da rachadinha

    A rachadinha, para quem não está familiarizado com os costumes parlamentares tropicais, é um método administrativo simples e engenhoso.

    Funciona assim:    

    1. O político contrata um aspone.

    2. O aspone recebe salário público.

    3. Parte do salário do aspone retorna discretamente ao bolso do político.

    É um sistema circular, quase ecológico, como PET de refrigerante. O dinheiro sai do contribuinte, passa pelo gabinete e retorna ao ponto de origem, o político. A rachadinha é uma espécie de dízimo político, só que a igreja fica dentro do gabinete. Outros preferem chamar de economia compartilhada, de justiça social, pois ajuda a sustentar uma outra família.

De qualquer forma, a prática é tão comum no Brasil quanto bebê tomando vacina. Às vezes o bebê chora, às vezes o contribuinte chora, mas o procedimento continua.

O caso mais famoso de rachadinha envolveu Flávio Bolsonaro, então deputado estadual no Rio de Janeiro, por volta de 2016. Mas o curioso é que, naquele episódio, ele nem era o grande atacante do erário.

Segundo reportagens, o verdadeiro craque da arrecadação era o então presidente da Assembleia Legislativa, André Ceciliano, do PT, que teria movimentado cerca de 49,3 milhões de reais, enquanto Flávio aparecia com modestos 1,3 milhão. É quase como comparar um batedor de pênaltis com um artilheiro de Copa do Mundo.

Em 2018, o caso ganhou novas cores quando surgiu o nome de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro. Um relatório do COAF apontou movimentações financeiras consideradas atípicas — cerca de 1,2 milhão de reais. Obviamente, o massacre na mídia, cada dia mais forte, foi pura coincidência, claro... Era o ano de campanha presidencial de Jair Bolsonaro, e de campanha ao Senado, de Flávio Bolsonaro. André Ceciliano, claro, nunca era citado.

A partir daí começou uma investigação que se arrastou por dois anos, com acusações de fraude, peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

No entanto, em 2021, o Superior Tribunal de Justiça anulou decisões do processo por questões processuais. As provas derivadas da quebra de sigilo foram invalidadas. Flávio Bolsonaro havia passado pela tempestade sem ser preso.

E assim terminou mais um capítulo da famosa novela jurídica brasileira: Provas anuladas — capítulo final (até a próxima temporada).

Nesse meio tempo, já como senador, Flávio Bolsonaro comprou uma mansão em Brasília, no valor de R$ 6 milhões. A imprensa e os políticos do PT e do Piçol, sempre muito curiosos com o sucesso imobiliário alheio, perguntaram de onde tinha vindo tanto dinheiro. Flávio afirmou que a metade do imóvel foi financiado pelo BRB. Também explicou que possuía uma loja de chocolates extremamente lucrativa no Rio, algo entre Kopenhagen e Cacau Show.

É possível.

Chocolate realmente é um negócio doce, especialmente na boca de crianças e idosos sem dentes. Alguns chocolates derretem na boca. Outros parecem derreter investigações.

Mas se Rachadinha tem suas histórias, o adversário — o temido Rachadão — possui uma biografia que mais parece enciclopédia da Barsa e da Mirador. Estamos falando do lendário Luiz Inácio Lula da Silva, também conhecido entre críticos como o Ogro de Nove Dedos.

Seu currículo judicial inclui episódios memoráveis como o Triplex do Guarujá e o Sítio de Atibaia, que resultaram em condenação superior a 12 anos de prisão.

As condenações passaram por três instâncias, por unanimidade, com placar final de 9 a 0. Mas o Brasil é um país que acredita em milagres, principalmente os milagres jurídicos. Não é só o ex-ministro da Fazenda Pedro Malan que desconfia que no Brasil, o passado é cada vez mais incerto.

Depois de ser preso, em 2018, e passar 580 dias em um quarto confortável na sede da Polícia Federal de Curitiba, onde recebia visitas do Brasil e do exterior, como Pepe Mujica (e até arranjou uma namorada, com quem se casou), o Rachadão foi libertado após decisão do Supremo Tribunal Federal.

Por 8 votos a 3, o Tribunal aparelhado pelo Ogro e por Dilma considerou que os processos deveriam tramitar em outra jurisdição. O CEP de Curitiba estava errado, garantiu o cabo eleitoral de Dilma Rousseff, Edson Fachin. Deveria ter ido para Brasília.

Resultado: o Ogro foi descondenado. Limpinho de corpo e alma, como neném recém-batizado. E voltou ao jogo político.

Um juiz da Lava Jato determinou o bloqueio de R$ 78 milhões em bens de Lula, o Pai dos Pobres, em 2016. Marcelo Odebrecht afirma que fez pagamento de 50 milhões a Lula, confirmado por Palocci. E pelo menos 100 milhões de dólares foram depositados pela Odebrecht na Suíça, para pagamento de propinas, especialmente ao PT.

Questionado sobre a origem da fortuna, Lula explicou que era fruto de palestras realizadas no Brasil e no exterior.

Palestras extremamente bem pagas. Tão bem pagas que alguns imaginaram que talvez não fossem palestras comuns. Talvez fossem conferências escritas em placas de titânio com tinta de ouro, guardadas em cofres suíços e lidas apenas por bilionários discretos.

Dizem que poucas dessas palestras ficaram disponíveis ao público. Eu não cheguei a ler uma sequer. Talvez tenham sido apresentações espirituais, só voz, sem gravação, sem foto, nada de papel e tinta, nem streaming.

Outro episódio digno de registro foi a mudança do Palácio da Alvorada ao final do mandato presidencial de Rachadão. Foram 11 caminhões. Um deles, dizem, transportava apenas bebidas. Entre os objetos surrupiados, havia 559 presentes recebidos durante o mandato.

Alguns observadores lembraram que tais presentes pertencem à Presidência da República, não ao Presidente da República. Que precisam ser guardados em local seguro, num museu, para preservação da história diplomática do Brasil. Como foi o caso das joias e relógios recebidos por Jair Bolsonaro (O PGR pediu o arquivamento do inquérito). Mas lapsos acontecem.

Depois, parte dos itens levados pelo Rachadão foi devolvida, outros pagos, e alguns talvez tenham decidido fazer turismo permanente em algum lugar misterioso do planeta, como cofre suíço ou panamenho.

E assim chegamos à grande corrida presidencial de 2026.

De um lado: Rachadinha, o candidato que terá de explicar chocolates, assessores, depósitos e mansões.

Do outro: Rachadão, o veterano que carrega uma coleção inteira de processos, condenações, prisão, condenações anuladas, mudanças palacianas e palestras milionárias.

Será um racha histórico.

Nunca antes na história deste país dois candidatos chegaram à largada com currículos tão robustos.

A diferença entre Rachadinha e Rachadão é mais ou menos como a diferença entre roubar galinha no quintal do vizinho e abrir um frigorífico inteiro dentro do galinheiro público. Na primeira modalidade, o dinheiro volta em parcelas modestas, quase domésticas, suficientes para pagar um churrasco político de fim de semana. Na segunda, o volume é tão generoso que exige planilhas, operadores financeiros e, às vezes, até palestras sobre ética para manter a aparência institucional.

No fundo, trata-se de uma pedagogia nacional. O cidadão aprende desde cedo que existe o furto de varejo e o furto de atacado. O primeiro, de Rachadinha, é considerado feio, pequeno, quase amador, coisa de pivete. O segundo, de Rachadão, quando bem executado, ganha nome de esquema, sistema ou mecanismo, palavras elegantes que soam quase acadêmicas para Correião, Mensalão, Petrolão, Idosão (roubo de velhinhos no INSS). A máfia italiana deve estar morrendo de inveja. Assim, o país vai formando gerações de especialistas em criatividade orçamentária, enquanto o contribuinte, esse eterno patrocinador do espetáculo, assiste ao show sem saber se ri, se chora ou se pede bis.

(E o caso do Banco Master? Petistas como o Lindinho da Odebrecht, a Amante da Odebrecht e o Sobrinho da Estocadora de Vento falam em Bolsomaster. Os não petistas falam em Lulamaster. Bobagem. A verdade é que essa operação mafiosa pecuniária-orgíaca foi bem democrática, feita para beneficiar muitos políticos, da extrema direita à extremidade radical da esquerda - além de autoridades judiciais. Será que vai aparecer algum senador sisudo e moralista com loira no colo e uísque na mão? Consta que Daniel Vorcaro, o antigo dono do Master, teria se encontrado com Lula, Xandão e outras estrelas do X (ex-Tweeter), mas não com Jair Bolsonaro, qualificado por Vorcaro como beócio e idiota. Por que será?)

E pensar que tudo poderia ser facilmente resolvido se Rachadinha e Rachadão fossem apenas uma dupla sertaneja. No máximo desafinariam um pouco, o que, convenhamos, seria um prejuízo bem menor do que o que costuma sair do bolso do público.

A pergunta não é mais quem tem mais escândalos, se Rachadinha ou Rachadão. A pergunta é: quem conseguirá sair da campanha presidencial menos sujo, apanhando menos?

A certeza é que o menos sujo nessa luta romana antiga dentro do chiqueiro acabará levando o cinturão eleitoral. Não porque seja virtuoso, mas porque conseguiu respingar um pouco menos de lama no próprio lombo enquanto o outro chafurdava com entusiasmo profissional.

O eleitor, resignado, acaba escolhendo não o melhor, mas o menos indigesto, como quem cheira o leite azedo antes de decidir qual estragou por último. E assim a democracia tropical segue seu curso peculiar, administrando o país entre um escândalo e outro. Triste país, onde a esperança costuma votar tapando o nariz, com nojinho, ou nem indo à urna eleitoral, como o isentão.

Se Rachadão perder a eleição, quantos caminhões irão sair do Palácio da Alvorada? Uns 13, para fazer jus ao número do Partido das Trevas (PT)?




Nenhum comentário:

Postar um comentário