Rachadinha
e Rachadão
Félix
Maier
Rachadinha
e Rachadão bem que poderia ser o nome de uma dupla sertaneja cantando nos
inferninhos do entorno de Goiânia. Um violão desafinado, uma sanfona cansada e
dois sujeitos de chapelão cantando sofrência orçamentária: Você levou meu
coração… e metade do salário do assessor. Seria até poético. No intervalo
entre uma moda de viola e outra, venderiam CD pirata e selfies com eleitores
arrependidos. Mas não. No Brasil, como sempre acontece, a realidade consegue
ser mais criativa que a piada.
O
Brasil é um país de dimensões continentais e de imaginação política igualmente
continental. Aqui se inventou o samba, o pão de queijo, a jabuticaba em tronco
de árvore e uma série de modalidades administrativas que fariam corar até um
pirata caribenho com pós-graduação em pilhagem na Malásia nos tempos de
Sandokan.
Entre
essas invenções nacionais, uma merece destaque especial: a rachadinha.
Não é exatamente uma instituição formal — ainda não aparece no Diário Oficial
nem no currículo de nenhum curso de administração pública, como da ENAP — mas
está tão disseminada na prática política que poderia muito bem ser considerada
patrimônio imaterial de nossa República Federativa dos Bandidos.
Mas
antes de falar da rachadinha, precisamos voltar ao grande campeonato nacional
de 2022. O campeonato dos extremos
Em
2022, a disputa pela Presidência da República foi um espetáculo que nenhum
roteirista de novela teria coragem de escrever. Era o tipo de roteiro que faria
um editor de televisão dizer:
—
Não, isso está exagerado demais. O público não vai acreditar.
Mas
o público brasileiro acredita em tudo, especialmente quando vota.
O
campeonato dos campeonatos colocou frente a frente duas figuras que poderiam
muito bem ser personagens de uma tragicomédia mexicana ou turca: de um lado, o
Cavalão; do outro, o Ladrão.
Mais
de sessenta milhões de brasileiros, num gesto cívico que mistura fé, resignação
e talvez uma pitada de masoquismo eleitoral, fizeram o famoso L de Ladrão,
trazendo o velho personagem pela terceira vez de volta à cena do crime,
como havia dito anos antes seu Vice, Geraldo Alckmin. O Picolé de Chuchu
achou que seria a última oportunidade para assinar documentos oficiais como
Presidente, o que poderia fazer inúmeras vezes, pois o Ogro recém-casado iria
promover uma lua-de-mel de quatro anos de duração mundo afora. Esperto, esse Chuchu!
E
assim começou o segundo ato de uma peça que muitos juravam já ter terminado. Surge
o desafio de 2026
Mas
a história brasileira não gosta de finais tranquilos. Ela prefere continuações,
reviravoltas, cenas picantes e sequências improváveis, como Game of Thrones.
Por
isso, o ano de 2026 promete uma nova batalha épica, uma competição master para
o maior cargo público do Brasil. De um lado estará Rachadinha. Do outro, o
temido Rachadão.
A
missão de Rachadinha será muito difícil: impedir que Rachadão, com toda a
máquina administrativa e cartão corporativo a seu lado, conquiste o tetra. Um
cartão master, de gastos sigilosos de R$ 1,4 bilhão em três anos. Rachadão já merece
o convite de um Amex Black e de um J. P. Morgan Reserve.
Não será
tarefa simples para Rachadinha.
Quem
viu o filme A Substância, com Demi Moore, sabe que certas coisas parecem
impossíveis de destruir. Elas se regeneram, voltam à vida e continuam
caminhando como se nada tivesse acontecido. É o caso de Rachadão, que se renova
a cada campanha eleitoral.
Na
política brasileira ocorre algo parecido.
A
arte da rachadinha
A
rachadinha, para quem não está familiarizado com os costumes parlamentares
tropicais, é um método administrativo simples e engenhoso.
Funciona assim:
1. O político contrata um aspone.
2. O aspone recebe salário público.
3. Parte do salário do aspone retorna discretamente ao bolso do político.
É um
sistema circular, quase ecológico, como PET de refrigerante. O dinheiro sai do
contribuinte, passa pelo gabinete e retorna ao ponto de origem, o político. A
rachadinha é uma espécie de dízimo político, só que a igreja fica dentro do
gabinete. Outros preferem chamar de economia compartilhada, de justiça
social, pois ajuda a sustentar uma outra família.
De
qualquer forma, a prática é tão comum no Brasil quanto bebê tomando vacina. Às
vezes o bebê chora, às vezes o contribuinte chora, mas o procedimento continua.
O
caso mais famoso de rachadinha envolveu Flávio Bolsonaro, então deputado
estadual no Rio de Janeiro, por volta de 2016. Mas o curioso é que, naquele
episódio, ele nem era o grande atacante do erário.
Segundo
reportagens, o verdadeiro craque da arrecadação era o então presidente da
Assembleia Legislativa, André Ceciliano, do PT, que teria movimentado
cerca de 49,3 milhões de reais, enquanto Flávio aparecia com modestos
1,3 milhão. É quase como comparar um batedor de pênaltis com um artilheiro de
Copa do Mundo.
Em
2018, o caso ganhou novas cores quando surgiu o nome de Fabrício Queiroz,
ex-assessor de Flávio Bolsonaro. Um relatório do COAF apontou movimentações
financeiras consideradas atípicas — cerca de 1,2 milhão de reais. Obviamente, o
massacre na mídia, cada dia mais forte, foi pura coincidência, claro... Era o
ano de campanha presidencial de Jair Bolsonaro, e de campanha ao Senado, de
Flávio Bolsonaro. André Ceciliano, claro, nunca era citado.
A
partir daí começou uma investigação que se arrastou por dois anos, com
acusações de fraude, peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
No
entanto, em 2021, o Superior Tribunal de Justiça anulou decisões do processo
por questões processuais. As provas derivadas da quebra de sigilo foram
invalidadas. Flávio Bolsonaro havia passado pela tempestade sem ser preso.
E
assim terminou mais um capítulo da famosa novela jurídica brasileira: Provas
anuladas — capítulo final (até a próxima temporada).
Nesse
meio tempo, já como senador, Flávio Bolsonaro comprou uma mansão em Brasília,
no valor de R$ 6 milhões. A imprensa e os políticos do PT e do Piçol, sempre muito
curiosos com o sucesso imobiliário alheio, perguntaram de onde tinha vindo tanto
dinheiro. Flávio afirmou que a metade do imóvel foi financiado pelo BRB. Também
explicou que possuía uma loja de chocolates extremamente lucrativa no Rio, algo
entre Kopenhagen e Cacau Show.
É
possível.
Chocolate
realmente é um negócio doce, especialmente na boca de crianças e idosos sem
dentes. Alguns chocolates derretem na boca. Outros parecem derreter
investigações.
Mas
se Rachadinha tem suas histórias, o adversário — o temido Rachadão — possui uma
biografia que mais parece enciclopédia da Barsa e da Mirador. Estamos falando
do lendário Luiz Inácio Lula da Silva, também conhecido entre críticos como o Ogro
de Nove Dedos.
Seu
currículo judicial inclui episódios memoráveis como o Triplex do Guarujá e o
Sítio de Atibaia, que resultaram em condenação superior a 12 anos de prisão.
As
condenações passaram por três instâncias, por unanimidade, com placar final de
9 a 0. Mas o Brasil é um país que acredita em milagres, principalmente os
milagres jurídicos. Não é só o ex-ministro da Fazenda Pedro Malan que desconfia
que no Brasil, o passado é cada vez mais incerto.
Depois
de ser preso, em 2018, e passar 580 dias em um quarto confortável na sede da
Polícia Federal de Curitiba, onde recebia visitas do Brasil e do exterior, como
Pepe Mujica (e até arranjou uma namorada, com quem se casou), o Rachadão foi
libertado após decisão do Supremo Tribunal Federal.
Por
8 votos a 3, o Tribunal aparelhado pelo Ogro e por Dilma considerou que os
processos deveriam tramitar em outra jurisdição. O CEP de Curitiba estava
errado, garantiu o cabo eleitoral de Dilma Rousseff, Edson Fachin. Deveria ter
ido para Brasília.
Resultado:
o Ogro foi descondenado. Limpinho de corpo e alma, como neném
recém-batizado. E voltou ao jogo político.
Um juiz da Lava Jato determinou o bloqueio de R$ 78 milhões em bens de Lula, o Pai dos Pobres, em 2016. Marcelo Odebrecht afirma que fez pagamento de 50 milhões a Lula, confirmado por Palocci. E pelo menos 100 milhões de dólares foram depositados pela Odebrecht na Suíça, para pagamento de propinas, especialmente ao PT.
Questionado
sobre a origem da fortuna, Lula explicou que era fruto de palestras realizadas
no Brasil e no exterior.
Palestras
extremamente bem pagas. Tão bem pagas que alguns imaginaram que talvez não
fossem palestras comuns. Talvez fossem conferências escritas em placas de
titânio com tinta de ouro, guardadas em cofres suíços e lidas apenas por
bilionários discretos.
Dizem
que poucas dessas palestras ficaram disponíveis ao público. Eu não cheguei a
ler uma sequer. Talvez tenham sido apresentações espirituais, só voz, sem
gravação, sem foto, nada de papel e tinta, nem streaming.
Outro
episódio digno de registro foi a mudança do Palácio da Alvorada ao final do
mandato presidencial de Rachadão. Foram 11 caminhões. Um deles, dizem,
transportava apenas bebidas. Entre os objetos surrupiados, havia 559 presentes
recebidos durante o mandato.
Alguns
observadores lembraram que tais presentes pertencem à Presidência da República,
não ao Presidente da República. Que precisam ser guardados em local seguro, num
museu, para preservação da história diplomática do Brasil. Como foi o caso das
joias e relógios recebidos por Jair Bolsonaro (O PGR pediu o arquivamento do
inquérito). Mas lapsos acontecem.
Depois,
parte dos itens levados pelo Rachadão foi devolvida, outros pagos, e alguns
talvez tenham decidido fazer turismo permanente em algum lugar misterioso do
planeta, como cofre suíço ou panamenho.
E
assim chegamos à grande corrida presidencial de 2026.
De
um lado: Rachadinha, o candidato que terá de explicar chocolates, assessores,
depósitos e mansões.
Do
outro: Rachadão, o veterano que carrega uma coleção inteira de processos, condenações,
prisão, condenações anuladas, mudanças palacianas e palestras milionárias.
Será
um racha histórico.
Nunca
antes na história deste país dois candidatos chegaram à largada com currículos
tão robustos.
A
diferença entre Rachadinha e Rachadão é mais ou menos como a diferença entre
roubar galinha no quintal do vizinho e abrir um frigorífico inteiro dentro do
galinheiro público. Na primeira modalidade, o dinheiro volta em parcelas
modestas, quase domésticas, suficientes para pagar um churrasco político de fim
de semana. Na segunda, o volume é tão generoso que exige planilhas, operadores
financeiros e, às vezes, até palestras sobre ética para manter a aparência
institucional.
No
fundo, trata-se de uma pedagogia nacional. O cidadão aprende desde cedo que
existe o furto de varejo e o furto de atacado. O primeiro, de Rachadinha, é
considerado feio, pequeno, quase amador, coisa de pivete. O segundo, de
Rachadão, quando bem executado, ganha nome de esquema, sistema ou mecanismo,
palavras elegantes que soam quase acadêmicas para Correião, Mensalão, Petrolão,
Idosão (roubo de velhinhos no INSS). A máfia italiana deve estar morrendo de inveja. Assim, o país vai formando gerações de
especialistas em criatividade orçamentária, enquanto o contribuinte, esse
eterno patrocinador do espetáculo, assiste ao show sem saber se ri, se chora ou
se pede bis.
(E o
caso do Banco Master? Petistas como o Lindinho da Odebrecht, a Amante da Odebrecht
e o Sobrinho da Estocadora de Vento falam em Bolsomaster. Os não petistas falam
em Lulamaster. Bobagem. A verdade é que essa operação mafiosa pecuniária-orgíaca foi bem
democrática, feita para beneficiar muitos políticos, da extrema direita à extremidade
radical da esquerda - além de autoridades judiciais. Será que vai aparecer algum senador sisudo e moralista com loira no colo e uísque na mão? Consta que Daniel Vorcaro, o antigo dono do Master, teria
se encontrado com Lula, Xandão e outras estrelas do X (ex-Tweeter), mas não com
Jair Bolsonaro, qualificado por Vorcaro como beócio e idiota. Por
que será?)
E
pensar que tudo poderia ser facilmente resolvido se Rachadinha e Rachadão
fossem apenas uma dupla sertaneja. No máximo desafinariam um pouco, o que,
convenhamos, seria um prejuízo bem menor do que o que costuma sair do bolso do
público.
A
pergunta não é mais quem tem mais escândalos, se Rachadinha ou Rachadão. A
pergunta é: quem conseguirá sair da campanha presidencial menos sujo, apanhando
menos?
A
certeza é que o menos sujo nessa luta romana antiga dentro do chiqueiro acabará
levando o cinturão eleitoral. Não porque seja virtuoso, mas porque conseguiu
respingar um pouco menos de lama no próprio lombo enquanto o outro chafurdava
com entusiasmo profissional.
O
eleitor, resignado, acaba escolhendo não o melhor, mas o menos indigesto, como
quem cheira o leite azedo antes de decidir qual estragou por último. E assim a
democracia tropical segue seu curso peculiar, administrando o país entre um
escândalo e outro. Triste país, onde a esperança costuma votar tapando o nariz,
com nojinho, ou nem indo à urna eleitoral, como o isentão.
Se Rachadão perder a eleição, quantos caminhões irão sair do Palácio da Alvorada? Uns 13, para fazer jus ao número do Partido das Trevas (PT)?


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