MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

quarta-feira, 4 de março de 2026

A segunda infância - Por Félix Maier

 

A segunda infância

Félix Maier

Dizem que a vida é um círculo. Se for, o avô já está quase fechando a roda e voltando para o ponto de partida. De preferência com carrinho de rolimã, joelho ralado e uma chupeta na boca.

Ele detesta quando alguém fala em melhor idade. Melhor idade é o cacete! resmunga, enquanto tenta levantar da poltrona como se estivesse descolando um transatlântico do cais. Melhor idade só se for a do reumatismo organizado, do joelho bichado que faz previsão do tempo melhor que meteorologista, e do mijo que virou sprinkler automático — irrigação por gotejamento fora de controle. A avó, fiscal sanitária da privada, vive reclamando da tampa molhada. Isso aqui não é o chafariz da praça!

Ele nunca se conformou com esse rótulo açucarado. Melhor idade foi invenção de algum publicitário otimista, provavelmente jovem, com os dois meniscos intactos. O avô diz que, se souber quem foi, ainda dá um soco no nariz do besta, desde que o besta venha até ele e espere sentado, porque correr atrás já não dá.

Mas há algo que ninguém esperava: o velho está ficando cada vez mais criança.

Não é metáfora, não. É literal.

Outro dia estava no chão da sala, montando um forte de Lego com os netos, planejando uma resistência estratégica contra a invasão bárbara da sala de jantar. O plano incluía um bombardeio de pipoca e uma retirada honrosa para debaixo da mesa. Ele comandava a operação com seriedade militar — herança talvez de algum sargento antigo que conheceu na vida — mas, no meio da batalha, esqueceu que o quadril não foi projetado para rastejar sob sofás do século XXI. Levantou-se em três etapas, como foguete da NASA: impulso inicial, estágio intermediário com gemido e desacoplamento final com um ai, meu Deus! que ecoou pela casa.

Os netos adoram.

Para eles, o avô é um híbrido raro: mistura de super-herói cansado com palhaço involuntário. É ele quem os leva ao cinema para ver Bob Esponja, mesmo achando que aquela esponja amarela deve ter algum problema de tireoide para ser tão elétrica. No escuro da sala, ri mais alto que as crianças. Não porque entenda todas as piadas — muitas ele não entende mesmo — mas porque acha que rir alto é uma forma de protesto contra o silêncio definitivo que um dia virá.

Depois do cinema, ritual sagrado: sorvete no Chiquinho e, se a farra estiver completa, um lanche no Méqui, com sotaque de quem desconfia da globalização, mas se lambuza com o cheeseburger. A avó torce o nariz. Diz que aquilo não é comida. Ele responde que, na idade dele, tudo é experiência científica: Se não matou até agora, não mata mais.

A segunda infância tem dessas ousadias.

O curioso é que o avô, a vida inteira, foi homem contido. Engoliu opiniões, segurou palavrões, acatou decisões, cumpriu horários no trabalho. Pagou contas em dia, compareceu a velórios com gravidade sóbria, votou sem entusiasmo e trabalhou como se a eternidade fosse uma poupança rendendo juros discretos, mas crescentes.

Agora não.

Agora o tic-tac da vida está mais baixo, quase um sussurro. E quando o relógio começa a cochichar, o homem resolve falar alto.

Outro dia, na mesa do almoço, soltou uma palavra indevida, daquelas que fazem a avó arregalar os olhos e as crianças perguntarem o significado. A avó deu-lhe uma cotovelada pedagógica. Ele apenas sorriu e disse:

— Aprendam cedo. O mundo não é feito só de diminutivo.

A filha tentou repreender. Ele levantou o dedo trêmulo e declarou:

— Passei setenta anos sendo prudente. Agora quero ser interessante.

Foi também depois do nascimento do netinho mais novo que o fenômeno se agravou. O bebê apareceu em casa com seu arsenal: mamadeira, mantinha, carrinho, chupeta. O avô observava tudo com curiosidade científica, como quem estuda tecnologia de ponta.

Até que, numa tarde qualquer, pegou a chupeta do pequeno, esterilizada e reserva, e colocou na própria boca.

Silêncio na sala.

A avó levou a mão ao peito. A filha arregalou os olhos. Os netos mais velhos explodiram em gargalhada.

O avô, impassível, mascava a chupeta com ar contemplativo.

— Calmante natural — explicou. — Devia ter usado isso em 1999.

Desde então, criou gosto. Não o tempo todo, claro, ele tem reputação a zelar na padaria. Mas, em casa, vez ou outra surge com a chupeta pendurada no peito, dizendo que ajuda a organizar os pensamentos. A avó ameaça fotografar e levá-lo ao médico.

E como a vida gosta de ironias simétricas, veio também outra coincidência geracional: as fraldas.

Ou melhor, o fraldão.

Com a idade avançada e o tal sprinkler fora de sincronia, o avô resolveu aderir à praticidade moderna.

— Economia doméstica — justificou. — Menos cueca para lavar, menos calça, menos lençol. Sustentabilidade hídrica.

A avó não achou graça. Mas reconheceu, pragmaticamente, que a pilha de roupa suja diminuiu.

Agora, às vezes, estão os dois — o netinho e o avô — cada qual com sua versão do mesmo acessório, um engatinhando rumo ao futuro, outro caminhando devagar na direção oposta, ambos dependentes de tecnologia absorvente embaixo e chupeta em cima. A cena é de uma poesia meio debochada, quase uma concepção artística sobre o ciclo da vida.

O curioso é que o velho não se envergonha.

— Se começo e fim se parecem, é porque a vida escreve em versos circulares.

É nessa fase que ele também começa a cismar com projetos impraticáveis. Semana passada anunciou, com a convicção de um navegador português a serviço do Infante Dom Henrique:

— Vou aos Alpes suíços.

Assim mesmo.

Disse Alpes suíços com aquele brilho no olho de quem nunca viu neve de verdade, só geada na lavoura e raspadinha de groselha. Falou em esqui, em trenó, em cachecol ao vento. A família inteira fez silêncio respeitoso, o mesmo que se faz quando alguém muito idoso decide aprender mandarim.

Alguém lembrou, delicadamente, que os joelhos não colaboram mais. Ele respondeu que os joelhos nunca colaboraram com nada, desde os tempos de futebol society, mas sempre foram obrigados a participar.

No fundo, ele sabe que talvez não vá à Suíça. Ou, se for, irá como turista contemplativo, sentado num café alpino, tomando chocolate com leite quente, olhando jovens descerem montanhas com pernas que ainda não rangem. Mas o importante é desejar. A segunda infância não vive de prudência; vive de capricho.

Há dias em que o avô acorda com disposição de menino levado. Esconde o controle remoto. Troca os nomes dos netos de propósito. Ensina palavras antigas que ninguém mais usa. Conta histórias da época em que telefone tinha fio e respeito tinha peso.

E há dias em que ele acorda silencioso, olhando para as próprias mãos como quem examina um mapa antigo. As veias saltadas parecem rios secos. A pele tem a textura de papel-jornal já lido muitas vezes. Ele sabe — claro que sabe! — que há uma data de validade invisível impressa em algum lugar do corpo. Talvez no coração, talvez no pulmão, talvez naquela memória que começa a falhar como lâmpada piscando.

Mas, enquanto a etiqueta de validade não é anunciada, ele brinca.

Brinca com carrinho, com bola, com peteca, com palavras. Brinca com a própria imagem no espelho, fazendo caretas que fariam corar o adolescente que foi um dia. Brinca com a ideia da morte, chamando-a de a visita inconveniente.

— Quando ela vier — diz — espero que traga chocolate.

Os netos riem sem entender completamente. Para eles, o avô é eterno. Ou, no mínimo, resistente como sofá antigo.

A avó, prática, organiza os remédios para ele em caixinhas coloridas. Ele chama aquilo de kit de sobrevivência. Reclama das dores, mas não perde uma chance de inventar moda. Semana passada tentou andar de skate com o neto. Não andou. Apenas subiu e desceu do skate segurando na parede da garagem, o que já foi suficiente para provocar aplausos infantis e uma bronca conjugal.

— Você não tem juízo! Podia quebrar os quadris!

— Juízo é artigo de luxo — respondeu. — E eu já vendi o meu faz tempo.

Talvez a segunda infância seja isso: a liberdade tardia de ser inconveniente, de falar o que pensa, de rir do próprio tropeço. De usar chupeta sem pedir licença e fraldão sem drama. É quando o homem percebe que não precisa mais impressionar chefes, vizinhos ou compadres. Só precisa impressionar os netos e, para isso, basta uma careta bem-feita, um sorvete duplo ou uma fala absurda na hora errada.

Há uma ternura meio escrachada no velho. Ele fala palavrão, mas segura a mão do pequeno ao atravessar a rua. Reclama da dor nas costas, mas se abaixa para ouvir segredo contado ao pé do ouvido. Diz que melhor idade é conversa fiada de quem quer promover dança dos velhinhos, mas reconhece, em silêncio, que há algo melhor, sim: o tempo de não dever satisfações ao futuro.

Porque o futuro, para ele, já não é promessa, É boletim médico.

Então ele vive o presente como quem mastiga devagar um doce proibido, soltando a dentadura na boca, ou então com uma chupeta filosófica entre os dentes. Saboreia o riso alto no cinema. A lambança do sorvete que escorre. A bagunça da pipoca e das almofadas. Até a bronca da avó tem gosto familiar, quase carinho em forma de repreensão.

No fim das contas, talvez a segunda infância não seja regressão. É síntese. O homem volta a ser menino, mas um menino que sabe demais. Que já perdeu amigos, já errou feio, já amou torto, já engoliu orgulho. Um menino com cicatrizes, agora de fraldão e dignidade intacta, que resolve usar o pouco tempo restante como se fosse o último recreio.

E se, de repente, ele falar algo impróprio na frente das crianças, que falem. Se decidir ir aos Alpes com joelhos trêmulos, que tremam. Se molhar a tampa do vaso, que a avó reclame. É a prova de que ainda há água correndo no encanamento.

O tic-tac está mais baixo, é verdade. A contagem regressiva é irreversível. Mas enquanto houver som, por mínimo que seja, ele vai brincar com os netos fora do ritmo.

Porque a segunda infância, para esse avô, não é a melhor idade. É a última chance de ser, enfim, o moleque que a vida adulta tentou domesticar — e não conseguiu.


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