A segunda infância
Félix
Maier
Dizem
que a vida é um círculo. Se for, o avô já está quase fechando a roda e voltando
para o ponto de partida. De preferência com carrinho de rolimã, joelho ralado e
uma chupeta na boca.
Ele
detesta quando alguém fala em melhor idade. Melhor idade é o cacete!
resmunga, enquanto tenta levantar da poltrona como se estivesse descolando um
transatlântico do cais. Melhor idade só se for a do reumatismo organizado, do
joelho bichado que faz previsão do tempo melhor que meteorologista, e do mijo
que virou sprinkler automático — irrigação por gotejamento fora de controle. A
avó, fiscal sanitária da privada, vive reclamando da tampa molhada. Isso
aqui não é o chafariz da praça!
Ele
nunca se conformou com esse rótulo açucarado. Melhor idade foi invenção
de algum publicitário otimista, provavelmente jovem, com os dois meniscos
intactos. O avô diz que, se souber quem foi, ainda dá um soco no nariz do besta,
desde que o besta venha até ele e espere sentado, porque correr atrás já não
dá.
Mas
há algo que ninguém esperava: o velho está ficando cada vez mais criança.
Não
é metáfora, não. É literal.
Outro
dia estava no chão da sala, montando um forte de Lego com os netos, planejando
uma resistência estratégica contra a invasão bárbara da sala de jantar. O plano
incluía um bombardeio de pipoca e uma retirada honrosa para debaixo da mesa.
Ele comandava a operação com seriedade militar — herança talvez de algum
sargento antigo que conheceu na vida — mas, no meio da batalha, esqueceu que o
quadril não foi projetado para rastejar sob sofás do século XXI. Levantou-se em
três etapas, como foguete da NASA: impulso inicial, estágio intermediário com
gemido e desacoplamento final com um ai, meu Deus! que ecoou pela casa.
Os
netos adoram.
Para
eles, o avô é um híbrido raro: mistura de super-herói cansado com palhaço
involuntário. É ele quem os leva ao cinema para ver Bob Esponja, mesmo achando
que aquela esponja amarela deve ter algum problema de tireoide para ser tão
elétrica. No escuro da sala, ri mais alto que as crianças. Não porque entenda
todas as piadas — muitas ele não entende mesmo — mas porque acha que rir alto é
uma forma de protesto contra o silêncio definitivo que um dia virá.
Depois
do cinema, ritual sagrado: sorvete no Chiquinho e, se a farra estiver completa,
um lanche no Méqui, com sotaque de quem desconfia da globalização, mas se
lambuza com o cheeseburger. A avó torce o nariz. Diz que aquilo não é comida.
Ele responde que, na idade dele, tudo é experiência científica: Se não matou
até agora, não mata mais.
A
segunda infância tem dessas ousadias.
O
curioso é que o avô, a vida inteira, foi homem contido. Engoliu opiniões,
segurou palavrões, acatou decisões, cumpriu horários no trabalho. Pagou contas
em dia, compareceu a velórios com gravidade sóbria, votou sem entusiasmo e
trabalhou como se a eternidade fosse uma poupança rendendo juros discretos, mas
crescentes.
Agora
não.
Agora
o tic-tac da vida está mais baixo, quase um sussurro. E quando o relógio começa
a cochichar, o homem resolve falar alto.
Outro
dia, na mesa do almoço, soltou uma palavra indevida, daquelas que fazem a avó
arregalar os olhos e as crianças perguntarem o significado. A avó deu-lhe uma
cotovelada pedagógica. Ele apenas sorriu e disse:
—
Aprendam cedo. O mundo não é feito só de diminutivo.
A
filha tentou repreender. Ele levantou o dedo trêmulo e declarou:
—
Passei setenta anos sendo prudente. Agora quero ser interessante.
Foi
também depois do nascimento do netinho mais novo que o fenômeno se agravou. O
bebê apareceu em casa com seu arsenal: mamadeira, mantinha, carrinho, chupeta.
O avô observava tudo com curiosidade científica, como quem estuda tecnologia de
ponta.
Até
que, numa tarde qualquer, pegou a chupeta do pequeno, esterilizada e reserva, e
colocou na própria boca.
Silêncio
na sala.
A
avó levou a mão ao peito. A filha arregalou os olhos. Os netos mais velhos
explodiram em gargalhada.
O
avô, impassível, mascava a chupeta com ar contemplativo.
—
Calmante natural — explicou. — Devia ter usado isso em 1999.
Desde
então, criou gosto. Não o tempo todo, claro, ele tem reputação a zelar na
padaria. Mas, em casa, vez ou outra surge com a chupeta pendurada no peito,
dizendo que ajuda a organizar os pensamentos. A avó ameaça fotografar e levá-lo
ao médico.
E
como a vida gosta de ironias simétricas, veio também outra coincidência
geracional: as fraldas.
Ou
melhor, o fraldão.
Com
a idade avançada e o tal sprinkler fora de sincronia, o avô resolveu aderir à
praticidade moderna.
—
Economia doméstica — justificou. — Menos cueca para lavar, menos calça, menos
lençol. Sustentabilidade hídrica.
A
avó não achou graça. Mas reconheceu, pragmaticamente, que a pilha de roupa suja
diminuiu.
Agora,
às vezes, estão os dois — o netinho e o avô — cada qual com sua versão do mesmo
acessório, um engatinhando rumo ao futuro, outro caminhando devagar na direção
oposta, ambos dependentes de tecnologia absorvente embaixo e chupeta em cima. A
cena é de uma poesia meio debochada, quase uma concepção artística sobre o
ciclo da vida.
O
curioso é que o velho não se envergonha.
— Se
começo e fim se parecem, é porque a vida escreve em versos circulares.
É
nessa fase que ele também começa a cismar com projetos impraticáveis. Semana
passada anunciou, com a convicção de um navegador português a serviço do
Infante Dom Henrique:
—
Vou aos Alpes suíços.
Assim
mesmo.
Disse
Alpes suíços com aquele brilho no olho de quem nunca viu neve de
verdade, só geada na lavoura e raspadinha de groselha. Falou em esqui, em
trenó, em cachecol ao vento. A família inteira fez silêncio respeitoso, o mesmo
que se faz quando alguém muito idoso decide aprender mandarim.
Alguém
lembrou, delicadamente, que os joelhos não colaboram mais. Ele respondeu que os
joelhos nunca colaboraram com nada, desde os tempos de futebol society, mas
sempre foram obrigados a participar.
No
fundo, ele sabe que talvez não vá à Suíça. Ou, se for, irá como turista
contemplativo, sentado num café alpino, tomando chocolate com leite quente, olhando
jovens descerem montanhas com pernas que ainda não rangem. Mas o importante é
desejar. A segunda infância não vive de prudência; vive de capricho.
Há
dias em que o avô acorda com disposição de menino levado. Esconde o controle
remoto. Troca os nomes dos netos de propósito. Ensina palavras antigas que
ninguém mais usa. Conta histórias da época em que telefone tinha fio e respeito
tinha peso.
E há
dias em que ele acorda silencioso, olhando para as próprias mãos como quem
examina um mapa antigo. As veias saltadas parecem rios secos. A pele tem a
textura de papel-jornal já lido muitas vezes. Ele sabe — claro que sabe! — que
há uma data de validade invisível impressa em algum lugar do corpo. Talvez no
coração, talvez no pulmão, talvez naquela memória que começa a falhar como
lâmpada piscando.
Mas,
enquanto a etiqueta de validade não é anunciada, ele brinca.
Brinca
com carrinho, com bola, com peteca, com palavras. Brinca com a própria imagem
no espelho, fazendo caretas que fariam corar o adolescente que foi um dia.
Brinca com a ideia da morte, chamando-a de a visita inconveniente.
—
Quando ela vier — diz — espero que traga chocolate.
Os
netos riem sem entender completamente. Para eles, o avô é eterno. Ou, no
mínimo, resistente como sofá antigo.
A
avó, prática, organiza os remédios para ele em caixinhas coloridas. Ele chama
aquilo de kit de sobrevivência. Reclama das dores, mas não perde uma
chance de inventar moda. Semana passada tentou andar de skate com o neto. Não
andou. Apenas subiu e desceu do skate segurando na parede da garagem, o que já
foi suficiente para provocar aplausos infantis e uma bronca conjugal.
—
Você não tem juízo! Podia quebrar os quadris!
—
Juízo é artigo de luxo — respondeu. — E eu já vendi o meu faz tempo.
Talvez
a segunda infância seja isso: a liberdade tardia de ser inconveniente, de falar
o que pensa, de rir do próprio tropeço. De usar chupeta sem pedir licença e
fraldão sem drama. É quando o homem percebe que não precisa mais impressionar
chefes, vizinhos ou compadres. Só precisa impressionar os netos e, para isso,
basta uma careta bem-feita, um sorvete duplo ou uma fala absurda na hora
errada.
Há
uma ternura meio escrachada no velho. Ele fala palavrão, mas segura a mão do pequeno
ao atravessar a rua. Reclama da dor nas costas, mas se abaixa para ouvir
segredo contado ao pé do ouvido. Diz que melhor idade é conversa fiada
de quem quer promover dança dos velhinhos, mas reconhece, em silêncio, que há
algo melhor, sim: o tempo de não dever satisfações ao futuro.
Porque
o futuro, para ele, já não é promessa, É boletim médico.
Então
ele vive o presente como quem mastiga devagar um doce proibido, soltando a dentadura
na boca, ou então com uma chupeta filosófica entre os dentes. Saboreia o riso
alto no cinema. A lambança do sorvete que escorre. A bagunça da pipoca e das
almofadas. Até a bronca da avó tem gosto familiar, quase carinho em forma de
repreensão.
No
fim das contas, talvez a segunda infância não seja regressão. É síntese. O
homem volta a ser menino, mas um menino que sabe demais. Que já perdeu amigos,
já errou feio, já amou torto, já engoliu orgulho. Um menino com cicatrizes,
agora de fraldão e dignidade intacta, que resolve usar o pouco tempo restante
como se fosse o último recreio.
E
se, de repente, ele falar algo impróprio na frente das crianças, que falem. Se
decidir ir aos Alpes com joelhos trêmulos, que tremam. Se molhar a tampa do
vaso, que a avó reclame. É a prova de que ainda há água correndo no
encanamento.
O
tic-tac está mais baixo, é verdade. A contagem regressiva é irreversível. Mas
enquanto houver som, por mínimo que seja, ele vai brincar com os netos fora do
ritmo.
Porque a segunda infância, para esse avô, não é a melhor idade. É a última chance de ser, enfim, o moleque que a vida adulta tentou domesticar — e não conseguiu.

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