O Vendedor de Futuros
Félix
Maier
Em
2004, o escritor angolano José Eduardo Agualusa publicou o romance O
Vendedor de Passados, uma história curiosa narrada por uma osga — uma
lagartixa filosófica chamada Eulálio — que observa o estranho ofício de Félix
Ventura, um homem que fabrica biografias.
Em
uma Luanda que tentava se recompor depois de décadas de guerra civil, surgia
uma nova elite que precisava de algo essencial: um passado respeitável. Félix
Ventura fornecia exatamente isso. Inventava genealogias, antepassados heroicos,
avôs ilustres, bisavós patrióticos. Quem antes fora ninguém, de repente
tornava-se descendente de estadistas, intelectuais ou combatentes da liberdade.
Era, portanto, um comércio de memórias fictícias, não de fatos.
A
genialidade do romance está em revelar uma verdade desconfortável: sociedades
inteiras às vezes precisam reorganizar o passado para poder seguir vivendo. O
problema começa quando essa reorganização se transforma em propaganda política.
Quando o passado deixa de ser lembrança e passa a ser mercadoria ideológica.
No
Brasil, essa prática de vender passados assumiu contornos bastante
particulares. Durante décadas, grupos políticos da esquerda radical e da
esquerda light — aquela, assassina por natureza, esta, a que bate palmas — empenharam-se
em reembalar episódios turbulentos da história recente como narrativas
heroicas. Não se tratava de inventar genealogias pessoais, como fazia o
personagem de Agualusa, mas de reconstruir ideologicamente acontecimentos
complexos para que se ajustassem a um roteiro moral simples: o da luta pela
democracia.
Nesse
roteiro, organizações armadas que atuaram no Brasil nas décadas de 1960 e 1970
passaram a ser apresentadas como movimentos românticos de resistência
democrática. Figuras como Carlos Marighella, Carlos Lamarca, Dom Hélder Câmara
e Dom Paulo Evaristo Arns — o Aiatolá de
Forquilhinha — foram transformadas em símbolos de uma suposta cruzada pela
liberdade.
Essa
narrativa, entretanto, omite um aspecto essencial: esses grupos não buscavam
restaurar uma democracia liberal nos moldes ocidentais. Inspiravam-se
explicitamente em revoluções socialistas e em regimes de partido único. Seus
modelos políticos estavam em experiências como a de Fidel Castro em Cuba, no
sistema da União Soviética de Josef Stálin e na revolução conduzida por Mao Tsé-Tung
na China.
A
história do século XX mostrou que esses regimes produziram realidades bastante
distantes das utopias prometidas. Prometiam liberdade, mas deixaram mais de
100.000.000 de ossadas pelo caminho, como foi denunciado em O
Livro Negro do Comunismo.
Na
União Soviética, milhões de pessoas morreram em fomes induzidas por políticas
econômicas desastrosas, chegando-se ao absurdo de pais comerem seus filhos no
Vale do Volga, como foi denunciado em O
Arquipélago Gulag, de Alexander Soljenítsin. (Talvez venha daí
a frase incômoda comunista come criancinha...) Quem não morria de fome
passou anos nos campos de trabalho forçado dos Gulags siberianos, administrados
pelo aparato repressivo do Estado, onde até existe uma escabrosa Estrada
de Ossos, tantos eram os que morriam naquele inferno
gelado.
Na
China maoísta, campanhas políticas e experimentos econômicos, como o Grande
Salto Para a Frente, provocaram uma das maiores catástrofes humanas da
história moderna, com dezenas de milhões de mortos, de fome e de perseguição
política – além de canibalismo.
Durante a Revolução Cultural, que ressuscitou Mao Tsé-Tung, houve mais
de 10 milhões de mortos, em que coitados ainda vivos tinham seus testículos
cortados, assados e comidos. O tal churrasquinho
chinês.
Em
Cuba, opositores foram presos e executados após a consolidação do regime
revolucionário, em 1959. Fala-se em 17.000 mortos no paredón, mas pode
chegar a 50.000, segundo alguns historiadores. Vinte por cento da população
fugiu do país, especialmente para a Flórida — cerca de 145 km entre o norte de
Cuba e Key West, o caminho mais curto para fugir agarrados em câmaras de ar de
pneus de caminhões e em troncos de bananeiras, enfrentando tubarões. Um petisco
saboroso em Havana, na época, era filé de fígado. Não de fígado de vaca,
nem de ovelha, mas de fígados humanos retirados de mortos no hospital e vendidos
como iguaria rara, como foi denunciado no livro Trilogia Suja de Havana,
do cubano Pedro Juán Gutiérrez.
Nem
é preciso dizer que a Revolução Cubana estuprou toda a América Latina, tentando
criar Vietnãs em cada país, para implantar o comunismo. Por isso houve governos
militares duros, como deveriam ser, para fazer frente a essa ameaça diabólica,
como ocorreu principalmente no Brasil, na Argentina e no Chile. Leia meu
trabalho Ações
Armadas Comunistas na América Latina.
Vendedores
de passados proliferam no Brasil, especialmente os terroristas e seus
simpatizantes, que tomaram conta da mídia, da cultura, das universidades ainda no
final do governo dos militares, para vender milho podre a inocentes pombinhas,
de que lutaram para restaurar a democracia — claro, a democracia de Fidel
Castro e seu paredón. Afinal, foi lá, em Pinar del Río, que os
terroristas tiveram instrução de armamento e tiro, sabotagem e terrorismo.
Por
isso há tantos filmes endeusando terroristas e demonizando os militares que os
combateram: Olga, O que é isso companheiro? Lamarca, Marighella. Na
atualidade, há os guerrilheiros da pena, em busca de um Jabuti acasalado com
Rouanet, e os guerrilheiros da câmera, como Walter Salles (Ainda Estou Aqui)
e Kleber Mendonça Filho (O Agente Secreto), em busca de Kikitos e,
eventualmente, um Oscar. Todos vendendo seus passados gloriosos, vítimas
da ditadura. Salles e Kleber usaram seus filmes para vender um passado de
perseguição, tortura e morte perpetrado pelos militares. O que é próprio de farsantes,
contando a História pela metade. No fundo, eles ainda sonham com um Brasil socialista,
enquanto passeiam com Rolex e Armani para usufruir o melhor do capitalismo
americano. Wagner Moura que o diga...
Uns
poucos desses terroristas do passado, hoje passeando garbosamente pelas
redações de jornais e TVs, como Fernando Gabeira,
admitiram que todos os grupos armados das décadas de 1960 e 70, no Brasil,
queriam a ditadura do proletariado, ou seja, a ditadura comunista.
Vender
passados — ainda que cuidadosamente editados — sempre foi mais fácil do que
encarar a complexidade real da História. E talvez seja por isso que o Brasil
continue tão preso a disputas sobre o que aconteceu ontem, enquanto permanece
indeciso sobre o que pretende construir amanhã. Estava certo o ministro da
Fazenda, Pedro Malan, ao dizer que no Brasil, o passado é cada vez mais
incerto.
A
história, como se sabe, raramente é um duelo simples entre santos e demônios.
Mas narrativas políticas preferem a simplicidade moral. Heróis impecáveis
vendem melhor.
O
curioso é que esse comércio de passados floresceu justamente em um país que
sempre viveu obcecado pelo futuro. Desde o século XIX, repete-se a frase de que
o Brasil é o país do futuro. A expressão, celebrizada pelo livro do escritor
austríaco Stefan Zweig — Brasil, País do Futuro — tornou-se ao mesmo
tempo elogio e ironia.
O
futuro brasileiro parecia sempre magnífico. O único problema era que ele nunca
chegava, nem durante o milagre brasileiro, em que a economia crescia
acima de 10% ao ano. Década após década, a promessa permanecia suspensa no
horizonte, como uma placa de obra eterna: Em breve.
Se temos
tantos vendedores de passados, talvez precisemos com urgência de vendedores
de futuros.
Não
se trata de futurologia barata, dessas que prometem carros voadores ou colônias
em Marte. O vendedor de futuros brasileiro teria um ofício bem mais pragmático:
oferecer projetos plausíveis de civilização.
Ele
não venderia lembranças gloriosas. Venderia possibilidades concretas. Seu
escritório ficaria em algum lugar discreto, talvez numa sala modesta de
Brasília, com uma placa na porta: Consultoria em futuros possíveis.
Os
clientes seriam variados: cidadãos cansados, prefeitos desesperados,
governadores atônitos, legisladores com algum lampejo de lucidez.
O
primeiro produto do catálogo seria algo simples: previsibilidade. Num país onde
as leis mudam conforme o vento político, onde processos podem atravessar
décadas até encontrar uma conclusão, o vendedor de futuros ofereceria um item
raro: a ideia de que regras existem para serem cumpridas. Ele explicaria ao
cliente que sociedades estáveis não são necessariamente aquelas com mais leis,
mas aquelas onde as leis são claras e aplicadas de forma consistente.
Outro
produto do catálogo seria segurança pública. Hoje, em muitas regiões do Brasil,
o Estado disputa território com organizações criminosas, como traficantes de
drogas e milicianos — que é o caso do município do Rio de Janeiro, onde 60% ou mais de seu
território foi perdido para a bandidagem. Em muitos bairros, o poder público é
uma presença esporádica, com troca de tiros entre polícia e bandido, enquanto
grupos armados exercem autoridade cotidiana. O vendedor de futuros não
prometeria milagres, apenas algo que em diversos países já existe: a
restauração gradual da autoridade legal. Não por meio de slogans grandiosos,
mas por políticas públicas sérias, como a construção de escolas, áreas de lazer
e cultura, e delegacias policiais.
Outro
item à venda seria responsabilidade penal coerente. Essa é uma discussão
delicada e complexa, que envolve direito, psicologia, sociologia e política
criminal. Diferentes sociedades adotam diferentes critérios para lidar com
jovens envolvidos em crimes graves. O vendedor de futuros não apresentaria
soluções simplistas, mas colocaria a pergunta essencial sobre a mesa: como
equilibrar prisão do bandido jovem com proteção à sociedade?
É
óbvio que uma lei precisa ser urgentemente aprovada no Brasil, diminuindo a
idade penal para 16 anos ou menos. Se com 16 anos a pessoa pode votar,
engravidar ou ser engravidada — tecnicamente, um adulto —, por que não pode
responder por crimes hediondos? Bandido não tem idade, só tem quem o proteja,
como é o caso da esquerda em peso.
O
vendedor de futuros também teria um produto chamado tempo judicial razoável. No
Brasil, processos podem durar tanto que a própria noção de justiça se dissolve.
A ideia de que recursos são necessários para garantir direitos é amplamente
aceita. Mas a ideia de que processos devem ter um fim também é. Como o
famigerado processo das fake news, de um certo Xandão, o qual, no ritmo
em que a engrenagem do Sistema Toga Petralha gira, deverá se estender por mais
tempo que o AI-5. Nesse futuro possível, crimes graves não passariam décadas
deslizando entre recursos e mais recursos, enquanto vítimas envelhecem
esperando uma sentença que nunca chega. A execução da pena após condenação em
segunda instância voltaria a ser tratada como algo razoável dentro de um
sistema que ainda preserva o direito de defesa, mas que também reconhece que
justiça excessivamente tardia deixa de ser justiça.
O
vendedor de futuros também ofereceria um produto chamado fim da complacência
penal automática. Não se trata de abolir garantias jurídicas — que são pilares
de qualquer Estado de Direito —, mas de enfrentar a percepção crescente de que
certas regras acabam produzindo um sistema onde a punição raramente corresponde
à gravidade do crime. Nesse cenário imaginado, progressões de pena seriam
discutidas com critérios mais rigorosos e transparência, e não como etapas
automáticas de um calendário penitenciário. A ideia seria simples: se a
sociedade decide punir o bandido com determinada pena para crimes hediondos,
como assassinatos e estupros, essa pena deveria ser cumprida integralmente, não
virar apenas uma formalidade burocrática para colocar o vagabundo mais cedo na
rua.
Outro
produto no catálogo do vendedor de futuros seria a coragem legislativa para
enfrentar mecanismos que transformam o sistema penal num permanente vai-e-vem
entre prisão e rua. Entre eles estaria a eliminação imediata da chamada saidinha,
vista por muitos como um prêmio indevido a condenados. Mesmo diante do
argumento jurídico de que a lei penal não pode retroagir senão para beneficiar
o réu — como foi o caso do fim da saidinha, aprovada no Congresso Nacional, mas
que só vale para novos condenados —, o vendedor de futuros perguntaria se o
interesse coletivo e a segurança pública não deveriam pesar mais nessa equação.
No país que ele tenta vender, a lei deixaria de ser um labirinto de
indulgências para vagabundos e passaria a refletir, com mais clareza, a
expectativa de justiça da sociedade.
Outro
produto do vendedor de futuros seria o fim imediato de emendas parlamentares,
nos âmbitos federal, estadual e municipal. Os congressistas foram eleitos para
aprovar o Orçamento da União, não para meter a mão em parte desse orçamento,
para atender interesses particulares nos grotões eleitorais. Quem deveria ter o
direito e o dever de distribuir os orçamentos seriam apenas os poderes
executivos, ninguém mais: o presidente da República, os governadores e os
prefeitos.
Um
produto importante para harmonia dos Três Poderes seria apresentado pelo
vendedor de futuros, ainda que seja um desenho e a explicação do desenho que
todos já deveriam ter entendido, por ser autoexplicativo: ao executivo cabe
executar, ao legislativo cabe legislar e ao judiciário cabe legislar. Simples
assim. É uma aberração o que se vê no STF, que se arvora no direito de
legislar, tendo cada ministro recebido apenas um único voto — a indicação do presidente
da República — para ser o guardião das leis e da Constituição, não para ficar
brincando de ser deputado e senador, e, eventualmente, de poder executivo, ejaculando
ordens absurdas para todos os lados.
O
Sistema Toga Petralha é o aparelhamento de líderes petistas em todos os órgãos
públicos, a começar pelo STF, feito pelo Ogro de Nove Dedos e a Estocadora de
Vento. (O jornalista Fernão Lara Mesquita, no programa Pânico da JP News,
em 17/03/2017, falou: Eles colonizaram o STF e as universidades.) Assim,
não importa quem seja eleito Presidente do Brasil, de direita ou de esquerda,
porque quem de fato vai governar são os políticos da extrema esquerda. Jair
Bolsonaro está aí para comprovar esse bullying sofrido durante seu
governo, com centenas de Arguições de Descumprimento de Preceito Fundamental
(ADPFs) protocoladas no STF pelo PT e seus genéricos piçolistas e quetais
contra atos do Executivo. Esse bullying da extrema esquerda continua,
agora é dirigido contra atos do Legislativo, como foi o caso de isenção de IOF
e o Marco Temporal, prontamente derrubados pelo STF.
O
vendedor de passados também diria que os milhões de cidadãos que recebem o
Bolsa Família, o Pé de Meia, Luz grátis e outros mimos federais deveriam ser
impedidos de votar para presidente da República, por se tratar de compra
descarada de votos. Até o WikiLeaks vazou um cable (telegrama
diplomático) americano, em 2010, de que José Dirceu havia demonstrado entusiasmo
político com o programa Bolsa Família, de que poderia gerar algo em
torno de 40 milhões de votos. (Atualmente, esse número de vira-bostas
sustentadas pelos tico-ticos chega à metade da população brasileira, tem mais
gente recebendo algum benefício do governo do que trabalhando com carteira
assinada.) E o TSE missão dada é missão cumprida, como o Bochechinha de
Lula (Benedito Gonçalves) cochichou no ouvido de Alexandre
de Moraes? Nem aí. Faz parte do Sistema Toga Petralha.
Outro
item do catálogo do vendedor de futuros seria educação institucional. Não
apenas educação escolar — embora essa seja essencial —, mas também educação
moral e cívica. Uma cultura em que os cidadãos compreendam o funcionamento do
Estado, os limites dos seus direitos e de suas obrigações, e o valor das Instituições.
O
vendedor de futuros não seria um profeta nem um salvador da Pátria Amada Brasil.
Seria apenas um corretor de possibilidades. Ele diria aos clientes uma
verdade incômoda: Futuros não são comprados prontos. Eles são construídos.
O
máximo que um vendedor de futuros pode fazer é mostrar plantas arquitetônicas
plausíveis. O edifício precisa ser erguido pela própria sociedade. E aqui surge
a grande diferença entre vender passados e vender futuros. Passados podem ser
inventados. Futuros precisam ser reais e funcionar.
Uma genealogia falsa do passado pode enganar a
população por algum tempo. Um projeto de país ineficaz revela suas falhas
rapidamente. Talvez seja por isso que o comércio de passados seja tão popular
na política. Ele exige apenas narrativa. O comércio de futuros exige realidade.
Imagino
o vendedor de futuros fechando sua loja no fim do expediente. Ele guarda os
catálogos na gaveta, apaga a luz e coloca um pequeno aviso na porta: Volto
amanhã.
Do
lado de fora, a cidade continua barulhenta, desigual, cheia de problemas
antigos. Mas também cheia de possibilidades.
Porque
o futuro — ao contrário do passado — ainda não foi escrito. E, como qualquer
mercadoria rara, ele só tem valor quando alguém decide finalmente produzi-lo.

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