MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

O Velho do Rio do Peixe

 

O Velho do Rio do Peixe

O homem que aparecia antes das águas

Havia quem jurasse tê-lo visto nas próprias cabeceiras do Rio do Peixe, na Serra do Espigão, a mais de mil e duzentos metros de altitude, quando o rio ainda era um fiapo de água saltando entre as pedras frias da montanha. Depois desaparecia por dias, reaparecendo nas matas de Caçador e nas várzeas de Videira, onde diziam que plantava pinhões durante a madrugada. Em Tangará, as araucárias pareciam inclinar os galhos à sua passagem. Em Luzerna, permanecia longo tempo contemplando a represa do Lindner, abrigado sob a sombra de um sarandi. Em Herval d'Oeste, surgia sempre antes das grandes enchentes, para divertimento dos guris da estação ferroviária, que o perseguiam gritando em larfiagem. Dali seguia por Lacerdópolis, Ouro, Capinzal e Piratuba, acompanhando o curso das águas até o Rio Uruguai, como se não fosse um homem caminhando pela margem, mas o próprio espírito do rio regressando, ano após ano, para verificar se suas barrancas continuavam vivas.

Os mais velhos costumavam dizer que todo rio possui memória. Alguns guardam apenas pedras, galhos e barrancos; outros, porém, escondem lembranças mais antigas que as próprias cidades. O Rio do Peixe era um desses. Corria desde muito antes de haver pontes, estradas, igrejas ou plantações de milho espalhadas pelo vale. Corria quando a mata ainda cobria quase tudo, quando as araucárias formavam um teto verde sobre as coxilhas e quando as gralhas-azuis eram as únicas semeadoras de pinhão conhecidas daquele mundo. Depois vieram os caboclos, os tropeiros, os colonizadores alemães e italianos, os trilhos da ferrovia, os serradores de madeira, as pequenas vilas que cresceram até se tornarem cidades. O rio permaneceu o mesmo, apenas carregando consigo um número cada vez maior de histórias. Entre todas elas, nenhuma atravessou tantas gerações quanto a do Velho do Rio do Peixe.

Meu avô ouvira essa história do bisavô nas demoradas noites de inverno, quando o vento assobiava entre os pinheiros e o fogo do fogão a lenha fazia estalar as achas de guajuvira com pinhão na chapa. Meu pai, por sua vez, ouviu-a ainda menino, sentado num banco tosco de madeira enquanto descascava espigas de milho ao lado da família. Quando chegou a minha vez, já não havia tantas noites silenciosas. A televisão começava a disputar espaço com os causos antigos, e muita gente preferia acreditar no que aparecia na tela a escutar aquilo que a memória dos velhos insistia em conservar. Mesmo assim, sempre que o céu escurecia por vários dias seguidos e a chuva caía grossa sobre o Vale do Rio do Peixe, alguém acabava lembrando, quase num sussurro:

— Será que o Velho já apareceu?

Ninguém perguntava quem era esse velho. Todos pareciam saber, ainda que muitos jamais o tivessem visto. Era como se seu nome não pertencesse a uma pessoa, mas ao próprio rio.

Diziam que ele surgia apenas quando as águas preparavam alguma surpresa. Não bastava uma cheia comum, dessas que fazem o rio lamber o barranco e assustam apenas as galinhas mais distraídas. Era preciso que a enchente fosse daquelas capazes de mudar cercas de lugar, arrancar pontes de madeira, transformar potreiros em lagoas e fazer as canoas navegarem onde, dias antes, pastavam vacas leiteiras. Antes dessas grandes águas, invariavelmente, aparecia um velho caminhando pela margem.

Nunca vinha montado. Nunca trazia cachorro. Nunca conduzia tropa. Apenas caminhava.

Vestia bombachas desbotadas, um pala escuro que parecia tão antigo quanto as figueiras centenárias e um chapéu de feltro de abas largas, sempre inclinado para proteger os olhos. A barba era branca, comprida, mas estranhamente limpa, como se fosse penteada todas as manhãs. Nas mãos carregava um cajado de madeira de araucária, liso de tanto uso, cuja ponta parecia mais polida que cabo de enxada antiga.

Havia quem jurasse que pescava. Outros diziam jamais ter visto um anzol em suas mãos. Alguns afirmavam que carregava uma pequena sacola de couro onde guardava iscas; outros garantiam que ela jamais continha peixe algum. Sobre isso nunca houve acordo. O único detalhe em que todos coincidiam era seu modo de caminhar: lento, firme, sem demonstrar cansaço, como quem conhece cada pedra do caminho muito antes de ela nascer.

Também nunca pedia pouso. Se alguém lhe oferecia um prato de feijão, agradecia com um leve movimento da cabeça e seguia adiante. Se insistiam em lhe dar dinheiro, sorria de um jeito quase imperceptível, como quem acabasse de ouvir uma brincadeira de criança. Jamais aceitava. Não comprava nada, não vendia nada e, ao que parecia, também não precisava de nada.

Mas o que realmente intrigava as pessoas acontecia sempre no mesmo instante. Depois de caminhar por alguns quilômetros acompanhando o curso do rio, ele parava. Permanecia imóvel durante alguns minutos. Então fincava o cajado no chão, erguia lentamente o rosto e fitava uma colina distante. Não dizia palavra. Apenas olhava. Em seguida retirava o cajado da terra e retomava a caminhada, desaparecendo na curva seguinte como se a neblina o tivesse engolido.

Os moradores mais antigos compreendiam o recado sem necessidade de explicações. No mesmo dia começavam a remover o gado para terrenos mais altos. Levavam os cavalos para além das coxilhas, retiravam os porcos dos chiqueiros próximos ao rio, desmontavam paióis improvisados e empilhavam móveis sobre tijolos dentro de casa. As mulheres guardavam documentos, fotografias e imagens de santos em lugares elevados. As crianças, sem entender direito a pressa dos adultos, apenas obedeciam.

Quando alguém perguntava a razão de tanto trabalho, bastava uma resposta curta:

— O Velho passou.

Era suficiente. Os recém-chegados, entretanto, riam daquilo tudo.

Durante as décadas de 1920 e 1930, depois da sangrenta Guerra do Contestado, chegaram muitas famílias alemãs e italianas no vale, vindas do Rio Grande do Sul e do Vale do Itajaí. Gente trabalhadora, interessada em abrir lavouras, serrarias e pequenos comércios. Muitos jamais tinham ouvido falar da antiga lenda.

Ao verem os vizinhos recolhendo animais enquanto o céu ainda conservava alguns rasgos de azul, perguntavam:

— Ficaram loucos?

Então alguém respondia:

— O Velho do Rio passou hoje cedo.

Os forasteiros olhavam uns para os outros, divertidos.

— Um velho mandando no rio? Essa agora...

E voltavam ao trabalho.

Dois ou três dias depois começava a chover na serra. Primeiro uma chuva mansa. Depois outra mais forte. Em seguida vinham dias inteiros de água grossa, pesada, persistente, daquelas que transformam os córregos em torrentes barrentas e fazem as pedras desaparecerem sob espumas revoltas.

Então o Rio do Peixe mudava de voz. Quem morava perto aprendia a reconhecer aquele som. O rio deixava de correr; parecia respirar. Seu ronco aumentava durante a madrugada, batendo contra barrancos, troncos e pilares de pontes. Pela manhã, a água já cobria as ruas de cascalho. À tarde engolia cercas. Na noite seguinte invadia quintais, depósitos e galpões, arrastando casas inteiras.

Quando finalmente atravessava estradas e transformava o vale numa imensa corrente barrenta, muitos se lembravam do velho de chapéu. Os que haviam acreditado apenas fechavam as janelas e esperavam a enchente passar. Os que zombaram lamentavam não ter ouvido os antigos.

Nunca houve notícia de alguém que tivesse seguido o aviso do Velho e perdido tudo. Em compensação, eram incontáveis os casos de famílias salvas porque resolveram retirar seus animais e abandonar as casas a tempo. Cada enchente acrescentava um novo episódio à lenda, como se o próprio rio tivesse prazer em confirmar aquilo que os homens teimavam em negar.

Curiosamente, ninguém sabia de onde o Velho vinha. Nunca aparecia entrando por alguma estrada. Nunca era visto atravessando pontes.

Ninguém recordava tê-lo encontrado comprando mantimentos nas vendas, participando de festas de igreja ou assistindo às missas dominicais. Simplesmente surgia na margem do rio, caminhava durante algumas horas e desaparecia.

Houve quem tentasse segui-lo. Um tropeiro garantiu que manteve o velho à vista durante quase toda uma tarde. Bastou desviar os olhos por um instante para ajeitar a chincha do cavalo e, quando tornou a procurar, já não havia ninguém na estrada. O caminho seguia reto por centenas de metros, sem mato suficiente para esconder uma pessoa, mas o velho sumira mais rápido que a neblina quando o sol rompe o horizonte.

Outro homem jurou ter encontrado apenas as marcas do cajado impressas no barro úmido. Eram pegadas estranhas. Caminhavam por alguns metros e simplesmente terminavam na margem do rio, como se dali em diante quem as deixara tivesse continuado a viagem sobre a própria água.

Essas histórias corriam de boca em boca, aumentando um pouco a cada geração, como acontece com todos os bons causos do interior. Ainda assim, havia algo que ninguém ousava exagerar, porque todos pareciam concordar silenciosamente: o Velho jamais fazia mal a quem quer que fosse. Não ameaçava, não castigava, não assustava as crianças, não exigia promessas nem oferendas. Apenas avisava.

Talvez por isso fosse respeitado até pelos mais incrédulos.

Em Caçador, dizem que o Velho conversa com as gralhas-azuis. Em Videira, juram que ele planta pinhões durante a madrugada. Em Tangará, contam que as araucárias se inclinam quando ele passa. Em Luzerna, na ponte coberta, feita de madeira com cobertura de zinco, afirmam que ele costuma permanecer longo tempo observando a confluência do Rio Limeira com o Rio do Peixe. Em Joaçaba, os pescadores dizem que nunca lança anzol, apenas observa a corrente. Em Herval d'Oeste, os ferroviários garantem que ele atravessa a ponte Emílio Baumgart sempre na véspera das grandes enchentes. Em Ouro e Capinzal, contam que seu cajado faz brotar pequenas nascentes onde toca o chão. Como Moisés no Sinai.

Em Piratuba, contam que o Velho do Rio do Peixe fincou o cajado num ponto perdido entre os campos e seguiu viagem sem dizer palavra. Anos depois, quando a Petrobras perfurava o solo em busca de petróleo, não encontrou ouro negro, mas uma abundante fonte de águas termais a trinta e oito graus. Desde então, há quem diga que o Velho já conhecia o segredo que a terra guardava.

Meu avô costumava encerrar o assunto sempre da mesma maneira. Depois de puxar lentamente a bomba do chimarrão, olhava pela janela na direção do rio e dizia numa voz tão baixa que parecia conversar consigo mesmo:

— Homem comum não volta durante tantos anos sem envelhecer mais um dia. Mas também não acredito que ele seja assombração. Acho que o Rio do Peixe, de tanto viver, resolveu um dia criar um velho para caminhar em seu lugar.

E, depois de um longo silêncio, acrescentava:

— Quem ri dessa história nunca conheceu um rio de verdade.

O segredo das araucárias

A primeira vez que alguém resolveu seguir o Velho do Rio do Peixe foi por pura curiosidade. Não para desafiá-lo, como fizeram alguns homens da cidade, nem para provar que a velha história não passava de superstição. Quem tomou essa decisão foi apenas um menino, desses que ainda enxergam perguntas onde os adultos veem apenas caminhos.

Chamava-se Erwin, embora poucos usassem seu nome. Desde pequeno era mais conhecido por Pinhão, porque vivia catando sementes pelos pinheirais, enchendo os bolsos do calção e esquecendo metade delas pelo caminho.

— Se esse velho aparece faz tanto tempo, por que ninguém sabe onde mora?

Ninguém respondia.

— Se ele é pescador, onde vende os peixes?

Novo silêncio.

— E por que ele nunca envelhece?

O avô apenas sorria.

— Algumas perguntas, guri, só o mato responde.

A resposta não lhe bastava.

Naquele final de inverno de 1957, depois de vários dias de chuva fina sobre a Serra do Espigão, espalhou-se pela vizinhança a notícia de que o Velho fora visto caminhando junto ao rio. Os homens começaram a retirar o gado das baixadas, e as mulheres levantaram os móveis sobre tocos de madeira. Como sempre acontecia, ninguém comentou muito. Simplesmente faziam o que precisava ser feito.

Erwin, porém, tomou outra decisão. Esperaria o amanhecer. Ainda antes do primeiro canto dos galos, saiu de casa levando apenas um pedaço de pão, um canivete e uma pequena cuia de alumínio presa ao embornal. Caminhou em silêncio até alcançar a margem do Rio do Peixe, onde uma tênue camada de neblina escondia metade da correnteza.

Não precisou procurar muito. O velho estava ali. Caminhava devagar, apoiando-se no cajado de araucária, como se conhecesse cada curva do rio desde antes da criação do mundo. Não olhava para trás nem parecia notar a presença do menino. Erwin manteve distância, escondendo-se atrás dos sarandis e das taquaras sempre que o caminho permitia. Assim atravessaram a manhã inteira.

Ao contrário do que imaginava, o Velho não seguia apenas a beira do rio. Em certos pontos abandonava a margem e penetrava lentamente na mata, caminhando por antigas picadas que pareciam invisíveis aos olhos comuns. Eram trilhas estreitas, cobertas de folhas secas, onde o perfume da terra úmida se misturava ao cheiro resinoso dos pinheiros.

Quanto mais avançavam, mais antigas pareciam as árvores. As araucárias erguiam-se tão altas que seus galhos formavam um teto verde muito acima das outras árvores. O chão desaparecia sob um espesso tapete de agulhas de pinheiro, e apenas alguns feixes de luz conseguiam romper aquela imensas catedrais vegetais. O silêncio era interrompido apenas pelo tamborilar distante de um pica-pau, pelo murmúrio de um riacho escondido e pelo assobio do vento passeando entre as copas.

Erwin nunca estivera numa mata tão velha. Ali não havia tocos de árvores abatidas, nem cercas, nem sinais de machado. Parecia um pedaço de mundo esquecido pelo tempo.

Durante dois dias inteiros repetiu-se a mesma rotina. O menino seguia. O Velho caminhava. À noite, Erwin voltava escondido para casa por atalhos conhecidos, inventando desculpas para justificar o cansaço. Antes do amanhecer, retornava ao mesmo lugar.

No terceiro dia aconteceu algo estranho. O velho deixou de seguir o rio. Entrou definitivamente no pinheiral. Erwin percebeu que já não ouviam o rumor das águas. Apenas o vento.

Depois de caminhar por longo tempo, o Velho parou diante de uma clareira iluminada pelo sol da manhã. Ali existia apenas um círculo de terra nua, como se algum raio tivesse derrubado uma árvore muitos anos antes. Pela primeira vez desde que começara a segui-lo, o menino viu o velho levar a mão ao bolso do pala. Retirou um único pinhão.

Era um pinhão comum, igual aos milhares que Erwin apanhava todo outono para assar na chapa do fogão. O velho ajoelhou-se com a lentidão de quem executa um gesto aprendido desde sempre. Com a ponta do cajado abriu um pequeno buraco na terra, depositou ali a semente e cobriu-a delicadamente com um punhado de folhas.

Depois permaneceu imóvel. Erwin esperou. Nada aconteceu. Sorriu consigo mesmo. Talvez fosse apenas um velho plantando uma árvore.

Foi então que a terra estremeceu. Primeiro quase imperceptivelmente. Depois um pequeno montículo começou a erguer-se. Do centro dele surgiu um broto verde, tenro, brilhante como se acabasse de nascer da própria luz.

O menino esfregou os olhos. O broto crescia. Crescia diante dele. Transformou-se numa muda. A muda engrossou. O tronco alargou-se numa velocidade impossível. Os galhos abriram-se para os lados. A casca adquiriu o tom acinzentado das árvores antigas.

Em poucos instantes, onde antes existia apenas terra nua, erguia-se uma araucária majestosa, tão alta quanto as demais que cercavam a clareira.

Erwin perdeu o fôlego. Não sabia se corria, gritava ou rezava. As pernas recusavam-se a obedecer. Foi então que ouviu um bater de asas. Uma gralha-azul pousou suavemente num dos galhos recém-formados. Trazia um pinhão preso no bico. Inclinou a cabeça para o velho, como quem cumprimenta um velho conhecido, e voltou a levantar voo.

Voou poucos metros. Escolheu um pequeno espaço entre as folhas secas. Com rápidos movimentos enterrou o pinhão na terra. Depois cobriu-o cuidadosamente com folhas e musgo. Não era um gesto de esquecimento, mas de cuidado. A gralha-azul guardava ali o seu alimento para os dias difíceis, como o colono guardava os grãos no paiol ou as reservas na despensa da casa. Cada pinhão escondido era uma pequena promessa de fartura para o futuro, uma semente confiada à terra para quando a floresta precisasse renascer. Observou a própria obra por alguns segundos e desapareceu entre os pinheiros.

O velho acompanhou o voo da ave com um sorriso sereno. Somente então falou pela primeira vez. Sua voz era baixa, profunda e antiga como o rumor do próprio rio.

— Eu planto. Ela espalha.

Erwin estremeceu. Não apenas porque finalmente ouvira o velho falar, mas porque percebeu que aquelas palavras pareciam dirigir-se tanto à gralha quanto às árvores, ao vento e ao próprio chão.

O silêncio voltou a dominar a clareira. Passado algum tempo, o velho apoiou as duas mãos sobre o cajado e acrescentou, olhando para o alto da nova araucária:

— Uma árvore nunca nasce para quem a planta. Nasce para quem ainda nem nasceu.

As palavras permaneceram suspensas no ar como sementes levadas pelo vento. Erwin sentiu que havia nelas uma verdade grande demais para um menino compreender. Mesmo assim jamais as esqueceria.

Enquanto contemplava a gigantesca araucária recém-nascida, começou a notar pequenos detalhes que antes lhe escapavam. As gralhas cruzavam continuamente o céu carregando pinhões. Cutias surgiam entre os arbustos para esconder sementes. Esquilos percorriam os galhos. O vento espalhava pinhas maduras pelo chão. Parecia existir uma imensa conversa silenciosa entre todos os habitantes daquela floresta. E o Velho fazia parte dela.

Naquele instante, Erwin compreendeu que o homem não caminhava pelas matas procurando alguma coisa. Também não andava sem destino. Ele estava trabalhando. Fazia um serviço tão antigo quanto a própria floresta. Plantava o futuro.

Quando o sol começou a desaparecer atrás das copas, o velho retomou a caminhada sem olhar para trás. Erwin permaneceu imóvel por longo tempo, contemplando a jovem araucária que, embora acabasse de nascer diante de seus olhos, possuía o porte respeitável de uma árvore centenária.

Na volta para casa, o menino encontrou pelo caminho dezenas de pinhões espalhados sobre a trilha. Curvou-se para recolher um deles, mas desistiu ao perceber uma gralha-azul observando-o do alto de um galho. Sorriu. Deixou a semente onde estava. Pela primeira vez em sua vida, entendeu que nem todo pinhão fora feito para virar comida.

O Menino dos Pinhões

Naquela tarde, depois de testemunhar o nascimento impossível da araucária, Erwin já não sabia se ainda caminhava pelo mesmo mundo em que acordara três dias antes. A floresta parecia igual, mas não era. O vento continuava deslizando pelas copas, as gralhas cruzavam o céu em bandos barulhentos e o chão permanecia coberto de grimpas douradas. Ainda assim, tudo adquirira um significado novo, como se a mata houvesse retirado um véu invisível diante de seus olhos.

O Velho retomou a caminhada sem dizer palavra. Erwin seguiu alguns passos atrás, agora sem se esconder. Se aquele homem havia percebido sua presença desde o primeiro dia, fingia não notar. Se não a percebera, também não demonstrava surpresa. Caminhava com a serenidade de quem sabe que certas coisas chegam exatamente quando devem chegar.

Já era quase noite quando alcançaram um pequeno capão protegido do vento. Um fio de água cristalina escorria entre pedras cobertas de musgo, formando uma sanga tão transparente que se podia contar os seixos do fundo. Ali o Velho recolheu alguns gravetos secos, bateu duas pedras de quartzo uma contra a outra e, com uma habilidade que parecia esquecida pelos homens, acendeu um pequeno fogo.

Erwin aproximou-se devagar. Sentou-se do outro lado das chamas. Durante um bom tempo nenhum dos dois falou. Apenas ouviam o crepitar da lenha e o canto distante de um urutau, que começava a anunciar a chegada da noite.

O menino já não conseguia conter a pergunta que o acompanhava desde a margem do Rio do Peixe.

— Quem é o senhor?

O Velho permaneceu olhando para o fogo. As labaredas refletiam-se em seus olhos como se ali ardessem lembranças muito antigas. Erwin esperou. Nenhuma resposta. Insistiu, agora com mais delicadeza.

— O senhor mora por aqui?

Novo silêncio. O velho apenas alimentou o fogo com um galho de pinheiro. As fagulhas subiram lentamente até desaparecer entre os galhos escuros das araucárias. O menino desistiu de perguntar. Percebeu que havia silêncios mais eloquentes que muitas palavras.

Depois de algum tempo, o Velho retirou do embornal um pedaço de pão escuro e dividiu-o ao meio. Estendeu uma parte ao garoto. Erwin aceitou. Comeram em silêncio, como fazem os velhos amigos que já não precisam conversar para se entender.

A lua apareceu entre as copas. O fogo foi diminuindo. O cansaço venceu a curiosidade. Erwin enrolou-se no pala que o Velho lhe oferecera e adormeceu embalado pelo sussurro do vento entre os pinheiros. Não soube dizer quanto tempo dormira quando ouviu risadas.

Primeiro pensou que estivesse sonhando. Depois percebeu que eram risadas leves, cristalinas, iguais às de crianças brincando perto de um riacho. Abriu os olhos apenas por um instante. As brasas ainda brilhavam. A silhueta do Velho parecia imóvel do outro lado da fogueira. Voltou a dormir.

Ao amanhecer, acordou com o rosto aquecido pelos primeiros raios de sol. Sentou-se depressa. O fogo havia se apagado. O cajado desaparecera. O chapéu de feltro já não estava ali. O velho sumira.

Erwin levantou-se assustado e começou a procurá-lo entre as árvores. Foi então que ouviu novamente as risadas. Desta vez muito próximas. Correu alguns passos até uma clareira. Ali, onde esperava encontrar o velho pescador, viu apenas um menino. Devia ter uns dez anos. Estava descalço.

As pernas e os braços tinham a cor da terra, como se nunca houvessem conhecido sapatos nem roupas além de uma simples camisa de algodão cru e umas calças remendadas. Os cabelos escuros caíam sobre a testa, e os olhos possuíam um brilho difícil de descrever, um brilho que lembrava a água limpa dos arroios quando o sol da manhã toca o fundo de pedras.

O menino corria entre os pinheiros com a leveza de quem não pesa sobre o chão. As gralhas-azuis pousavam em seus ombros sem qualquer receio. Uma delas bicou-lhe carinhosamente a orelha, arrancando-lhe nova gargalhada.

Pouco adiante, dois veados-do-mato observavam a cena. Não fugiram. Permaneceram imóveis, mastigando tranquilamente as folhas de um arbusto.

Mais adiante, uma cutia aproximou-se carregando um pinhão na boca. Depositou-o aos pés do garoto, que o recolheu com delicadeza e tornou a enterrá-lo sob uma fina camada de folhas secas. Outra cutia repetiu o gesto. Depois outra.

Erwin assistia a tudo escondido atrás do tronco de uma araucária, incapaz de compreender o que via. Aquele menino parecia conversar com os animais sem pronunciar palavra alguma. Bastava um olhar. Um gesto. Um sorriso. Era como se todos compartilhassem um idioma mais antigo que qualquer língua humana.

Num dado momento o garoto levantou o rosto e olhou diretamente para Erwin. Sorriu. Era exatamente o mesmo sorriso discreto do Velho. O mesmo.

Erwin sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Aproximou-se lentamente.

— O senhor...

Parou no meio da frase. O menino riu. Não havia ironia naquela risada. Havia apenas alegria. Erwin tentou novamente.

— Onde está o Velho?

O garoto não respondeu. Curvou-se, recolheu outro pinhão do chão e entregou-o ao menino. Erwin estendeu a mão quase sem perceber. A semente estava morna, como se acabasse de cair da árvore.

Quando levantou novamente os olhos, o garoto já corria entre os troncos, seguido por uma verdadeira procissão de gralhas, cutias e pequenos esquilos. Erwin saiu atrás dele. Correu o quanto pôde. Mas quanto mais avançava, mais parecia que a floresta aumentava de tamanho. As árvores multiplicavam-se. A luz mudava. O vento girava em outra direção. Até que o perdeu de vista.

Exausto, sentou-se sobre um velho tronco coberto de líquens. Foi então que ouviu uma voz atrás de si.

— Procuras alguém?

Voltou-se num sobressalto. O Velho estava novamente ali. Apoiado no cajado. Com o chapéu de feltro. A barba branca balançando ao vento. Como se jamais tivesse desaparecido.

Erwinl já não sabia se estava acordado. Olhou em volta procurando o menino. Não havia ninguém. Respirou fundo. Criou coragem.

— O senhor... era aquele guri?

O Velho permaneceu longo tempo em silêncio. Depois fitou as copas das araucárias. Finalmente falou:

— Toda árvore conhece o tempo melhor que os homens.

A resposta pareceu não responder coisa alguma. Ainda assim, o menino permaneceu atento. O Velho continuou:

— Na primavera, tudo aprende. No verão, tudo cresce. No outono, tudo ensina. No inverno, tudo recorda.

Fez uma pausa. O vento espalhou algumas grimpas douradas entre os dois. Então concluiu:

 Eu apenas acompanho as estações.

Erwin demorou alguns instantes para compreender. Olhou novamente para o rosto do velho. Tentou imaginar aquele mesmo rosto sem barba, sem rugas, sem o peso dos anos. Era possível. Depois lembrou-se do garoto correndo entre as árvores. O mesmo brilho nos olhos. O mesmo sorriso. O mesmo jeito de tocar a terra.

Foi nesse instante que a verdade começou a nascer dentro dele, ainda incompleta, como uma semente rompendo a casca. O Velho e o Menino eram a mesma pessoa. Mas não exatamente.

Não se tratava de um homem que rejuvenescera. Nem de um menino que envelhecera. Era algo muito mais antigo. Muito mais profundo.

Na primavera, a floresta o chamava de criança. No verão, tornava-se homem. Quando as primeiras geadas embranqueciam os campos, seus cabelos começavam a perder a cor. No outono caminhava mais devagar. No inverno transformava-se naquele velho silencioso que percorria as margens do Rio do Peixe anunciando a chegada das grandes águas.

E quando setembro devolvia o perfume das flores aos campos, tudo recomeçava. As rugas desapareciam. Os cabelos escureciam. Os pés voltavam a correr descalços entre os pinheiros. As gralhas outra vez brincavam sobre seus ombros. Como se o tempo jamais houvesse existido.

Erwin ergueu os olhos para as copas das araucárias. Pela primeira vez percebeu que elas também obedeciam ao mesmo compasso invisível. Perdiam pinhas. Renovavam galhos. Resistiam às geadas. Recomeçavam na primavera. Como os rios. Como as estações.Como aquele estranho guardião que caminhava entre ambos desde o tempo que homem algum era capaz de recordar.

A origem

Erwin guardou aquele segredo durante muitos anos.

Voltou para casa sem contar a ninguém o que vira entre as araucárias. Se relatasse que uma árvore nascera diante de seus olhos ou que um velho se transformava num menino conforme mudavam as estações, diriam que se perdera na mata por tempo demais ou que a imaginação lhe pregara uma peça. Preferiu o silêncio. Há verdades que, quando pronunciadas antes da hora, deixam de parecer verdade.

Mesmo assim, jamais deixou de procurar o Velho. Encontrava-o de tempos em tempos, sempre nas vésperas das grandes cheias. Caminhavam algumas horas juntos. Às vezes trocavam poucas palavras; outras vezes, nenhuma. O menino aprendera que o silêncio também pode ensinar. Bastava prestar atenção ao vento passando pelas copas das araucárias, ao trabalho paciente das gralhas-azuis enterrando pinhões, ao murmúrio das águas procurando seu caminho entre as pedras.

Os anos passaram. Erwin tornou-se rapaz, depois homem. Casou-se, criou filhos, abriu um pequeno armazém nas proximidades da Estação Luzerna. Viu surgirem novas estradas, caminhões substituindo carroças, pontes de concreto tomando o lugar das antigas pontes de madeira. Assistiu ao desaparecimento de muitos pinheirais para dar lugar a lavouras e serrarias. Mas, sempre que o inverno se aproximava e as chuvas engrossavam sobre a serra, o Velho reaparecia, exatamente igual ao primeiro encontro.

Foi numa dessas caminhadas que Erwin criou coragem para fazer novamente a pergunta que carregava desde menino.

— Quem é o senhor?

Desta vez o Velho sorriu. Sentou-se sobre um tronco coberto de musgo e permaneceu longo tempo olhando o rio. Quando finalmente falou, sua voz parecia vir de muito longe.

— Queres conhecer meu nome... mas meu nome já se perdeu faz muitos séculos.

Abaixou-se, recolheu um pinhão caído e girou-o lentamente entre os dedos.

— Antes de existirem cidades, antes dos tropeiros abrirem caminhos, antes de qualquer sino chamar gente para a missa, havia apenas mata. Pinheiros até onde a vista alcançava. O rio corria limpo, e ninguém lhe dava nome, porque ninguém imaginava possuir aquilo que já pertencia ao mundo.

Fez nova pausa.

— Naquele tempo vivia um menino caboclo.

Erwin ouviu em silêncio.

— Era órfão. Não conheceu pai nem mãe. Aprendeu a sobreviver recolhendo pinhões, pescando lambaris e dormindo onde a noite o encontrasse. A floresta era sua casa.

Os olhos do Velho perderam-se na correnteza.

— Então veio uma seca como nunca mais se viu. Os riachos desapareceram. As nascentes começaram a morrer. As pequenas mudas de araucária secavam antes mesmo de criar raízes. O menino passou a carregar água do rio em duas cabaças presas a uma vara sobre os ombros. Caminhava léguas inteiras todos os dias apenas para molhar meia dúzia de brotos. Na manhã seguinte repetia tudo. E na outra também. Durante meses. Até que um dia caiu de cansaço junto à raiz de uma velha araucária.

Erwin percebeu que o Velho já não contava uma história. Recordava-a.

— Quando abriu os olhos — continuou ele — encontrou uma mulher feita de água. Não era moça nem velha. Seus cabelos pareciam feitos da corrente dos rios. Sua pele tinha o brilho das fontes escondidas entre as pedras. E seus olhos mudavam de cor como muda o céu antes da chuva.

Ela perguntou:

— Por que salvas árvores em cuja sombra nunca descansarás?

O menino respondeu sem pensar:

— Porque um dia alguém ainda vai precisar delas.

A mulher sorriu. Não com alegria. Mas com esperança. Então mergulhou uma das mãos na água do rio e tocou a testa do menino.

— Receberás três dons. Nunca deixarás de encontrar água onde houver sede. Jamais permitirás que o Rio do Peixe esqueça o caminho das araucárias. E viverás enquanto houver alguém capaz de plantar para um tempo que não verá.

Erwin permaneceu imóvel. Já sabia a resposta antes mesmo de formulá-la.

— Esse menino...

O Velho apenas inclinou a cabeça. Não confirmou. Também não negou. A tarde caiu lentamente sobre o vale.

Os dois retomaram a caminhada. Nenhum deles voltou a tocar no assunto.

Na década de setenta chegaram homens de fora trazendo mapas, teodolitos e grandes máquinas. Uma empresa comprara extensa área de pinheiral para transformá-la em madeira. As motosserras começaram cedo. As araucárias tombavam uma após outra com estrondos que ecoavam por todo o vale.

As gralhas desapareceram. Os veados fugiram. As cutias já não encontravam onde esconder os pinhões.

Erwin sentiu um aperto no peito. Naquela mesma tarde encontrou o Velho caminhando à beira do rio. Pela primeira vez havia tristeza em seus olhos.

Pouco adiante vinha o engenheiro responsável pela derrubada. Era um homem instruído, correto em suas contas e sincero na convicção de que o progresso sempre justificava seus meios.

Ao cruzarem, o Velho apenas disse:

— Ainda há tempo.

O engenheiro sorriu com educação.

— Tempo para quê?

— Para deixar de cortar o que não foste tu quem fez.

O homem agradeceu o conselho, mas continuou seu caminho. No dia seguinte, as motosserras voltaram a cantar. Não houve raio. Não houve castigo. Não houve milagre. Apenas choveu. Choveu durante muitos dias, como tantas vezes já acontecera naquelas serras.

As encostas recentemente desprotegidas não conseguiram segurar a água. A terra desceu. Os barrancos cederam. O rio procurou novos caminhos, como sempre faz quando lhe arrancam as raízes que lhe sustentavam as margens.

As máquinas foram abandonadas às pressas. Ninguém morreu. Mas o projeto terminou ali.

Meses depois, quando a lama endureceu e o silêncio voltou ao pinheiral ferido, começou a surgir uma infinidade de pequenas mudas verdes. Primeiro algumas dezenas. Depois centenas. Mais tarde milhares.

Os técnicos atribuíram o fenômeno às gralhas-azuis que haviam escondido sementes anos antes. Os antigos sorriram. Sabiam que as gralhas jamais trabalhavam sozinhas.

O tempo continuou seu ofício. Erwin envelheceu. Os cabelos embranqueceram. Os filhos cresceram. Vieram os netos.

Numa manhã fria de setembro, muitos anos depois, percebeu que fazia tempo demais que não via o Velho do Rio do Peixe. Esperou o inverno seguinte. Depois outro. Nada. Sentiu uma tristeza difícil de explicar. Talvez a velha lenda houvesse finalmente chegado ao fim.

Certa tarde, resolveu caminhar sozinho pela mesma mata onde, ainda menino, vira nascer uma araucária. As árvores estavam novamente altas. As gralhas faziam seu costumeiro alvoroço.

Foi então que ouviu uma gargalhada infantil. Virou-se rapidamente. Entre os troncos corria um menino descalço. Trazia um punhado de pinhões junto ao peito. As gralhas voavam atrás dele. As cutias aproximavam-se sem medo.

O garoto parou por um instante. Sorriu para Erwin. Era o mesmo sorriso. Antes que o velho comerciante pudesse chamá-lo, desapareceu entre os pinheiros.

Erwin não correu. Apenas sorriu também. Naquele instante compreendeu o que jamais entendera completamente. O Guardião não era um homem. Era uma promessa.

Enquanto existisse alguém disposto a plantar uma árvore cuja sombra pertenceria a outro, o Rio do Peixe jamais ficaria sozinho.

        Anos mais tarde, um menino que passeava pela mata encontrou sobre uma grande pedra um único pinhão. Era perfeito. Brilhava como se tivesse acabado de cair da pinha.

Ao lado dele havia duas pegadas impressas na terra úmida. Uma era pequena, de pés descalços. A outra pertencia a um homem já idoso, marcada pela ponta de um cajado.

O menino olhou em volta. Não viu ninguém. Pegou delicadamente o pinhão, caminhou até uma clareira e o enterrou com as próprias mãos.

Naquele mesmo instante, uma rajada de vento atravessou o pinheiral. As copas das araucárias começaram a cantar. Quem conhece apenas o barulho do vento dirá que era o rumor das folhas. Mas os antigos garantem que, naquela manhã, ouviu-se claramente uma voz espalhando-se pela floresta:

— Toda araucária é um velho que um dia começou menino. E todo rio continua vivo enquanto houver alguém disposto a plantar a sombra que nunca verá.

Desde então, quando as primeiras chuvas de primavera escurecem o Vale do Rio do Peixe, ainda há quem olhe demoradamente para as margens do rio, esperando distinguir, entre a neblina da manhã, um velho de chapéu de feltro caminhando devagar, apoiado num cajado de araucária. Outros juram que não é um velho, mas um menino descalço. Há também os que afirmam ter visto apenas uma gralha-azul cruzando o céu com um pinhão no bico.

Talvez todos tenham razão. As lendas mais antigas nunca escolhem uma única forma de permanecer vivas.

O TSE de 2026 sob a sombra do STF - Por Félix Maier


O TSE de 2026 sob a sombra do STF

Félix Maier

O Brasil vive uma situação institucional curiosa em 2026. O Tribunal Superior Eleitoral é presidido por Kassio Nunes Marques, ministro indicado ao STF por Jair Bolsonaro. Em qualquer democracia normal, isso bastaria para encerrar a narrativa de que a Justiça Eleitoral possui um único viés político. No entanto, a impressão que permanece é outra: muda o presidente do TSE, mas a sombra do Supremo Tribunal Federal continua projetada sobre a Corte Eleitoral.
Essa percepção não surgiu do nada. Ela foi construída ao longo das últimas décadas, com o aparelhamento petista de todos os órgãos públicos feito pelo Descondenado e pela Estocadora de Vento, a começar com o #InstitutoLula, antigo STF.
Em 2022, o TSE, comandado por líderes petistas, assumiu um protagonismo sem precedentes. Determinou remoções de conteúdos, restringiu propagandas, impôs respostas rápidas às plataformas digitais e passou a interferir diretamente no ambiente da campanha eleitoral. Muitos brasileiros aplaudiram essas medidas em nome do combate à desinformação. Outros enxergaram algo mais preocupante: um tribunal deixando de ser árbitro para tornar-se participante da disputa, em prol do Ogro de Nove Dedos.
O problema não era apenas o conteúdo de determinadas decisões. Era a lógica que se instalava. Se um juiz passa a decidir quais opiniões podem circular, quais entrevistas podem permanecer no ar e quais críticas devem ser retiradas das redes sociais, o debate democrático deixa de ser resolvido pelo eleitor e passa a depender da interpretação de magistrados.
Esse ambiente produziu consequências graves que permanecem até hoje.
A TV Jovem Pan News, em 2022, reformulou profundamente sua programação durante aquela campanha presidencial. Comentaristas conhecidos, como Vitor Brown, Augusto Nunes, Guilherme Fiuza, Jorge Serrão, Ana Paula Henkel e
Cristina Graeml desapareceram da emissora. Foram "cancelados" numa só tacada. Oficialmente, tratou-se de uma decisão empresarial em meio a pressões jurídicas e mudanças editoriais. Na prática, muitos espectadores concluíram que o recado havia sido dado: desafiar determinados entendimentos da Justiça poderia custar caro.
Não é preciso acreditar numa conspiração para perceber um fenômeno conhecido em qualquer sociedade: quando o risco jurídico aumenta, cresce a autocensura. Empresas evitam conflitos. Jornalistas moderam críticas. Comunicadores preferem o silêncio à possibilidade de enfrentar processos intermináveis. A liberdade de expressão não desaparece por decreto; muitas vezes, ela vai sendo reduzida pelo medo. "Censura, só esta vez", disse a ministra Carmita do STF.
Em 2026, esperava-se uma mudança de atmosfera. Afinal, o presidente do TSE já não é o mesmo. Mas a sensação de que o STF continua exercendo influência decisiva sobre os rumos da Justiça Eleitoral permanece presente no debate público. Independentemente de haver ordens diretas ou não, o peso institucional da Suprema Corte é suficiente para moldar comportamentos na Corte eleitoral. Tudo é levado para lá, por parlamentares petistas e seus genéricos, como o Piçol e quetais.
Como exemplo, podemos citar a repercussão de um vídeo gerado por IA, com a voz de Jair Bolsonaro, na convenção de lançamento da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. Ministros do STF sinalizaram a possibilidade de atuar caso o TSE não aplique punições severas, gerando reações de magistrados da Corte Eleitoral que interpretam a movimentação como pressão e invasão de competência.
Outra sombra do STF sobre o TSE foi criar uma nova "baleia": Flávio Bolsonaro é investigado pelo STF por suposta calúnia contra Lula. Ora, Flávio é senador da República e está amparado por imunidade parlamentar prevista no Art. 53 da Constituição: "Os Deputados e Senadores são invioláveis, civil e penalmente, por quaisquer de suas opiniões, palavras e votos." Por QUAISQUER de suas opiniões, palavras e votos.
Os paus-mandados petistas e piçolistas precisam criar uma baleia-jubarte a cada semana, como foi a ridículoa investigação sobre a aproximação de Jair Bolsonaro de uma baleia durante um passeio de jet ski no litoral paulista.
O Judiciário existe para aplicar a lei, não para administrar o debate público de campanhas políticas. Seu papel é garantir eleições limpas, não conduzir a conversa nacional. Sempre que um tribunal ultrapassa essa fronteira, ainda que movido pelas melhores intenções, cria um precedente perigoso. Afinal, poderes excepcionais costumam sobreviver muito mais tempo do que as circunstâncias que justificaram sua criação.
A democracia não exige uma imprensa dócil nem cidadãos silenciosos. Exige justamente o contrário: vozes divergentes, críticas duras, opiniões equivocadas e debates apaixonados. A verdade não se fortalece quando o Estado fala mais alto; fortalece-se quando ideias podem ser confrontadas livremente.
Em 2022, muitos brasileiros aceitaram que juízes entrassem em campo porque acreditavam que o Cavalão era perigoso demais e que o Descondenado merecia o tri. Em 2026, a pergunta permanece atual: quem fiscaliza o fiscal? Quem impõe limites a quem passou a decidir os limites da liberdade?
Uma democracia saudável não teme eleições livres nem opiniões incômodas. Ela teme, isto sim, que "intocáveis" da Suprema Corte se imiscuem em tudo para perseguir conservadores e passar pano para seus protegidos. Quando isso acontece, a República deixa de ser governada pela confiança na Justiça e passa a ser refém da atual ditadura do Sistema Toga Petralha.
Bienvenidos a Brazuela! Ou seria Braságua?