O
Velho do Rio do Peixe
O
homem que aparecia antes das águas
Havia
quem jurasse tê-lo visto nas próprias cabeceiras do Rio do Peixe, na Serra do
Espigão, a mais de mil e duzentos metros de altitude, quando o rio ainda era um
fiapo de água saltando entre as pedras frias da montanha. Depois desaparecia
por dias, reaparecendo nas matas de Caçador e nas várzeas de Videira, onde
diziam que plantava pinhões durante a madrugada. Em Tangará, as araucárias
pareciam inclinar os galhos à sua passagem. Em Luzerna, permanecia longo tempo
contemplando a represa do Lindner, abrigado sob a sombra de um sarandi. Em
Herval d'Oeste, surgia sempre antes das grandes enchentes, para divertimento
dos guris da estação ferroviária, que o perseguiam gritando em larfiagem.
Dali seguia por Lacerdópolis, Ouro, Capinzal e Piratuba, acompanhando o curso
das águas até o Rio Uruguai, como se não fosse um homem caminhando pela margem,
mas o próprio espírito do rio regressando, ano após ano, para verificar se suas
barrancas continuavam vivas.
Os
mais velhos costumavam dizer que todo rio possui memória. Alguns guardam apenas
pedras, galhos e barrancos; outros, porém, escondem lembranças mais antigas que
as próprias cidades. O Rio do Peixe era um desses. Corria desde muito antes de
haver pontes, estradas, igrejas ou plantações de milho espalhadas pelo vale.
Corria quando a mata ainda cobria quase tudo, quando as araucárias formavam um
teto verde sobre as coxilhas e quando as gralhas-azuis eram as únicas
semeadoras de pinhão conhecidas daquele mundo. Depois vieram os caboclos, os
tropeiros, os colonizadores alemães e italianos, os trilhos da ferrovia, os
serradores de madeira, as pequenas vilas que cresceram até se tornarem cidades.
O rio permaneceu o mesmo, apenas carregando consigo um número cada vez maior de
histórias. Entre todas elas, nenhuma atravessou tantas gerações quanto a do
Velho do Rio do Peixe.
Meu
avô ouvira essa história do bisavô nas demoradas noites de inverno, quando o
vento assobiava entre os pinheiros e o fogo do fogão a lenha fazia estalar as
achas de guajuvira com pinhão na chapa. Meu pai, por sua vez, ouviu-a ainda
menino, sentado num banco tosco de madeira enquanto descascava espigas de milho
ao lado da família. Quando chegou a minha vez, já não havia tantas noites
silenciosas. A televisão começava a disputar espaço com os causos antigos, e
muita gente preferia acreditar no que aparecia na tela a escutar aquilo que a
memória dos velhos insistia em conservar. Mesmo assim, sempre que o céu
escurecia por vários dias seguidos e a chuva caía grossa sobre o Vale do Rio do
Peixe, alguém acabava lembrando, quase num sussurro:
—
Será que o Velho já apareceu?
Ninguém
perguntava quem era esse velho. Todos pareciam saber, ainda que muitos jamais o
tivessem visto. Era como se seu nome não pertencesse a uma pessoa, mas ao
próprio rio.
Diziam
que ele surgia apenas quando as águas preparavam alguma surpresa. Não bastava
uma cheia comum, dessas que fazem o rio lamber o barranco e assustam apenas as
galinhas mais distraídas. Era preciso que a enchente fosse daquelas capazes de
mudar cercas de lugar, arrancar pontes de madeira, transformar potreiros em
lagoas e fazer as canoas navegarem onde, dias antes, pastavam vacas leiteiras.
Antes dessas grandes águas, invariavelmente, aparecia um velho caminhando pela
margem.
Nunca
vinha montado. Nunca trazia cachorro. Nunca conduzia tropa. Apenas caminhava.
Vestia
bombachas desbotadas, um pala escuro que parecia tão antigo quanto as figueiras
centenárias e um chapéu de feltro de abas largas, sempre inclinado para
proteger os olhos. A barba era branca, comprida, mas estranhamente limpa, como
se fosse penteada todas as manhãs. Nas mãos carregava um cajado de madeira de
araucária, liso de tanto uso, cuja ponta parecia mais polida que cabo de enxada
antiga.
Havia
quem jurasse que pescava. Outros diziam jamais ter visto um anzol em suas mãos.
Alguns afirmavam que carregava uma pequena sacola de couro onde guardava iscas;
outros garantiam que ela jamais continha peixe algum. Sobre isso nunca houve
acordo. O único detalhe em que todos coincidiam era seu modo de caminhar:
lento, firme, sem demonstrar cansaço, como quem conhece cada pedra do caminho
muito antes de ela nascer.
Também
nunca pedia pouso. Se alguém lhe oferecia um prato de feijão, agradecia com um
leve movimento da cabeça e seguia adiante. Se insistiam em lhe dar dinheiro,
sorria de um jeito quase imperceptível, como quem acabasse de ouvir uma
brincadeira de criança. Jamais aceitava. Não comprava nada, não vendia nada e,
ao que parecia, também não precisava de nada.
Mas
o que realmente intrigava as pessoas acontecia sempre no mesmo instante. Depois
de caminhar por alguns quilômetros acompanhando o curso do rio, ele parava.
Permanecia imóvel durante alguns minutos. Então fincava o cajado no chão,
erguia lentamente o rosto e fitava uma colina distante. Não dizia palavra.
Apenas olhava. Em seguida retirava o cajado da terra e retomava a caminhada,
desaparecendo na curva seguinte como se a neblina o tivesse engolido.
Os
moradores mais antigos compreendiam o recado sem necessidade de explicações. No
mesmo dia começavam a remover o gado para terrenos mais altos. Levavam os
cavalos para além das coxilhas, retiravam os porcos dos chiqueiros próximos ao
rio, desmontavam paióis improvisados e empilhavam móveis sobre tijolos dentro
de casa. As mulheres guardavam documentos, fotografias e imagens de santos em
lugares elevados. As crianças, sem entender direito a pressa dos adultos,
apenas obedeciam.
Quando
alguém perguntava a razão de tanto trabalho, bastava uma resposta curta:
— O
Velho passou.
Era
suficiente. Os recém-chegados, entretanto, riam daquilo tudo.
Durante
as décadas de 1920 e 1930, depois da sangrenta Guerra do Contestado, chegaram
muitas famílias alemãs e italianas no vale, vindas do Rio Grande do Sul e do
Vale do Itajaí. Gente trabalhadora, interessada em abrir lavouras, serrarias e
pequenos comércios. Muitos jamais tinham ouvido falar da antiga lenda.
Ao
verem os vizinhos recolhendo animais enquanto o céu ainda conservava alguns
rasgos de azul, perguntavam:
—
Ficaram loucos?
Então
alguém respondia:
— O
Velho do Rio passou hoje cedo.
Os
forasteiros olhavam uns para os outros, divertidos.
— Um
velho mandando no rio? Essa agora...
E
voltavam ao trabalho.
Dois
ou três dias depois começava a chover na serra. Primeiro uma chuva mansa.
Depois outra mais forte. Em seguida vinham dias inteiros de água grossa,
pesada, persistente, daquelas que transformam os córregos em torrentes
barrentas e fazem as pedras desaparecerem sob espumas revoltas.
Então
o Rio do Peixe mudava de voz. Quem morava perto aprendia a reconhecer aquele
som. O rio deixava de correr; parecia respirar. Seu ronco aumentava durante a
madrugada, batendo contra barrancos, troncos e pilares de pontes. Pela manhã, a
água já cobria as ruas de cascalho. À tarde engolia cercas. Na noite seguinte
invadia quintais, depósitos e galpões, arrastando casas inteiras.
Quando
finalmente atravessava estradas e transformava o vale numa imensa corrente
barrenta, muitos se lembravam do velho de chapéu. Os que haviam acreditado
apenas fechavam as janelas e esperavam a enchente passar. Os que zombaram
lamentavam não ter ouvido os antigos.
Nunca
houve notícia de alguém que tivesse seguido o aviso do Velho e perdido tudo. Em
compensação, eram incontáveis os casos de famílias salvas porque resolveram
retirar seus animais e abandonar as casas a tempo. Cada enchente acrescentava
um novo episódio à lenda, como se o próprio rio tivesse prazer em confirmar
aquilo que os homens teimavam em negar.
Curiosamente,
ninguém sabia de onde o Velho vinha. Nunca aparecia entrando por alguma
estrada. Nunca era visto atravessando pontes.
Ninguém
recordava tê-lo encontrado comprando mantimentos nas vendas, participando de
festas de igreja ou assistindo às missas dominicais. Simplesmente surgia na
margem do rio, caminhava durante algumas horas e desaparecia.
Houve
quem tentasse segui-lo. Um tropeiro garantiu que manteve o velho à vista
durante quase toda uma tarde. Bastou desviar os olhos por um instante para
ajeitar a chincha do cavalo e, quando tornou a procurar, já não havia ninguém
na estrada. O caminho seguia reto por centenas de metros, sem mato suficiente
para esconder uma pessoa, mas o velho sumira mais rápido que a neblina quando o
sol rompe o horizonte.
Outro
homem jurou ter encontrado apenas as marcas do cajado impressas no barro úmido.
Eram pegadas estranhas. Caminhavam por alguns metros e simplesmente terminavam
na margem do rio, como se dali em diante quem as deixara tivesse continuado a
viagem sobre a própria água.
Essas
histórias corriam de boca em boca, aumentando um pouco a cada geração, como
acontece com todos os bons causos do interior. Ainda assim, havia algo que
ninguém ousava exagerar, porque todos pareciam concordar silenciosamente: o
Velho jamais fazia mal a quem quer que fosse. Não ameaçava, não castigava, não
assustava as crianças, não exigia promessas nem oferendas. Apenas avisava.
Talvez
por isso fosse respeitado até pelos mais incrédulos.
Em
Caçador, dizem que o Velho conversa com as gralhas-azuis. Em Videira, juram que
ele planta pinhões durante a madrugada. Em Tangará, contam que as araucárias se
inclinam quando ele passa. Em Luzerna, na ponte coberta, feita de madeira com
cobertura de zinco, afirmam que ele costuma permanecer longo tempo observando a
confluência do Rio Limeira com o Rio do Peixe. Em Joaçaba, os pescadores dizem
que nunca lança anzol, apenas observa a corrente. Em Herval d'Oeste, os
ferroviários garantem que ele atravessa a ponte Emílio Baumgart sempre na
véspera das grandes enchentes. Em Ouro e Capinzal, contam que seu cajado faz
brotar pequenas nascentes onde toca o chão. Como Moisés no Sinai.
Em
Piratuba, contam que o Velho do Rio do Peixe fincou o cajado num ponto perdido
entre os campos e seguiu viagem sem dizer palavra. Anos depois, quando a
Petrobras perfurava o solo em busca de petróleo, não encontrou ouro negro, mas
uma abundante fonte de águas termais a trinta e oito graus. Desde então, há
quem diga que o Velho já conhecia o segredo que a terra guardava.
Meu
avô costumava encerrar o assunto sempre da mesma maneira. Depois de puxar
lentamente a bomba do chimarrão, olhava pela janela na direção do rio e dizia
numa voz tão baixa que parecia conversar consigo mesmo:
—
Homem comum não volta durante tantos anos sem envelhecer mais um dia. Mas
também não acredito que ele seja assombração. Acho que o Rio do Peixe, de tanto
viver, resolveu um dia criar um velho para caminhar em seu lugar.
E,
depois de um longo silêncio, acrescentava:
—
Quem ri dessa história nunca conheceu um rio de verdade.
O
segredo das araucárias
A
primeira vez que alguém resolveu seguir o Velho do Rio do Peixe foi por pura
curiosidade. Não para desafiá-lo, como fizeram alguns homens da cidade, nem
para provar que a velha história não passava de superstição. Quem tomou essa
decisão foi apenas um menino, desses que ainda enxergam perguntas onde os
adultos veem apenas caminhos.
Chamava-se
Erwin, embora poucos usassem seu nome. Desde pequeno era mais conhecido por
Pinhão, porque vivia catando sementes pelos pinheirais, enchendo os bolsos do
calção e esquecendo metade delas pelo caminho.
— Se
esse velho aparece faz tanto tempo, por que ninguém sabe onde mora?
Ninguém
respondia.
— Se
ele é pescador, onde vende os peixes?
Novo
silêncio.
— E
por que ele nunca envelhece?
O
avô apenas sorria.
—
Algumas perguntas, guri, só o mato responde.
A
resposta não lhe bastava.
Naquele
final de inverno de 1957, depois de vários dias de chuva fina sobre a Serra do
Espigão, espalhou-se pela vizinhança a notícia de que o Velho fora visto
caminhando junto ao rio. Os homens começaram a retirar o gado das baixadas, e
as mulheres levantaram os móveis sobre tocos de madeira. Como sempre acontecia,
ninguém comentou muito. Simplesmente faziam o que precisava ser feito.
Erwin,
porém, tomou outra decisão. Esperaria o amanhecer. Ainda antes do primeiro
canto dos galos, saiu de casa levando apenas um pedaço de pão, um canivete e
uma pequena cuia de alumínio presa ao embornal. Caminhou em silêncio até
alcançar a margem do Rio do Peixe, onde uma tênue camada de neblina escondia
metade da correnteza.
Não
precisou procurar muito. O velho estava ali. Caminhava devagar, apoiando-se no
cajado de araucária, como se conhecesse cada curva do rio desde antes da
criação do mundo. Não olhava para trás nem parecia notar a presença do menino. Erwin
manteve distância, escondendo-se atrás dos sarandis e das taquaras sempre que o
caminho permitia. Assim atravessaram a manhã inteira.
Ao
contrário do que imaginava, o Velho não seguia apenas a beira do rio. Em certos
pontos abandonava a margem e penetrava lentamente na mata, caminhando por
antigas picadas que pareciam invisíveis aos olhos comuns. Eram trilhas
estreitas, cobertas de folhas secas, onde o perfume da terra úmida se misturava
ao cheiro resinoso dos pinheiros.
Quanto
mais avançavam, mais antigas pareciam as árvores. As araucárias erguiam-se tão
altas que seus galhos formavam um teto verde muito acima das outras árvores. O
chão desaparecia sob um espesso tapete de agulhas de pinheiro, e apenas alguns
feixes de luz conseguiam romper aquela imensas catedrais vegetais. O silêncio
era interrompido apenas pelo tamborilar distante de um pica-pau, pelo murmúrio
de um riacho escondido e pelo assobio do vento passeando entre as copas.
Erwin
nunca estivera numa mata tão velha. Ali não havia tocos de árvores abatidas,
nem cercas, nem sinais de machado. Parecia um pedaço de mundo esquecido pelo
tempo.
Durante
dois dias inteiros repetiu-se a mesma rotina. O menino seguia. O Velho
caminhava. À noite, Erwin voltava escondido para casa por atalhos conhecidos,
inventando desculpas para justificar o cansaço. Antes do amanhecer, retornava
ao mesmo lugar.
No
terceiro dia aconteceu algo estranho. O velho deixou de seguir o rio. Entrou
definitivamente no pinheiral. Erwin percebeu que já não ouviam o rumor das
águas. Apenas o vento.
Depois
de caminhar por longo tempo, o Velho parou diante de uma clareira iluminada
pelo sol da manhã. Ali existia apenas um círculo de terra nua, como se algum
raio tivesse derrubado uma árvore muitos anos antes. Pela primeira vez desde
que começara a segui-lo, o menino viu o velho levar a mão ao bolso do pala. Retirou
um único pinhão.
Era
um pinhão comum, igual aos milhares que Erwin apanhava todo outono para assar
na chapa do fogão. O velho ajoelhou-se com a lentidão de quem executa um gesto
aprendido desde sempre. Com a ponta do cajado abriu um pequeno buraco na terra,
depositou ali a semente e cobriu-a delicadamente com um punhado de folhas.
Depois
permaneceu imóvel. Erwin esperou. Nada aconteceu. Sorriu consigo mesmo. Talvez
fosse apenas um velho plantando uma árvore.
Foi
então que a terra estremeceu. Primeiro quase imperceptivelmente. Depois um
pequeno montículo começou a erguer-se. Do centro dele surgiu um broto verde,
tenro, brilhante como se acabasse de nascer da própria luz.
O
menino esfregou os olhos. O broto crescia. Crescia diante dele. Transformou-se
numa muda. A muda engrossou. O tronco alargou-se numa velocidade impossível. Os
galhos abriram-se para os lados. A casca adquiriu o tom acinzentado das árvores
antigas.
Em
poucos instantes, onde antes existia apenas terra nua, erguia-se uma araucária
majestosa, tão alta quanto as demais que cercavam a clareira.
Erwin
perdeu o fôlego. Não sabia se corria, gritava ou rezava. As pernas recusavam-se
a obedecer. Foi então que ouviu um bater de asas. Uma gralha-azul pousou
suavemente num dos galhos recém-formados. Trazia um pinhão preso no bico.
Inclinou a cabeça para o velho, como quem cumprimenta um velho conhecido, e
voltou a levantar voo.
Voou
poucos metros. Escolheu um pequeno espaço entre as folhas secas. Com rápidos
movimentos enterrou o pinhão na terra. Depois cobriu-o cuidadosamente com
folhas e musgo. Não era um gesto de esquecimento, mas de cuidado. A gralha-azul
guardava ali o seu alimento para os dias difíceis, como o colono guardava os
grãos no paiol ou as reservas na despensa da casa. Cada pinhão escondido era
uma pequena promessa de fartura para o futuro, uma semente confiada à terra
para quando a floresta precisasse renascer. Observou a própria obra por alguns
segundos e desapareceu entre os pinheiros.
O
velho acompanhou o voo da ave com um sorriso sereno. Somente então falou pela
primeira vez. Sua voz era baixa, profunda e antiga como o rumor do próprio rio.
— Eu
planto. Ela espalha.
Erwin
estremeceu. Não apenas porque finalmente ouvira o velho falar, mas porque
percebeu que aquelas palavras pareciam dirigir-se tanto à gralha quanto às
árvores, ao vento e ao próprio chão.
O
silêncio voltou a dominar a clareira. Passado algum tempo, o velho apoiou as
duas mãos sobre o cajado e acrescentou, olhando para o alto da nova araucária:
—
Uma árvore nunca nasce para quem a planta. Nasce para quem ainda nem nasceu.
As
palavras permaneceram suspensas no ar como sementes levadas pelo vento. Erwin
sentiu que havia nelas uma verdade grande demais para um menino compreender. Mesmo
assim jamais as esqueceria.
Enquanto
contemplava a gigantesca araucária recém-nascida, começou a notar pequenos
detalhes que antes lhe escapavam. As gralhas cruzavam continuamente o céu
carregando pinhões. Cutias surgiam entre os arbustos para esconder sementes.
Esquilos percorriam os galhos. O vento espalhava pinhas maduras pelo chão. Parecia
existir uma imensa conversa silenciosa entre todos os habitantes daquela
floresta. E o Velho fazia parte dela.
Naquele
instante, Erwin compreendeu que o homem não caminhava pelas matas procurando
alguma coisa. Também não andava sem destino. Ele estava trabalhando. Fazia um
serviço tão antigo quanto a própria floresta. Plantava o futuro.
Quando
o sol começou a desaparecer atrás das copas, o velho retomou a caminhada sem
olhar para trás. Erwin permaneceu imóvel por longo tempo, contemplando a jovem
araucária que, embora acabasse de nascer diante de seus olhos, possuía o porte
respeitável de uma árvore centenária.
Na
volta para casa, o menino encontrou pelo caminho dezenas de pinhões espalhados
sobre a trilha. Curvou-se para recolher um deles, mas desistiu ao perceber uma
gralha-azul observando-o do alto de um galho. Sorriu. Deixou a semente onde
estava. Pela primeira vez em sua vida, entendeu que nem todo pinhão fora feito
para virar comida.
O
Menino dos Pinhões
Naquela
tarde, depois de testemunhar o nascimento impossível da araucária, Erwin já não
sabia se ainda caminhava pelo mesmo mundo em que acordara três dias antes. A
floresta parecia igual, mas não era. O vento continuava deslizando pelas copas,
as gralhas cruzavam o céu em bandos barulhentos e o chão permanecia coberto de grimpas
douradas. Ainda assim, tudo adquirira um significado novo, como se a mata
houvesse retirado um véu invisível diante de seus olhos.
O
Velho retomou a caminhada sem dizer palavra. Erwin seguiu alguns passos atrás,
agora sem se esconder. Se aquele homem havia percebido sua presença desde o
primeiro dia, fingia não notar. Se não a percebera, também não demonstrava
surpresa. Caminhava com a serenidade de quem sabe que certas coisas chegam
exatamente quando devem chegar.
Já
era quase noite quando alcançaram um pequeno capão protegido do vento. Um fio
de água cristalina escorria entre pedras cobertas de musgo, formando uma sanga
tão transparente que se podia contar os seixos do fundo. Ali o Velho recolheu
alguns gravetos secos, bateu duas pedras de quartzo uma contra a outra e, com
uma habilidade que parecia esquecida pelos homens, acendeu um pequeno fogo.
Erwin
aproximou-se devagar. Sentou-se do outro lado das chamas. Durante um bom tempo
nenhum dos dois falou. Apenas ouviam o crepitar da lenha e o canto distante de
um urutau, que começava a anunciar a chegada da noite.
O
menino já não conseguia conter a pergunta que o acompanhava desde a margem do
Rio do Peixe.
—
Quem é o senhor?
O
Velho permaneceu olhando para o fogo. As labaredas refletiam-se em seus olhos
como se ali ardessem lembranças muito antigas. Erwin esperou. Nenhuma resposta.
Insistiu, agora com mais delicadeza.
— O
senhor mora por aqui?
Novo
silêncio. O velho apenas alimentou o fogo com um galho de pinheiro. As fagulhas
subiram lentamente até desaparecer entre os galhos escuros das araucárias. O
menino desistiu de perguntar. Percebeu que havia silêncios mais eloquentes que
muitas palavras.
Depois
de algum tempo, o Velho retirou do embornal um pedaço de pão escuro e dividiu-o
ao meio. Estendeu uma parte ao garoto. Erwin aceitou. Comeram em silêncio, como
fazem os velhos amigos que já não precisam conversar para se entender.
A
lua apareceu entre as copas. O fogo foi diminuindo. O cansaço venceu a
curiosidade. Erwin enrolou-se no pala que o Velho lhe oferecera e adormeceu
embalado pelo sussurro do vento entre os pinheiros. Não soube dizer quanto
tempo dormira quando ouviu risadas.
Primeiro
pensou que estivesse sonhando. Depois percebeu que eram risadas leves,
cristalinas, iguais às de crianças brincando perto de um riacho. Abriu os olhos
apenas por um instante. As brasas ainda brilhavam. A silhueta do Velho parecia
imóvel do outro lado da fogueira. Voltou a dormir.
Ao
amanhecer, acordou com o rosto aquecido pelos primeiros raios de sol. Sentou-se
depressa. O fogo havia se apagado. O cajado desaparecera. O chapéu de feltro já
não estava ali. O velho sumira.
Erwin
levantou-se assustado e começou a procurá-lo entre as árvores. Foi então que
ouviu novamente as risadas. Desta vez muito próximas. Correu alguns passos até
uma clareira. Ali, onde esperava encontrar o velho pescador, viu apenas um
menino. Devia ter uns dez anos. Estava descalço.
As
pernas e os braços tinham a cor da terra, como se nunca houvessem conhecido
sapatos nem roupas além de uma simples camisa de algodão cru e umas calças
remendadas. Os cabelos escuros caíam sobre a testa, e os olhos possuíam um
brilho difícil de descrever, um brilho que lembrava a água limpa dos arroios
quando o sol da manhã toca o fundo de pedras.
O
menino corria entre os pinheiros com a leveza de quem não pesa sobre o chão. As
gralhas-azuis pousavam em seus ombros sem qualquer receio. Uma delas bicou-lhe
carinhosamente a orelha, arrancando-lhe nova gargalhada.
Pouco
adiante, dois veados-do-mato observavam a cena. Não fugiram. Permaneceram
imóveis, mastigando tranquilamente as folhas de um arbusto.
Mais
adiante, uma cutia aproximou-se carregando um pinhão na boca. Depositou-o aos
pés do garoto, que o recolheu com delicadeza e tornou a enterrá-lo sob uma fina
camada de folhas secas. Outra cutia repetiu o gesto. Depois outra.
Erwin
assistia a tudo escondido atrás do tronco de uma araucária, incapaz de
compreender o que via. Aquele menino parecia conversar com os animais sem
pronunciar palavra alguma. Bastava um olhar. Um gesto. Um sorriso. Era como se
todos compartilhassem um idioma mais antigo que qualquer língua humana.
Num
dado momento o garoto levantou o rosto e olhou diretamente para Erwin. Sorriu. Era
exatamente o mesmo sorriso discreto do Velho. O mesmo.
Erwin
sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Aproximou-se lentamente.
— O
senhor...
Parou
no meio da frase. O menino riu. Não havia ironia naquela risada. Havia apenas
alegria. Erwin tentou novamente.
—
Onde está o Velho?
O
garoto não respondeu. Curvou-se, recolheu outro pinhão do chão e entregou-o ao
menino. Erwin estendeu a mão quase sem perceber. A semente estava morna, como
se acabasse de cair da árvore.
Quando
levantou novamente os olhos, o garoto já corria entre os troncos, seguido por
uma verdadeira procissão de gralhas, cutias e pequenos esquilos. Erwin saiu
atrás dele. Correu o quanto pôde. Mas quanto mais avançava, mais parecia que a
floresta aumentava de tamanho. As árvores multiplicavam-se. A luz mudava. O
vento girava em outra direção. Até que o perdeu de vista.
Exausto,
sentou-se sobre um velho tronco coberto de líquens. Foi então que ouviu uma voz
atrás de si.
—
Procuras alguém?
Voltou-se
num sobressalto. O Velho estava novamente ali. Apoiado no cajado. Com o chapéu
de feltro. A barba branca balançando ao vento. Como se jamais tivesse
desaparecido.
Erwinl
já não sabia se estava acordado. Olhou em volta procurando o menino. Não havia
ninguém. Respirou fundo. Criou coragem.
— O
senhor... era aquele guri?
O
Velho permaneceu longo tempo em silêncio. Depois fitou as copas das araucárias.
Finalmente falou:
—
Toda árvore conhece o tempo melhor que os homens.
A
resposta pareceu não responder coisa alguma. Ainda assim, o menino permaneceu
atento. O Velho continuou:
— Na
primavera, tudo aprende. No verão, tudo cresce. No outono, tudo ensina. No
inverno, tudo recorda.
Fez
uma pausa. O vento espalhou algumas grimpas douradas entre os dois. Então
concluiu:
— Eu apenas acompanho as estações.
Erwin
demorou alguns instantes para compreender. Olhou novamente para o rosto do
velho. Tentou imaginar aquele mesmo rosto sem barba, sem rugas, sem o peso dos
anos. Era possível. Depois lembrou-se do garoto correndo entre as árvores. O
mesmo brilho nos olhos. O mesmo sorriso. O mesmo jeito de tocar a terra.
Foi
nesse instante que a verdade começou a nascer dentro dele, ainda incompleta,
como uma semente rompendo a casca. O Velho e o Menino eram a mesma pessoa. Mas
não exatamente.
Não
se tratava de um homem que rejuvenescera. Nem de um menino que envelhecera. Era
algo muito mais antigo. Muito mais profundo.
Na
primavera, a floresta o chamava de criança. No verão, tornava-se homem. Quando
as primeiras geadas embranqueciam os campos, seus cabelos começavam a perder a
cor. No outono caminhava mais devagar. No inverno transformava-se naquele velho
silencioso que percorria as margens do Rio do Peixe anunciando a chegada das
grandes águas.
E
quando setembro devolvia o perfume das flores aos campos, tudo recomeçava. As
rugas desapareciam. Os cabelos escureciam. Os pés voltavam a correr descalços
entre os pinheiros. As gralhas outra vez brincavam sobre seus ombros. Como se o
tempo jamais houvesse existido.
Erwin
ergueu os olhos para as copas das araucárias. Pela primeira vez percebeu que
elas também obedeciam ao mesmo compasso invisível. Perdiam pinhas. Renovavam
galhos. Resistiam às geadas. Recomeçavam na primavera. Como os rios. Como as
estações.Como aquele estranho guardião que caminhava entre ambos desde o tempo
que homem algum era capaz de recordar.
A
origem
Erwin
guardou aquele segredo durante muitos anos.
Voltou
para casa sem contar a ninguém o que vira entre as araucárias. Se relatasse que
uma árvore nascera diante de seus olhos ou que um velho se transformava num
menino conforme mudavam as estações, diriam que se perdera na mata por tempo
demais ou que a imaginação lhe pregara uma peça. Preferiu o silêncio. Há
verdades que, quando pronunciadas antes da hora, deixam de parecer verdade.
Mesmo
assim, jamais deixou de procurar o Velho. Encontrava-o de tempos em tempos,
sempre nas vésperas das grandes cheias. Caminhavam algumas horas juntos. Às
vezes trocavam poucas palavras; outras vezes, nenhuma. O menino aprendera que o
silêncio também pode ensinar. Bastava prestar atenção ao vento passando pelas
copas das araucárias, ao trabalho paciente das gralhas-azuis enterrando
pinhões, ao murmúrio das águas procurando seu caminho entre as pedras.
Os
anos passaram. Erwin tornou-se rapaz, depois homem. Casou-se, criou filhos,
abriu um pequeno armazém nas proximidades da Estação Luzerna. Viu surgirem
novas estradas, caminhões substituindo carroças, pontes de concreto tomando o
lugar das antigas pontes de madeira. Assistiu ao desaparecimento de muitos
pinheirais para dar lugar a lavouras e serrarias. Mas, sempre que o inverno se
aproximava e as chuvas engrossavam sobre a serra, o Velho reaparecia,
exatamente igual ao primeiro encontro.
Foi
numa dessas caminhadas que Erwin criou coragem para fazer novamente a pergunta
que carregava desde menino.
—
Quem é o senhor?
Desta
vez o Velho sorriu. Sentou-se sobre um tronco coberto de musgo e permaneceu
longo tempo olhando o rio. Quando finalmente falou, sua voz parecia vir de
muito longe.
—
Queres conhecer meu nome... mas meu nome já se perdeu faz muitos séculos.
Abaixou-se,
recolheu um pinhão caído e girou-o lentamente entre os dedos.
—
Antes de existirem cidades, antes dos tropeiros abrirem caminhos, antes de
qualquer sino chamar gente para a missa, havia apenas mata. Pinheiros até onde
a vista alcançava. O rio corria limpo, e ninguém lhe dava nome, porque ninguém
imaginava possuir aquilo que já pertencia ao mundo.
Fez
nova pausa.
—
Naquele tempo vivia um menino caboclo.
Erwin
ouviu em silêncio.
—
Era órfão. Não conheceu pai nem mãe. Aprendeu a sobreviver recolhendo pinhões,
pescando lambaris e dormindo onde a noite o encontrasse. A floresta era sua
casa.
Os
olhos do Velho perderam-se na correnteza.
—
Então veio uma seca como nunca mais se viu. Os riachos desapareceram. As
nascentes começaram a morrer. As pequenas mudas de araucária secavam antes
mesmo de criar raízes. O menino passou a carregar água do rio em duas cabaças
presas a uma vara sobre os ombros. Caminhava léguas inteiras todos os dias
apenas para molhar meia dúzia de brotos. Na manhã seguinte repetia tudo. E na
outra também. Durante meses. Até que um dia caiu de cansaço junto à raiz de uma
velha araucária.
Erwin
percebeu que o Velho já não contava uma história. Recordava-a.
— Quando abriu os olhos —
continuou ele — encontrou uma mulher feita de água. Não era moça nem velha. Seus
cabelos pareciam feitos da corrente dos rios. Sua pele tinha o brilho das
fontes escondidas entre as pedras. E seus olhos mudavam de cor como muda o céu
antes da chuva.
Ela perguntou:
—
Por que salvas árvores em cuja sombra nunca descansarás?
O
menino respondeu sem pensar:
—
Porque um dia alguém ainda vai precisar delas.
A
mulher sorriu. Não com alegria. Mas com esperança. Então mergulhou uma das mãos
na água do rio e tocou a testa do menino.
—
Receberás três dons. Nunca deixarás de encontrar água onde houver sede. Jamais
permitirás que o Rio do Peixe esqueça o caminho das araucárias. E viverás
enquanto houver alguém capaz de plantar para um tempo que não verá.
Erwin
permaneceu imóvel. Já sabia a resposta antes mesmo de formulá-la.
—
Esse menino...
O
Velho apenas inclinou a cabeça. Não confirmou. Também não negou. A tarde caiu
lentamente sobre o vale.
Os
dois retomaram a caminhada. Nenhum deles voltou a tocar no assunto.
Na
década de setenta chegaram homens de fora trazendo mapas, teodolitos e grandes
máquinas. Uma empresa comprara extensa área de pinheiral para transformá-la em
madeira. As motosserras começaram cedo. As araucárias tombavam uma após outra
com estrondos que ecoavam por todo o vale.
As
gralhas desapareceram. Os veados fugiram. As cutias já não encontravam onde
esconder os pinhões.
Erwin
sentiu um aperto no peito. Naquela mesma tarde encontrou o Velho caminhando à
beira do rio. Pela primeira vez havia tristeza em seus olhos.
Pouco
adiante vinha o engenheiro responsável pela derrubada. Era um homem instruído,
correto em suas contas e sincero na convicção de que o progresso sempre
justificava seus meios.
Ao
cruzarem, o Velho apenas disse:
—
Ainda há tempo.
O
engenheiro sorriu com educação.
—
Tempo para quê?
—
Para deixar de cortar o que não foste tu quem fez.
O
homem agradeceu o conselho, mas continuou seu caminho. No dia seguinte, as
motosserras voltaram a cantar. Não houve raio. Não houve castigo. Não houve
milagre. Apenas choveu. Choveu durante muitos dias, como tantas vezes já
acontecera naquelas serras.
As
encostas recentemente desprotegidas não conseguiram segurar a água. A terra
desceu. Os barrancos cederam. O rio procurou novos caminhos, como sempre faz
quando lhe arrancam as raízes que lhe sustentavam as margens.
As
máquinas foram abandonadas às pressas. Ninguém morreu. Mas o projeto terminou
ali.
Meses
depois, quando a lama endureceu e o silêncio voltou ao pinheiral ferido,
começou a surgir uma infinidade de pequenas mudas verdes. Primeiro algumas
dezenas. Depois centenas. Mais tarde milhares.
Os
técnicos atribuíram o fenômeno às gralhas-azuis que haviam escondido sementes
anos antes. Os antigos sorriram. Sabiam que as gralhas jamais trabalhavam
sozinhas.
O
tempo continuou seu ofício. Erwin envelheceu. Os cabelos embranqueceram. Os
filhos cresceram. Vieram os netos.
Numa
manhã fria de setembro, muitos anos depois, percebeu que fazia tempo demais que
não via o Velho do Rio do Peixe. Esperou o inverno seguinte. Depois outro. Nada.
Sentiu uma tristeza difícil de explicar. Talvez a velha lenda houvesse
finalmente chegado ao fim.
Certa
tarde, resolveu caminhar sozinho pela mesma mata onde, ainda menino, vira
nascer uma araucária. As árvores estavam novamente altas. As gralhas faziam seu
costumeiro alvoroço.
Foi
então que ouviu uma gargalhada infantil. Virou-se rapidamente. Entre os troncos
corria um menino descalço. Trazia um punhado de pinhões junto ao peito. As
gralhas voavam atrás dele. As cutias aproximavam-se sem medo.
O
garoto parou por um instante. Sorriu para Erwin. Era o mesmo sorriso. Antes que
o velho comerciante pudesse chamá-lo, desapareceu entre os pinheiros.
Erwin
não correu. Apenas sorriu também. Naquele instante compreendeu o que jamais
entendera completamente. O Guardião não era um homem. Era uma promessa.
Enquanto
existisse alguém disposto a plantar uma árvore cuja sombra pertenceria a outro,
o Rio do Peixe jamais ficaria sozinho.
Anos mais tarde, um menino que passeava pela mata encontrou
sobre uma grande pedra um único pinhão. Era perfeito. Brilhava como se tivesse
acabado de cair da pinha.
Ao
lado dele havia duas pegadas impressas na terra úmida. Uma era pequena, de pés
descalços. A outra pertencia a um homem já idoso, marcada pela ponta de um
cajado.
O
menino olhou em volta. Não viu ninguém. Pegou delicadamente o pinhão, caminhou
até uma clareira e o enterrou com as próprias mãos.
Naquele
mesmo instante, uma rajada de vento atravessou o pinheiral. As copas das
araucárias começaram a cantar. Quem conhece apenas o barulho do vento dirá que
era o rumor das folhas. Mas os antigos garantem que, naquela manhã, ouviu-se
claramente uma voz espalhando-se pela floresta:
—
Toda araucária é um velho que um dia começou menino. E todo rio continua vivo
enquanto houver alguém disposto a plantar a sombra que nunca verá.
Desde
então, quando as primeiras chuvas de primavera escurecem o Vale do Rio do
Peixe, ainda há quem olhe demoradamente para as margens do rio, esperando
distinguir, entre a neblina da manhã, um velho de chapéu de feltro caminhando
devagar, apoiado num cajado de araucária. Outros juram que não é um velho, mas
um menino descalço. Há também os que afirmam ter visto apenas uma gralha-azul
cruzando o céu com um pinhão no bico.
Talvez
todos tenham razão. As lendas mais antigas nunca escolhem uma única forma de
permanecer vivas.
