MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Ministério da Flatulência - Por Félix Maier




Ministério da Flatulência

Félix Maier

Quando o brasileiro imagina que já viu de tudo na administração pública, sempre aparece uma novidade capaz de restaurar sua fé na inesgotável criatividade nacional. Houve ministério para isso, secretaria para aquilo, comitê para discutir o outro e grupo de trabalho destinado a avaliar a necessidade de criar mais um grupo de trabalho. Era apenas uma questão de tempo até que algum iluminado resolvesse explorar o último recurso energético verdadeiramente renovável do planeta: o pum.

Segundo notícia absolutamente confiável — afinal, saiu no Sensacionalista, que às vezes parece mais profético do que muito analista político — o governo da Estocadora de Vento estudava a criação do Ministério da Flatulência. Apertem o nariz! A ideia era simples e genial: transformar aquilo que durante séculos foi motivo de constrangimento em fonte de riqueza nacional. Finalmente o Brasil pisaria firme na economia dos gases.

Faz sentido. Com a população envelhecendo rapidamente no Brasil, nada mais certo do que captar as flatulências dos velhinhos, de modo que seja aumentado o estoque de vento malcheiroso - o pum -, mas de grande utilidade energética. E a gente que ria do discurso feito por Dilma Rousseff na ONU, que vergonha... 

De acordo com um paper publicado em afamadas revistas científicas sobre a Química do Peido, o fedor do peido tem origem na presença de gás sulfídrico (H2S), metanotiol (H3C-S-H), dimetil sulfeto (H3C-S-CH3) e mercaptanas na mistura. Estes compostos contêm enxofre em sua composição. A proporção dos compostos fedorentos representa algo como 1% do total.

Para implantar a nova fonte energética, será realizada licitação nacional, para escolha da firma que obtiver a melhor solução pumista, dentro do princípio de melhor custo-benefício aos consumidores. Nada de estatal de pum público, como a PumBrás, já que o pum é, antes de tudo, um produto privado. Por isso, serão bem-vindas as empresas campeãs nacionais da Lava Jato, como a Odebrecht, JBS, OAS, EBX, Camargo Correa, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão e demais clientes do STF e do juiz Sergio Moro.

Feita a licitação, serão criados centros de estoque de vento nos principais parques e praças das cidades, de modo que os portadores da melhor idade da artrose e outros ganhos escleróticos possam canalizar os gases noturnos/matutinos antes de bailarem naqueles aparelhos de metal instalados nas praças e parques. Claro, serão construídas cabines individuais, para a coleta do vento malcheiroso. Ninguém iria querer ver as bundas caídas dos velhinhos nas praças, exceto a arte Queer, que gostaria de levar algumas bundas para um museu, de modo que fossem apalpadas por crianças.

As centrais de estoque de vento malcheiroso terão medidores, em g ou kg, da quantidade de gás emitida e estocada pelo dono da flatulência. Ao mesmo tempo, após a descarga final de vento, o medidor emitirá um tim-tim, alertando no painel quanto de dinheiro o dono da flatulência emitida terá transferido para sua conta-corrente. É óbvio que o vazador de vento malcheiroso deverá fazer primeiro o cadastro junto ao site do Ministério da Flatulência, de modo a fazer jus ao dinheiro recebido.

Serão acrescentadas moléculas de cebola, couve-flor e ovos, de modo que o gás de pum fique ainda mais fedido e facilmente identificado durante o uso, assim como é acrescentado o Mercaptan (à base de enxofre) ao gás liquefeito de petróleo (GLP), para evitar acidentes, já que o GLP é inodoro. Afinal, existe pum que não fede. Como identificar, assim, um vazamento na cozinha?

Haverá também coletores individuais de gás pum, que podem ser guardados nos banheiros das casas. Segurar um pum no elevador é fácil, mas guardá-lo a noite inteira é impossível. Depois é só levar a coleta gasosa para um centro de estoque de vento, onde será pesado e vendido.

Não são apenas os velhinhos (em bom Português, não é preciso dizer que aí estão incluídas também as velhinhas) que estão sujeitos à flatulência. Muitos jovens, especialmente os balofos, são fábricas possantes de vento malcheiroso e também podem contribuir com o aumento do estoque desse combustível gasoso.

Caminhões-tanque recolherão o vento malcheiroso dos centros de estoque de flatulência, levando para firmas credenciadas, que farão a distribuição do gás de trás aos consumidores, seja em botijões, seja em sistemas de canalização do condomínio ou da cidade.

Os ambientalistas – especialmente os vegetarianos comedores de capim – já demonizaram a vaca que emite pum, afirmando que o gás metano desses animais é mais nocivo do que o gás carbônico emitido pelos carros, no agravamento do efeito estufa. Antes que o rebanho bovino, caprino, asinino, ovino e demais bichos fazedores de pum menos famosos sejam exterminados, eu sugiro que as fazendas também tirem o pum das vacas, ao mesmo tempo em que tiram o leite.

Por fim, haverá uma luta renhida pela disputa dos direitos autorais da máquina de coletar pum. O Sensacionalista afirma que esse direito deve ser dado a Dilma Rousseff, no que eu concordo plenamente. Sem aquele discurso na ONU, o Brasil não seria pioneiro no setor, com possibilidade de ganhar milhões de dólares em royalties nacionais e internacionais.

Durante décadas discutiram-se petróleo, etanol, biodiesel, energia solar, eólica, nuclear e, mais recentemente, hidrogênio verde. Ninguém, porém, teve a coragem científica de olhar para trás — literalmente — e perceber que cada brasileiro é uma pequena refinaria ambulante. O país sempre desperdiçou um patrimônio invisível, lançando irresponsavelmente na atmosfera bilhões de metros cúbicos de vento biológico, sem qualquer compensação financeira aos seus legítimos produtores. Parece exagero? Façamos as contas. Se cada cidadão produzisse apenas uma modesta quantidade diária de flatulências, multiplicada pelos mais de duzentos milhões de habitantes, estaríamos diante de um potencial energético capaz de despertar a inveja dos grandes produtores de gás natural. Seríamos a primeira potência mundial em gás sonoro. Não por acaso, economistas já discutiriam a criação de um novo indicador econômico: o PIB — Produto Interno Bufado.

Naturalmente, uma inovação dessa envergadura exigiria uma máquina burocrática à altura. O Ministério da Flatulência seria dividido em diversas secretarias especializadas: a Secretaria Nacional dos Gases Nobres — embora nenhum deles seja propriamente nobre —, a Diretoria de Emissões Espontâneas, o Departamento de Controle das Escapadas Acidentais, a Agência Nacional do Pum (ANP), encarregada de fiscalizar a qualidade aromática do produto, além de uma rigorosa Corregedoria para investigar desvios de vento. Afinal, nenhum ministério brasileiro sobrevive sem uma boa dose de papelório.

O cidadão interessado em comercializar sua produção gasosa precisaria preencher o Cadastro Nacional de Emissores Gasosos (CNEG), informando sua média diária de emissões, hábitos alimentares e o consumo semanal de feijoada, repolho, couve-flor, ovos, batata-doce, pinhão, cerveja e demais aceleradores da economia flatulatória. Depois da análise técnica, receberia sua Carteira Nacional de Flatulente Produtivo (CNFP), devidamente fotografada e plastificada, com validade de cinco anos ou até a primeira cirurgia bariátrica, o que ocorresse antes.

A regulamentação também distinguiria os diversos tipos de produto. Especialistas da prestigiosa Universidade Federal do Arroto Aplicado explicariam que nem todo pum possui o mesmo valor energético. Existe o pum gourmet e o popular; o silencioso, considerado de alto risco operacional; o sonoro, que funciona como aviso prévio à população; e aquele cuja potência aromática é suficiente para dissolver qualquer fila de banco em menos de quarenta segundos. A classificação seguiria rigorosamente os padrões internacionais ISO-PUM 9001: Categoria A, discreto; Categoria B, persistente; Categoria C, devastador; e Categoria D, arma química doméstica.

A parte científica do projeto também seria digna de nota. Os químicos lembrariam que o odor característico resulta da presença de compostos sulfurados em pequenas concentrações, suficientes, entretanto, para transformar um ambiente familiar em zona de evacuação imediata. Alguns engenheiros chegaram a propor a adição de aromatizantes ao combustível coletado, nos mesmos moldes do mercaptano utilizado no GLP, para facilitar a identificação de vazamentos. A proposta foi rejeitada por unanimidade. Concluiu-se que o produto nacional já possui identidade olfativa perfeitamente consolidada.

Para incentivar a produção, todas as cidades brasileiras ganhariam Centrais Integradas de Armazenamento Flatulatório. Em cada praça pública seriam instaladas elegantes cabines individuais, dotadas de isolamento acústico, ventilação controlada, assento ergonômico, leitor biométrico, internet sem fio e música ambiente. Enquanto o cidadão prestasse sua patriótica contribuição gasosa à matriz energética nacional, um painel eletrônico exibiria mensagens de incentivo: Obrigado por investir no futuro energético do Brasil; Mais um metro cúbico e o senhor alcança a categoria Ouro; ou ainda: Parabéns! O senhor acaba de superar a média municipal. Concluída a operação, um discreto tim-tim informaria que o Pix correspondente acabara de ser depositado em sua conta bancária. Nunca foi tão fácil transformar vento em dinheiro.

A Receita Federal, naturalmente, não deixaria escapar tamanha oportunidade arrecadatória. Toda emissão acima do limite anual passaria a integrar a declaração do Imposto de Renda. Os maiores produtores recolheriam o Imposto sobre Grandes Emissões, enquanto consumidores habituais de feijoada fariam jus a deduções fiscais. O sistema financeiro também não perderia tempo: surgiria o Crédito Gasoso Consignado, permitindo ao cidadão antecipar sua produção futura mediante juros módicos. Simultaneamente nasceria a Bolsa Brasileira de Flatulências, onde corretoras negociariam contratos futuros de pum. Os analistas da Faria Lima acompanhariam diariamente a volatilidade do mercado gasoso, comemorando a alta do setor de feijões, a valorização da batata-doce ou lamentando a queda na produção após os excessos gastronômicos das festas de fim de ano. Os jornais econômicos estampariam manchetes históricas: Mercado fecha em alta impulsionado pelo consumo de churrasco no fim de semana.

Os ambientalistas, pela primeira vez, encontrariam motivo para comemorar. Em vez de permitir que o metano escapasse inutilmente para a atmosfera, ele seria capturado, tratado e convertido em energia limpa. Até as vacas passariam a colaborar com o esforço nacional. Mochilas coletoras seriam discretamente instaladas nos rebanhos, e os pecuaristas deixariam de selecionar seus animais apenas pela produção de leite. A produtividade gasosa passaria a integrar os critérios de melhoramento genético. Nos leilões agropecuários ouvir-se-ia o leiloeiro anunciar com entusiasmo: Touro premiado! Excelente linhagem! Produz cinquenta litros de leite e uma quantidade recorde de metano!

O agronegócio reagiria imediatamente ao novo mercado. Nunca houve tanto investimento em repolho, ervilha, lentilha, chucrute, batata-doce e pinhão, de modo a aumentar ainda mais a explosão da flatulência. Cooperativas agrícolas criariam linhas especiais de incentivo à fermentação intestinal, enquanto restaurantes promoveriam o Festival Nacional da Flatulência Sustentável, oferecendo certificado ambiental aos clientes mais produtivos. Paralelamente, a indústria desenvolveria mochilas coletoras portáteis, assentos automotivos com reservatórios, poltronas inteligentes, vasos sanitários equipados com sensores de captura e até elevadores dotados de filtros especiais. A publicidade faria sua parte: Não desperdice riqueza; Seu pum vale dinheiro; Transforme desconforto em investimento.

Os condomínios disputariam qual edifício alcançaria primeiro a autossuficiência energética. As assembleias deixariam de discutir infiltrações, pintura da fachada ou rateio do elevador. A pauta seria outra: produtividade coletiva. Evidentemente surgiriam fraudes. Sempre surgem. Alguns espertalhões tentariam importar vento estrangeiro; outros adulterariam a produção utilizando compressores industriais; haveria até quem contratasse consumidores profissionais de feijoada para inflar artificialmente seus índices produtivos. A Polícia Federal responderia à altura, deflagrando a Operação Bufa Limpa. Peritos passariam dias analisando a composição química dos gases apreendidos, enquanto os telejornais exibiriam manchetes memoráveis: Quadrilha desviava metano para países vizinhos; Receita apreende caminhão carregado de pum sem nota fiscal; Empresa é acusada de vender vento argentino como se fosse produto nacional.

Nem o futebol escaparia da febre gasosa. Clubes lançariam o programa Sócio Flatulente, e os estádios se tornariam energeticamente autossuficientes após clássicos acompanhados de cachorro-quente, refrigerante e cerveja. Os narradores esportivos encontrariam um novo bordão: Que explosão de energia no segundo tempo! Nas escolas, a Semana Nacional da Energia Gasosa ensinaria às crianças que rir do colega é falta de educação, mas desperdiçar gás é atentar contra o patrimônio energético nacional. Até a disciplina de Ciências incluiria aulas práticas cuidadosamente supervisionadas.

No final das contas, surgiria inevitavelmente uma disputa internacional pelos direitos autorais da máquina coletora de pum. Inventores apareceriam aos montes, empresas multinacionais ofereceriam fortunas e o Brasil brigaria para registrar a tecnologia como patrimônio nacional. Quem diria? Depois de o Brasil perder tantas patentes ao longo da história (o Rádio com o padre Roberto Landell de Moura, o Avião com Santos Dumont, a Fotografia com Hercule Florence, a Máquina de Escrever com o padre Francisco João de Azevedo, o Chuveiro Elétrico com Francisco Canhos Navarro, o Cartão Telefônico Eletrônico (para orelhão) com Nelson Guilherme Bardini, o Container Flexível de Carga/Big Bag com Renato Pavan, o Identificador de Chamadas Telefônicas (BINA) com Nélio José Nicolai, o Walkman/Stereobelt com Andreas Pavel, o Motor a Álcool com Urbano Ernesto Stumpf, o Câmbio Automático Moderno com José Braz Araripe e Fernando Lemos), finalmente lideraríamos a única indústria em que jamais faltou matéria-prima.

Infelizmente, o Ministério da Flatulência nunca saiu do papel. A Estocadora de Vento foi impichada. O Brasil continuou desperdiçando diariamente uma riqueza invisível que se dissolve na atmosfera — nem sempre de forma silenciosa, é verdade. Talvez um dia algum governante visionário descubra que certos projetos, por mais absurdos que pareçam, escondem um extraordinário potencial. 

Até lá, bilhões de litros de vento continuarão sendo produzidos gratuitamente pelos brasileiros, sem imposto, sem burocracia e, sobretudo, sem licitação. É uma pena. Pela primeira vez na história nacional, o vento poderia realmente encher os cofres públicos.


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