Félix Maier
Durante a pandemia da Covid-19, quando o Brasil parecia ter entrado num daqueles pesadelos em que ninguém encontra a saída porque cada porta dá para outra porta, o Presidente Jair Bolsonaro, o Imbroxável, e o governador de São Paulo, João Doria, conhecido nas rodas políticas como BolsoDoria, travaram uma batalha de proporções épicas para decidir qual vacina deveria salvar a pátria: a CoronaVac, produzida pelo Butantan, com licença da chinesa Sinovac Biotech, ou a AstraZeneca, de um consórcio sueco-britânico, fabricada no Brasil pela Fiocruz.
Era uma discussão aparentemente científica, mas com a delicadeza intelectual de dois adolescentes discutindo no banheiro quem tinha o bilau mais comprido. De um lado, o governador paulista defendia a CoronaVac, que tinha sua produção de vacinas feita com o IFA (Ingrediente Farmacêutico Ativo) vindo da China. Do outro, o presidente defendia a vacina AstraZeneca, produzida pela Fiocruz. Não sabia o Imbroxável que o princípio ativo de sua vacina também vinha da China.
— Essa vachina aí — dizia o Imbroxável, fazendo uma pausa dramática — vem daquele país dos olhinhos puxados!
E, como quem revela um segredo de Estado, acrescentava:
— E eu não vou dizer o que pode acontecer depois!
Não precisava dizer. O presidente já havia deixado no ar a sua famosa profecia: quem tomasse aquela vacina poderia acabar virando jacaré.
A frase, naquele tempo, provocou risos, indignação, memes, discussões de botequim e uma quantidade respeitável de desenhos de jacarés usando máscara. Houve quem dissesse que era apenas uma metáfora. Houve quem jurasse que era uma advertência científica. Houve até quem, mais prudente, começasse a olhar com desconfiança para os próprios cotovelos.
Ninguém, porém, levou em consideração a possibilidade mais perigosa de todas: a profecia pegar. E pegou.
João Doria havia surgido na política como uma espécie de satélite brilhante da constelação presidencial. Era a época em que Bolsonaro e Doria trocavam afagos públicos, elogios protocolares e fotografias em que ambos sorriam como se tivessem descoberto juntos a cura para a política brasileira. Chamavam-no, então, de BolsoDoria. Era um apelido útil, porque explicava, numa única palavra, uma proximidade política que, em certos momentos, parecia mais íntima que um aperto de mão e mais conveniente que um casamento.
Mas a política brasileira possui uma curiosa propriedade química: alianças que parecem indestrutíveis podem evaporar com a mesma rapidez de álcool em dia quente. Não demorou para que o BolsoDoria deixasse de ser BolsoDoria e voltasse a ser simplesmente Doria. Depois passou a ser adversário, depois inimigo, depois crítico e, finalmente, tornou-se uma dessas criaturas políticas que, quando aparecem na televisão, fazem o eleitor procurar o controle remoto por instinto.
O mesmo fenômeno ocorreu com Joice Hasselmann e Alexandre Frota. Os dois haviam sido eleitos sob a sombra luminosa — ou sombria, conforme o ponto de vista — do fenômeno Bolsonaro. Eram tempos em que vestir a camisa do capitão parecia suficiente para garantir uma espécie de passaporte para Brasília. Joice era uma máquina parlamentar de frases, vídeos, acusações e indignações. Frota carregava para a política a experiência de quem já conhecera vários palcos, inclusive alguns que Brasília jamais deveria conhecer em horário eleitoral.
Ambos, contudo, fizeram aquilo que políticos brasileiros fazem com admirável frequência: mudaram de lado antes que o lado percebesse. A partir daí, a antiga fraternidade virou guerra. O que antes era abraço tornou-se cotovelada; o que antes era elogio virou denúncia; o que antes era mito passou a ser autoritarismo. E, como costuma acontecer nesses casos, ninguém mais se lembrava de ter estado do outro lado.
Foi justamente nessa época que começou o estranho fenômeno dos desaparecimentos. Primeiro, ninguém deu muita importância. Um jacaré apareceu num lago. Depois outro. Depois uma jacaroa. Aos poucos, surgiram rumores de que certos políticos haviam sido vistos rastejando pelas margens dos rios, escondendo-se nos manguezais, tomando sol sobre pedras e demonstrando uma irritação incomum com jornalistas. A princípio, parecia apenas coincidência. Até que alguém encontrou uma velha inscrição num muro de Brasília:
VOCÊ VAI VIRAR JACARÉ.
Abaixo, alguém escrevera, com tinta vermelha de batom:
E NÃO ADIANTA RECORRER AO STF.
Foi então que a coisa ficou séria. O primeiro caso confirmado ocorreu com BolsoDoria. Num fórum internacional organizado pelo LIDE (Grupo de Líderes Empresariais), em Nova York, não em Miami, como era costume, pois havia a participação ilustre de ministros do STF — Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes, Luís Roberto Barroso e Dias Toffoli —, o ex-governador de São Paulo começou a sentir uma coceira no pescoço. A princípio, atribuiu aquilo ao ar-condicionado. Depois, à alergia.
De volta a Miami, a coceira aumentou e vieram as escamas: primeiro pequenas, depois médias e, por fim, enormes.
O assessor que estava diante dele deixou cair o celular.
— Governador...
— Ex-governador — corrigiu Doria, automaticamente.
— Não. Quero dizer...
O homem apontou para o pescoço. Doria olhou para o espelho. Seu rosto continuava reconhecível, mas começava a adquirir um aspecto desagradavelmente reptiliano.
— Isso é um absurdo!
A boca se alongou.
— Vou processar o Bolsonaro!
Os dentes cresceram.
— Isso não pode estar acontecendo!
As mãos encolheram. A pele ficou verde. E, antes que pudesse chamar o advogado, BolsoDoria desapareceu dentro de uma poça de água decorativa existente no jardim do hotel.
O segurança viu apenas duas coisas: um grande rabo batendo na água e uma etiqueta de grife flutuando na superfície.
A transformação de Frota foi mais dramática. Ele estava numa reunião política quando começou a sentir uma necessidade irresistível de ficar perto da água.
— Preciso de um lago — disse.
— Um lago?
— Um lago.
— Temos uma piscina.
— Não serve.
— Por quê?
Frota olhou para o horizonte.
— Não sei. Meu instinto manda procurar um pântano.
Cinco minutos depois, já não havia mais político na sala. Havia um jacaré. O animal atravessou o corredor, ignorou os seguranças, passou pela garagem e entrou num carro oficial. Quando o motorista viu o bicho sentado no banco traseiro, perguntou:
— Para onde, excelência?
O jacaré respondeu:
— Para onde houver água.
O motorista, que já tinha visto coisas mais estranhas em Brasília, não fez perguntas.
Com Joice Hasselmann, a transformação foi ainda mais peculiar. Ela estava diante de uma câmera quando percebeu que alguma coisa estava errada. Começou a falar, como sempre, sobre a situação do país, mas interrompeu para olhar a própria mão. Havia escamas. Olhou para a outra. Escamas também.
— Isso é uma montagem!
A cauda apareceu.
— Isso é fake news!
A boca começou a se alongar.
— Isso é perseguição política!
A pele ficou verde.
— Isso é uma tentativa de me silenciar!
E então, em vez de terminar a frase, soltou um:
— Croc!
A câmera caiu. O cinegrafista saiu correndo. Quando voltou, encontrou apenas uma cadeira vazia, um microfone no chão e uma jacaroa escondida atrás da cortina. Ela ainda tentou explicar alguma coisa, mas agora toda frase terminava em croc.
A notícia espalhou-se rapidamente. Em Brasília, ninguém queria admitir que acreditava na história, mas todo mundo acreditava. Deputados passaram a olhar com desconfiança para os colegas que permaneciam tempo demais diante do espelho. Senadores evitavam lagos. Ministros recusavam convites para pescarias. Governadores mandavam instalar cercas ao redor de piscinas. Em certos gabinetes, retiraram até aquários.
Um deputado chegou a pedir que sua assessoria fizesse um levantamento de todos os rios, córregos, represas, banhados e açudes existentes num raio de quinhentos quilômetros de Brasília.
— Para quê? — perguntou a secretária.
— Prevenção.
— Prevenção contra quê?
O deputado olhou para os lados antes de responder, quase num sussurro:
— Crocodilagem.
Foi então que apareceu o professor Hipólito de Albuquerque, especialista em fenômenos inexplicáveis e autor de um tratado obscuro chamado Metamorfoses Políticas da República Tropical. Segundo ele, o fenômeno não tinha relação direta com vacina alguma.
— O jacaré — explicou — é um animal politicamente simbólico.
— Por quê?
— Porque passa muito tempo parado, de boca aberta, esperando que alguma coisa caia nela.
O jornalista anotou.
— Isso é uma crítica aos políticos?
— Não. É uma observação zoológica.
— Mas o senhor está dizendo que políticos podem virar jacarés?
— Não.
— Então o que está dizendo?
O professor ajeitou os óculos.
— Estou dizendo que talvez alguns jacarés já tenham virado políticos.
A frase causou enorme repercussão. No dia seguinte, os jornais publicaram manchetes anunciando que um professor afirmava haver jacarés infiltrados na política. O professor passou o dia inteiro negando o que havia dito, mas já era tarde. Na política brasileira, uma frase mal compreendida tem mais pernas que uma verdade bem explicada.
Enquanto isso, BolsoDoria instalou-se na Flórida. Escolheu um banhado discreto, longe dos turistas, mas suficientemente próximo dos bairros ricos para manter alguma dignidade social. De vez em quando, era visto tomando sol sobre um píer. Continuava preocupado com negócios. Mesmo com quatro patas e uma cauda monumental, mantinha hábitos empresariais.
Mandara imprimir cartões de visita:
JOÃO DORIA
Empresário, Líder Empresarial e Réptil Estratégico
No verso:
LIDE — Grupo de Líderes Empresariais
E, em letras menores:
Atendimento mediante agendamento
O jacaré havia descoberto uma vantagem extraordinária na nova condição: ninguém mais lhe pedia explicações sobre política. Quando um jornalista se aproximava, ele simplesmente mergulhava. Quando alguém perguntava sobre o futuro do Brasil, mergulhava. Quando perguntavam sobre candidatura presidencial, mergulhava. Quando perguntavam sobre negócios, levantava apenas os olhos.
Certa vez, um repórter perguntou:
— O senhor ainda pretende voltar à política?
BolsoDoria abriu a boca.
O jornalista recuou.
— Era só uma pergunta!
O jacaré mergulhou.
BolsoFrota teve destino diferente. Foi parar nos pântanos da Louisiana, perto de Nova Orleans, onde encontrou uma comunidade de crocodilos que o recebeu com desconfiança. Um velho crocodilo perguntou de onde ele vinha.
— Do Brasil.
— E o que fazia lá?
Frota hesitou.
— Política.
Os crocodilos se entreolharam.
— Então você é perigoso.
— Por quê?
O velho crocodilo mostrou os dentes.
— Aqui, pelo menos, os crocodilos só mordem.
BolsoFrota considerou a frase. Não sabia se aquilo era elogio ou crítica. Acabou ficando. Rapidamente descobriu que os crocodilos americanos eram menos ideológicos que os políticos brasileiros. Não discutiam esquerda e direita. Discutiam apenas território. E, quando terminavam a discussão, mordiam. Frota achou aquilo estranhamente honesto.
BolsoJoice, por sua vez, tomou outro caminho. Durante o dia, escondia-se nas águas da Marginal Pinheiros. À noite, segundo relatos nunca confirmados, transformava-se numa criatura meio jacaroa, meio sereia. Os motoristas que passavam pela avenida diziam ouvir uma voz feminina saindo da água:
— Pare!
Alguns paravam.
— Venha cá!
Alguns chegavam mais perto.
— Tenho uma denúncia!
Aí corriam. Ninguém queria ouvir denúncia de uma sereia-jacaroa às duas da manhã.
Um pescador jurou que certa noite ela lhe perguntou:
— Você acredita em liberdade de expressão?
O homem respondeu:
— Acredito.
— Então me explique por que ninguém pode mais pescar aqui!
O pescador olhou para a água e respondeu:
— Porque a senhora está espantando os peixes.
A jacaroa pensou. Era a primeira vez que alguém lhe respondia sem medo. Desde então, passou a respeitar o pescador.
A lenda, entretanto, não terminou ali. Começaram a aparecer outros jacarés. Uns eram verdes; outros, pardos; alguns tinham dentes muito brancos; outros usavam gravata. Um deles apareceu em Brasília usando terno azul-marinho e sapatos italianos. Ninguém sabia de onde vinha. Entrava nos restaurantes mais caros, sentava-se à mesa, abria o cardápio e esperava. Quando o garçom perguntava o que desejava, respondia:
— O prato do dia.
— Para beber?
— Água.
— Com gás?
— Sem gás.
Depois ficava em silêncio.
Certa noite, um deputado perguntou:
— O senhor é político?
— Não.
— Empresário?
— Também não.
— Magistrado?
O jacaré demorou a responder.
— Depende do preço.
O deputado levantou-se imediatamente e saiu apressado.
A partir daí, a população começou a suspeitar de que a profecia do Imbroxável não fosse apenas uma piada. Talvez ele tivesse, sem querer, descoberto uma lei secreta da política brasileira: quem se aproxima demais do poder acaba mudando de pele. Primeiro vem o entusiasmo; depois, o rompimento; depois, a troca de discurso; depois, a televisão; depois, as redes sociais; e, finalmente, o pântano.
Era uma espécie de ciclo natural. Como a chuva. Como as enchentes. Como a troca de partido. Como o político que jura fidelidade numa segunda-feira e descobre, na quarta, que sempre fora adversário.
O próprio Imbroxável começou a desconfiar. Certa manhã, diante do espelho, examinou os próprios braços. Nada. Olhou os dedos. Normais. Examinou o rosto. Ainda humano. Respirou aliviado.
— Ainda bem.
Foi então que ouviu um barulho vindo do banheiro.
— Croc!
O presidente congelou.
— Quem está aí?
Silêncio.
— Tem alguém aí?
— Croc!
Abriu a porta. Não havia ninguém. Apenas um pequeno jacaré dentro da banheira. O animal olhou para ele. O presidente olhou para o animal. Os dois permaneceram imóveis.
— Você veio me buscar?
O jacaré piscou.
— Eu sabia — disse o presidente.
O animal abriu a boca.
— Croc!
— Não precisa explicar.
Naquela noite, depois de tocar o réptil até o Lago Paranoá, o Imbroxável dormiu mal. Sonhou que caminhava por Brasília e encontrava antigos aliados transformados em répteis. Uns nadavam no Lago Paranoá; outros tomavam sol na grama diante do Congresso Nacional; alguns usavam toga. Um deles segurava um martelo. Outro carregava uma faixa presidencial. No sonho, todos diziam a mesma coisa:
— A política é um grande pântano.
Quando acordou, estava suando. Olhou para o relógio: cinco da manhã. Foi até o banheiro, lavou o rosto e levantou os olhos para o espelho. Por um instante, teve a impressão de que havia duas pupilas verticais olhando para ele. Piscou. Tudo voltou ao normal.
— Deve ser a idade.
Anos se passaram. A pandemia terminou. As vacinas contra covid continuam sendo aplicadas, anualmente, junto com a da influenza e outras.
No Brasil, muitas vacinas contra a Covid-19 foram depois descartadas, permanecendo apenas as da Pfizer, Moderna e Serum/Zalika. Xô Coronavac/Butantan! Xô AstraZeneca/Fiocruz! Para tristeza de BolsoDoria e do Imbroxável. A Pfizer é dona de um comprimido azul com vitamina T (Tesão), o Viagra que faz a alegria dos velhinhos. Levanta o bilau quem nunca tomou o produto milagroso...
Os jacarés continuam existindo. E os antigos aliados continuam se atacando, agora com a distância segura que só a política e o fundo eleitoral proporcionam.
BolsoDoria permaneceu nos banhados da Flórida, preocupado em preservar seu patrimônio, sua imagem empresarial e seu bronzeado reptiliano. BolsoFrota tornou-se uma espécie de celebridade dos pântanos de Nova Orleans, onde concede entrevistas antes de nadar como o Michael Phelps e buscar um mergulho nas águas menos quentes do Golfo da América — assim rebatizado por Trump, porque até os jacarés precisavam se adaptar à nova geografia do Golfo do México. BolsoJoyce continua aparecendo ocasionalmente na Marginal Pinheiros, sobretudo em noites de lua cheia. Diz-se que, ao se transformar, ainda conservava a capacidade de fazer discursos de quarenta minutos. O problema é que ninguém mais entendia.
— Croc, croc, croc.
Um antigo assessor resumiu a situação:
— Antes ela falava demais. Agora pelo menos fala em língua réptil.
Quanto ao ex-presidente, continuava repetindo, antes de ser trancado na prisão domiciliar imposta por ministros petistas do STF, que nunca havia dito exatamente aquilo que todos diziam que ele havia dito.
— Eu não disse que a pessoa viraria jacaré!
— Mas disse que poderia virar.
— É diferente.
— Qual a diferença?
— Uma coisa é virar. Outra coisa é poder virar.
O jornalista ficou em silêncio.
— E os seus antigos aliados?
— Problema deles.
— O senhor acredita na maldição?
O presidente sorriu.
— Não.
— Então por que há tantos jacarés?
Ele apontou para o Lago Paranoá, atrás do Palácio da Alvorada:
— Pergunte a eles.
O jornalista olhou. Havia três jacarés imóveis na margem. Um deles usava gravata. Outro parecia sorrir. O terceiro tinha uma expressão de quem conhecia segredos demais.
O jornalista aproximou-se dos répteis.
— Vocês foram políticos?
Os três permaneceram calados.
— Foram aliados do presidente?
Silêncio.
— Viraram adversários?
Nada. Então o maior dos jacarés abriu lentamente a boca e disse:
— Croc.
O jornalista anotou.
Desde então, quando alguém pergunta se a profecia do Imbroxável era verdadeira, os habitantes das margens do Rio Pinheiros, do Lago Paranoá e dos pântanos de Miami e da Flórida costumam responder com cautela.
Ninguém sabe se vacina transforma gente em jacaré. A ciência jamais confirmou. Mas a política brasileira já demonstrou que consegue transformar aliados em inimigos, amigos em desafetos, admiradores em acusadores e companheiros de palanque em adversários ferozes com uma rapidez que nenhum laboratório conseguiu explicar.
Talvez tenha sido por isso que, certa madrugada, um velho pescador encontrou três jacarés descansando à margem de um rio. O primeiro tinha um jeito de empresário. O segundo parecia ter vindo do cinema. A terceira mantinha um olhar de comentarista político.
O pescador observou os três por algum tempo e finalmente perguntou:
— Vocês não eram gente?
Os três se entreolharam. Depois olharam para a lua. E, como se houvessem ensaiado durante anos a resposta, abriram a boca simultaneamente:
— Croc!
O pescador ajeitou o chapéu.
— Pois é. Política é assim mesmo.
E foi embora.
Atrás dele, os três jacarés continuaram imóveis, tomando banho de lua. Talvez arrependidos. Talvez satisfeitos. Ou talvez apenas esperando a próxima eleição.
Porque, no Brasil, até os jacarés aprenderam uma regra fundamental da política: nunca se sabe quando é hora de trocar de lado. Mas é bom saber nadar.





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