O Laranjão e o Bombado do Kremlin
Quando
o Laranjão reassumiu a presidência da maior potência do planeta, em 20 de
janeiro de 2025, o mundo inteiro fez a mesma coisa: prendeu a respiração
durante cinco segundos e, logo depois, sacou o celular para gravar a reação.
Nunca
se vira um retorno tão cinematográfico. O topete dourado continuava desafiando
as leis da física com a mesma desenvoltura de um pombo que resolve pousar sobre
uma turbina de avião. Havia meteorologistas sustentando que ele alterava a
direção dos ventos; físicos afirmavam que possuía campo magnético próprio; e um
professor de Oxford publicou um artigo demonstrando, com quarenta gráficos
coloridos e nenhuma conclusão, que o penteado representava uma ruptura
epistemológica na aerodinâmica capilar.
As
redes sociais explodiram. Em menos de uma hora, apareceram quarenta milhões de
memes. Alguns mostravam o topete sendo confundido com uma frente fria. Outros
garantiam que ele podia ser visto da Estação Espacial Internacional. Um
astrônomo amador jurou tê-lo fotografado cruzando o disco solar durante um
eclipse parcial.
A
NASA preferiu não comentar.
Na
Europa, a esquerda universitária entrou em estado de efervescência intelectual.
Em Paris, estudantes ocuparam a Sorbonne empunhando cartazes onde se lia Abaixo
a Geopolítica Capilar e Nenhum Topete Será Maior do que a Revolução.
Um
filósofo de cachecol grená declarou que o cabelo presidencial simbolizava a
opressão estética do capitalismo tardio. Outro retrucou que se tratava apenas
de uma metáfora do neoliberalismo penteado para trás. Um terceiro escreveu um
ensaio de quatrocentas páginas provando que ambos estavam errados porque o
topete era, na verdade, um fenômeno pós-estruturalista. O livro recebeu um
prêmio importante, embora ninguém conseguisse terminar de lê-lo.
Hollywood
percebeu imediatamente o filão. Em poucas semanas anunciou uma avalanche de
produções. Vieram O Napoleão Nuclear, O Topete do Apocalipse, Missão
Improvável – A Última Tarifa, O Império Contra o Hambúrguer e uma
minissérie de oito episódios intitulada Diplomacia para Iniciantes, na
qual todos os conflitos internacionais eram resolvidos por meio de competições
de karaokê. Um diretor mais ambicioso decidiu filmar simultaneamente a
continuação e o making off, para economizar tempo caso a realidade
ultrapassasse novamente a ficção.
Do
outro lado do planeta, entretanto, o Bombado do Kremlin acompanhava tudo com
uma serenidade glacial. Era um homem de hábitos simples. Levantava antes do
amanhecer, corria vinte quilômetros sobre a neve, quebrava algumas toras de
madeira apenas para aquecer os ombros, fazia uma centena de flexões com um só
braço apoiado num tronco de bétula e, para relaxar, disputava queda de braço
com um urso que, segundo os jornais oficiais, perdia por respeito à autoridade
constituída.
Naquele
dia, ao terminar o treinamento, o Bombado enxugou o suor com uma toalha
camuflada e aceitou um copo de vodca servido à temperatura ambiente — isto é,
vinte graus abaixo de zero.
Um
assessor aproximou-se cautelosamente.
—
Excelência, o Laranjão voltou.
O
Bombado tomou mais um gole.
—
Ótimo.
—
Ótimo?
— O
mundo andava monótono.
O
Bombado olhou pela janela para uma planície branca que parecia não terminar
nunca.
—
Nada movimenta tanto a geopolítica quanto um ego suficientemente grande.
Enquanto
isso, os mercados financeiros decidiram entrar em pânico preventivamente.
Wall
Street abriu em queda porque alguns investidores acreditavam que o Laranjão
anunciaria tarifas sobre tudo que tivesse parafuso. Cinco minutos depois subiu
porque outros investidores concluíram que ele talvez anunciasse justamente o
contrário. À tarde voltou a cair em razão de uma fotografia em que o presidente
aparecia segurando um copo de refrigerante. Especialistas passaram horas
discutindo se aquilo representava uma mudança de estratégia monetária ou apenas
sede. Os comentaristas econômicos, como sempre, explicaram tudo com absoluta
convicção e total divergência.
A
Organização das Nações Unidas convocou uma reunião extraordinária. Representantes
de quase duzentos países chegaram carregando pastas, relatórios, mapas,
estatísticas e expressões preocupadas. Durante quatro horas discutiram a ordem
dos pronunciamentos. Nas três horas seguintes tentaram decidir se a mesa
principal deveria ser oval, redonda ou inclusivamente poligonal. Depois
interromperam os trabalhos para um almoço sustentável servido em recipientes
biodegradáveis produzidos do outro lado do mundo e transportados por cargueiros
movidos a óleo combustível altamente poluente.
Ao
final da tarde, aprovaram na ONU uma resolução conclamando todas as partes à
moderação, ao diálogo, à paz e ao uso racional dos pontos de exclamação nos
comunicados oficiais. Todos aplaudiram. Ninguém sabia exatamente quem deveria
cumprir a resolução.
No
Oriente Médio, as notícias mudavam de velocidade mais depressa do que os mapas
conseguiam acompanhar. Cada telejornal apresentava um especialista diferente,
todos igualmente seguros de que compreendiam a situação de Israel frente ao
Hamas. O curioso era que cada um explicava um conflito completamente distinto,
como torcedores de um Fla-Flu. Havia analistas capazes de localizar a origem da
crise no Império Romano. Outros preferiam remontar aos fenícios, enquanto alguns
responsabilizavam as redes sociais. E um comentarista particularmente criativo
sustentava que tudo poderia ter sido evitado se Alexandre, o Grande, tivesse
aprendido mediação de conflitos.
As
emissoras de televisão passaram a exibir um letreiro permanente com a inscrição
ÚLTIMA HORA. Dias depois, o letreiro continuava lá. A última hora tornara-se um
estado permanente da humanidade.
Nesse
ambiente de ansiedade internacional, surgiu a notícia de que aviões
norte-americanos haviam realizado uma grande operação militar contra
instalações estratégicas ligadas ao programa nuclear iraniano. Analistas
surgiram imediatamente para explicar que aquilo mudaria completamente a
geopolítica mundial. Outros especialistas apareceram logo em seguida para
explicar que não mudaria absolutamente nada. Um terceiro grupo passou a
explicar por que os dois primeiros estavam errados.
As
redes sociais fizeram o restante. Em poucos minutos já existiam mapas,
animações em três dimensões, vídeos produzidos por inteligência artificial,
reconstruções históricas, teorias conspiratórias, previsões do fim do mundo,
desmentidos dos desmentidos e até um influenciador ensinando, em quinze
segundos, como sobreviver a uma guerra nuclear usando papel-alumínio e
pensamento positivo.
A
inteligência artificial observava tudo em silêncio. Até que resolveu pedir
férias. Dizia não ter sido treinada para distinguir ironia de diplomacia. E
talvez tivesse razão. Porque, naquele momento, ninguém mais parecia capaz de
fazê-lo.
Quando
o Laranjão assumiu pela segunda vez a presidência dos Estados Unidos — já foi
dito —, o mundo prendeu a respiração. Seu cabelo dourado, que desafiava as leis
da aerodinâmica, e seu sorriso de tubarão recém-saído de um clareamento a
laser, logo se tornaram memes apocalípticos.
Enquanto
isso, do outro lado do globo, o Gengis Khan das Estepes continuava assistindo a
tudo calmamente, fazendo flexões enquanto acariciava um urso vivo, um ritual de
fortalecimento moral e musculoso.
— O
Laranjão é perigoso — alertava o Bombado do Kremlin — mas sua dieta à base de
fast food será sua ruína antes de qualquer guerra.
Depois,
limpava o suor com a bandeira da antiga União Soviética e tomava um copo de
vodca servido num crânio humano reciclado — ecologicamente sustentável, segundo
garantia o Bombado.
Entre
memes, protestos e teorias conspiratórias, o Laranjão apareceu na TV para uma
declaração histórica: Quero paz... mas só se tiver molho extra. O mundo
riu, suspirou e se preparou para a temporada da maior série de tragicomédia que
a geopolítica já produziu.
O
Laranjão levou o inferno ainda mais profundo para a infernal Faixa de Gaza,
enquanto os meninos prediletos da ONU e da esquerda brasileira continuavam a
lançar foguetes em direção a Israel, ao mesmo tempo em que se explodiam com
bombas na cintura, em Jerusalém e Tel Aviv, num sistema de revezamento olímpico,
tipo salto ornamental para o além.
O
Laranjão jurou que resolveria a guerra Rússia-Ucrânia em uma única tuitada. Mas
o conflito segue firme, teimoso como mula geopolítica, enquanto o Bombado do
Kremlin continua transformando o palco internacional num grande teatro de
músculos e bravatas, humilhando o antigo bufão de picadeiro, Volodymyr Zelensky.
O presidente ucraniano, já convertido pela mídia mundial em personagem
permanente de tragicomédia, segue no papel imposto pelo noticiário: herói,
mártir, protagonista ou palhaço, conforme o canal.
A
extrema esquerda europeia, reunida no Quartier Latin, na Cidade Luz, continuava
discutindo apaixonadamente sobre o Laranjão. É Átila, o Flagelo do Ocidente
reencarnado! bradou um discípulo de Jean-Paul Sartre, segurando uma taça de
vinho natural sem enxofre. Do lado, um brazuca perfumado de patchouli e vestido
de lilás, discípulo tardio de Paulo Freire, balançava uma plaquinha escrita Fora
Trump! Viva a Dialética! Ele era conhecido por ter participado de uma
performance intitulada A Última Ceia durante as Olimpíadas de Paris, em
que os apóstolos discutiam sobre veganismo enquanto Jesus tentava transformar
água em kombucha.
Enquanto
isso, em Hollywood, produções trumpianas dominavam os cinemas, incluindo uma
série da Netflix dirigida por Michael Moore chamada O Amarelão Amarelou.
Nessa série, o Laranjão enfrentava aliens socialistas, robôs chineses e uma
versão maligna de si mesmo produzida por IA.
Do
outro lado do planeta, nas estepes geladas da Sibéria, o Bombado do Kremlin
afiava a alma e os músculos ao mesmo tempo. Fortemente armado com minimísseis nucleares
na cintura, o peitoral à mostra — mesmo sob temperaturas abaixo de zero — e um
urso empalhado como banco de exercícios, ele ria em silêncio, enquanto
esvaziava uma garrafa de Vodka para esquentar a goela.
— Este
bufão dourado não sabe nem manejar uma espada de plástico, quanto mais comandar
um império. Vou esmagá-lo no tabuleiro de xadrez dos esteroides.
Mas
um assessor — o único ainda sóbrio — ousou discordar:
— Chefe, talvez seja melhor usar diplomacia
diplomática e não diplomacia de halteres.
O
Bombado fez silêncio. Muito silêncio. O assessor foi promovido a encarregado de
alimentar ursos no Zoológico Estatal, depois de passar alguns meses numa
solitária da Lubianka, um amorzinho de prisão.
O
mundo tremeu quando ambos anunciaram um encontro histórico para resolver suas
diferenças de maneira civilizada: uma partida de pôquer transmitida ao vivo. A
CNN, a Fox News, a BBC e a Al-Jazeera transmitiriam simultaneamente. A Globo
botou o Bonner com cara de sexta-feira.
O
Bombado, por sua vez, compareceu montado num urso, modelo híbrido, ecológico,
usando apenas calça camuflada, determinação e a expressão de quem considerava o
inverno um conceito inventado pelo Ocidente.
O
duelo foi digno de lenda:
— Eu
aposto a Flórida — disse o Laranjão.
— Eu
aposto a Crimeia — retrucou o Bombado.
— Eu
aumento as Trump Tower de Las Vegas e de Manila.
— Eu
cubro com três gasodutos e o controle total da Sibéria mais gelada.
Os
comentaristas piravam. Na França, filósofos marxistas tentavam interpretar o
subtexto, as entrelinhas das mensagens subliminares. No Brasil, influenciadores
reagiam ao vivo: Meu Deus, ele apostou a Crimeia… deixa o like!
No
final, o Laranjão ganhou com um par de dois e declarou vitória, bem ao estilo
trumpiano:
— Fiz
a América grande de novo até no pôquer!
O
Bombado mordeu a borda do copo de vodca, mostrando bíceps, tríceps e rancor:
— Da
próxima vez, será no braço de ferro!
As
bolsas do mundo oscilaram. A OTAN pediu férias. O Papa suspirou. A China anotou
tudo, só observando de longe, como quem espreita uma promoção futura. O
Laranjão não se interessou pela Crimeia e pelos gasodutos fechados à Europa.
Nem pela Sibéria mais gelada, pois estava de olho na Groenlândia.
Ao
final da semana, a ONU divulgou um comunicado afirmando que a Terceira Guerra
Mundial seria adiada até segunda ordem, possivelmente até o próximo reality
show internacional.
O
planeta, assustado, percebeu que, se dependesse desses dois, a humanidade
estaria sempre a um passo do Armagedon e a dois passos da comédia involuntária.
O Laranjão comemorou com Netanyahu, abrindo uma cachaça Fazenda Jeremias,
presente de Jair Bolsonaro. O Bombado do Kremlin esvaziou uma garrafa de
Smirnoff num gole só, ao lado de um Xi Jinping perplexo.
E
assim, entre egos inflados, músculos à mostra, mechas indomáveis, diplomacia de
buteco e brindes etílicos com amigos, o Laranjão e o Bombado do Kremlin
continuaram protagonizando a maior novela geopolítica já vista: quando o mundo
virou teatro do absurdo e a coxia repleta de bombas termonucleares. Mas a
audiência é boa, disse um assessor. Então segue o show, respondeu
outro aspone.
E o
show seguiu. O show sempre tem que continuar.
As
idas e vindas econômicas do Laranjão viraram espetáculo à parte. Ele acordava
num humor protecionista, aplicava sobretaxas de 150% em produtos importados de
quase todos os países do planeta, inclusive de ilhas que só exportavam
cartões-postais e conchas. Negociava consigo mesmo, baixava taxas astronômicas
para apenas 50%, e até 20%, e se declarava herói do comércio mundial,
aparecendo à tarde na TV dizendo que era o cara mais bonzinho do hemisfério
norte.
Com
o Brasil, então, resolveu inovar: além da taxa especial de 50% para aço,
alumínio, café, carne e até havaianas, aplicou a Lei Magnitski a meio mundo,
com destaque para alguns juízes do Sistema Toga Petralha, que haviam condenado
Jair Bolsonaro.
— É
pela liberdade! — disse, enquanto
assinava os decretos com um canetão dourado que brilhava mais que o próprio
topete.
Cada
negociação era uma roleta emocional e cada ameaça comercial, uma jogada de
marketing: you’re fired! Você está demitido! Como nos tempos em que
comandava o reality show The Apprentice (O Aprendiz).
No
fim das contas, o mundo inteiro percebeu que o Laranjão não governava,
improvisava. Cada decreto parecia escrito no guardanapo do McDonald’s onde o Laranjão, em
campanha presidencial, com vistoso avental, entregou hambúrguer e batata chips
a uma brasileira. Seria inveja de Eduardo Bolsonaro, que havia trabalhado
num Méqui dos EUA, para aprimorar o inglês?
Mas,
enquanto seu topete continuasse firme e sua caneta dourada brilhasse como um
farol kitsch da liberdade, o Laranjão seguiria convencido de que estava
salvando o planeta da COP 30 em Belém, ainda que fosse um planeta ligeiramente
atônito, altamente tarifado e totalmente resignado a seguir queimando
combustíveis fósseis em aviões, navios e iates, não se rendendo às bravatas de
ventania vindas de fazendas eólicas.
A
essa altura, ninguém mais sabia onde terminava a política e começava o
entretenimento. As agências de classificação de risco passaram a incluir um
novo indicador em seus relatórios: o Índice Internacional de Mau Humor
Presidencial. Wall Street já não acompanhava apenas juros, inflação ou
crescimento. Bastava o Laranjão franzir uma sobrancelha durante uma entrevista
coletiva para o petróleo subir, o ouro disparar, o dólar espirrar e as
criptomoedas sofrerem um colapso existencial.
A
televisão, naturalmente, fazia sua parte. Os telejornais já não abriam com Boa
noite, mas com Acompanhe conosco a crise desta hora. Como havia uma
nova crise a cada quarenta minutos, ninguém percebia quando uma substituía a
outra. Os comentaristas, entretanto, eram os mesmos. Bastava trocar a gravata e
a bandeirinha atrás da bancada.
Enquanto
isso, a guerra entre Rússia e Ucrânia seguia seu curso melancólico, lembrando
aquelas partidas de xadrez disputadas por enxadristas teimosos que já
esqueceram quem fez o primeiro movimento. Cada ofensiva era anunciada como
decisiva. Cada negociação era apresentada como histórica. E cada cessar-fogo
durava exatamente o tempo necessário para que as equipes de televisão
desmontassem seus equipamentos.
O
Bombado do Kremlin acompanhava os mapas militares como um enxadrista contempla
o tabuleiro. Cada flecha colorida representava uma hipótese. Cada hipótese era
desmentida pela realidade no dia seguinte. Já o presidente ucraniano aparecia
diariamente em videoconferências, parlamentos, cúpulas internacionais e
cerimônias de entrega de prêmios, deslocando-se com tanta frequência que alguns
aeroportos cogitaram criar um cartão de fidelidade diplomática.
Na
prática, o conflito parecia obedecer à velha máxima segundo a qual toda guerra
começa por excesso de certezas e termina por absoluta falta delas.
Foi
então que o Laranjão anunciou que resolveria tudo.
— Em
quarenta e oito horas.
O
planeta suspirou. Não porque acreditasse. Mas porque já conhecia o roteiro. Os
mercados oscilaram. As bolsas subiram. Depois desceram. Subiram outra vez. No
fim do dia voltaram exatamente ao ponto de partida, o que permitiu aos
analistas escreverem longos artigos demonstrando que aquilo era perfeitamente
previsível.
Um
novo encontro entre o Laranjão e o Bombado foi anunciado como A Conferência
do Século. Escolheu-se um hotel tão neutro que nem os funcionários sabiam
em que país ficava. Os suíços juravam que era na Suíça. Os austríacos
sustentavam que pertencia à Áustria. Um geógrafo aposentado afirmou tratar-se
de Liechtenstein, mas ninguém encontrou outro que confirmasse.
As
delegações chegaram em aviões suficientes para provocar um rápido eclipse solar.
Vieram assessores. Subassessores. Consultores. Especialistas em comunicação. Especialistas
em especialistas. Tradutores. Tradutores dos tradutores. E um batalhão de
fotógrafos incumbidos de registrar o momento exato em que os líderes fingiriam
espontaneidade.
A
reunião começou. Depois de quarenta minutos discutindo quem apertaria a mão
primeiro, passaram meia hora escolhendo o formato da fotografia oficial.
Quadrada parecia autoritária. Retangular lembrava a Guerra Fria. Panorâmica
favorecia demais o topete do Laranjão. Decidiram fazer duas fotos.
As
negociações propriamente ditas duraram onze minutos. Os outros três dias foram
ocupados pela redação do comunicado conjunto.
Quando
enfim o comunicado saiu, dizia: As partes reafirmam o compromisso com a
continuidade do diálogo em ambiente construtivo, preservando a possibilidade de
futuras conversações destinadas a criar condições favoráveis ao prosseguimento
das próximas conversações.
Os
diplomatas comemoraram. Jamais um texto conseguira dizer tão pouco usando
tantas palavras.
Enquanto
isso, uma nova frente de batalha surgia na economia. O Laranjão acordava
inspirado. Anunciava tarifas sobre produtos estrangeiros. À tarde suspendia
metade delas. À noite explicava que aquilo fazia parte de uma estratégia
brilhante.
No
dia seguinte reabria as negociações porque as negociações anteriores haviam
produzido efeitos inesperadamente negociáveis. E a Suprema Corte havia
derrubada algumas taxações.
Empresas
inteiras passaram a contratar astrólogos, meteorologistas e psicanalistas para
prever a política comercial norte-americana. Obtiveram índices de acerto
semelhantes aos dos economistas. As indústrias de calculadoras agradeceram.
No
Brasil, exportadores consultavam simultaneamente despachantes aduaneiros,
advogados tributários, professores de comércio exterior e benzedeiras
especializadas em desembaraço alfandegário. Nunca se venderam tantas planilhas.
Nem tanta camomila.
Enquanto
os governos discutiam tarifas, Hollywood já filmava a continuação dos
acontecimentos. O roteiro era escrito pela manhã. As filmagens começavam depois
do almoço. À noite a realidade modificava tudo. O roteirista chorava. O diretor
pedia refilmagem. Os atores perguntavam se ainda faziam sentido. O produtor
respondia que sentido nunca dera lucro.
A ONU insistia em reunir-se. A OTAN insistia em preocupar-se. O Papa insistia em rezar e falar de esperança, como quem tentava apagar um incêndio florestal com um regador de jardim. A União Europeia insistia em produzir documentos contra o Acordo com o Mercosul. A inteligência artificial insistia em pedir licença médica.
E a
COP 30, a COP
da Maniçoba, preparava mais uma conferência destinada a
salvar o planeta, em Belém do Pará. Milhares de participantes desembarcaram em
centenas de aviões particulares, altamente poluidores, para discutir como
reduzir emissões de carbono. Os hotéis distribuíam folhetos impressos
explicando a importância da sustentabilidade. Os participantes fotografavam
árvores e palafitas, para desespero do governador Helder Barbalho. As árvores
permaneciam indiferentes, assim como as palafitas.
A
essa altura, o Laranjão concluiu que nenhuma reunião resolveria coisa alguma. Propôs
um método muito mais civilizado. Uma partida de xadrez com o Bombado do Kremlin,
em um país neutro. Transmitida ao vivo. A ideia foi recebida com entusiasmo. Pela televisão. Pelo
Bombado do Kremlin. Pelas plataformas digitais. Pelos patrocinadores. Pelas
casas de apostas de Londres e as Bets. E até pelos fabricantes de pipoca. Seria
o jogo russo-ianque do milênio, de Garry Kasparov e Bobby Fischer que nunca
houve.
Um
salão, em país não divulgado, foi preparado como se recebesse a final de uma
Copa do Mundo. O Laranjão apareceu usando um terno tão brilhante que os
fotógrafos precisaram diminuir a exposição das câmeras. O Bombado entrou
caminhando lentamente, com a expressão de quem acreditava poder derrotar
qualquer adversário apenas pelo olhar.
Sentaram-se.
Silêncio absoluto. O planeta inteiro assistia. O Laranjão não perdeu tempo.
Como Bobby Fischer faria, empurrou o peão do rei duas casas: 1.e4. O Bombado
permaneceu imóvel durante quase duas horas, observando o tabuleiro como quem
esperava uma ordem do Estado-Maior. Só então respondeu com o peão do rei também
duas casas: ...e5. O Laranjão galopou imediatamente o cavalo do rei para f3
(2.Cf3). Depois de nova pausa interminável, o Bombado moveu o cavalo do rei
para f6 (...Cf6).
Os
comentaristas sorriram: estava inaugurada a Defesa Petrov, também conhecida
como Defesa Russa. O Bombado do Kremlin devia estar recebendo dicas por um
ponto implantado no ouvido. Do outro lado da mesa, as redes sociais já juravam
que o Laranjão também usava um. Uns garantiam que estava ligado ao Trump Tower
de Las Vegas; outros, ao Vale do Silício; e os mais criativos asseguravam que o
sinal vinha diretamente do fantasma de Bobby Fischer, que continuava
insistindo: 1.e4. Best by test.
—
Aposto a Groenlândia.
—
Cubro com a Ucrânia.
—
Acrescento duas redes de fast-food.
—
Ponho três gasodutos.
—
Mais um campo de golfe.
—
Mais uma frota de quebra-gelos.
Os
comentaristas perderam completamente a compostura. Especialistas em geopolítica
tentavam explicar a lógica das apostas. Especialistas em xadrez tentavam
entender a geopolítica. Nenhum dos dois grupos conseguiu.
No
fim da partida, depois de dias inteiros de jogadas inesperadas, olhares
ameaçadores, discursos improvisados e cálculos mirabolantes, houve um...
empate. Como num raro afogamento no xadrez, o Laranjão e o Bombado do
Kremlin chegaram a um ponto em que qualquer lance significaria um desastre
maior para si mesmos do que para o adversário. Cercados por alianças, sanções,
interesses econômicos e pressões internas, descobriram que a melhor jogada era
não haver jogada alguma. O rei de cada lado permaneceu de pé, ninguém venceu,
ninguém perdeu; o tabuleiro apenas decretou que, às vezes, a única vitória
possível da geopolítica é um empate por absoluta falta de movimentos.
Na
manhã seguinte, os jornais publicaram manchetes completamente diferentes sobre
o mesmo acontecimento que o mundo inteiro havia visto. Uns anunciavam vitória
absoluta do Laranjão. Outros garantiam o triunfo estratégico do Bombado. Havia
quem sustentasse empate. Alguns diziam que ambos haviam perdido. E um editorial
particularmente filosófico concluiu que, naquele espetáculo permanente da
política internacional, o único vencedor era a audiência.
A
Terceira Guerra Mundial foi novamente adiada. Não por prudência. Mas porque a
equipe de marketing sugeriu esperar mais uma temporada. O planeta respirou
aliviado. Os comentaristas voltaram aos estúdios. Os especialistas abriram
novos gráficos. As bolsas oscilaram outra vez. Os fabricantes de ansiolíticos
bateram recorde de vendas.
E o
mundo compreendeu, enfim, que talvez a civilização não estivesse sendo
conduzida por estadistas nem por estrategistas, mas por um gigantesco
departamento de produção, convencido de que a realidade só faz sentido quando
parece uma série da Netflix. Porque, afinal, quando a realidade supera
diariamente a imaginação, resta apenas uma saída sensata. Continuar assistindo.
E o
espetáculo segue. Com bombas em Kiev e em São Petersburgo. E até em Moscou.
O
Laranjão, incapaz de suportar que o Bombado do Kremlin monopolizasse os
holofotes da guerra Rússia-Ucrânia, resolveu providenciar seu próprio enredo de
temporada. Passou a distribuir ultimatos em todas as direções, ensaiando uma
cruzada de drones e mísseis contra os aiatolás do Irã, fazendo disparar os
preços do petróleo com o fechamento do Estreito de Ormuz, como se o planeta
inteiro fosse apenas um tabuleiro de xadrez onde peças, mísseis e bravatas
valessem a mesma coisa.
O
Laranjão prometeu também acertar as contas, de uma vez por todas, com o Comando
Vermelho e o Primeiro Comando da Capital, o famoso PCC que age nas Américas e
na Europa, grupos criminosos que o Ogro de Nove Dedos se nega a classificar
como terroristas. Desde então, o Ogro nunca mais conseguiu dormir. Vai
que tem o mesmo destino de Nicolás Maduro...
Os
analistas celebraram a chegada desses novos capítulos, nacionais e
internacionais, as redes sociais agradeceram o novo combustível para suas
indignações de turno, os gabinetes de ódio do PT e seus genéricos como o Piçol
aproveitaram para defender a soberania nacional ameaçada pelo Laranjão. Descobriram
que não há nada mais soberano do que um bom inimigo estrangeiro no ano da
campanha presidencial do Ogro, rumo ao tetra, como apontam as pesquisas
eleitorais. Os fabricantes de tela gigante perceberam, enfim, que o verdadeiro
produto estratégico do século XXI já não é o petróleo, nem o urânio, mas a
audiência.
E
ninguém sabe quando terminarão as guerras do Bombado e do Laranjão: talvez depois
de um novo torneio de pôquer ou de xadrez, tendo novamente a Crimeia de um lado
e a Groenlândia do outro como fichas de aposta.
Ou
talvez acabem do único modo que a História costuma encerrar os espetáculos da
vaidade: quando os jogadores finalmente descobrirem que, sobre a mesa, as
fichas sempre foram de plástico, mas as vidas perdidas eram de carne e osso.


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