MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

O Velho do Rio do Peixe - Por Félix Maier

 


O Velho do Rio do Peixe

O homem aparecia antes das grandes águas

Havia quem jurasse tê-lo visto nas cabeceiras do Rio do Peixe, na Serra do Espigão, a mais de mil e duzentos metros de altitude, quando o rio ainda era um fiapo de água saltando entre as pedras frias da montanha. Depois desaparecia por dias, reaparecendo nas matas de Caçador e nas várzeas de Videira, onde diziam que plantava pinhões durante a madrugada. Em Tangará, as araucárias pareciam inclinar os galhos à sua passagem. Em Luzerna, permanecia longo tempo contemplando a represa do Lindner, abrigado sob a sombra de um sarandi. Em Herval d'Oeste, surgia sempre antes das grandes enchentes, para divertimento dos guris da estação ferroviária, que o perseguiam gritando em larfiagem. Dali seguia por Lacerdópolis, Ouro, Capinzal e Piratuba, acompanhando o curso das águas até o Rio Uruguai, como se não fosse um homem caminhando pela margem, mas o próprio espírito do rio regressando, ano após ano, para verificar se suas barrancas continuavam vivas.

Os mais velhos costumavam dizer que todo rio possui memória. Alguns guardam apenas pedras, galhos e barrancos; outros, porém, escondem lembranças mais antigas que as próprias cidades. O Rio do Peixe era um desses. Corria desde muito antes de haver pontes, estradas, igrejas ou plantações de milho espalhadas pelo vale. Corria quando a mata ainda cobria quase tudo, quando as araucárias formavam um teto verde sobre as coxilhas e quando as gralhas-azuis eram as únicas semeadoras de pinhão conhecidas daquele mundo. Depois vieram os caboclos, os tropeiros, os colonizadores alemães e italianos, os trilhos da ferrovia, os serradores de madeira, as pequenas vilas que cresceram até se tornarem cidades. O rio permaneceu o mesmo, apenas carregando consigo um número cada vez maior de histórias. Entre todas elas, nenhuma atravessou tantas gerações quanto a do Velho do Rio do Peixe.

Meu avô ouvira essa história do bisavô nas demoradas noites de inverno, quando o vento assobiava entre os pinheiros e o fogo do fogão a lenha fazia estalar as achas de guajuvira com pinhão na chapa. Meu pai, por sua vez, ouviu-a ainda menino, sentado num banco tosco de madeira enquanto descascava espigas de milho ao lado da família. Quando chegou a minha vez, já não havia tantas noites silenciosas. A televisão começava a disputar espaço com os causos antigos, e muita gente preferia acreditar no que aparecia na tela a escutar aquilo que a memória dos velhos insistia em conservar. Mesmo assim, sempre que o céu escurecia por vários dias seguidos e a chuva caía grossa sobre o Vale do Rio do Peixe, alguém acabava lembrando, quase num sussurro:

— Será que o Velho já apareceu?

Ninguém perguntava quem era esse velho. Todos pareciam saber, ainda que muitos jamais o tivessem visto. Era como se seu nome não pertencesse a uma pessoa, mas ao próprio rio.

Diziam que ele surgia apenas quando as águas preparavam alguma surpresa. Não bastava uma cheia comum, dessas que fazem o rio lamber o barranco e assustam apenas as galinhas mais distraídas. Era preciso que a enchente fosse daquelas capazes de mudar cercas de lugar, arrancar pontes de madeira, transformar potreiros em lagoas e fazer as canoas navegarem onde, dias antes, pastavam vacas leiteiras. Antes dessas grandes águas, invariavelmente, aparecia um velho caminhando pela margem.

Nunca vinha montado. Nunca trazia cachorro. Nunca conduzia tropa. Apenas caminhava.

Vestia bombachas desbotadas, um pala escuro que parecia tão antigo quanto as figueiras centenárias e um chapéu de feltro de abas largas, sempre inclinado para proteger os olhos. A barba era branca, comprida, mas estranhamente limpa, como se fosse penteada todas as manhãs. Nas mãos carregava um cajado de madeira de araucária, liso de tanto uso, cuja ponta parecia mais polida que cabo de enxada antiga.

Havia quem jurasse que pescava. Outros diziam jamais ter visto um anzol em suas mãos. Alguns afirmavam que carregava uma pequena sacola de couro onde guardava iscas; outros garantiam que ela jamais continha peixe algum. Sobre isso nunca houve acordo. O único detalhe em que todos coincidiam era seu modo de caminhar: lento, firme, sem demonstrar cansaço, como quem conhece cada pedra do caminho muito antes de ela nascer.

Também nunca pedia pouso. Se alguém lhe oferecia um prato de feijão, agradecia com um leve movimento da cabeça e seguia adiante. Se insistiam em lhe dar dinheiro, sorria de um jeito quase imperceptível, como quem acabasse de ouvir uma brincadeira de criança. Jamais aceitava. Não comprava nada, não vendia nada e, ao que parecia, também não precisava de nada.

Mas o que realmente intrigava as pessoas acontecia sempre no mesmo instante. Depois de caminhar por alguns quilômetros acompanhando o curso do rio, ele parava. Permanecia imóvel durante alguns minutos. Então fincava o cajado no chão, erguia lentamente o rosto e fitava uma colina distante. Não dizia palavra. Apenas olhava. Em seguida retirava o cajado da terra e retomava a caminhada, desaparecendo na curva seguinte como se a neblina o tivesse engolido.

Os moradores mais antigos compreendiam o recado sem necessidade de explicações. No mesmo dia começavam a remover o gado para terrenos mais altos. Levavam os cavalos para além das coxilhas, retiravam os porcos dos chiqueiros próximos ao rio, desmontavam paióis improvisados e empilhavam móveis sobre tijolos dentro de casa. As mulheres guardavam documentos, fotografias e imagens de santos em lugares elevados. As crianças, sem entender direito a pressa dos adultos, apenas obedeciam.

Quando alguém perguntava a razão de tanto trabalho, bastava uma resposta curta:

— O Velho passou.

Era suficiente. Os recém-chegados, entretanto, riam daquilo tudo.

Durante as décadas de 1920 e 1930, depois da sangrenta Guerra do Contestado, chegaram muitas famílias alemãs e italianas no vale, vindas do Rio Grande do Sul e do Vale do Itajaí. Gente trabalhadora, interessada em abrir lavouras, serrarias e pequenos comércios. Muitos jamais tinham ouvido falar da antiga lenda.

Ao verem os vizinhos recolhendo animais enquanto o céu ainda conservava alguns rasgos de azul, perguntavam:

— Ficaram loucos?

Então alguém respondia:

— O Velho do Rio do Peixe passou hoje cedo.

Os forasteiros olhavam uns para os outros, divertidos.

— Um velho mandando no rio? Essa agora...

E voltavam ao trabalho.

Dois ou três dias depois começava a chover na serra. Primeiro uma chuva mansa. Depois outra mais forte. Em seguida vinham dias inteiros de água grossa, pesada, persistente, daquelas que transformam os córregos em torrentes barrentas e fazem as pedras desaparecerem sob espumas revoltas.

Então o Rio do Peixe mudava de voz. Quem morava perto aprendia a reconhecer aquele som. O rio deixava de correr; parecia respirar. Seu ronco aumentava durante a madrugada, batendo contra barrancos, troncos e pilares de pontes. Pela manhã, a água já cobria as ruas de cascalho. À tarde engolia cercas. Na noite seguinte invadia quintais, depósitos e galpões, arrastando casas inteiras.

Quando finalmente atravessava estradas e transformava o vale numa imensa corrente barrenta, muitos se lembravam do velho de chapéu. Os que haviam acreditado apenas fechavam as janelas e esperavam a enchente passar. Os que zombaram lamentavam não ter ouvido os antigos.

Nunca houve notícia de alguém que tivesse seguido o aviso do Velho e perdido tudo. Em compensação, eram incontáveis os casos de famílias salvas porque resolveram retirar seus animais e abandonar as casas a tempo. Cada enchente acrescentava um novo episódio à lenda, como se o próprio rio tivesse prazer em confirmar aquilo que os homens teimavam em negar.

Curiosamente, ninguém sabia de onde o Velho vinha. Nunca aparecia entrando por alguma estrada. Nunca era visto atravessando pontes.

Ninguém recordava tê-lo encontrado comprando mantimentos nas vendas, participando de festas de igreja ou assistindo às missas dominicais. Simplesmente surgia na margem do rio, caminhava durante algumas horas e desaparecia.

Houve quem tentasse segui-lo. Um tropeiro garantiu que manteve o velho à vista durante quase toda uma tarde. Bastou desviar os olhos por um instante para ajeitar a chincha do cavalo e, quando tornou a procurar, já não havia ninguém na estrada. O caminho seguia reto por centenas de metros, sem mato suficiente para esconder uma pessoa, mas o velho sumira mais rápido que a neblina quando o sol rompe o horizonte.

Outro homem jurou ter encontrado apenas as marcas do cajado impressas no barro úmido. Eram pegadas estranhas. Caminhavam por alguns metros e simplesmente terminavam na margem do rio, como se dali em diante quem as deixara tivesse continuado a viagem sobre a própria água.

Essas histórias corriam de boca em boca, aumentando um pouco a cada geração, como acontece com todos os bons causos do interior. Ainda assim, havia algo que ninguém ousava exagerar, porque todos pareciam concordar silenciosamente: o Velho jamais fazia mal a quem quer que fosse. Não ameaçava, não castigava, não assustava as crianças, não exigia promessas nem oferendas. Apenas avisava.

Talvez por isso fosse respeitado até pelos mais incrédulos.

Em Caçador, dizem que o Velho conversa com as gralhas-azuis. Em Videira, juram que ele planta pinhões durante a madrugada. Em Tangará, contam que as araucárias se inclinam quando ele passa. Em Luzerna, na romântica ponte coberta, feita de madeira com cobertura de zinco, afirmam que ele costuma permanecer longo tempo observando a confluência do Rio Limeira com o Rio do Peixe. Em Joaçaba, os pescadores dizem que nunca lança anzol, apenas observa a corrente. Em Herval d'Oeste, os ferroviários garantem que ele atravessa a ponte Emílio Baumgart sempre na véspera das grandes enchentes, com apupos dos meninos que falam a larfiagem. Em Ouro e Capinzal, contam que seu cajado faz brotar pequenas nascentes onde toca o chão. Como Moisés no Sinai.

Em Piratuba, contam que o Velho do Rio do Peixe fincou o cajado num ponto perdido entre os campos e seguiu viagem sem dizer palavra. Anos depois, quando a Petrobras perfurava o solo em busca de petróleo, não encontrou ouro negro, mas uma abundante fonte de águas termais a trinta e oito graus. Desde então, há quem diga que o Velho já conhecia o segredo que a terra guardava.

Meu avô costumava encerrar o assunto sempre da mesma maneira. Depois de puxar lentamente a bomba do chimarrão, olhava pela janela na direção do rio e dizia numa voz tão baixa que parecia conversar consigo mesmo:

— Homem comum não volta durante tantos anos sem envelhecer mais um dia. Mas também não acredito que ele seja assombração. Acho que o Rio do Peixe, de tanto viver, resolveu um dia criar um velho para caminhar em seu lugar.

E, depois de um longo silêncio, acrescentava:

— Quem ri dessa história nunca conheceu um rio de verdade.

Erwin, o Menino dos Pinhões

A primeira vez que alguém resolveu seguir o Velho do Rio do Peixe foi por pura curiosidade. Não para desafiá-lo, como fizeram alguns homens da cidade, nem para provar que a velha história não passava de superstição. Quem tomou essa decisão foi apenas um menino, desses que ainda enxergam perguntas onde os adultos veem apenas caminhos.

Chamava-se Erwin, embora poucos usassem seu nome. Morava na vila de Luzerna e desde pequeno era mais conhecido por Pinhão, porque vivia catando sementes pelos pinheirais, enchendo os bolsos do calção e esquecendo metade delas pelo caminho.

— Se esse velho aparece faz tanto tempo, por que ninguém sabe onde mora?

Ninguém respondia.

— Se ele é pescador, onde vende os peixes?

Novo silêncio.

— E por que ele nunca envelhece?

O avô apenas sorria.

— Algumas perguntas, guri, só o mato responde.

A resposta não lhe bastava.

Naquele final de inverno de 1957, depois de vários dias de chuva fina sobre a Serra do Espigão, espalhou-se pela vizinhança a notícia de que o Velho fora visto caminhando junto ao Rio do Peixe. Os homens começaram a retirar o gado das baixadas, e as mulheres que moravam na beira do rio levantaram os móveis sobre tocos de madeira. Como sempre acontecia, ninguém comentou muito. Simplesmente faziam o que precisava ser feito.

Erwin, porém, tomou outra decisão. Esperaria o amanhecer. Ainda antes do primeiro canto dos galos, saiu de casa levando apenas um pedaço de pão, um canivete e uma pequena cuia de alumínio presa ao embornal. Caminhou em silêncio até alcançar a margem do Rio do Peixe, onde uma tênue camada de neblina escondia metade da correnteza.

Não precisou procurar muito. O velho estava ali. Caminhava devagar, apoiando-se no cajado de araucária, como se conhecesse cada curva do rio desde antes da criação do mundo. Não olhava para trás nem parecia notar a presença do menino. Erwin manteve distância, escondendo-se atrás dos sarandis e das taquaras sempre que o caminho permitia. Assim atravessaram a manhã inteira.

Ao contrário do que imaginava, o Velho não seguia apenas a beira do rio. Em certos pontos abandonava a margem e penetrava lentamente na mata, caminhando por antigas picadas que pareciam invisíveis aos olhos comuns. Eram trilhas estreitas, cobertas de folhas secas, onde o perfume da terra úmida se misturava ao cheiro resinoso dos pinheiros.

Quanto mais avançavam, mais antigas pareciam as árvores. As araucárias erguiam-se tão altas que seus galhos formavam um teto verde muito acima das outras árvores. O chão desaparecia sob um espesso tapete de agulhas de pinheiro, e apenas alguns feixes de luz conseguiam romper aquela imensas catedrais vegetais. O silêncio era interrompido apenas pelo tamborilar distante de um pica-pau, pelo murmúrio de um riacho escondido e pelo assobio do vento passeando entre as copas.

Erwin nunca estivera numa mata tão velha. Ali não havia tocos de árvores abatidas, nem cercas, nem sinais de machado. Parecia um pedaço de mundo esquecido pelo tempo.

Durante dois dias inteiros repetiu-se a mesma rotina. O menino seguia. O Velho caminhava. À noite, Erwin voltava escondido para casa por atalhos conhecidos, inventando desculpas para justificar o cansaço. Antes do amanhecer, retornava ao mesmo lugar.

No terceiro dia aconteceu algo estranho. O velho deixou de seguir o rio. Entrou definitivamente no pinheiral. Erwin percebeu que já não ouviam o rumor das águas. Apenas o vento.

Depois de caminhar por longo tempo, o Velho parou diante de uma clareira iluminada pelo sol da manhã. Ali existia apenas um círculo de terra nua, como se algum raio tivesse derrubado uma árvore muitos anos antes. Pela primeira vez desde que começara a segui-lo, o menino viu o velho levar a mão ao bolso do pala. Retirou um único pinhão.

Era um pinhão comum, igual aos milhares que Erwin apanhava todo outono para assar na chapa do fogão. O velho ajoelhou-se com a lentidão de quem executa um gesto aprendido desde sempre. Com a ponta do cajado abriu um pequeno buraco na terra, depositou ali a semente e cobriu-a delicadamente com um punhado de folhas.

Depois permaneceu imóvel. Erwin esperou. Nada aconteceu. Sorriu consigo mesmo. Talvez fosse apenas um velho plantando uma árvore.

Foi então que a terra estremeceu. Primeiro quase imperceptivelmente. Depois um pequeno montículo começou a erguer-se. Do centro dele surgiu um broto verde, tenro, brilhante como se acabasse de nascer da própria luz.

O menino esfregou os olhos. O broto crescia. Crescia diante dele. Transformou-se numa muda. A muda engrossou. O tronco alargou-se numa velocidade impossível. Os galhos abriram-se para os lados. A casca adquiriu o tom acinzentado das árvores antigas.

Em poucos instantes, onde antes existia apenas terra nua, erguia-se uma araucária majestosa, tão alta quanto as demais que cercavam a clareira.

Erwin perdeu o fôlego. Não sabia se corria, gritava ou rezava. As pernas recusavam-se a obedecer. Foi então que ouviu um bater de asas. Uma gralha-azul pousou suavemente num dos galhos recém-formados. Trazia um pinhão preso no bico. Inclinou a cabeça para o velho, como quem cumprimenta um velho conhecido, e voltou a levantar voo.

Voou poucos metros. Escolheu um pequeno espaço entre as folhas secas. Com rápidos movimentos enterrou o pinhão na terra. Depois cobriu-o cuidadosamente com folhas e musgo. Não era um gesto de esquecimento, mas de cuidado. A gralha-azul guardava ali o seu alimento para os dias difíceis, como o colono guardava os grãos no paiol ou as reservas na despensa da casa. Cada pinhão escondido era uma pequena promessa de fartura para o futuro, mas também uma semente confiada à terra para quando a floresta precisasse renascer — ainda que por esquecimento da gralha, que não tinha GPS. A gralha observou a própria obra por alguns segundos e desapareceu entre os pinheiros.

O velho acompanhou o voo da ave com um sorriso sereno. Somente então falou pela primeira vez. Sua voz era baixa, profunda e antiga como o rumor do próprio rio.

— Eu planto. Ela espalha.

Erwin estremeceu. Não apenas porque finalmente ouvira o velho falar, mas porque percebeu que aquelas palavras pareciam dirigir-se tanto à gralha quanto às árvores, ao vento e ao próprio chão.

O silêncio voltou a dominar a clareira. Passado algum tempo, o velho apoiou as duas mãos sobre o cajado e acrescentou, olhando para o alto da nova araucária:

— Uma árvore nunca nasce para quem a planta. Nasce para quem ainda nem nasceu.

As palavras permaneceram suspensas no ar como sementes levadas pelo vento. Erwin sentiu que havia nelas uma verdade grande demais para um menino compreender. Mesmo assim jamais as esqueceria.

Enquanto contemplava a gigantesca araucária recém-nascida, começou a notar pequenos detalhes que antes lhe escapavam. As gralhas cruzavam continuamente o céu carregando pinhões. Cutias surgiam entre os arbustos para esconder sementes. Esquilos percorriam os galhos. O vento espalhava pinhas maduras pelo chão. Parecia existir uma imensa conversa silenciosa entre todos os habitantes daquela floresta. E o Velho fazia parte dela.

Naquele instante, Erwin compreendeu que o homem não caminhava pelas matas procurando alguma coisa. Também não andava sem destino. Ele estava trabalhando. Fazia um serviço tão antigo quanto a própria floresta. Plantava o futuro. Recuperava a floresta de araucárias que havia sido dizimada pelos tratores da Lumber durante a construção da ferrovia São Paulo-Rio Grande.

Quando o sol começou a desaparecer atrás das copas, o velho retomou a caminhada sem olhar para trás. Erwin permaneceu imóvel por longo tempo, contemplando a jovem araucária que, embora acabasse de nascer diante de seus olhos, possuía o porte respeitável de uma árvore centenária.

Na volta para casa, o menino encontrou pelo caminho dezenas de pinhões espalhados sobre a trilha. Curvou-se para recolher alguns deles, mas desistiu ao perceber uma gralha-azul observando-o do alto de um galho. Sorriu. Deixou a semente onde estava. Pela primeira vez em sua vida, entendeu que nem todo pinhão fora feito para virar comida.

O Guardião das Araucárias

Depois daquele tempo, ninguém mais tentou descobrir de onde vinha o Velho nem para onde seguia quando desaparecia entre a neblina das margens do Rio do Peixe. Os mais antigos compreenderam que certas perguntas pertencem mais ao coração do que à razão. Não era preciso saber seu nome para reconhecer sua presença. Bastava vê-lo caminhando devagar, o cajado de araucária marcando o compasso dos passos, o chapéu de feltro protegendo-lhe os olhos e o embornal de couro pendendo sobre o ombro.

Durante anos, alguns imaginaram que ali guardasse anzóis, linhas ou iscas. Outros acreditavam que carregasse apenas um pedaço de pão e uma cuia de chimarrão. Nunca houve quem tivesse coragem de perguntar. O Velho seguia seu caminho em silêncio, como se o rio fosse sua única companhia.

Mas havia um detalhe que poucos percebiam. Sempre que parava junto a uma clareira aberta pelo machado ou diante de um barranco onde antigas araucárias haviam sido derrubadas, ajoelhava-se lentamente. Remexia a terra com a ponta do cajado, retirava alguma coisa do embornal e a depositava no pequeno buraco. Depois cobria tudo com folhas secas, levantava-se e prosseguia a caminhada.

Quem o observava de longe mal distinguia seus movimentos. Parecia apenas um velho descansando por alguns instantes. Contudo, quando se aproximavam depois de sua partida, encontravam a terra recém-revolvida.

Alguns diziam que rezava pelos pinheiros abatidos. Outros afirmavam que enterrava pequenas lembranças dos mortos. Os mais velhos apenas sorriam.

— Não mexam — aconselhavam. — A terra sabe o que recebeu.

Somente muitos anos depois compreenderam que, dentro daquele velho embornal, jamais houvera peixes nem ferramentas. Havia apenas pinhões. Centenas deles. Talvez milhares.

 

O Velho conhecia cada araucária do vale como um pastor conhece seu rebanho. Detinha-se diante das mais antigas, pousava a mão sobre o tronco áspero e permanecia imóvel durante longos minutos. Às vezes parecia ouvir alguma coisa escondida sob a casca grossa. Outras vezes limitava-se a fechar os olhos enquanto o vento percorria lentamente a copa.

As gralhas-azuis nunca demonstravam medo. Ao contrário. Aproximavam-se dele em bandos, pousando nos galhos mais baixos, no cajado e, vez ou outra, até na aba do chapéu.

Os moradores diziam que conversavam. Não com palavras. As aves saltavam de um lado para outro, bicavam alguns pinhões espalhados no chão e levantavam voo. O Velho seguia atrás delas, como se recebesse uma indicação invisível. Era então que retirava novas sementes do embornal.

As gralhas escondiam algumas entre a folhagem. As cutias enterravam outras próximas às raízes. Os esquilos carregavam as menores para lugares onde nenhum homem pisaria. Cada qual fazia sua parte. Como acontecia desde muito antes de existirem cercas, vilas ou escrituras de propriedade.

Meu avô costumava dizer que a gralha-azul era uma espécie de colona da floresta. Escondia pinhões do mesmo modo que os antigos agricultores enchiam os paióis antes do inverno. Guardava mais do que precisava, esquecia parte dos esconderijos e, sem perceber, plantava novas araucárias para os anos futuros.

O Velho apenas acompanhava esse trabalho paciente. Nunca apressava a natureza. Sabia que uma araucária não pertence ao homem que a planta, mas aos netos daquele que talvez nem chegue a conhecê-la adulta.

As décadas passaram como passam os rios: sem fazer alarde. Vieram novas famílias, abriram-se estradas, levantaram-se igrejas, construíram-se pontes e estações ferroviárias. O Vale do Rio do Peixe prosperava. As serrarias trabalhavam dia e noite. O cheiro da madeira recém-cortada espalhava-se pelas madrugadas.

Primeiro desapareceram os pinheiros mais grossos. Depois os mais altos. Mais tarde, qualquer araucária servia. As motosserras substituíram os velhos serrotes de dois cabos. Caminhões passaram a levar, em poucas horas, aquilo que antes exigia dias de trabalho com juntas de bois.

Os homens chamavam aquilo de progresso. O Velho continuava caminhando. Toda vez que encontrava uma clareira recém-aberta, demorava-se um pouco mais. Abaixava-se, revolvia a terra e nela depositava um pinhão. Depois outro. E mais outro. As gralhas pareciam compreender sua aflição. As aves multiplicaram-se pelos pinheirais. Cruzavam o céu carregando sementes no bico, escondendo-as entre folhas secas, junto a pedras cobertas de musgo ou ao pé dos barrancos.

As cutias faziam o mesmo. Era como se toda a floresta houvesse decidido trabalhar em silêncio para reparar uma perda que os homens ainda não percebiam.

Certa manhã chegaram ao vale homens vindos de longe. Traziam mapas enrolados, aparelhos de medição e projetos ambiciosos. Haviam adquirido uma vasta área de pinheiral para transformá-la em madeira serrada. Os moradores comentavam que dali sairia riqueza suficiente para várias gerações.

As árvores começaram a cair antes mesmo do nascer do sol. Cada estrondo parecia atravessar o vale inteiro. As gralhas levantavam voo em bandos desordenados. Os veados desapareciam nas capoeiras. Até o rio parecia correr mais pesado.

Numa dessas manhãs, o responsável pela derrubada encontrou um velho parado diante da mata. Apoiava-se tranquilamente no cajado de araucária, como se aguardasse alguém. O engenheiro cumprimentou-o com educação.

— O senhor mora por aqui?

O Velho apenas sorriu. Depois fitou demoradamente as araucárias marcadas com tinta vermelha. Por fim disse:

— Ainda há tempo.

O engenheiro olhou em volta sem compreender.

— Tempo para quê?

O Velho passou a mão sobre o tronco de um velho pinheiro.

— Para deixar em pé aquilo que levará um século para voltar.

O homem respondeu com cordialidade. Explicou que tudo estava autorizado, que as árvores eram propriedade legítima da empresa e que outras seriam plantadas depois. O Velho escutou sem interrompê-lo. Quando o engenheiro terminou, limitou-se a inclinar a cabeça, como quem lamenta uma decisão já tomada. Em seguida retomou lentamente sua caminhada pela margem do Rio do Peixe.

As motosserras voltaram a cantar. O barulho estridente continuou durante semanas.

A cada manhã surgiam novas clareiras onde, poucos dias antes, o vento encontrava abrigo nas copas das araucárias. O cheiro da resina misturava-se ao da terra revolvida, e os caminhões desciam o vale carregando toras tão grossas que pareciam colunas arrancadas de uma antiga catedral.

O Velho não voltou. Pelo menos foi o que muitos imaginaram. Na verdade, continuava percorrendo as margens do Rio do Peixe, quase sempre ao cair da tarde, quando os trabalhadores já haviam regressado para casa. Caminhava lentamente entre os tocos recém-cortados, fincava o cajado na terra e retirava do embornal mais alguns pinhões. Depositava-os um a um, cobrindo-os com folhas de grimpa e um pouco de húmus escuro.

Logo depois surgiam as gralhas-azuis. Vinham primeiro duas ou três. Em seguida dezenas. Saltavam entre os troncos derrubados, recolhendo parte das sementes e escondendo-as em lugares diferentes, como faziam desde tempos imemoriais. Algumas voavam para muito longe. Outras enterravam os pinhões ao pé de pedras, junto a barrancos ou entre capões ainda intactos.

As cutias continuavam o trabalho. Escavavam pequenos buracos, escondiam as sementes e desapareciam. Muitas jamais voltavam para buscá-las. Assim a floresta, silenciosamente, preparava o próprio futuro.

Meu avô dizia que Deus nunca confiou a sobrevivência das araucárias aos homens. Entregou-a às gralhas, às cutias e, talvez, àquele velho caminhante que parecia conhecer cada nascente, cada curva do rio e cada pedaço de terra fértil onde um pinhão pudesse criar raízes.

Então vieram as chuvas. Primeiro foram pancadas passageiras. Depois uma garoa persistente. Por fim, dias inteiros de água grossa caindo sobre a Serra do Espigão.

Os riachos engrossaram. As sangas tornaram-se córregos. Os afluentes desceram barrentos em direção ao Rio do Peixe. Sem a proteção das antigas raízes, muitas encostas começaram a ceder. A terra deslizou lentamente, carregando pedras, galhos e barro para dentro do rio. As águas, impedidas de seguir seu antigo caminho, procuraram outros.

As máquinas precisaram ser abandonadas às pressas. Os caminhões já não conseguiam passar, nem com correntes nas rodas. Pontes improvisadas desapareceram sob a correnteza.

Não foi um castigo. Foi apenas a natureza obedecendo às suas próprias leis.

Quando a enchente finalmente baixou, restavam barrancos desfeitos, estradas interrompidas e um imenso silêncio. Uma locomotiva com dezenas de vagões rolou morro abaixo, até o Rio do Peixe, amassando os pés de sarandis na margem. A água havia corroído a base da terra abaixo da camada de brita.

O engenheiro voltou meses depois. Percorreu a área devastada esperando encontrar apenas lama endurecida. Encontrou outra coisa. Milhares de pequenas mudas de araucária começavam a romper o solo. Algumas tinham apenas poucos centímetros. Outras já exibiam delicadas coroas verdes apontando para o céu.

Os técnicos registraram o fenômeno com naturalidade. Explicaram que as sementes haviam permanecido enterradas durante anos, escondidas pelas gralhas-azuis e pelas cutias, aguardando as condições adequadas para germinar.

Era uma explicação correta. Mas incompleta. Os moradores antigos ouviam aquelas conclusões sem discutir. Depois sorriam discretamente.

— Claro que foram as gralhas... — diziam.

— Mas alguém precisou lhes ensinar onde plantar.

O tempo continuou correndo como corre um rio. Novos pinheirais cresceram. As árvores derrubadas transformaram-se em lembrança, depois que o abate foi proibido pelo Ibama.

As crianças que brincavam às margens do Rio do Peixe tornaram-se pais, depois avós. Muitos dos que juravam ter visto o Velho partiram também, levando consigo suas histórias. Mesmo assim, de tempos em tempos, alguém ainda afirmava encontrá-lo.

Um pescador dizia tê-lo visto caminhando na neblina de uma manhã de inverno. Um ferroviário garantia que o observara atravessando lentamente a velha ponte rasa de madeira, em Luzerna, pouco antes de mais uma grande enchente.

Um lenhador contou que, ao descansar junto de um capão de araucárias, encontrou um velho enterrando pinhões. Quando se aproximou para cumprimentá-lo, não havia mais ninguém. Restava apenas um pequeno monte de terra recém-remexida. E uma gralha-azul pousada no galho mais baixo da árvore.

Os anos transformaram a lenda em memória. A memória tornou-se tradição. E a tradição continuou caminhando de boca em boca, como o próprio rio. Até que, muitas décadas mais tarde, estudiosos da floresta passaram a comparar fotografias antigas com imagens aéreas do Vale do Rio do Peixe.

Queriam compreender como os pinheirais haviam conseguido se recuperar em determinadas áreas. Foi então que perceberam uma curiosidade. As araucárias mais jovens não estavam distribuídas ao acaso. Formavam uma longa faixa acompanhando o curso do rio, desde as cabeceiras da Serra do Espigão até as proximidades do Rio Uruguai.

Era quase o mesmo caminho que os antigos atribuíam ao Velho do Rio do Peixe. Os pesquisadores falaram em dispersão natural das sementes. Os biólogos destacaram a extraordinária importância das gralhas-azuis para a regeneração da floresta.

Tinham razão. Mas, nas pequenas comunidades espalhadas pelo vale, ninguém pareceu muito surpreso. Os velhos apenas repetiram o que seus pais e avós já diziam havia gerações:

— As gralhas sempre souberam plantar.

Só nunca trabalharam sozinhas.

Desde então, quando o inverno se aproxima e o céu permanece fechado durante muitos dias, ainda há quem olhe demoradamente para a margem do Rio do Peixe. Uns esperam encontrar um velho de barba branca, chapéu de feltro e cajado de araucária. Outros dizem que jamais o verão, porque ele só aparece para quem aprendeu a escutar o silêncio das matas. Há ainda os que afirmam nunca ter visto homem algum. Apenas uma gralha-azul cruzando o céu com um pinhão no bico.

Talvez todos estejam certos. Porque as lendas mais antigas nunca morrem. Continuam vivas nas árvores que alguém plantou sem esperar desfrutar de sua sombra, no voo paciente das gralhas-azuis e no rumor das águas do Rio do Peixe.

E dizem os antigos que, se algum dia todas as araucárias desaparecerem do vale, também desaparecerá a lenda do Velho do Rio do Peixe. Mas, enquanto houver uma única gralha escondendo um pinhão na terra e uma única araucária lançando sementes ao vento, ele continuará caminhando.

Não para guardar o rio. Mas para lembrar aos homens que nenhuma floresta nasce para uma geração apenas. Ela pertence, ao mesmo tempo, aos que vieram antes de nós e àqueles que ainda nem nasceram. 


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