MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Jorginho, o menino que enfrentou os chifres de uma vaca ainda na barriga da mãe - Por Félix Maier

 


Jorginho, o menino que enfrentou

os chifres de uma vaca ainda

na barriga da mãe

Félix Maier

         Há gente que chega ao mundo sem fazer muito barulho, como quem pede licença para entrar. Há outros que parecem nascer já anunciando que não vieram para passar despercebidos. Jorginho Mello pertence, pelo menos segundo a história que ele próprio costuma contar, à segunda categoria. Antes de abrir os olhos para a luz, antes de aprender a falar, antes de dar os primeiros passos e muito antes de descobrir que um dia seria governador de Santa Catarina, o menino já havia enfrentado, ainda no ventre materno, uma adversária de respeito: uma vaca de mau humor, munida de chifres e pouco disposta a colaborar com a ordenha.

A história aparece na narrativa pessoal de Jorginho como uma espécie de prólogo de sua vida. Sua mãe, grávida, havia ido tirar leite de uma vaca quando o animal a atacou. O episódio teria provocado problemas na gestação e contribuído para que o menino viesse ao mundo antes da hora, com apenas sete meses. A parte da prematuridade encontra confirmação em registros biográficos e reportagens sobre sua vida: Jorginho dos Santos Mello nasceu em Ibicaré, SC, em 15 de julho de 1956, e veio ao mundo pequeno, prematuro, a ponto de o diminutivo Jorginho acabar se tornando seu nome definitivo.

Não se sabe o que teria pensado aquela vaca depois do episódio. Talvez nada. Vacas, ao contrário dos políticos, não costumam dar entrevistas para explicar suas decisões. Talvez ela simplesmente tenha entendido que estava defendendo o leite que considerava seu e que a mulher grávida havia chegado perto demais. O certo é que, se o animal pretendia assustar a família, conseguiu. Se pretendia impedir o nascimento daquele menino, fracassou completamente.

Jorginho nasceu. E, aparentemente, nasceu com pressa. Essa pressa haveria de acompanhá-lo pela vida inteira.

O menino que chegou aos sete meses não demoraria muito para chegar a Herval d’Oeste, à escola, ao trabalho, à política e, décadas mais tarde, ao governo de Santa Catarina. Quando ainda era rapazote, ninguém poderia imaginar que aquele menino franzino, que aprenderia a vender pé-de-moleque na Estação ferroviária, trabalhar no frigorífico do Pagnoncelli e estudar no Colégio Melo e Alvim, acabaria atravessando o longo caminho que separava uma pequena cidade do Meio-Oeste catarinense dos gabinetes de Brasília e, finalmente, do Centro Administrativo do Estado.

Mas a vida política, quando contada depois que tudo aconteceu, parece uma estrada previamente traçada. Na realidade, não é. Para o rapaz que vendia doce na Estação, o futuro ainda era apenas uma palavra sem endereço.

Ibicaré, Herval e o começo da caminhada

Jorginho nasceu em Ibicaré, naquele meio-oeste catarinense onde as cidades pequenas pareciam viver em permanente diálogo com a roça, com as serrarias, com as pequenas propriedades, com o Rio do Peixe e com a ferrovia. A região tinha seus próprios ritmos. O dia começava cedo, o trabalho começava cedo e, para muita gente, a vida começava a exigir responsabilidades antes que a infância tivesse tempo de terminar.

A família acabou se mudando para Herval d’Oeste, município vizinho, onde Jorginho viveria uma parte decisiva de sua juventude. A cidade, ligada intimamente a Joaçaba e ao movimento do Vale do Rio do Peixe, tinha uma característica que hoje talvez seja difícil imaginar: a ferrovia era uma presença concreta na vida cotidiana. Não era apenas um traço no mapa. Era barulho, fumaça, apito, carga, passageiro, comércio e movimento.

A Estação ferroviária de Herval d’Oeste era uma espécie de praça coberta onde a vida passava sobre trilhos. Ali se encontravam os que chegavam e os que partiam, os que tinham dinheiro e os que precisavam ganhá-lo, os viajantes de passagem e os moradores que conheciam cada funcionário pelo nome. Havia carregadores, engraxates, vendedores, curiosos, pequenos comerciantes e os moleques que pareciam ter nascido sabendo que, onde houvesse um passageiro, poderia haver algum trocado.

Jorginho conheceu esse mundo ainda jovem. E não foi simplesmente para olhar. Foi para trabalhar. Para ajudar sua mãe, vendia na Estação o pé-de-moleque feito com doce de leite, transformado em uma guloseima que, nas mãos do rapaz, ganhou nome próprio: pé-de-granfino. A palavra ficou como ficam certas expressões do interior: ninguém sabe exatamente quando nasceram, mas todo mundo sabe de quem são.

Pé-de-granfino era uma palavra com sabor de infância, mas também tinha gosto de trabalho. A mãe preparava. O filho vendia. O passageiro comprava. O dinheiro voltava para casa. E a vida seguia mais leve.

Hoje, quando se fala em empreendedorismo juvenil, aparecem palavras como startup, inovação, plano de negócios, mercado, estratégia e marketing. Naquele tempo, um garoto com uma bandeja de doces na Estação não precisava de nenhuma dessas palavras. Tinha apenas um produto, alguns compradores e a necessidade de vender.

Talvez tenha sido a primeira escola de economia de Jorginho. E talvez tenha sido também sua primeira escola de política. Porque vender doce para viajante exige alguma habilidade.

É preciso saber abordar sem incomodar, elogiar o produto sem exagerar, perceber quem tem dinheiro, quem está com pressa, quem está disposto a comprar e quem apenas pergunta o preço para depois desaparecer. É preciso conhecer gente. Jorginho aprenderia isso cedo.

A escola dos larfiudos

A Estação tinha ainda outra escola, menos respeitável, mas provavelmente não menos instrutiva. Era a escola dos moleques. Ali circulavam os meninos que faziam pequenos trabalhos como carregadores e engraxates, aqueles que sabiam onde ficava cada canto da plataforma, quem chegaria no trem seguinte e qual passageiro costumava dar gorjeta. Eram meninos que aprendiam cedo a se virar. E tinham uma língua própria, a larfiagem.

Não se tratava exatamente de um idioma no sentido acadêmico da palavra, porque não havia gramática, dicionário ou professor formado. Era uma linguagem de rua, de molecada, feita de palavras inventadas, deformadas, trocadas e adaptadas, que consistia basicamente em embaralhar as sílabas, para zarquiar da polícia.

Quem frequentava a Estação ferroviária de Herval d’Oeste aprendia. Jorginho, ao que tudo indica, também aprendeu. E talvez tenha sido uma experiência importante. Porque, quem aprende a entender uma linguagem diferente, aprende, ao mesmo tempo, que as pessoas nem sempre dizem exatamente aquilo que parecem dizer. Há códigos, intenções, ironias, disfarces, sinais e silêncios. Na política, muitos anos depois, essa habilidade não seria inútil.

A larfiagem talvez tenha sido apenas uma brincadeira de meninos. Mas era também um exercício de observação social. Naquela pequena universidade sem diploma, o professor era a rua. O quadro-negro era a plataforma da Estação. E os alunos eram aqueles moleques que aprendiam a sobreviver entre malas, vagões, engraxates, carregadores, passageiros e pequenos furtos.

Alguns talvez tenham se perdido pelo caminho. Outros ficaram na memória. Jorginho saiu dali para outras escolas. Mas, com certeza, não esqueceu a primeira.

O Melo e Alvim

No início dos anos 1970, Jorginho estudava no Colégio Melo e Alvim, em Herval d’Oeste. Era o tempo em que a cidade ainda tinha aquele jeito de lugar onde praticamente todo mundo conhecia todo mundo ou, pelo menos, conhecia alguém que conhecia todo mundo.

Foi ali que Sílvia Maier, irmã de Félix Maier, conviveu com o rapazote de Ibicaré. O colégio era outro mundo.

Se a Estação ensinava a vida de maneira prática, o Melo e Alvim tentava organizá-la em cartilhas, cadernos, provas, horários e disciplina. Era preciso estudar, copiar, responder, decorar e passar de ano. Mas nenhum colégio consegue impedir que os alunos sejam jovens. E os alunos daquela época também tinham seus interesses muito além das matérias escolares.

Havia as amizades. As brincadeiras. As paqueras. As matinês. E havia o frio. O frio do Meio-Oeste catarinense, especialmente nos invernos mais rigorosos, não era detalhe decorativo. Entrava pelas mangas, atravessava as calças e fazia qualquer casaco parecer insuficiente.

Jorginho, porém, tinha uma solução. O sobretudo. Um sobretudo inesquecível. Naquele ambiente, o rapaz aparecia bem-apanhado, vestido com uma peça que lhe dava ares de lorde inglês. Talvez Londres nunca tivesse ouvido falar dele, mas Herval d’Oeste certamente ouviu.

Para os meninos, aquilo podia parecer um exagero. Para as meninas, aparentemente, era outra história. O sobretudo chamava atenção. E, nas matinês dançantes, Jorginho não passava despercebido, era muito disputado.

Era uma época em que a juventude tinha seus próprios rituais. As matinês eram importantes. Dançar era importante. Saber se vestir era importante. Saber quem estaria no salão era importantíssimo. E um rapaz de sobretudo, vindo da Estação, trabalhando e estudando, parecia ter alguma coisa que o destacava.

Talvez fosse apenas a roupa. Talvez fosse o jeito. Talvez fosse a mistura de confiança e ambição que já começavam a aparecer. Ou talvez as meninas simplesmente gostassem de um rapaz bem-vestido. A história não precisa de explicação científica. Basta a memória.

O rapaz do frigorífico

Mas o sobretudo tinha hora. Na escola e nas matinês, podia representar elegância. No trabalho, não servia para muita coisa. Jorginho trabalhou no frigorífico de Attilio Pagnoncelli, ligado ao abate de suínos, numa época em que o trabalho industrial era uma das portas de entrada para jovens que buscavam alguma independência.

Aquele ambiente tinha pouco de lorde inglês. Ali havia trabalho. Havia horário. Havia responsabilidade. Havia o mundo real. E o rapaz que queria se destacar precisava mostrar que também sabia cumprir obrigações.

Essa passagem pelo trabalho ajuda a compreender a diferença entre o personagem lembrado pelas matinês e o jovem que construía sua própria trajetória. O sobretudo não era toda a história. Era apenas a parte mais visível. Por baixo dele havia um rapaz trabalhando. E trabalhando desde muito cedo.

A vida de Jorginho foi marcada por essa combinação: aparência cuidada por fora e disposição para trabalhar por dentro. Mais tarde viria o BESC. Aí o mundo mudaria novamente.

No Banco do Estado de Santa Catarina, Jorginho começou como funcionário e construiu uma carreira que o levaria a gerente e diretor. Os registros da Assembleia Legislativa indicam sua passagem pelo BESC entre 1975 e 2002.

Era outro aprendizado. A Estação ensinara a lidar com gente. O frigorífico ensinara a lidar com trabalho. O colégio ensinara a lidar com livros. O banco ensinaria a lidar com papéis, números, responsabilidades e estruturas administrativas. E a política já estava à espreita.

Vereador aos dezoito

Aos dezoito anos, Jorginho foi eleito vereador de Herval d’Oeste. Aos dezoito. Isso merece repetição porque, naquela idade, a maioria dos rapazes ainda estava tentando descobrir como funcionava a própria vida. Jorginho já estava tentando descobrir como funcionava a vida pública.

A eleição ocorreu em 1976, pela Arena, e a Memória Política de Santa Catarina registra que ele foi, entre 1977 e 1978, o mais jovem presidente de Câmara do Brasil. Era o rapazote do Melo e Alvim entrando na política. Talvez alguns dos colegas tenham pensado que aquilo era apenas mais uma aventura juvenil. Mas não era. A vereança seria o primeiro degrau de uma escada longa. E é curioso imaginar aquele jovem ocupando uma cadeira na Câmara Municipal depois de ter circulado pela Estação vendendo pé-de-granfino.

No mundo da política, ele descobriria que vender doce era relativamente simples. O cliente podia dizer não. O passageiro podia ir embora. A conta era fácil. Na Câmara, nada era tão simples. Ali havia opiniões, interesses, disputas, discursos, alianças e desentendimentos. O rapaz teria de aprender rapidamente. E aprendeu.

A política municipal, porém, não seria ainda seu destino definitivo. Depois daquele começo, ele se afastaria temporariamente da vida eletiva e construiria sua carreira no BESC. Só mais tarde retornaria à política em escala maior. Isso também é importante. Porque mostra que sua trajetória não foi uma ascensão contínua, como às vezes parecem sugerir as biografias resumidas.

Houve espera. Houve trabalho. Houve preparação. Houve uma vida profissional entre uma eleição e outra. O jovem vereador não virou deputado imediatamente. Precisou viver.

O tempo do BESC

O BESC foi uma longa etapa. Foram décadas em que Jorginho esteve ligado à instituição, começando em 1975 e chegando à direção. Nesse intervalo, também estudou. Formou-se em Estudos Sociais e, posteriormente, em Direito. Aquele rapaz que saíra da Estação ferroviária estava acumulando ferramentas. Talvez sem saber exatamente para que serviriam todas elas. Mas acumulava.

Experiência de rua. Experiência de trabalho. Experiência  bancária. Formação acadêmica. Experiência política. É assim que se constroem certas carreiras.

Não há um momento único em que tudo acontece. Há pequenas aquisições. Uma competência aqui. Uma amizade ali. Um conhecimento acolá. Uma eleição vencida. Uma derrota a lamentar, como a presidência da ALESC, em 2001. Uma oportunidade. Uma porta aberta. Outra fechada. É a vida, tchó!

E, quando a pessoa olha para trás, percebe que aquilo que parecia disperso formava uma trajetória.

De Herval para Florianópolis

Quando Jorginho retornou à política eleitoral em meados dos anos 1990, já não era o rapaz do sobretudo. Era um homem experiente.

Em 1994, foi eleito deputado estadual e assumiu em 1995. Depois, seria reeleito sucessivamente, completando quatro mandatos na Assembleia Legislativa. A partir daí, sua trajetória ganhou outra escala. Herval d’Oeste já não era o único horizonte. O mundo agora era Santa Catarina. Mas o Oeste continuava dentro da biografia.

Porque uma pessoa pode sair de uma cidade pequena, mas raramente consegue sair completamente dela. Carrega o sotaque. Carrega as lembranças. Carrega os amigos. Carrega as histórias. Carrega os apelidos. Carrega até as palavras dos larfiudos da Estação que aprendeu quando era moleque.

Talvez por isso a figura do pé-de-granfino seja tão persistente. Ela lembra que, antes de qualquer cargo, havia uma necessidade familiar. Antes do gabinete, havia a Estação. Antes do discurso, havia a venda. Antes do voto, havia o trabalho.

O caminho para Brasília

Depois de quatro mandatos como deputado estadual, Jorginho chegou à Câmara dos Deputados em 2011. Foi eleito em 2010 e reeleito em 2014, permanecendo na Câmara até 2019.

Brasília era outro universo. O rapaz que aprendera a larfiagem na Estação agora circulava pelos corredores do Congresso Nacional. É uma dessas mudanças que parecem quase absurdas quando colocadas lado a lado. De um lado, o menino vendendo doce; de outro, o parlamentar discutindo leis. E, pelo caminho, Jorginho logo descobriu que, em Brasília, também havia larfiudos — talvez mais bem vestidos, mais letrados e muito mais habilidosos nas palavras —, dos quais precisaria aprender a se defender e até a reconhecer à distância. Afinal, a larfiagem mudara de cenário, mas não tinha desaparecido: apenas trocara a plataforma da Estação pelos corredores do Congresso.

A política brasileira é cheia de homens que começaram em lugares muito diferentes daqueles em que terminaram. E o Oeste catarinense produziu muitos personagens cuja história se mistura com trabalho, agricultura, indústria e pequenas cidades. Jorginho levou consigo essa origem.

Em 2018, ele foi eleito senador por Santa Catarina. A trajetória estava se tornando nacional. O garoto de Ibicaré chegava ao Senado. E ainda faltava o último capítulo daquela escalada.

A eleição para governador

Em 2022, Jorginho Mello foi eleito governador de Santa Catarina. A Assembleia Legislativa registra a sequência: vereador aos 18 anos, carreira no BESC, quatro mandatos como deputado estadual, dois como deputado federal, senador e, finalmente, governador eleito.

Quando chegou ao governo, o rapazote de Ibicaré já era personagem da história política oficial. Seu nome aparecia nos jornais. Sua fotografia estava nos cartazes. Seu rosto era reconhecido em todo o Estado.

Mas, para quem o conhecera nos corredores do Melo e Alvim, para quem o vira na Estação, para quem lembrava do sobretudo, das matinês, do trabalho no frigorífico e do pé-de-granfino, existia outra imagem. Uma imagem menor e, justamente por isso, mais humana. A imagem do garoto. O governador podia ser conhecido por milhões. Mas o rapazote ainda pertencia a Herval d’Oeste.

A cidade que ficou dentro dele

Herval d’Oeste não foi apenas uma etapa administrativa na vida de  Jorginho. Foi o lugar onde ele se tornou jovem. E isso é diferente. Uma pessoa pode nascer em uma cidade e tornar-se outra pessoa em outra cidade. Foi em Herval que Jorginho trabalhou, estudou, vendeu doces, participou de matinês e entrou na política.

Foi ali que seu nome começou a ganhar circulação. Foi ali que ele deixou de ser apenas o menino de Ibicaré. E talvez seja por isso que a memória hervalense tenha uma relação particular com ele.

Para quem o viu circular pelos corredores do Melo e Alvim, trabalhar no frigorífico e brilhar nas matinês, permanecia também a imagem mais íntima e humana: a de um jovem bem-vestido, ambicioso no melhor sentido, carregando no corpo magro e no olhar atento a semente de um destino que começara ali, entre larfiudos escorregadios, pés-de-granfino, livros, danças, frio serrano e sonhos ainda sem nome.

A cidade guarda o personagem antes da fama. É uma espécie de fotografia sem retoque. Nela, não aparece o governador. Aparece o rapaz. E o rapaz estava bem-vestido. Isso é importante. Porque a memória gosta de detalhes.

Ninguém se lembra de uma pessoa apenas porque ela ocupou um cargo. Lembra-se porque ela usava determinada roupa, falava de determinada maneira, frequentava determinado lugar, tinha determinado hábito. O sobretudo é mais memorável do que muitos discursos. O pé-de-granfino é mais saboroso do que um currículo. A Estação é mais concreta do que uma biografia oficial.

Talvez haja uma pequena filosofia escondida naquele doce. O pé-de-granfino era feito em casa. Era levado à rua. Era oferecido. Era vendido. E dependia da aceitação de quem estava do outro lado.

A política também é assim, embora em escala muito maior. O candidato oferece uma proposta. O eleitor decide. Um aceita. Outro rejeita. Outro desconfia. Outro compra a ideia. Outro vai embora.

O vendedor precisa insistir sem exagerar. O político precisa convencer sem parecer desesperado. O vendedor precisa conhecer o freguês. O político precisa conhecer o eleitor. O vendedor precisa voltar amanhã. O político precisa voltar na próxima eleição. Talvez Jorginho tenha aprendido alguma coisa sobre isso na Estação de Herval. Não porque estivesse fazendo política. Mas porque estava aprendendo a lidar com pessoas. E essa é uma das escolas mais difíceis.

A lenda da vaca

Com o passar dos anos, a história da vaca ganhou uma qualidade que todas as boas histórias de família possuem: quanto mais se conta, mais interessante fica.

A cena original é simples. Uma mulher grávida. Uma vaca leiteira. A ordenha. O ataque. O susto. A gestação prejudicada. O nascimento prematuro.

Mas, quando colocada diante do restante da biografia, a história ganha um aspecto quase lendário. A vaca surge como a primeira antagonista. Não é uma adversária política. Não é uma concorrente eleitoral. Não é um deputado de oposição. É uma vaca. E uma vaca não negocia. Não faz acordo de bancada. Não pede reunião. Não apresenta requerimento. Não pede emenda parlamentar. Porém, quando decide avançar, avança.

Talvez seja por isso que a imagem tenha tanta força. O menino ainda nem havia nascido e já estava envolvido em uma crise. E saiu dela. Nasceu. Vingou. Cresceu.

A frase que aparece em relatos sobre sua prematuridade — de que o pai chegou a achar que o menino não vingaria — torna a história ainda mais expressiva. O pai rendeu uma homenagem a um amigo próximo, o Jorjão, colocando seu nome no documento do batismo, mas como Jorginho, de tão miúdo que o filho era.

Porque, olhando para trás, fica impossível não perceber a ironia. O menino vingou. E vingou bastante, como vingou!

Epílogo — O menino ainda está lá

Quando os anos passam, a memória costuma fazer uma coisa curiosa: mistura o passado com o presente. O governador de hoje se encontra, na lembrança, com o rapaz de ontem.

O homem com alguns cabelos grisalhos aparece novamente usando o sobretudo imaginário do adolescente. O senador se encontra com o vendedor de pé-de-granfino. O deputado se encontra com o aluno do Melo e Alvim. O político experiente se encontra com o rapaz que aprendia larfiagem na Estação.

E, no começo de tudo, antes de todos eles, está o pequeno Jorginho, ainda no ventre da mãe, surpreendido por uma vaca que provavelmente jamais suspeitou do tamanho do adversário que tinha diante dos chifres.

A história poderia terminar dizendo que ele venceu a vaca. Mas seria pouco. A verdade é que ele venceu muitas outras coisas chifrudas depois. Venceu o tamanho pequeno com que nasceu. Venceu as incertezas da infância. Venceu as dificuldades do trabalho precoce. Venceu a distância entre uma pequena cidade e os grandes centros de decisão. Venceu a eleição para vereador.

Depois do trabalho no BESC, voltou. Tentou novamente. E venceu. Da Estação de Herval d’Oeste aos corredores da Assembleia Legislativa. Dos corredores da ALESC ao Congresso. Da Câmara dos Deputados ao Senado. Do Senado ao governo de Santa Catarina. Nesse tempo, casou-se e teve dois filhos.

E, olhando tudo de longe, parece quase possível enxergar o caminho inteiro como uma linha contínua. Mas não era. Era feito de pedaços. Um pedaço de Ibicaré. Um pedaço de Herval. Um pedaço de Joaçaba. Um pedaço de escola. Um pedaço de frigorífico. Um pedaço de banco. Um pedaço de política. Um pedaço de família. Um pedaço de acaso.

E, no começo de tudo, um pedaço de medo diante dos chifres de uma vaca. Talvez seja por isso que a história tenha graça e, ao mesmo tempo, alguma ternura. Porque o governador que hoje aparece nos palanques e nas solenidades já foi um garoto que precisava vender doce para ajudar a mãe.

Já foi o rapaz que chegava ao Melo e Alvim com um sobretudo que parecia grande demais para a cidade. Já foi o jovem que disputava as atenções das meninas nas matinês. Já foi o vereador de dezoito anos. E já foi, antes de tudo isso, aquele pequeno ser que resolveu chegar ao mundo aos sete meses, depois que uma vaca decidiu participar da história da família.

No fim, a vaca ficou para trás. O trem passou. A Estação fechou. O colégio mudou. O frigorífico mudou. O BESC desapareceu. Herval d’Oeste cresceu. Joaçaba mudou, tem o Monumento a Frei Bruno. Santa Catarina mudou. E o garoto também. Mas algumas coisas não desaparecem. Ficam na memória. Fica o pé-de-granfino. Fica a larfiagem. Fica o sobretudo. Ficam as matinês. Fica a Estação. Fica o rapazote de Ibicaré que, antes mesmo de conhecer o mundo, já havia enfrentado os chifres de uma vaca.

E fica, sobretudo, a pergunta que o tempo costuma fazer quando transforma um menino em personagem da história: quem haveria de imaginar, naquele tempo, que aquele pequeno Jorginho, chegado ao mundo aos sete meses e quase por encomenda de uma vaca mal-humorada, um dia percorreria o caminho que vai de Ibicaré e Herval d’Oeste até o governo de Santa Catarina?

Talvez ninguém. Nem a família, que o recebeu tão pequeno; nem os colegas do Melo e Alvim; nem as meninas das matinês, que disputavam o rapaz do sobretudo; nem os larfiudos da Estação, que o conheceram vendendo pé-de-granfino. E muito menos a vaca, que naquele dia, sem saber, acabou entrando para a história.

Se soubesse o que vinha pela frente, talvez a vaca tivesse guardado os chifres para outra ocasião. Mas já era tarde. O menino nascera antes da hora, e parece que levou a pressa para a vida inteira.

Depois daquele primeiro susto, Jorginho nunca mais chegou tarde a lugar nenhum. Está sempre com pressa, com muita pressa. Especialmente nestes tempos em que ele tenta a reeleição para governador. Que obtenha sucesso, pois Jorginho merece!


Nenhum comentário:

Postar um comentário