O Padre e o Ateu
Félix Maier
Numa
manhã particularmente ensolarada, daquelas em que até as sombras parecem
preguiçosas, o padre Fábio de Melo atravessou o pátio de um centro cultural
onde fora convidado para participar de uma roda de conversa. O evento
chamava-se Crer ou Não Crer: eis a Questão, título que ele considerou
apropriado, embora um tanto dramático. Shakespeare aprovaria, pensou.
No
saguão, sentado numa prosaica cadeira de madeira com estofado, estava Leandro
Karnal, ajeitando os óculos com uma expressão entre filosófica e levemente
entediada. Ele parecia refletir sobre alguma frase de Montaigne ou, quem sabe,
sobre a quantidade exagerada de açúcar que serviam nos cafés de eventos
públicos.
Quando
viu o padre se aproximar, levantou-se com um sorriso civilizado, sorriso que
dizia: discordarei de você em quase tudo, mas com a mais honrosa polidez.
—
Padre Fábio! — exclamou Karnal. — Que prazer sermos colocados no mesmo palco!
Já aviso que vim preparado para discordar com elegância.
— E
eu vim preparado para exercer a virtude da paciência — respondeu o padre,
apertando-lhe a mão. — Afinal, meu filho, ninguém entra num debate com você sem
antes fazer alongamento espiritual.
Os
dois riram, porque sabiam que o humor era a melhor ponte entre mundos tão
diferentes.
Foram
encaminhados a uma pequena sala onde aguardariam o início do evento. Alguém
lhes trouxe café, e foi aí que a conversa começou, como começam as melhores
conversas humanas: sem planejamento, sem script, sem epistemologia formal.
—
Padre — começou Karnal, mexendo o café com a concentração de quem mede
argumentos —, o senhor acredita mesmo que Deus existe? Existe de verdade? Não
como metáfora literária, ou como conforto psicológico, mas como… entidade?
Fábio
sorriu como quem já ouvira aquela pergunta mais vezes do que ouvira seu próprio
nome.
—
Acredito, meu amigo. Acredito com leveza, não com a ansiedade de quem tenta
provar matematicamente o amor. Crer não é equação, é descanso.
Karnal
apoiou o queixo na mão, teatralmente impressionado.
—
Descanso? Para mim, a fé sempre me pareceu uma inquietação…
— E
ser ateu não lhe é inquietante?
—
Ah, é profundamente inquietante — admitiu o filósofo. — Mas inquietações são
nutritivas. Elas evitam a estagnação.
O
padre tomou um gole de café e inclinou levemente a cabeça.
—
Veja só, o ateu é inquieto porque Deus não existe. O crente é inquieto porque
Deus existe. Devemos ter nascido gêmeos espirituais…
Karnal
riu.
—
Padre, se o senhor virar ateu no final da conversa, eu prometo virar agnóstico
só pra manter o equilíbrio do universo.
A
conversa avançava com naturalidade quando o padre mencionou, quase como quem
comenta o clima:
—
Você conhece a Aposta de Pascal? Ou apenas faz apostas nas Bets?
Karnal
ergueu uma sobrancelha, interessado, com um leve sorriso.
— Claro.
Aquela ideia de que é mais seguro apostar na existência de Deus, porque se Ele
existir, o ser humano ganha tudo, e se não existir, nada perde. Confesso:
parece mais coisa de seguradora do que de teólogo...
Fábio,
rindo com gosto:
— Sim!
Uma teologia com cláusula de garantia! Mas é um raciocínio interessante. Pascal
não pede fé cega, só prudência. Ele diz: Não sabemos se Deus existe. Mas,
diante do desconhecido, é mais racional apostar que sim.
— E
se Deus for daqueles que preferem honestidade intelectual à fé por
conveniência?
— Ora,
Deus é onisciente, Ele saberá distinguir entre o oportunista e o peregrino
sincero. Mas também saberá reconhecer quem, mesmo na dúvida, escolheu a
humildade diante do mistério. Pascal só
queria garantir que, ao fim da vida, não perderia a viagem.
—
Ah, mas aí está! — rebateu Karnal. — Se eu acreditar apenas por medo de estar
errado… estarei acreditando de verdade? Tipo: Ah, você só acreditou pra
garantir o Céu, com medo do Inferno? Que feio!
O
padre ficou pensativo.
—
Talvez a fé não esteja em acreditar, mas em confiar. Um bebê não acredita na
mãe. Ele… confia.
— E
como convencer um ateu a confiar em algo que não vê? — provocou Karnal.
— Do
mesmo modo que você convence alguém a comer tofu mal temperado — disse o padre,
com certo drama. — Prometendo que vale a pena, embora ninguém acredite na
primeira vez.
Ambos
gargalharam, com a cumplicidade de quem sabe que o humor também é método de
diálogo. Ao que o Padre acrescentou:
— Você
não vê a eletricidade, vê? Mas passa a acreditar nela quando leva um choque, né
mesmo? E só vai acreditar na gravidade que ninguém vê quando cair de uma árvore
e se esborrachar no chão.
A
conversa esquentava, e não pelo café, quando o padre comentou:
— Eu
sempre achei fascinante que ateus sejam, no fundo, grandes crentes.
Karnal
quase se engasgou com a própria saliva.
—
Como assim?!
—
Ora, vocês acreditam profundamente que Deus não existe. Não é pouca fé essa. É
uma convicção em algo que não pode ser provado.
Karnal
piscou, surpreso com a lógica invertida.
—
Então o senhor está dizendo que eu sou um homem religioso… só que ao contrário?
—
Exatamente! Você é como uma estrofe invertida. Uma quadra com versos em ordem
contrária.
—
Sinto-me provocado — disse o filósofo, fingindo estupefação. — Eu nego Deus com
a mesma firmeza com que você O afirma. Somos, portanto, dois crentes teimosos.
O
padre apontou o dedo para ele:
—
Viu só? Concordamos!
— Eu
não disse que concordava — protestou Karnal.
—
Mas disse somos. Isso inclui nós dois.
Karnal
suspirou, derrotado pela gramática e pela ensinança escatológica cruzada do
padre.
Quando
o mediador veio chamá-los para o palco, eles já estavam concluindo que a
conversa deveria ter sido transmitida ao vivo. O padre disse:
—
Você me ensina dúvidas, Karnal.
— E
o senhor me ensina esperanças — respondeu o filósofo.
O
padre sorriu, satisfeito.
—
Estamos empatados, então.
—
Empatados não — corrigiu Karnal. — O senhor sempre ganha um pouco mais. O
crente tem vantagem: aposta na eternidade. O ateu aposta na lucidez. No fim, um
dos dois ficará muito surpreso.
— E
espero que seja você — respondeu o padre, piscando o olho.
— Eu
também — admitiu Karnal, com um sorriso maroto. — Seria ótimo descobrir que
errei para cima, não para baixo...
No
palco, diante do público, eles retomaram algumas das ideias da conversa
privada, mas ambos sentiram que o melhor da tarde já estava guardado entre eles:
naquele café, naquela cadeira singela, naquela brincadeira amistosa entre fé e
razão.
O
evento terminou com aplausos calorosos, e, quando todos se dispersaram, os dois
caminharam lado a lado até a saída.
—
Padre — disse Karnal, parando na calçada —, no fundo, acho que só existe uma
pergunta realmente importante.
—
Qual seria?
— O
que fazemos com o mistério?
O
padre sorriu, como quem contempla algo luminoso.
—
Acolhemos. Questionamos. E seguimos. Porque a fé é uma forma de perguntar, e o
ateísmo também.
Karnal
assentiu.
—
Então estamos, de algum modo, no mesmo barco.
—
Sim — respondeu o padre. — Você remando para ver onde o mar nos leva. Eu
remando para encontrar quem fez o mar.
— E
se ninguém tiver feito o mar?
O
padre olhou para ele com ternura.
—
Então remaremos juntos, meu amigo.
Caminharam
alguns metros em silêncio. Até que o padre comentou:
— Se
tiver alguém esperando do outro lado… vou apresentar você pessoalmente a Ele.
Karnal
deu uma gargalhada.
—
Pois trate de caprichar na apresentação. Não quero fazer feio diante de uma
entidade que passei a vida inteira negando.
—
Fique tranquilo — disse o padre. — Ele adora gente sincera.
E
assim seguiram, cada um carregando suas crenças, descrenças, dúvidas e humor,
provando, sem pretensão alguma, que a verdadeira ponte entre mundos distintos
não é a certeza, mas o respeito.
P. S.:
Crônica retirada de CONTOS RISONHOS - ENTRE RISOS E SONHOS (E ALGUNS PESADELOS) - https://felixmaier1950.blogspot.com/2025/12/contos-risonhos-entre-risos-e-sonhos-e.html

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