MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

A chave mestra - Por Félix Maier

 

A Chave Mestra

Félix Maier

Tripé não nasceu Tripé. Ninguém nasce Tripé; a gente vira. O apelido, como todo apelido que presta, veio depois de um acidente sem vítimas, mas com testemunhas suficientes para atravessar gerações. Há versões. A mais aceita é a de que Tripé, além de uma estabilidade emocional invejável (para os padrões de quem troca de casa como quem troca de canal), era dono de um certo membro avantajado — vantagem essa que, dizem, lhe dava equilíbrio extra, como as pernas suplementares de um equipamento profissional. Daí o Tripé. O nome pegou, como chiclete em sapato novo.

Tripé era casado. Casado mesmo, com certidão, fotos amareladas e sogra de opinião formada. Mas Tripé também era, digamos, logisticamente ambicioso. Tinha uma chave mestra. Não no sentido metafórico — embora também —, mas literal: uma chave que abria quatro portas. A sua casa, a casa oficial, a matriz. E mais três casas de suas amantes fixas, filiais cuidadosamente administradas, cada uma com seu “ninho” preparado com zelo de gerente de hotelaria.

Tripé não era um qualquer. Era um profissional. Qual paxá islâmico, tratava as quatro com rigorosa igualdade, como manda a lei — a lei dele, claro. Em todas as casas, havia um só tipo de sabonete, sempre o mesmo, neutro, sem perfume acusatório. Um só tipo de perfume masculino, comprado em lote, para não variar a nota de cabeça e levantar suspeitas nas notas de rodapé. As mesmas toalhas de banho, brancas, felpudas, compradas no mesmo dia, na mesma loja Havan, para envelhecerem juntas. E, sobre a mesa da sala, os mesmos bombons Sonho de Valsa, estrategicamente dispostos, como quem diz: aqui também se sonha, mas sem exageros.

Tripé acreditava que o segredo da bigamia — e da tetragamia — era a padronização. Onde há padrão, há silêncio. Onde há silêncio, há paz. Sua vida ia firme como tripé de câmera fotográfica e de cinema: estável, com três pernas bem plantadas no chão. Era o orgulho do bairro, embora o bairro não soubesse exatamente do quê.

Ele tinha um cronograma. Segunda e quinta, matriz. Terça, filial A. Quarta, filial B. Sexta, filial C. Sábado era território neutro, reservado para churrascos familiares, jogos de futebol e cochilos estratégicos. Domingo, dependendo da rodada do campeonato e do humor da matriz, podia ser folga ou plantão extraordinário num outro ninho.

Tudo ia às mil maravilhas até o dia em que uma das passarinhas — chamemos de Beatriz, porque Beatriz sempre foi nome de mulher que faz poesia com pequenas maldades — resolveu inovar. Não por vingança declarada, não por desconfiança comprovada. Por intuição. E intuição, como se sabe, não pede provas; pede palco.

Beatriz colocou um lenço perfumado no paletó de Tripé. Um lenço discreto, elegante, com um perfume que não constava no manual de padronização do nosso herói. Não era um perfume qualquer: era um perfume com memória. Desses que entram no elevador antes da pessoa e ficam esperando o comentário.

Tripé não percebeu. Tripé raramente percebia. Sua confiança no sistema era tão grande que ele acreditava que o sistema se autorregulava. Vestiu o paletó, beijou Beatriz no rosto (gesto protocolar) e foi para casa da matriz, assobiando uma música antiga, dessas que não denunciam nada.

Na sala, a esposa — chamemos de Matilde, porque Matilde sempre sabe mais do que aparenta — sentiu o cheiro antes de vê-lo. O olfato feminino, esse radar de curto alcance e longo alcance ao mesmo tempo, captou a intrusa. Matilde não disse nada. Apenas esperou o jantar, o telejornal, o café. Depois, no momento exato em que Tripé se sentou para ler o Estadão — sim, Tripé é das antigas, jornal só no papel , Matilde perguntou, com a voz de quem pergunta o horário:

— Que perfume é esse?

Tripé travou. Não muito. Apenas o suficiente para derrubar uma perna do tripé imaginário. Disse qualquer coisa. Uma coisa genérica. Uma coisa que não ofende ninguém e não explica nada.

— Perfume novo da loja.

Matilde sorriu. O sorriso que não chega aos olhos. O sorriso que pede CPF na nota fiscal.

— Curioso — disse ela. — Porque não é o seu perfume.

Silêncio. O jornal caiu no chão, como caem as folhas nos romances russos quando alguém morre.

Matilde, coitada, quis saber quem era a filial. Mal sabia ela que havia uma rede de filiais, com tendência de expansão e talvez até franquias. Tripé, pressionado, tentou a estratégia do desvio: falou de trabalho, do trânsito, do preço da carne. Não funcionou. Matilde era do tipo que não se distrai com fumaça; ela quer ver o incêndio.

— Tem outra mulher? — perguntou, direto, sem rodeios, como quem pergunta se vai chover.

Tripé hesitou. E hesitar, nesses casos, é confessar em capítulos.

— Tem.

Matilde respirou fundo. Uma só? Era o que ela queria saber. Uma, dava para lidar. Uma é erro humano. Uma é crise passageira. Uma é terapia de casal. Tripé, então, resolveu ser honesto — honestidade seletiva, claro.

— Não exatamente uma.

Foi aí que Tripé desabou de vez.

O que Tripé não contava — e esse foi o erro fatal, o detalhe que nenhum manual prevê — é que Matilde também tinha uma chave mestra. Não de portas, mas de informações. Matilde era síndica do prédio onde ficava uma das filiais. Era voluntária na igreja frequentada por outra. E fazia pilates com a terceira. O mundo é pequeno quando se frequenta os mesmos salões de beleza.

Em menos de uma semana, as quatro mulheres estavam sentadas na mesma sala. A sala da matriz. As toalhas eram as mesmas. Os bombons, os mesmos. O sabonete, o mesmo. O perfume masculino, ironicamente, também.

Tripé, convocado, sentou-se diante delas como um aluno diante da banca examinadora. Esperava gritos, tapas, lágrimas, talvez um objeto voador não identificado. Não veio nada disso. Veio silêncio. E silêncio, como se sabe, é o mais perigoso dos barulhos.

Matilde falou primeiro.

— Ele nos tratou igual.

As outras concordaram, meio contrariadas. Não era exatamente um elogio, mas também não era uma acusação clássica. Era uma constatação administrativa.

— Sempre os mesmos bombons Sonho de Valsa — disse Beatriz.

— As mesmas toalhas da Havan — disse a segunda.

— O mesmo perfume do Boticário — completou a terceira, com certo nojo.

Houve uma pausa. E então veio o inesperado. O final que Tripé jamais imaginaria, nem nos seus delírios mais otimistas.

— A gente podia — disse Matilde, pensativa — fazer melhor uso dessa logística toda.

Tripé arregalou os olhos. Não entendeu.

— Como assim? — perguntou o sardão, com a voz de quem pede legenda para as passarinhas.

As quatro se entreolharam. Sorriram. Um sorriso de consórcio aprovado.

— Você sai — disse Matilde. — A chave fica.

E ficou.

Tripé foi dispensado com uma mala pequena, contendo o essencial e nada do que importava. As quatro mulheres, agora sócias, decidiram manter as casas, os padrões, os bombons. Transformaram os ninhos em um negócio. Um pequeno hotel urbano, discreto, elegante, com atendimento impecável e zero tolerância a lenços perfumados fora do protocolo.

Chamaram o lugar de A Chave Mestra.

Tripé, hoje, mora sozinho. Anda por aí contando histórias que ninguém acredita. Diz que perdeu tudo por causa de um lenço. Não percebeu que, na verdade, perdeu a chave mestra.


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