A Chave Mestra
Félix
Maier
Tripé
não nasceu Tripé. Ninguém nasce Tripé; a gente vira. O apelido, como todo
apelido que presta, veio depois de um acidente sem vítimas, mas com testemunhas
suficientes para atravessar gerações. Há versões. A mais aceita é a de que
Tripé, além de uma estabilidade emocional invejável (para os padrões de quem
troca de casa como quem troca de canal), era dono de um certo membro avantajado
— vantagem essa que, dizem, lhe dava equilíbrio extra, como as pernas
suplementares de um equipamento profissional. Daí o Tripé. O nome pegou, como
chiclete em sapato novo.
Tripé
era casado. Casado mesmo, com certidão, fotos amareladas e sogra de opinião
formada. Mas Tripé também era, digamos, logisticamente ambicioso. Tinha
uma chave mestra. Não no sentido metafórico — embora também —, mas literal: uma
chave que abria quatro portas. A sua casa, a casa oficial, a matriz. E mais
três casas de suas amantes fixas, filiais cuidadosamente administradas, cada
uma com seu “ninho” preparado com zelo de gerente de hotelaria.
Tripé
não era um qualquer. Era um profissional. Qual paxá islâmico, tratava as quatro
com rigorosa igualdade, como manda a lei — a lei dele, claro. Em todas as
casas, havia um só tipo de sabonete, sempre o mesmo, neutro, sem perfume
acusatório. Um só tipo de perfume masculino, comprado em lote, para não variar
a nota de cabeça e levantar suspeitas nas notas de rodapé. As mesmas toalhas de
banho, brancas, felpudas, compradas no mesmo dia, na mesma loja Havan, para
envelhecerem juntas. E, sobre a mesa da sala, os mesmos bombons Sonho de Valsa,
estrategicamente dispostos, como quem diz: aqui também se sonha, mas sem
exageros.
Tripé
acreditava que o segredo da bigamia — e da tetragamia — era a padronização.
Onde há padrão, há silêncio. Onde há silêncio, há paz. Sua vida ia firme como tripé
de câmera fotográfica e de cinema: estável, com três pernas bem plantadas no
chão. Era o orgulho do bairro, embora o bairro não soubesse exatamente do quê.
Ele
tinha um cronograma. Segunda e quinta, matriz. Terça, filial A. Quarta, filial
B. Sexta, filial C. Sábado era território neutro, reservado para churrascos
familiares, jogos de futebol e cochilos estratégicos. Domingo, dependendo da
rodada do campeonato e do humor da matriz, podia ser folga ou plantão
extraordinário num outro ninho.
Tudo
ia às mil maravilhas até o dia em que uma das passarinhas — chamemos de
Beatriz, porque Beatriz sempre foi nome de mulher que faz poesia com pequenas
maldades — resolveu inovar. Não por vingança declarada, não por desconfiança
comprovada. Por intuição. E intuição, como se sabe, não pede provas; pede
palco.
Beatriz
colocou um lenço perfumado no paletó de Tripé. Um lenço discreto, elegante, com
um perfume que não constava no manual de padronização do nosso herói. Não era
um perfume qualquer: era um perfume com memória. Desses que entram no elevador
antes da pessoa e ficam esperando o comentário.
Tripé
não percebeu. Tripé raramente percebia. Sua confiança no sistema era tão grande
que ele acreditava que o sistema se autorregulava. Vestiu o paletó, beijou
Beatriz no rosto (gesto protocolar) e foi para casa da matriz, assobiando uma
música antiga, dessas que não denunciam nada.
Na sala, a esposa — chamemos de Matilde, porque Matilde sempre sabe mais do que aparenta — sentiu o cheiro antes de vê-lo. O olfato feminino, esse radar de curto alcance e longo alcance ao mesmo tempo, captou a intrusa. Matilde não disse nada. Apenas esperou o jantar, o telejornal, o café. Depois, no momento exato em que Tripé se sentou para ler o Estadão — sim, Tripé é das antigas, jornal só no papel —, Matilde perguntou, com a voz de quem pergunta o horário:
—
Que perfume é esse?
Tripé
travou. Não muito. Apenas o suficiente para derrubar uma perna do tripé
imaginário. Disse qualquer coisa. Uma coisa genérica. Uma coisa que não ofende
ninguém e não explica nada.
—
Perfume novo da loja.
Matilde
sorriu. O sorriso que não chega aos olhos. O sorriso que pede CPF na nota
fiscal.
—
Curioso — disse ela. — Porque não é o seu perfume.
Silêncio.
O jornal caiu no chão, como caem as folhas nos romances russos quando alguém
morre.
Matilde,
coitada, quis saber quem era a filial. Mal sabia ela que havia uma rede de
filiais, com tendência de expansão e talvez até franquias. Tripé, pressionado,
tentou a estratégia do desvio: falou de trabalho, do trânsito, do preço da
carne. Não funcionou. Matilde era do tipo que não se distrai com fumaça; ela
quer ver o incêndio.
—
Tem outra mulher? — perguntou, direto, sem rodeios, como quem pergunta se vai
chover.
Tripé
hesitou. E hesitar, nesses casos, é confessar em capítulos.
—
Tem.
Matilde
respirou fundo. Uma só? Era o que ela queria saber. Uma, dava para lidar. Uma é
erro humano. Uma é crise passageira. Uma é terapia de casal. Tripé, então,
resolveu ser honesto — honestidade seletiva, claro.
—
Não exatamente uma.
Foi
aí que Tripé desabou de vez.
O
que Tripé não contava — e esse foi o erro fatal, o detalhe que nenhum manual
prevê — é que Matilde também tinha uma chave mestra. Não de portas, mas de
informações. Matilde era síndica do prédio onde ficava uma das filiais. Era
voluntária na igreja frequentada por outra. E fazia pilates com a terceira. O
mundo é pequeno quando se frequenta os mesmos salões de beleza.
Em
menos de uma semana, as quatro mulheres estavam sentadas na mesma sala. A sala
da matriz. As toalhas eram as mesmas. Os bombons, os mesmos. O sabonete, o
mesmo. O perfume masculino, ironicamente, também.
Tripé,
convocado, sentou-se diante delas como um aluno diante da banca examinadora.
Esperava gritos, tapas, lágrimas, talvez um objeto voador não identificado. Não
veio nada disso. Veio silêncio. E silêncio, como se sabe, é o mais perigoso dos
barulhos.
Matilde
falou primeiro.
—
Ele nos tratou igual.
As
outras concordaram, meio contrariadas. Não era exatamente um elogio, mas também
não era uma acusação clássica. Era uma constatação administrativa.
—
Sempre os mesmos bombons Sonho de Valsa — disse Beatriz.
— As
mesmas toalhas da Havan — disse a segunda.
— O
mesmo perfume do Boticário — completou a terceira, com certo nojo.
Houve
uma pausa. E então veio o inesperado. O final que Tripé jamais imaginaria, nem
nos seus delírios mais otimistas.
— A
gente podia — disse Matilde, pensativa — fazer melhor uso dessa logística toda.
Tripé
arregalou os olhos. Não entendeu.
—
Como assim? — perguntou o sardão, com a voz de quem pede legenda para as
passarinhas.
As
quatro se entreolharam. Sorriram. Um sorriso de consórcio aprovado.
—
Você sai — disse Matilde. — A chave fica.
E
ficou.
Tripé
foi dispensado com uma mala pequena, contendo o essencial e nada do que
importava. As quatro mulheres, agora sócias, decidiram manter as casas, os
padrões, os bombons. Transformaram os ninhos em um negócio. Um pequeno hotel
urbano, discreto, elegante, com atendimento impecável e zero tolerância a
lenços perfumados fora do protocolo.
Chamaram
o lugar de A Chave Mestra.
Tripé,
hoje, mora sozinho. Anda por aí contando histórias que ninguém acredita. Diz
que perdeu tudo por causa de um lenço. Não percebeu que, na verdade, perdeu a
chave mestra.

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