MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

2 de julho: A manifestação roubada - Por Félix Maier

 

2 de julho:

A manifestação roubada

 Félix Maier

A campanha do Ogro de Nove Dedos para presidente, naquele ano de 2022, estava tão ansiosa por multidões quanto criança por algodão doce. Faltava apenas o doce e, em alguns casos, a criança.

Por sorte (ou oportunismo, dependendo do observador), havia em Salvador o tradicional desfile do 2 de Julho, celebração da expulsão definitiva dos lusos em 1823, festa tão consolidada na cidade quanto a maresia, o bolinho de estudante, o acarajé e a punheta de bacalhau.

Os Asseclas — a equipe de marqueteiros do Ogro — tiveram a brilhante ideia de enfiar o candidato, clandestinamente, naquela multidão, de modo a sugerir que ele era o motivo da festa. Durante a marcha cívica, o Ogro olhou para aquele mar humano e, enquanto dava uma lapada na batida de umbu com cachaça, lhe veio a epifania: O povo me ama! Era apenas o povo celebrando sua própria história, mas detalhes nunca foram obstáculos para quem vive de narrativas.

Os Asseclas, oxente! vibravam com qualquer aglomeração que pudesse ser convertida em capital político. A foto do 2 de Julho em Salvador caiu no colo deles como um presente dos deuses do marketing.

Reunidos em seu bunker refrigerado, que fica no porão do Palácio do Planalto, onde criam fake news contra os adversários políticos enquanto comem pão com mortadela, os Asseclas analisam a foto do desfile da Independência Baiana. Gente de todo tipo: crianças felizes, idosos cansados, vendedores ambulantes, turistas confusos, foliões acalorados. Para qualquer pessoa razoável, era a celebração anual da Bahia. Para os Asseclas, era prova incontestável de que o magnetismo político de seu chefe alterava o fluxo gravitacional das massas.

Está boa a foto, mas podia ter mais gente, decretou o Assecla-Chefe, com a frieza de quem não briga com a realidade, apenas a edita. O motoboy Tiquinho, a consciência remanescente do grupo, tentou murmurar algo sobre honestidade visual, mas foi abafado por cliques, colagens e duplicações.

Começou o milagre. Não o da fé, mas o do Photoshop. Clonaram o sujeito de camisa verde e o transformaram em dois, depois em quatro, cinco, sete. Um sujeito alto, com o turbante típico dos Filhos de Gandhy, tinha o poder da bilocação, da trilocação. Uma baiana típica, com saia rodada, torço, guias e balangandãs, tornou-se uma matrioska humana, multiplicada por nove. Um rapaz olhando o celular estava em todos os cantos. Os Asseclas trabalhavam com fervor quase religioso, como monges copistas da Idade Média, exceto que, em vez de preservar textos sagrados, fabricavam devotos imaginários.

Quando mostraram a imagem ao Ogro, ele abriu um sorriso tão largo que parecia disposto a engolir o Pelourinho de uma vez.

Olha isso! O povo vem atrás de mim! declarou ele, com a convicção de quem jamais deixou a realidade atrapalhar a própria fé. Tecnicamente, eles não estão vindo atrás do senhor… tentou explicar Tiquinho, um rapaz mais chato que a Heloisa Helena. Mas o Ogro o ignorou com elegância autoritária. A imagem servia ao propósito. Logo, a imagem era verdadeira. Simples assim.

No dia seguinte, as redes sociais foram inundadas pela obra-prima: CARAVANA HISTÓRICA DO LÍDER ARRASTA MULTIDÃO EM SALVADOR! A postagem jorrou curtidas, corações, exclamações, até que a população começou a notar detalhes peculiares.

Ué, eu apareci quatro vezes, disse um. Minha prima apareceu duas vezes, disse outro. Eu estou ali… e ali… e ali… e ali de novo! espantou-se um terceiro, que passou a suspeitar que possuía irmãos gêmeos secretos, como uma família de matriuskas russas, ou então que tinha virado NPC — Personagem Não Jogável, de jogo mal programado.

Mas nada disso abalou o Ogro, que já tinha decorado o discurso: O povo sempre me acompanhou. Sempre me segue. Sempre soube. Eles me comemoram até quando não sabem, respondeu ele, num misto de misticismo e autoindulgência.

Petra Costa, a cineasta em busca de um novo script, que havia sido indicada ao Oscar por Democracia em Vertigem, arriscou dizer em sua passagem por Nova York: Que momento histórico do nosso Líder, mais fantástico que desfile na Sapucaí, sem notar que o país inteiro já percebia exatamente o contrário, e que a única vertigem ali era a dela, tentando encaixar a realidade num roteiro que ninguém mais acreditava.

Petra concluiu mais um documentário, Apocalipse nos Trópicos, tentando emplacar um terceiro prêmio no Festival de Cinema de Cuba e, quem sabe, passar as mãos num Oscar. Trata-se de um filme que mostra o avanço dos evangélicos no Brasil, levantando uma questão realmente apocalíptica: onde termina a democracia e começa uma teocracia?

Os Asseclas, percebendo a chuva de memes, convocaram uma reunião emergencial. Climatizaram a sala no porão do Palácio do Planalto até parecer um iglu emocional. Alguém sugeriu apagar a foto. Outro quis reforçar com mais clones: já que é para inventar, inventa direito!

O Ogro bateu na mesa e ordenou: Nada de apagar! Diz que é montagem dos adversários! no que Tiquinho, mais cândido que seminarista em puteiro, sussurrou: Mas… a montagem é nossa. O Ogro retrucou: Esse detalhe atrapalha quem? E, como sempre, detalhe atrapalha apenas quem presta atenção.

Os Asseclas continuaram defendendo a autenticidade da cena com a tranquilidade de quem acredita que, repetindo o suficiente, o absurdo ganha solidez — mas sem citar Joseph Goebbels. E, de fato, ganhou, ao menos entre aqueles que acham que questionar é perda de tempo e que pensar é atividade subversiva.

Meses depois, o povo já tinha superado o episódio, substituído por outras distrações mais frescas. A foto, no entanto, virou relíquia na sede da campanha petralha. Foi impressa em tamanho mural, com uma frase em letras garrafais: A MULTIDÃO É REAL PARA QUEM PRECISA DELA. Era o tipo de sabedoria que faz qualquer assessor de comunicação suspirar de orgulho e qualquer filósofo se jogar numa fogueira.

Tiquinho pediu demissão do trabalho de motoboy, especialmente levando Arguição de Descumprimento de Preceito Constitucional (ADPF) do PT e seus genéricos ao STF, num total de 411, para azucrinar a vida do Presidente Jair Messias Bolsonaro em seus 4 anos de bullying, e abriu uma barraca de água de coco. Hoje vive tranquilo, multiplicando apenas o número de canudinhos ecológicos.

Os Asseclas continuam por aí, tão produtivos quanto coelhos, ocupando cargos DAS com a pureza de quem nunca errou, em quarenta ministérios, porque, quando erram, dizem que é sacanagem da oposição, que é culpa do Bolsonaro.

O Ogro? Continua acreditando piamente que o povo o carregou nos braços naquele 2 de Julho. Às vezes, observa a foto com os olhos úmidos e comenta com nostalgia: Que dia lindo. Que mar humano. Que devoção espontânea. E todos ao seu redor concordam, porque contradizê-lo exige coragem, e coragem de bajuladores não se multiplica tão facilmente quanto figuras humanas.

Certo dia, mais inspirado que o usual, o Ogro murmurou: Um dia ainda lotarei as ruas… sem precisar copiar ninguém. Os Asseclas sorriram com devoção canina. Claro, chefe. Claro.

Mas lá no fundo, bem no fundo, torciam para que o Photoshop nunca deixasse de existir. Afinal, 2026 espia pela fresta do calendário, e o 2 de Julho, aquele velho palco de promessas recicladas, já afinava os tambores para mais uma entrada triunfal do Ogro, candidato a voltar à cena do crime pela quarta vez, como quem volta à padaria preferida.

O Assecla-Chefe estava pensando em utilizar a IA nas mídias do próximo ano, de modo a triplicar a manifestação soteropolitana, inclusive com alguns convidados ilustres virtuais, como Xi Jinping, Nicolás Maduro e líderes africanos e do Hamas, para aumentar o nível político da solenidade. Emmanuel Macron foi descartado pelo Ogro, por ter sido muito saliente com sua jovem esposa em várias ocasiões.

Porque, no íntimo mais abafado da malandragem, os Asseclas sabiam que só com uma avalanche de pixels patrióticos — hologramas de celebridades internacionais, militantes fabricados em série e uma claque digital obediente — o Ogro poderia enfim fingir que lotava as ruas que, na vida real, continuavam teimosamente vazias.


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