2
de julho:
A
manifestação roubada
A campanha do Ogro de Nove Dedos para presidente, naquele ano de 2022, estava tão ansiosa por multidões quanto criança por algodão doce. Faltava apenas o doce e, em alguns casos, a criança.
Por
sorte (ou oportunismo, dependendo do observador), havia em Salvador o
tradicional desfile do 2 de Julho, celebração da expulsão definitiva dos lusos
em 1823, festa tão consolidada na cidade quanto a maresia, o bolinho de
estudante, o acarajé e a punheta de bacalhau.
Os
Asseclas — a equipe de marqueteiros do Ogro — tiveram a brilhante ideia de
enfiar o candidato, clandestinamente, naquela multidão, de modo a sugerir que
ele era o motivo da festa. Durante a marcha cívica, o Ogro olhou para aquele
mar humano e, enquanto dava uma lapada na batida de umbu com cachaça, lhe veio
a epifania: O povo me ama! Era apenas o povo celebrando sua própria
história, mas detalhes nunca foram obstáculos para quem vive de narrativas.
Os
Asseclas, oxente! vibravam com qualquer aglomeração que pudesse ser
convertida em capital político. A foto do 2 de Julho em Salvador caiu no colo
deles como um presente dos deuses do marketing.
Reunidos
em seu bunker refrigerado, que fica no porão do Palácio do Planalto, onde criam
fake news contra os adversários políticos enquanto comem pão com
mortadela, os Asseclas analisam a foto do desfile da Independência Baiana.
Gente de todo tipo: crianças felizes, idosos cansados, vendedores ambulantes,
turistas confusos, foliões acalorados. Para qualquer pessoa razoável, era a
celebração anual da Bahia. Para os Asseclas, era prova incontestável de que o magnetismo
político de seu chefe alterava o fluxo gravitacional das massas.
Está
boa a foto, mas podia ter mais gente, decretou o Assecla-Chefe,
com a frieza de quem não briga com a realidade, apenas a edita. O motoboy
Tiquinho, a consciência remanescente do grupo, tentou murmurar algo sobre
honestidade visual, mas foi abafado por cliques, colagens e duplicações.
Começou
o milagre. Não o da fé, mas o do Photoshop. Clonaram o sujeito de camisa verde
e o transformaram em dois, depois em quatro, cinco, sete. Um sujeito alto, com o
turbante típico dos Filhos de Gandhy, tinha o poder da bilocação, da trilocação.
Uma baiana típica, com saia rodada, torço, guias e balangandãs, tornou-se uma
matrioska humana, multiplicada por nove. Um rapaz olhando o celular estava em
todos os cantos. Os Asseclas trabalhavam com fervor quase religioso, como
monges copistas da Idade Média, exceto que, em vez de preservar textos
sagrados, fabricavam devotos imaginários.
Quando
mostraram a imagem ao Ogro, ele abriu um sorriso tão largo que parecia disposto
a engolir o Pelourinho de uma vez.
Olha
isso! O povo vem atrás de mim! declarou ele, com a
convicção de quem jamais deixou a realidade atrapalhar a própria fé. Tecnicamente,
eles não estão vindo atrás do senhor… tentou explicar Tiquinho, um rapaz mais
chato que a Heloisa Helena. Mas o Ogro o ignorou com elegância autoritária. A
imagem servia ao propósito. Logo, a imagem era verdadeira. Simples assim.
No
dia seguinte, as redes sociais foram inundadas pela obra-prima: CARAVANA
HISTÓRICA DO LÍDER ARRASTA MULTIDÃO EM SALVADOR! A postagem jorrou
curtidas, corações, exclamações, até que a população começou a notar detalhes
peculiares.
Ué,
eu apareci quatro vezes, disse um. Minha prima apareceu duas
vezes, disse outro. Eu estou ali… e ali… e ali… e ali de novo!
espantou-se um terceiro, que passou a suspeitar que possuía irmãos gêmeos
secretos, como uma família de matriuskas russas, ou então que tinha virado NPC —
Personagem Não Jogável, de jogo mal programado.
Mas
nada disso abalou o Ogro, que já tinha decorado o discurso: O povo sempre me
acompanhou. Sempre me segue. Sempre soube. Eles me comemoram até quando não
sabem, respondeu ele, num misto de misticismo e autoindulgência.
Petra
Costa, a cineasta em busca de um novo script, que havia sido indicada ao Oscar
por Democracia em Vertigem, arriscou dizer em sua passagem por Nova York:
Que momento histórico do nosso Líder, mais fantástico que desfile na Sapucaí,
sem notar que o país inteiro já percebia exatamente o contrário, e que a única
vertigem ali era a dela, tentando encaixar a realidade num roteiro que ninguém
mais acreditava.
Petra
concluiu mais um documentário, Apocalipse nos Trópicos, tentando
emplacar um terceiro prêmio no Festival de Cinema de Cuba e, quem sabe, passar
as mãos num Oscar. Trata-se de um filme que mostra o avanço dos evangélicos no
Brasil, levantando uma questão realmente apocalíptica: onde termina a
democracia e começa uma teocracia?
Os
Asseclas, percebendo a chuva de memes, convocaram uma reunião emergencial.
Climatizaram a sala no porão do Palácio do Planalto até parecer um iglu
emocional. Alguém sugeriu apagar a foto. Outro quis reforçar com mais clones:
já que é para inventar, inventa direito!
O
Ogro bateu na mesa e ordenou: Nada de apagar! Diz que é montagem dos
adversários! no que Tiquinho, mais cândido que seminarista em puteiro,
sussurrou: Mas… a montagem é nossa. O Ogro retrucou: Esse detalhe
atrapalha quem? E, como sempre, detalhe atrapalha apenas quem presta
atenção.
Os
Asseclas continuaram defendendo a autenticidade da cena com a tranquilidade de
quem acredita que, repetindo o suficiente, o absurdo ganha solidez — mas sem
citar Joseph Goebbels. E, de fato, ganhou, ao menos entre aqueles que acham que
questionar é perda de tempo e que pensar é atividade subversiva.
Meses
depois, o povo já tinha superado o episódio, substituído por outras distrações
mais frescas. A foto, no entanto, virou relíquia na sede da campanha petralha.
Foi impressa em tamanho mural, com uma frase em letras garrafais: A MULTIDÃO
É REAL PARA QUEM PRECISA DELA. Era o tipo de sabedoria que faz qualquer
assessor de comunicação suspirar de orgulho e qualquer filósofo se jogar numa
fogueira.
Tiquinho
pediu demissão do trabalho de motoboy, especialmente levando Arguição de
Descumprimento de Preceito Constitucional (ADPF) do PT e seus genéricos ao STF,
num total de 411, para azucrinar a vida do Presidente Jair Messias Bolsonaro em
seus 4 anos de bullying, e abriu uma barraca de água de coco. Hoje vive
tranquilo, multiplicando apenas o número de canudinhos ecológicos.
Os
Asseclas continuam por aí, tão produtivos quanto coelhos, ocupando cargos DAS
com a pureza de quem nunca errou, em quarenta ministérios, porque, quando
erram, dizem que é sacanagem da oposição, que é culpa do Bolsonaro.
O
Ogro? Continua acreditando piamente que o povo o carregou nos braços naquele 2
de Julho. Às vezes, observa a foto com os olhos úmidos e comenta com nostalgia:
Que dia lindo. Que mar humano. Que devoção espontânea. E todos ao seu
redor concordam, porque contradizê-lo exige coragem, e coragem de bajuladores
não se multiplica tão facilmente quanto figuras humanas.
Certo
dia, mais inspirado que o usual, o Ogro murmurou: Um dia ainda lotarei as
ruas… sem precisar copiar ninguém. Os Asseclas sorriram com devoção canina.
Claro, chefe. Claro.
Mas
lá no fundo, bem no fundo, torciam para que o Photoshop nunca deixasse de
existir. Afinal, 2026 espia pela fresta do calendário, e o 2 de Julho, aquele
velho palco de promessas recicladas, já afinava os tambores para mais uma
entrada triunfal do Ogro, candidato a voltar à cena do crime pela quarta
vez, como quem volta à padaria preferida.
O
Assecla-Chefe estava pensando em utilizar a IA nas mídias do próximo ano, de
modo a triplicar a manifestação soteropolitana, inclusive com alguns convidados
ilustres virtuais, como Xi Jinping, Nicolás Maduro e líderes africanos e do
Hamas, para aumentar o nível político da solenidade. Emmanuel Macron foi
descartado pelo Ogro, por ter sido muito saliente com sua jovem esposa em
várias ocasiões.
Porque,
no íntimo mais abafado da malandragem, os Asseclas sabiam que só com uma
avalanche de pixels patrióticos — hologramas de celebridades internacionais,
militantes fabricados em série e uma claque digital obediente — o Ogro poderia
enfim fingir que lotava as ruas que, na vida real, continuavam teimosamente
vazias.

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