MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

A saga dos presentes masculinos - Por Félix Maier

 


A SAGA DOS PRESENTES MASCULINO
S

Félix Maier

Houve um tempo — dizem os mais antigos, aqueles que ainda chamam ônibus de coletivo e trem de comboio — em que sair à rua era quase um ato solene. O homem não atravessava a esquina sem um terno bem passado, gravata firmemente apertada no colarinho e chapéu na cabeça, mesmo que o sol do Rio de Janeiro estivesse empenhado em derreter até pensamento filosófico. Quarenta graus à sombra e lá ia o cidadão, digno como um diplomata europeu em missão tropical, suando por dentro e sorrindo por fora.

As mulheres, por sua vez, desfilavam com vestidos coloridos e esvoaçantes, chapéus igualmente vistosos, parecendo carregar a primavera inteira sobre a cabeça. Era um mundo onde até o calor se respeitava: fazia-se sauna, mas com elegância.

Nesse contexto civilizado, os presentes de aniversário acompanhavam o figurino. Homem ganhava chapéu. Ou gravata, de preferência aquelas largas, linguarudas, capazes de disputar espaço com a barriga nas fotografias de família. Quando o presenteador se sentia especialmente ousado, vinha também um lenço. Não era qualquer lenço: era o lenço social, dobrado com esmero, destinado tanto a ocasiões de emoção quanto a emergências nasais. Servia para enxugar lágrimas, suor e, sobretudo, catar o catarro com discrição, antes de devolvê-lo ao bolso interno do paletó, onde repousava como um segredo de Estado.

O homem agradecia. Sempre agradecia. Ainda que já tivesse dezessete gravatas idênticas e chapéus suficientes para abrir uma chapelaria, ele sorria, apertava a mão do doador e dizia: Era exatamente o que eu precisava. E, de certo modo, era mesmo: precisava manter viva a tradição de fingir surpresa.

O tempo passou, como passam as modas e as boas maneiras. Os chapéus desapareceram das cabeças e migraram para filmes antigos e museus. As gravatas resistem heroicamente, mas apenas em ambientes corporativos, e mesmo assim sob ameaça constante. Hoje, só executivos — e olhe lá! — ainda se aventuram nesse ritual de estrangulamento voluntário chamado dress code.

As mulheres, libertas de espartilhos, combinações e cintos largos que as faziam ter cintura de vespa, passaram a circular mais à vontade. Às vezes, à vontade até demais, segundo a opinião de alguns senhores que ainda acreditam que o joelho feminino tem poder subversivo. O fato é que a rua se tornou informal, e os aniversários masculinos acompanharam essa tendência com uma crueldade silenciosa.

Porque, se antes o homem ganhava itens que ampliavam seu guarda-roupa, hoje ele ganhou algo muito mais prático, utilitário e, sobretudo, repetitivo: meias.

O primeiro par de meias vem quase com afeto. A pessoa entrega o pacote dizendo: Você vive reclamando que perde meias na máquina. O aniversariante sorri, agradece e pensa: É verdade.

No ano seguinte, outro par de meias. De algodão. Ou de lã. Ou daquelas tecnológicas, que prometem não dar chulé nem em maratona no Saara.

No terceiro aniversário consecutivo, mais meias. Aí o homem começa a desconfiar. Abre a gaveta e percebe que, se todas aquelas meias resolvessem se unir, dariam para calçar um batalhão do Exército.

Mas a vida segue, e os aniversários insistem em aparecer.

Até que um dia — ninguém sabe bem por quê — alguém decide que meias já não bastam. O presenteador quer inovar. Quer marcar época. Quer oferecer algo que represente confiança, parceria, talvez até um leve empurrão existencial.

E então surge a furadeira.

Não é uma furadeira qualquer. É um jogo completo. Furadeira, brocas de vários tamanhos, para furar concreto e madeira, maleta resistente, manual de instruções em cinco idiomas, nenhum deles no português claro. Ao entregar o presente, o doador diz, com um sorriso cheio de expectativas ocultas:

— Agora você vai poder pendurar aqueles quadros.

Que quadros?

Os quadros que o homem prometeu pendurar desde que se casou. Quadros que já passaram por três mudanças, dois apartamentos e uma tentativa frustrada de reforma. Quadros que vivem encostados atrás do guarda-roupa, cheios de teias de aranha, aguardando o dia em que deixarão de ser estorvo para se tornar decoração.

Munido da furadeira, o aniversariante sente algo novo: uma mistura de orgulho e medo. Ele liga o aparelho. O barulho é alto, agressivo, quase bélico. É o som da masculinidade moderna, cheio de testosterona, entrando em ação.

— Dá-lhe furar aqui — pensa ele.

— Dá-lhe furar acolá.

A parede resiste, a broca esquenta, o pó se espalha pelo chão como neve de reboco de gesso. A cada furo, cresce a sensação de vitória doméstica. Até que, de repente, acontece.

Um jato.

Primeiro tímido. Depois decidido. Em segundos, a parede da cozinha se transforma numa respeitável nascente de água. Não uma infiltração qualquer, mas uma fonte em plena atividade, digna de cartão-postal.

O homem congela. A furadeira cai no chão. O presente de aniversário, que simbolizava autonomia e competência, agora jorra culpa líquida.

Alguém grita. Alguém corre atrás do registro. Alguém pergunta por que ele foi mexer nisso logo hoje.

E assim, molhado até os joelhos, o aniversariante aprende uma lição eterna: certos presentes vêm carregados de expectativas perigosas. Meias não furam canos. Gravatas não provocam enchentes. Chapéus apenas esquentam a cabeça.

Talvez, no fundo, o presente ideal para o homem moderno fosse mesmo um par de meias. Ou dois. Ou três. Porque, entre ganhar algo que não se usa e ganhar algo que pode inundar a cozinha, é melhor ficar com os pés quentes e a casa seca.

E se alguém ainda quiser dar uma furadeira, que a acompanhe um encanador de plantão, devidamente avisado, experiente e sóbrio — e que seja ele, o encanador, o verdadeiro presente, embrulhado com um belo laço.

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