A
SAGA DOS PRESENTES MASCULINOS
Félix
Maier
Houve
um tempo — dizem os mais antigos, aqueles que ainda chamam ônibus de coletivo
e trem de comboio — em que sair à rua era quase um ato solene. O homem
não atravessava a esquina sem um terno bem passado, gravata firmemente apertada
no colarinho e chapéu na cabeça, mesmo que o sol do Rio de Janeiro estivesse
empenhado em derreter até pensamento filosófico. Quarenta graus à sombra e lá
ia o cidadão, digno como um diplomata europeu em missão tropical, suando por
dentro e sorrindo por fora.
As
mulheres, por sua vez, desfilavam com vestidos coloridos e esvoaçantes, chapéus
igualmente vistosos, parecendo carregar a primavera inteira sobre a cabeça. Era
um mundo onde até o calor se respeitava: fazia-se sauna, mas com elegância.
Nesse
contexto civilizado, os presentes de aniversário acompanhavam o figurino. Homem
ganhava chapéu. Ou gravata, de preferência aquelas largas, linguarudas, capazes
de disputar espaço com a barriga nas fotografias de família. Quando o
presenteador se sentia especialmente ousado, vinha também um lenço. Não era
qualquer lenço: era o lenço social, dobrado com esmero, destinado tanto a
ocasiões de emoção quanto a emergências nasais. Servia para enxugar lágrimas,
suor e, sobretudo, catar o catarro com discrição, antes de devolvê-lo ao bolso
interno do paletó, onde repousava como um segredo de Estado.
O
homem agradecia. Sempre agradecia. Ainda que já tivesse dezessete gravatas
idênticas e chapéus suficientes para abrir uma chapelaria, ele sorria, apertava
a mão do doador e dizia: Era exatamente o que eu precisava. E, de certo
modo, era mesmo: precisava manter viva a tradição de fingir surpresa.
O
tempo passou, como passam as modas e as boas maneiras. Os chapéus desapareceram
das cabeças e migraram para filmes antigos e museus. As gravatas resistem
heroicamente, mas apenas em ambientes corporativos, e mesmo assim sob ameaça
constante. Hoje, só executivos — e olhe lá! — ainda se aventuram nesse ritual de
estrangulamento voluntário chamado dress code.
As
mulheres, libertas de espartilhos, combinações e cintos largos que as faziam
ter cintura de vespa, passaram a circular mais à vontade. Às vezes, à vontade
até demais, segundo a opinião de alguns senhores que ainda acreditam que o
joelho feminino tem poder subversivo. O fato é que a rua se tornou informal, e
os aniversários masculinos acompanharam essa tendência com uma crueldade
silenciosa.
Porque,
se antes o homem ganhava itens que ampliavam seu guarda-roupa, hoje ele ganhou
algo muito mais prático, utilitário e, sobretudo, repetitivo: meias.
O
primeiro par de meias vem quase com afeto. A pessoa entrega o pacote dizendo: Você
vive reclamando que perde meias na máquina. O aniversariante sorri,
agradece e pensa: É verdade.
No
ano seguinte, outro par de meias. De algodão. Ou de lã. Ou daquelas
tecnológicas, que prometem não dar chulé nem em maratona no Saara.
No
terceiro aniversário consecutivo, mais meias. Aí o homem começa a desconfiar.
Abre a gaveta e percebe que, se todas aquelas meias resolvessem se unir, dariam
para calçar um batalhão do Exército.
Mas
a vida segue, e os aniversários insistem em aparecer.
Até
que um dia — ninguém sabe bem por quê — alguém decide que meias já não bastam.
O presenteador quer inovar. Quer marcar época. Quer oferecer algo que
represente confiança, parceria, talvez até um leve empurrão existencial.
E
então surge a furadeira.
Não
é uma furadeira qualquer. É um jogo completo. Furadeira, brocas de vários
tamanhos, para furar concreto e madeira, maleta resistente, manual de
instruções em cinco idiomas, nenhum deles no português claro. Ao entregar o
presente, o doador diz, com um sorriso cheio de expectativas ocultas:
—
Agora você vai poder pendurar aqueles quadros.
Que
quadros?
Os
quadros que o homem prometeu pendurar desde que se casou. Quadros que já
passaram por três mudanças, dois apartamentos e uma tentativa frustrada de
reforma. Quadros que vivem encostados atrás do guarda-roupa, cheios de teias de
aranha, aguardando o dia em que deixarão de ser estorvo para se tornar
decoração.
Munido
da furadeira, o aniversariante sente algo novo: uma mistura de orgulho e medo.
Ele liga o aparelho. O barulho é alto, agressivo, quase bélico. É o som da
masculinidade moderna, cheio de testosterona, entrando em ação.
—
Dá-lhe furar aqui — pensa ele.
—
Dá-lhe furar acolá.
A
parede resiste, a broca esquenta, o pó se espalha pelo chão como neve de reboco
de gesso. A cada furo, cresce a sensação de vitória doméstica. Até que, de
repente, acontece.
Um
jato.
Primeiro
tímido. Depois decidido. Em segundos, a parede da cozinha se transforma numa
respeitável nascente de água. Não uma infiltração qualquer, mas uma fonte em
plena atividade, digna de cartão-postal.
O
homem congela. A furadeira cai no chão. O presente de aniversário, que
simbolizava autonomia e competência, agora jorra culpa líquida.
Alguém
grita. Alguém corre atrás do registro. Alguém pergunta por que ele foi mexer
nisso logo hoje.
E
assim, molhado até os joelhos, o aniversariante aprende uma lição eterna:
certos presentes vêm carregados de expectativas perigosas. Meias não furam
canos. Gravatas não provocam enchentes. Chapéus apenas esquentam a cabeça.
Talvez,
no fundo, o presente ideal para o homem moderno fosse mesmo um par de meias. Ou
dois. Ou três. Porque, entre ganhar algo que não se usa e ganhar algo que pode
inundar a cozinha, é melhor ficar com os pés quentes e a casa seca.
E se alguém ainda quiser dar uma furadeira, que a acompanhe um encanador de plantão, devidamente avisado, experiente e sóbrio — e que seja ele, o encanador, o verdadeiro presente, embrulhado com um belo laço.

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