De
Mary Corner de Palocci
às
beldades de Vorcaro
Há
países que exportam tecnologia, outros exportam petróleo, outros exportam
cultura. O Brasil exporta escândalos e, quando o mercado interno está aquecido,
consome tudo aqui mesmo, com direito a buffet, champanhe francês e nota fria.
Durante
muito tempo, nossas orgias político-empresariais foram quase artesanais. Havia
certa rusticidade na corrupção festiva. Nada de Instagram (até porque celular não
existia), nada de influenciadora fitness, nada de experiência sensorial
premium. Era tudo mais... digamos... raiz.
Foi
nesse cenário bucólico que surgiu a lendária mansão de Brasília, administrada
por Jeany Mary Corner — nome que parece personagem de filme noir rodado
por Zé do Caixão no Cemitério da Lapa, em Sampa. Ali, segundo denúncias da
época, políticos — com destaque para o ministro da Fazenda Antônio Palocci —
frequentavam encontros que misturavam prazer, lobby e articulações pouco
republicanas. Não era apenas um espaço de confraternização carnal: era também,
como se dizia nos corredores, a Casa do Lobby.
O
Brasil sempre teve essa capacidade de juntar Eros e Erário na mesma sala.
Quem
desmontou o teatro foi o caseiro Francenildo dos Santos Costa, um homem simples
que ousou falar demais numa terra onde o silêncio costuma ser remunerado. Após
reportagem de O Estado de S. Paulo e depoimento na CPI dos Bingos,
instalada em 2005, o país descobriu que o caseiro sabia mais sobre a intimidade
do poder do que muito cientista político.
Como
prêmio por sua sinceridade cívica, teve o sigilo bancário quebrado. Porque no
Brasil, meu caro leitor, o problema nunca é o escândalo. É quem fala dele.
A
revista Época ainda levantou a hipótese de que os R$ 25.000,00
depositados na conta de Francenildo teriam vindo de adversários políticos
interessados em constranger Palocci e o PT. A Polícia Federal, contudo,
desmontou a versão quando o caseiro apresentou extratos comprovando que o
dinheiro vinha do pai biológico, empresário no Piauí. Moral da história: quando
o enredo é complexo demais, geralmente a verdade é mais simples do que a ficção
petralha.
Comprovado
o crime da quebra ilegal de sigilo, Palocci pediu demissão do Ministério da
Fazenda. Foi indiciado, mas não condenado naquele episódio. O Brasil sempre foi
generoso com seus corruPTos. Anos depois, Palocci voltaria à cena no lamaçal da
Operação Lava Jato, onde chegou a ser preso por um tempo. Mas isso já
era outra temporada da mesma série de maracutaias.
Se a
era Mary Corner foi a fase analógica da libertinagem institucional, o que veio
depois foi a era digital da depravação com upgrade de luxo.
Entramos,
então, no capítulo Vorcaro.
Daniel
Vorcaro, presidente do Banco Master, elevou o conceito de confraria político-empresarial
a um novo patamar. Nada de mansão discreta em Brasília. Agora falamos de festas
semanais que, segundo relatos, custariam algo em torno de R$ 400 mil por
edição, na Alameda Lorena, em São Paulo — a Disneylândia do luxo paulistano.
O
cardápio em Sampa incluía políticos, empresários, lobistas e modelos
internacionais da Rússia, Ucrânia e Croácia – às vezes também beldades suecas,
norueguesas, holandesas, suíças -, com
cachês que fariam corar jogador brasileiro da Premier League respondendo na
Justiça por assédio sexual. Porque, veja bem, se é para fazer maracutaia, que
seja com padrão europeu. Havia, ainda, a vantagem de as beldades não falarem
português, evitando vazamentos.
Havia
também versões itinerantes da farra: Trancoso, resorts paradisíacos, encontros
blindados em Nova York, Lisboa, Capri, St. Barts (no Caribe). A regra era
clara: proibido celular. O Brasil pode não ter controle fiscal eficiente, mas
tem protocolo rígido de confidencialidade orgíaca.
Enquanto
isso, o Banco Master se envolvia em operações que levantaram sobrancelhas no
mercado financeiro, especialmente nas relações com o Banco de Brasília.
Dívidas, estruturas financeiras criativas, engenharia contábil digna de prêmio
de arquitetura barroca. Tudo muito técnico, tudo muito sofisticado — como as
festas.
No
entorno da narrativa aparecem nomes que fariam qualquer roteirista suar frio. O
ministro do STF Dias Toffoli foi mencionado em reportagens por sua proximidade
com personagens do enredo, inclusive com participação societária em resort de
luxo no Paraná, o Tayayá Aqua Resort. E viagem para assistir à Libertadores no
Peru de avião privado, porque nada combina mais com futebol sul-americano do
que jatinho executivo.
E,
no mesmo universo, a esposa de Alexandre de Moraes advogando para o Banco
Master, em contratos que envolveriam cifras da ordem de R$ 130 milhões. O
Brasil é um país onde tudo é possível, especialmente quando envolve muitos
zeros.
Naturalmente,
cada um apresenta sua versão, sua defesa, sua narrativa técnica. E a imprensa
publica, os advogados respondem, as notas oficiais circulam. No fim, o cidadão
comum apenas tenta entender como um país com déficit fiscal permanente consegue
manter tamanha vitalidade festiva no topo da pirâmide.
A
comparação entre Mary Corner e as modelos internacionais do circuito Vorcaro é
quase sociológica.
Mary
representava a fase romântica da promiscuidade política: encontros discretos,
personagens folclóricos, valores quase modestos perto dos padrões atuais. Havia
algo de novela das oito (as antigas, as atuais são piores que o enredo Master),
de Brasília provinciana tentando ser cosmopolita.
Já
as festas contemporâneas parecem spin-off de série da HBO. Modelos globais,
cachês estratosféricos, locações instagramáveis (ainda que sem Instagram),
logística de evento corporativo. Se antes era casa do lobby, agora é experiência
imersiva de networking estratégico.
A
corrupção brasileira, como o vinho, envelheceu e ganhou notas amadeiradas.
Mas
o fio condutor permanece o mesmo: poder, dinheiro e silêncio. Muito silêncio.
No
fundo, Mary Corner e as modelos do Vorcaro são personagens secundárias de uma
trama maior. Elas orbitam o poder. O verdadeiro protagonista é o sistema, essa
engrenagem que permite que escândalos surjam, explodam, indignem e, depois,
evaporem como champanhe aberto demais.
O
Brasil não inventou a orgia política. Mas conseguiu dar a ela um toque
tropical, criativo e, nos últimos anos, altamente sofisticado. Nada de
networking, mas coworking com muita beldade nórdica no colo e champagne na mão.
De
mansões discretas em Brasília a festas blindadas na Alameda Lorena, de
depósitos suspeitos em conta de caseiro a contratos milionários em bancas de
advocacia, seguimos evoluindo. Não em educação básica, não em saneamento, mas
em glamourização da maracutaia.
No
fim das contas, o que se vê no caso do Banco Master é um silêncio que não é
ausência de barulho: é engenharia acústica de alto padrão.
Fala-se
aqui, cochicha-se ali, promete-se apuração, insinua-se uma possível CPI. Mas a
CPI, essa ave que costuma cantar alto quando sente cheiro de palanque eleitoral,
parece ter entrado em hibernação preventiva. Não por falta de assunto — assunto
é o que não falta neste país —, mas talvez por excesso de currículo dos
envolvidos.
Porque,
convenhamos, quando o suprassumo nacional da política e do empresariado
frequenta as mesmas mesas, os mesmos jantares, os mesmos camarotes e, ao que
tudo indica, as mesmas festas blindadas, cria-se uma espécie de pacto tácito de
autopreservação. Não é preciso combinar nada explicitamente. Basta que todos
saibam demais sobre todos.
É o
famoso modelo brasileiro de governança: um lava a mão do outro — e, em versões
mais francas, um lava a bunda suja do outro, com água morna e toalha felpuda.
A
eventual CPI ameaça nascer, mas logo alguém lembra que há contratos, relações,
escritórios de advocacia, sociedades cruzadas, amizades antigas, fotos
inconvenientes (sempre aparece um celular), viagens compartilhadas e favores
acumulados. E, quando o rabo de muita gente está preso no mesmo portão, ninguém
tem pressa de puxar a corda.
Assim,
o que se desenha não é necessariamente absolvição, nem condenação — é diluição.
O caso vai sendo administrado. Uma nota aqui, uma reportagem ali, uma
explicação técnica acolá. O noticiário gira. Surge outro escândalo, depois
outro. O Brasil é pródigo em escândalos substitutos.
E,
no meio do turbilhão, a estratégia mais eficiente continua sendo a mais antiga:
esperar. Esperar que a próxima crise seja mais barulhenta. Que o próximo vídeo,
a próxima operação, a próxima delação ocupe o horário nobre. Que a indignação
nacional, tão intensa quanto breve, encontre novo alvo.
Mary
Corner teve sua temporada. Palocci teve a sua. A Operação Lava Jato teve várias,
até que foi enterrada por Dias Toffoli. Agora, o enredo do Master parece entrar
naquela fase em que todos olham para o teto e assobiam.
No
Brasil, a maracutaia não costuma morrer, apenas troca de manchete.
E,
enquanto o país aguarda o próximo escândalo para esquecer o anterior, as luzes
da festa seguem acesas. Sem celulares. Sem atas. Sem CPI.
Apenas
com memória curta, essa sim, a mais eficiente blindagem institucional já
inventada por estas bandas.

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