MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

terça-feira, 3 de março de 2026

De Mary Corner de Palocci às beldades de Vorcaro - Por Félix Maier

 

De Mary Corner de Palocci

às beldades de Vorcaro

 Félix Maier

Há países que exportam tecnologia, outros exportam petróleo, outros exportam cultura. O Brasil exporta escândalos e, quando o mercado interno está aquecido, consome tudo aqui mesmo, com direito a buffet, champanhe francês e nota fria.

Durante muito tempo, nossas orgias político-empresariais foram quase artesanais. Havia certa rusticidade na corrupção festiva. Nada de Instagram (até porque celular não existia), nada de influenciadora fitness, nada de experiência sensorial premium. Era tudo mais... digamos... raiz.

Foi nesse cenário bucólico que surgiu a lendária mansão de Brasília, administrada por Jeany Mary Corner — nome que parece personagem de filme noir rodado por Zé do Caixão no Cemitério da Lapa, em Sampa. Ali, segundo denúncias da época, políticos — com destaque para o ministro da Fazenda Antônio Palocci — frequentavam encontros que misturavam prazer, lobby e articulações pouco republicanas. Não era apenas um espaço de confraternização carnal: era também, como se dizia nos corredores, a Casa do Lobby.

O Brasil sempre teve essa capacidade de juntar Eros e Erário na mesma sala.

Quem desmontou o teatro foi o caseiro Francenildo dos Santos Costa, um homem simples que ousou falar demais numa terra onde o silêncio costuma ser remunerado. Após reportagem de O Estado de S. Paulo e depoimento na CPI dos Bingos, instalada em 2005, o país descobriu que o caseiro sabia mais sobre a intimidade do poder do que muito cientista político.

Como prêmio por sua sinceridade cívica, teve o sigilo bancário quebrado. Porque no Brasil, meu caro leitor, o problema nunca é o escândalo. É quem fala dele.

A revista Época ainda levantou a hipótese de que os R$ 25.000,00 depositados na conta de Francenildo teriam vindo de adversários políticos interessados em constranger Palocci e o PT. A Polícia Federal, contudo, desmontou a versão quando o caseiro apresentou extratos comprovando que o dinheiro vinha do pai biológico, empresário no Piauí. Moral da história: quando o enredo é complexo demais, geralmente a verdade é mais simples do que a ficção petralha.

Comprovado o crime da quebra ilegal de sigilo, Palocci pediu demissão do Ministério da Fazenda. Foi indiciado, mas não condenado naquele episódio. O Brasil sempre foi generoso com seus corruPTos. Anos depois, Palocci voltaria à cena no lamaçal da Operação Lava Jato, onde chegou a ser preso por um tempo. Mas isso já era outra temporada da mesma série de maracutaias.

Se a era Mary Corner foi a fase analógica da libertinagem institucional, o que veio depois foi a era digital da depravação com upgrade de luxo.

Entramos, então, no capítulo Vorcaro.

Daniel Vorcaro, presidente do Banco Master, elevou o conceito de confraria político-empresarial a um novo patamar. Nada de mansão discreta em Brasília. Agora falamos de festas semanais que, segundo relatos, custariam algo em torno de R$ 400 mil por edição, na Alameda Lorena, em São Paulo — a Disneylândia do luxo paulistano.

O cardápio em Sampa incluía políticos, empresários, lobistas e modelos internacionais da Rússia, Ucrânia e Croácia – às vezes também beldades suecas, norueguesas, holandesas, suíças -,  com cachês que fariam corar jogador brasileiro da Premier League respondendo na Justiça por assédio sexual. Porque, veja bem, se é para fazer maracutaia, que seja com padrão europeu. Havia, ainda, a vantagem de as beldades não falarem português, evitando vazamentos.

Havia também versões itinerantes da farra: Trancoso, resorts paradisíacos, encontros blindados em Nova York, Lisboa, Capri, St. Barts (no Caribe). A regra era clara: proibido celular. O Brasil pode não ter controle fiscal eficiente, mas tem protocolo rígido de confidencialidade orgíaca.

Enquanto isso, o Banco Master se envolvia em operações que levantaram sobrancelhas no mercado financeiro, especialmente nas relações com o Banco de Brasília. Dívidas, estruturas financeiras criativas, engenharia contábil digna de prêmio de arquitetura barroca. Tudo muito técnico, tudo muito sofisticado — como as festas.

No entorno da narrativa aparecem nomes que fariam qualquer roteirista suar frio. O ministro do STF Dias Toffoli foi mencionado em reportagens por sua proximidade com personagens do enredo, inclusive com participação societária em resort de luxo no Paraná, o Tayayá Aqua Resort. E viagem para assistir à Libertadores no Peru de avião privado, porque nada combina mais com futebol sul-americano do que jatinho executivo.

E, no mesmo universo, a esposa de Alexandre de Moraes advogando para o Banco Master, em contratos que envolveriam cifras da ordem de R$ 130 milhões. O Brasil é um país onde tudo é possível, especialmente quando envolve muitos zeros.

Naturalmente, cada um apresenta sua versão, sua defesa, sua narrativa técnica. E a imprensa publica, os advogados respondem, as notas oficiais circulam. No fim, o cidadão comum apenas tenta entender como um país com déficit fiscal permanente consegue manter tamanha vitalidade festiva no topo da pirâmide.

A comparação entre Mary Corner e as modelos internacionais do circuito Vorcaro é quase sociológica.

Mary representava a fase romântica da promiscuidade política: encontros discretos, personagens folclóricos, valores quase modestos perto dos padrões atuais. Havia algo de novela das oito (as antigas, as atuais são piores que o enredo Master), de Brasília provinciana tentando ser cosmopolita.

Já as festas contemporâneas parecem spin-off de série da HBO. Modelos globais, cachês estratosféricos, locações instagramáveis (ainda que sem Instagram), logística de evento corporativo. Se antes era casa do lobby, agora é experiência imersiva de networking estratégico.

A corrupção brasileira, como o vinho, envelheceu e ganhou notas amadeiradas.

Mas o fio condutor permanece o mesmo: poder, dinheiro e silêncio. Muito silêncio.

No fundo, Mary Corner e as modelos do Vorcaro são personagens secundárias de uma trama maior. Elas orbitam o poder. O verdadeiro protagonista é o sistema, essa engrenagem que permite que escândalos surjam, explodam, indignem e, depois, evaporem como champanhe aberto demais.

O Brasil não inventou a orgia política. Mas conseguiu dar a ela um toque tropical, criativo e, nos últimos anos, altamente sofisticado. Nada de networking, mas coworking com muita beldade nórdica no colo e champagne na mão.

De mansões discretas em Brasília a festas blindadas na Alameda Lorena, de depósitos suspeitos em conta de caseiro a contratos milionários em bancas de advocacia, seguimos evoluindo. Não em educação básica, não em saneamento, mas em glamourização da maracutaia.

No fim das contas, o que se vê no caso do Banco Master é um silêncio que não é ausência de barulho: é engenharia acústica de alto padrão.

Fala-se aqui, cochicha-se ali, promete-se apuração, insinua-se uma possível CPI. Mas a CPI, essa ave que costuma cantar alto quando sente cheiro de palanque eleitoral, parece ter entrado em hibernação preventiva. Não por falta de assunto — assunto é o que não falta neste país —, mas talvez por excesso de currículo dos envolvidos.

Porque, convenhamos, quando o suprassumo nacional da política e do empresariado frequenta as mesmas mesas, os mesmos jantares, os mesmos camarotes e, ao que tudo indica, as mesmas festas blindadas, cria-se uma espécie de pacto tácito de autopreservação. Não é preciso combinar nada explicitamente. Basta que todos saibam demais sobre todos.

É o famoso modelo brasileiro de governança: um lava a mão do outro — e, em versões mais francas, um lava a bunda suja do outro, com água morna e toalha felpuda.

A eventual CPI ameaça nascer, mas logo alguém lembra que há contratos, relações, escritórios de advocacia, sociedades cruzadas, amizades antigas, fotos inconvenientes (sempre aparece um celular), viagens compartilhadas e favores acumulados. E, quando o rabo de muita gente está preso no mesmo portão, ninguém tem pressa de puxar a corda.

Assim, o que se desenha não é necessariamente absolvição, nem condenação — é diluição. O caso vai sendo administrado. Uma nota aqui, uma reportagem ali, uma explicação técnica acolá. O noticiário gira. Surge outro escândalo, depois outro. O Brasil é pródigo em escândalos substitutos.

E, no meio do turbilhão, a estratégia mais eficiente continua sendo a mais antiga: esperar. Esperar que a próxima crise seja mais barulhenta. Que o próximo vídeo, a próxima operação, a próxima delação ocupe o horário nobre. Que a indignação nacional, tão intensa quanto breve, encontre novo alvo.

Mary Corner teve sua temporada. Palocci teve a sua. A Operação Lava Jato teve várias, até que foi enterrada por Dias Toffoli. Agora, o enredo do Master parece entrar naquela fase em que todos olham para o teto e assobiam.

No Brasil, a maracutaia não costuma morrer, apenas troca de manchete.

E, enquanto o país aguarda o próximo escândalo para esquecer o anterior, as luzes da festa seguem acesas. Sem celulares. Sem atas. Sem CPI.

Apenas com memória curta, essa sim, a mais eficiente blindagem institucional já inventada por estas bandas.

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