MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

quarta-feira, 28 de abril de 2021

As origens do fascismo: violência, descontentamento e medo - por Vanessa Corrêa

As origens do fascismo: violência, descontentamento e medo

6 / FEVEREIRO / 2020

Por Vanessa Corrêa*

 


Não mais do que cem homens participaram da reunião que criou, em 23 de março de 1919, em Milão, os Fasci di Combattimento. Semente do Partido Nacional Fascista, o grupo obteve na ocasião quase o mesmo espaço reservado à notícia de um roubo de sabão no principal jornal da cidade.

Assim como o Corriere della Sera, toda a Itália ainda demoraria a compreender que aquelas dezenas de homens liderados por Benito Mussolini dariam origem ao primeiro governo totalitário da Europa Ocidental. 

A sua transformação de um movimento marginal em um regime opressor é mostrada em detalhes em M, o filho do século, de Antonio Scurati, escritor e professor de Literatura Contemporânea na Universidade de Comunicação e Línguas de Milão.

Focado no período que vai de março de 1919 aos primeiros dias de 1925, o livro se baseia em centenas de documentos oficiais, discursos, cartas e artigos jornalísticos para contar a história da criação e ascensão do fascismo sob a perspectiva de Mussolini, de sua amante, Margherita Sarfatti, e de seus principais aliados e inimigos. 

“Cada acontecimento, personagem, diálogo ou discurso narrado é historicamente documentado e/ou testemunhado por mais de uma fonte”, avisa Scurati no início da obra, que é definida pelo próprio autor como um romance documental. Dessa minuciosa pesquisa surge um retrato do fascismo e a biografia de seu idealizador. 

 

O rancor dos ex-combatentes

Benito Mussolini era um dos mais ativos e respeitados militantes do Partido Socialista italiano, mas foi expulso em 1914 após defender a entrada da Itália na Primeira Guerra Mundial. O país foi um dos vencedores, mas seus soldados não imaginavam que após o fim do conflito armado, em 1918, voltariam para uma Itália empobrecida e preterida nos acordos de paz do pós-guerra. 


O conflito deixou na Itália um rastro de ex-combatentes frustrados: homens de todas as classes sociais que acreditavam ser heróis de guerra e, no entanto, se viram sem rumo após o retorno ao país. No livro, Scurati faz uma vívida descrição dessa massa de descontentes, composta, em sua maior parte, pelos Arditi, integrantes das tropas de assalto do Exército incumbidas de romper as defesas inimigas e permitir o avanço da infantaria. Ousados, corajosos e inventivos são alguns dos significados atribuídos à palavra “arditi” em italiano — que também pode significar insolentes e impertinentes.

Após ser considerado um traidor pelos socialistas, Mussolini não hesitou em aliar-se a esses homens — grupo de onde vieram os principais participantes da fundação dos Fasci di Combattimento. Como relata Scurati, Mussolini sabia que o rancor dos Arditi se acumulava e que eles logo buscariam formas de extravasar tamanho descontentamento.

 

A violenta repressão ao socialismo

Apesar de ter um programa inicial com reivindicações parecidas às dos socialistas revolucionários, concebido por dissidentes do partido para atrair ex-companheiros, o movimento fascista logo aprenderia a usar o medo da ameaça socialista para justificar suas ações rumo ao poder. 

Animados pela Revolução Russa, os socialistas italianos viveram os últimos anos da década de 1910 fortalecidos pela ampla vitória nas eleições de outubro de 1919 e por uma série de greves gerais, em constante conflito com as forças policiais e a elite agrária e industrial.


Se o socialismo foi eleito o maior inimigo do fascismo em seus primeiros anos, o modo escolhido para combatê-lo foi a violência. Não a violência verbal, tão em voga em governos hoje associados às ideias propagadas por Mussolini um século atrás, mas a violência física, manifestada nas frequentes incursões de grupos fascistas em vilarejos italianos.

Marcados por espancamentos, incêndios e execuções, esses ataques intimidavam as ligas camponesas e organizações proletárias ligadas aos socialistas. Também despertavam o temor no governo e na burguesia, que, ainda assim, seguiram subestimando o alcance do fascismo em seus anos iniciais. 

 

A estratégia antipolítica

M, o filho do século retrata também como o movimento fascista não foi criado para ser uma mera oposição ao socialismo. Para Mussolini, o fascismo é algo inédito: um antipartido. E, como tal, queria atingir seus objetivos sem preocupar-se em definir para si uma identidade, percorrendo caminhos diferentes daqueles dos partidos italianos, fazendo o que chamava de antipolítica. Nas palavras de Scurati, “no fim das contas, eles são os Fasci di Combattimento, e seu verdadeiro programa está inteiramente contido na palavra ‘combate’. Por isso, eles podem, e devem, se dar ao luxo de ser reacionários e revolucionários de acordo com as circunstâncias”. 


A estratégia de criar um antipartido e defender a antipolítica deu certo: Mussolini demoraria apenas três anos para levar o fascismo ao poder na Itália, onde permaneceria pelas duas décadas seguintes.

 

No próximo texto, como o fascismo tomou o poder em uma noite, alçando um jovem Mussolini sem qualquer experiência de governo ao posto de primeiro-ministro. Leia a segunda parte.

 

* Vanessa Corrêa é jornalista.


Fonte: https://www.intrinseca.com.br/blog/2020/02/as-origens-do-fascismo-violencia-descontentamento-e-medo/

terça-feira, 27 de abril de 2021

Dunquerque, o último mistério da Segunda Guerra Mundial - Por Guillermo Altares

Dunquerque, o último mistério da Segunda Guerra Mundial

01 Agosto 2017

A batalha de Dunquerque, na França, ainda é um dos grandes mistérios da Segunda Guerra Mundial. Por que Hitler ordenou a interrupção do ataque contra um exército em retirada, em muitos casos em barcos que não tinham nenhuma proteção? Os historiadores mantêm uma disputa aberta sobre um episódio crucial do conflito que arrasou a Europa entre 1939 e 1945. Os nazistas começaram a guerra no dia 1 de setembro de 1939, com a invasão da Polônia. Os Aliados, França e Reino Unido, declararam abertas as hostilidades e começou então o que se conhece como a “drôle de guerre”, a guerra de mentira.

DUNKIRK
Direção: Christopher Nolan.
Intérpretes: Fionn Whitehead, Aneurin Barnard, Tom Hardy.
Gênero: guerra. EUA, 2017.
Duração: 106 minutos.

 A reportagem é de Guillermo Altares, publicada por El País, 17-07-2017.

Com uma falsa sensação de segurança, os Aliados se acreditavam protegidos pela Linha Maginot. Durante quase um ano, as potências europeias estavam em conflito, mas nada acontecia. Em maio, entretanto, os carros de combate nazistas lançaram uma ofensiva imparável rumo ao sul e atravessaram as defesas aliadas como faca na manteiga. Em 11 de junho, de 1940, Paris era uma cidade aberta.

Prevendo o desastre que se aproximava, as tropas britânicas começaram a organizar no final de maio sua evacuação do continente, uma façanha retratada por Christopher Nolan em seu último filme, Dunkirk. “O Governo de Londres começou a preparar uma frota feita de quase tudo, botes e barcos, que pudessem encontrar em suas costas”, escreve Richard J. Evans em seu clássico reeditado O Terceiro Reich em Guerra. Apesar dos ataques da aviação alemã, 700 barcos chegaram às praias de Dunquerque para levar às ilhas tudo o que pudessem salvar de um Exército em retirada. 340.000 soldados conseguiram retornar à Inglaterra graças à ordem pessoal de Hitler para que se parasse a ofensiva mesmo com a opinião contrária de muitos de seus oficiais. “Se não continuarmos, os ingleses poderão transportar o que desejarem, diante de nossos narizes”, exclamou o Marechal de Campo, Fedor von Bock. Quando os nazistas retomaram a ofensiva, já era muito tarde e a evacuação havia sido um sucesso.

Hitler queria reservar suas tropas para chegar a Paris o quanto antes? Confiava muito em sua força após o sucesso das guerras relâmpago de 1939 e 1940? Planejava chegar a um acordo com os britânicos antes de começar a fase seguinte do conflito, com a invasão da URSS? Demonstrou mais uma vez sua incompetência como estrategista? Nunca o saberemos. A realidade é que em 6 de junho de 1944 alguns desses soldados desembarcaram na Normandia para expulsar os nazistas da Europa e conseguir sua revanche.

Leia mais




Obs.: 

No livro MANSTEIN - Campanhas e Julgamento, de Reginald T. Paget, Bibliex, Rio de Janeiro, 1999, com tradução de Roberto Rodrigues, há o seguinte:

Adolf Hitler permitiu o retraimento de tropas inglesas em Duquerque por motivação política: 

“Ao longo de toda a sua carreira, Hitler muito raramente se afastou dos objetivos políticos descritos em Mein Kampf – e entre eles estava a aliança com a Inglaterra. Em sua mitologia racista, os alemães representavam o povo ariano da terra; os ingleses, o dos mares. Na ordem mundial por ele planejada, havia um lugar reservado para o Império Britânico, não lhe interessando de forma alguma assistir à sua dissolução e, por conseguinte, ver a América apoderar-se de cada uma de suas partes” (PAGET, 1999: 50).

segunda-feira, 26 de abril de 2021

Confete jogado para a plateia afro no Oscar - por Félix Maier

Martin Desmond Roe e Travon Free vencem Oscar de melhor curta-metragem 
em live action por 'Two Distant Strangers' 


Confete jogado para a plateia afro no Oscar

Félix Maier

"Hoje a polícia vai matar três pessoas. E amanhã. E depois de amanhã. E a maior parte dessas pessoas vai ser negra. Peço a vocês que não sejam indiferentes à nossa dor." - Travon Free, codiretor com Martin Desmond Roe do curta vencedor do Oscar, Two Distant Strangers, que aborda a violência policial nos Estados Unidos.
Faltou Travon Free informar quantos bandidos são mortos pela polícia por ano, dentre os cerca de 1.000 mortos a que ele se refere, ao receber a estatueta do Oscar na noite de 25 de abril de 2021. Afinal, nem todos os mortos pela polícia são inocentes que falecem com um joelho no pescoço, como George Floyd, muitos são bandidos violentos que morrem em confronto a bala com a polícia.
Trevon podia ter falado também que, em 2020, cerca de 40 policiais foram mortos em serviço, enviando pêsames às famílias enlutadas. Mas, o que importa para embusteiros como Travon Free é manter a mística do "nós, os negros oprimidos", contra "vocês, policiais supremacistas brancos", tentando transformar todos os policiais dos EUA em assassinos.
Faltou também Travon Free informar quantas pessoas já foram mortas devido aos protestos envolvendo a morte de Floyd. E quantas lojas, carros e outros bens materiais já foram destruídos e incendiados pelas falanges do Black Lives Matter e assemelhadas.
O assassino de Floyd, Derek Chauvin, ex-policial de Minneapolis, foi levado aos tribunais, podendo pegar de 12 a 40 anos de prisão, mas a massa de assassinos e incendiários anônimos, que se multiplica nos EUA toda vez que um negro é morto pela polícia, jamais será alcançada pela Justiça.


Leia também:


Lavagem Cerebral - livro de Ben Shapiro


Lavagem cerebral

A lavagem cerebral era popular durante os “Processos de Moscou”, na década de 1930, “quando comunistas fiéis apareceram confessando os crimes mais inverossímeis que teriam praticado contra o regime (...) Logo ficou claro para todo mundo que a lavagem cerebral era uma aplicação das teorias do neurofisiologista russo Ivan Pavlov (1849-1936), descobridor dos reflexos condicionados produzidos pelo jogo estímulo-resposta” (CARVALHO, 2000: 82-83). 

Ben Shapiro, advogado, escritor e comentarista político conservador norte-americano escreveu o livro Lavagem Cerebral - Como as Universidades Doutrinam a Juventude.

Uma resenha rápida do livro de Shapiro é feita pela Amazon:

Lavagem Cerebral é uma exposição explosiva da agenda esquerdista que atua nas universidades hoje. Este livro prova de uma vez por todas que a assim chamada ‘educação superior’ afunda cada vez mais nas profundezas da loucura progressista, uma vez que professores fanáticos e bitolados transformam seus alunos em socialistas, ateístas, racistas, incendiários e narcisistas ninfomaníacos. ‘Ben Shapiro escreve de maneira inteligente, informativa e incisiva. O autor é mais sábio que sua idade deixa transparecer, sem perder a impetuosidade da juventude’ (Ann Coulter). ‘Em Lavagem Cerebral, Shapiro conta a verdade de que as universidades são fóruns da agenda de doutrinação esquerdista, onde a divergência é desencorajada e penalizada, com mais restrições à liberdade de pensamento que em qualquer outra parte da sociedade. Os pais que estão pagando pelos custos dessa educação talvez queiram tomar nota e ver para onde está indo o dinheiro que conquistaram com tanto esforço’ (Michael Barone). ‘Mente afiada, texto apurado, histórias inacreditáveis mas verdadeiras: Ben Shapiro aponta a lavagem cerebral no câmpus universitário e levanta um protesto nacional. Este é um ótimo livro tanto para presentear calouros carentes de alerta, como eleitores e docentes que precisam tomar uma atitude’ (Dr. Marvin Olasky).” - Cfr. em https://www.amazon.com.br/Lavagem-Cerebral-Universidades-Doutrinam-Juventude/dp/6599058310

Leia O Plano de Ben Shapiro para Derrotar a Esquerda em https://www.youtube.com/watch?v=DPUQRPxfuVg.


BIBLIOGRAFIA:

CARVALHO, Olavo de. O Jardim das Aflições (2ª edição, revista). Realizações, São Paulo, 2000

SHAPIRO, Ben. Lavagem Cerebral - Como as Universidades Doutrinam a Juventude. Editora Trinitas, São Bernardo do Campo, 2020 (Tradução de Ulisses Teles)

sexta-feira, 23 de abril de 2021

DOSSIÊ SALVADOR ALLENDE - RACISMO E ANTI-SEMITISMO



20/05/2005 - 01h28

Livro acusa o presidente socialista do Chile, Salvador Allende, de racista e anti-semita

Der Spiegel

Jens Glüsing e Christian Habbe
Um novo livro sobre o presidente chileno Salvador Allende está causando furou ao sugerir que o hoje legendário ícone da esquerda --que se suicidou durante um golpe militar em 1973-- era racista e anti-semita. A sua família e seus admiradores insistem em dizer que o autor do livro está cometendo uma "fraude histórica gigantesca".

AFP


Allende, que governou o Chile entre 1970 e 1973, é considerado um ícone da esquerda mundial

Menos de um mês antes do golpe fatal, o presidente chileno está ao lado do general Augusto Pinochet, que o derrubaria e instauraria uma ditadura militar que vigorou até 1990.

A biblioteca do Departamento de Medicina da Universidade de Santiago, no Chile, é um local assustador.

Atrás da sala de leitura, um pequeno elevador dá acesso a vários andares desertos. Entre as prateleiras --que trazem livros amarelados de anatomia, além de uma máquina de raios-x que parece ser da Idade da Pedra-- está um armário de vidro contendo garrafas com um líquido. Mas que líquido é esse? É impossível dizer.

Próximo a esse armário de veneno, existe uma porta, trancada com um cadeado. Atrás dela há uma coleção de livros amarelados e mal-conservados, que contêm a dissertação escrita em 1933 pelo médico e futuro presidente do Chile, Salvador Allende Gossens. O trabalho é "público e aberto a qualquer um".

Mas, aparentemente, o cientista Victor Farias, 65, foi a primeira pessoa a ler atentamente a dissertação. No seu livro recém-publicado, Farias alega que Allende, conhecido como um ícone da esquerda na América do Sul e na Europa, foi na verdade bem diferente daquilo que diz a história tradicional.

Segundo Farias, a prova está bem aqui, na própria dissertação de Allende. O cientista diz que a dissertação expõe Allende como sendo racista e anti-semita, e defensor da eugenia e de esterilizações forçadas.

Ao fazer tais acusações, o filósofo --que leciona no Instituto da América Latina na Universidade Livre de Berlim desde 1974-- causou um grande alvoroço. E não foi a primeira vez que ele fez tal coisa: Farias tem a fama de trazer à tona questões controversas.

No seu livro "Heidegger und Nationalisozialismus" ("Heidegger e o Nacional-Socialismo"), Farias revelou informações embaraçosas e até então desconhecidas a respeito do mais alemão dos filósofos alemães, Martin Heidegger.

"Salvador Allende: Anti-Semitismo e Eutanásia"

Depois disso, Farias perturbou metade do Chile quando descreveu em "Die Nazis in Chile" ("Os Nazistas no Chile") o quanto o seu país natal foi influenciado pela forma nazista de pensar dos imigrantes nazistas.

O seu novo livro é "Salvador Allende: Antisemitismus und Euthanasie" ("Salvador Allende: Anti-Semitismo e Eutanásia"). Até o momento, o livro só foi publicado no Chile e na Espanha mas, mesmo assim, Farias conseguiu abalar a delicada cultura da memória nacional chilena.

Allende conquistou uma estatura quase lendária no Chile. Aqui, manifestantes saíram às ruas para relembrá-lo naquele que teria sido o seu 95º aniversário em 2003.

Desde a sua morte no golpe militar de 1973, Salvador Allende possui a fama de ser uma vítima entre as classes médias simpatizantes da esquerda em todo o mundo.

Até mesmo na Alemanha, escolas do ensino médio, ruas e praças são batizadas com o seu nome. Para os conservadores, continua sendo um motivo permanente de irritação o fato de o "revolucionário de terno talhado por alfaiate", como o chamou o jornal diário alemão "Frankfurter Allgemeine Zeitung", ainda ser onipresente.

Mas agora vem a última revelação. O intelectual de olhos suaves, o homem que se matou durante o bombardeio do palácio do governo no golpe que o derrubou era realmente um nazista enrustido?

Sob vários aspectos, o jovem doutor Allende estava, de fato, em sintonia com as correntes infeccionadas pelo fascismo que eram tão predominantes na primeira metade do século passado.

Por exemplo, ele argumentou que as doenças mentais, o comportamento criminoso e o alcoolismo seriam hereditários. Ou, indo mais longe, Allende disse que a homossexualidade é uma doença passível de ser curada com o implante de tecidos de testículos no abdômen.

Um outro exemplo: Allende proclamou que o clima quente impede que as populações das regiões meridionais ajam de forma moralmente correta. Referindo-se a outros estudos, Allende escreveu de forma sinistra sobre os judeus na sua dissertação, afirmando: "Os judeus são bem conhecidos perpetradores de certos tipos de crimes, incluindo a fraude, a trapaça, a difamação, e, mais notavelmente, a usura".

Embora tais pontos de vista possam ser reflexos da era em que foram escritos, eles certamente não indicam para Allende um futuro como socialista bem respeitado --e Farias merece crédito por tê-los descoberto.

Mas, de forma condizente com o seu estilo abrasivo, Farias vai um passo além: ele escreve que a dissertação não reflete meramente uma fase temporária de Allende. Em vez disso, Farias acusa Allende de permanecer fiel ao racismo e ao anti-semitismo durante anos --pelo menos até os dias do governo da Frente Popular, sob o presidente Pedro Aguirre Cerda (1939 a 1942).

Allende exerceu o cargo de ministro da Saúde naquele governo e promoveu uma lei que impunha a esterilização dos mentalmente enfermos. A lei jamais foi aprovada.

Eugenia na Europa e nos Estados Unidos

Mas seria justo apontar um dedo acusador para Allende?

Afinal, a eugenia e o racismo foram parte do pensamento dominante em universidades européias e norte-americanas bem antes de os nazistas chegarem ao poder.

Nos Estados Unidos, cientistas do início do século 20 deram início a projetos amplos de "melhoria racial" que foram tolerados pelo governo. O objetivo de tais projetos era proteger a sociedade dos indivíduos "indesejados".

Cerca de 60 mil norte-americanos --na maioria dos casos epiléticos, alcoólatras e pessoas com alegados problemas de cunho social, todos das classes baixas-- tiveram que se submeter à esterilização forçada, até mesmo nos anos 70.

O ex-ditador chileno Augusto Pinochet depôs Allende em um violento golpe militar.

Autores norte-americanos como Edwin Black ("War against the Weak"/ "Guerra contra os Fracos") descrevem como a "exportação global de teorias eugênicas pelos Estados Unidos" foram bem recebidas.

Cientistas sociais brasileiros viram nelas uma oportunidade para "clarear" a cor da pele da população. Na Suécia, as pessoas não faziam cerimônia em discutir se a eugenia poderia ser utilizada para promover a saúde pública.

De fato, devido ao contexto histórico, o principal jornal do Chile, o conservador "El Mercurio", publicou uma defesa de Allende contra o seu biógrafo: "Farias omite o contexto histórico", acusou o jornal.

Porém, o filósofo que reside em Berlim não se deixou abalar. Em determinada época, Farias foi um grande admirador de Allende. De fato, ele fugiu do Chile ditatorial de 1973, com medo de ser perseguido.

No exílio, ele passou a desprezar o alegre e, sob muitos aspectos, eufemístico romantismo da revolução. Farias é um acadêmico, mas é também habilidoso quando se trata de lapidar os seus argumentos para atingir --e convencer-- o público em geral.

Um exemplo pode ser visto no seu livro: ele escreve que as novas revelações sobre Allende conferem mais sentido à recusa do ex-presidente chileno em entregar o criminoso nazista Walter Rauff à Alemanha em 1972, após Rauff ter obtido refúgio no Chile.

Até mesmo as tentativas feitas pelo caçador de nazistas Simon Wiesenthal de demover o presidente fracassaram na época. Em uma carta, Allende respondeu que o presidente não tinha permissão para se envolver em questões jurídicas.

Formalmente falando, Allende estava certo. A Corte Suprema do Chile determinara previamente que Rauff --que foi um oficial de alta patente das SS e que dirigiu o processo de criação das câmeras de gás portáteis-- não poderia ser extraditado porque o estatuto de limitações relativo ao seu caso havia expirado.

Uma boa investigação ou só uma tempestade em copo d'água?

No Chile, a resposta às revelações de Farias tem sido muito discreta.

Atualmente, Allende emergiu como uma importante personalidade histórica do Chile --apesar das tentativas dos governos liderados pelos cristão-democratas da era pós-Pinochet de minimizar a sua importância. Já o presidente socialista Ricardo Lagos homenageou Allende como sendo um humanista e um estadista. A sua reabilitação está quase completa.

O extremismo de direita ainda é um problema no Chile. Mas Allende era um dos extremistas?

No 30º aniversário da sua morte, um museu de Allende foi inaugurado no Chile, e desde então, uma fundação Allende administra o seu patrimônio. Um sumário da atualmente infame dissertação --que não contém, no entanto, as passagens comprometedoras-- também está à mostra no museu.

É desnecessário dizer que os velhos amigos de Allende sentem que Farias está fazendo uma tempestade em um copo d'água.

"Farias está cometendo uma fraude histórica gigantesca", acusa Victor Pey, 89, um antigo companheiro de Allende. Este senhor ainda ágil é nativo da Espanha, mas fugiu para o Chile após a Guerra Civil Espanhola nos anos 30.

Pey defende o velho amigo em nome da sua família e do Partido Socialista. "Farias atribui a Allende citações que na verdade foram proferidas por outros cientistas. Allende não era racista nem anti-semita. A sua mãe era judia", garante Pey.

Uma das filhas de Allende, Isabelle --parlamentar pelo Partido Socialista e prima da autora internacionalmente famosa que tem o mesmo nome-- é breve na sua resposta às alegações de Farias: "Pessoalmente, não farei comentários sobre esse esforço patético".

Enquanto isso, Farias chama as acusações feitas pelos aliados de Allende de "besteiras" e aponta para as palavras claras retiradas da dissertação de Allende.

É bom que se diga que o jovem Allende recebeu uma nota medíocre pela sua dissertação. Durante muitos anos, a cópia maltratada mofou na prateleira, sem ser lida por ninguém. Agora, de repente, há um grande interesse pelo trabalho. Como resposta, funcionários da biblioteca tomaram rapidamente algumas medidas protetoras: atualmente, a dissertação original só pode ser lida sob supervisão.

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O NAZISTA EM ALLENDE


Por Rodrigo Constantino - 21/11/2008
“Quem não é são física e psiquicamente, e, por sua vez, não é digno, não tem o direito a eternizar sua miséria em um filho; o Estado deve permitir que só saudável venha a ter família.” (Adolf Hitler, em Minha Luta) 
Em meu artigo Socialismo e Nazismo mostrei com sólidos argumentos os claros paralelos entre o socialismo e o nazismo, semelhantes em inúmeros aspectos. Lembrei também que os socialistas, acostumados a repetir chavões sem reflexão alguma, xingam de nazistas seus opositores, ainda que coloquem assim estes lado a lado com liberais, enquanto na verdade os liberais são totalmente contrários tanto ao nazismo como ao socialismo.
Neste artigo, pretendo demonstrar o nazista que existia num dos maiores ídolos socialistas da América Latina. Trata-se de Salvador Allende, presidente que afundou o Chile no caos e miséria. A fonte é o último livro de Víctor Farías, doutor em filosofia e autor de Os Nazistas no Chile. Seu mais recente trabalho, Salvador Allende: Anti-Semitismo e Eutanásia, busca em fatos históricos um passado sombrio do personagem, muitas vezes ocultado propositadamente pelos seus biógrafos. Levantar essa poeira e expor a real face nazista desse grande símbolo esquerdista é o objetivo do estudo. 
Víctor Farías foi pesquisar Allende desde o seu passado como médico, passando também pelo período em que foi ministro. A figura de Allende já vem sofrendo consideráveis rachaduras, como quando foi descoberto que, durante seu governo, ele protegeu direta e deliberadamente Walther Rauff, um dos maiores criminosos nazistas, responsável direto pelo assassinato de cem mil judeus. Além disso, nos anos da fundação do partido socialista do Chile, seu criador, Marmaduke Grove, foi pago regularmente pelo Ministério de Assuntos Exteriores nazista. 
Um outro ponto controverso diz respeito à Colônia Dignidade, enclave racista alemão dirigido por nazistas e ex-nazistas, que cresceu e se consolidou consideravelmente durante o governo de Allende. Como fica claro, a simbiose entre socialismo chileno e nazismo alemão sempre existiu. Mas o livro de Farías foca na fase médica de Allende, época em que sua tese Higiene Mental e Delinqüência foi escrita. Este texto de Allende é uma aberração que mostra um profundo racismo do autor, que chega a informar, com aprovação, sobre experimentos cirúrgicos feitos com réus de cárceres públicos a fim de fazê-los “recuperar sua identidade sexual”. 
Para Allende, uma das causas naturais da delinqüência é “a raça”. Ele chega a escrever que “os hebreus se caracterizam por determinadas formas de delito: fraude, falsidade, calúnia, e, sobretudo, a usura”, alegando que esses dados “fazem suspeitar que a raça influi na delinqüência”. Em resumo, no seu primeiro escrito científico, Allende afirma que os judeus são naturalmente delinqüentes. 
Enquanto ministro da Salubridade do governo da Frente Popular, Allende teve a oportunidade de lutar para colocar em prática suas idéias bizarras. Anunciou em 1939 um projeto de Esterilização de Alienados Mentais como programa para a “defesa da raça”, e confiou a elaboração e implementação do projeto a cientistas abertamente racistas como o dr. Eduardo Brücher, associado ao dr. Hans Betzhold, fervoroso partidário da eutanásia nazista. O Artigo 1º do projeto dizia que “toda pessoa que sofra de uma enfermidade mental que, de acordo com os conhecimentos médicos, possa transmitir à sua descendência, poderá ser esterilizada”.
 Pelo projeto, seriam consideradas enfermidades mentais transmissíveis por via hereditária: a esquizofrenia; a psicose maníaco-depressiva; a epilepsia essencial; a idiotia; a debilidade mental profunda; a loucura moral constitucional e o alcoolismo crônico. As vítimas poderiam, pelo projeto da lei, ser forçadas pelo Estado a fazer a esterilização, como fica claro no Artigo 23º: “Todas as resoluções ditadas pelos Tribunais de Esterilização serão obrigatórias para toda pessoa ou autoridade, e se levarão a efeito, com caso de resistência, com auxílio da força pública”. 
As semelhanças entre este projeto e a Lei para Precaver uma Descendência com Taras Hereditárias, ditada pelo governo do Terceiro Reich, são impressionantes. Alguns parágrafos parecem cópia direta. Os nazistas pretendiam esterilizar vítimas nos casos de imbecilidade congênita, esquizofrenia, mania depressiva, epilepsia hereditária, cegueira hereditária, surdez hereditária e graves deformidades físicas hereditárias.
 Como resume Frías, “em ambos os casos a vontade esterilizadora radical não deveria ser impedida ou prejudicada por problemas financeiros”, pois “até para os indigentes havia recursos, entregues ao Estado pelos contribuintes”. 
Sobre seu livro e os fatos que trouxe à tona, Víctor Frías acredita que muitos irão optar por um constrangedor silêncio, para proteger a fé ideológica e a imagem de Allende, que já era terrível antes disso tudo, mas ignorada pelos camaradas socialistas. Outros verão analogias fundamentais entre socialismo e nazismo, e conhecerão um pouco mais dessa figura que tanto contribuiu para o colapso chileno. 
Quanto ao que concerne o autor, ele acredita que “tudo o que foi investigado até aqui merece ser processado, incansavelmente, a fim de recuperar a luz que nossa gente merece”. Infelizmente, os idólatras do fracasso parecem nunca aprender com os fatos, preferindo um mundo de fantasias onde o socialismo trará uma vida melhor para todos. Entre a luz ou a escuridão ideológica, ficam com a última. 
E assim, o nazista em Allende acabará provavelmente ignorado e esquecido, enquanto os socialistas continuam rotulando seus opositores de nazistas, como se não fossem ambos uma mesma família.
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Salvador Allende na Wikipédia:
"Ocupa o Ministério da Saúde de 1939 a 1942, nesta fase ele desenvolveria um projeto de lei denominado "Lei da esterilização dos alienados",[9][13][14] prevendo a criação de um Tribunal de Esterilização para a emissão de sentenças definitivas, “todas as deliberações dos tribunais de esterilização (...) serão cumpridas, em caso de resistência, com o auxílio do poder público”.[15][16] Farías destaca a semelhança entre o anteprojeto de Salvador Allende e a "Lei para prevenir doenças hereditárias", promulgada em 1933 na Alemanha nazista[15]. Girauta diria sobre isso e sobre a tese apresentada por Allende: "Na realidade, (Allende) era um anti-semita convicto, um defensor da predeterminação genética dos criminosos que estendia o seu racismo aos árabes e ciganos, considerava que os revolucionários eram psicopatas perigosos que deviam ser tratados como doentes mentais, defendeu a criminalização da transmissão de doenças venéreas e defendeu a esterilização dos doentes mentais”.[17] Diante das denúncias de anti-semitismo, a Fundação Presidente Allende publicou carta de protesto dirigida a Adolf Hitler da qual Salvador Allende aparece como signatário.[18]"
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Leia também:
Projeto de Lei para Esterilização dos Alienados
Proposto por Salvador Allende, em 1939, quando era ministro da Saúde, para esterilizar doentes mentais e alcoólatras: “Toda pessoa que sofra de uma enfermidade mental que, de acordo com conhecimentos médicos, possa transmitir a sua descendência, poderá ser esterilizada, em conformidade às disposições desta lei” (apud NARLOCH, 2011: 295). Aos 25 anos, ao escrever uma tese racista, Allende se aproxima de Lombroso e dos nazistas, ao afirmar que “a raça influi na delinquência” (idem, pg. 293) e caracterizar os judeus “por determinadas formas de delito: fraude, falsidade, calúnia e, sobretudo, a usura” (idem, pg. 294). Leia “O nazista em Allende”, de Rodrigo Constantino, em https://www.institutomillenium.org.br/o-nazista-em-allende/, e “Herói da esquerda, Salvador Allende criou lei eugenista inspirada no nazismo”, de Bruna Frascolla, em https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/heroi-da-esquerda-salvador-allende-criou-lei-eugenista-inspirada-no-nazismo/.  
BIBLIOGRAFIA:

O princípio da Falseabilidade e a noção de ciência de Karl Popper - Por Wigvan Pereira

 

O princípio da Falseabilidade e a noção de ciência de Karl Popper

Por Wigvan Pereira

FILOSOFIA

Karl Popper foi um filósofo austríaco que desenvolveu o princípio de falseabilidade pelo qual contestava o princípio de verificabilidade dos filósofos do Círculo de Viena.

1) Dados biográficos

Karl Raimund Popper nasceu na Áustria, em 1902. Filho de judeus, emigrou para a Nova Zelândia em 1937, onde publicou, em 1945, a obra de filosofia política “A sociedade Aberta e Seus Inimigos”. Antes disso, em 1935, publicou a obra “Lógica da Investigação Científica”, considerada uma das obras mais importantes de filosofia da ciência. Faleceu em 1994, na Inglaterra, país que o acolheu a partir de 1946, conferindo a ele o título de Sir. Na Inglaterra, Popper publicou muitos de seus escritos e desenvolveu carreira docente na London School of Economics. Embora seu pensamento político seja muito conhecido, o que o tornou célebre foi o seu pensamento sobre a ciência que impactou filósofos e cientistas.

2) O Círculo de Viena

Karl Popper teve no início de sua formação a influência das discussões feitas no Círculo de Viena, uma associação fundada no final da década de 1920 por um grupo de cientistas, lógicos e filósofos que concentrava seus esforços em torno de um projeto intelectual. Tal projeto era o desenvolvimento de uma filosofia da ciência baseada em uma linguagem lógica e a partir de procedimentos lógicos com alto rigor científico.

O tema prioritário dos estudos desse grupo era a formulação de um critério que permitisse distinguir entre proposições com ou sem significação a partir do critério de “verificabilidade”. Assim, aquilo que não tivesse possibilidade de verificação deveria ser retirado do saber científico, como os enunciados metafísicos. A Física era o modelo que eles propunham para todos os enunciados científicos, ou seja, só aquilo que foi dito a partir de observações poderia ser considerado verdadeiro. Os enunciados que não pudessem ser examinados a partir da verificação empírica não tinham significação e, portanto, deveriam ser desconsiderados da ciência.

A verificação pode ser feita ainda de outra forma além do método empírico: por meio da aplicação da lógica para saber se há coerência no enunciado. Nesse caso, a verificação é feita por demonstração. Dependentes de constatações empíricas ou de demonstração lógico-matemática, as leis científicas para os pensadores do Círculo de Viena só poderiam ser a posteriori, ou seja, os enunciados científicos são constatações.

Desse modo, a proposição “Existe petróleo no meu quintal”, por exemplo, é possível de ser verificada e pode ser verdadeira ou falsa a partir da constatação feita, por exemplo, por uma escavação no solo. A proposição “A alma é imortal”, ao contrário, não é verificável, apesar de ser uma construção gramaticalmente correta e independente dos argumentos utilizados para prová-la. Segundo os pensadores do Círculo de Viena, a primeira proposição tem significação e valor cognitivo porque é verificável; a segunda, não.

Pelo critério de verificabilidade, era possível fazer uma distinção entre a Filosofia e a Ciência. O objetivo da Filosofia era, para Rudolf Carnap, um dos principais representantes do Círculo, o de estudar a natureza da linguagem científica, um estudo que compreenderia três processos: um sintático, pelo qual ela estabeleceria teorias a respeito das relações formais entre os signos; um semântico, pelo qual estabeleceria teorias a respeito das interpretações; e um pragmático, pelo qual estabeleceria teorias a respeito das relações entre a linguagem, o locutor e o ouvinte.

Outros pensadores importantes do Círculo de Viena foram Otto Neurath, Moritz Schilick e Ernest Nagel. A ascensão do nazismo repercutiu na formação do Círculo: Carnap e outros membros mudaram-se para os Estados Unidos; Hahn, Schilick e Neurath morreram. O movimento intelectual dispersou-se a partir de então.

3) O princípio da falseabilidade

princípio de verificabilidade dos pensadores do Círculo de Viena foi um dos principais pontos combatidos por Popper. Para ele, uma proposição poderia ser considerada verdadeira ou falsa não a partir de sua verificabilidade, e sim da sua refutabilidade (ou falseabilidade).

A observação científica, segundo ele, é sempre orientada previamente por uma teoria a ser comprovada, ou seja, a ciência que se baseia no método indutivo seleciona os fenômenos que serão investigados para a comprovação de algo que já se supõe. Por essa razão, o critério de verificabilidade nem sempre será válido.

O princípio proposto por Popper, em vez de buscar a verificação de experiências empíricas que confirmassem uma teoria, buscava fatos particulares que, depois de verificados, refutariam a hipótese. Assim, em vez de se preocupar em provar que uma teoria era verdadeira, ele se preocupava em provar que ela era falsa. Quando a teoria resiste à refutação pela experiência, pode ser considerada comprovada.

Com o princípio da falseabilidade, Popper estabeleceu o momento da crítica de uma teoria como o ponto em que é possível considerá-la científica. As teorias que não oferecem possibilidade de serem refutadas por meio da experiência devem ser consideradas como mitos, não como ciência. Dizer que uma teoria científica deve ser falseável empiricamente significa dizer que uma teoria científica deve oferecer possibilidade de refutação – e, se refutadas, não devem ser consideradas.

4) O conceito de ciência para Karl Popper

A noção de ciência para Karl Popper pode ser pensada a partir de dois pontos fundamentais: o caráter racional da ciência e o caráter hipotético das teorias científicas.

A ciência, como um projeto humano, não é impassível de transformação, o que possibilitou o surgimento de diversas teorias. O que há em comum entre esses modos variados de se fazer ciência, ele mesmo responde em sua obra Conjecturas e Refutações (1972): o caráter racional da ciência. Diz ele:Um dos ingredientes mais importantes da civilização ocidental é o que poderia chamar de 'tradição racionalista', que herdamos dos gregos: a tradição do livre debate – não a discussão por si mesma, mas na busca da verdade. A ciência e a filosofia helênicas foram produtos dessa tradição, do esforço para compreender o mundo em que vivemos; e a tradição estabelecida por Galileu correspondeu ao seu renascimento. Dentro dessa tradição racionalista, a ciência é estimada, reconhecidamente, pelas suas realizações práticas, mais ainda, porém, pelo conteúdo informativo e a capacidade de livrar nossas mentes de velhas crenças e preconceitos, velhas certezas, oferecendo-nos em seu lugar novas conjecturas e hipóteses ousadas. A ciência é valorizada pela influência liberalizadora que exerce – uma das forças mais poderosas que contribuiu para a liberdade humana.(POPPER, 1972, p. 129)¹

A racionalidade está relacionada também com duas outras características importantes da ciência: a busca da verdade e o progresso do conhecimento. Esse progresso do conhecimento científico, na concepção popperiana, não pode ser pensado a partir de uma “lei histórica”, e sim algo que acontece em virtude da própria razão humana a partir da possibilidade de discussão crítica. Assim, podemos perceber que seu projeto consiste em uma tentativa de preservar o debate livre e crítico e a avaliação constante das ideias para que essas sejam aperfeiçoadas. Assim, esse aperfeiçoamento ecoará no plano social.

O debate livre e crítico também aponta para o caráter hipotético das teorias científicas, pois elas sempre estão sujeitas a serem falseadas – ou não podem ser consideradas teorias científicas. Seu método foi conhecido como hipotético-dedutivo.

Notas

¹POPPER, K. R. Conjecturas e refutações. Brasília: UNB, 1972.


Por Wigvan Pereira
Graduado em Filosofia


Fonte: 

https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/o-principio-falseabilidade-nocao-ciencia-karl-popper.htm#:~:text=Com%20o%20princ%C3%ADpio%20da%20falseabilidade,como%20mitos%2C%20n%C3%A3o%20como%20ci%C3%AAncia

terça-feira, 20 de abril de 2021

Operação Mata Lacerda - Por História Oral do Exército - 31 Março 1964



Operação Mata Lacerda

Por "História Oral do Exército - 31 Março 1964"

Depoimentos


Lacerda tinha uma língua terrível

“Há um livro de memórias, muito interessante, do Roberto Campos, ‘A Lanterna na Popa’ – um livraço, com mil e trezentas páginas, por aí – que é uma pedrada nos imbecis! Ele conta a viagem do Lacerda à Europa, logo depois da Revolução, onde o Governador da Guanabara foi recebido com honras etc. e tal. E o francês, que é um cara chato, é chato que é danado, numa entrevista, no aeroporto de Orly, o jornalista perguntou:

- Governador, estão dizendo que foram os americanos que ajudaram esse Movimento.

O Lacerda tinha uma língua terrível. Respondeu:

- Como? Acho que você está enganado. O que foi feito com o apoio dos americanos foi a libertação da França.

Deu um pontapé no orgulho francês. O Lacerda era terrível! Era um gênio. E a entrevista continuou:

- Como é que o senhor pode explicar uma Revolução em que não correu sangue?

- Isso é muito simples. É porque as revoluções no Brasil são como os casamentos na França – respondeu o Lacerda.

De Gaulle não quis mais recebê-lo” (Coronel José Maria Covas Pereira, Tomo 3, pg. 164)

 

Jango tinha ódio mortal do Lacerda:

- Boicote à construção do Sistema Guandu

- Escolha para policiais da Guanabara optarem pelo Governo Federal

“O Jango tinha ódio mortal do Lacerda. Acredito que era mais fruto de inveja, porque ele era um incompetente, um bronco completo, um playboy de fronteira, que passara a juventude indo a cabarés e farras. Até mesmo depois de Presidente da República, ele organizava orgias num apartamento ao lado do Copacabana Palace, era a sua maior preocupação.

Enquanto o Lacerda era um tribuno, um jornalista respeitável. [entrevistador]

Um homem respeitado, que estava fazendo um excelente governo no Estado da Guanabara. O Jango adotou várias linhas de ação para destruir o Lacerda.

Primeiro foram ‘futricas’ para atingir a parte econômica do Estado, impedindo ou dificultando o Estado para tomar um empréstimo para fazer a obra da água que está aí até hoje. Nós temos água hoje graças a Carlos Lacerda.

O Lacerda conseguiu um empréstimo por fora, sem garantia do Tesouro, sem aval do Tesouro, sem garantia do Banco do Brasil, sem nada, apesar da oposição do Jango. No fim, ele provocou uma outra...

Lembrar que a Zona Sul do Rio de Janeiro não tinha água, era um inferno... [entrevistador]

Não tinha, eu morava na Zona Sul... Passavam-se vinte, trinta dias, sem pingar uma gota d’água.

Em Copacabana era uma coisa terrível. A solução veio com o Lacerda, valendo-se da água do Guandu, sozinho, sem nenhum apoio do Governo Federal. [entrevistador]

O Estado teve que custear tudo sozinho, apenas com apoio do BID, Banco Interamericano de Desenvolvimento, um empréstimo sem o aval do Banco do Brasil.

Tendo o Lacerda conseguido o empréstimo e dada partida no projeto da água, o Jango ficou desesperado e pôs em prática a ideia do Aberlardo Jurema, Ministro da Justiça, armando a seguinte armadilha: numa lei de aprovação do Orçamento da República, ele incluiu um artigo dando o direito aos policiais da Guanabara de optarem pelo Governo Federal. Os policiais da Guanabara eram aqueles que tinham ficado no Rio, na época da mudança da Capital para Brasília, e por decreto do Juscelino eles permaneceram aqui, para não desfalcar completamente a Polícia e o Corpo de Bombeiros do Estado, para a cidade não ficar abandonada. Em Brasília, só havia barraco naquela época – era a tal ‘Cidade Livre’ dos candangos – e o Goulart criou, então, essa possibilidade.

Inseriu esse artigo na Lei de Meios e com isso conseguiu esvaziar a Polícia. Ele tirou do Corpo de Bombeiros e da Polícia, em três ou quatro dias, cerca de dois mil bombeiros, três mil e tantos policiais militares e mais dois mil da Polícia Civil” (Coronel-Aviador Gustavo Eugenio de Oliveira Borges, Tomo 10, pg. 277).

Obs.:

Em 1964, o Coronel-Aviador Oliveira Borges era Secretário de Segurança do Governador da Guanabara, Carlos Lacerda.

Em seu depoimento, o Coronel Borges narra a “Operação Mata Lacerda”, em longa entrevista, com riqueza de detalhes, que não consta do presente “fichamento” porque os fatos são narrados abaixo pelo Coronel Renato Brilhante Ustra, irmão do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, autor dos livros “Rompendo o Silêncio” e “A Verdade Sufocada”.

Esses fatos são também narrados abaixo pelo General-de-Brigada Durval Antunes Machado Pereira de Andrade Nery.

F. Maier

 

Operação Mata Lacerda

“Em mais uma noitada, também numa boate em Copacabana, se não me engano, no Copacabana Palace, foi intentada uma ação que, se tivesse logrado êxito, teria sido fundamental para o fortalecimento do esquema militar do Governo João Goulart. As informações que tivemos indicam que, naquela madrugada, reuniram-se na boate, o Presidente da República, o Chefe da Casa Civil, General Assis Brasil, que acreditava no esquema militar, o General Pinheiro, Comandante da Brigada Paraquedista, e o Coronel Mafra, Chefe do Estado-Maior. O Presidente da República, que utilizava como guarda pessoal, em Brasília, os oficiais paraquedistas, estava se ligando à Brigada Paraquedista. Nessa noitada dos quatro, então, a decisão tomada foi a de que deveria ser ordenada a uma unidade paraquedista, a prisão do Governador Carlos Lacerda, quando de sua visita, na manhã seguinte, ao Hospital Miguel Couto, na Lagoa. O Lacerda deveria fazer a inauguração de uma ala destinada ao atendimento de emergência, no hospital. Tudo fazendo parecer que teria sido uma atitude de iniciativa própria dos paraquedistas, em desagravo a possíveis palavras ofensivas do Governador às Forças Armadas.

Mais uma vez não apareceu o planejamento, foi só coisa de boca. A ordem era verbal. Sabia-se que o Governador dispunha de forte esquema de segurança, lógico supor que tal ato desencadearia ações e reações bem além do controle, as quais poderiam levar a uma situação de grande intranquilidade, até mesmo em nível nacional. Ao amanhecer, o Presidente da República retornou a Brasília, e deu entrada no Congresso com o pedido de estado de sítio. Tal pedido seria retirado, sem qualquer explicação, após o almoço no mesmo dia.

(...)

Na GU Paraquedista o normal era o seguinte: sempre havia uma subunidade de prontidão, fosse ela do Grupo Paraquedista, do Batalhão Santos Dumont, do Batalhão Logístico, ou mesmo da Companhia de Engenharia. Naquela noite, estava de prontidão uma Bateria, do Grupo de Artilharia Paraquedista, comandada por um dos oficiais esquerdistas bastante comprometido. Então, a essa Bateria caberia a missão de prender o Governador Lacerda, mas tudo de forma a parecer uma reação intempestiva dos paraquedistas e não uma ação desencadeada mediante ordem.

Nada por escrito. Pessoas presentes na mesma boate, na qual houve a inusitada reunião e a não menos inusitada decisão, ouviram o que estava sendo decidido e um desses ouvintes comunicou, ainda na madrugada, ao Coronel Aragão, o oficial que estava de superior de dia na Brigada Paraquedista. Alguém na boate ouviu e denunciou:

- Olha, vai sair daqui uma ordem para prender e matar o Lacerda, prepara que a confusão...

O que fez o Aragão? Pegou o telefone, ligou para o Coronel Boaventura, Comandante do Grupo Paraquedista, e disse:

- Olha, vão utilizar uma Bateria do Grupo para prender o Lacerda. Vem para o quartel rápido.

O Coronel Aragão, ao mesmo tempo, pegou o telefone e ligou para o Coronel Gustavo Borges, o Secretário de Segurança do Lacerda.

- Olha, vão matar o Lacerda amanhã!

O Gustavo Borges me disse pessoalmente – conversando comigo dias atrás – que alertou o Lacerda, só que o Lacerda tomou uma atitude inesperada. Perguntando se iria cancelar a visita ao hospital, respondeu:

- Cancelar? Não, vou bem mais cedo, vou antecipar o horário.

O Coronel Boaventura dirigiu-se ao quartel e, ao chegar, reuniu os oficiais sabidamente não comprometidos com tal esquema, para evitar que, em último caso, houvesse a possibilidade de sair qualquer viatura do quartel. O que ele fez? Conversou comigo, que era subordinado de confiança dele, Oficial de Munições, e ordenou: ‘Pegue a chave do paiol, reúna a munição e não deixe ninguém entrar’; a seguir, mandou chamar os outros oficiais, o Abreu Morais, e determinou: ‘Olha, vocês neutralizem as viaturas, tirem a bateria, tirem o cabo da bateria’.

(...)

O Coronel Boaventura, imediatamente, dirigiu-se ao Quartel-General para tentar esclarecer a ordem, junto ao General Comandante, Alfredo Pinheiro Soares Filho. O Coronel Boaventura regressou ao Grupo e determinou uma reunião de oficiais, subtenentes e sargentos dentro do Cassino dos Oficiais. A reunião, faço questão de dizer, foi muito fiel ao estilo, ou seja: o Subcomandante da Unidade, os Comandantes de Bateria à testa e os sargentos e subtenentes à retaguarda. O Comandante chegou ao recinto, recebeu a apresentação, determinou que fosse comandado ‘descansar’ e proferiu as seguintes palavras:

‘Hoje pela manhã, recebi ordem do Comandante do Núcleo da Divisão Aeroterrestre, por intermédio do seu Chefe de Estado-Maior, para deslocar a Bateria de prontidão para a região do Hospital Miguel Couto, a fim de prender o Governador Carlos Lacerda. Pedi ao Chefe de Estado-Maior para falar com o General Comandante, no que fui atendido. Recebido em seu gabinete, solicitei que tal ordem, por conter características especiais e inusitadas, fosse a mim transmitida por escrito, conforme prevê o regulamento. O general disse que não pedira, de quem a recebera, por escrito e, portanto, não a daria por escrito. Respondi que enquanto não recebesse a ordem por escrito, não a cumpriria e me retirei do gabinete’.

Encerrando a reunião, disse o Coronel Boaventura aos seus oficiais e sargentos

‘Enquanto for Comandante, ordens como essas não serão cumpridas.’

Obviamente, o Coronel Boaventura foi exonerado.

Agora, para completar a história, a Subunidade que entraria no dia seguinte de prontidão seria a Companhia de Engenharia. A Subunidade começava o expediente às 7h30min. Até reunir a Companhia, iniciaram o deslocamento do quartel quase às nove horas, e o Lacerda já tinha se retirado há muito tempo” (Coronel Renato Brilhante Ustra, Tomo 5, pg. 246-248).

“Um dia de madrugada – 2h da manhã – fomos chamados ao quartel. Foi acionado o plano de chamada. No quartel, aquele alvoroço! ‘O que está acontecendo?’ ‘Uma operação para matar o Governador da Guanabara, Carlos Lacerda. Ele vai ser eliminado, vai haver agitação no Rio de Janeiro, o presidente vai pedir estado de sítio ao Congresso, justamente, pela agitação que vai ocorrer pela morte do governador’. Daí seria criada a república sindicalista comunista da América do Sul – que era o objetivo deles. E nós sabíamos por que a imprensa anunciava! Se pegarmos os jornais da época, vamos ver que isso estava quse todos os dias na imprensa. E estávamos com essa motivação.

Já tínhamos as nossas ligações com os grupos do Marechal Denys e do General Aragão, Moniz de Aragão. A nossa ligação era o Capitão Tarcísio, Assistente do General Aragão – Coronel Tarcísio, hoje. Deles, veio a informação sobre a operação ‘Mata Lacerda’. O nosso comandante chegou e disse assim: ‘Estou sendo chamado para ir ao comando do Núcleo da Divisão Aeroterrestre’. Não era mais o General Santa Rosa, que havia sido movimentado para outra função. Era o General Alfredo Pinheiro, paraquedista, conhecido por ‘Faz Tudo’. O Coronel José Aragão Cavalcanti, nosso comandante – não era parente do General, havia sido professor de geopolítica, na AMAN -, reuniu os oficiais, nós já estávamos movimentando a tropa, armando o pessoal, aquela movimentação de uma prontidão, um aprestamento em ordem-de-marcha, isso de madrugada. Ele disse: ‘Fui chamado para me apresentar, agora, ao comandante, no Núcleo da Divisão, no quartel-general, mas sei a missão que vou receber’. A missão que lhe seria dada de ‘deslocar o Regimento para emboscar e matar o Governador da Guanabara quando ele inaugurar o pavilhão do Hospital Miguel Couto, no Leblon, às 9h da manhã’. Claro que não iríamos fazer isso! Nem o nosso comandante! Ele seguiu para o quartel-general e nós ficamos aguardando.

Retornou, dizendo que falou para o General Pinheiro que já sabia do planejamento a ser executado. A missão que ele recebeu foi a seguinte: ‘Coronel, o Brasil já está em estado de sítio. O Presidente acabou de solicitar ao Congresso o estado de sítio, porque o Governador da Guanabara está agitando o País e tem que ser preso. Você vai prendê-lo’. Ele disse: ‘Não é isso que sei, General. Não houve o pedido ainda, de estado de sítio. O Congresso está fechado. Não amanheceu ainda e a sessão do Congresso vai ser realizada de manhã. O pedido não ocorreu. Sei que vai ser ao contrário – nós vamos matar o Governador Lacerda – aí sim, vai haver motivo para o estado de sítio. Essa missão o senhor não pode me dar’.

O Chefe do Estado-Maior do Núcleo da Divisão Aeroterrestre – Coronel Mafra – disse para o General: ‘Deixa, vamos chamar o comandante do Grupo de Obuses Aeroterrestre’. Na época, era o Coronel Francisco Boaventura Cavalcanti Júnior. Só que estávamos em ligação permanente – o nosso Regimento com o Grupo – 24 horas em contato. O Coronel Boaventura foi ao quartel-general e respondeu da mesma maneira para o Chefe do Estado-Maior.

Sabendo que a missão seria cumprida de qualquer maneira, o Coronel Aragão determinou que um oficial do Regimento Santos Dumont se deslocasse para a porta de cada unidade paraquedista, para observar a movimentação. Depois de uma hora, mais ou menos, vem o Tenente José Alves Machado, de carro, meu companheiro de turma – que tinha sido designado para verificar a situação do Grupamento de Unidades Divisionárias, aquela série de Companhias de Serviços que formam um grupamento, ao comando de um oficial superior. Pois não é que o Chefe do Estado-maior se dirigiu à Companhia de Engenharia para comandá-la na operação ‘Mata Lacerda’. O Alves Machado, quando viu que a Companhia já estava se preparando para sair, e ia sair mesmo, retornou ao Regimento e avisou ao nosso comandante. Foi instantâneo. Sem ordem, todos nós embarcamos no comboio para sair, para impedir a passagem daquela Companhia que tinha a missão de eliminar o Governador da Guanabara.

Não queríamos que o Brasil entrasse em uma guerra civil, quando sabíamos que o inimigo era outro. Mais uma cilada, planejada para envolver os militares, para envolver as Forças Armadas, como aquela em que fui envolvido em Xerém contra aquele ‘grupo dos onze’ que, na verdade, era para proteger o terreno dos sócios do Automóvel Clube do Brasil! Quando nós corremos para embarcar, o Coronel Aragão apitou, reuniu os oficiais e disse: ‘Não precisa, calma. Já falamos com o Governador Lacerda que a Companhia de Engenharia iria sair. Não, não, não se preocupe’. Às 4h da manhã, o Major Monção, que era paraquedista, ligara para o Governador Carlos Lacerda, que estava em Petrópolis, na sua casa – casa do governador – e o avisou. O que ele fez? Inverteu as inaugurações daquela manhã. O pavilhão do Hospital Miguel Couto que estava previsto para as 9h, passou para as 5h. O Coronel Aragão disse: ‘Deixa a tropa sair. A Companhia de Engenharia pode se deslocar. Não vai haver problema nenhum’. Vamos ver quem mora perto? Tenente Brandão: ‘Eu moro em frente ao hospital’. O Coronel Aragão determinou que ele ligasse para a sua casa e ficamos aguardando. O Brandão, pelo telefone, ia passando para nós o que a sua esposa na janela, olhando o que acontecia na porta do Miguel Couto, transmitia.

A Companhia de Engenharia saiu? [entrevistador]

Saiu, sim. Incrível! O Coronel Mafra entrou na Companhia de Engenharia composta de um capitão, três tenentes e quinze sargentos, aproximadamente, todos jovens. Sabe como é a tropa paraquedista – aguerrida, bem treinada- autoestima – ele chega e diz: ‘Capitão, tem uma missão. Reúna os seus oficiais e sargentos. Tem uma missão para paraquedista, muito importante. Quem estiver com medo pode se retirar. Alguém está com medo?’ Meu Deus! Jovens oficiais, jovens sargentos vão dizer para um chefe que estão com medo! ‘Então, armem-se e vamos embora. Eu vou comandar a Companhia’. E assim ele saiu.

Cabe lembrar que apareceram quatro oficiais paraquedistas armados de fuzis com lunetas. Sabíamos, desde o início, que aquela missão fora planejada no apartamento no. 15 do Anexo do Copacabana Palace, então apartamento do Presidente da República João Goulart. Contou com a presença do então Governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, do Ministro da Justiça, Abelardo Jurema, do Comandante da tropa paraquedista, General Pinheiro, e do Coronel João Sarmento, do Gabinete Militar. Planejaram que a solução para antecipar a criação da república sindicalista comunista seria criar um caos no Estado da Guanabara, com a decretação do estado de sítio. E como criar um caos? Aí, o general paraquedista disse: ‘Deixa comigo, isso é missão para paraquedista’ – tropa pretoriana. A ordem para prender e ‘atirar para matar’ Carlos Lacerda na manhã do dia 4 de outubro de 1963, quando da sua visita ao Hospital Miguel Couto, no Leblon, foi transmitida naquele apartamento, ao General Alfredo Pinheiro, pelo Ministro da Justiça, Deputado Abelardo Jurema, que esclareceu ao General Pinheiro que o Ministro da Guerra, General Jair Dantas Ribeiro, estava a par de todo o plano e dera sua aprovação. Nós estávamos sendo usados como tropa pretoriana. O General Pinheiro, dali mesmo, ligou para o oficial que estava de Superior-de-Dia no quartel-general – o qual representava o comandante na ausência deste – ‘Capitão, desencadeie o plano de chamada que nós temos uma missão para a tropa paraquedista’.

Mas o que ele não sabia era que nós, do Regimento Santos Dumont e do Grupo de Artilharia, já estávamos no quartel. Já tínhamos sido avisados daquela reunião, durante toda a madrugada regada a uísque. Sabíamos de todos os detalhes da reunião. Por isso, quando o Coronel Aragão recebeu a missão do General, ele disse: ‘Não é isso, General Pinheiro, tenho a certeza do que está ocorrendo’.

(...)

A esposa do Tenente Brandão ficou da janela anunciando: a tropa chegou, desembarcou, os soldados deitaram, ocuparam posição... Depois de mais de uma ou duas horas, lá pelas 11h da manhã, ela disse: ‘Alguém se levantou, está vindo na direção do prédio, no térreo’ – era um bar. Foi, realmente, um oficial que ligou para dizer: ‘Não apareceu ninguém!’ Depois disso, deram ordem para retrair. Essa foi a operação ‘Mata Lacerda’. Os quatro oficiais que estavam armados com fuzis e lunetas, que não pertenciam à Companhia de Engenharia, foram com a missão de eliminar o governador. A esposa do Tenente Brandão viu esses oficiais, com os respectivos fuzis e com as lunetas, nas mãos. Ela era esposa de um oficial – ela sabia o que estava dizendo – ela falou em fuzil dom luneta.

(...)

(...) O inquérito foi aberto, queríamos ser ouvidos. Surpresa! O Major Monção foi transferido para o interior do Brasil, para ficar bem longe, justamente aquele oficial que ligou para o Governador Lacerda e avisou. Mais tarde, merecidamente, foi promovido a General. Todos os oficiais que participaram ou que sabiam da história não foram ouvidos no inquérito.

O Major Monção fez uma carta, que foi publicada nos jornais da época, contando a verdade. Um escândalo, um escândalo! Nós exigimos o inquérito, queríamos ser ouvidos no inquérito e o que ocorreu? O General Pinheiro, Comandante da Brigada, o General ‘Faz Tudo’, é bom lembrar, mandou reunir os oficiais do Regimento Santos Dumont. Entra, com uma garrafa de uísque debaixo do braço, fardado, como Comandante, e diz: ‘Companheiros, vim aqui para falar com vocês, roupa suja se lava em casa. Nós não devemos comparecer ao inquérito para contar o que houve’. Abriu a garrafa de uísque. Com a exceção de uns dois ou três, fomos nos retirando do local e ele ficou ali para beber o seu uísque. Esse era o Exército, o Núcleo da Divisão de Paraquedistas, em 1962 e 1963.

Por terem se negado a comandar a ‘Operação Mata Lacerda’, também foram transferidos para o interior do Brasil, os coronéis José Aragão Cavalcanti e Francisco Boaventura Cavalcanti Júnior, comandantes do Regimento Santos Dumont e do Grupo de Obuses Aeroterrestre, respectivamente” (General-de-Brigada Durval Antunes Machado Pereira de Andrade Nery, Tomo 10 pg. 163-167).

“O Comandante do nosso Rebimento [Santos Dumont, paraquedista] – o Tenente-Coronel José Aragão Cavalcante – foi instado por um grupo de oficiais, notadamente pelos então capitães Carlos Alberto de Lima Mena Barreto e Acrísio Figueira, para que ele passasse a ter uma segurança permanente de dois oficiais. Depois desse evento – atentado ao Lacerda, do qual o Coronel Aragão não admitiu que o seu Regimento participasse – e as evidências, como disse, eram gritantes – de indisciplina e da ação deletéria ideológica marxista-leninista, com todos os seus panfletos distribuídos nos quartéis, vilas e clubes militares – o Coronel passou a ser escoltado, ora pelo Capitão Paulo Rubens Brandão, ora por mim, que era solteiro e ambos morando no Leblon e Ipanema. Íamos no jipe dele, e ele não vinha diretamente para o quartel. Veja a que ponto as coisas chegaram!

Ele se dirigia para a chamada ‘área A’, que é na região de Vila Valqueire, onde moravam os oficiais, onde morava o Tenente Adalto Luiz Lupi Barreiros, o Tenente Gilseno Nunes Ribeiro, o Tenente Andrade Nery – Durval Antunes Machado Pereira de Andrade Nery -, que era da minha Companhia, onde morava o Tenente Eglair Barcellos Alves e, a partir daquele ponto, era que o Coronel Aragão se deslocava, com um cortejo dos seus oficiais, para o quartel, para assegurar que ele estava em segurança e não seria alvo de uma ação, no prosseguimento desses atos” (Coronel Francimá De Luna Máximo, Tomo 11, pg. 202-203).

Obs.:

O Coronel Aragão, antes de ser transferido, ficou preso por 30 dias (Cfr. Tomo 10, pg. 168).

F. Maier

“Quando nós o procuramos para protegê-lo, em 1954, dissemos: ‘Carlos, nós temos a obrigação de defender a sua integridade, porque você é o único que pode falar aquilo que desejamos e não podemos. Não podemos, porque o regulamento proíbe, porque não temos a sua capacidade, a sua eloquência, a sua dialética e os seus conhecimentos do Partido Comunista’.

‘Nós sabemos o que queremos, a democracia, mas não temos os meios que você tem, então vamos protegê-lo, dar segurança para que você possa continuar nessa campanha’. E a sua campanha infernizou o Jango e sua malta.

Tanto ele incomodava, tanto ele era líder que o Jango tentou mata-lo várias vezes. O Getúlio também tentou...

Vocês vão ver no livro, antes do atentado da Tonelero que alguém da guarda pessoal do Getúlio tentou matar o Lacerda, jogando uma bomba de dinamite numa lancha, quando a gente estava atracando na Ilha de Paquetá. Eu estava a bordo da lancha, ninguém me contou, eu vi explodira a banana de dinamite.

Como escaparam? [entrevistador]

Foi uma questão de segundos. A banana de dinamite caiu na água, abriu um rombo na lancha por baixo e na hora nós não percebemos. Descemos da lancha e mal tínhamos passado pelo pontão, aquela ponte de atracação das barcas, veio um marinheiro corrento e afirmando que a lancha estava afundando.

Nós corremos para ver que realmente já estava com água pela metade, arrastamos a lancha para a praia e apareceu o rombo, tipicamente provocado por dinamite” (Coronel-Aviador Gustavo Eugenio de Oliveira Borges, Tomo 10, pg. 294-295).

“Três meses antes do assassinato do Major Rubem Vaz, colegas da Diretoria de Rotas, tentaram cooptar-me. Recusei a proposta com essas palavras: ‘É muito caro para a Nação contratar um Major para guarda-costas particular de um político. Esse político é inimigo da família Vargas e não duvido de que alguém da guarda pessoal do Presidente possa matar o Lacerda. Como vocês são amadores e bala não tem endereço, pode acontecer que uma delas bata na testa’ – toquei o dedo na testa do Souza Leão – e aí o Cotonifício Bezerra de Melo vai perder um sócio ilustre. Souza Leão era Major-Aviador e meu colega de turma. Retirei-me da reunião – era aniversário de um dos colegas – dizendo que a função de Major-Aviador merecia tratamento mais digno. O episódio me colocou em oposição declarada, ficando eu mais uma vez marcado pelos futuros ganhadores da Revolução de 31 de Março de 1964.

Três meses depois, o Vaz foi morto pelo pistoleiro João Alcino, amigo e comparsa dos homens da Guarda Pessoal do Presidente, entre eles Gregório Fortunato e um tal de Climério. No instante em que João Alcino atirou em Lacerda, seu guarda-costas do dia, o Major Rubem Vaz, estava na porta da casa do Lacerda – Rua Tonelero, em Copacabana – e correu para pegar sua pistola .45 que estava no porta-luvas do seu carro. João Alcino o matou pelas costas, exatamente após abrir a porta do carro e abaixar-se na tentativa de pegar a arma. Eu tinha razão – os guarda-costas de Lacerda eram amadores” (Major-Brigadeiro-do-Ar Rui Barbosa Moreira Lima, Tomo 12, pg. 45).

“Entre os civis, os mais destacados, sem dúvida, foram (...); o Governador da Guanabara, Carlos Lacerda, um crítico mordaz do Governo, que, por pouco, não foi morto numa trama diabólica arquitetada em reunião presidida pelo próprio Presidente da República, na qual se encomendou o seu assassinato ao General Pinheiro, Comandante do Núcleo da Divisão Aeroterrestre, que, por uma série de motivos, não conseguiu colocar em execução o plano. Por muito pouco ele não foi morto, porque houve recusa de vários comandantes de unidades paraquedistas em cumprir a missão, até que um aceitou e saiu para executá-lo e acabou não tendo êxito, por um estratagema no qual o Governador, ao ser informado do problema, fez uma mudança no horário de uma inauguração” (General-de-Exército Luiz Gonzaga Schroeder Lessa, Tomo 10, pg. 64).

 

Desinformação da KGB: Caso dos mendigos jogados no Rio da Guarda

“Esse documento que mostro aqui para as câmeras é a história do Departamento de Desinformação da KGB. A KGB criou esse Departamento para fazer o que eles chamam de desinformátsiya. Trata-se de indicar informações passadas – falsas, incompletas ou dúbias – fornecidas ou confirmadas a outros países, a fim de fazer com que seus governos cheguem a conclusões errôneas sobre a Rússia, sendo, inclusive, induzidos a ações benéficas para com a Rússia.

Essa máquina continua, é feito máquina sem freio, tomou aquele embalo e não cessa. Caiu o Muro de Berlim, caiu a União Soviética, mas eles continuam funcionando dentro de todos os jornais com a desinformátsiya.

Esses documentos do Departamento de Desinformação da KGB, pela sua influência e pelos seus danosos resultados, tratarei mais a fundo no meu próximo livro.

As grandes operações da desinformátsiya aqui no Rio de Janeiro foram o caso dos mendigos e o caso do Brigadeiro Burnier. Dizem que o Burnier ia explodir o gasômetro, no caso do Sérgio Macaco – um trapalhão que conseguiu promoções na Justiça ao arrepio da lei. Um absurdo! Como um Capitão Intendente sem os Cursos de Aperfeiçoamento e de Comando e Estado-Maior chega a Brigadeiro?! É o próprio Samba do Crioulo Doido, é a negação a tudo que está escrito sobre promoções, prejudicando a imagem do Judiciário!

A questão dos mendigos começou com um fato concreto, realmente estavam matando mendigos e jogavam os cadáveres no Rio da Guarda. Amarravam as mãos do mendigo atrás, davam uma bordoada na cabeça e jogavam no Rio da Guarda, de cima de uma ponte.

Até que uma mendiga, não deram com força suficiente, acordou, era exímia nadadora porque era filha de pescador, e nadou até a margem, apesar de estar com as mãos amarradas, foi batendo o pé, encalhou na areia. Um caboclo a salvou e a levou para a delegacia.

Mas ela era completamente demente, levou uns quinze dias dizendo coisas sem nexo. Aos poucos, o delegado de Santa Cruz conseguiu formar uma história coerente, abriu um inquérito e me comunicou.

Saí correndo e fui avisar o Lacerda, uma coisa horrorosa estava acontecendo, já havia mais de dez mendigos, dez cadáveres encontrados no Rio da Guarda, e a Última Hora estava dizendo que ele estava matando mendigos.

Ele mandou abrir um inquérito administrativo e policial. O delegado de Santa Cruz tinha traçado a origem como sendo o Serviço de Mendicância, que era em Olaria, um abrigo de mendigos administrado pela Polícia.

Mandei cercar o lugar com a PM e prendi todo mundo que estava lá dentro, do último mendigo até o chefe que era policial de carreira, prendi todo mundo. Foram todos para o Regimento de Cavalaria da Polícia Militar e lá tudo foi esclarecido.

Era um guarda civil antigão, nomeado muito antes do Lacerda assumir o Governo, que começou a dizer para os outros que ele falava com Cristo. Falava com Jesus Cristo e que Jesus Cristo o tinha encarregado de beneficiar os mendigos sob sua guarda que ele achasse irrecuperáveis, os quais deveria matar e jogar no rio.

Ele se mancomunou com o motorista, cujo nome já diz tudo, o apelido era ‘Tranca Ruas’, a gente já vê que não era boa coisa. Ele levava os mendigos para o Rio da Guarda junto com esse motorista e matava. A Última Hora fez um escarcéu tremendo.

A KGB espalhou isso no mundo inteiro, recebi telegramas de uns quatro ou cinco países, apelando para que eu parasse de matar mendigos. O Lacerda então recebeu pilhas. Peguei todos esses telegramas, fiz um cálculo, porque conhecia o sistema de tarifa de telegramas: a KGB gastou da ordem de 600 mil dólares só de telegramas, foi quanto custou essa campanha dos mendigos. E, anos depois, vinha gente me perguntar: ‘Mas, Coronel, é verdade que o senhor matava mendigo?’, porque as notícias da Última Hora eram categóricas: ‘ele mandou, foi ele que tramou, foi ele que imaginou, que mandou a Polícia segurar os mendigos e matar com uma bordoada na cabeça’, prejudicando o Governo e a imagem do Lacerda também, já nem falo na minha pessoa.

Faz sentido o Governador Lacerda sair das suas obrigações para mandar matar mendigos a bordoada? Mas o povo acreditava, pois era dito tantas vezes, com tanta firmeza...

Há um filósofo francês que diz: ‘Menti, menti, caluniai, sempre ficará alguma coisa.

Gramsci, membro do Comitê Central do Partido Comunista Italiano, usava isso” (Coronel-Aviador Gustavo Eugenio de Oliveira Borges, Tomo 10, pg. 302-304).

Obs.:

Cansei de ver, em debate na TV, a professora e deputada Sandra Cavalcanti, que foi Secretária de Serviços Sociais do Governo Lacerda, ser acusada por adversários políticos, como Miro Teixeira, de ser responsável pela morte de mendigos, jogados no Rio da Guarda e no Rio Guandu. Cfr. em https://pt.wikipedia.org/wiki/Sandra_Cavalcanti.

F. Maier

 

Lacerda ficou 48h acompanhando reparo da Adutora Guandu

“Entre os civis, destacaria, sem dúvida, em primeiro lugar, Carlos Lacerda. Homem de talento, bravura e idealismo, conseguiu ser o maior tribuno de todos os tempos no nosso parlamento. Na Revolução foi um bravo. Destacou-se como administrador. Compartilhei da sua ação administrativa, onde mostrou que não era apenas um demolidor, mas sabia construir, também. Lembro-me de que poucos dias depois de assumir o Governo do Estado da, então Guanabara, começou a faltar água. A adutora do Guandu estourou e o Rio de Janeiro ficou sem água. Normalmente, nesses casos, o governador expede suas ordens e fica em casa. Era um fim de semana. Lacerda foi pra lá e ficou mais de 48 horas sem arredar um instante, comendo sanduíche e em pé. Eu disse: ‘Governador, o senhor precisa descansar’. Ele respondeu: ‘Não saio daqui, enquanto o Rio de Janeiro não voltar a ter água. Faço questão de dar o exemplo’ ” (Doutor Emílio Antonio Mallet de Souza Aguiar Nina Ribeiro, Tomo 10, pg. 253).

 

Lacerda, criador de anedotas infames

“Aberta a sucessão, o nome do Ministro Costa e Silva naturalmente surgiu. Eu e Jubé identificamos uma campanha difamatória contra ele, uma série de anedotas deste nível: ‘Ele usa óculos escuros, porque ao ver o verde da grama, vai querer pastar’.

Decidimos levantar a origem dessas piadas infames e maldosas. A melhor maneira de destruir alguém é fazê-lo via anedota. Ridicularizar através de um humorismo inteligente, porém difamante, é pior que uma bomba nuclear, destrói qualquer coisa. Aquilo me preocupou pois era publicado na Imprensa, minha área. As investigações descobriram que as anedotas eram lançadas nos corredores do Congresso, trazidas por um oficial – não vou dizer se da Marinha ou da Aeronáutica – da assessoria parlamentar. Ele foi seguido e descobrimos que frequentava o Gabinete do Carlos Lacerda, na Galeria Avenida, no Rio de Janeiro, de onde as anedotas saíam. Lacerda estava preocupado com o crescimento da candidatura de Costa e Silva. (...)

Devo dizer que levava as anedotas ao conhecimento do Costa e Silva, que as achava engraçadas e até ria. (...)

Descoberta a origem, ficou mais fácil o combate. Quando diziam que era imbecil, que se tratava de um boçal, que Costa e Silva não servia nem para sargento, imprimíamos uma fotografia dele e no verso colocávamos um currículo resumido. No final, esclarecíamos que Costa e Silva fora o primeiro colocado da Infantaria na Escola Militar de Realengo, mesma turma de Castello [7º. Colocado]” General-de-Exército Oswaldo Muniz Oliva, Tomo 7, pg. 57).

“Encontrava-me na sala de aula [ECEME] com mais alguns companheiros, quando foram chamados oficiais dispostos, aqueles que ‘topavam qualquer parada’. (...) O Coronel Figueiredo (João Baptista de Oliveira Figueiredo), instrutor, dirigiu-se a nós:

- Nós os escolhemos porque tempos confiança em vocês e vamos cumprir uma missão muito árdua. O Palácio Guanabara enviou um pedido para que mandássemos alguns oficiais para organizar a defesa do Palácio, sede do Governo do Estado, onde se encontrava o senhor Carlos Lacerda e o pessoal mais chegado a ele. Consta que vão ser atacados pelos fuzileiros navais do Aragão; já estão lá três ou quatro oficiais da Aeronáutica, comandados pelo Coronel Burnier, que confessam não saberem fazer defesa terrestre. A Escola só pode dar a condução de ida para vocês. Alguém não deseja ou não aceita a missão?

- Não senhor! – respondemos – nós iremos” (Coronel Godofredo de Araújo Neves, Tomo 7, pg. 160).

 

Frente Ampla: suicídio político de Lacerda

“O AI-2 extinguiu os partidos, criando o bipartidarismo, e adotou uma série de outras medidas, mas o mais importante não foi feito, fruto do firme desejo de Castello, a reeleição do Presidente. Automaticamente, abriu a sucessão. Talvez não tenha pensado nessa consequência.

Nesse momento, quando ele abriu a sucessão, Lacerda surgiu como candidato, mas Costa e Silva, também, passou a ser um nome poderosos, preferido dos militares e alguns políticos. Lacerda erradamente, a meu ver, resolveu fazer uma reunião em Portugal para criar a Frente Ampla, com Jango e Juscelino. Nesse instante, perdeu a confiança nele depositada. (...)

(...)

Lacerda era o nosso candidato, mas passou a atacar a Revolução, distanciando-se do apoio militar. Começou a errar e a ‘engrossar’, quando Castello decidiu transformar a eleição em indiretas. Milton Campos, Ministro da Justiça, homem da mais alta dignidade, foi convocado para enviar mensagem ao Congresso, a respeito do assunto. Castello chamou Magalhães Pinto e Lacerda, dois líderes civis da Revolução, à Brasília, para contar-lhes. Nenhum dos dois receber as acusações, justa ou injustamente lançadas sobre Adhemar de Barros, que foi essencial para a Revolução. Lacerda saiu do Palácio, chegou ao Rio e, na televisão, desafiou Castello a manter a eleição direta, já sabendo que seria indireta.

Tao atitude de Lacerda deixou Castello muito aborrecido. No instante em que Lacerda antagonizou-se com Castello, ficaram dois candidatos militares, Oswaldo Cordeiro de Farias e Costa e Silva” (General-de-Exército Oswaldo Muniz Oliva, Tomo 7, pg. 59-60).

“Por uma questão de idoneidade histórica, vou criticar um pouco o próprio Governador Lacerda de quem fui tanto amigo. Quando ele achou que era seu dever participar da ‘Frente Ampla’, lealmente fui à presença dele e disse-lhe: ‘A partir desse momento não lhe sirvo mais, embora continue lacerdista. O senhor é que está deixando de sê-lo’. Ele tomou um susto, ficou espantado e, também, achou engraçado. Passados os anos, voltamos a nos visitar e estreitar o nosso relacionamento, até o seu perecimento. Naquele momento, creio que estava mal-aconselhado ou mal-inspirado.

Ele possuía uma inteligência brilhante e o gênio tem esses  altos e baixos. Naquele momento, infelizmente, me permiti discordar. Não era um robô, mas um adepto sincero de suas ideias. Foi um dos líderes incontestes da Revolução de 1964” (Doutor Emílio Antonio Mallet de Souza Aguiar Nina Ribeiro, Tomo 10, pg. 253-254).

“Há uma passagem do Governador Carlos Lacerda, que foi um homem decisivo na época da Revolução para a vitória do Movimento. Ele tinha ambições de ser Presidente da República e quando os elementos militares mais radicais, vamos falar assim, não queriam que se passasse logo o governo para um civil, quando Lacerda percebeu que não seria o candidato nas eleições que deveriam vir em seguida... ele saiu com uma frase que os jornais estamparam na época, para nós considerada uma ofensa grave ao Marechal Humberto Castello Branco. Ele diz: ‘Eu acho que o Marechal Castello Branco é mais feio por dentro do que por fora.’ Um homem que tinha sido um dos líderes da Revolução, só porque se viu tolhido e frustrado por não poder se candidatar à presidência logo em seguida, como sonhara, se voltou contra nós. E vamos ver, logo em seguida, uma reunião que houve de Lacerda, Jango e creio que Juscelino, com a ideia de formar uma frente ampla para tratar dos interesses de seus líderes” (General-de-Brigada Acrísio Figueira, Tomo 14, pg. 150).

Obs:

A título de informação, o Ministro San Thiago Dantas desejava unir todas as esquerdas em uma “Frente Única” (1963), para dar suporte consistente ao Governo João Goulart e suas “Reformas de Base”. Os partidos comunistas e o exibicionismo de Brizola impediram a formação dessa Frente. A “Frente Popular” de Jango, com o PCB e as organizações dominadas pelo “Partidão”, foi o que sobrou da pretensa “Frente Única”.

A “Frente Única” pelo menos serviu como inspiração para a moda da década de 1960, sendo uma peça feminina bastante “sexy” – ao mesmo tempo em que debutavam as chinelas hawaianas e a camisa “ban-lon”, também conhecida como “camisa volta ao mundo”.

F. Maier


BIBLIOGRAFIA: 

MOTTA, Aricildes de Moraes (Coordenador Geral). História Oral do Exército - 1964 - 31 de Março - O Movimento Revolucionário e sua História. Tomos 1 a 15. Bibliex, Rio, 2003


Obs.:

Os 15 Tomos da "História Oral do Exército - 31 Março 1964" podem ser baixados em:

Tomo 1

https://bdex.eb.mil.br/jspui/bitstream/123456789/7104/1/31_Marco_1964-Tomo-1.pdf 

Tomo 2

https://bdex.eb.mil.br/jspui/bitstream/123456789/7105/1/31_Marco_1964-Tomo-2.pdf 

Tomo 3

https://bdex.eb.mil.br/jspui/bitstream/123456789/7339/1/31_Marco_1964-Tomo-3.pdf

Tomo 4

https://bdex.eb.mil.br/jspui/bitstream/123456789/7340/1/31_Marco_1964-Tomo-4.pdf 

Tomo 5

https://bdex.eb.mil.br/jspui/bitstream/123456789/7341/1/31_Marco_1964-Tomo-5.pdf 

Tomo 6

https://bdex.eb.mil.br/jspui/bitstream/123456789/7342/1/31_Marco_1964-Tomo-6.pdf 

Tomo 7

https://bdex.eb.mil.br/jspui/bitstream/123456789/7343/1/31_Marco_1964-Tomo-7.pdf 

Tomo 8

https://bdex.eb.mil.br/jspui/bitstream/123456789/7344/1/31_Marco_1964-Tomo-8.pdf 

Tomo 9

https://bdex.eb.mil.br/jspui/bitstream/123456789/7345/1/31_Marco_1964-Tomo-9.pdf 

Tomo 10

https://bdex.eb.mil.br/jspui/bitstream/123456789/7346/1/31_Marco_1964-Tomo-10.pdf 

Tomo 11

https://bdex.eb.mil.br/jspui/bitstream/123456789/7347/1/31_Marco_1964-Tomo-11.pdf 

Tomo 12

https://bdex.eb.mil.br/jspui/bitstream/123456789/7348/1/31_Marco_1964-Tomo-12.pdf 

Tomo 13

https://bdex.eb.mil.br/jspui/bitstream/123456789/7349/1/31_Marco_1964-Tomo-13.pdf 

Tomo 14

https://bdex.eb.mil.br/jspui/bitstream/123456789/7350/1/31_Marco_1964-Tomo-14.pdf 

Tomo 15

https://bdex.eb.mil.br/jspui/bitstream/123456789/7351/1/31_Marco_1964-Tomo-15.pdf