MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O Bug do Milênio (o mundo não acabou, mas resolveu piorar) - Por Félix Maier

 

O Bug do Milênio

(o mundo não acabou, mas resolveu piorar)


Félix Maier

O ano de 2000 começou como começam os fins do mundo: com PowerPoint, atas, coffee break e uma convicção absoluta de que ninguém sabia exatamente do que estava falando. Chamava-se Bug do Milênio, um nome curto para um apocalipse longo, técnico e internacional. A profecia era clara: quando os computadores vissem o ano “00”, entenderiam “1900”, entrariam em pânico existencial e, como qualquer sistema nervoso mal programado, levariam tudo junto.

Aviões cairiam do céu como mangas maduras. Bancos esqueceriam quem devia a quem. Esgotos não tratados seriam liberados sem pudor — beberíamos merda líquida, como se fosse um novo isotônico. Mísseis nucleares, confusos com a data, poderiam ser lançados por engano, talvez para comemorar a virada do milênio. O Apocalipse Segundo Bill Gates.

No Ministério da Defesa, onde eu trabalhava, formou-se um Grupo de Trabalho — entidade mística que surge sempre que ninguém sabe o que fazer, mas alguém precisa parecer ocupado. Sentavam-se à mesa generais, coronéis e técnicos de informática. Os primeiros sabiam mandar, os segundos sabiam obedecer e os terceiros sabiam que nada daquilo fazia muito sentido.

— E se os radares pararem? — perguntou um general, franzindo o cenho como quem encara o fim da civilização.

— A gente reinicia — respondeu o técnico, com a serenidade de quem já tinha visto Windows travar coisa pior.

— Reinicia o quê? O país? — retrucou o general.

Fizeram-se planos de contingência. Simulações. Checklists. Alguém sugeriu imprimir tudo, por segurança. O papel, afinal, ainda não tinha bug. As empresas de TI faturaram como nunca. Atualizações, patches, consultorias, cursos, certificados, manuais em inglês traduzidos às pressas para português técnico — aquele idioma que ninguém entende, mas assina.

E então veio a noite de 31 de dezembro de 1999. O relógio correu. O mundo prendeu a respiração. O ano virou.

Nada.

Nenhum avião caiu. Nenhum míssil saiu por engano. O esgoto seguiu seu rumo habitual de purificação, que no Brasil já não era grande coisa. O bug, ao que tudo indicava, tinha sido vencido — ou nunca existira. O mundo não acabou. Mas algo, silenciosamente, começou a dar errado.

O terceiro milênio amanheceu com outro tipo de pane: a trilha sonora. Se o Bug do Milênio não derrubou sistemas informáticos, derrubou qualquer esperança de bom gosto. O funk espalhou-se pelas rádios e televisões como uma praga bíblica — daquelas que o Antigo Testamento teria vergonha de listar.

Um tapinha não dói atravessava paredes no Rio de Janeiro, numa casa vizinha à da minha sogra Zoé, durante uma noite inteira de férias de janeiro, em 2001. O volume não diminuía, o refrão não acabava, e a letra parecia escrita por alguém que tinha brigado feio com o dicionário.

— Isso é música? — perguntou dona Zoé, às três da manhã, com a dignidade de quem já sobreviveu à Segunda Guerra e a três planos econômicos.

— É o futuro — respondi, pessimista.

— Então o futuro devia pedir desculpas.

Na televisão, programas infantis ensinavam coreografias que sacrificavam joelhos e valorizavam lombares. É o Tchan, Eguinha Pocotó, Dança do Créu em festas juninas de escolas de 1ª à 5ª Série. Mães incentivavam, orgulhosas, como se estivessem preparando pequenos atletas para as Olimpíadas do Rebolado. O folclore, que antes tinha boi-bumbá, balaio e fogueira, foi sendo substituído por garrafas plásticas e coreografias que fariam corar um estivador do Porto de Santos em 1964.

Bailes se multiplicavam — em favelas, chácaras, ruas, clubes, iates, com muito pó branco. Tudo virou trenzinho. Tudo virou batida. Tudo virou excesso. O bug, afinal, não era tecnológico: era cultural.

Nas artes e na música, instalou-se o verdadeiro colapso sistêmico. Surgiram MCs tatuados, musculosos, adornados com correntes de ouro que fariam um navio mercante se sentir subequipado. Rapeavam platitudes sobre nada, com vento na cabeça e convicção no olhar, como se estivessem fundando uma nova Renascença — só que sem Leonardo, sem Michelangelo e sem vergonha.

Essa estética da gritaria, da pichação, da violência como marketing e da vulgaridade como virtude espalhou-se pelo mundo e foi rapidamente copiada no Paraíso do Vira-Bosta, onde tudo que é ruim chega rápido e tudo que é bom fica preso na alfândega.

O Brasil, que já teve Pixinguinha, Noel Rosa, Tom Jobim, Chico, Caetano, Elis, Milton, Gonzaga, virou um grande karaokê desafinado. O sertanejo universitário — que não é sertanejo nem universitário — passou a dominar tudo. Vozes agudas, sofridas, dramáticas, imitando Xororó e Zezé di Camargo como se fossem castrati modernos, castrados não pela arte, mas pelo algoritmo.

O Brasil, tão rico em música nos anos 1960 a 90, hoje é convidado a ouvir gritaria sertanojo, baixaria funk e lixo piseiro. Não mais em fitas K7, nem CDs, nem DVDs. Agora é streaming. O lixo, finalmente, ficou sustentável: reciclável, infinito, onipresente. Não apenas Veneza e Nova York estão afundando. O Brasil também submerge, lentamente, em sua própria indigência cultural.

— Isso é o sinal dos tempos? — perguntei a um amigo.

— Não. É só o gosto médio de um país ignorante.

Enquanto isso, um bug político se instalava com atualização automática. Em 2003, o Ogro de Nove Dedos ascendia ao poder, como se o país tivesse clicado em aceitar termos e condições sem ler nada. O sistema passou a travar moralmente, socialmente, economicamente. Corrupção virou rotina, escândalo virou ruído, indignação virou cansaço.

E então veio o telefone celular. A grande bênção se revelou também uma praga portátil. Uma bomba atômica de bolso. A juventude, agora, não tem tempo para livros — está ocupada demais masturbando a estrovenga tecnológica, rolando infinitamente, como hamsters digitais.

— Você já leu esse autor clássico? — perguntei a um amigo.

— Não, mas vi um resumo em 30 segundos.

O bug final talvez seja esse: uma humanidade que já não lê, não escuta, não espera — apenas desliza o dedo, convencida de que entender o mundo em meio minuto é sinal de progresso.

E antes que alguém diga que tudo começou agora, lembremos do Xou da Xuxa. Ilariê destronou cirandas, cantigas, músicas folclóricas. A infância passou a usar figurino, maquiagem, coreografia. Tudo muito colorido, tudo muito alegre, tudo muito cedo. A adultização não nasceu na internet. Só ganhou Wi-Fi.

Por isso causa espanto quando um influencer descobre hoje o que já acontece há décadas.

— Onde ele estava? — pergunto.

— Quem?

— O Felca.

— Em Plutão, talvez.

E como tudo que é ruim pode piorar, surge uma cena carnavalesca em que uma mulher adulta canta luxúria ao lado de uma criança em palco festivo, sob aplausos. É o caso de Ivete Sangalo, cantando Vampirinha: Vou te chupar, chupar teu pescoço, te chupar todin, chupar, chupar, chupar com gosto

Depois de tanto tempo normalizando a imundície, ainda há quem pergunte se dá para criticar. Dá. Sempre dá. O bug mais perigoso é achar que não dá mais.

O Bug do Milênio não destruiu sistemas informáticos. Desorganizou valores. O mundo não acabou em 2000. Mas desde então parece rodar sem antivírus.



quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

A chave mestra - Por Félix Maier

 

A Chave Mestra

Félix Maier

Tripé não nasceu Tripé. Ninguém nasce Tripé; a gente vira. O apelido, como todo apelido que presta, veio depois de um acidente sem vítimas, mas com testemunhas suficientes para atravessar gerações. Há versões. A mais aceita é a de que Tripé, além de uma estabilidade emocional invejável (para os padrões de quem troca de casa como quem troca de canal), era dono de um certo membro avantajado — vantagem essa que, dizem, lhe dava equilíbrio extra, como as pernas suplementares de um equipamento profissional. Daí o Tripé. O nome pegou, como chiclete em sapato novo.

Tripé era casado. Casado mesmo, com certidão, fotos amareladas e sogra de opinião formada. Mas Tripé também era, digamos, logisticamente ambicioso. Tinha uma chave mestra. Não no sentido metafórico — embora também —, mas literal: uma chave que abria quatro portas. A sua casa, a casa oficial, a matriz. E mais três casas de suas amantes fixas, filiais cuidadosamente administradas, cada uma com seu “ninho” preparado com zelo de gerente de hotelaria.

Tripé não era um qualquer. Era um profissional. Qual paxá islâmico, tratava as quatro com rigorosa igualdade, como manda a lei — a lei dele, claro. Em todas as casas, havia um só tipo de sabonete, sempre o mesmo, neutro, sem perfume acusatório. Um só tipo de perfume masculino, comprado em lote, para não variar a nota de cabeça e levantar suspeitas nas notas de rodapé. As mesmas toalhas de banho, brancas, felpudas, compradas no mesmo dia, na mesma loja Havan, para envelhecerem juntas. E, sobre a mesa da sala, os mesmos bombons Sonho de Valsa, estrategicamente dispostos, como quem diz: aqui também se sonha, mas sem exageros.

Tripé acreditava que o segredo da bigamia — e da tetragamia — era a padronização. Onde há padrão, há silêncio. Onde há silêncio, há paz. Sua vida ia firme como tripé de câmera fotográfica e de cinema: estável, com três pernas bem plantadas no chão. Era o orgulho do bairro, embora o bairro não soubesse exatamente do quê.

Ele tinha um cronograma. Segunda e quinta, matriz. Terça, filial A. Quarta, filial B. Sexta, filial C. Sábado era território neutro, reservado para churrascos familiares, jogos de futebol e cochilos estratégicos. Domingo, dependendo da rodada do campeonato e do humor da matriz, podia ser folga ou plantão extraordinário num outro ninho.

Tudo ia às mil maravilhas até o dia em que uma das passarinhas — chamemos de Beatriz, porque Beatriz sempre foi nome de mulher que faz poesia com pequenas maldades — resolveu inovar. Não por vingança declarada, não por desconfiança comprovada. Por intuição. E intuição, como se sabe, não pede provas; pede palco.

Beatriz colocou um lenço perfumado no paletó de Tripé. Um lenço discreto, elegante, com um perfume que não constava no manual de padronização do nosso herói. Não era um perfume qualquer: era um perfume com memória. Desses que entram no elevador antes da pessoa e ficam esperando o comentário.

Tripé não percebeu. Tripé raramente percebia. Sua confiança no sistema era tão grande que ele acreditava que o sistema se autorregulava. Vestiu o paletó, beijou Beatriz no rosto (gesto protocolar) e foi para casa da matriz, assobiando uma música antiga, dessas que não denunciam nada.

Na sala, a esposa — chamemos de Matilde, porque Matilde sempre sabe mais do que aparenta — sentiu o cheiro antes de vê-lo. O olfato feminino, esse radar de curto alcance e longo alcance ao mesmo tempo, captou a intrusa. Matilde não disse nada. Apenas esperou o jantar, o telejornal, o café. Depois, no momento exato em que Tripé se sentou para ler o Estadão — sim, Tripé é das antigas, jornal só no papel , Matilde perguntou, com a voz de quem pergunta o horário:

— Que perfume é esse?

Tripé travou. Não muito. Apenas o suficiente para derrubar uma perna do tripé imaginário. Disse qualquer coisa. Uma coisa genérica. Uma coisa que não ofende ninguém e não explica nada.

— Perfume novo da loja.

Matilde sorriu. O sorriso que não chega aos olhos. O sorriso que pede CPF na nota fiscal.

— Curioso — disse ela. — Porque não é o seu perfume.

Silêncio. O jornal caiu no chão, como caem as folhas nos romances russos quando alguém morre.

Matilde, coitada, quis saber quem era a filial. Mal sabia ela que havia uma rede de filiais, com tendência de expansão e talvez até franquias. Tripé, pressionado, tentou a estratégia do desvio: falou de trabalho, do trânsito, do preço da carne. Não funcionou. Matilde era do tipo que não se distrai com fumaça; ela quer ver o incêndio.

— Tem outra mulher? — perguntou, direto, sem rodeios, como quem pergunta se vai chover.

Tripé hesitou. E hesitar, nesses casos, é confessar em capítulos.

— Tem.

Matilde respirou fundo. Uma só? Era o que ela queria saber. Uma, dava para lidar. Uma é erro humano. Uma é crise passageira. Uma é terapia de casal. Tripé, então, resolveu ser honesto — honestidade seletiva, claro.

— Não exatamente uma.

Foi aí que Tripé desabou de vez.

O que Tripé não contava — e esse foi o erro fatal, o detalhe que nenhum manual prevê — é que Matilde também tinha uma chave mestra. Não de portas, mas de informações. Matilde era síndica do prédio onde ficava uma das filiais. Era voluntária na igreja frequentada por outra. E fazia pilates com a terceira. O mundo é pequeno quando se frequenta os mesmos salões de beleza.

Em menos de uma semana, as quatro mulheres estavam sentadas na mesma sala. A sala da matriz. As toalhas eram as mesmas. Os bombons, os mesmos. O sabonete, o mesmo. O perfume masculino, ironicamente, também.

Tripé, convocado, sentou-se diante delas como um aluno diante da banca examinadora. Esperava gritos, tapas, lágrimas, talvez um objeto voador não identificado. Não veio nada disso. Veio silêncio. E silêncio, como se sabe, é o mais perigoso dos barulhos.

Matilde falou primeiro.

— Ele nos tratou igual.

As outras concordaram, meio contrariadas. Não era exatamente um elogio, mas também não era uma acusação clássica. Era uma constatação administrativa.

— Sempre os mesmos bombons Sonho de Valsa — disse Beatriz.

— As mesmas toalhas da Havan — disse a segunda.

— O mesmo perfume do Boticário — completou a terceira, com certo nojo.

Houve uma pausa. E então veio o inesperado. O final que Tripé jamais imaginaria, nem nos seus delírios mais otimistas.

— A gente podia — disse Matilde, pensativa — fazer melhor uso dessa logística toda.

Tripé arregalou os olhos. Não entendeu.

— Como assim? — perguntou o sardão, com a voz de quem pede legenda para as passarinhas.

As quatro se entreolharam. Sorriram. Um sorriso de consórcio aprovado.

— Você sai — disse Matilde. — A chave fica.

E ficou.

Tripé foi dispensado com uma mala pequena, contendo o essencial e nada do que importava. As quatro mulheres, agora sócias, decidiram manter as casas, os padrões, os bombons. Transformaram os ninhos em um negócio. Um pequeno hotel urbano, discreto, elegante, com atendimento impecável e zero tolerância a lenços perfumados fora do protocolo.

Chamaram o lugar de A Chave Mestra.

Tripé, hoje, mora sozinho. Anda por aí contando histórias que ninguém acredita. Diz que perdeu tudo por causa de um lenço. Não percebeu que, na verdade, perdeu a chave mestra.


sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

As ossadas do Cemitário de Perus e a grande farsa de Caco Barcellos - Por vários autores

 

Mário Kozel Filho foi assassinado pelo grupo terrorista VPR, 
de Carlos Lamarca, do qual Dilma Rousseff era membro importante.

Preâmbulo

Ontem, dia 26 de junho de 2016 (mesmo dia 26 de junho em que o soldado Kozel foi assassinado pelo bando terrorista de Dilma Rousseff, em 1968), o Fantástico requentou notícia de jornal velho, voltando a difundir a mentira de que a "repressão militar" matou milhares de "opositores políticos", cujas ossadas teriam sido enterradas clandestinamente no Cemitério de Perus, em São Paulo. Faz parte da esquerda terrorista distorcer a história recente do Brasil, de modo a diabolizar os militares que combateram a peste vermelha.

F. Maier


Leia matéria completa
no livro

Matéria pesquisada por Maria Joseita Silva Brilhante Ustra

Fontes: 

- livro A Verdade Sufocada de Carlos Alberto Brilhante Ustra - https://pt.scribd.com/document/631698486/A-verdade-Sufocada-Ustra-pdf


Os militantes das organizações terroristas, quando entravam na clandestinidade, abandonavam a família, os estudos, os amigos, a profissão e até o próprio nome. Tudo passava a fazer parte do seu passado. Para viver na clandestinidade, necessitavam de nova história de vida, de novos amigos, de novo nome, de nova identidade. Para isso não hesitavam em fraudar a lei. 

Nesse sentido, o mais comum era obterem uma nova certidão de nascimento, com o nome que passariam a usar. Com essa certidão compareciam a um serviço de identificação do governo, onde eram identificados e de onde saíam com uma nova carteira de identidade, legítima e válida para todos os efeitos legais. A partir desse momento, por meios criminosos, oficialmente passavam a ser outra pessoa. 

Outro procedimento era receberem do Serviço de Inteligência da organização identidades falsas. As cédulas das carteiras de identidade, em branco, eram conseguidas nos assaltos aos Postos de Identificação do governo e as certidões de nascimento, em branco, também eram obtidas em assaltos aos Cartórios de Registro.

Assim agindo, evitavam ser reconhecidos e presos caso procurassem um posto de identificação policial. Só os Serviços de Informações possuíam fotos, geralmente desatualizadas, dos principais militantes das organizações terroristas. Caso um militante, usando uma identidade com o nome diferente do seu, morresse num acidente, dificilmente seria reconhecido pelas autoridades policiais que atendessem a ocorrência.

Quando, porém, entre os documentos apreendidos em poder do morto era encontrado material subversivo, armas, bombas, etc, o DOPS ou o DOI (no caso de São Paulo) eram informados. 

Quando um terrorista, usando uma identidade obtida de modo criminoso, morria em combate, tínhamos que seguir os procedimentos normais para sepultá-lo.

Como seu nome não constava na nossa relação de terroristas procurados, ficávamos na dúvida, mas tínhamos a certeza de que, normalmente, por medida de segurança, eles trocavam suas identidades. Começava, então, o nosso trabalho em saber quem ele era na realidade.

Às vezes, pela fotografia, um companheiro de militância o reconhecia. Outras vezes, pesquisando no álbum de fotografias, por semelhança, obtínhamos seu nome verdadeiro.

Obrigatoriamente, eram tiradas as impressões digitais pelas autoridades policiais encarregadas do sepultamento e comparadas com as da carteira de identidade que portava. Confirmado que eram idênticas, o sepultamento era feito com o nome constante na carteira.

Suas impressões digitais eram enviadas aos Serviços de Identificação para que suas fichas datiloscópicas fossem comparadas e o verdadeiro nome oficialmente identificado. Isso demandava tempo.

No inquérito policial, aberto para apurar a morte, essa situação da dupla identidade era declarada, mas só a Justiça poderia fazer o morto voltar à sua primeira identidade.

Normalmente, as famílias nem sabiam de seu falecimento, apesar de noticiados em jornais, pois desconheciam os seus paradeiros. O morto era enterrado numa cova rasa, mas com a exata localização no cemitério. A qualquer momento, a sepultura poderia ser encontrada. Não era, portanto, sepultamento clandestino.

Em São Paulo, a maioria dos terroristas mortos em combate foi sepultada no Cemitério Dom Bosco, no bairro Perus.

Passado o prazo legal, que penso ser de cinco anos, como acontece em todos os cemitérios do País, se a família não retirasse os restos mortais e os colocasse num nicho ou em um jazigo, eles seriam exumados e enterrados numa vala comum, juntamente com as ossadas de outras pessoas que se encontrassem na mesma situação.

A esquerda, dentro do quadro de revanchismo a que se impôs, explora essa situação e acusa as autoridades de enterrar os “presos políticos” em cemitérios clandestinos e com nomes falsos.

Em 1990, Luiza Erundina, então prefeita de São Paulo pelo PT, com a força do seu cargo, ajudou a esquerda nesse processo de “denúncias”, criando a Comissão Especial de Investigações das Ossadas de Perus.

Em 4 de setembro daquele ano, a prefeitura de São Paulo abriu com grande estardalhaço, com manchetes e mais manchetes na mídia, a Vala de Perus, localizada no Cemitério Dom Bosco, na periferia da cidade, onde estavam enterradas 1.049 ossadas de indigentes e, possivelmente, de alguns terroristas.

Segundo a ONG Tortura Nunca Mais, foram 358 os mortos e desaparecidos em todo o Brasil e no exterior, incluídos os do Araguaia, os que se suicidaram, os que faleceram em acidentes de carro, os mortos em passeatas e arruaças. Já Nilmário Miranda, em seu livro Dos filhos deste solo, aponta 420 mortos, dos quais 23, segundo ele, não têm motivação política e um dos “mortos”, Wlademiro Jorge Filho, está vivo (página 468 do seu livro). O número portanto cai para 396 mortos.

De onde esse Serviço Funerário da Prefeitura, na época de Marta Suplicy do PT, tirou os mais de mil militantes políticos, enterrados na Vala de Perus?

Segundo a matéria, nenhum terrorista foi morto em combate com os órgãos de segurança, todos foram assassinados, e a vala comum, que sempre existiu, passou a ser clandestina.


Em 1973, a família dos irmãos Yuri e Alex de Paula Xavier Pereira descobriu ue Yuri estava enterrado no Cemitério de Perus. Procurando o administrador do cemitério, localizou no livro de registros o sepultamento de João Maria Freitas, nome falso usado por Alex.
- Em junho de 1979, alguns familiares foram ao Cemitério de Perus e localizaram outros militantes mortos, sob identidade falsa, como Gelson Reicher, enterrado com o nome de Emiliano Sessa, e Luís Eurico Tejera Lisboa, enterrado como Nelson Bueno.
- Em 1992, foram identificados na Vala de Perus Denis Antônio Casemiro,  considerado desaparecido, e Frederico Eduardo Mayr.
- No Cemitério de Perus foram identificados três esqueletos em covas individuais, como sendo de Helber José Gomes Goulart, Antônio Carlos Bicalho Lana e Sônia Maria de Moraes Angel Jones.
- No mesmo cemitério foram identificados os esqueletos das covas onde estavam enterrados Hiroaki Torigoe e Luís José da Cunha. Seus ossos foram retirados e enviados para o DML/UNICAMP.
A respeito do que está publicado nesse site, podemos acrescentar que:
- Denis Antônio Casemiro não é desaparecido. Segundo o livro de Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio, foi enterrado com o verdadeiro nome.
- Hiroaki Torigoe faleceu em 05/01/72. Sua morte foi publicada no dia  seguinte no jornal O Estado de S. Paulo, onde consta o seu verdadeiro nome.
Apesar de se saber, através de fotografias, o nome de nascimento, foi enterrado com o nome dos documentos que portava ao morrer: Massamiro Nakamura.
Torigoe só foi identificado oficialmente depois de prolongada busca nos órgãos de identificação para a comparação das suas impressões digitais.
- Alex de Paula Xavier Pereira e Gelson Reicher morreram no dia 20/01/1972, em tiroteio com uma equipe do DOI, após terem abatido a tiros de
metralhadora o cabo Sylas Bispo Feche, desta equipe. As suas mortes foram tornadas públicas dois dias depois, em matéria do jornal O Estado de S. Paulo, onde constam seus nomes verdadeiros. Foram sepultados com os nomes constantes nos documentos que usavam ao morrer, João Maria Freitas (Alex) e Emiliano Sessa (Gerson). Em novembro de 1980, a família de Alex retirou do Cemitério de Perus os restos mortais dos dois irmãos, Yuri e Alex, e os sepultou no Cemitério de Inhaúma, no Rio de Janeiro.
A família de Gelson Reicher, após exumar seu corpo no Cemitério de Perus, o sepultou no Cemitério Israelita. 

Comentários 

01 Félix Maier 12-04-2013 10:20
Depoimento do general Negrão Torres:

“O número de enterrados tem variado de milhares ou de centenas até a umas poucas dezenas de ‘assassinados’. O Correio Braziliense, de 20/12/02, publicou em seu caderno Coisas da vida, que pesquisadores brasileiros e ingleses começarão a examinar os ‘corpos de 1.200 desaparecidos durante a ditadura militar’ que estão sepultados no cemitério de Perus. O Grupo Tortura Nunca Mais diz que são 184 os mortos e 136 os desaparecidos na ‘luta contra a ditadura’. Desses 136 desaparecidos, 53 teriam sido durante a guerrilha do Araguaia, em plena floresta amazônica. Portanto, restariam 83 corpos de desaparecidos para o restante do Brasil, inclusive para o cemitério de Perus que, por sinal, nunca foi clandestino" (Gen Div Raymundo Maximiano Negrão Torres - História Oral do Exército - 1964, Tomo 14, pg. 84-85).
 

***

José Luis Sávio Costa é coronel reformado do Exército. Foi Oficial de Inteligência e, por um tempo, articulista do site Mídia Sem Máscara, criado pelo professor, escritor, filósofo e pensador brasileiro Olavo de Carvalho.

Por seu trabalho de desinformação e mentiras sobre o Cemitério de Perus, Caco Barcellos recebeu os prêmios Embratel e Líbero Badaró. 

É assim que a História do Brasil é contada todo dia, principalmente em nossas escolas. 

É assim que a História do Brasil será deturpada pela Comissão Nacional da Verdade, o Pravda tupiniquim. Pravda, em russo, significa "verdade"...

F. Maier 


A Grande Farsa de Caco Barcellos 

por José Luís Sávio Costa

https://felixmaier1950.blogspot.com/2020/05/a-grande-farsa-de-caco-barcellos-por.html


quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

República Federativa do Bandido - Por Félix Maier


República Federativa do Bandido

Félix Maier

Dizem que o Brasil é a pátria do futebol, do carnaval e da alegria. Tolice. Nosso verdadeiro esporte nacional é a anulação de provas, praticada com habilidade olímpica por quem deveria zelar pela Justiça.

Na mais recente modalidade, batizada de toffolice aquática, assistimos ao mergulho profundo nas águas turvas da Lava Jato. Ali, documentos, delações, bilhões desviados e até confissões explícitas desapareceram como mágica. Não há cadáver, não há arma do crime, não há crime: apenas um imenso mal-entendido tropical.

Na República Federativa do Bandido, empreiteiro não rouba, político não recebe propina e operador não lava dinheiro. Tudo foi apenas fruto da imaginação fértil de procuradores enlouquecidos e juízes sedentos por manchetes. O departamento de propinas da Odebrecht, por exemplo, virou lenda urbana, como mula-sem-cabeça ou lobisomem: todos ouviram falar, mas ninguém conseguiu provar ao togado relator da vez, guardião oficial da inocência dos culpados. Para o antigo advogado do PT e do Ogro de Nove Dedos, o que houve foi apenas o devaneio de procuradores mal-intencionados, como Deltan Dallagnol, e de um juiz em busca de holofote, Sérgio Moro.

E, assim, com um só despacho, o país se converte em arquipélago da impunidade. Enquanto o cidadão comum se desespera com imposto, fila no hospital sem vacina e sem gaze, e ônibus lotado como sardinha em lata, o andar de cima brinda em taças de cristal a nova era da “justiça garantista”: garante-se a liberdade dos de cima, e apenas deles.

Talvez este seja o nosso destino: não seremos conhecidos pela Amazônia, pelo futebol ou pela bossa nova, mas pelo engenho jurídico de transformar corruptos confessos em vítimas da história. Aqui, a memória é anulada, os crimes evaporam, e a corrupção se recicla em erro processual.

Que ninguém se iluda: a República Federativa do Bandido é próspera e generosa com seus súditos privilegiados. E, enquanto isso, nós, os manés, os trouxas contribuintes, seguimos financiando a festa — sem direito a habeas corpus.

Na República Federativa do Bandido, já não se fala mais de futebol, tampouco de novela. O assunto agora é a mágica tropical: transformar ladrão em inocente. No Brasil, basta uma toga, uma caneta e um despacho coreografado para absolver bandido.

O Brasil já não é o país do futebol. É o país da anulação de provas. Aqui, a corrupção não prescreve: apenas se dissolve, elegante, em tinta de caneta. É uma autêntica República Federativa do Bandido, já cantado em versos por Moacyr Franco.

E olha que nada falei sobre o maior golpe já visto no Brasil: em 15 de abril de 2021, oito togados do Instituto Lula (antigo STF) descondenaram um criminoso que havia sido condenado em três instâncias, por unanimidade, para voltar à cena do crime pela terceira vez.

Se alguém reclamar, vai ouvir um Supremo Togado dizer, com cara torta de nojo:

— Perdeu, mané, não amola! Derrotamos o bolsonarismo!

E olha que nada eu disse sobre a encrenca deixada pelo Banco Master, envolvendo figurões dos Três Poderes da República Federativa do Bandido...


P. S.

Ouça o hit de Moacyr Franco, República Federativa do Bandido, em https://www.facebook.com/watch/?v=2102427163319851





terça-feira, 20 de janeiro de 2026

2 de julho: A manifestação roubada - Por Félix Maier

 

2 de julho:

A manifestação roubada

 Félix Maier

A campanha do Ogro de Nove Dedos para presidente, naquele ano de 2022, estava tão ansiosa por multidões quanto criança por algodão doce. Faltava apenas o doce e, em alguns casos, a criança.

Por sorte (ou oportunismo, dependendo do observador), havia em Salvador o tradicional desfile do 2 de Julho, celebração da expulsão definitiva dos lusos em 1823, festa tão consolidada na cidade quanto a maresia, o bolinho de estudante, o acarajé e a punheta de bacalhau.

Os Asseclas — a equipe de marqueteiros do Ogro — tiveram a brilhante ideia de enfiar o candidato, clandestinamente, naquela multidão, de modo a sugerir que ele era o motivo da festa. Durante a marcha cívica, o Ogro olhou para aquele mar humano e, enquanto dava uma lapada na batida de umbu com cachaça, lhe veio a epifania: O povo me ama! Era apenas o povo celebrando sua própria história, mas detalhes nunca foram obstáculos para quem vive de narrativas.

Os Asseclas, oxente! vibravam com qualquer aglomeração que pudesse ser convertida em capital político. A foto do 2 de Julho em Salvador caiu no colo deles como um presente dos deuses do marketing.

Reunidos em seu bunker refrigerado, que fica no porão do Palácio do Planalto, onde criam fake news contra os adversários políticos enquanto comem pão com mortadela, os Asseclas analisam a foto do desfile da Independência Baiana. Gente de todo tipo: crianças felizes, idosos cansados, vendedores ambulantes, turistas confusos, foliões acalorados. Para qualquer pessoa razoável, era a celebração anual da Bahia. Para os Asseclas, era prova incontestável de que o magnetismo político de seu chefe alterava o fluxo gravitacional das massas.

Está boa a foto, mas podia ter mais gente, decretou o Assecla-Chefe, com a frieza de quem não briga com a realidade, apenas a edita. O motoboy Tiquinho, a consciência remanescente do grupo, tentou murmurar algo sobre honestidade visual, mas foi abafado por cliques, colagens e duplicações.

Começou o milagre. Não o da fé, mas o do Photoshop. Clonaram o sujeito de camisa verde e o transformaram em dois, depois em quatro, cinco, sete. Um sujeito alto, com o turbante típico dos Filhos de Gandhy, tinha o poder da bilocação, da trilocação. Uma baiana típica, com saia rodada, torço, guias e balangandãs, tornou-se uma matrioska humana, multiplicada por nove. Um rapaz olhando o celular estava em todos os cantos. Os Asseclas trabalhavam com fervor quase religioso, como monges copistas da Idade Média, exceto que, em vez de preservar textos sagrados, fabricavam devotos imaginários.

Quando mostraram a imagem ao Ogro, ele abriu um sorriso tão largo que parecia disposto a engolir o Pelourinho de uma vez.

Olha isso! O povo vem atrás de mim! declarou ele, com a convicção de quem jamais deixou a realidade atrapalhar a própria fé. Tecnicamente, eles não estão vindo atrás do senhor… tentou explicar Tiquinho, um rapaz mais chato que a Heloisa Helena. Mas o Ogro o ignorou com elegância autoritária. A imagem servia ao propósito. Logo, a imagem era verdadeira. Simples assim.

No dia seguinte, as redes sociais foram inundadas pela obra-prima: CARAVANA HISTÓRICA DO LÍDER ARRASTA MULTIDÃO EM SALVADOR! A postagem jorrou curtidas, corações, exclamações, até que a população começou a notar detalhes peculiares.

Ué, eu apareci quatro vezes, disse um. Minha prima apareceu duas vezes, disse outro. Eu estou ali… e ali… e ali… e ali de novo! espantou-se um terceiro, que passou a suspeitar que possuía irmãos gêmeos secretos, como uma família de matriuskas russas, ou então que tinha virado NPC — Personagem Não Jogável, de jogo mal programado.

Mas nada disso abalou o Ogro, que já tinha decorado o discurso: O povo sempre me acompanhou. Sempre me segue. Sempre soube. Eles me comemoram até quando não sabem, respondeu ele, num misto de misticismo e autoindulgência.

Petra Costa, a cineasta em busca de um novo script, que havia sido indicada ao Oscar por Democracia em Vertigem, arriscou dizer em sua passagem por Nova York: Que momento histórico do nosso Líder, mais fantástico que desfile na Sapucaí, sem notar que o país inteiro já percebia exatamente o contrário, e que a única vertigem ali era a dela, tentando encaixar a realidade num roteiro que ninguém mais acreditava.

Petra concluiu mais um documentário, Apocalipse nos Trópicos, tentando emplacar um terceiro prêmio no Festival de Cinema de Cuba e, quem sabe, passar as mãos num Oscar. Trata-se de um filme que mostra o avanço dos evangélicos no Brasil, levantando uma questão realmente apocalíptica: onde termina a democracia e começa uma teocracia?

Os Asseclas, percebendo a chuva de memes, convocaram uma reunião emergencial. Climatizaram a sala no porão do Palácio do Planalto até parecer um iglu emocional. Alguém sugeriu apagar a foto. Outro quis reforçar com mais clones: já que é para inventar, inventa direito!

O Ogro bateu na mesa e ordenou: Nada de apagar! Diz que é montagem dos adversários! no que Tiquinho, mais cândido que seminarista em puteiro, sussurrou: Mas… a montagem é nossa. O Ogro retrucou: Esse detalhe atrapalha quem? E, como sempre, detalhe atrapalha apenas quem presta atenção.

Os Asseclas continuaram defendendo a autenticidade da cena com a tranquilidade de quem acredita que, repetindo o suficiente, o absurdo ganha solidez — mas sem citar Joseph Goebbels. E, de fato, ganhou, ao menos entre aqueles que acham que questionar é perda de tempo e que pensar é atividade subversiva.

Meses depois, o povo já tinha superado o episódio, substituído por outras distrações mais frescas. A foto, no entanto, virou relíquia na sede da campanha petralha. Foi impressa em tamanho mural, com uma frase em letras garrafais: A MULTIDÃO É REAL PARA QUEM PRECISA DELA. Era o tipo de sabedoria que faz qualquer assessor de comunicação suspirar de orgulho e qualquer filósofo se jogar numa fogueira.

Tiquinho pediu demissão do trabalho de motoboy, especialmente levando Arguição de Descumprimento de Preceito Constitucional (ADPF) do PT e seus genéricos ao STF, num total de 411, para azucrinar a vida do Presidente Jair Messias Bolsonaro em seus 4 anos de bullying, e abriu uma barraca de água de coco. Hoje vive tranquilo, multiplicando apenas o número de canudinhos ecológicos.

Os Asseclas continuam por aí, tão produtivos quanto coelhos, ocupando cargos DAS com a pureza de quem nunca errou, em quarenta ministérios, porque, quando erram, dizem que é sacanagem da oposição, que é culpa do Bolsonaro.

O Ogro? Continua acreditando piamente que o povo o carregou nos braços naquele 2 de Julho. Às vezes, observa a foto com os olhos úmidos e comenta com nostalgia: Que dia lindo. Que mar humano. Que devoção espontânea. E todos ao seu redor concordam, porque contradizê-lo exige coragem, e coragem de bajuladores não se multiplica tão facilmente quanto figuras humanas.

Certo dia, mais inspirado que o usual, o Ogro murmurou: Um dia ainda lotarei as ruas… sem precisar copiar ninguém. Os Asseclas sorriram com devoção canina. Claro, chefe. Claro.

Mas lá no fundo, bem no fundo, torciam para que o Photoshop nunca deixasse de existir. Afinal, 2026 espia pela fresta do calendário, e o 2 de Julho, aquele velho palco de promessas recicladas, já afinava os tambores para mais uma entrada triunfal do Ogro, candidato a voltar à cena do crime pela quarta vez, como quem volta à padaria preferida.

O Assecla-Chefe estava pensando em utilizar a IA nas mídias do próximo ano, de modo a triplicar a manifestação soteropolitana, inclusive com alguns convidados ilustres virtuais, como Xi Jinping, Nicolás Maduro e líderes africanos e do Hamas, para aumentar o nível político da solenidade. Emmanuel Macron foi descartado pelo Ogro, por ter sido muito saliente com sua jovem esposa em várias ocasiões.

Porque, no íntimo mais abafado da malandragem, os Asseclas sabiam que só com uma avalanche de pixels patrióticos — hologramas de celebridades internacionais, militantes fabricados em série e uma claque digital obediente — o Ogro poderia enfim fingir que lotava as ruas que, na vida real, continuavam teimosamente vazias.


Sobre vachinas e jacarés - Por Félix Maier


Sobre vachinas e jacarés

Félix Maier
    Durante a pandemia da Covid-19, o “Imbroxável” Presidente da República e o Governador de São Paulo “BolsoDoria” discutiam para saber qual seria a melhor vacina a ser aplicada à população, se a CoronaVac do Butantã, subordinado ao Governo de São Paulo, se a AstraZeneca da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz), subordinada ao Governo Federal.
    Era uma discussão boboca, igual adolescentes que no banheiro se exibem para ver quem tem o bilau mais comprido. O Presidente dizia que a CoronaVac era na verdade uma “vachina”, proveniente do país dos olhinhos puxados, que transformariam os vacinados em jacarés.
    Vários políticos que tinham sido eleitos na sombra do “Imbroxável”passaram a fazer campanha feroz contra ele, depois de empossados, como o Governador BolsoDoria e os deputados federais BolsoJoyce e BolsoFrota. Parece que a maldição do Presidente teve efeito: eles sumiram e viraram jacarés, como profetizado por Jair Messias Bolsonaro.
    Enquanto o jacaré BolsoDoria se esconde nos banhados da Flórida, para não perder o status de empresário ostentação à frente do LIDE - Grupo de Líderes Empresariais (para bancar vida boa de ministros do STF em NY), o jacaré BolsoFrota reveza suas atividades pornoaquáticas entre o charco de Nova Orleans e a água salgada do Golfo da América.
    E a jacaroa BolsoJoyce? Dizem que foi vista nas águas da Marginal Pinheiros, onde à noitinha se transforma em sereia para abocanhar incautos.





A saga dos presentes masculinos - Por Félix Maier

 


A SAGA DOS PRESENTES MASCULINO
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Félix Maier

Houve um tempo — dizem os mais antigos, aqueles que ainda chamam ônibus de coletivo e trem de comboio — em que sair à rua era quase um ato solene. O homem não atravessava a esquina sem um terno bem passado, gravata firmemente apertada no colarinho e chapéu na cabeça, mesmo que o sol do Rio de Janeiro estivesse empenhado em derreter até pensamento filosófico. Quarenta graus à sombra e lá ia o cidadão, digno como um diplomata europeu em missão tropical, suando por dentro e sorrindo por fora.

As mulheres, por sua vez, desfilavam com vestidos coloridos e esvoaçantes, chapéus igualmente vistosos, parecendo carregar a primavera inteira sobre a cabeça. Era um mundo onde até o calor se respeitava: fazia-se sauna, mas com elegância.

Nesse contexto civilizado, os presentes de aniversário acompanhavam o figurino. Homem ganhava chapéu. Ou gravata, de preferência aquelas largas, linguarudas, capazes de disputar espaço com a barriga nas fotografias de família. Quando o presenteador se sentia especialmente ousado, vinha também um lenço. Não era qualquer lenço: era o lenço social, dobrado com esmero, destinado tanto a ocasiões de emoção quanto a emergências nasais. Servia para enxugar lágrimas, suor e, sobretudo, catar o catarro com discrição, antes de devolvê-lo ao bolso interno do paletó, onde repousava como um segredo de Estado.

O homem agradecia. Sempre agradecia. Ainda que já tivesse dezessete gravatas idênticas e chapéus suficientes para abrir uma chapelaria, ele sorria, apertava a mão do doador e dizia: Era exatamente o que eu precisava. E, de certo modo, era mesmo: precisava manter viva a tradição de fingir surpresa.

O tempo passou, como passam as modas e as boas maneiras. Os chapéus desapareceram das cabeças e migraram para filmes antigos e museus. As gravatas resistem heroicamente, mas apenas em ambientes corporativos, e mesmo assim sob ameaça constante. Hoje, só executivos — e olhe lá! — ainda se aventuram nesse ritual de estrangulamento voluntário chamado dress code.

As mulheres, libertas de espartilhos, combinações e cintos largos que as faziam ter cintura de vespa, passaram a circular mais à vontade. Às vezes, à vontade até demais, segundo a opinião de alguns senhores que ainda acreditam que o joelho feminino tem poder subversivo. O fato é que a rua se tornou informal, e os aniversários masculinos acompanharam essa tendência com uma crueldade silenciosa.

Porque, se antes o homem ganhava itens que ampliavam seu guarda-roupa, hoje ele ganhou algo muito mais prático, utilitário e, sobretudo, repetitivo: meias.

O primeiro par de meias vem quase com afeto. A pessoa entrega o pacote dizendo: Você vive reclamando que perde meias na máquina. O aniversariante sorri, agradece e pensa: É verdade.

No ano seguinte, outro par de meias. De algodão. Ou de lã. Ou daquelas tecnológicas, que prometem não dar chulé nem em maratona no Saara.

No terceiro aniversário consecutivo, mais meias. Aí o homem começa a desconfiar. Abre a gaveta e percebe que, se todas aquelas meias resolvessem se unir, dariam para calçar um batalhão do Exército.

Mas a vida segue, e os aniversários insistem em aparecer.

Até que um dia — ninguém sabe bem por quê — alguém decide que meias já não bastam. O presenteador quer inovar. Quer marcar época. Quer oferecer algo que represente confiança, parceria, talvez até um leve empurrão existencial.

E então surge a furadeira.

Não é uma furadeira qualquer. É um jogo completo. Furadeira, brocas de vários tamanhos, para furar concreto e madeira, maleta resistente, manual de instruções em cinco idiomas, nenhum deles no português claro. Ao entregar o presente, o doador diz, com um sorriso cheio de expectativas ocultas:

— Agora você vai poder pendurar aqueles quadros.

Que quadros?

Os quadros que o homem prometeu pendurar desde que se casou. Quadros que já passaram por três mudanças, dois apartamentos e uma tentativa frustrada de reforma. Quadros que vivem encostados atrás do guarda-roupa, cheios de teias de aranha, aguardando o dia em que deixarão de ser estorvo para se tornar decoração.

Munido da furadeira, o aniversariante sente algo novo: uma mistura de orgulho e medo. Ele liga o aparelho. O barulho é alto, agressivo, quase bélico. É o som da masculinidade moderna, cheio de testosterona, entrando em ação.

— Dá-lhe furar aqui — pensa ele.

— Dá-lhe furar acolá.

A parede resiste, a broca esquenta, o pó se espalha pelo chão como neve de reboco de gesso. A cada furo, cresce a sensação de vitória doméstica. Até que, de repente, acontece.

Um jato.

Primeiro tímido. Depois decidido. Em segundos, a parede da cozinha se transforma numa respeitável nascente de água. Não uma infiltração qualquer, mas uma fonte em plena atividade, digna de cartão-postal.

O homem congela. A furadeira cai no chão. O presente de aniversário, que simbolizava autonomia e competência, agora jorra culpa líquida.

Alguém grita. Alguém corre atrás do registro. Alguém pergunta por que ele foi mexer nisso logo hoje.

E assim, molhado até os joelhos, o aniversariante aprende uma lição eterna: certos presentes vêm carregados de expectativas perigosas. Meias não furam canos. Gravatas não provocam enchentes. Chapéus apenas esquentam a cabeça.

Talvez, no fundo, o presente ideal para o homem moderno fosse mesmo um par de meias. Ou dois. Ou três. Porque, entre ganhar algo que não se usa e ganhar algo que pode inundar a cozinha, é melhor ficar com os pés quentes e a casa seca.

E se alguém ainda quiser dar uma furadeira, que a acompanhe um encanador de plantão, devidamente avisado, experiente e sóbrio — e que seja ele, o encanador, o verdadeiro presente, embrulhado com um belo laço.