MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

sábado, 25 de julho de 2026

A Mãe das Vertentes - Por Félix Maier


A Mãe das Vertentes

Félix Maier

A seca e o mistério do riacho

Muito antes de alguém fincar cercas entre as terras dos Weber e dos Dresch, antes mesmo de os primeiros machados alemães abrirem clareiras na mata da Linha Limeira, já existia ali um pequeno riacho que descia das encostas em direção ao Rio Limeira. Não era um curso d'água importante. Nunca aparecera em mapas, nem despertava o interesse dos viajantes. Corria escondido entre barrancos cobertos de samambaias, ao lado de pedras e troncos caídos com musgo, sob a sombra de xaxins antigos e entre moitas de taquaras que sussurravam ao menor sopro do vento. Seu mundo era feito de silêncio, de folhas caídas e do rumor cristalino da água deslizando sobre pedras arredondadas que os séculos haviam polido pacientemente. Até serviam para o jogo de bocha.

Era um riacho humilde, mas possuía uma extraordinária vocação para guardar segredos. Na primavera, suas margens cobriam-se de flores silvestres, e bandos de libélulas azuis riscavam o ar como pequenas faíscas vivas. No verão, quando o calor amadurecia o milho e fazia perfumar os ervais, a água permanecia fria como se viesse diretamente do coração da serra. As crianças da vizinhança conheciam cada curva daquele pequeno curso d'água. Sabiam onde o fundo era de areia fina, onde começavam os remansos escuros frequentados pelos jundiás, onde os lambaris faiscavam ao sol em cardumes prateados e onde os mandis preferiam esconder-se entre pedras maiores, imóveis como se também fossem parte delas.

Para os adultos, o riacho era apenas uma referência geográfica. Era ali que terminava uma propriedade e começava outra; era o lugar onde o gado podia beber antes de voltar aos potreiros; era um ponto de descanso para quem regressava da roça nas tardes abafadas de janeiro. As crianças, entretanto, enxergavam outra realidade. Aquele fio de água era um universo inteiro. Um galho transformava-se em ponte; uma folha seca, em embarcação; um tronco caído servia de castelo ou fortaleza. Bastava um pouco de imaginação para que aquele pequeno afluente do Rio Limeira se tornasse maior que qualquer rio conhecido.

Entre os meninos que passavam as tardes por ali estava Henrique Weber, cuja curiosidade parecia não conhecer descanso. Enquanto os companheiros se contentavam em pescar lambaris ou disputar quem lançava pedras mais longe, ele preferia observar. Sentava-se sobre uma rocha lisa, quase no meio da correnteza, e permanecia longos minutos contemplando a água contornar os obstáculos, desenhando redemoinhos passageiros que desapareciam tão depressa quanto surgiam. Havia algo naquele movimento incessante que lhe despertava perguntas para as quais ninguém parecia possuir resposta.

Perguntava-se por que os peixes jamais se perdiam, mesmo quando a corrente aumentava depois das chuvas fortes. Intrigava-o a maneira como os lambaris pareciam conhecer caminhos invisíveis sob a água, desviando-se das pedras sem jamais se chocar contra elas. Também lhe parecia estranho que o riacho nunca fosse exatamente igual ao do dia anterior. Mudavam as sombras, mudava o brilho das águas, mudavam os sons. Era como se aquela pequena corrente possuísse um humor próprio, impossível de prever.

Seu avô costumava dizer que toda água viva tem memória. Henrique não compreendia bem o significado da frase, mas ela lhe voltava ao pensamento sempre que permanecia sozinho junto ao riacho.

Naquele verão, porém, a natureza começou a falar uma língua diferente.

Primeiro vieram alguns dias excessivamente quentes. Depois, uma semana inteira sem nuvens. Em seguida outra. E mais outra. O céu adquiriu um azul parado, quase metálico, que parecia ter perdido a capacidade de produzir chuva. As manhãs nasciam envoltas numa claridade intensa e terminavam em entardeceres de poeira suspensa, enquanto o vento norte percorria os campos carregando um calor áspero que fazia ranger as folhas das araucárias.

Pouco a pouco, a estiagem começou a deixar marcas em toda parte.

As hortas exigiam baldes e mais baldes de água retirados dos poços ainda existentes no riacho. As folhas do milho enrolavam-se sobre si mesmas para economizar umidade. Os pastos, antes verdes, assumiam uma tonalidade amarelada que se espalhava pelas colinas como uma enfermidade silenciosa. Até os animais pareciam compreender que algo não seguia o curso habitual das estações. As vacas procuravam sombra mais cedo; os quero-queros gritavam menos; as andorinhas voavam alto, como se buscassem nuvens que não existiam.

Os colonos olhavam para o horizonte com crescente inquietação. Quem vive da terra aprende cedo a reconhecer o silêncio das nuvens. Comentava-se, depois da missa de domingo, que fazia muitos anos desde a última seca daquela intensidade. Os mais idosos recordavam antigas estiagens ocorridas ainda no tempo dos pioneiros, quando famílias inteiras precisavam transportar água em carroças para salvar os animais. E a mães tinham que ir de charrete para lavar roupa no Rio do Peixe. Cada um possuía uma lembrança diferente, mas todos concordavam numa coisa: quando a terra começava a rachar daquele jeito, era porque o verão ainda guardava provas mais severas.

Henrique acompanhava essas conversas sem lhes dar muita importância. Em sua imaginação infantil, a chuva era apenas uma questão de esperar mais alguns dias. Afinal, desde que nascera sempre vira as águas voltarem.

Foi somente quando decidiu visitar o riacho que compreendeu a gravidade da estiagem.

A água havia desaparecido. Restava apenas o leito descoberto, coberto por pedras arredondadas de todos os tamanhos, polidas durante décadas pela correnteza. Algumas eram tão perfeitamente esféricas que lembravam antigas bolas esquecidas por jogadores invisíveis. Outras brilhavam ao sol como se escondessem cristais em seu interior. Caminhar por aquele antigo leito produzia uma sensação estranha, quase irreverente, como se ele estivesse pisando num lugar onde antes só os peixes possuíam permissão para passar.

O remanso onde mergulhava nos verões transformara-se numa depressão seca. A pedra lisa que servia de escorregador estava quente ao toque das mãos. Entre as fendas do solo restavam apenas pequenas manchas de umidade, rapidamente absorvidas pelo calor da tarde.

Mas não era o desaparecimento da água que mais impressionava. Era a completa ausência de vida. Não havia lambaris presos em pequenas poças. Não havia mandis enterrados na lama. Não havia jundiás agonizando entre as pedras. Nem sequer girinos ou insetos aquáticos. Era como se todos os habitantes daquele pequeno mundo tivessem partido ao mesmo tempo, levando consigo o próprio rumor da correnteza.

Henrique voltou diversas vezes nos dias seguintes. Examinava cuidadosamente cada curva do antigo leito, levantava pedras, remexia a areia ainda úmida junto às barrancas, observava qualquer sinal que pudesse explicar para onde haviam ido os peixes. Não encontrava absolutamente nada.

Aquela ausência contrariava tudo o que lhe parecia lógico. Se o riacho secava, os peixes deveriam morrer ali mesmo. No entanto, não havia um único corpo, nem o menor vestígio de que algum deles tivesse existido. Era um desaparecimento completo. Um mistério.

Na quarta visita começou a perceber detalhes que antes lhe haviam escapado. Algumas pedras amanheciam inexplicavelmente molhadas, embora fazia semanas que nem orvalho se formava. Em certos trechos apareciam pequenas marcas na areia fina das barrancas, semelhantes a pegadas humanas, porém delicadas demais para pertencerem a qualquer criança da vizinhança. Seguiam sempre em direção ao centro do leito seco e desapareciam exatamente onde, meses antes, corria a parte mais profunda da corrente.

À noite, deitado em sua cama, Henrique já não conseguia afastar aquelas imagens da memória. Fechava os olhos e via o riacho cheio de novo, os peixes deslizando entre as pedras e uma pergunta insistindo em retornar, como o canto de um pássaro invisível: para onde vai a vida quando a água desaparece?

Os velhos talvez soubessem a resposta. Afinal, havia muito tempo deixavam escapar um sorriso enigmático sempre que alguém fazia essa pergunta. Nunca respondiam imediatamente. Limitavam-se a olhar para a direção do riacho, como quem recorda uma história antiga demais para ser contada à luz do dia.

E foi justamente numa dessas noites silenciosas, quando a lua cheia começava a derramar prata sobre os campos da Linha Limeira, que Henrique julgou ouvir, trazido pelo vento, um canto tão suave que parecia nascer das próprias pedras do riacho. Não era voz de gente nem de ave conhecida. Era um murmúrio delicado, semelhante ao da água conversando consigo mesma, como se, mesmo ausente, o riacho continuasse vivo, aguardando pacientemente o momento de revelar o segredo que guardava desde antes da chegada dos primeiros colonos.

A lenda da Mãe das Vertentes

Na Linha Limeira havia uma antiga sabedoria segundo a qual nem todas as perguntas mereciam resposta imediata. Algumas precisavam amadurecer como o milho na espiga ou como o vinho repousando nos tonéis de carvalho. Por isso, quando Henrique começou a perguntar para onde desapareciam os peixes durante as grandes estiagens, ninguém lhe respondeu de pronto. Os adultos limitavam-se a sorrir discretamente, como quem reconhece a curiosidade própria da infância, enquanto os mais velhos trocavam olhares silenciosos, desses que parecem carregar lembranças muito anteriores à memória dos homens.

Foi somente alguns dias depois, numa noite em que a lua cheia iluminava os campos quase como um sol adormecido, que o avô Otto Stein resolveu quebrar o silêncio.

A família havia terminado a ceia. O fogão a lenha ainda conservava um calor agradável, espalhando pelo ambiente o perfume da madeira de guamirim que ardia lentamente entre brasas avermelhadas. Sobre a chapa fervia uma chaleira de ferro, e o cheiro de erva-doce misturava-se ao aroma do café recém-passado. Lá fora, os grilos sustentavam um concerto interminável, interrompido apenas pelo chamado distante de um urutau escondido entre os pinheiros.

Otto permaneceu algum tempo olhando as brasas, como se procurasse nelas o começo da história. Os velhos sabiam que certas narrativas não podiam ser contadas com pressa. Era preciso deixar que as palavras encontrassem o próprio caminho.

Quando finalmente falou, sua voz parecia pertencer menos àquela cozinha do que às matas antigas que cercavam a propriedade.

Disse que muito antes da chegada dos colonizadores, quando aquelas terras eram percorridas apenas pelos Kaingang e pelos animais do mato, já existiam pessoas que conheciam o segredo das águas. Não construíam pontes nem represavam riachos. Preferiam ouvi-los. Sabiam distinguir, pelo som da correnteza, se o inverno seria rigoroso, se a seca se aproximava ou se os peixes estavam se multiplicando nas nascentes escondidas entre as pedras.

Esses antigos moradores acreditavam que toda vertente possuía um espírito protetor.

Não um espírito assustador, como aqueles que as mães inventavam para impedir que as crianças entrassem na mata sozinhas. Era uma guardiã discreta, cuja missão consistia apenas em cuidar para que a água jamais esquecesse seu caminho até os rios.

Os primeiros colonos ouviram essa história dos indígenas e dos caboclos que viviam espalhados pelas serras. Uns acreditaram. Outros riram. Mas, curiosamente, mesmo os que zombavam da lenda evitavam pronunciar certas palavras quando atravessavam um olho-d'água ao cair da noite.

— Há coisas — comentou o velho Otto quase para si mesmo — que a gente não precisa entender para aprender a respeitar.

Henrique escutava sem interromper.

O avô prosseguiu.

Diziam que a guardiã era conhecida por muitos nomes. Em algumas regiões chamavam-na Senhora das Nascentes. Em outras, Dona das Águas Dormidas. Mas ali, na Linha Limeira, havia muito tempo todos a conheciam simplesmente como Mãe das Vertentes.

Ninguém sabia descrever-lhe exatamente o rosto.

Havia quem jurasse tratar-se de uma velha muito pequena, coberta por um xale tecido com fios de neblina. Outros afirmavam que possuía a aparência de uma moça, com longos cabelos escuros onde se enroscavam pequenas flores brancas iguais às que cresciam nas margens dos riachos. Alguns diziam que seus cabelos eram verdes como musgo; outros insistiam que brilhavam prateados sob a luz da lua. Havia até quem afirmasse nunca ter visto pessoa alguma, apenas um vulto claro caminhando descalço sobre as pedras molhadas sem provocar o menor ruído.

Cada testemunha contava uma história diferente. E justamente por isso todas pareciam verdadeiras.

Segundo a tradição, ela jamais aparecia durante o dia. Enquanto o sol permanecia alto, escondia-se nas furnas das barrancas ou sob as raízes das figueiras antigas, onde a terra conserva umidade mesmo nos verões mais severos. Apenas quando a lua cheia derramava sua claridade sobre os campos é que saía para percorrer silenciosamente as margens dos riachos.

Não caminhava. Deslizava. Era como se seus pés conhecessem um caminho invisível traçado pela própria água. Por onde passava, as pedras pareciam adquirir um brilho diferente. O ar tornava-se mais fresco. O cheiro da terra mudava, lembrando chuva distante mesmo quando o céu permanecia completamente limpo. Mas sua verdadeira tarefa começava apenas nas grandes estiagens.

Quando os riachos secavam e as águas desapareciam sob o calor impiedoso do verão, a Mãe das Vertentes recolhia pacientemente cada filhote de peixe. Os lambaris mais novos vinham primeiro, seguindo-a como se reconhecessem uma antiga canção. Depois apareciam os mandis, sempre desconfiados, escondendo-se entre suas mãos. Os jundiás abandonavam lentamente os poços mais fundos. Até os pequenos caranguejos deixavam suas tocas de barro para acompanhá-la.

Nenhum precisava ser capturado. Todos sabiam que chegara a hora. Então ela os colocava cuidadosamente dentro de um enorme pote de barro, modelado, dizia-se, com argila retirada do fundo do primeiro riacho criado por Deus. Esse pote jamais secava.

Por fora parecia um simples vaso de barro escurecido pelo tempo. Por dentro, porém, existia um mundo inteiro de águas cristalinas, tão profundas que ninguém seria capaz de lhes encontrar o fundo. Ali os peixes dormiam sem sentir a passagem dos dias, embalados por uma corrente invisível que nunca deixava de correr.

Depois de fechar cuidadosamente a tampa, a guardiã enterrava o pote sob a barranca mais antiga do riacho, onde nem o calor mais intenso conseguia penetrar.

Ali permaneciam todos, aguardando. Não aguardavam o tempo. Aguardavam o som. Porque, segundo a lenda, a Mãe das Vertentes não obedecia ao calendário dos homens. Não contava semanas nem meses. Esperava apenas ouvir a primeira grande trovoada. Era esse o sinal. Quando o trovão finalmente rasgava o céu, ela despertava.

Caminhava novamente até o lugar onde escondera o pote encantado e retirava-o da terra com a mesma delicadeza com que uma mãe levanta um filho adormecido do berço. Bastava erguer a tampa. A água transbordava.

Os lambaris escapavam primeiro, faiscando como pequenos relâmpagos prateados. Depois vinham os mandis, os jundiás, os cascudos e até alguns camarõezinhos de água doce que ninguém sabia de onde surgiam. Todos voltavam ao riacho exatamente no instante em que a chuva recomeçava sua antiga conversa com as pedras.

Na manhã seguinte, qualquer pessoa que passasse por ali acreditaria que os peixes jamais haviam desaparecido. Era como se a vida simplesmente tivesse esperado, em silêncio, a ocasião certa para continuar.

Otto terminou a narrativa e voltou a contemplar as brasas. Durante alguns minutos ninguém falou.

O relógio de parede marcava lentamente a passagem das horas. Do lado de fora, o vento fazia estremecer os bambuzais. Henrique permanecia imóvel, procurando decidir se acabara de ouvir uma história ou uma lembrança. Por fim perguntou apenas uma coisa:

— O senhor acredita nisso?

O velho demorou a responder. Sorriu daquele modo sereno que só possuem as pessoas que aprenderam a envelhecer sem perder o espanto diante do mundo.

— Meu pai ouviu essa história do pai dele. E o pai dele escutou do avô, que a aprendera com um velho caboclo. Talvez tenha começado com um índio. Talvez seja ainda mais antiga. Eu não sei.

Fez uma pausa e voltou os olhos para a janela, onde a lua parecia repousar sobre os pinheiros.

— O que sei é outra coisa.

Henrique aguardou.

— Em toda seca que vi na vida, o riacho desapareceu completamente. E, depois da primeira chuva forte, os peixes voltaram. Nunca encontrei um único morto. Nem eu... nem meu pai... nem meu avô. O silêncio que se seguiu pareceu maior que a própria cozinha.

Lá fora, uma leve brisa atravessou a noite trazendo um perfume inesperado de terra úmida, embora fazia quase três meses que nenhuma gota de chuva caía sobre a Linha Limeira.

Henrique caminhou até a janela. Ao longe, onde o riacho agora era apenas um caminho de pedras brancas sob a luz da lua, pareceu-lhe distinguir, por um breve instante, uma pequena claridade movendo-se lentamente entre as barrancas. Era apenas um reflexo.

Ou talvez fosse alguém que, havia muito mais tempo do que qualquer homem poderia lembrar, continuava velando, em silêncio, o sono dos peixes.

A noite da lua cheia

Durante os dias que se seguiram à conversa com o avô Otto, Henrique percebeu que a antiga lenda já não lhe saía do pensamento. Bastava fechar os olhos para imaginar uma figura silenciosa caminhando entre as pedras do riacho seco, enquanto pequenos lambaris a seguiam como crianças obedientes. A razão lhe dizia tratar-se apenas de uma história, dessas que os mais velhos inventavam para ensinar respeito pela natureza. No entanto, havia alguma coisa naquela narrativa que parecia possuir raízes mais profundas do que uma simples invenção.

Era difícil explicar.

Desde que ouvira falar da Mãe das Vertentes, o próprio silêncio da estiagem parecia diferente. Antes, a seca lhe parecera apenas ausência de chuva. Agora começava a enxergá-la como um longo intervalo, uma pausa necessária entre duas canções da terra. O riacho não lhe parecia morto; apenas adormecido.

Na sexta noite depois daquela conversa, a lua tornou a nascer cheia. Ergueu-se lentamente atrás das araucárias, enorme e dourada, como se alguém a estivesse retirando do interior da floresta. À medida que subia, sua luz espalhava-se pelos campos, cobrindo as pastagens ressequidas com uma claridade leitosa que apagava quase todas as sombras. As cercas de arame cintilavam. Os troncos dos pinheiros pareciam colunas de prata. Até a poeira suspensa pela seca adquiria um brilho delicado, como se milhares de partículas luminosas permanecessem imóveis sobre a paisagem. Henrique demorou a adormecer.

Não havia vento. O calor permanecia preso entre as paredes da casa, e a noite parecia respirar muito devagar. De vez em quando escutava-se o canto de um grilo ou o chamado melancólico de um urutau perdido nas matas do outro lado do Rio Limeira. Depois tudo voltava ao silêncio.

Em algum momento, já perto da meia-noite, o menino despertou sem saber exatamente por quê. Não ouvira barulho algum. Tivera apenas a impressão de que alguém o chamava muito de longe. Levantou-se devagar para não acordar os pais e aproximou-se da janela.

Foi então que percebeu. Lá fora, o luar parecia mais intenso sobre a direção do riacho. Não era propriamente uma luz diferente, mas um brilho que parecia respirar, como se o próprio leito seco refletisse uma claridade que não vinha da lua.

Permaneceu alguns minutos observando. Nada aconteceu. Quando já se preparava para voltar à cama, ouviu um som tão delicado que quase poderia ser confundido com imaginação. Era semelhante ao murmúrio da água correndo entre pedras. Mas não havia água. O riacho continuava completamente seco.

O menino vestiu rapidamente um casaco de lã, calçou as botas e saiu de casa sem fazer ruído. Atravessou o terreiro. O cachorro da família ergueu a cabeça, observou-o por um instante e, estranhamente, voltou a deitar-se sem latir. Parecia reconhecer que aquela não era uma noite comum.

Henrique seguiu pelo estreito carreiro que conduzia ao riacho. À medida que caminhava, o ar tornava-se surpreendentemente fresco. O cheiro de terra seca desaparecia pouco a pouco, substituído por outro perfume, úmido e delicado, semelhante ao das primeiras chuvas de primavera. Era impossível compreender de onde vinha aquele aroma. Não havia nuvens. Nem mesmo o orvalho se formara naquela noite.

Ao chegar à barranca, permaneceu imóvel. O antigo leito continuava vazio. As pedras brancas refletiam o luar como pequenas luas espalhadas pelo chão. Nenhuma gota de água. Nenhum movimento.

Entretanto, o murmúrio persistia. Muito fraco. Muito distante. Como se corresse debaixo da terra.

Henrique desceu lentamente entre as pedras. A cada passo, a sensação tornava-se mais intensa. Parecia que o riacho continuava existindo, invisível sob seus pés.

A corrente não desaparecera. Apenas escolhera outro caminho. Foi então que os pirilampos começaram a surgir. Primeiro um. Depois outro. Em seguida dezenas deles.

Acenderam-se entre as taquaras e sobre os barrancos como pequenas estrelas que houvessem resolvido pousar na terra. Não voavam desordenadamente, como acontecia nas noites de verão. Pareciam acompanhar uma direção comum. Todos desciam para o centro do riacho.

Henrique acompanhou aquele lento desfile luminoso sem ousar mover-se. Os insetos reuniram-se sobre uma grande pedra arredondada, justamente onde antes existia o remanso mais profundo. Permaneceram ali durante alguns instantes, formando uma espécie de halo dourado.

Então aconteceu algo que jamais esqueceria. A pedra começou a brilhar. Não intensamente. Era uma claridade suave, azulada, parecida com o reflexo da lua sobre água muito limpa. O brilho espalhou-se lentamente pelas pedras vizinhas, desenhando finíssimos fios luminosos que serpenteavam pelo antigo leito exatamente como fazia a correnteza quando o riacho ainda estava cheio.

Durante alguns segundos, Henrique teve a impressão de contemplar um rio feito apenas de luz. Nesse instante surgiu uma figura na outra margem. Era impossível dizer de onde viera. Talvez estivesse ali desde o princípio. Talvez tivesse simplesmente nascido do luar.

Vestia algo que lembrava um longo manto cinzento, tecido com a mesma transparência da neblina que costuma cobrir os vales nas manhãs frias de inverno. Seus cabelos desciam até a cintura, confundindo-se com sombras e fios prateados de luar. Caminhava descalça sobre as pedras sem deslocar uma única delas.

Não parecia jovem. Nem velha. Seu rosto possuía aquela serenidade que apenas as montanhas muito antigas conservam. Ela não olhava para Henrique. Seu olhar permanecia voltado para o chão, como quem procura algo que conhece desde sempre.

Parou junto à pedra iluminada. Curvou-se lentamente. As mãos tocaram a superfície lisa da rocha. No mesmo instante, o murmúrio subterrâneo tornou-se mais claro. Agora Henrique tinha certeza. Não era vento. Era água. Água correndo muito abaixo da terra.

A figura permaneceu alguns instantes imóvel, como se escutasse aquela corrente invisível. Depois ergueu lentamente a cabeça. Por um breve momento seus olhos encontraram os do menino. Não havia surpresa. Nem reprovação. Apenas um sorriso tão discreto que talvez nem pudesse ser chamado de sorriso. Era antes um gesto de reconhecimento. Como se dissesse, sem palavras, que toda criança curiosa acaba encontrando os caminhos escondidos da natureza.

Então ela levou um dedo aos lábios. Um pedido silencioso. Não para guardar segredo dos homens. Mas para preservar o silêncio das águas. No mesmo instante, um vento leve atravessou o vale. As copas das araucárias estremeceram. Os pirilampos apagaram-se quase ao mesmo tempo.

Quando Henrique voltou a olhar para a outra margem, já não havia ninguém. Restava apenas o luar. E o antigo riacho de pedras.

Permaneceu ali por longo tempo. O murmúrio subterrâneo desaparecera. O perfume de terra molhada também. Tudo parecia exatamente como antes.

Ao regressar para casa, pouco antes do amanhecer, encontrou o avô Otto sentado na varanda, como se já esperasse sua volta. O velho nada perguntou. Limitou-se a observar o neto em silêncio. Depois fitou o horizonte, onde a lua começava lentamente a empalidecer. Somente então murmurou, quase para si mesmo:

— Há pessoas que passam a vida inteira olhando um riacho... e nunca chegam a vê-lo.

Henrique não respondeu. Sabia que qualquer palavra diminuiria a grandeza da noite que acabara de viver. E, pela primeira vez desde o início da estiagem, teve absoluta certeza de que os peixes estavam vivos. Não sabia onde. Não sabia como.

Mas, em algum lugar sob aquela terra sedenta, continuavam esperando pacientemente a voz da primeira chuva.

A chuva, os peixes e o segredo

Os dias continuaram passando lentamente, e a estiagem parecia ter perdido a conta do tempo. A terra já não exalava sequer o cheiro da poeira; respirava apenas um silêncio ressequido que se espalhava pelas lavouras, pelos capões de mato e pelas margens do pequeno riacho. As folhas das araucárias permaneciam imóveis durante horas inteiras, como se até o vento tivesse desistido de atravessar aqueles campos. Os colonos olhavam o céu todas as manhãs e todas as tardes, mas encontravam apenas o mesmo azul duro e distante, incapaz de produzir uma única nuvem.

Henrique, entretanto, deixara de esperar a chuva com a ansiedade dos adultos. Depois da noite de lua cheia, alguma coisa mudara dentro dele. Continuava visitando o riacho quase diariamente, mas já não procurava peixes escondidos entre as pedras nem vestígios da misteriosa guardiã. Limitava-se a sentar sobre a antiga laje do remanso e a escutar.

Descobriu então que até o silêncio possui muitas vozes. Havia o silêncio das pedras aquecidas pelo sol; o das cigarras que cessavam o canto ao entardecer; o das raízes profundas trabalhando invisivelmente sob a terra; e havia outro, mais difícil de perceber, que parecia subir das entranhas do próprio riacho. Não era um som. Era antes uma presença, como se a água continuasse correndo em algum lugar inacessível aos olhos.

O menino jamais comentou isso com ninguém. Sabia, instintivamente, que certas experiências perdem a força quando são explicadas.

Numa tarde de fevereiro, porém, algo começou a mudar.

Primeiro apareceu um vento frio vindo do sul. Não era forte; apenas suficiente para fazer as folhas dos eucaliptos mostrarem o avesso prateado. Depois surgiram nuvens muito altas, quase transparentes, que pouco a pouco engrossaram até esconder o azul do céu. Pela primeira vez em muitos meses, o cheiro da terra pareceu despertar antes mesmo de receber a água.

Os mais velhos interromperam o trabalho na roça. Ninguém dizia palavra. Todos olhavam para o horizonte. Foi o avô Otto quem murmurou, quase sorrindo:

— Agora ela acordou.

Henrique compreendeu imediatamente de quem ele falava. Pouco depois do pôr do sol, o primeiro trovão atravessou o vale. Não foi um estampido violento. Soou grave e prolongado, como se alguma porta muito antiga tivesse acabado de se abrir nas montanhas. Um relâmpago desenhou por um instante as copas das araucárias e desapareceu atrás das serras. Veio outro. Depois outro. E, finalmente, a chuva.

No começo caiu mansa, quase tímida, formando pequenos círculos sobre a poeira dos caminhos. Em seguida tornou-se mais forte, lavando os telhados, os pomares, as cercas e os campos castigados pelo verão. A terra parecia beber com avidez cada gota, devolvendo ao ar aquele perfume inconfundível que faz lembrar infância, sementes e esperança.

Durante toda a noite choveu sem descanso. Os telhados ressoavam como tambores suaves. Os açudes começaram a encher. As calhas transbordaram. Lá pela madrugada, o velho riacho voltou a cantar.

Henrique levantou-se antes do amanhecer. Ainda caía uma garoa fina quando correu até a divisa dos Weber com os Dresch. O espetáculo que encontrou parecia impossível.

Onde, na véspera, havia apenas pedras secas, corria novamente um fio de água cristalina, deslizando entre as barrancas como se jamais tivesse interrompido sua viagem. A corrente ainda era estreita, mas já possuía a mesma música de outros tempos.

Então o menino viu. Primeiro um lampejo prateado. Depois outro. Logo dezenas. Os lambaris nadavam contra a corrente com a desenvoltura de sempre. Um mandi saiu lentamente debaixo de uma pedra. Mais adiante, um pequeno jundiá desapareceu entre as sombras do remanso recém-formado. Até um diminuto caranguejo caminhava de lado sobre o cascalho úmido, como se apenas retomasse uma rotina interrompida por alguns dias.

Henrique permaneceu imóvel. Nenhum peixe parecia cansado. Nenhum parecia ter sobrevivido a uma seca. Todos se comportavam como se o riacho jamais tivesse deixado de existir.

A lembrança da lenda voltou-lhe inteira. O pote de barro. O sono das águas. A guardiã. Mas não encontrou sinal algum de sua presença. Nenhuma pegada. Nenhum brilho. Nenhum murmúrio. Apenas o riacho. E isso bastava.

Naquela mesma manhã espalhou-se a notícia de que a chuva havia salvado as lavouras. Os colonos voltaram aos trabalhos com um entusiasmo que parecia renascer junto com o verde das pastagens. As crianças tornaram a brincar na água rasa, construindo pequenas barragens de pedras exatamente como haviam feito todos os verões.

A vida recomeçava. Como sempre. Passaram-se alguns anos. Henrique cresceu. Estudou nos Maristas em Joaçaba, depois numa faculdade de Florianópolis e, finalmente, tornou-se professor de Ciências Naturais. Aprendeu sobre aquíferos subterrâneos, lençóis freáticos, ovos resistentes de pequenos organismos aquáticos, peixes capazes de sobreviver em poças escondidas e inúmeros fenômenos que a biologia explicava com admirável precisão.

Quanto mais estudava, mais compreendia os mecanismos da natureza. E, curiosamente, menos sentia vontade de desfazer a antiga lenda.

Certa vez, durante uma palestra na universidade, um colega perguntou-lhe como explicava o reaparecimento dos peixes nos riachos temporários da infância. Henrique respondeu descrevendo processos ecológicos, migrações invisíveis, pequenas nascentes subterrâneas e adaptações desenvolvidas ao longo de milhares de anos.

Tudo era cientificamente correto. Mesmo assim, ao terminar a exposição, permaneceu com a estranha sensação de que faltava alguma coisa.

Anos depois, já homem feito, voltou à Linha Limeira para visitar o avô Otto, que se aproximava do fim da vida. Encontrou-o sentado na mesma varanda, olhando o riacho ao longe. Conversaram pouco. Os velhos raramente precisam de muitas palavras.

Quando o sol começou a desaparecer atrás das araucárias, Henrique resolveu fazer a pergunta que guardava havia décadas.

— Vô... naquela noite... eu realmente vi a Mãe das Vertentes?

Otto permaneceu longo tempo em silêncio. Depois sorriu. Não respondeu. Em vez disso, retirou lentamente do bolso do velho casaco uma pequena chave de ferro, escurecida pelo tempo.

— Vá até o sótão. Há uma arca que pertenceu ao teu bisavô.

Henrique subiu. Depois de procurar entre móveis antigos, encontrou um pesado baú de cedro. A fechadura abriu-se facilmente.

Dentro havia fotografias amareladas, ferramentas antigas, um rosário, algumas cartas escritas em alemão e um caderno de capa de couro, cujas páginas já se desfaziam nas bordas. Era o diário do trisavô Johann Weber, um dos primeiros colonos da Linha Limeira.

Henrique começou a folheá-lo. Entre anotações sobre plantações, geadas e nascimentos, encontrou um  a entrada datada de 17 de fevereiro de 1889. A letra era firme. Dizia apenas:

Esta noite acompanhei meu pai até o riacho. Vi a Guardiã recolher os peixes antes da grande seca. Meu pai pediu que eu jamais contasse a ninguém, porque os homens têm o péssimo costume de destruir tudo aquilo que conseguem explicar. Um dia meu filho verá o mesmo. E assim será enquanto houver quem respeite as águas.

Henrique releu aquelas linhas diversas vezes. O texto terminava ali. Não havia mais nenhuma explicação. Nenhum desenho. Nenhuma descrição da mulher. Somente aquelas palavras.

Na última página do caderno, escritas provavelmente muitos anos depois por outra mão, havia apenas uma frase, sem assinatura:

— O segredo nunca foi para onde vão os peixes. O segredo é por que eles sempre resolvem voltar.

Henrique fechou lentamente o diário.

Quando desceu a escada, a cadeira da varanda estava vazia. O avô Otto havia partido em silêncio, exatamente enquanto a chuva começava a cair outra vez sobre a Linha Limeira.

Na manhã seguinte, durante o velório, Henrique caminhou sozinho até o riacho. As águas corriam limpas entre as pedras. Um cardume de lambaris faiscava ao sol recém-nascido. Então, pela primeira vez desde a infância, percebeu algo que jamais havia notado.

Sobre a grande pedra do antigo remanso, repousava um pequeno vaso de barro avermelhado, do tamanho de um pote de melado. Estava completamente vazio.

Henrique aproximou-se. Tocou-o com cuidado. O barro ainda estava morno. Ergueu os olhos para a mata. Não havia ninguém. Sorriu. Depois, deixou o vaso exatamente onde estava.

Alguns mistérios não existem para ser desvendados. Existem para continuar fazendo o mundo merecer ser contemplado.


 

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