A Mãe das Vertentes
Félix Maier
A
seca e o mistério do riacho
Muito
antes de alguém fincar cercas entre as terras dos Weber e dos Dresch, antes
mesmo de os primeiros machados alemães abrirem clareiras na mata da Linha
Limeira, já existia ali um pequeno riacho que descia das encostas em direção ao
Rio Limeira. Não era um curso d'água importante. Nunca aparecera em mapas, nem
despertava o interesse dos viajantes. Corria escondido entre barrancos cobertos
de samambaias, ao lado de pedras e troncos caídos com musgo, sob a sombra de
xaxins antigos e entre moitas de taquaras que sussurravam ao menor sopro do
vento. Seu mundo era feito de silêncio, de folhas caídas e do rumor cristalino
da água deslizando sobre pedras arredondadas que os séculos haviam polido
pacientemente. Até serviam para o jogo de bocha.
Era
um riacho humilde, mas possuía uma extraordinária vocação para guardar
segredos. Na primavera, suas margens cobriam-se de flores silvestres, e bandos
de libélulas azuis riscavam o ar como pequenas faíscas vivas. No verão, quando
o calor amadurecia o milho e fazia perfumar os ervais, a água permanecia fria
como se viesse diretamente do coração da serra. As crianças da vizinhança
conheciam cada curva daquele pequeno curso d'água. Sabiam onde o fundo era de
areia fina, onde começavam os remansos escuros frequentados pelos jundiás, onde
os lambaris faiscavam ao sol em cardumes prateados e onde os mandis preferiam
esconder-se entre pedras maiores, imóveis como se também fossem parte delas.
Para
os adultos, o riacho era apenas uma referência geográfica. Era ali que
terminava uma propriedade e começava outra; era o lugar onde o gado podia beber
antes de voltar aos potreiros; era um ponto de descanso para quem regressava da
roça nas tardes abafadas de janeiro. As crianças, entretanto, enxergavam outra
realidade. Aquele fio de água era um universo inteiro. Um galho transformava-se
em ponte; uma folha seca, em embarcação; um tronco caído servia de castelo ou
fortaleza. Bastava um pouco de imaginação para que aquele pequeno afluente do
Rio Limeira se tornasse maior que qualquer rio conhecido.
Entre
os meninos que passavam as tardes por ali estava Henrique Weber, cuja
curiosidade parecia não conhecer descanso. Enquanto os companheiros se
contentavam em pescar lambaris ou disputar quem lançava pedras mais longe, ele
preferia observar. Sentava-se sobre uma rocha lisa, quase no meio da
correnteza, e permanecia longos minutos contemplando a água contornar os
obstáculos, desenhando redemoinhos passageiros que desapareciam tão depressa
quanto surgiam. Havia algo naquele movimento incessante que lhe despertava
perguntas para as quais ninguém parecia possuir resposta.
Perguntava-se
por que os peixes jamais se perdiam, mesmo quando a corrente aumentava depois
das chuvas fortes. Intrigava-o a maneira como os lambaris pareciam conhecer
caminhos invisíveis sob a água, desviando-se das pedras sem jamais se chocar
contra elas. Também lhe parecia estranho que o riacho nunca fosse exatamente
igual ao do dia anterior. Mudavam as sombras, mudava o brilho das águas,
mudavam os sons. Era como se aquela pequena corrente possuísse um humor
próprio, impossível de prever.
Seu
avô costumava dizer que toda água viva tem memória. Henrique não compreendia
bem o significado da frase, mas ela lhe voltava ao pensamento sempre que
permanecia sozinho junto ao riacho.
Naquele
verão, porém, a natureza começou a falar uma língua diferente.
Primeiro
vieram alguns dias excessivamente quentes. Depois, uma semana inteira sem
nuvens. Em seguida outra. E mais outra. O céu adquiriu um azul parado, quase
metálico, que parecia ter perdido a capacidade de produzir chuva. As manhãs
nasciam envoltas numa claridade intensa e terminavam em entardeceres de poeira
suspensa, enquanto o vento norte percorria os campos carregando um calor áspero
que fazia ranger as folhas das araucárias.
Pouco
a pouco, a estiagem começou a deixar marcas em toda parte.
As
hortas exigiam baldes e mais baldes de água retirados dos poços ainda
existentes no riacho. As folhas do milho enrolavam-se sobre si mesmas para
economizar umidade. Os pastos, antes verdes, assumiam uma tonalidade amarelada
que se espalhava pelas colinas como uma enfermidade silenciosa. Até os animais
pareciam compreender que algo não seguia o curso habitual das estações. As
vacas procuravam sombra mais cedo; os quero-queros gritavam menos; as
andorinhas voavam alto, como se buscassem nuvens que não existiam.
Os
colonos olhavam para o horizonte com crescente inquietação. Quem vive da terra
aprende cedo a reconhecer o silêncio das nuvens. Comentava-se, depois da missa
de domingo, que fazia muitos anos desde a última seca daquela intensidade. Os
mais idosos recordavam antigas estiagens ocorridas ainda no tempo dos
pioneiros, quando famílias inteiras precisavam transportar água em carroças
para salvar os animais. E a mães tinham que ir de charrete para lavar roupa no
Rio do Peixe. Cada um possuía uma lembrança diferente, mas todos concordavam
numa coisa: quando a terra começava a rachar daquele jeito, era porque o verão
ainda guardava provas mais severas.
Henrique
acompanhava essas conversas sem lhes dar muita importância. Em sua imaginação
infantil, a chuva era apenas uma questão de esperar mais alguns dias. Afinal,
desde que nascera sempre vira as águas voltarem.
Foi
somente quando decidiu visitar o riacho que compreendeu a gravidade da
estiagem.
A
água havia desaparecido. Restava apenas o leito descoberto, coberto por pedras
arredondadas de todos os tamanhos, polidas durante décadas pela correnteza.
Algumas eram tão perfeitamente esféricas que lembravam antigas bolas esquecidas
por jogadores invisíveis. Outras brilhavam ao sol como se escondessem cristais
em seu interior. Caminhar por aquele antigo leito produzia uma sensação
estranha, quase irreverente, como se ele estivesse pisando num lugar onde antes
só os peixes possuíam permissão para passar.
O
remanso onde mergulhava nos verões transformara-se numa depressão seca. A pedra
lisa que servia de escorregador estava quente ao toque das mãos. Entre as
fendas do solo restavam apenas pequenas manchas de umidade, rapidamente
absorvidas pelo calor da tarde.
Mas
não era o desaparecimento da água que mais impressionava. Era a completa
ausência de vida. Não havia lambaris presos em pequenas poças. Não havia mandis
enterrados na lama. Não havia jundiás agonizando entre as pedras. Nem sequer
girinos ou insetos aquáticos. Era como se todos os habitantes daquele pequeno
mundo tivessem partido ao mesmo tempo, levando consigo o próprio rumor da
correnteza.
Henrique
voltou diversas vezes nos dias seguintes. Examinava cuidadosamente cada curva
do antigo leito, levantava pedras, remexia a areia ainda úmida junto às
barrancas, observava qualquer sinal que pudesse explicar para onde haviam ido
os peixes. Não encontrava absolutamente nada.
Aquela
ausência contrariava tudo o que lhe parecia lógico. Se o riacho secava, os
peixes deveriam morrer ali mesmo. No entanto, não havia um único corpo, nem o
menor vestígio de que algum deles tivesse existido. Era um desaparecimento
completo. Um mistério.
Na
quarta visita começou a perceber detalhes que antes lhe haviam escapado.
Algumas pedras amanheciam inexplicavelmente molhadas, embora fazia semanas que
nem orvalho se formava. Em certos trechos apareciam pequenas marcas na areia
fina das barrancas, semelhantes a pegadas humanas, porém delicadas demais para
pertencerem a qualquer criança da vizinhança. Seguiam sempre em direção ao
centro do leito seco e desapareciam exatamente onde, meses antes, corria a
parte mais profunda da corrente.
À
noite, deitado em sua cama, Henrique já não conseguia afastar aquelas imagens
da memória. Fechava os olhos e via o riacho cheio de novo, os peixes deslizando
entre as pedras e uma pergunta insistindo em retornar, como o canto de um
pássaro invisível: para onde vai a vida quando a água desaparece?
Os
velhos talvez soubessem a resposta. Afinal, havia muito tempo deixavam escapar
um sorriso enigmático sempre que alguém fazia essa pergunta. Nunca respondiam
imediatamente. Limitavam-se a olhar para a direção do riacho, como quem recorda
uma história antiga demais para ser contada à luz do dia.
E
foi justamente numa dessas noites silenciosas, quando a lua cheia começava a
derramar prata sobre os campos da Linha Limeira, que Henrique julgou ouvir,
trazido pelo vento, um canto tão suave que parecia nascer das próprias pedras
do riacho. Não era voz de gente nem de ave conhecida. Era um murmúrio delicado,
semelhante ao da água conversando consigo mesma, como se, mesmo ausente, o
riacho continuasse vivo, aguardando pacientemente o momento de revelar o
segredo que guardava desde antes da chegada dos primeiros colonos.
A
lenda da Mãe das Vertentes
Na
Linha Limeira havia uma antiga sabedoria segundo a qual nem todas as perguntas
mereciam resposta imediata. Algumas precisavam amadurecer como o milho na
espiga ou como o vinho repousando nos tonéis de carvalho. Por isso, quando
Henrique começou a perguntar para onde desapareciam os peixes durante as
grandes estiagens, ninguém lhe respondeu de pronto. Os adultos limitavam-se a
sorrir discretamente, como quem reconhece a curiosidade própria da infância,
enquanto os mais velhos trocavam olhares silenciosos, desses que parecem
carregar lembranças muito anteriores à memória dos homens.
Foi
somente alguns dias depois, numa noite em que a lua cheia iluminava os campos
quase como um sol adormecido, que o avô Otto Stein resolveu quebrar o silêncio.
A
família havia terminado a ceia. O fogão a lenha ainda conservava um calor
agradável, espalhando pelo ambiente o perfume da madeira de guamirim que ardia
lentamente entre brasas avermelhadas. Sobre a chapa fervia uma chaleira de
ferro, e o cheiro de erva-doce misturava-se ao aroma do café recém-passado. Lá
fora, os grilos sustentavam um concerto interminável, interrompido apenas pelo
chamado distante de um urutau escondido entre os pinheiros.
Otto
permaneceu algum tempo olhando as brasas, como se procurasse nelas o começo da
história. Os velhos sabiam que certas narrativas não podiam ser contadas com
pressa. Era preciso deixar que as palavras encontrassem o próprio caminho.
Quando
finalmente falou, sua voz parecia pertencer menos àquela cozinha do que às
matas antigas que cercavam a propriedade.
Disse
que muito antes da chegada dos colonizadores, quando aquelas terras eram
percorridas apenas pelos Kaingang e pelos animais do mato, já existiam pessoas
que conheciam o segredo das águas. Não construíam pontes nem represavam
riachos. Preferiam ouvi-los. Sabiam distinguir, pelo som da correnteza, se o
inverno seria rigoroso, se a seca se aproximava ou se os peixes estavam se
multiplicando nas nascentes escondidas entre as pedras.
Esses
antigos moradores acreditavam que toda vertente possuía um espírito protetor.
Não
um espírito assustador, como aqueles que as mães inventavam para impedir que as
crianças entrassem na mata sozinhas. Era uma guardiã discreta, cuja missão
consistia apenas em cuidar para que a água jamais esquecesse seu caminho até os
rios.
Os
primeiros colonos ouviram essa história dos indígenas e dos caboclos que viviam
espalhados pelas serras. Uns acreditaram. Outros riram. Mas, curiosamente,
mesmo os que zombavam da lenda evitavam pronunciar certas palavras quando
atravessavam um olho-d'água ao cair da noite.
— Há
coisas — comentou o velho Otto quase para si mesmo — que a gente não precisa
entender para aprender a respeitar.
Henrique
escutava sem interromper.
O
avô prosseguiu.
Diziam
que a guardiã era conhecida por muitos nomes. Em algumas regiões chamavam-na
Senhora das Nascentes. Em outras, Dona das Águas Dormidas. Mas ali, na Linha
Limeira, havia muito tempo todos a conheciam simplesmente como Mãe das
Vertentes.
Ninguém
sabia descrever-lhe exatamente o rosto.
Havia
quem jurasse tratar-se de uma velha muito pequena, coberta por um xale tecido
com fios de neblina. Outros afirmavam que possuía a aparência de uma moça, com
longos cabelos escuros onde se enroscavam pequenas flores brancas iguais às que
cresciam nas margens dos riachos. Alguns diziam que seus cabelos eram verdes
como musgo; outros insistiam que brilhavam prateados sob a luz da lua. Havia
até quem afirmasse nunca ter visto pessoa alguma, apenas um vulto claro
caminhando descalço sobre as pedras molhadas sem provocar o menor ruído.
Cada
testemunha contava uma história diferente. E justamente por isso todas pareciam
verdadeiras.
Segundo
a tradição, ela jamais aparecia durante o dia. Enquanto o sol permanecia alto,
escondia-se nas furnas das barrancas ou sob as raízes das figueiras antigas,
onde a terra conserva umidade mesmo nos verões mais severos. Apenas quando a
lua cheia derramava sua claridade sobre os campos é que saía para percorrer
silenciosamente as margens dos riachos.
Não
caminhava. Deslizava. Era como se seus pés conhecessem um caminho invisível
traçado pela própria água. Por onde passava, as pedras pareciam adquirir um
brilho diferente. O ar tornava-se mais fresco. O cheiro da terra mudava,
lembrando chuva distante mesmo quando o céu permanecia completamente limpo. Mas
sua verdadeira tarefa começava apenas nas grandes estiagens.
Quando
os riachos secavam e as águas desapareciam sob o calor impiedoso do verão, a
Mãe das Vertentes recolhia pacientemente cada filhote de peixe. Os lambaris
mais novos vinham primeiro, seguindo-a como se reconhecessem uma antiga canção.
Depois apareciam os mandis, sempre desconfiados, escondendo-se entre suas mãos.
Os jundiás abandonavam lentamente os poços mais fundos. Até os pequenos
caranguejos deixavam suas tocas de barro para acompanhá-la.
Nenhum
precisava ser capturado. Todos sabiam que chegara a hora. Então ela os colocava
cuidadosamente dentro de um enorme pote de barro, modelado, dizia-se, com
argila retirada do fundo do primeiro riacho criado por Deus. Esse pote jamais
secava.
Por
fora parecia um simples vaso de barro escurecido pelo tempo. Por dentro, porém,
existia um mundo inteiro de águas cristalinas, tão profundas que ninguém seria
capaz de lhes encontrar o fundo. Ali os peixes dormiam sem sentir a passagem
dos dias, embalados por uma corrente invisível que nunca deixava de correr.
Depois
de fechar cuidadosamente a tampa, a guardiã enterrava o pote sob a barranca
mais antiga do riacho, onde nem o calor mais intenso conseguia penetrar.
Ali permaneciam todos,
aguardando. Não aguardavam o tempo. Aguardavam o som. Porque, segundo a lenda,
a Mãe das Vertentes não obedecia ao calendário dos homens. Não contava semanas
nem meses. Esperava apenas ouvir a primeira grande trovoada. Era esse o sinal. Quando
o trovão finalmente rasgava o céu, ela despertava.
Caminhava
novamente até o lugar onde escondera o pote encantado e retirava-o da terra com
a mesma delicadeza com que uma mãe levanta um filho adormecido do berço. Bastava
erguer a tampa. A água transbordava.
Os
lambaris escapavam primeiro, faiscando como pequenos relâmpagos prateados.
Depois vinham os mandis, os jundiás, os cascudos e até alguns camarõezinhos de
água doce que ninguém sabia de onde surgiam. Todos voltavam ao riacho
exatamente no instante em que a chuva recomeçava sua antiga conversa com as
pedras.
Na
manhã seguinte, qualquer pessoa que passasse por ali acreditaria que os peixes
jamais haviam desaparecido. Era como se a vida simplesmente tivesse esperado,
em silêncio, a ocasião certa para continuar.
Otto
terminou a narrativa e voltou a contemplar as brasas. Durante alguns minutos
ninguém falou.
O
relógio de parede marcava lentamente a passagem das horas. Do lado de fora, o
vento fazia estremecer os bambuzais. Henrique permanecia imóvel, procurando
decidir se acabara de ouvir uma história ou uma lembrança. Por fim perguntou
apenas uma coisa:
— O
senhor acredita nisso?
O
velho demorou a responder. Sorriu daquele modo sereno que só possuem as pessoas
que aprenderam a envelhecer sem perder o espanto diante do mundo.
—
Meu pai ouviu essa história do pai dele. E o pai dele escutou do avô, que a
aprendera com um velho caboclo. Talvez tenha começado com um índio. Talvez seja
ainda mais antiga. Eu não sei.
Fez
uma pausa e voltou os olhos para a janela, onde a lua parecia repousar sobre os
pinheiros.
— O
que sei é outra coisa.
Henrique
aguardou.
— Em
toda seca que vi na vida, o riacho desapareceu completamente. E, depois da
primeira chuva forte, os peixes voltaram. Nunca encontrei um único morto. Nem
eu... nem meu pai... nem meu avô. O silêncio que se seguiu pareceu maior que a
própria cozinha.
Lá
fora, uma leve brisa atravessou a noite trazendo um perfume inesperado de terra
úmida, embora fazia quase três meses que nenhuma gota de chuva caía sobre a
Linha Limeira.
Henrique
caminhou até a janela. Ao longe, onde o riacho agora era apenas um caminho de
pedras brancas sob a luz da lua, pareceu-lhe distinguir, por um breve instante,
uma pequena claridade movendo-se lentamente entre as barrancas. Era apenas um
reflexo.
Ou
talvez fosse alguém que, havia muito mais tempo do que qualquer homem poderia
lembrar, continuava velando, em silêncio, o sono dos peixes.
A
noite da lua cheia
Durante
os dias que se seguiram à conversa com o avô Otto, Henrique percebeu que a
antiga lenda já não lhe saía do pensamento. Bastava fechar os olhos para
imaginar uma figura silenciosa caminhando entre as pedras do riacho seco,
enquanto pequenos lambaris a seguiam como crianças obedientes. A razão lhe
dizia tratar-se apenas de uma história, dessas que os mais velhos inventavam
para ensinar respeito pela natureza. No entanto, havia alguma coisa naquela
narrativa que parecia possuir raízes mais profundas do que uma simples
invenção.
Era
difícil explicar.
Desde
que ouvira falar da Mãe das Vertentes, o próprio silêncio da estiagem parecia
diferente. Antes, a seca lhe parecera apenas ausência de chuva. Agora começava
a enxergá-la como um longo intervalo, uma pausa necessária entre duas canções
da terra. O riacho não lhe parecia morto; apenas adormecido.
Na
sexta noite depois daquela conversa, a lua tornou a nascer cheia. Ergueu-se
lentamente atrás das araucárias, enorme e dourada, como se alguém a estivesse
retirando do interior da floresta. À medida que subia, sua luz espalhava-se
pelos campos, cobrindo as pastagens ressequidas com uma claridade leitosa que
apagava quase todas as sombras. As cercas de arame cintilavam. Os troncos dos
pinheiros pareciam colunas de prata. Até a poeira suspensa pela seca adquiria
um brilho delicado, como se milhares de partículas luminosas permanecessem
imóveis sobre a paisagem. Henrique demorou a adormecer.
Não
havia vento. O calor permanecia preso entre as paredes da casa, e a noite
parecia respirar muito devagar. De vez em quando escutava-se o canto de um
grilo ou o chamado melancólico de um urutau perdido nas matas do outro lado do
Rio Limeira. Depois tudo voltava ao silêncio.
Em
algum momento, já perto da meia-noite, o menino despertou sem saber exatamente
por quê. Não ouvira barulho algum. Tivera apenas a impressão de que alguém o
chamava muito de longe. Levantou-se devagar para não acordar os pais e
aproximou-se da janela.
Foi
então que percebeu. Lá fora, o luar parecia mais intenso sobre a direção do
riacho. Não era propriamente uma luz diferente, mas um brilho que parecia
respirar, como se o próprio leito seco refletisse uma claridade que não vinha
da lua.
Permaneceu
alguns minutos observando. Nada aconteceu. Quando já se preparava para voltar à
cama, ouviu um som tão delicado que quase poderia ser confundido com
imaginação. Era semelhante ao murmúrio da água correndo entre pedras. Mas não
havia água. O riacho continuava completamente seco.
O
menino vestiu rapidamente um casaco de lã, calçou as botas e saiu de casa sem
fazer ruído. Atravessou o terreiro. O cachorro da família ergueu a cabeça,
observou-o por um instante e, estranhamente, voltou a deitar-se sem latir.
Parecia reconhecer que aquela não era uma noite comum.
Henrique
seguiu pelo estreito carreiro que conduzia ao riacho. À medida que caminhava, o
ar tornava-se surpreendentemente fresco. O cheiro de terra seca desaparecia
pouco a pouco, substituído por outro perfume, úmido e delicado, semelhante ao
das primeiras chuvas de primavera. Era impossível compreender de onde vinha
aquele aroma. Não havia nuvens. Nem mesmo o orvalho se formara naquela noite.
Ao
chegar à barranca, permaneceu imóvel. O antigo leito continuava vazio. As
pedras brancas refletiam o luar como pequenas luas espalhadas pelo chão. Nenhuma
gota de água. Nenhum movimento.
Entretanto,
o murmúrio persistia. Muito fraco. Muito distante. Como se corresse debaixo da
terra.
Henrique
desceu lentamente entre as pedras. A cada passo, a sensação tornava-se mais
intensa. Parecia que o riacho continuava existindo, invisível sob seus pés.
A
corrente não desaparecera. Apenas escolhera outro caminho. Foi então que os
pirilampos começaram a surgir. Primeiro um. Depois outro. Em seguida dezenas
deles.
Acenderam-se
entre as taquaras e sobre os barrancos como pequenas estrelas que houvessem
resolvido pousar na terra. Não voavam desordenadamente, como acontecia nas
noites de verão. Pareciam acompanhar uma direção comum. Todos desciam para o
centro do riacho.
Henrique
acompanhou aquele lento desfile luminoso sem ousar mover-se. Os insetos
reuniram-se sobre uma grande pedra arredondada, justamente onde antes existia o
remanso mais profundo. Permaneceram ali durante alguns instantes, formando uma
espécie de halo dourado.
Então
aconteceu algo que jamais esqueceria. A pedra começou a brilhar. Não
intensamente. Era uma claridade suave, azulada, parecida com o reflexo da lua
sobre água muito limpa. O brilho espalhou-se lentamente pelas pedras vizinhas,
desenhando finíssimos fios luminosos que serpenteavam pelo antigo leito
exatamente como fazia a correnteza quando o riacho ainda estava cheio.
Durante
alguns segundos, Henrique teve a impressão de contemplar um rio feito apenas de
luz. Nesse instante surgiu uma figura na outra margem. Era impossível dizer de
onde viera. Talvez estivesse ali desde o princípio. Talvez tivesse simplesmente
nascido do luar.
Vestia
algo que lembrava um longo manto cinzento, tecido com a mesma transparência da
neblina que costuma cobrir os vales nas manhãs frias de inverno. Seus cabelos
desciam até a cintura, confundindo-se com sombras e fios prateados de luar.
Caminhava descalça sobre as pedras sem deslocar uma única delas.
Não
parecia jovem. Nem velha. Seu rosto possuía aquela serenidade que apenas as
montanhas muito antigas conservam. Ela não olhava para Henrique. Seu olhar
permanecia voltado para o chão, como quem procura algo que conhece desde
sempre.
Parou
junto à pedra iluminada. Curvou-se lentamente. As mãos tocaram a superfície
lisa da rocha. No mesmo instante, o murmúrio subterrâneo tornou-se mais claro. Agora
Henrique tinha certeza. Não era vento. Era água. Água correndo muito abaixo da
terra.
A
figura permaneceu alguns instantes imóvel, como se escutasse aquela corrente
invisível. Depois ergueu lentamente a cabeça. Por um breve momento seus olhos
encontraram os do menino. Não havia surpresa. Nem reprovação. Apenas um sorriso
tão discreto que talvez nem pudesse ser chamado de sorriso. Era antes um gesto
de reconhecimento. Como se dissesse, sem palavras, que toda criança curiosa
acaba encontrando os caminhos escondidos da natureza.
Então
ela levou um dedo aos lábios. Um pedido silencioso. Não para guardar segredo
dos homens. Mas para preservar o silêncio das águas. No mesmo instante, um
vento leve atravessou o vale. As copas das araucárias estremeceram. Os
pirilampos apagaram-se quase ao mesmo tempo.
Quando
Henrique voltou a olhar para a outra margem, já não havia ninguém. Restava
apenas o luar. E o antigo riacho de pedras.
Permaneceu
ali por longo tempo. O murmúrio subterrâneo desaparecera. O perfume de terra
molhada também. Tudo parecia exatamente como antes.
Ao
regressar para casa, pouco antes do amanhecer, encontrou o avô Otto sentado na
varanda, como se já esperasse sua volta. O velho nada perguntou. Limitou-se a
observar o neto em silêncio. Depois fitou o horizonte, onde a lua começava
lentamente a empalidecer. Somente então murmurou, quase para si mesmo:
— Há
pessoas que passam a vida inteira olhando um riacho... e nunca chegam a vê-lo.
Henrique
não respondeu. Sabia que qualquer palavra diminuiria a grandeza da noite que
acabara de viver. E, pela primeira vez desde o início da estiagem, teve
absoluta certeza de que os peixes estavam vivos. Não sabia onde. Não sabia
como.
Mas,
em algum lugar sob aquela terra sedenta, continuavam esperando pacientemente a
voz da primeira chuva.
A
chuva, os peixes e o segredo
Os
dias continuaram passando lentamente, e a estiagem parecia ter perdido a conta
do tempo. A terra já não exalava sequer o cheiro da poeira; respirava apenas um
silêncio ressequido que se espalhava pelas lavouras, pelos capões de mato e
pelas margens do pequeno riacho. As folhas das araucárias permaneciam imóveis
durante horas inteiras, como se até o vento tivesse desistido de atravessar
aqueles campos. Os colonos olhavam o céu todas as manhãs e todas as tardes, mas
encontravam apenas o mesmo azul duro e distante, incapaz de produzir uma única
nuvem.
Henrique,
entretanto, deixara de esperar a chuva com a ansiedade dos adultos. Depois da
noite de lua cheia, alguma coisa mudara dentro dele. Continuava visitando o
riacho quase diariamente, mas já não procurava peixes escondidos entre as
pedras nem vestígios da misteriosa guardiã. Limitava-se a sentar sobre a antiga
laje do remanso e a escutar.
Descobriu
então que até o silêncio possui muitas vozes. Havia o silêncio das pedras
aquecidas pelo sol; o das cigarras que cessavam o canto ao entardecer; o das
raízes profundas trabalhando invisivelmente sob a terra; e havia outro, mais
difícil de perceber, que parecia subir das entranhas do próprio riacho. Não era
um som. Era antes uma presença, como se a água continuasse correndo em algum
lugar inacessível aos olhos.
O
menino jamais comentou isso com ninguém. Sabia, instintivamente, que certas
experiências perdem a força quando são explicadas.
Numa
tarde de fevereiro, porém, algo começou a mudar.
Primeiro
apareceu um vento frio vindo do sul. Não era forte; apenas suficiente para
fazer as folhas dos eucaliptos mostrarem o avesso prateado. Depois surgiram
nuvens muito altas, quase transparentes, que pouco a pouco engrossaram até
esconder o azul do céu. Pela primeira vez em muitos meses, o cheiro da terra
pareceu despertar antes mesmo de receber a água.
Os
mais velhos interromperam o trabalho na roça. Ninguém dizia palavra. Todos
olhavam para o horizonte. Foi o avô Otto quem murmurou, quase sorrindo:
—
Agora ela acordou.
Henrique
compreendeu imediatamente de quem ele falava. Pouco depois do pôr do sol, o
primeiro trovão atravessou o vale. Não foi um estampido violento. Soou grave e
prolongado, como se alguma porta muito antiga tivesse acabado de se abrir nas
montanhas. Um relâmpago desenhou por um instante as copas das araucárias e
desapareceu atrás das serras. Veio outro. Depois outro. E, finalmente, a chuva.
No
começo caiu mansa, quase tímida, formando pequenos círculos sobre a poeira dos
caminhos. Em seguida tornou-se mais forte, lavando os telhados, os pomares, as
cercas e os campos castigados pelo verão. A terra parecia beber com avidez cada
gota, devolvendo ao ar aquele perfume inconfundível que faz lembrar infância,
sementes e esperança.
Durante
toda a noite choveu sem descanso. Os telhados ressoavam como tambores suaves. Os
açudes começaram a encher. As calhas transbordaram. Lá pela madrugada, o velho
riacho voltou a cantar.
Henrique
levantou-se antes do amanhecer. Ainda caía uma garoa fina quando correu até a
divisa dos Weber com os Dresch. O espetáculo que encontrou parecia impossível.
Onde,
na véspera, havia apenas pedras secas, corria novamente um fio de água
cristalina, deslizando entre as barrancas como se jamais tivesse interrompido
sua viagem. A corrente ainda era estreita, mas já possuía a mesma música de
outros tempos.
Então
o menino viu. Primeiro um lampejo prateado. Depois outro. Logo dezenas. Os
lambaris nadavam contra a corrente com a desenvoltura de sempre. Um mandi saiu
lentamente debaixo de uma pedra. Mais adiante, um pequeno jundiá desapareceu
entre as sombras do remanso recém-formado. Até um diminuto caranguejo caminhava
de lado sobre o cascalho úmido, como se apenas retomasse uma rotina
interrompida por alguns dias.
Henrique
permaneceu imóvel. Nenhum peixe parecia cansado. Nenhum parecia ter sobrevivido
a uma seca. Todos se comportavam como se o riacho jamais tivesse deixado de
existir.
A
lembrança da lenda voltou-lhe inteira. O pote de barro. O sono das águas. A
guardiã. Mas não encontrou sinal algum de sua presença. Nenhuma pegada. Nenhum
brilho. Nenhum murmúrio. Apenas o riacho. E isso bastava.
Naquela
mesma manhã espalhou-se a notícia de que a chuva havia salvado as lavouras. Os
colonos voltaram aos trabalhos com um entusiasmo que parecia renascer junto com
o verde das pastagens. As crianças tornaram a brincar na água rasa, construindo
pequenas barragens de pedras exatamente como haviam feito todos os verões.
A
vida recomeçava. Como sempre. Passaram-se alguns anos. Henrique cresceu. Estudou
nos Maristas em Joaçaba, depois numa faculdade de Florianópolis e, finalmente,
tornou-se professor de Ciências Naturais. Aprendeu sobre aquíferos
subterrâneos, lençóis freáticos, ovos resistentes de pequenos organismos
aquáticos, peixes capazes de sobreviver em poças escondidas e inúmeros
fenômenos que a biologia explicava com admirável precisão.
Quanto
mais estudava, mais compreendia os mecanismos da natureza. E, curiosamente,
menos sentia vontade de desfazer a antiga lenda.
Certa
vez, durante uma palestra na universidade, um colega perguntou-lhe como
explicava o reaparecimento dos peixes nos riachos temporários da infância. Henrique
respondeu descrevendo processos ecológicos, migrações invisíveis, pequenas
nascentes subterrâneas e adaptações desenvolvidas ao longo de milhares de anos.
Tudo
era cientificamente correto. Mesmo assim, ao terminar a exposição, permaneceu
com a estranha sensação de que faltava alguma coisa.
Anos
depois, já homem feito, voltou à Linha Limeira para visitar o avô Otto, que se
aproximava do fim da vida. Encontrou-o sentado na mesma varanda, olhando o
riacho ao longe. Conversaram pouco. Os velhos raramente precisam de muitas
palavras.
Quando
o sol começou a desaparecer atrás das araucárias, Henrique resolveu fazer a
pergunta que guardava havia décadas.
—
Vô... naquela noite... eu realmente vi a Mãe das Vertentes?
Otto
permaneceu longo tempo em silêncio. Depois sorriu. Não respondeu. Em vez disso,
retirou lentamente do bolso do velho casaco uma pequena chave de ferro,
escurecida pelo tempo.
— Vá
até o sótão. Há uma arca que pertenceu ao teu bisavô.
Henrique
subiu. Depois de procurar entre móveis antigos, encontrou um pesado baú de
cedro. A fechadura abriu-se facilmente.
Dentro
havia fotografias amareladas, ferramentas antigas, um rosário, algumas cartas
escritas em alemão e um caderno de capa de couro, cujas páginas já se desfaziam
nas bordas. Era o diário do trisavô Johann Weber, um dos primeiros colonos da
Linha Limeira.
Henrique
começou a folheá-lo. Entre anotações sobre plantações, geadas e nascimentos,
encontrou um a entrada datada de 17 de
fevereiro de 1889. A letra era firme. Dizia apenas:
— Esta noite acompanhei
meu pai até o riacho. Vi a Guardiã recolher os peixes antes da grande seca. Meu
pai pediu que eu jamais contasse a ninguém, porque os homens têm o péssimo
costume de destruir tudo aquilo que conseguem explicar. Um dia meu filho verá o
mesmo. E assim será enquanto houver quem respeite as águas.
Henrique
releu aquelas linhas diversas vezes. O texto terminava ali. Não havia mais
nenhuma explicação. Nenhum desenho. Nenhuma descrição da mulher. Somente
aquelas palavras.
Na
última página do caderno, escritas provavelmente muitos anos depois por outra
mão, havia apenas uma frase, sem assinatura:
— O
segredo nunca foi para onde vão os peixes. O segredo é por que eles sempre
resolvem voltar.
Henrique
fechou lentamente o diário.
Quando
desceu a escada, a cadeira da varanda estava vazia. O avô Otto havia partido em
silêncio, exatamente enquanto a chuva começava a cair outra vez sobre a Linha
Limeira.
Na
manhã seguinte, durante o velório, Henrique caminhou sozinho até o riacho. As
águas corriam limpas entre as pedras. Um cardume de lambaris faiscava ao sol
recém-nascido. Então, pela primeira vez desde a infância, percebeu algo que
jamais havia notado.
Sobre
a grande pedra do antigo remanso, repousava um pequeno vaso de barro
avermelhado, do tamanho de um pote de melado. Estava completamente vazio.
Henrique
aproximou-se. Tocou-o com cuidado. O barro ainda estava morno. Ergueu os olhos
para a mata. Não havia ninguém. Sorriu. Depois, deixou o vaso exatamente onde
estava.
Alguns
mistérios não existem para ser desvendados. Existem para continuar fazendo o
mundo merecer ser contemplado.

Nenhum comentário:
Postar um comentário