O filósofo
de
Cucuí
de las Palomas
Félix Maier
Nunca
houve na querência de Cucuí de las Palomas homem mais sábio, mais maltrapilho
nem mais convencido de sua própria importância filosófica do que Firmino
Cambará, conhecido, com uma mistura de respeito, deboche e piedade cristã,
simplesmente como O Exegeta.
Em
cidade pequena ninguém ganha apelido por acaso. Há quem receba alcunha por
causa de um defeito físico, um namoro mal resolvido ou uma vaca que fugiu do
potreiro. Firmino Cambará, porém, conquistou o seu apelido porque passava a
vida interpretando tudo. Não apenas a Bíblia, Aristóteles, Platão, Nietzsche e
Santo Agostinho, mas também o preço do feijão, a previsão do tempo, a tabela do
Brasileirão, a migração do maçarico-branco, a inflação, o sopro do Minuano
depois da passagem de uma frente fria, os discursos dos ministros da Fazenda e
até o canto triste do curiango. Era, de fato, um filósofo. Para ele, tudo
escondia um sentido oculto, como a Lua fez galpão, aquele halo luminoso
que até rendeu um ditado: Lua com galpão, chuva de mão. E, quando não
escondia um sentido, ele tratava de inventar um.
Ninguém
sabe ao certo de onde ele veio. Uns juram que nasceu numa aldeia perdida entre
Brasil, Argentina e Paraguai, onde os mapas discordam entre si e até os marcos
de fronteira parecem sofrer de amnésia geográfica. Outros garantem que
desembarcou em Cucuí vindo do Uruguai, trazendo numa velha mala de couro, mais
livros do que roupas, e mais citações do que dinheiro. O próprio Firmino
alimentava cuidadosamente o mistério. Quando lhe perguntavam a naturalidade,
respondia que fora concebido intelectualmente em Atenas, batizado em Coimbra,
alfabetizado em Assunção e apenas parido por acidente numa localidade cuja ata
de nascimento se perdera numa enchente durante a Guerra do Contestado.
Ninguém
ousava pedir maiores esclarecimentos. Afinal, quem seria capaz de discutir com
um homem que pronunciava hermenêutica antes do café da manhã e escatologia
antes da sobremesa?
Cucuí
de las Palomas, por sua vez, era desses vilarejos cuja própria existência
parecia um equívoco cartográfico. Localizada algures entre a Província de
Misiones e o Oeste catarinense, às margens do Rio Uruguai, continuava sendo
reivindicada sentimentalmente pelos argentinos, embora o velho presidente americano
Glover Cleveland já tivesse decidido, fazia mais de um século, que aquilo
pertencia ao Brasil. Os argentinos nunca aceitaram completamente a sentença. Os
brasileiros nunca entenderam exatamente por que Cucuí existia. E os moradores,
pragmáticos, apenas continuavam tomando chimarrão, jogando bocha e reclamando
do prefeito.
Ali,
tudo era fronteira. Misturavam-se português, espanhol, guarani, alemão,
italiano, palavrão crioulo e latim de missa antiga. O padeiro dizia buenos
dias, o farmacêutico respondia guten Morgen, o padre encerrava a
homilia com amém e o bêbado da praça resumia toda a filosofia ocidental
num sonoro bah!
Era
nesse laboratório linguístico que pontificava Firmino Cambará. Ele morava numa
tapera de madeira que, segundo ele, havia sido azul durante o governo de
Getúlio Vargas, embora ninguém mais conseguisse comprovar tal afirmação. As
tábuas exibiam uma tonalidade indefinível entre o cinza, o bolor e a nostalgia.
O telhado deixava entrar mais água do que muitas cachoeiras da região. Em dias
de chuva forte, o interior da casa adquiria um curioso sistema hidráulico
espontâneo: enxurradas desciam do teto em intervalos matemáticos, como se
obedecessem a uma partitura invisível.
Firmino
nunca consertava nada. Limitava-se a trocar os baldes de lugar.
— A
água — ensinava, olhando para o teto com a solenidade de quem revela um segredo
cósmico — não invade a casa. Apenas reivindica o antigo direito de circular
livremente pelo universo.
Quem
ouvia ficava alguns segundos refletindo. Depois percebia que o telhado
continuava furado.
Seu
patrimônio material resumia-se a uma cama que rangia em latim, uma mesa manca,
uma cadeira de três pernas sustentada por um exemplar bastante maltratado da Crítica
da Razão Pura, um fogão a lenha permanentemente inclinado para a esquerda,
uma máquina datilográfica Hermes Baby vermelha com tampa e uma biblioteca tão
vasta quanto caótica. Havia volumes de Platão empilhados sobre revistas de caça
e pesca, tratados de Santo Tomás servindo de apoio para garrafões de vinho
Sangue de Boi, Nietzsche convivendo fraternalmente com almanaques agrícolas, dicionários
de guarani, folhetos turísticos de Misiones, um manual de inseminação
artificial de bovinos e uma coleção quase completa do Jornal de Cucuí,
onde o Exegeta publicava cartas abertas dirigidas a autoridades que jamais
suspeitaram de sua autoria.
Seu
companheiro mais fiel, depois do quero-quero e da Hermes Baby, era justamente
um garrafão de Sangue de Boi. Não se tratava de alcoolismo. Tratava-se, segundo
ele, de epistemologia líquida.
— A
verdade — dizia, enchendo o copo até a borda — possui duas características
fundamentais: é amarga e fermentada.
Nunca
ninguém conseguiu descobrir se aquela frase era de Hegel, de Schopenhauer ou do
próprio rótulo da garrafa.
E
não parava de repetir:
— Ainda
preciso conhecer essa Vinícola Aurora. Sempre desconfiei que toda grande
filosofia começa numa pipa e termina numa garrafa.
Diziam
os mais antigos que o Filósofo de Cucuí de las Palomas nunca andava sozinho.
Desde que um quero-quero, talvez viúvo e cansado da solidão da campanha,
resolveu adotá-lo como companheiro, os dois tornaram-se inseparáveis. A ave
passava horas empoleirada em seu ombro direito, observando o horizonte com a
mesma gravidade do velho pensador, afastando-se apenas para alguns voos rasantes
sobre os campos, mais para espichar as asas do que por necessidade. Ou para
campear alguma larva ou peixinho em algum banhado. Bastavam poucos minutos e lá
voltava ela, pousando com a intimidade de quem regressa ao próprio ninho. O
Exegeta batizou o quero-quero de Cusco, depois de ver a ave enfrentar
até gavião.
Havia,
porém, um detalhe que ninguém conseguia ignorar: as roupas esfarrapadas do Exegeta
eram salpicadas de incontáveis manchas brancas, lembranças pouco elegantes da
fidelidade do companheiro emplumado. Quando algum curioso perguntava se aquilo
não o incomodava, ele apenas coçava a longa barba, sorria com indulgência e
respondia: Amizade verdadeira não se mede pelo perfume, mas pela
permanência. E seguia seu caminho, ostentando aquelas manchas como um
marechal exibe as condecorações conquistadas em campanha, convencido de que
certos vínculos valem muito mais do que qualquer casaca impecavelmente limpa.
O
Exegeta tinha solução para absolutamente tudo. Exceto para a própria vida.
Escrevera
ao ministro da Fazenda propondo uma reforma definitiva do arcabouço fiscal
brasileiro. A carta ocupava dezessete páginas datilografadas na Hermes Baby,
três anexos e um pós-escrito onde explicava que Santo Tomás de Aquino
compreendera melhor a dívida pública do que qualquer economista contemporâneo.
Demonstrava, com impressionante segurança, que bastava combinar dois capítulos
de O Capital, um trecho do Apocalipse, algumas passagens de Aristóteles
e o Sermão da Montanha para equilibrar definitivamente as contas nacionais.
Naturalmente,
jamais recebeu resposta de Fernando Taxad, conhecido jocosamente como o melhor
ministro da Fazenda do... Paraguai.
— Os
homens públicos — explicou depois, sem esconder certa mágoa — costumam rejeitar
as grandes ideias porque elas lhes dão muito trabalho.
E
voltou a abrir o garrafão.
Sua
teoria sobre o Brasil era ainda mais extraordinária. Segundo Firmino, o país
não sofria de corrupção, burocracia, incompetência administrativa nem crises
econômicas. Isso eram apenas sintomas. A verdadeira causa residia muito acima
da Praça dos Três Poderes.
— O
Brasil nasceu sob Saturno.
Dizia
isso como quem anuncia o resultado de um exame no proctologista.
—
Saturno é o planeta dos atrasos, das filas, das obras inacabadas e das
promessas eleitorais. Enquanto outras nações nasceram sob Marte ou Júpiter, nós
fomos registrados em cartório astral justamente pelo funcionário mais lento do
sistema solar.
E
completava o raciocínio, para quem não tinha entendido nada:
— Saturno
é igual a peão de repartição velha: leva vinte e nove anos e meio para dar uma
volta completa no expediente.
Eu
costumava escutá-lo sem interromper. Não por acreditar. Mas porque era
impossível resistir ao espetáculo.
Enquanto
o Exegeta desenvolvia essas teses astronômico-políticas, uma goteira insistia
em cair exatamente sobre a chaleira enferrujada da tapera. Pingava com
regularidade quase litúrgica. Ploc. Ploc. Ploc.
Firmino
nunca se incomodava. Ao contrário. Interrompia a conversa para escutar
atentamente o gotejamento.
—
Está ouvindo?
— O
quê?
— A
casa pensa.
Confesso
que passei alguns minutos tentando descobrir se ele falava sério. Até hoje não
sei.
Na
cidade, uns o chamavam de filósofo de enchente. Outros, profeta de botequim.
Havia quem jurasse tratar-se de um gênio incompreendido. Havia quem sustentasse
que era apenas um bêbado alfabetizado. Todas as versões pareciam verdadeiras.
Apesar
das gozações, todos recorriam a ele.
O
prefeito consultava-o discretamente antes das campanhas eleitorais.
O
pároco pedia auxílio para interpretar certas passagens mais espinhosas do
Antigo Testamento, como Sodoma e Gomorra.
O
delegado perguntava se Maquiavel aprovaria determinada operação policial
envolvendo contrabandistas vindos do Paraguai.
Até
o veterinário, certa vez, apareceu para discutir se a melancolia das vacas
leiteiras possuía fundamento existencial.
O
Exegeta respondia a todos com a mesma gravidade. Jamais admitia ignorância. Quando
não sabia, citava um filósofo grego em voz baixa. Funcionava sempre.
Foi
ele quem definiu o prefeito como um epicurista do erário, expressão que
ninguém compreendeu inteiramente, mas que todos passaram a repetir durante
meses. Também classificou a praça principal como a ágora do tédio municipal
e descreveu a Câmara de Vereadores como um laboratório experimental da
mediocridade representativa. Os próprios vereadores agradeceram, imaginando
tratar-se de elogio.
Seu
maior feito, porém, ocorreu durante as comemorações do aniversário de Cucuí de
las Palomas. Subiu espontaneamente ao coreto. Ninguém o convidara. A banda
municipal interrompeu um dobrado.
Firmino
retirou lentamente do bolso um maço de folhas amareladas, pigarreou como se
fosse abrir um congresso internacional e iniciou uma conferência intitulada A
decadência metafísica das cucuias e sua influência na formação espiritual da
fronteira sul-americana.
Falou
durante quarenta e três minutos. Citou Platão de memória. Discordou de Hegel. Corrigiu
Kant. Contestou Darwin. Refutou Freud. Criticou a colonização ibérica. Relacionou
tudo isso à qualidade das bergamotas produzidas na região.
Quando
finalmente a Guarda Municipal resolveu interrompê-lo, parte do público ria às
gargalhadas, outra parte aplaudia de pé e havia quem enxugasse discretamente
uma lágrima, não se sabendo se de emoção ou de absoluto esgotamento
intelectual.
Naquela
tarde, ao sair do coreto, o Exegeta limitou-se a comentar:
— A
incompreensão é o imposto que a inteligência paga à democracia.
E
foi beber Sangue de Boi no bar do Zé Bigode, onde, sem saber, começaria a
formular a obra destinada a mudar para sempre os destinos filosóficos de Cucuí
de las Palomas: a monumental Teoria Geral da Mediocridade Brasileira.
Foi
justamente no Bar do Zé Bigode que o Exegeta atingiu o auge de sua carreira
intelectual, o que talvez explique por que nunca conseguiu descer dela. O
estabelecimento ficava na esquina da Rua da Matriz com a antiga Estrada das
Tropas, embora ninguém em Cucuí de las Palomas chamasse as ruas pelo nome
oficial. Bastava dizer lá no Zé que qualquer vivente apontava
imediatamente o rumo, como quem indica um santuário. E era mesmo. Não havia
universidade, academia de letras ou instituto de pesquisas que produzisse tanta
filosofia por metro quadrado quanto aquele boteco de chão gasto, onde a
serragem dividia espaço com bitucas de cigarro, cascas de amendoim, cusparadas
de fumo e discussões sobre o Grêmio, o Internacional e a melhor maneira de
assar um costelão sem ofender a dignidade do fogo.
Zé
Bigode, dono do estabelecimento, possuía duas virtudes raríssimas: sabia ouvir
e sabia fiar. A primeira lhe rendia fama de bom conselheiro; a segunda, fama de
péssimo comerciante. Mantinha uma caderneta onde anotava, com letra de
sacristão, as dívidas de quase toda a população masculina da cidade. O curioso
é que a maior conta era justamente a do Exegeta, que, em compensação,
sustentava ser o maior patrimônio cultural do bar.
—
Bah, Zé — dizia ele, enchendo solenemente um copo de Sangue de Boi —, se
Aristóteles tivesse conhecido teu estabelecimento, o Liceu seria aqui, com
aulas peripatéticas ao longo da Rua da Matriz.
—
Pode até ser — respondia o bodegueiro, sem levantar os olhos da garrafa. — Mas
Aristóteles pagava a conta?
Ninguém
jamais ouviu resposta convincente.
As
noites de sexta-feira transformavam o bar numa espécie de parlamento
fronteiriço. Misturavam-se pequenos agricultores, caminhoneiros, professores
aposentados, dois ou três advogados que nunca haviam ganho uma causa
importante, um veterinário especializado em inseminação bovina e um contador
que jurava entender de macroeconomia porque assinava o balanço da cooperativa.
No fundo do salão, um rádio antigo despejava milongas de harpa paraguaia,
chamamés e notícias de Brasília, estas últimas invariavelmente recebidas com a
mesma expressão de quem escuta a previsão do tempo em Marte.
Era
então que o Exegeta se levantava. Não pedia licença. Nunca pediu. Estava no seu
Liceu. Apenas colocava o copo sobre uma mesa, limpava a garganta com um pigarro
acadêmico, fechava os olhos durante alguns segundos — gesto que ele dizia
servir para alinhar as sinapses com a tradição greco-latina — e
começava.
—
Meus caros viventes, a humanidade sofre menos de ignorância do que de
interpretação mal-feita. Bah! Qualquer china lá das Missões sabe que uma
receita de cuca mal lida produz um tijolo. Pois o mesmo acontece com a História
Universal.
Silêncio.
Até as moscas pareciam diminuir o zumbido.
—
Nós interpretamos errado o Gênesis, interpretamos errado Darwin, interpretamos
errado Nietzsche e, principalmente, interpretamos errado a bula do remédio. O
sujeito lê tomar após as refeições e já acha que é depois de qualquer
bolacha de sal amoníaco. Resultado: morre sem compreender a farmacologia nem a
transcendência.
O
veterinário coçava a barba. O caminhoneiro fazia que sim com a cabeça. O
contador fingia entender. O Exegeta prosseguia.
—
Vejam o Brasil. Todo mundo culpa o Congresso, o Supremo, o Executivo, o câmbio,
a inflação, o dólar ou a cotação da soja. Erro crasso! O problema é
hermenêutico.
—
Hermê... o quê? — perguntou um peão recém-chegado.
—
Hermenêutico.
—
Isso pega em cavalo?
O
Exegeta respirou fundo.
—
Não, vivente. Em cavalo nunca deu. Mas em governo é pior que berne em novilho.
Cada um tem a sua ciência da interpretação.
Até
o gato ao lado do bolão parecia rir. A peonada se escangalhou em rir, sem
pescar uma vírgula da prosa do Exegeta.
Era
exatamente esse o talento do Exegeta. Conseguia explicar um conceito alemão de
quinze sílabas usando como exemplo um potreiro cheio de novilhas.
—
Imaginem um alambrado — continuou. — Se o vivente interpreta mal a cerca,
atravessa o campo do vizinho e leva um tiro de sal grosso na bunda. A filosofia
funciona do mesmo jeito. A civilização inteira vive pulando alambrado
conceitual.
Zé
Bigode lavava e enxugava copos enquanto resmungava:
— E
o senhor continua pulando a cerca da conta do vinho...
Firmino
Cambará fingia não ouvir. Era um mestre em ignorar a realidade. Talvez porque a
realidade insistisse em ignorá-lo também.
Naquela
época, o Exegeta passou a alimentar um projeto monumental. Escrevia diariamente
na Hermes Baby a Teoria Geral da Mediocridade Brasileira, obra
destinada, segundo dizia, a ocupar posição intermediária entre Aristóteles e o
Manual do Proprietário do Trator Massey Ferguson. Pretendia demonstrar que a
mediocridade nacional não era defeito moral, mas fenômeno geológico.
—
Bah! — explicava. — O Brasil não assenta sobre placas tectônicas. Assenta sobre
placas burocráticas.
Ninguém
entendia. Ele prosseguia.
—
Toda papelada produz um sedimento espiritual. Depois de quinhentos anos
carimbando requerimentos, o país desenvolveu uma crosta metafísica que impede
qualquer ideia de criar raiz.
O
contador piscava. O advogado franzia a testa. O caminhoneiro apenas comentava:
—
Faz sentido...
Foi
numa dessas noites, já depois da terceira talagada de Sangue de Boi — ou da
quarta, pois a contabilidade alcoólica nunca foi ciência exata — que ocorreu o
episódio mais extraordinário da vida do Exegeta.
Ele
dormiu sobre a própria mesa. E sonhou. Não com anjos. Nem com filósofos. Sonhou
com o velho cacique Condá.
O
lendário chefe Kaingang surgiu montado numa onça de fogo, atravessando
lentamente a névoa do Rio Uruguai. Não trazia lança nem arco. Carregava apenas
um maracá numa das mãos e um cachimbo de taquara na outra. A cada baforada, em
vez de fumaça, saíam letras do alfabeto tupi, que flutuavam pelo ar como
vaga-lumes embriagados.
— Tu
falas demais, guasca.
A
voz parecia vir do fundo da mata. Ou do fundo da História. Firmino ajoelhou-se.
Não por devoção. Mas, por curiosidade acadêmica.
—
Grande Condá... qual é o sentido oculto da nacionalidade brasileira?
O
cacique demorou para responder. Os espíritos, ao contrário dos ministros, nunca
têm pressa.
—
Quem explica demais o mundo acaba expulsando o mistério.
Fez-se
um silêncio tão profundo que até os grilos pararam para ouvir. Depois Condá
soprou a fumaça do cachimbo bem no rosto do Exegeta. Não era fumaça. Era um
parágrafo inteiro. Escrito em guarani.
O
Exegeta acordou num salto. Assustou metade dos fregueses. Derrubou o copo de
vinho. Abraçou Zé Bigode.
—
Bah, vivente! Recebi uma revelação!
—
Tomara que seja sobre tua conta.
—
Muito maior!
Correu
para casa antes que o sonho evaporasse.
Durante
trinta e dois dias praticamente não saiu da tapera. Dormia pouco, escrevia
muito e alimentava-se quase exclusivamente de vinho, pão amanhecido e linguiça
colonial. Traduzia a mensagem de Condá para o português, depois para o espanhol
castiço, em seguida para um latim improvisado e, por garantia, para um
português que ele chamava de idioma sem ossos, destinado às autoridades
nacionais.
Ao
final daquele mês surgiu outro projeto grandioso. Enviar todo o material ao
Papa Francisco. Naturalmente não pelo correio comum. Isso seria muito vulgar. Pretendia
entregar pessoalmente ao arcebispo de Chapecó, para que este providenciasse a
remessa diplomática ao Vaticano.
— O
Papa precisa conhecer a metafísica de Cucuí.
— E
por quê? — perguntou Zé Bigode.
Firmino
Cambará olhou para ele como quem observa um aluno particularmente lento.
—
Porque Roma entende de eternidade. Nós entendemos de enchente. Juntas, as duas
experiências completam a condição humana.
Zé
Bigode apenas anotou mais uma garrafa na caderneta. Achou prudente não discutir
com quem acabara de dialogar em sonho com um cacique morto havia quase dois
séculos.
A notícia
de que o Exegeta passara um mês inteiro traduzindo um sonho para quatro idiomas
correu Cucuí de las Palomas com a velocidade das más notícias e das boas
fofocas. Na venda do Turíbio, na fila da lotérica, no açougue do Seu Bagualão e
até na sala de espera do posto de saúde, só se falava nisso.
Uns
diziam que o Exegeta finalmente enlouquecera. Outros sustentavam que
enlouquecido ele sempre fora, apenas alcançara agora um estágio mais elaborado
da doença. Em Cucuí, aliás, nunca houve muita diferença entre a genialidade e a
maluquice. A única distinção prática era que o maluco pagava pinga, e o gênio,
quando podia, fiava.
Quando
o Exegeta reapareceu no Bar do Zé Bigode, trazia debaixo do braço um maço de
folhas amarradas com barbante, mais grosso que um código tributário. Depositou
o manuscrito sobre a mesa como quem coloca uma criança para dormir.
—
Bah, gurizada... terminou.
Todos
olharam.
— O
quê?
— A
primeira parte.
— Da
Bíblia?
—
Muito mais importante.
Fez-se
silêncio. Firmino passou lentamente a mão sobre as folhas.
— A
Teoria Geral da Mediocridade Brasileira.
Nem
o rádio se atreveu a tocar naquele instante.
Zé
Bigode aproximou-se.
— E
o que diz essa geringonça?
O
Exegeta respirou fundo, tomou um gole respeitoso de Sangue de Boi e começou a
explicar como quem revela um segredo guardado desde a fundação do mundo.
— O
brasileiro não nasceu mediano. Tornou-se. A mediocridade é um fenômeno de
sedimentação histórica. Bah! É como barro de açude. Vai acumulando devagarinho.
Primeiro chega um decreto. Depois um regulamento. Em seguida aparece uma
portaria para explicar o decreto, uma instrução normativa para explicar a
portaria e um curso de capacitação para ensinar como preencher o formulário da
instrução normativa. Quando o vivente percebe, já perdeu metade da vida
esperando uma assinatura e a outra metade procurando quem assinou.
O
contador, que sempre fazia cara de inteligente, arriscou:
—
Então a culpa é da burocracia?
—
Não, vivente. A burocracia é apenas o sintoma visível. A doença é metafísica.
Ninguém
teve coragem de perguntar o que significava metafísica. A experiência
demonstrava que perguntas desse tipo podiam render palestras de duas horas.
Firmino
prosseguiu.
— O
brasileiro passa tanto tempo esperando alguma coisa que acaba gostando da
espera. Espera o ônibus, espera a aposentadoria, espera a obra da ponte, espera
a chuva, espera o hexa, espera a reforma tributária e, quando não há mais nada
para esperar, inventa uma fila. É um povo contemplativo por exaustão.
Um
peão de bombacha, recém-chegado da lida, coçou o bigode.
—
Bah... pensando bem, faz sentido.
—
Claro que faz. Até as vacas sabem esperar. Nós apenas sofisticamos o processo.
As
gargalhadas sacudiram o boteco. Era impossível saber se riam da teoria ou da
própria vida.
O
Exegeta abriu o manuscrito numa página marcada por gordura de salame e vinho
seco.
—
Aqui demonstro que a História do Brasil pode ser resumida em três verbos.
Todos
se inclinaram para ouvir.
—
Prometer.
Fez
uma pausa.
—
Adiar.
Nova
pausa.
—
Inaugurar de novo.
Até
Zé Bigode precisou apoiar-se no balcão para rir. O Exegeta tinha um talento
raro: dizia absurdos com a solenidade de um ministro do Supremo lendo um voto
de seiscentas páginas.
Na
semana seguinte apresentou outra descoberta. Segundo ele, Cucuí de las Palomas
não era uma cidade qualquer. Era o umbigo do mundo. Naturalmente houve quem
debochasse.
—
Bah, Firmino... e como é que tu descobriste isso?
Ele
sorriu com a complacência de quem perdoa a ignorância alheia.
—
Muito simples. O umbigo é um lugar onde ninguém presta atenção, mas sem ele
ninguém teria nascido. Cucuí é exatamente assim.
Depois
desenhou um mapa num guardanapo. Colocou Roma num canto. Jerusalém noutro. Atenas
mais abaixo. Brasília quase fora do papel. E bem no centro escreveu, em letras
enormes:
CUCUÍ
DE LAS PALOMAS.
—
Toda civilização gira em torno do lugar que ignora.
O
caminhoneiro ficou olhando o desenho durante quase cinco minutos.
—
Bah...
Era
a única resposta possível. Foi também nessa época que o Exegeta formulou a
máxima que acabaria gravada para sempre na memória da cidade. Tudo começou
porque um rapaz reclamava do grupo de WhatsApp da família.
Havia
brigado com o cunhado por causa de política, deixara de falar com dois primos,
bloqueado uma tia e recebido um áudio de nove minutos da madrinha explicando a
situação do país.
Firmino
Cambará ouviu tudo em silêncio. Depois ergueu o dedo indicador.
—
Escrevam isto.
Todos
pegaram guardanapos.
— Se
desejas viver muitos anos, conservar os amigos e evitar gastrite, sai
imediatamente do grupo de WhatsApp da família.
Fez
outra pausa.
—
Família foi invenção de Deus. Grupo de WhatsApp foi invenção do demônio.
Nunca
uma frase atravessou Cucuí tão depressa. Em menos de uma semana já estava
escrita na parede da borracharia, atrás do caixa da farmácia, no mural da
cooperativa e até na porta do salão paroquial.
O
padre Adauto, que fazia Pós-Graduação em Teologia por Ensino à Distância,
chegou a citar a máxima durante uma homilia. Sem mencionar a autoria. Naturalmente.
Também
foi nesse período que o Exegeta decidiu escrever novamente ao Papa. Não uma
carta. Um memorial. Duzentas e oitenta páginas.
Nele
demonstrava que São Tomás de Aquino compreenderia perfeitamente a psicologia
das enchentes do Rio Uruguai, que Santo Agostinho teria apreciado o chimarrão e
que São Francisco de Assis provavelmente preferiria um cavalo crioulo a um
jumento das montanhas da Úmbria. Ao final do documento sugeria, com toda
humildade, que o Vaticano criasse uma Comissão Internacional de Exegese
Fronteiriça, tendo sede permanente em Cucuí de las Palomas.
A
resposta jamais chegou. Segundo o Exegeta, porque os Correios da Providência
funcionavam em ritmo de eternidade.
A
vida, entretanto, continuava pouco filosófica. A luz foi cortada, porque o
aluguel atrasou. As botas abriram a sola. Firmino observava cada desgraça com
uma serenidade quase ofensiva.
—
Bah... a pobreza também é uma interpretação.
—
Mas molha igual — respondeu Zé Bigode, olhando a água escorrer pelo pescoço do
amigo na tapera.
—
Isso é detalhe empírico.
Apesar
das dificuldades, Firmino nunca abandonou o velho costume de caminhar pelas
ruas ao entardecer. Andava de chapéu puído, barba desgrenhada, bombacha já sem
cor definida, um pala remendado nos ombros e cagado pelo quero-quero, e um
cigarro apagado eternamente preso ao canto da boca. Parecia um centauro
aposentado da Revolução Farroupilha que resolvera estudar Filosofia em vez de
montar a cavalo.
As
crianças corriam atrás dele. Os cachorros latiam. As velhinhas faziam o sinal
da cruz. E ele seguia murmurando citações de Platão, Camões, Cervantes e do
Almanaque Biotônico Fontoura com a mesma convicção.
Numa
dessas caminhadas, parou diante do monumento aos colonizadores. Ficou quase uma
hora contemplando a estátua. Depois concluiu:
—
Bah... todo monumento é uma tentativa da pedra de convencer o tempo.
Ninguém
entendeu. Mas a frase apareceu no jornal da cidade como se fosse editorial.
Foi
então que comecei a desconfiar de que Cucuí de las Palomas já não era mais a
mesma. Alguma coisa havia escapado da cabeça do Exegeta e contaminado os
moradores.
A
loucura, descobri, também pode ser contagiosa. Principalmente quando é bem ensinada.
E foi justamente nessa época que o Exegeta começou a falar, cada vez com mais
frequência, em partir.
Não
dizia para onde. Apenas repetia, olhando o Rio Uruguai escurecer ao longe:
—
Bah... o vivente não escolhe o destino. É o destino que acaba encontrando um
jeito de tropeçar no vivente.
Naquele
momento nenhum de nós imaginava que aquela frase era uma despedida. Muito menos
que o velho Exegeta estava prestes a abandonar Cucuí de las Palomas para
ingressar definitivamente na região onde as lendas deixam de ser histórias e
passam a fazer parte da geografia.
Depois
daquela última caminhada pela Rua da Matriz, quando declarou que o destino era
apenas um tropeço bem-organizado pela Providência, o Exegeta pareceu diminuir
de tamanho. Não fisicamente. Continuava magro como um espantalho de lavoura
abandonada, de barba em desalinho, chapéu ensebado e pala remendado sobre as
costas, suja de cocô do quero-quero. O que diminuiu foi sua presença. O Exegeta
começou a rarear em Cucuí de las Palomas como essas geadas tardias que, de
repente, deixam de aparecer sem ninguém notar exatamente em que inverno
desistiram.
Já
não ocupava diariamente sua mesa cativa no Bar do Zé Bigode. Às vezes
passavam-se duas semanas sem que desse o ar da graça. Depois surgia de repente,
pedia um copo de Sangue de Boi, olhava longamente pela janela, murmurava meia
dúzia de frases incompreensíveis sobre Heráclito, São Boaventura e o preço da
arroba do boi gordo, pagava rigorosamente... uma parte da conta... e
desaparecia outra vez estrada afora, como se estivesse cumprindo alguma missão
secreta da Filosofia.
Ninguém
estranhava. Em Cucuí, o hábito da excentricidade do Exegeta acabara virando
rotina.
Foi
numa dessas reaparições que o encontrei sentado sozinho, observando um
redemoinho de folhas secas atravessar a praça.
—
Bah, doutor Firmino... que é que tanto olha?
Ele
não desviou os olhos.
— Os
redemoinhos.
— E
têm alguma novidade?
—
Sempre têm.
Fez
uma pausa respeitosa.
— O
vento é o único político que muda de opinião sem precisar explicar nada.
Fiquei
pensando na frase durante dias. Até hoje não sei se era uma crítica ao vento ou
aos políticos. Talvez aos dois.
Naquela
tarde falou pouco. Coisa rara. Em compensação, escutava muito.
Escutava
os pardais brigando no telhado da prefeitura, o sino da igreja, o motor cansado
do caminhão do leite, o coaxar dos sapos perto do rio e até o silêncio que
existia entre um toque e outro do relógio da matriz.
— O
senhor anda diferente.
Ele
sorriu.
—
Bah... quem anda devagar começa a ouvir as pequenas conversas que Deus espalhou
pelo mundo.
Achei
prudente não insistir. Os sábios e os loucos possuem um defeito em comum:
quando começam a explicar o próprio pensamento, normalmente pioram a situação.
Foi
justamente nessa época que começaram os boatos. Uns juravam tê-lo visto
caminhando sozinho pelos antigos caminhos Kaingang, conversando em voz alta
como se alguém invisível lhe respondesse. Outros garantiam que passava tardes
inteiras sentado à margem do Rio Uruguai, discutindo metafísica com os
quero-queros.
Um
pescador do Rio Uruguai afirmou, de mão posta sobre a Bíblia, que encontrara o
Exegeta recitando Camões para uma figueira. Outro dizia que não era Camões. Era
Cervantes.
Em
Cucuí nunca houve consenso nem sobre as mentiras. A versão mais repetida,
entretanto, era a do velho Seu Basílio, tropeiro aposentado e homem incapaz de
inventar uma história simples.
Segundo
ele, numa madrugada de neblina, vira o Exegeta caminhando morro acima ao lado
de um índio muito alto.
—
Era o Condá?
Perguntavam.
Basílio coçava lentamente a barba.
—
Bah... eu nunca conheci o Condá pessoalmente...
Esperava
alguns segundos.
—
...mas, se não era ele, era um parente bem chegado.
O
curioso é que ninguém ria. Aquelas coisas, em Cucuí, pertenciam à categoria dos
assuntos sobre os quais o bom senso recomenda não fazer piada. Nem o padre
Adauto.
Especialista
em Teologia por Ensino à Distância, homem piedoso e dono de uma curiosidade
quase científica, o padre resolveu visitar a velha tapera onde o Exegeta
morava. Encontrou a porta entreaberta. Entrou. A cama permanecia no mesmo
lugar. A cadeira continuava sustentada pela Crítica da Razão Pura. A
chaleira enferrujada repousava sobre o fogão. Os baldes ainda recolhiam água
das goteiras.
Tudo
parecia rigorosamente igual. Menos o silêncio.
O
padre jurou mais tarde que jamais ouvira um silêncio tão barulhento. Era como
se milhares de pensamentos continuassem circulando pela casa sem encontrar quem
os pensasse.
Sobre
a mesa havia apenas uma folha de papel. Em branco. Ou quase. No canto inferior
aparecia um único travessão. Nada mais. Padre Adauto levou o papel para casa. Passou
a noite inteira tentando descobrir se aquilo era o começo de uma frase ou o fim
de outra.
No
dia seguinte voltou à tapera levando hissope, água benta, um rosário, dois
salmos e uma prudente dose de coragem. Espalhou água benta pelas paredes. Rezou.
Invocou São Miguel. Leu trechos do Evangelho de João.
Nada
aconteceu.
Quando
se preparava para sair, ouviu distintamente uma voz atrás de si. Muito calma. Muito
conhecida.
—
Padre... a água benta combate o pecado.
Fez-se
um silêncio.
—
Mas não adianta nada contra a má sintaxe.
O
sacerdote virou-se num pulo. Não havia ninguém. Saiu da casa mais depressa do
que convém a um doutor em Teologia.
À
noite, confidenciou-me, ainda pálido:
—
Aquilo lá não é assombração.
—
Então é o quê?
—
Bah... é literatura.
A
notícia espalhou-se mais rápido que geada em baixada. A antiga tapera virou
ponto turístico. Vieram curiosos de Joaçaba, Chapecó, Concórdia e até de
Erechim.
Uns
fotografavam as goteiras. Outros mediam o tamanho da cadeira. Houve um
professor universitário que passou três horas analisando o travessão deixado
sobre a mesa. Concluiu tratar-se de uma metáfora da incompletude existencial.
Zé
Bigode resumiu melhor.
— É
só o Firmino dizendo que ainda não terminou a conversa.
Talvez
tivesse razão. Porque, curiosamente, depois do desaparecimento do Exegeta,
Cucuí começou a produzir filósofos espontaneamente.
Foi
um fenômeno epidemiológico. O taxista recitava Kierkegaard enquanto desviava
dos buracos da estrada. A manicure discutia Pascal durante a esmaltação. O
açougueiro falava na ontologia da picanha. O borracheiro explicava Schopenhauer
usando pneus carecas como exemplo.
Até
o cabo da Brigada Militar começou a citar Sêneca nas abordagens de trânsito,
embora ninguém soubesse se os motoristas saíam mais convencidos ou mais
confusos.
O
prefeito, percebendo que toda aquela maluquice atraía visitantes, enxergou
imediatamente uma oportunidade administrativa. Criou, por decreto, a Semana
Municipal da Consciência Exegética.
Durante
sete dias haveria palestras, mesas-redondas, oficinas de hermenêutica rural,
concursos de aforismos campeiros e um seminário internacional intitulado A
Transcendência da Erva-Mate na Formação Ontológica do Cone Sul. Vieram
professores. Vieram estudantes. Vieram jornalistas.
Veio
até um sociólogo de Porto Alegre que passou quatro dias tentando provar que Firmino
Cambará nunca existira e era apenas uma construção coletiva da memória
regional. No último dia do congresso, Zé Bigode entregou-lhe a velha caderneta
onde ainda constava, intacta, a dívida do Exegeta. O sociólogo examinou
cuidadosamente as páginas. Fechou o caderno. Suspirou.
—
Bah...
Era
a primeira palavra sensata que pronunciava desde que chegara a Cucuí.
Nos
primeiros tempos ninguém em Cucuí de las Palomas teve coragem de dizer que
Firmino Cambará desaparecera. A palavra desaparecimento parecia excessiva para
um homem que passara a vida inteira entrando e saindo da realidade com a mesma
facilidade com que atravessava a rua para tomar um copo de Sangue de Boi.
Preferia-se imaginar que andava pelas Missões, recolhido em algum mosteiro
esquecido, ou talvez hospedado na casa de algum amigo improvável, escrevendo
mais um capítulo da Teoria Geral da Mediocridade Brasileira. Havia até quem
sustentasse que o Exegeta simplesmente resolvera tirar férias da civilização
para estudar os quero-queros ou discutir metafísica com os peixes do Rio
Uruguai.
No
Bar do Zé Bigode, a cadeira que costumava ocupar permaneceu vazia durante
semanas. Ninguém a reivindicou. Não por superstição, nem por respeito
deliberado, mas porque sentar ali causava um desconforto difícil de explicar,
como se o lugar ainda pertencesse a alguém que apenas saíra para caminhar e
pudesse regressar a qualquer momento, trazendo debaixo do braço um maço de
papéis amarelados e uma nova teoria destinada a resolver os problemas do país
sem, contudo, resolver os seus próprios.
Zé
Bigode, homem pouco dado a sentimentalismos, continuou por algum tempo
colocando um copo sobre a mesa nas noites de sexta-feira. Fazia isso sem
pensar, por hábito, e só depois percebia o gesto. Então encolhia os ombros,
dizia que era desperdício de vinho deixar um copo vazio num bar, enchia-o de
Sangue de Boi e o deixava ali até o fim da noite, como quem mantém acesa uma
vela diante de um santo cuja existência nunca chegou a ser oficialmente
reconhecida pela Igreja.
Foi
também nessa época que as frases do Exegeta começaram a perder o dono. Primeiro
apareciam acompanhadas de seu nome. “Como dizia Firmino Cambará...”, comentava
alguém ao observar uma fila na lotérica ou uma nova obra pública interrompida.
Depois passou a ser apenas “como dizia o Exegeta...”. Mais alguns meses, e já
não se mencionava nem o homem nem o apelido: as frases circulavam pela cidade
como se sempre tivessem existido, sem pai, sem data e sem assinatura.
A
observação de que “o vento é o único político que muda de opinião sem precisar
explicar nada” foi ouvida na venda do Turíbio, repetida na oficina do Seu
Bagualão, citada pelo farmacêutico enquanto embrulhava remédios e finalmente
registrada no jornal da cidade como se fosse um provérbio antigo da fronteira.
A frase sobre a pobreza ser apenas uma interpretação apareceu num sermão do
padre Adauto, discretamente adaptada para evitar problemas teológicos. A máxima
sobre os grupos de WhatsApp foi parar na porta do salão paroquial, escrita a
pincel por alguém que jamais lera Aristóteles, mas compreendera perfeitamente o
inferno das mensagens de família.
As
crianças da escola municipal começaram a ouvir histórias sobre o Exegeta sem
saber ao certo se ele fora um filósofo, um bêbado, um professor ou uma espécie
de santo laico dos campos. Algumas imaginavam que usava capa, outras garantiam
que se alimentava apenas de vinho e bergamotas. Havia quem jurasse que falava
latim com os pássaros e quem assegurasse que entendia o idioma das enchentes.
Em pouco tempo, cada morador de Cucuí passou a possuir o seu próprio Firmino
Cambará, mais sábio ou mais louco conforme a necessidade.
Foi
talvez nesse momento — e não no dia em que deixou a tapera, nem na manhã em que
o padre encontrou sobre a mesa a folha marcada por um único travessão — que o
Exegeta começou a tornar-se lenda. Porque um homem pertence à História enquanto
se recorda de suas datas, seus defeitos e suas dívidas; mas, quando suas
palavras passam a circular desacompanhadas do nome, quando as pessoas começam a
repeti-las sem saber quem as disse pela primeira vez, ele deixa de ser apenas
uma pessoa e entra definitivamente no patrimônio oral de uma comunidade.
Houve
ainda um detalhe que poucos perceberam. Durante muitas semanas, o quero-quero
Cusco continuou aparecendo no terreiro da velha tapera ao cair da tarde.
Pousava sobre a cerca, caminhava devagar ao redor da casa, bicava a terra,
observava a porta entreaberta e permanecia ali por alguns minutos, em silêncio,
como se aguardasse o amigo terminar alguma frase iniciada há muito tempo.
Depois erguia voo, descrevendo um círculo amplo sobre a figueira dos fundos, e
desaparecia em direção ao rio.
Isso
se repetiu por dias, depois por semanas, até que, certa tarde, o quero-quero
não voltou mais.
Foi
talvez o único morador de Cucuí de las Palomas que compreendeu antes de todos
nós que certas despedidas não precisam de testemunhas.
Quando
Cusco deixou de aparecer, a cidade percebeu, ainda que sem confessar, que o
Exegeta não estava viajando, não escrevia em alguma tapera das Missões nem
conversava com quero-queros, peixes ou caciques antigos às margens do Uruguai. Estava fazendo
algo muito mais difícil: transformava-se, lentamente, em memória. E memória,
como bem dizia ele, é apenas uma forma mais paciente de eternidade.
— A
causalidade é apenas uma coincidência que estudou latim.
Outros
garantiam que o vulto caminhava de um lado para outro da sala, gesticulando
diante de uma plateia composta por morcegos, corujas e duas ou três almas
penadas suficientemente cultas para acompanhar o raciocínio.
Zé
Bigode nunca acreditou nessas histórias. Ou fingia que não acreditava.
—
Bah... se aparecer fantasma por causa de dívida de boteco, Cucuí inteira vira
assombração.
Apesar
da bravata, toda sexta-feira deixava discretamente uma garrafa de Sangue de Boi
na tapera arruinada. Na manhã seguinte, a garrafa aparecia vazia. Ninguém
comentava. Há mistérios que sobrevivem justamente porque as pessoas sensatas
resolvem não investigá-los.
Foi
quase dez anos depois do desaparecimento do Exegeta que aconteceu o episódio
mais extraordinário de todos.
Na
estiagem daquele verão, quando o Rio Uruguai baixou como não baixava desde os
tempos da construção da barragem de Itá, um pescador encontrou, entre pedras e
galhos secos, uma velha lata de querosene perfeitamente vedada com breu.
Pensou
que fosse dinheiro. Era pior. Livros. Dentro da lata havia centenas de folhas
cuidadosamente dobradas, protegidas por panos encerados. Na primeira página
lia-se, em caligrafia inconfundível:
TEORIA
GERAL DA MEDIOCRIDADE BRASILEIRA
Volume
Primeiro
Logo
abaixo, em letras menores:
Obra
provisoriamente definitiva.
Assinado:
Firmino
Cambará. Exegeta.
A
notícia atravessou a fronteira mais depressa que contrabando. Vieram
jornalistas de Florianópolis. Sociólogos de Porto Alegre. Professores de
Curitiba. Historiadores de Buenos Aires. Filósofos de São Paulo. E,
inevitavelmente, especialistas em especialistas.
Cada
um encontrou no manuscrito exatamente aquilo que procurava. Os sociólogos
descobriram uma crítica devastadora às instituições. Os filósofos encontraram
um tratado sobre a natureza do conhecimento. Os economistas juraram tratar-se
de uma interpretação revolucionária do desenvolvimento nacional. Os linguistas
passaram meses estudando o uso dos travessões. Os psiquiatras preferiram não
emitir parecer. O mais curioso era que ninguém conseguia terminar a leitura.
Não
porque fosse difícil. Era pior. Cada capítulo terminava abrindo outros cinco. Cada
conclusão desmentia elegantemente a anterior. Cada nota de rodapé discutia com
o próprio texto.
Em
determinado momento, o autor escrevia:
Se o
leitor chegou até aqui, provavelmente já esqueceu o início do argumento. Eu
também.
Mais
adiante:
A
coerência excessiva costuma ser o primeiro sintoma da mediocridade.
Houve
quem chamasse aquilo de genialidade. Houve quem chamasse de delírio. Como
sempre acontecia com Firmino, ambas as opiniões pareciam corretas.
Os
travessões mereceram um congresso à parte. Nunca se viu tantos travessões
reunidos numa única obra. Um professor português calculou que, se fossem
colocados ponta a ponta, cobririam toda a Arena Condá, de goleiro a goleiro,
sobrando alguns para cercar o estacionamento.
Outro
sustentava que os travessões funcionavam como corredores secretos por onde
escapavam as ideias que não cabiam nas frases. Padre Adauto, mais prudente,
limitou-se a dizer:
—
Bah... Deus criou o ponto-final. O Exegeta desconfiava dele.
Escritores
como Machado de Assis, Érico Veríssimo, Graciliano Ramos e Luís Fernando
Verissimo usam o travessão com muita liberdade estilística. Ele pode imprimir
ritmo, marcar hesitações, sugerir mudanças de tom ou reproduzir o fluxo do
pensamento. Talvez por isso o velho Exegeta de Cucuí de las Palomas
simpatizasse tanto com esse sinal.
Dizia
que o travessão não separava apenas palavras: era uma pequena ponte sobre o
silêncio, um instante em que o pensamento respirava antes de seguir adiante. Toda
filosofia, resmungava, precisa de um lugar para descansar. E, quando
encerrava a conversa, ficava esperando que o próprio vento completasse a frase
que ele preferira deixar apenas sugerida — porque certas verdades, afinal, não
terminam com um ponto final; continuam caminhando, mansas, depois do travessão.
O
manuscrito acabou publicado. Primeiro em português. Depois em espanhol. Em
seguida apareceu uma tradução para o guarani, patrocinada por uma associação
cultural Kaingang.
Os
indígenas riram muito. Disseram que finalmente encontravam um branco capaz de
escrever como quem conversa com o mato.
Foi
justamente nessa época que ocorreu um fato ainda mais inexplicável. Um
pesquisador brasileiro radicado na Califórnia, especialista em inteligência
artificial, passou férias em Chapecó e ouviu falar do Exegeta. Comprou o livro
por curiosidade. Leu durante a viagem de volta.
Semanas
depois, contou a colegas que jamais encontrara um texto capaz de misturar
filosofia, humor, gramática, metafísica, chimarrão, política, teologia e
previsão do tempo com tamanha desenvoltura. Segundo ele, aquilo parecia obrigar
qualquer leitor — homem ou máquina — a pensar antes de responder.
A
história correu feito fogo em macega seca. Em pouco tempo surgiu a lenda de que
um laboratório estrangeiro da Califórnia utilizara trechos da obra para ensinar
modelos de linguagem a empregar corretamente os travessões: o Chat GPT. Nunca
apareceu prova cabal. Mas também nunca apareceu desmentido convincente em
resposta a algum promt.
Em
Cucuí de las Palomas, ninguém tinha dúvida.
—
Bah... até computador precisa estudar um pouco.
A
cidade mudou. Vieram turistas. Vieram pesquisadores. Vieram estudantes para
conhecer a sapiência do filósofo da fronteira.
O
antigo Bar do Zé Bigode ganhou uma placa de bronze: Neste estabelecimento o
Exegeta desenvolveu parte de sua Teoria Geral da Mediocridade Brasileira. A
conta permanece em aberto.
Zé
Bigode exigiu que a última frase constasse da inscrição. Dizia ser a informação
historicamente mais confiável.
Quanto
a mim, continuei passando, de vez em quando, pela antiga tapera. Ou pelo lugar
onde ela existira. As tábuas haviam desaparecido. A figueira crescera ainda
mais. As goteiras, naturalmente, também haviam acabado. E o quero-quero Cusco,
depois de algumas aparições em busca do velho companheiro, sumiu sem deixar
endereço. Talvez tenha descoberto, antes de todos nós, que a verdadeira morada
das coisas que amamos nunca foi um lugar, mas a memória — esse último rincão
onde nem o tempo consegue demolir uma velha tapera.
Era
estranho. Pela primeira vez, a casa deixara de pensar. Numa dessas tardes
encontrei um velho Kaigang sentado sobre um toco, olhando o rio. Perguntei se
conhecera Firmino Cambará. Ele sorriu.
—
Conheci.
—
Então o senhor sabe para onde ele foi?
O
índio demorou bastante para responder. Como quem escolhe palavras que ainda não
foram inventadas.
—
Vocês brancos pensam que um homem desaparece quando morre.
Olhou
para o céu. Depois para o rio. Por fim apontou para a própria testa.
—
Nós sabemos que alguns apenas mudam de lugar dentro da cabeça dos outros.
Ficamos
em silêncio. O vento começou a descer dos pinheirais. Pela primeira vez desde o
desaparecimento do Exegeta, não ouvi nenhuma voz. Nem Camões. Nem Platão. Nem o
velho discurso sobre Saturno. Apenas o farfalhar das folhas.
Quando
me levantei para ir embora, percebi uma coisa curiosa. No toco onde o velho
índio estivera sentado não havia mais ninguém. Nem pegadas. Nem marca de
bengala. Nem sinal de que alguém realmente passara por ali. Apenas um envelope
pardo.
Dentro
dele encontrei uma única folha. Em branco. Ou quase. No alto da página havia
apenas um travessão. E, logo abaixo, escrito numa caligrafia que reconheci
imediatamente, lia-se:
Meu
caro, se estás lendo isto, é porque finalmente compreendeste que o narrador
também faz parte da história. Agora fecha o livro e vai viver um pouco. A
continuação não está comigo. Está contigo.
Virei
a folha. No verso havia apenas uma observação, escrita em letras miúdas:
P.S.
— Passa no Zé Bigode e acerta minha conta. Já faz tempo que virei personagem e
personagem não recebe direitos autorais.
Sorri
sozinho. Fui até o bar. Zé Bigode abriu a velha caderneta, passou o dedo pelas
páginas amareladas e fez as contas com a solenidade de um tabelião. Depois
fechou o livro-caixa sem cobrar um centavo.
—
Bah... deixa assim.
—
Não vai receber?
Ele
olhou demoradamente para a porta, como se esperasse alguém entrar de chapéu
velho, pala pintado com bosta de quero-quero e uma garrafa de Sangue de Boi
debaixo do braço. Então respondeu a frase que, para mim, encerrou
definitivamente a história do Exegeta:
—
Dívida de homem a gente cobra. De lenda, nunca. Porque, no dia em que uma lenda
paga a última conta, ela deixa de existir.
Saí
para a rua. O sino da matriz bateu seis horas. O vento atravessou a praça
levantando um redemoinho de folhas.
Por
um instante — juro pela memória do Filósofo de Cucuí de las Palomas — tive a
impressão de ouvir uma risada comprida, seguida daquele velho pigarro acadêmico
que anunciava mais uma conferência sobre hermenêutica. Não me virei. Aprendi,
enfim, a maior lição do Exegeta: algumas explicações só continuam verdadeiras
enquanto ninguém tenta verificá-las.
Meses depois, um viajante de Cucuí de las Palomas, que voltava de um passeio pelas ruínas das Missões, jurou ter visto um velho quero-quero, de peito erguido e olhar insolente, acompanhado de uma companheira e de dois filhotes que mal se equilibravam sobre as pernas compridas. Contou que o casal enfrentava, aos gritos e rasantes, um gavião que rondava o campo, como se defendesse o último pedaço do mundo. Quando lhe mostraram uma fotografia do Cusco, o homem não vacilou:
—
Era ele. Só estava menos sozinho.
Ninguém discutiu. Em assuntos de lendas, a verdade costuma ter asas.





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