Tia
Mati, a mulher
que
carregava a casa nas costas
Se existe um Céu para as
mulheres fortes, para aquelas que viveram mais para os outros do que para si
mesmas, estou convencido de que tia Matilde Preis Rockenbach, nossa Tia Mati,
já encontrou por lá um cantinho especial.
Alta, bonitona, ela era casada com Eleutério
Rockenbach, um tipo galã à la Richard Burton. Sempre bem-humorado, ele tinha
uma gargalhada que se ouvia a 1 km. Mas ai de quem ousasse chamá-lo de
Eleutério. O nome, para todos os efeitos, parecia proibido. Ele era
simplesmente o Leo. E pronto. Insistir em Eleutério era comprar encrenca na
certa.
Nos anos cinquenta, quando
nós, os seis irmãos (Félix, Sílvia, Fernando, Válter, Ivone e Günther) íamos
chegando ao mundo em fila indiana — uma verdadeira escadinha entre 1950 e 1957
—, Tia Mati tornou-se uma extensão da nossa família. Minha mãe, Marina
Preis Maier, casada com Hilário Maier, passava pelos inevitáveis períodos de
resguardo, e lá vinha Tia Mati, vizinha na Linha Nogueira, de Luzerna, SC, para
ajudar nos serviços da casa.
E haja serviço. Seis
crianças em sete anos não eram propriamente uma família, mas uma pequena
fábrica de fraldas. Fraldas de pano, naturalmente, que precisavam ser fervidas,
ensaboadas, esfregadas, enxaguadas e penduradas no varal, se fizesse sol, ou
secadas a ferro de passar com brasas vivas em seu interior, se chovesse. Energia elétrica, nem pensar!
Hoje, quando vejo uma
máquina de lavar moderna fazer tudo sozinha, penso em Tia Mati. E imagino
quantas vezes aquelas mãos femininas, cansadas de tanto esfrega-esfrega, devem
ter desejado possuir um pouco da tecnologia dos tempos atuais.
O irmão de Tia Mati, Arno Preis, ainda
seminarista, aproveitava as férias para ajudar na lavoura dos Maier. Era ativo,
trabalhador, parecia movido a corda. Carpindo inços na roça do milharal,
ninguém imaginaria o rumo que a vida lhe reservaria. Certa feita, tio Arno
mandou de presente um cavaquinho para mim e um vestido para minha irmã Sílvia.
Minha irmã teve mais sorte, o cavaquinho deve ter-se perdido em alguma
baldeação da maria-fumaça. Anos mais tarde, tio Arno se envolveu com a
organização terrorista ALN de Carlos Marighella e acabaria morto em 1972, numa
troca de tiros, após matar um PM e ferir outro em Goiás. Poliglota, tradutor de
livros, muito inteligente, com voz de tenor, tio Arno tinha o sonho de ser
embaixador.
Mas a vida no interior tinha
dessas ironias que nem os romances conseguem explicar. Recordo-me especialmente
de um episódio que me marcou. Eu devia ter cinco ou seis anos quando minha mãe
Marina e Tia Mati resolveram visitar conhecidos na Linha Pitoca. Havia, depois
das terras de meu pai Hilário, um trecho de caminho que penetrava na mata
fechada.
Na volta para casa, as duas
irmãs saíram talvez um pouco tarde. E dentro do mato o crepúsculo chega mais
cedo. As árvores parecem engolir a luz. O caminho desaparece. A escuridão toma
conta. Minha mãe e tia Mati perderam-se.
Como conseguiram passar a
noite naquele mato, ninguém sabe ao certo. Talvez sentadas sobre troncos.
Talvez rezando. Talvez apenas esperando o amanhecer.
Lembro-me delas voltando
logo cedo. Os vestidos rasgados. Os braços cheios de arranhões. Os pés
machucados. E meu pai recebendo uma senhora descompostura.
— Hilário, tu não foste
procurar a gente!
Mas como poderia? Para ele,
se não tinham aparecido em casa à tardinha do dia anterior, era porque
certamente haviam dormido na casa da amiga na Linha Pitoca. Até hoje me lembro da
bronca que meu pai levou, sem culpa nenhuma.
Quando completei sete anos, em
1957, comecei a estudar no Grupo Escolar Padre Nóbrega, em Luzerna, e passei a
morar na casa do Opa (avô) Edmundo Preis, meu padrinho de crisma, e da Oma
(avó) Paulina Back Preis. Tinha aula de segunda a sábado de manhã, quando havia trabalhos manuais, especialmente com uma serrinha em arco e tabuinha de cedro. Cheguei até a construir um presépio inteiro, que foi pintado por minha mãe. Assim, depois da aula de sábado, eu subia até minha casa na Linha Nogueira e só voltava a Luzerna na segunda-feira, indo pra aula e depois para a casa dos avós. Na metade do ano, meu pai vendeu a terra da Linha Nogueira, de 8 alqueires, e comprou um terreno de 8 alqueires na Linha Pinheirinho, em Herval d'Oeste, distante uns 5 km da escola, distância parecida com a da Linha Nogueira. A vantagem, morando em Herval, é que havia 3 km a menos para amassar o barro em dia de chuva, aproveitando a linha férrea e se equilibrando andando sobre os trilhos.
Os avós tinham casa com varanda e quintal, árvores frutíferas no lote e, perto do barranco do Rio Limeira, onde deságua o Rio Nogueira, eles tinham um pequeno terreno onde havia uma vaca leiteira e alguns porcos. O Rio Limeira deságua no Rio do Peixe, em Luzerna, justo onde existia uma romântica ponte coberta, do tipo encontrado no filme As Pondes de Madison, com Clint Eastwood e Marryl Streep.
Nessa casa em Luzerna, também moravam Tia
Mati e Tia Helga. O tio materno caçula, Renato Preis,
estudava no seminário de Agudos, SP.
Tia Mati era trabalhadora, mas
bastante arteira. Certa vez, depois que o Opa abateu um porco, ela embrulhou
cuidadosamente o rabo do animal em papel fino e me encarregou da entrega.
— Leva isto para o
Kratochvil.
O rapaz trabalhava na empresa
eletromecânica da família e era apaixonado por ela. O detalhe é que Tia Mati já
estava namorando o Leo. Fui, inocente, cumprir a missão. Até hoje não sei qual
foi a cara do pobre Kratochvil ao abrir o embrulho.
Em Luzerna, cheguei a segurar
vela para os namorados Leo e Mati pelo menos uma vez no Cine Central, do Adolfo
Knolseisen, o Adolfinho. Com certeza, eu não era uma companhia bem-vinda, mas
ganhei um enorme sorvete no final do filme, muito gelado, de dar espetada nos
olhos.
Naquele mesmo cinema, que
tinha um bar e alguns produtos para venda, eu comprava, às vezes, cigarros
Belmont para o tio Leo. Além do sorvete, havia um pão sovado que era uma
delícia, como era também deliciosa a bala de coco do Emílio Altmann, vendida na
Loja Bonatto.
Bacana era ver a Tia Mati,
na sala da casa ou no quarto, apertando a cinta larga na tia Helga, ficando com cintura de
vespa. Ou vice-versa. Um sacrifício que as moças se submetiam na época para se
tornarem mais belas.
E, já que estamos em matéria
de confissões, devo reconhecer que fui também o responsável por um pequeno
escândalo doméstico.
A casinha, para as
necessidade fisiológicas, ficava distante uns 30 metros da casa do Opa Preis.
Assim, durante a madrugada, a preguiça falava mais alto. Então eu fazia minhas
necessidades da varanda mesmo. Sem saber que o líquido caía exatamente na
entrada do porão.
Não sei quem descobriu o
crime. Talvez a Oma. Mas ela era muito discreta, teria vergonha para chamar
minha atenção. Assim, quem me aplicou a maior mijada — como se diz
no Exército — foi Tia Mati. A Oma, coitada, jamais iria ralhar com um de seus
netos preferidos.
Anos depois, os Preis migraram para Maringá. Lá foram o Opa, a Oma, Tia Mati, Tia Helga e tantos outros parentes, como a tia Ana (casada com Silvério Preis, eram primos em primeiro grau) e tia Adelina (casada com Kuniberto Hoepers). Os tios Bruno e João Preis já moravam lá fazia tempo. Na época, João Preis era gerente da Transportadora Maior, em Maringá. Posteriormente, ele criou sua própria empresa, Interpreis, que possui várias filiais no Paraná, além da matriz em Maringá. O empresário João Preis, falecido em 2025, foi deputado estadual pelo Paraná e é autor de Amor e ideais - Chamas que não se apagam.
Por desígnios celestes,
Maringá acabou tornando-se minha cidade de fim de semana. Quando deixei o
seminário franciscano de Agudos, SP, em 1969, passei a servir o Exército em
Apucarana, na 4ª. Companhia de Infantaria, Soldado 78 Maier. Tio João Preis,
esperto, jogou a sorte no 78 e conseguiu uma grana extra. Nas folgas de fim de
semana, quando não estava de serviço no quartel, era para Maringá que me mandava,
seja viajando de ônibus pela Viação Garcia, seja viajando na maria-fumaça. Me
lembro passando por várias cidades, de Maringá a Londrina, como Jandaia do Sul,
Mandaguari, Marialva, Arapongas, Cambé, Rolândia, onde havia Faculdades de
Filosofia, Ciências e Letras. Não sei onde foram parar os nossos filósofos, nem
os cientistas, nem os letrados...
Maringá era minha segunda
cidade, cidade-dormitório de fins de semana. Ali estavam os avós. Ali estavam
os tios João, Bruno e Leo, que me levavam para passear no Clube Teuto-Brasileiro, onde jogavam pôquer. Ali estava Tia Mati. E também o pequeno primo Wagner, filho de Mati e Leo. Assim que eu
chegava à casa do Opa, onde eu tinha uma cama desmontável para dormir, não
demorava muito para aparecer aquele menino educado, inteligente e estudioso. Opa Preis e Tia Mati eram vizinhos de cerca.
— Vamos jogar dama? — vinha
o Wagner com o jogo nas mãos.
Ou então o jogo de tria (ou
trilha, ou moinho). Às vezes eu deixava o garoto vencer. Não por piedade. Mas
para que ele não perdesse o gosto pelo jogo e deixasse de me convidar para mais
uma peleia quando eu fosse a Maringá.
Anos depois, quando nasceu meu filho, escolhi para ele o nome Wagner. Wagner dos Santos Maier. Foi uma homenagem. Eu acho que aquele menino de Maringá, hoje agrônomo trabalhando em Vilhena, RO, aprovaria a escolha...
Em todo o Norte do Paraná, na época, era grande a colônia japonesa, de sorte que os ônibus da cidade de Maringá tinham o destino escrito em português e japonês. No quartel, onde eu servi em Apucarana, entre 120 soldados recrutas, havia mais de 20 de origem japonesa. Muito bons judocas.
Em Maringá, eu também fazia
longas caminhadas com o Opa Preis. Saíamos da Rua Fernandes Vieira, onde ele
morava, atravessávamos a Avenida Cerro Azul, passávamos pelo cemitério
arborizado e então seguíamos em direção ao aeroporto. Ele gostava muito de
caminhar. Inclusive no cemitério, o que no início achei estranho. Mas, o local
era muito limpo, arborizado e florido.
Numa dessas voltas, tive uma
brilhante ideia. Paguei uma dose de cachaça para o avô. Havia esquecido de que
ele havia lutado para vencer o vício, que havia causado antigamente sérios
transtornos para sua família. Quem me passou um sabão monumental foi o Tio Leo.
E com toda razão. Fui um boboca.
Poucos anos antes de eu servir em Apucarana, uma tragédia quase destruíra a família de Tia Mati. Tio Leo, Tia Mati e minha prima Carla (filha da tia Helga) haviam sofrido um grave acidente dentro de um Fusca, na BR. Sobreviveram por milagre. Tia Mati teve braço e clavícula quebrados. Carla escapou por pouco. E o Tio Leo sofreu traumatismo craniano, nunca mais se recuperaria completamente. Quem havia socorrido os feridos na Santa Casa de Misericórdia, em Apucarana, foi o capitão Ribamar, médico do Exército, que também servia na Unidade de Apucarana.
Foi então que apareceu a
verdadeira grandeza de Tia Mati. Sem reclamações. Sem discursos. Sem
autopiedade. Assumiu a casa como pai e mãe, já que tio Leo ficara praticamente
incapacitado. Além de criar os filhos Wagner e Simone, Tia Mati trabalhou. Meu
Deus, como ela trabalhou!
Costurava praticamente dia e
noite. Vestidos. Calças. Camisas. Jaquetas jeans, para jovens, com etiquetas
coloridas costuradas nas costas, como Harley Davidson, Coca-Cola, caveiras, ícones comerciais e de rock, o que então era moda.
Tudo passava pelas mãos
daquela mulher. A máquina de costura Singer cantava madrugada adentro. E foi
assim que ela segurou a barra, com o marido quase incapaz. Enquanto muitos
homens se orgulham de ter sustentado uma família, eu conheci uma mulher que
sustentou praticamente tudo: Tia Mati carregou literalmente a casa nas costas.
Em 1975, já servindo como
sargento do Exército no Rio de Janeiro, voltei ao Paraná depois da geada negra
que dizimou os cafezais no Norte do Paraná. Foi repeteco do que havia ocorrido
em 1955. Passei por Maringá e por Campo Mourão, onde morava tia Helga com sua
família: Tio Adolfo Ringwalt e as 4 filhas: Marise (já falecida), Carla,
Rosane e Paula Cristina. Paula Cristina é professora de inglês, morou alguns
anos nos EUA, onde durante certo tempo Helga também viveu. Atualmente, Helga
mora em Maringá, PR.
Tia Mati, Félix, Oma e Opa Preis, Simone e uma “japinha”, Maringá, PR (1975).
Era uma tristeza de doer o
coração. Os tratores arrancavam os cafezais pelas raízes. Parecia um funeral. Os
pés de café deram lugar à soja e ao milho, como se vê nos dias atuais.
Mudavam-se as plantações. Mudava-se
a economia. Mudava o Norte do Paraná. Mas Tia Mati permanecia a mesma. Firme. Resistente.
Bonitona como ela só. Sempre elegante. Sempre lutando.
Mais tarde veio Vilhena. Wagner,
engenheiro agrônomo, estabeleceu-se por lá. Tia Mati também, assim como Simone.
A família reunida outra vez. E isso trouxe alegria aos últimos anos de Tia Mati,
a qual, mesmo na velhice, ainda sentia uma saudade sem fim do marido Leo.
Nos últimos tempos, nossas
conversas aconteciam pelo WhatsApp. E havia sempre aquela frase, dita numa
vozinha doce que ainda hoje aperta meu coração:
— Fêle, estou com muita
saudade de você. Vem visitar a gente!
Eu queria. Mas a vida, às
vezes, impõe seus próprios cercos. Minha esposa Nice enfrentava a dura
recuperação da trombose venosa cerebral sofrida em novembro de 2024. As
dificuldades eram muitas. E o tempo, esse velho traiçoeiro, corre mais depressa
do que imaginamos. Não houve tempo de rever Tia Mati, que faleceu no dia 6 de
junho de 2026, em Vilhena, RO.
E essa talvez seja uma das
tristezas que carregarei comigo. Mas certas pessoas não desaparecem, como Tia
Mati. Continuam morando em nossas recordações e em nossos corações. No cheiro
do sabão de lavar fralda dos sobrinhos. No barulho de uma máquina de costura. Nas
brincadeiras. Nas broncas no sobrinho mijão. Nos pequenos gestos.
Tia Mati foi uma dessas
mulheres que não aparecem nos livros de História. Mas talvez sejam justamente
elas que impedem a História de desmoronar.
Tia Mati carregou a casa nas
costas. Carregou a família nas costas. Carregou a vida nas costas. E o fez com
dignidade, coragem e amor.
Que Deus a tenha em bom
lugar.
Porque, depois de tudo o que Tia Mati fez por tantos, ninguém merece mais descanso do que ela.




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