HOMEM
É DE MARTE, MULHER É DE LUA
Félix Maier
Dizem
que homem é de Marte e mulher é de Vênus. Sempre achei Vênus pouco convincente.
Muito quente, atmosfera tóxica, pressão esmagadora, descrição que pode ser mal
interpretada num casamento. Prefiro Lua. Mulher de Lua. Aquela criatura que
vive em outra órbita emocional, olhando para você como quem observa um eclipse
que só ela enxerga.
Homem
é de Marte. Não no sentido heroico. Marte não é aquele planeta vermelho,
bélico, cheio de crateras, onde Elon Musk quer criar uma nova civilização? Pois
então.
— Eu
só perguntei se você gostou do meu corte de cabelo — diz a selenita, da porta
do banheiro.
O
marciano olha. Analisa. Mede. Ele não vê cabelo. Vê diferença de milímetros.
—
Está… normal.
Silêncio
lunar de Lua nova. O silêncio lunar não é ausência de som. É ausência de
esperança.
—
Normal?
— É.
Bom. Assim. Igual.
A
mulher de Lua fecha a porta com delicadeza tectônica. Marte acaba de declarar
guerra sem saber.
O
homem de Marte tem qualidades. Ele é objetivo. Direto. Econômico. Se pudesse,
substituiria emoções por botões. Botão A: fome. Botão B: sexo. Botão C: sono.
Botão D: futebol. Ele acredita que está tudo bem significa que está tudo
bem. A selenita sabe que está tudo bem significa que nada está bem, mas
que ela decidiu adiar a explosão para depois da novela.
—
Está tudo bem? — pergunta o marciano.
—
Está.
Ele
sorri. Missão cumprida. A mulher de Lua observa aquele sorriso e pensa: Ele
não percebe nada. O marciano pensa: Resolvi.
Ponto
forte do marciano: simplicidade. Ponto fraco: simplicidade. Ele não complica o
que pode ser resolvido com uma chave de fenda. Ela não entende como alguém pode
achar que tudo se resolve com uma chave de fenda.
O
marciano também tem essa estranha habilidade de não encontrar objetos.
—
Amor, onde está o molho de chaves?
— Na
gaveta do aparador.
—
Não está.
A
selenita vai até a gaveta. O molho está ali, com a dignidade de quem nunca saiu
do lugar.
—
Aqui.
—
Ah. Mas estava escondido.
—
Sim, escondido atrás de si mesmo.
A
mulher de Lua tem fases. Isso é científico. A própria Lua prova. Há dias em que
ela é Lua cheia: ilumina tudo, organiza armários, planeja viagens para 2032 e
ainda acha tempo para discutir o sentido da vida. Há dias em que é Lua nova:
silêncio, introspecção, perguntas existenciais do tipo:
—
Você já pensou que talvez a gente nunca se conheça de verdade?
O
marciano está mastigando cookies com nuts e chocolate.
—
Hã?
Ela
fala em órbitas. Ele fala em trajetórias. Ela guarda mágoas com classificação
temática e data de ocorrência. Ele não lembra o que jantou ontem.
Ponto
forte da selenita: sensibilidade, memória, radar emocional de longo alcance.
Ponto fraco: sensibilidade, memória, radar emocional de longo alcance.
—
Você mudou — diz ela.
—
Eu?
—
Mudou.
—
Quando?
—
Não sei. Mas mudou.
O
marciano gostaria de um relatório técnico com gráficos e anexos. A selenita
trabalha com percepções. Ela sente variações gravitacionais no ar. Ele sente
fome.
A
mulher de Lua não muda de ideia: muda de iluminação. O que ontem era quarto
crescente hoje é minguante, mas continua sendo a mesma esfera inteira, apenas
vista de outro ângulo.
Já
que ficou démodé planejar invadir a Terra, como Marte Ataca! o
marciano inventa uma prateleira para instalar na cozinha, com perigo de furar o
cano d’água.
Toda
mulher tem um deserto marciano interno onde não chove há meses. Todo homem tem
uma lua particular que ninguém sabe quando vai minguar. Às vezes ela quer guerra. Às
vezes ele quer maré. O problema não é serem de planetas diferentes. É
esquecerem que dividem o mesmo sistema solar.
A
guerra começa sempre por pequenas escaramuças.
—
Você nunca me ouve.
— Eu
estou ouvindo.
—
Não está.
—
Estou sim.
—
Então o que eu disse?
O
marciano congela. Marte não previu essa pergunta.
—
Você falou… sobre… a sua amiga.
—
Qual amiga?
Marte
cai.
A
selenita não quer apenas ser ouvida. Quer ser compreendida. Quer que o marciano
perceba que quando ela fala da amiga, está falando de si. Que quando fala da
vizinha, está falando do futuro. Que quando fala do cabelo, está falando da
autoestima, da passagem do tempo e da condição feminina no hemisfério sul. O
marciano ouve cabelo. E responde normal.
Mas
há momentos de cooperação interplanetária. Quando o mundo aperta, o marciano
vira escudo. Quando o marciano cai, a selenita vira atmosfera. Ele pode não
entender as entrelinhas, mas segura a mão. Ela pode dramatizar um pouco, mas
faz canja de galinha quando ele está gripado.
—
Você acha que eu exagero? — pergunta ela.
Ele
pensa um pouco. Isso já é um avanço evolutivo.
— Às
vezes.
Ela
o encara.
—
Mas é um exagero organizado — ele completa, num raro lampejo diplomático.
A
mulher de Lua sorri. Pequena maré cheia.
O
marciano aprende, com o tempo, que há perguntas que não buscam resposta, mas
acolhimento.
—
Você me acha bonita?
Resposta
errada: Sim. Resposta correta: Muito. Resposta ideal: Cada dia
mais.
A
Lua é respeitada pelas marés e por suas fases, cada uma própria para o
agricultor saber quando derrubar uma árvore ou plantar feijão, para não
carunchar. Só uma selenita para saber o que existe no lado escuro da Lua.
Marte
conhece bem as quatro estações do ano: campeonato estadual, Brasileirão,
Libertadores e Copa do Brasil. E não há sonda espacial que explique por que até
um marciano fica rouco diante da televisão.
—
Você viu que o mundo está acabando? — pergunta o marciano.
—
Claro, até a Lua está se afastando da Terra — responde a selenita.
Ela
está em outra órbita. Ele no noticiário. Mas não se enganem: a selenita pode
parecer distraída, mas sabe tudo. Sabe do IPVA que vence amanhã, porque não é
ela que paga; da tensão na voz dele quando o time perde; da sogra que falou interessante
com intenção hostil. Alienada? Não. Só de Lua.
— O
que você acha que significa sonhar com escadas?
O
homem de Marte não sabe responder, não é José do Egito para explicar os sonhos da
faraoa selenita. Também não tem a mínima ideia do que significa a escada
para o Céu, vista por Jacó.
O
homem de Marte finge que é invulnerável. Mas guarda inseguranças do tamanho do
sistema solar. Ele quer ser forte, mas tem medo de falhar na hora H. Quer ser
provedor, mas teme não ser suficiente. Quer ser simples, mas às vezes é apenas
simplório.
—
Você não fala do que sente — diz a selenita.
—
Falo sim.
—
Quando?
Ele
pensa.
—
Quando o time perde.
Ela
suspira. Mas se aproxima. Em seguida desliza para o lado escuro da
Lua, aquele onde ela arquiva as esperanças não correspondidas.
O
marciano não fala muito, mas demonstra. Conserta a torneira, troca o pneu, leva
o Totó para passear, enfrenta o sogro. Seu amor é prático. Não escreve poemas;
paga boletos. A mulher de Lua escreve poemas mentais sobre os boletos.
De
vez em quando há eclipse. Um encobre o outro. Falta luz.
—
Talvez a gente seja mesmo muito diferente — diz ela.
—
Talvez — responde ele.
Silêncio.
Mas
então, como num alinhamento cósmico, lembram-se de algo simples: escolheram
estar juntos. Aqui e agora. Ele gosta do jeito como ela fala com as mãos. Ela
gosta do jeito como ele dorme, como se nada pudesse derrubá-lo. Ela organiza o
caos dele, que não existe. Ele simplifica o drama dela, que existe. Ela ensina
nuance. Ele ensina descanso.
Homem
é de Marte. Mulher é de Lua. Marte é árido, mas resistente. Lua é mutável, mas
constante no retorno. Ele tem força bruta. Ela tem força gravitacional. Ele
constrói pontes. Ela decide para onde elas levam.
No
fundo, nenhum vive sozinho. Marte sem Lua é só poeira vermelha girando no
vazio. Lua sem planeta é pedra fria perdida no escuro.
—
Você ainda está brava comigo? — pergunta o marciano.
—
Não.
—
Mesmo?
— Um
pouco.
—
Quer pizza?
Pausa.
— De
quatro queijos?
—
Pode ser.
E
assim se faz a paz universal: não por tratados assinados, mas por pequenas
concessões com borda recheada.
No
fim das contas, talvez não sejamos de planetas diferentes. Talvez sejamos do
mesmo mundo, só com mapas distintos. Ele usa Waze. Ela usa maré. E entre
crateras e fases, aprendem a orbitar um ao outro, nem sempre em perfeita
sintonia, mas sempre com alguma gravidade compartilhada.
Porque,
no espaço conjugal sideral, o segredo não é vencer a guerra galáctica. É
continuar girando juntos.

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