MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

HOMEM É DE MARTE, MULHER É DE LUA - Félix Maier

 


HOMEM É DE MARTE, MULHER É DE LUA


Félix Maier

 

Dizem que homem é de Marte e mulher é de Vênus. Sempre achei Vênus pouco convincente. Muito quente, atmosfera tóxica, pressão esmagadora, descrição que pode ser mal interpretada num casamento. Prefiro Lua. Mulher de Lua. Aquela criatura que vive em outra órbita emocional, olhando para você como quem observa um eclipse que só ela enxerga.

Homem é de Marte. Não no sentido heroico. Marte não é aquele planeta vermelho, bélico, cheio de crateras, onde Elon Musk quer criar uma nova civilização? Pois então.

— Eu só perguntei se você gostou do meu corte de cabelo — diz a selenita, da porta do banheiro.

O marciano olha. Analisa. Mede. Ele não vê cabelo. Vê diferença de milímetros.

— Está… normal.

Silêncio lunar de Lua nova. O silêncio lunar não é ausência de som. É ausência de esperança.

— Normal?

— É. Bom. Assim. Igual.

A mulher de Lua fecha a porta com delicadeza tectônica. Marte acaba de declarar guerra sem saber.

O homem de Marte tem qualidades. Ele é objetivo. Direto. Econômico. Se pudesse, substituiria emoções por botões. Botão A: fome. Botão B: sexo. Botão C: sono. Botão D: futebol. Ele acredita que está tudo bem significa que está tudo bem. A selenita sabe que está tudo bem significa que nada está bem, mas que ela decidiu adiar a explosão para depois da novela.

— Está tudo bem? — pergunta o marciano.

— Está.

Ele sorri. Missão cumprida. A mulher de Lua observa aquele sorriso e pensa: Ele não percebe nada. O marciano pensa: Resolvi.

Ponto forte do marciano: simplicidade. Ponto fraco: simplicidade. Ele não complica o que pode ser resolvido com uma chave de fenda. Ela não entende como alguém pode achar que tudo se resolve com uma chave de fenda.

O marciano também tem essa estranha habilidade de não encontrar objetos.

— Amor, onde está o molho de chaves?

— Na gaveta do aparador.

— Não está.

A selenita vai até a gaveta. O molho está ali, com a dignidade de quem nunca saiu do lugar.

— Aqui.

— Ah. Mas estava escondido.

— Sim, escondido atrás de si mesmo.

A mulher de Lua tem fases. Isso é científico. A própria Lua prova. Há dias em que ela é Lua cheia: ilumina tudo, organiza armários, planeja viagens para 2032 e ainda acha tempo para discutir o sentido da vida. Há dias em que é Lua nova: silêncio, introspecção, perguntas existenciais do tipo:

— Você já pensou que talvez a gente nunca se conheça de verdade?

O marciano está mastigando cookies com nuts e chocolate.

— Hã?

Ela fala em órbitas. Ele fala em trajetórias. Ela guarda mágoas com classificação temática e data de ocorrência. Ele não lembra o que jantou ontem.

Ponto forte da selenita: sensibilidade, memória, radar emocional de longo alcance. Ponto fraco: sensibilidade, memória, radar emocional de longo alcance.

— Você mudou — diz ela.

— Eu?

— Mudou.

— Quando?

— Não sei. Mas mudou.

O marciano gostaria de um relatório técnico com gráficos e anexos. A selenita trabalha com percepções. Ela sente variações gravitacionais no ar. Ele sente fome.

A mulher de Lua não muda de ideia: muda de iluminação. O que ontem era quarto crescente hoje é minguante, mas continua sendo a mesma esfera inteira, apenas vista de outro ângulo.

Já que ficou démodé planejar invadir a Terra, como Marte Ataca! o marciano inventa uma prateleira para instalar na cozinha, com perigo de furar o cano d’água.

Toda mulher tem um deserto marciano interno onde não chove há meses. Todo homem tem uma lua particular que ninguém sabe quando vai minguar. Às vezes ela quer guerra. Às vezes ele quer maré. O problema não é serem de planetas diferentes. É esquecerem que dividem o mesmo sistema solar.

A guerra começa sempre por pequenas escaramuças.

— Você nunca me ouve.

— Eu estou ouvindo.

— Não está.

— Estou sim.

— Então o que eu disse?

O marciano congela. Marte não previu essa pergunta.

— Você falou… sobre… a sua amiga.

— Qual amiga?

Marte cai.

A selenita não quer apenas ser ouvida. Quer ser compreendida. Quer que o marciano perceba que quando ela fala da amiga, está falando de si. Que quando fala da vizinha, está falando do futuro. Que quando fala do cabelo, está falando da autoestima, da passagem do tempo e da condição feminina no hemisfério sul. O marciano ouve cabelo. E responde normal.

Mas há momentos de cooperação interplanetária. Quando o mundo aperta, o marciano vira escudo. Quando o marciano cai, a selenita vira atmosfera. Ele pode não entender as entrelinhas, mas segura a mão. Ela pode dramatizar um pouco, mas faz canja de galinha quando ele está gripado.

— Você acha que eu exagero? — pergunta ela.

Ele pensa um pouco. Isso já é um avanço evolutivo.

— Às vezes.

Ela o encara.

— Mas é um exagero organizado — ele completa, num raro lampejo diplomático.

A mulher de Lua sorri. Pequena maré cheia.

O marciano aprende, com o tempo, que há perguntas que não buscam resposta, mas acolhimento.

— Você me acha bonita?

Resposta errada: Sim. Resposta correta: Muito. Resposta ideal: Cada dia mais.

A Lua é respeitada pelas marés e por suas fases, cada uma própria para o agricultor saber quando derrubar uma árvore ou plantar feijão, para não carunchar. Só uma selenita para saber o que existe no lado escuro da Lua.

Marte conhece bem as quatro estações do ano: campeonato estadual, Brasileirão, Libertadores e Copa do Brasil. E não há sonda espacial que explique por que até um marciano fica rouco diante da televisão.

— Você viu que o mundo está acabando? — pergunta o marciano.

— Claro, até a Lua está se afastando da Terra — responde a selenita.

Ela está em outra órbita. Ele no noticiário. Mas não se enganem: a selenita pode parecer distraída, mas sabe tudo. Sabe do IPVA que vence amanhã, porque não é ela que paga; da tensão na voz dele quando o time perde; da sogra que falou interessante com intenção hostil. Alienada? Não. Só de Lua.

— O que você acha que significa sonhar com escadas?

O homem de Marte não sabe responder, não é José do Egito para explicar os sonhos da faraoa selenita. Também não tem a mínima ideia do que significa a escada para o Céu, vista por Jacó.

O homem de Marte finge que é invulnerável. Mas guarda inseguranças do tamanho do sistema solar. Ele quer ser forte, mas tem medo de falhar na hora H. Quer ser provedor, mas teme não ser suficiente. Quer ser simples, mas às vezes é apenas simplório.

— Você não fala do que sente — diz a selenita.

— Falo sim.

— Quando?

Ele pensa.

— Quando o time perde.

Ela suspira. Mas se aproxima. Em seguida desliza para o lado escuro da Lua, aquele onde ela arquiva as esperanças não correspondidas.

O marciano não fala muito, mas demonstra. Conserta a torneira, troca o pneu, leva o Totó para passear, enfrenta o sogro. Seu amor é prático. Não escreve poemas; paga boletos. A mulher de Lua escreve poemas mentais sobre os boletos.

De vez em quando há eclipse. Um encobre o outro. Falta luz.

— Talvez a gente seja mesmo muito diferente — diz ela.

— Talvez — responde ele.

Silêncio.

Mas então, como num alinhamento cósmico, lembram-se de algo simples: escolheram estar juntos. Aqui e agora. Ele gosta do jeito como ela fala com as mãos. Ela gosta do jeito como ele dorme, como se nada pudesse derrubá-lo. Ela organiza o caos dele, que não existe. Ele simplifica o drama dela, que existe. Ela ensina nuance. Ele ensina descanso.

Homem é de Marte. Mulher é de Lua. Marte é árido, mas resistente. Lua é mutável, mas constante no retorno. Ele tem força bruta. Ela tem força gravitacional. Ele constrói pontes. Ela decide para onde elas levam.

No fundo, nenhum vive sozinho. Marte sem Lua é só poeira vermelha girando no vazio. Lua sem planeta é pedra fria perdida no escuro.

— Você ainda está brava comigo? — pergunta o marciano.

— Não.

— Mesmo?

— Um pouco.

— Quer pizza?

Pausa.

— De quatro queijos?

— Pode ser.

E assim se faz a paz universal: não por tratados assinados, mas por pequenas concessões com borda recheada.

No fim das contas, talvez não sejamos de planetas diferentes. Talvez sejamos do mesmo mundo, só com mapas distintos. Ele usa Waze. Ela usa maré. E entre crateras e fases, aprendem a orbitar um ao outro, nem sempre em perfeita sintonia, mas sempre com alguma gravidade compartilhada.

Porque, no espaço conjugal sideral, o segredo não é vencer a guerra galáctica. É continuar girando juntos.


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