Hamster Digital
Félix
Maier
Outro
dia reparei que a humanidade descobriu finalmente o moto-contínuo. Não foi a
ciência, nem a engenharia alemã, muito menos um gênio esquecido num porão da
USP. Foi o celular. Mais especificamente: o dedo polegar.
O
ser humano moderno passa horas fazendo um único movimento repetitivo,
hipnótico, automático — para cima, sempre para cima — como se estivesse
empurrando o mundo para fora da tela. Não anda, não corre, não pensa: rola.
Rola imagens, rola vídeos, rola opiniões, rola indignações prontas. É o hamster
da era digital, só que em vez de serragem, corre sobre pixels.
A
imagem é perfeita: um hamster feliz, sorridente, dentro de uma rodinha
brilhante, girando sem sair do lugar. Troque a rodinha por um smartphone e
pronto: eis o retrato da nossa época. A diferença é que o hamster original pelo
menos se exercita. O digital só engorda, comendo porcaria pedida pelo celular
no Méqui.
Os
jovens, sobretudo, desenvolveram uma alergia misteriosa aos livros. Não é
preguiça — é reação física mesmo. Ao abrir um volume de papel, os sintomas
aparecem: coceira existencial, tédio agudo, vontade súbita de conferir
notificações que não existem. Já se sabe que alguns chegam a espirrar os
pulmões e as tripas ao sentir cheiro de biblioteca. Papel, coitado, virou
substância altamente tóxica.
As
bibliotecas, aliás, mudaram de função. Antes eram depósitos de silêncio e
ideias. Hoje são coworkings de chat. Jovens entram, sentam-se, ligam o Wi-Fi,
abrem o notebook e o celular ao mesmo tempo — redundância é segurança — e
passam horas conversando com pessoas que não estão ali, ignorando solenemente
as que estão. Os livros observam tudo, calados, com aquela dignidade de móvel
antigo que sabe que será herdado por ninguém.
A
impressão que se tem é que os hamsters digitais de duas pernas roeram todos os
livros das bibliotecas. Não para ler — para destruir mesmo. Roer lombadas,
mastigar páginas, triturar parágrafos. O conhecimento virou serragem. O que
sobrou foram capas bonitas para selfies intelectuais: Na biblioteca,
estudando, legenda obrigatória, livro fechado, câmera aberta, cérebro em
modo avião.
Os
mais velhos, convém dizer, não escaparam da mutação tecnológica. Apenas
disfarçam melhor. Antes reclamavam da televisão; agora reclamam do celular…
pelo celular. Dizem que no meu tempo era diferente enquanto passam três
horas seguidas assistindo a vídeos de acidentes, fofocas políticas e médicos
explicando, em 30 segundos, doenças que antes exigiam seis anos de faculdade.
Viraram hamsters com nostalgia.
O
celular, essa praga portátil, é mais letal que uma bomba atômica. A bomba
destrói cidades; o celular destrói a atenção, que é muito pior. Sem atenção não
há leitura, sem leitura não há pensamento longo, e sem pensamento longo a
humanidade vira uma sucessão de frases curtas, opiniões recicladas e certezas
inflamadas.
Nunca
se soube tanto e nunca se pensou tão pouco. O hamster digital não ignora tudo —
ele sabe um pouco de tudo, superficialmente, mal-acabado, fragmentado. É um
erudito de rodapé, um sábio de manchete. Conhece títulos, não conteúdos. Tem
opinião formada antes mesmo de entender a pergunta.
Outro
efeito colateral grave é a ilusão de movimento. O hamster corre, corre, corre…
e continua no mesmo lugar. O usuário rola, rola, rola… e continua exatamente
igual, só que mais cansado. Ao fim do dia, sente-se exausto sem saber por quê.
Trabalhou? Pensou? Criou algo? Não. Apenas girou a telinha.
As
conversas também foram afetadas. Antigamente, as pessoas se interrompiam para
discordar. Hoje se interrompem para conferir o celular. É um diálogo entre
polegares. O silêncio deixou de ser pausa para reflexão e virou sinal de Wi-Fi
ruim. Se a tela apaga, o mundo acaba.
Há
casais sentados à mesma mesa, cada um em sua rodinha particular, correndo em
direções opostas sem sair do lugar. O amor virou notificação silenciosa. A
atenção plena é item de luxo. Olhar nos olhos parece invasivo demais, quase
indecente. A mesa de jantar, além de facas, garfos e colheres, ganhou novo
talher: o celular.
E,
no entanto, ninguém larga o aparelho. O hamster poderia sair da roda, mas não
sai. Há algo ali — dopamina, pertencimento, medo de ficar de fora — que o
mantém correndo. Talvez seja isso: o pavor de parar e perceber que, fora da
tela, existe tempo. E o tempo, ao contrário do feed, não pode ser rolado para
cima.
Porque
um dia, sem alarde, sem trend, sem aviso prévio, um hamster digital para. Não
porque alguém mandou, não porque leu um manifesto, mas porque o polegar cansou.
Ele olha em volta. Vê um livro esquecido numa prateleira, sobrevivente da
roedura geral. Abre por curiosidade, quase por tédio.
E
algo estranho acontece: o texto não rola. Ele exige permanência. Não pisca, não
vibra, não recompensa com curtidas. No começo é desconfortável. Depois é
libertador. O hamster percebe que, pela primeira vez em muito tempo, não está
correndo. Está andando. Avançando de verdade. Saindo do lugar.
A
roda continua girando ao redor — milhões de polegares ainda em movimento — mas
aquele hamster desce. Senta. Lê. Pensa. Ri sozinho. Fecha o livro com a
sensação rara de quem chegou a algum lugar.
E
descobre, espantado, que o mundo fora da rodinha ainda existe.
Silencioso.
Imperfeito. Mas, profundamente humano.

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