Assim nasceu o petista...
Toda
ideologia, quando envelhece mal, acaba virando folclore. E todo folclore, cedo
ou tarde, ganha uma origem mítica. Roma teve Rômulo e Remo, amamentados por uma
loba; a Grécia teve Zeus disfarçado de tudo quanto é bicho; e o Brasil, como
não poderia deixar de ser, também precisava de uma explicação à altura para
certas criaturas políticas que parecem ter fugido de um laboratório.
Reza
a lenda — e lendas não se discutem, apenas se contam — que, na antiga União
Soviética, alguém resolveu levar o materialismo histórico ao pé da letra. Se
tudo é matéria, se tudo é luta, se tudo é transformação dialética, por que não
transformar logo as espécies? Afinal, Darwin estava ali, Engels estava ali, e o
bom senso… bem, o bom senso nunca foi membro do Partido.
Na
fase que alguns historiadores chamam de totêmica — outros preferem criativa
demais — Lênin teria desenvolvido uma relação simbólica intensa com
animais. Não no sentido afetivo, mas no sentido ideológico: o animal como
metáfora do novo homem. No gabinete, um gorila de bronze sustentava uma caveira
humana, como quem dissesse: o futuro segura o passado, mas não garante que
vá respeitá-lo. Era decoração minimalista, porém carregada de mensagem
maximalista.
Essa
fase foi marcada por uma convicção curiosa: a de que a crueldade impiedosa nos Gulags e na Lubianka não
era um desvio, mas o motor do progresso humano. Algo como um coaching
revolucionário avant la lettre. Sofra hoje para dominar amanhã. Se doer
muito, é porque está funcionando.
Se o
fanático T. D. Lysenko, que pregava uma teoria de caracteres adquiridos por
herança, à qual chamou de vernalização e prometia a transformação de
trigo em centeio, pinheiros em abetos, por que não juntar uma mulher com um
animal peludo da Bacia do Congo, para criação do poderoso Homo sovieticus?
Daí
para experiências científicas inomináveis foi um pulo. Afinal, quando se
acredita que a História tem lado, qualquer coisa feita em nome dela
ganha verniz moral. E foi assim que telegramas espantados começaram a circular
pelo mundo civilizado — que, convenhamos, já estava com o espanto meio gasto —
anunciando experiências cujo objetivo era provar, in anima nobile, a
possibilidade da transformação das espécies.
Nada
de metáforas. Era literal.
Os “cientistas”
soviéticos — aspas obrigatórias, por questão de higiene textual — teriam se
dedicado ao contubérnio macabro entre mulher e chimpanzé. Uma tentativa de
acelerar a evolução pela via administrativa. Se a natureza demora, o Estado
resolve. Comitê central, ata assinada, verba liberada.
Como
toda história macabra que se preze, algo deu errado. Ou certo demais.
Um
espécime, fruto desse relacionamento zoofílico ideológico, teria escapado do
centro de pesquisas. Não se sabe se pulou o muro, se recebeu asilo, ou se
simplesmente foi promovido a quadro internacional da causa. O fato é que sumiu
dos registros soviéticos e reapareceu, misteriosamente, no Brasil.
O
Brasil, claro. País onde tudo que é estranho acaba encontrando clima favorável,
solo fértil e um jeitinho de se adaptar. Aqui, jabuticaba nasce em tronco de
árvore e ideologia exótica vira movimento popular.
O
espécime chegou discreto. No começo, parecia apenas mais um idealista confuso.
Falava em justiça social, igualdade, fraternidade universal — aquele kit básico
que todo mundo gosta até começar a pagar a conta. Tinha um certo apreço por
discursos longos, uma aversão instintiva a planilhas e uma habilidade notável
de explicar fracassos como sucessos mal compreendidos.
Com
o tempo, foi se multiplicando. Não por reprodução natural — que seria pedir
demais, são poucos os zoológicos com chimpanzés disponíveis no Brasil — mas por
contágio retórico. A criatura tinha um dom especial: transformar ressentimento
em virtude e incompetência em narrativa. Onde havia erro, via perseguição. Onde
havia crítica, via golpe. Onde havia dados, via opiniões burguesas.
Estava
criado o ecossistema perfeito.
O
petista — sim, porque era disso que se tratava —, esse fugitivo da Escola de
Lysenko, desenvolveu características próprias. Um discurso moral elevado
combinado com uma tolerância ética subterrânea. Um amor declarado pelos pobres,
desde que eles continuassem pobres o suficiente para justificar o discurso – e
os votos do Bolsa Família e do Gás do Povo. Uma fé quase religiosa no Estado,
esse ente místico que tudo pode, tudo resolve e nunca erra, apenas é mal
interpretado.
Como
todo ser híbrido, ele tinha conflitos internos. O chimpanzé puxava para o
grito, o punho cerrado e a palavra de ordem. A parte humana tentava parecer
razoável em mesas de debate e editoriais bem-intencionados. O resultado era uma
criatura capaz de discursar sobre democracia enquanto flertava com ditaduras
sul-americanas e africanas, desde que ideologicamente alinhadas.
Com
o passar dos anos, o petista ganhou refinamento. Aprendeu a usar terno, a falar
em instituições, a citar autores que ninguém havia lido. Descobriu que o
capitalismo era horrível, mas que seus confortos eram bastante convenientes,
assim como a conta na Suíça. Passou a combater combustíveis fósseis indo de SUV
ou iate para o protesto. Evoluiu, enfim, para uma forma mais sofisticada do
experimento original: menos pelo no peito, mais Instagram na cabeça.
E
assim seguimos. Entre mitos fundadores e explicações improváveis, o Brasil
continua tentando entender certas espécies políticas que parecem imunes à
realidade. Talvez não tenham vindo da URSS. Talvez não tenham fugido de
laboratório algum. Talvez sejam apenas fruto de uma combinação local de
ingenuidade, esperteza e memória curta.
Mas
convenhamos: a versão do chimpanzé soviético é bem mais divertida. E, como toda
boa crônica, não precisa ser verdadeira, basta ser plausível o suficiente para
fazer rir, coçar a cabeça e pensar: vai ver é isso mesmo.
Afinal,
em matéria de política brasileira, a realidade já concorre há muito tempo com a
ficção. E nunca ganha.

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