MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Assim nasceu o petista... - Por Félix Maier

 


Assim nasceu o petista...

 Félix Maier

Toda ideologia, quando envelhece mal, acaba virando folclore. E todo folclore, cedo ou tarde, ganha uma origem mítica. Roma teve Rômulo e Remo, amamentados por uma loba; a Grécia teve Zeus disfarçado de tudo quanto é bicho; e o Brasil, como não poderia deixar de ser, também precisava de uma explicação à altura para certas criaturas políticas que parecem ter fugido de um laboratório.

Reza a lenda — e lendas não se discutem, apenas se contam — que, na antiga União Soviética, alguém resolveu levar o materialismo histórico ao pé da letra. Se tudo é matéria, se tudo é luta, se tudo é transformação dialética, por que não transformar logo as espécies? Afinal, Darwin estava ali, Engels estava ali, e o bom senso… bem, o bom senso nunca foi membro do Partido.

Na fase que alguns historiadores chamam de totêmica — outros preferem criativa demais — Lênin teria desenvolvido uma relação simbólica intensa com animais. Não no sentido afetivo, mas no sentido ideológico: o animal como metáfora do novo homem. No gabinete, um gorila de bronze sustentava uma caveira humana, como quem dissesse: o futuro segura o passado, mas não garante que vá respeitá-lo. Era decoração minimalista, porém carregada de mensagem maximalista.

Essa fase foi marcada por uma convicção curiosa: a de que a crueldade impiedosa nos Gulags e na Lubianka não era um desvio, mas o motor do progresso humano. Algo como um coaching revolucionário avant la lettre. Sofra hoje para dominar amanhã. Se doer muito, é porque está funcionando.

Se o fanático T. D. Lysenko, que pregava uma teoria de caracteres adquiridos por herança, à qual chamou de vernalização e prometia a transformação de trigo em centeio, pinheiros em abetos, por que não juntar uma mulher com um animal peludo da Bacia do Congo, para criação do poderoso Homo sovieticus?

Daí para experiências científicas inomináveis foi um pulo. Afinal, quando se acredita que a História tem lado, qualquer coisa feita em nome dela ganha verniz moral. E foi assim que telegramas espantados começaram a circular pelo mundo civilizado — que, convenhamos, já estava com o espanto meio gasto — anunciando experiências cujo objetivo era provar, in anima nobile, a possibilidade da transformação das espécies.

Nada de metáforas. Era literal.

Os “cientistas” soviéticos — aspas obrigatórias, por questão de higiene textual — teriam se dedicado ao contubérnio macabro entre mulher e chimpanzé. Uma tentativa de acelerar a evolução pela via administrativa. Se a natureza demora, o Estado resolve. Comitê central, ata assinada, verba liberada.

Como toda história macabra que se preze, algo deu errado. Ou certo demais.

Um espécime, fruto desse relacionamento zoofílico ideológico, teria escapado do centro de pesquisas. Não se sabe se pulou o muro, se recebeu asilo, ou se simplesmente foi promovido a quadro internacional da causa. O fato é que sumiu dos registros soviéticos e reapareceu, misteriosamente, no Brasil.

O Brasil, claro. País onde tudo que é estranho acaba encontrando clima favorável, solo fértil e um jeitinho de se adaptar. Aqui, jabuticaba nasce em tronco de árvore e ideologia exótica vira movimento popular.

O espécime chegou discreto. No começo, parecia apenas mais um idealista confuso. Falava em justiça social, igualdade, fraternidade universal — aquele kit básico que todo mundo gosta até começar a pagar a conta. Tinha um certo apreço por discursos longos, uma aversão instintiva a planilhas e uma habilidade notável de explicar fracassos como sucessos mal compreendidos.

Com o tempo, foi se multiplicando. Não por reprodução natural — que seria pedir demais, são poucos os zoológicos com chimpanzés disponíveis no Brasil — mas por contágio retórico. A criatura tinha um dom especial: transformar ressentimento em virtude e incompetência em narrativa. Onde havia erro, via perseguição. Onde havia crítica, via golpe. Onde havia dados, via opiniões burguesas.

Estava criado o ecossistema perfeito.

O petista — sim, porque era disso que se tratava —, esse fugitivo da Escola de Lysenko, desenvolveu características próprias. Um discurso moral elevado combinado com uma tolerância ética subterrânea. Um amor declarado pelos pobres, desde que eles continuassem pobres o suficiente para justificar o discurso – e os votos do Bolsa Família e do Gás do Povo. Uma fé quase religiosa no Estado, esse ente místico que tudo pode, tudo resolve e nunca erra, apenas é mal interpretado.

Como todo ser híbrido, ele tinha conflitos internos. O chimpanzé puxava para o grito, o punho cerrado e a palavra de ordem. A parte humana tentava parecer razoável em mesas de debate e editoriais bem-intencionados. O resultado era uma criatura capaz de discursar sobre democracia enquanto flertava com ditaduras sul-americanas e africanas, desde que ideologicamente alinhadas.

Com o passar dos anos, o petista ganhou refinamento. Aprendeu a usar terno, a falar em instituições, a citar autores que ninguém havia lido. Descobriu que o capitalismo era horrível, mas que seus confortos eram bastante convenientes, assim como a conta na Suíça. Passou a combater combustíveis fósseis indo de SUV ou iate para o protesto. Evoluiu, enfim, para uma forma mais sofisticada do experimento original: menos pelo no peito, mais Instagram na cabeça.

E assim seguimos. Entre mitos fundadores e explicações improváveis, o Brasil continua tentando entender certas espécies políticas que parecem imunes à realidade. Talvez não tenham vindo da URSS. Talvez não tenham fugido de laboratório algum. Talvez sejam apenas fruto de uma combinação local de ingenuidade, esperteza e memória curta.

Mas convenhamos: a versão do chimpanzé soviético é bem mais divertida. E, como toda boa crônica, não precisa ser verdadeira, basta ser plausível o suficiente para fazer rir, coçar a cabeça e pensar: vai ver é isso mesmo.

Afinal, em matéria de política brasileira, a realidade já concorre há muito tempo com a ficção. E nunca ganha.


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