MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

O FIM DA ARCÁDIA - por Fábio Gonçalves e Paulo Briguet

Nicola Poussin, "Os Pastores da Arcadia", óleo em tela

De todas as maneiras, quando acordam
vão ver as ovelhas, se já sabem voar
e se o sol nasceu noutro ponto qualquer
da Rosa dos Ventos, sobre os rios
deveriam correr os restos de um luar
sim, todas as manhãs
vão ouvir a música de Orfeu, se ele toca
as estrelas que compôs no céu.

http://poetasalutor.blogspot.com/2013/11/os-pastores-da-arcadia.html


O FIM DA ARCÁDIA


A morte dos Estados Unidos e a esperança da Terceira América

Fábio Gonçalves e Paulo Briguet

4 de Novembro de 2020 às 19:46

Uma vitória de Biden-Harris significaria o fim da civilização norte-americana tal como a conhecemos — e uma imensa responsabilidade para o Brasil

“And this be our motto: In God is our trust.”

“Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo.”
(Mt 28, 20)

O grande historiador Paul Johnson diz em seu clássico “Tempos Modernos” que o Estados Unidos eram a última Arcádia do mundo soterrado nos escombros da Primeira Guerra — escombros sobre os quais marchavam, nos anos 20 e 30, as hostes uniformizadas do Duce, do Führer e do Tzar Vermelho.

Arcádia era uma região mítica da Grécia, terra de deliciosos jardins, de regatos frescos, de chão relvado e gado manso, de pastores poetas a tanger a lira diante de suas musas. Terra de não haver crime, por não haver inveja.  

A Arcádia era um mundo à parte, mundo eternamente resguardado das inesgotáveis guerras e dissensões que destruíam as demais pólis helênicas. Era, com efeito, o bastião último da beleza, da justiça e do saber.

Escusando o que há aí de utópico, de irrealizável, de mera imagem, pode-se dizer que a analogia do historiador é procedente.

As duas Guerras Mundiais acabaram com uma civilização. Material e psicologicamente — e sobretudo psicologicamente.

Os tanques, as metralhadoras, os caças, as bombas e os gases venenosos fizeram soçobrar a Europa dos reis, das aristocracias, dos valores nobres e, sobretudo, da cosmovisão cristã.

Pois, embora desde pelo menos o século XVII o Deus cristão houvesse morrido para a gente dos grandes círculos intelectuais, das universidades e das lojas maçônicas, a massa popular, homens e mulheres dos campos e das pequenas cidades, era eminentemente cristã: ia às missas, comemorava os santos, vivia os tempos litúrgicos, desfilava em procissões, rezava antes do jantar.

Esse mundo ruiu como a Nossa Senhora de Dresden, onde Bach tocara suas Paixões.

Mas ainda havia a terra dos cristãos que, séculos antes, no início da debacle, fugiram das pendengas europeias, atravessaram o Mar Oceano, assentaram-se em paragem nova, desconhecida, ergueram ali suas vilas com suas igrejas, plantaram seu algodão e seu tabaco — muito à custa de cativos, o que em um tanto lhes desabona a história —, enfrentaram nativos e bisões para desbravar o seu oeste, negaram-se a dobrar o pescoço aos abusadores metropolitanos, derramaram sangue por justiça, e, capitaneados por grandes pais, construíram a nação mais livre e próspera de todos os tempos.

A nação mais livre e próspera era a última Arcádia senão da civilização cristã, pelo menos de alguns de seus valores que a besta materialista e as feras revolucionárias vinham grassando no Velho Continente.

E, de fato, os americanos — ou parte deles —, com a riqueza de suas fábricas e a força dos seus marines, foram o arrimo da ordem mundial nas últimas décadas, a Pax Americana. Eles — ou parte deles — não deixaram tombar os últimos templos greco-romanos e nem permitiram que se proibisse, de uma vez por todas, o cantar das Boas-Novas na praça pública.

No entanto, as mesmas pestes que corromperam por dentro o corpo da cristandade europeia, desde o começo do século XX chegaram também à América — em navios, aviões e sinais de rádio.

E a juventude — ou parte dela — foi se adoentando. Por conseguinte, deram ouvidos à cantilena de um Marcuse, de um Foucault, de um Alinsky; aplaudiram a derrota da pátria no Vietnã; torceram pelo sucesso do “modelo soviético”; levantaram faixas e cartazes pelo sexo livre, pelo divórcio, pelo aborto. Eram já como os franceses, os alemães, os russos.

No início dos anos 70, um jornalista e escritor brasileiro chamado Paulo Francis, opositor da ditadura militar e simpatizante do trotskismo, mudou-se para os Estados Unidos — e lá encontrou justamente essa juventude que se voltava contra a própria civilização em que nasceu.

Em 1972, Francis lançou um pequeno livro intitulado “Nixon x McGovern ― As Duas Américas”, no qual analisa os perfis dos dois candidatos à Casa Branca nas eleições daquele ano. Na visão do autor brasileiro, o democrata George McGovern representava a plataforma mais esquerdista já vista numa eleição presidencial americana. Como se sabe, a vitória de Nixon sobre McGovern no pleito de 1972 foi esmagadora: o republicano conseguiu a reeleição sendo o mais votado em 48 dos 50 estados. No entanto, dois anos depois, o que parecia impossível aconteceu: em 1974, Nixon renunciou à Presidência para escapar de um processo de impeachment, em decorrência do escândalo Watergate.

A Outra América mencionada por Francis ― a América esquerdista, contestadora, identitária e contracultural ― sofreu uma fragorosa derrota nas urnas, mas se vingou com a queda de Nixon. Trinta e quatro anos depois, na primeira eleição de Obama, essa finalmente América chegou à Casa Branca; sofreu um revés inesperado com a vitória de Donald Trump em 2016, e agora voltou disposta a tudo para reconquistar o poder central, cavalgando o corcel flamejante do BLM e surfando no vagalhão do vírus chinês.

Na verdade, a personagem da Outra América tem dupla identidade; é semelhante ao deus Janos, aquele que tem uma face voltada para frente e outra voltada para trás. Agora, vemos o rosto combalido de Joe Biden ― que lembra o protagonista do filme “Um Morto Muito Louco” ―, mas, do outro lado, logo vislumbraremos o sorriso maléfico da medusa Kamala Harris, representante da ala radical que tomou de assalto o Partido Democrata nas últimas cinco décadas. Não se enganem, meus amigos: se Biden, mergulhado em escândalos pessoais e na visível demência dos sentidos, chegar à Casa Branca, a verdadeira mandatária será Harris (que, por sinal, como vice, presidirá o Senado). Se olharmos com os olhos da inteligência, não será difícil descobrir que esse monstro de duas cabeças tem traços de uma ditadura oriental.

Nem mesmo Francis seria capaz de imaginar a vitória de uma chapa tão bizarra quanto a de Biden-Harris. É como se McGovern tivesse voltado à vida e convocado Angela Davis para vice. Para piorar, como se estivéssemos em um roteiro de “House of Cards”, a dupla Zumbiden-Medusa crê-se vencedora de um pleito cercado de suspeitas de manipulação e fraude ― uma fraude que vem pelo correio.

Observando o mapa dos Estados Unidos, vemos que a extrema-esquerda chegou ao poder literalmente comendo pelas beiradas, promovendo a revolução cultural a partir dos grandes centros urbanos, com o apoio das milícias da mídia, das universidades e das Big Techs. A América profunda ― conservadora, empreendedora, patriota e, acima de tudo, cristã ― tornou-se refém da Outra América ― aquela patrocinada pelo bloco eurasiano e pelo bloco globalista, ambos unidos em um nó de serpentes.

Mas Paulo Francis se esqueceu de dizer em seu livro que não existem apenas duas Américas. Há uma terceira: a do Sul. E tudo leva a crer que nós, brasileiros, seremos os guardiões do último bastião do cristianismo no continente. Nenhum dos Paulos, o Francis ou o Johnson, poderia imaginar que um dia, por uma dessas vertiginosas ironias da história, o Brasil se tornaria a última Arcádia.

Alguém poderia dizer que estamos sozinhos. Sim, mas é bom lembrar que aqueles 11 discípulos também estavam.

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Visão Remota e o Programa Stargate da CIA - por Hossanah

Visão Remota e o Programa Stargate da CIA

 Hossanah - Paulista, graduada em Direito e estudiosa de fenômenos e arqueologia.


Arte pintura de Ingo Swan

Olá! Bem vindos ao espaço.

Os brasileiros estão muito acostumados com videntes, pessoas com dom de profecia, uma vez que a diversidade cultural e religiosa no país é extremamente grande.

O famoso Chico Xavier, escreveu mais 400 livros inspiradores, ditados por inteligências. Algumas psicografias de Chico Xavier, chegaram a ser usadas em processo judiciais.

Quero recordar um estudo polêmico realizado com o seu material de psicografia “Investigating the Fit and Accuracy of Alleged Mediumistic Writing: A Case Study of Chico Xavier’s Letters” (Investigando o Acerto e Precisão de Suposta Escrita Mediúnica: Um Estudo de Caso de Cartas de Chico Xavier), com grande repercussão.

No ano de 1973, o médico especialista em Neurologia, Guilherme Gustavo Riccioppo Rodrigues, realizou um  eletroencefalograma  em Chico Xavier. O exame detectou lesões gravíssimas, você pode acessar aqui:  http://obraspsicografadas.org/2010/o-eletroencefalograma-de-chico-xavier/ .

Este exame mostrou que, mesmo lesado, o cérebro conservou habilidades de captação de ideias, seja do subconsciente coletivo ou realmente ditado por inteligências. Portanto, os danos não afetaram a faculdade de captação e transmissão de ideias complexas. Francisco Cândido Xavier, como é do conhecimento de todos, teve escolaridade primária.

Aqui abro um parêntese: quantos doutores, mestres, possuidores de títulos, diplomas, ocupantes de cargos de autoridade escrevem seus livrinhos e cativam meia dúzia de leitores, com seus cérebros perfeitos. Chico Xavier me emociona e seus feitos superam as expectativas humanas!

A rede de TV NBC entre 2005 e 2011, produziu a série Medium, no Brasil com o nome A Paranormal, protagonizada por Patrícia Arquete, com Allison DuBois, uma paranormal, que usa seus dons para realizar COMUNICAÇÃO MENTE A MENTE, com inteligências espirituais para a solução de crimes impossíveis.

Essas duas menções servem de introdução para o uso de atributos cerebrais na modalidade Visão Remota.

Visão remota é  o controle da percepção extra-sensorial, que dá a capacidade de descrever objetos, locais, cenas, sem a presença física do observador. É realizada com o observador/agente completamente acordado e alerta, nada se assemelhando à meditação, transe ou indução. Ou seja, em total consciência.

Não deve ser confundida com a clarividência, mediunidade ou profecia, tampouco experiência fora do corpo nomeada viajem astral ou desdobramento etérico, pois ela é resultado de  um treinamento acurado.

Este tipo de habilidade humana foi altamente querida durante a Guerra Fria entre Estados Unidos e a ex União Soviética.

Nos anos 70, os EUA , através da CIA, desenvolveu seu uso com um excelente programa.  https://www.cia.gov/library/readingroom/document/cia-rdp96-00789r001500220001-1

e https://www.cia.gov/library/readingroom/docs/CIA-RDP96-00787R000300110001-8.pdf.

Alguns milhares de dólares e a parceria da CIA  com o Instituto de Stanford, daria início  ao futuro Projeto Stargate, baseado na percepção extra-sensorial, ESP Program, monitorados pelos físicos  Russell Targ e Hal Putoff .

Ingo Swan, já mostrava habilidades no assunto, sendo artista, vidente e cientista. Havia publicado vários artigos a respeito do assunto, em parceria com Gertrude Schmeidler, da Universidade de Nova York.

A expansão do programa logo se deu, e o exército Americano desenvolveu vários grupos de Observadores.

A CIA disponibilizou este material, já relacionado nos links acima, que ganhou fama após Bob Dean mencionar inúmeras vezes esta modalidade de investigação. Existem atualmente, milhares de sites e treinamentos gratuitos, como  escolas com treinamentos seríssimos, onde é possível aprender o programa, assim com metodologia avançada, sendo as mais famosas, Academy of Remote Viewing and Remote Influencing https://probablefuture.com, The Farsight Institute https://farsight.org, Hawaii Remote Viewers’ Guild https://hrvg.org, Western Institute of Remote Viewing  www.remoteviewers.com, PSI Tech https://psitech.ne e Straightline Remote Sensing http://www.viewzone.com/ .

Bons observadores, normalmente, são pessoal consideradas livres pensadores, pessoas de cultura diversificada, como foi afirmados nos livros dos participantes do programa inicial, a saber: Joe McMoneagle, Lyn Buchanan, Paul Smith, Ingo Swan e  Dale Graff.

Um exemplo de visão remota bem sucedida, foi a descrição do Planeta Júpiter em 1971, realizada por Ingo Swan, confirmada em 1973 por sondas.

A investigação por visão remota  requer observador/agente; habilidades ativas e controladas de percepção extra-sensorial; um local ou objeto em distância razoável; registro das percepções em esboço desenho, ou anotações para comparação; possibilidade de positivo confirmação, em caso de treinamento, pois em assuntos complexos busca-se a confiança no agente observador.

As sessões de visualização remota duram cerca de uma hora, dividida e otimizada, uma vez que o cérebro humano não consegue reter focos contínuos quando é ultrapassado o período de vinte minutos.

Durante os dez anos iniciais, 1970 à 1980, a CIA usou três nomes diferentes para a pesquisa: Sun Streak, Grill Flame e Star Gate, sendo o último o mais popular.

É possível encontrar na internet vários documentos gerados em sessões, sendo muito aclamados os registros de  instalações militares e prédios de programas secretos da ex URSS.

Os programas provavelmente continuam até os dias atuais, embora sejam negados pelos representantes de governo. Muito embora hoje a estrutura para treinamento, desenvolvimentos e realização sejam mais eficientes, não há divulgação, visto que a tecnologia contribui por existirem programas de satélites, rastreamentos e drones.

Não há uma explicação mais detalhada de como a faculdade funciona, mas alega-se que os observadores acessam a Mente Universal, Subconsciente Coletivo, o que se torna um incomodo dependendo da crença religiosa, uma vez que algumas religiões dizem que  tudo “É do Diabo”.

Não tem nenhuma indução, como já dito anteriormente, e os agente de visão remota são advindos de culturas diversificadas.

A aptidão não funciona o tempo todo, e tem falhas, por isso buscam um número grande de pessoas treinadas, e as informações quando obtidas costumam ser precisas.

Pessoas treinadas são solicitadas a trabalharem na resolução de crimes, como mencionado, na série A Paranormal, auxiliando na busca de pessoas desaparecidas, vivas ou mortas, exploração espacial, entre outras possibilidades.

O assunto é complexo, com vários detalhes a serem analisados e estudados, mas como você sabe, a coluna se propõe a trazer ideias e possibilidades.

Espero que você sinta curiosidade e faça suas pesquisas!

Dedico esse humilde texto ao magnânimo Ingo Swan e ao polêmico e divertido e genial  Professor Óscar González-Quevedo Bruzón, o Padre Quevedo, o doce e eterno Francisco Cândido Xavier, que me leva às lagrimas sempre que escuto sua voz.

Um beijo na alma! 

*arte pintura de Ingo Swan

Fonte: https://luizandreoli.com.br/visao-remota-e-o-programa-stargate-da-cia/


Espionagem mental

Os Estados Unidos usaram clarividentes para tentar descobrir segredos dos seus inimigos. Mas os parapsicólogos dizem que não há como controlar a visão remota em laboratório

Por Da Redação  - Atualizado em 31 out 2016, 18h47 - Publicado em 30 abr 2005, 22h00 

Leia mais em: https://super.abril.com.br/cultura/espionagem-mental/




quarta-feira, 4 de novembro de 2020

O HERÓI SEM RISCO - por Nelson Rodrigues

O HERÓI SEM RISCO

\Nelson Rodrigues


Em todas as idades e em todos os idiomas, o herói era aquele que arriscava, na melhor das hipóteses, a própria pele. Não havia heroísmo sem perigo. Foi assim em Dumas pai, foi assim em Walter Scott. D’Artagnan teve de morrer umas 25 vezes. E a bem-amada do herói era, ao mesmo tempo, a sua viúva. Se um Ivanhoé custava a morrer, familiares e vizinhos já punham em dúvida o seu heroísmo.

Fiz a pequena introdução acima para chegar às greves de França. Eis o que eu queria dizer: — lá se inaugurou, com os estudantes e com os operários, um tipo novo de herói e um tipo inédito de epopéia. Refiro-me ao herói sem risco e à epopéia sem ônus. Pela primeira vez, em qualquer época e em qualquer idioma, chega-se ao heróico, chega-se ao épico, chega-se ao sublime sem um arranhão, sem uma fratura e, mais, sob forte proteção policial.

Um amigo bate o telefone para mim: — “Os garçons ocuparam os hotéis e seqüestraram os patrões”. Compreendo o pânico ou, por outra, não compreendo o pânico. Meu amigo não quer enxergar o lado humorístico do episódio. Não deixa de ter sua graça a inversão hierárquica e de papéis: — os proprietários servindo os garçons e embolsando as propinas. Por outro lado, as esposas, amantes e filhas dos patrões vão para a copa lavar pratos e para a cozinha fazer o bife, a carne assada, o jiló.

Todavia, o que me espanta é, repito, o nenhum risco. Não estou fazendo um exagero caricatural. Fazer greve na França é muito menos arriscado do que atravessar uma rua na Guanabara. Quando passamos de uma calçada para outra calçada, a hipótese de uma trombada é sempre cogitável. Ao passo que, na França, os gerentes são raptados e não devolvidos. E não acontece nada, nem ao raptor, nem à vítima. Ou por outras palavras: — é uma Revolução Francesa sem vítimas. Porque, no fundo, também as vítimas estão de acordo. Todo mundo concorda. E o que é mais degradante: — até a polícia concorda. Dirá alguém que resta o exército. Mas, quem limparia as ruas, se os garis também são grevistas? Acontece, então, esta coisa patética: — incumbe-se o soldado francês de virar latas, como os cães sem dono e os gatos vadios. Como a polícia é solidária, e como o exército faz limpeza pública — ninguém ameaça ninguém. As Forças Armadas pararam.

Mas o herói sem risco acaba não convencendo ninguém. A Guerra de Secessão, nos Estados Unidos, foi o que se sabe. Lincoln dissera: — “Não quero governar uma nação que é metade livre e metade escrava”. E, então, a metade livre brigou para continuar livre e a outra, para continuar escrava. Foi uma morte recíproca e total. No fim de tudo, suspirava-se: — “Quem não morreu na guerra civil?”. Estavam todos mortos, inclusive os vivos. Quando foram chamar um sobrevivente para o almoço, bocejou: — “Morri”.

Bem se vê que o grevista francês não é um defunto vocacional. Também na Guerra Civil Espanhola todo mundo morreu. Mais uma vez constatou-se que a História não avança um passo, e não recua um passo, sem sangue e, repito, muito sangue. Na Espanha, seria justo uma morte unânime, porque um lado era canalha e o outro lado, também. Mas na “revolução cultural” da França não há canalhas. Nem isso. Em 17, na Rússia, houve todo um elenco, toda uma antologia de canalhas. Um deles, e perfeito, irretocável, foi o nosso tão conhecido Joseph Stalin.

Eis o espanto geral: — e por que ninguém morre na França? Porque lá não existe uma causa nítida, uma causa precisa. E só se morre, ou só se mata por uma causa. É uma causa, boa, má ou péssima, que faz os assassinos, as vítimas e, até, os canalhas. Até prova em contrário, ninguém sabe, na França, por que e para que se viram os carros, se queima o lixo e se seqüestram os gerentes. Outro amigo me diz, no telefone: — “Deve haver um explicação. Tudo tem explicação”.

Aquilo ficou na minha cabeça: — “Tudo tem uma explicação”. De noite, exatamente às três da madrugada, acordo. Era a úlcera. Não estava doendo e eu sentia, justamente, a falta da dor. Levantei-me, vim para a  janela. Pensava na França. Tentei explicar a “revolução cultural”. Eis o que me ocorreu: — a França tem todo um potencial de heroísmo inédito, frustrado. Não fez a guerra, e repito: — os outros lutaram por ela. Os  alemães perfuraram Sedan e deslizaram em solo francês. E todo o povo, com atraso de vários anos, precisa sentir-se herói. Cada carro virado é um tanque alemão. Os franceses estão fazendo a guerra. Essa ferocidade tardia, espetacular, é uma vingança contra a capitulação.

Mas o que eu queria dizer é que o herói sem risco surge por toda parte. Li, outro dia, um artigo admirável do dr. Alceu. Era sobre Régis Debray. E o dr. Alceu considerava a prisão do francês uma ignomínia. Meu Deus, que idéia faz da guerrilha o nosso Tristão de Athayde? Pensa talvez que é um piquenique? Uma farra? E que os guerrilheiros são frívolos, álacres peraltas? Qualquer um sabe que não há, obviamente, uma guerrilha sem riscos precisos. Assim como o guerrilheiro mata é também natural que o matem. E, se leva um tiro na cara, como um passarinho, vamos convir que tal contingência nada tem de extraordinário. Surpreendente é que um guerrilheiro sobreviva indefinidamente. Queria o dr. Alceu que o exército boliviano carregasse Guevara na bandeja, e de maçã na boca, como um leitão assado?

Volto à França. Não admiramos o grande povo na derrota. Podemos admirá-lo na greve? Hoje, até os artistas param. Mas, por toda a ocupação nazista, Barrault não morreu uma única e escassa vez. E os pianistas, os violinistas, os violoncelistas iam fazer recitais para os eruditos generais inimigos. Ontem ou anteontem incendiaram a Bolsa. Mas é também um terrorismo sem perigo. O incêndio foi aplaudido e quase bisado. Na ocupação, nenhum garçom pôs formicida na sopa nazista. Sim, a França faz o anti-herói, a antiepopéia, e nos dá a imagem da anti-França.

[Nelson Rodrigues, maio de 1968]

Fonte: https://marcusfabiano.wordpress.com/2019/11/21/aureamediocritas/



terça-feira, 3 de novembro de 2020

Como funciona a espiral do silêncio nas redes sociais - Por Cristian Derosa

Como funciona a espiral do silêncio nas redes sociais

A Teoria da Espiral do Silêncio foi desenvolvida na Alemanha, por Elisabeth Noelle-Neumann, em uma análise prolongada dos resultados das pesquisas eleitorais. Os pesquisadores observaram, após vários testes que incluíram uma diversidade de métodos, que uma das principais causas para as pessoas darem suas opiniões publicamente, ou ficarem caladas sobre elas, é o nível de medo do isolamento social. Esse medo ficou comprovado em sucessivos testes de campo. Se uma opinião é vista como majoritária, os opinadores dela terão mais coragem em se manifestar. Por outro lado, os contrários a ela terão uma tendência a ficarem calados. O resultado é um clima de opinião determinado pela propaganda de que uma ou outra opinião é majoritária. Um dos fatores mais importantes, portanto, é a atenção dada pelas pessoas ao comportamento opinativo do entorno social. A teoria foi formulada na década de 1970.

Antes do advento da Internet, portanto, as pessoas se informavam por canais mais simples como ouvir conversas no ônibus, em grupos de amigos ou acompanhar o noticiário opinativo. Parecia não haver lugar seguro para o isolado socialmente, aquele que possui uma opinião não compartilhada pela maioria (ou suposta maioria). Por isso, muitas pessoas mesmo intrigadas com determinadas questões públicas, precisavam de um longo período de silêncio até compreender a opinião do entorno e escolher se exporiam sua opinião ou não. O fator determinante era o medo do isolamento. Com a Internet, isso mudou substancialmente.

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Segundo Neumann, no cálculo do risco de isolamento social, o indivíduo opta por empregar algum esforço na observação do entorno opinativo para reduzir o risco de confronto quando for externar sua opinião.

O computador pessoal se tornou rapidamente uma extensão da mente humana. Foi possível pesquisar solitariamente informações sobre assuntos, de modo que a pessoa possa manter-se em silêncio até ter informações suficientes para uma opinião mais segura. Inclusive informações sobre as opiniões correntes e mais aceitas. Os filtros de busca, como o Google, tornaram mais facilitada a procura por companheiros de mesma opinião, o que reduziu a sensação de isolamento e, com isso, o seu medo natural do ostracismo. O meio virtual como um simulacro do meio social contribui para o alívio da solidão humana e isso influi consideravelmente na criação de afetos e solidariedades grupais importantes para o reforço de personalidades, muitas vezes fortes e conflitantes com a maioria, o que sem a rede ocasionava isolamentos sociais dolorosos ou, o que é mais comum, o silêncio sobre as próprias opiniões e o fingimento de uma adequação social.

A espiral nas redes sociais

No Facebook, o feed de cada pessoa constitui o clima de opinião a que a pessoa tem acesso e serve, portanto, de critério de análise do que se pode ou não dizer, sempre por meio do cálculo do risco de isolamento, mensuradas com certa eficiência pelas curtidas, compartilhamentos ou comentários. A possibilidade de bloquear quem pensa diferente pode significar uma resposta ao velho medo do isolamento, o que é dado com um isolamento voluntário (ou seria a satisfação inerente à sensação de estar isolando o outro?). Por outro lado, o bloqueio pode ser uma ferramenta eficiente para se sair do mecanismo da espiral do silêncio. Ou pensar que se está saindo ao criar (randomizar) o próprio entorno social. Assim, gera-se um ambiente propício à externalização das próprias ideias de modo que eles até mesmo as reforçam.

O ambiente social, seja nas redes ou na realidade física, é um importante fator para determinar o que é dito ou não. A geração de um ambiente confortável à circulação de determinadas ideias pode representar também uma prisão ou um entorno igualmente hostil a ideias diferentes, o que impediria a entrada de ideias novas de outras pessoas ou mesmo da própria pessoa dona do perfil “configurado” para aceitar suas ideias. Portanto, o bloqueio ou o que se chama “limpeza” do feed, pode representar uma faca de dois gumes. Nem todas as pessoas possuem força interior, hoje, para retirarem-se de seus ambientes sociais toda vez que o ambiente se torna hostil às suas ideias. Em algum momento, as pessoas desistem de desfazer amizades e bloquear inimigos e passam a concordar com o entorno. Isso pode ser muito bem compreendido quando entendemos a mudança do caráter social no último século.

O reforço psicológico do grupo de apoio das próprias opiniões pode, por isso, favorecer uma radicalização ou até mesmo uma estagnação de indiferença e, por fim, o isolamento voluntário. É a isso que se referem, em geral, as reportagens comuns sobre o “ódio nas redes”. O problema é que, apesar de possíveis problemas, as redes sociais forneceram, nos últimos anos, um importante incremento à informação. Mesmo considerando verdadeiras as acusações da grande mídia, de que as redes sociais se tornaram o lugar do ódio.

Nos últimos anos, no Brasil, o Facebook foi amplamente usado para a mobilização que culminou no Impeachment de Dilma Roussef, em 2015. Além disso, a Internet tem sido palco de numerosas análises e divulgação de fatos e informações sistematicamente sonegados da população, o que evidentemente causa preocupação àqueles engenheiros sociais (ou seus repetidores úteis) que creem no perigo destruidor das massas e que, sem o auxílio da elite de iluminados que mantenha a massa domesticada, o caos e a final destruição serão os únicos destinos da civilização.

O upgrade da espiral do silêncio

Em uma matéria recente da Revista Veja, uma suposta novidade produzida pelas redes parece estar assustando analistas de mídia. São os “haters” (odiadores), que parecem estar povoando as redes e disseminando preconceitos raciais, sexuais e produzindo uma cultura de “bullying virtual”. O que esses analistas não percebem (ou fingem não perceber) é que essa nova classe de pessoas sempre existiu, mas era constrangida por um clima de opinião que as ameaçava de isolamento. A espiral do silêncio não é algo dependente da mídia, mas que acontece no meio social de qualquer forma. A criação da palavra “haters”, assim como a própria matéria da Veja, representa, na verdade, a tentativa de upgrade da Espiral do Silêncio, ameaçando com o isolamento e a humilhação pública aqueles que ousem dizer aquilo que pensam.

Muito pior que qualquer difamação racial ou sexual, o que a Veja faz, ecoando as ideias dos meios universitários do Brasil e deste preocupado mundo, é nada mais que instituir a perseguição à livre opinião, o que no caso representa a perseguição da revelação da verdade. Opinião é uma palavra bastante dúbia nos dias de hoje. Ela tanto pode ser digna de um Prêmio Nobel da Paz como pode tornar alguém o alvo preferencial de acusações de ódio e de todo tipo de preconceito.

O que chamam de preconceito racial, social, sexual e bullying, assim como denunciam ataques sofridos por celebridades (como se celebridades fossem midiaticamente indefesas), é na verdade a opinião sincera, temida desde que se começou a estudar meios de controlar as massas. Intelectuais como Gustav LeBon, Walter Lippmann, H. G. Wells, entre outros, acreditavam que a massa era incontrolável e tinha o potencial de dizimar a democracia e toda forma de liberdade por meio da sua espontaneidade caótica. Eles baseavam-se em teorias contratualistas como a de Thomas Hobbes e Rousseau, para quem a sociedade civilizada se originava de um contrato social, sem o qual o caos imperaria. Assim, a espontaneidade para esses intelectuais e seus seguidores, sempre será um mal que deve ser contido mediante o que Karl Mannheim chamou de “técnicas sociais”.

Leszeck Kolakowski, no célebre livro O espírito revolucionário – Marxismo: utopia e anti-utopia, afirma vir desses intelectuais aquilo que ele chama de intolerância da indiferença. Uma tal suposta”ditadura da verdade”, que o autor considera um “círculo quadrado”, pode ser imposta por dois motivos:

1) afirmando que a falsidade e o erro não podem ser tolerados porque a sociedade estaria perfeitamente convencida da verdade;ou

2) acreditando que verdade e justiça não possuem objeto e que seria preferível impor um único ponto de vista a todos do que deixar que os seres humanos briguem por futilidades.

Esta última hipótese, comum entre os estudiosos das teorias funcionalistas das ciências humanas, gira em torno da crença de que todo o estudo da realidade tem, em última análise, uma função social. Essa função era vista como formadora, normativa e organizadora da sociedade. Qualquer organização é melhor que o caos, para eles.

A explicação precisa preexistir aos fatos

O poder da mídia está menos na difusão de fatos do que na interpretação deles. Explicar o que está acontecendo é, para os intelectuais por trás da mídia, muito mais importante do que apenas apresentar os fatos. O momento dos fatos é o momento em que a forma da mente das pessoas precisa estar adequada para recebê-los. Para isso, a mídia precisa oferecer constantes análises e explicações da realidade. Quando as redes sociais resultam em um movimento de repúdio às ideias difundidas por essa elite seguidora daquelas ideias, tudo fica incompreensível e a mídia precisa oferecer uma nova explicação. A desestruturação do sistema social é a explicação mais utilizada, pois ela leva a pensar em soluções de reintegração, o que na forma da mente das pessoas significa imposição de uma ordem qualquer para resolver o problema do caos.

Espiral sempre existirá

Vivemos o império da empatia. As amizades, o círculo social, ganharam um valor acima de todos os valores culturais que imperavam nos séculos anteriores, o que deu à socialização um valor quase absoluto. Portanto, embora a espiral do silêncio possa ser atenuada em determinadas épocas, ela pode também ser reforçada por uma mudança naquilo que a sociedade considera mais importante de acordo com verdadeiras ou supostas ameaças sociais. O isolamento social já foi a marca característica de santos e heróis em épocas nas quais era fácil compreender que a verdadeira salvação está no abandono de si mesmo, o que implica diretamente no abandono do entorno social e de todo o respeito humano. O heroísmo dos indivíduos do passado, mesmo os cidadãos comuns que abriam empresas e chefiavam suas famílias, vai ficando cada vez menos compreendido em um mundo para o qual a direção da vida deve ser dada pelo movimento social. Mesmo a luta interna dos indivíduos contra o entorno, algo universal no ser humano, pode ser feita através de uma conduta imitativa, na qual o apreço social inerente à aparência de independência motive reações e modos de vida inteiros aparentemente livres.

O mundo da tolerância abstrata é o mesmo que não tolera opiniões diversas do ideal de tolerância calibrado pelos meios de comunicação e repercutido nos meios sociais. Opiniões independentes quase sempre sofrem a pressão das acusações de rompimento com o ideal de “empatia” permitido. Por isso, mesmo nas redes sociais o crime mais comum entre as acusações é o da arrogância, normalmente confundido com opinião independente. É claro que em um mundo neuroticamente socializado, dizer coisas que não são reconhecidas imediatamente dentro do padrão de opiniões circulantes, identifica-se com o rompimento da lógica socializadora e, portanto, solidária e tolerante. Essa aparente disfunção dos valores sociais vigentes só pode ser interpretada como um excessivo centro em si mesmo, um individualismo exacerbado, quando na verdade é apenas uma verdade não reconhecida pela linguagem dos cânones midiáticos.

A espiral do silêncio está presente nitidamente inclusive em ambientes religiosos, nos quais a conduta padrão é a dos santos e mártires, mas nos quais ainda assim impera o medo e a ameaça constante do isolamento social. Essa situação permitiu uma nova interpretação dos próprios mandamentos cristãos, como o Primeiro Mandamento (amar a Deus sobre todas as coisas), que facilmente era entendido noutras épocas, mas que hoje se encontra totalmente submetido ao amor ao próximo, algo cada vez mais ambíguo quando a interpretação corrente facilmente confunde o próximo com todo o entorno social e as ideias que circulam graciosamente pelo ambiente advindas da mídia de massa.

O homem precisa do reforço do próximo e esta afirmação evidencia a sua imperfeição e limitação. O limite do homem certamente está na sociedade que o envolve, assim como o que o transcende só pode estar obviamente fora do ambiente físico e social, ainda que seja nele que a sua transcendência se manifeste.

Fonte: https://www.estudosnacionais.com/4280/como-funciona-espiral-do-silencio-nas-redes-sociais/

Relatório Figueiredo: A violência contra indígenas - por Laura Daudén e Natália Mestre

 

A verdade sobre a tortura dos índios

Descoberta de documento que permaneceu oculto por mais de quatro décadas expõe como funcionou a política de corrupção, violência e extermínio do Serviço de Proteção aos Índios antes e durante a ditadura

VIOLÊNCIA Relatório expôs a situação de penúria e exploração em que viviam os índios sob os cuidados do SPI ()


O Serviço de Proteção aos Índios (SPI), representado por Flávio de Abreu, chefe da 6ª inspetoria, localizada em Mato Grosso, vendeu a pequena índia Rosa, 11 anos, em plena hora da escola. Ela e as colegas bororos foram obrigadas a parar os estudos e formar fila. Abreu estava acompanhado por um sujeito chamado Seabra, que escolheu a índia que queria para si. A vida de Rosa foi entregue a Seabra pelo funcionário público como pagamento pela construção de um fogão de barro em sua fazenda. Ao pedir clemência a Abreu, o pai da menina foi covardemente surrado. A denúncia, que expõe a institucionalização da violência contra os índios no Brasil, faz parte do Relatório Figueiredo, um documento de mais de sete mil páginas produzido pelo procurador federal Jáder Figueiredo entre 1967 e 1968 a pedido do extinto Ministério do Interior. O trabalho mostra a corrupção endêmica, os métodos de tortura e escravização e a exploração do patrimônio indígena por funcionários do extinto SPI – órgão antecessor à Fundação Nacional do Índio (Funai).

Depois de quatro décadas longe do escrutínio público, o relatório foi finalmente redescoberto pelo pesquisador Marcelo Zelic, vice-presidente do grupo Tortura Nunca Mais, de São Paulo. Ele procurava há tempos o documento, mas o encontrou, por acaso, no arquivo do Museu do Índio, no Rio de Janeiro (leia quadro abaixo). Com o AI-5, o material ficou esquecido nos arquivos da Funai. Inclusive, muitos pesquisadores acreditavam que ele teria sido perdido em um incêndio no Ministério da Agricultura – na verdade, a tragédia aconteceu às vésperas da Comissão de Inquérito de Figueiredo. Agora, uma cópia está com o grupo de trabalho “Graves Violações de Direitos Humanos no Campo e/ou Contra Indígenas” da Comissão Nacional da Verdade.

Jáder Figueiredo foi uma figura ímpar, que desagradou a esquerda e a direita. Apesar de ter sido destacado para o trabalho pelo general linha-dura Albuquerque de Lima, que à época ocupava a pasta do Interior, a gravidade de suas acusações – que vão de desvio de recursos e venda de terras indígenas a assassinato, prostituição de índias e trabalho escravo –, colocaram-no contra o próprio regime militar. Foram muitos os esforços para mitigar a repercussão do escândalo no Exterior. As denúncias chegaram a ser destaque no jornal americano “The New York Times” e na revista alemã “Der Spiegel”. Um documento confidencial da Aeronáutica, de 26 de outubro de 1970, localizado pelo grupo Tortura Nunca Mais, afirma que “o fluxo de informações contra o Brasil no Exterior é constante e se faz em larga escala”. Logo abaixo, diz que “o trabalho relativo à ‘matança de índios’ foi completamente neutralizado e desmoralizado face às atividades das autoridades brasileiras”. Não é de se estranhar, portanto, que o Relatório Figueiredo tenha ficado mais de quatro décadas esquecido no arquivo da Funai, cuja criação em 1967 coincide com a extinção do SPI. “Evidentemente, o fato de ele ter permanecido oculto nas bases de dados da história brasileira foi intencional”, diz o professor Fernando Antonio de Carvalho Dantas, da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Goiás.


HISTÓRIA
Jáder Figueiredo Júnior (com a foto do pai) e trechos do
documento (acima): denúncias de violência contra os índios

Mesmo tendo sido responsável por uma crise dentro do regime, Figueiredo também é visto com reticências pela esquerda, justamente por ter servido, na condição de funcionário público, aos interesses do Ministério do Interior. A psicanalista Maria Rita Kehl, membro da Comissão Nacional da Verdade e coordenadora do grupo de trabalho que estuda violações contra indígenas, é cautelosa ao comentar o documento: “Teremos de procurar na história daquele momento outros subsídios para poder avaliar se o relatório não prejudica funcionários acusados injustamente só porque eram contra a ditadura”, diz. Para o pesquisador Marcelo Zelic, é preciso lembrar, no entanto, que as primeiras denúncias que dão origem à Comissão de Figueiredo são levantadas em duas CPIs anteriores, instauradas ainda durante o governo de João Goulart. Além disso, a maior parte dos crimes apontados por ele ocorreram depois do golpe de 1964. “Até pode haver casos de perseguição em meio aos 131 acusados que aparecem no relatório, mas você não pode generalizar e desmerecer um trabalho dessa magnitude”, diz.

NO EXTERIOR
O Relatório Figueiredo repercutiu no "The New York Times",
o que desagradou o governo na época


Isso explica a marginalização política de Figueiredo e de seu relatório, que deu origem a uma CPI e gerou dezenas de inquéritos policiais dos quais ainda não se tem notícia. Hoje, grande parte do trabalho de resgate da figura do procurador está nas mãos de seu filho, o advogado Jáder Figueiredo Correia Júnior. “Meu pai passava semanas sem se comunicar”, conta. Foram visitados 130 postos indígenas em 18 Estados – uma viagem de 13 mil quilômetros pelo Brasil. A família, que sempre viveu em Fortaleza, no Ceará, conviveu por muito tempo com ameaças. “Mesmo assim ele seguiu com o trabalho. Era destemido e incorruptível e por isso contrariou o interesse de grandes políticos da época”, diz. Figueiredo morreu em 1976, aos 53 anos, em um acidente de ônibus. Vivia, segundo o filho, frustrado por pouco ter sido feito contra os acusados e pela continuação dos crimes.

MISSÃO
Figueiredo rodou mais de 13 mil quilômetros no Brasil
e testemunhou violações contra povos indígenas


A redenção do procurador deve acontecer agora, com a redescoberta do documento que tem implicações até no presente. Segundo Cléber Cesar Busatto, secretário-executivo do Conselho Missionário Indigenista, o Ministério Público já anexou o documento aos autos do processo que pede a demarcação do território dos cadiueus, em Mato Grosso do Sul. Figueiredo, no documento, afirmou: “Estima-se em 800 mil hectares a área dessa imensa propriedade, não demarcada e hoje totalmente em poder de fazendeiros que se beneficiam de arrendamentos ilegais”. “Sem dúvida o relatório será usado como instrumento em outras disputas”, diz Busatto.

Ou seja, apesar dos esforços para apagar a verdade das violações, o relatório é um instrumento importante para esclarecer o passado. “A história dos direitos dos povos indígenas será recontada a partir do relatório”, diz o professor Dantas, ressaltando que os crimes nunca foram apagados da memória dos povos e das pessoas que lutam pelos índios no País. Segundo o antropólogo Carlos Augusto da Rocha Freire, coordenador de Divulgação Científica do Museu do Índio, no Rio de Janeiro, são justamente essas memórias que ajudarão a reconstruir o que falta dessa história – 533 páginas, que representam 7% do documento, ainda estão desaparecidas. Freire diz que a repercussão internacional do Relatório Figueiredo fez com que a questão indígena fosse amplamente discutida, mas não impediu que a Funai repetisse a estrutura do SPI e adotasse uma política que dizimaria povos como os Paraná, afetados pelo projeto econômico desenvolvimentista da ditadura. “Se os velhos sertanistas e indigenistas, além das velhas lideranças indígenas, começassem a escrever suas memórias, fizessem entrevistas relatando o que viram e ouviram, e os índios incrementassem suas narrativas sobre o que sofreram nesses anos, os brasileiros, certamente, poderiam vir, agora sim, a descobrir um outro Brasil.”



Fonte: https://istoe.com.br/294080_A+VERDADE+SOBRE+A+TORTURA+DOS+INDIOS/



Militar conta à Comissão da Verdade passos do Massacre da Medianeira - por Lourdes Nassif e Estelita Hass Carazzai

Militar conta à Comissão da Verdade passos do Massacre da Medianeira

Jornal GGN – Otávio Rainolfo da Silva foi um infiltrado na VPR – Vanguarda Popular Revolucionária e pivô na morte de seis guerrilheiros. Ele fez o relato da emboscada que ficou conhecida como Massacre de Medianeira ou Chacina do Parque Nacional do Iguaçu. Na ação do exército foram mortos cinco guerrilheiros – José Lavecchia, Joel de Carvalho, Daniel Carvalho, Victor Carlos Ramos e o argentino Ernesto Ruggia -, dias depois o sexto guerrilheiro, Onofre Pinto, foi assassinado pelos militares. Os corpos nunca foram achados. A matéria é da Folha e pode ser lida a seguir.

da Folha

Militar contou à Comissão da Verdade como ajudou a emboscar militantes

Estelita Hass Carazzai, de Curitiba

“Na hora que acender a luz, você se joga [no chão].” Foi essa a principal instrução dada ao agente Otávio Rainolfo da Silva, membro do CIE (Centro de Informações do Exército), antes de adentrar na mata para uma operação sigilosa.

Era julho de 1974. Motorista do batalhão de Foz do Iguaçu (PR), Silva agia, ao lado do sargento Alberi Vieira dos Santos, como infiltrado entre cinco guerrilheiros da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), grupo clandestino que combatia a ditadura.

Antes disso, os cinco guerrilheiros estavam exilados na Argentina. Haviam desistido da luta armada, mas foram convencidos a voltar por Alberi. Disfarçado de esquerdista, o sargento dissera a eles que um novo foco de guerrilha seria formado no oeste do Paraná. Os seis viajaram então da Argentina ao Parque Nacional do Iguaçu.

A luz era a senha para que os infiltrados se protegessem, instante em que os outros militares começariam a matar os guerrilheiros. A emboscada ficou conhecida como Massacre de Medianeira. Ou Chacina do Parque Nacional do Iguaçu. Ou Massacre da Estrada do Colono.

Silva, Albieri e os cinco esquerdistas andavam lado a lado pela mata, de madrugada, rumo à cidade de Medianeira. A promessa era iniciar o foco da resistência com um assalto a um banco.

“De repente, as luzes acenderam e deu um tiroteio. Praticamente acabou com todo mundo. Se eu não me deito, tinha morrido também.”

A descrição, quase 40 anos depois, foi feita por Silva à Comissão da Verdade do Paraná, em junho de 2013, numa sessão reservada e em conjunto com a Comissão Nacional da Verdade. Parte de seu depoimento está no relatório do grupo paranaense, entregue em dezembro. A íntegra foi obtida pela Folha.

‘CACHORRO’

Os cinco guerrilheiros –José Lavecchia, Joel de Carvalho, Daniel Carvalho, Victor Carlos Ramos e o argentino Ernesto Ruggia– foram mortos na emboscada. Outro líder da VPR que se juntaria ao grupo, Onofre Pinto foi assassinado pelos militares dias depois. Os corpos dos seis nunca foram achados.

O Alberi falou para eles [os cinco guerrilheiros] que tinha muitas armas guardadas. Convenceu na crocodilagem”, contou Silva.


Alberi, morto em 1979, era o principal ator da operação, chamada Juriti. Ex-militante de esquerda, atuava como “cachorro” (o sujeito que, preso, mudou de lado e passou a se infiltrar na oposição para colaborar com os militares). Um de seus comandantes na ação era o coronel Paulo Malhães, que, em 2014, assumiu torturas à Comissão Nacional da Verdade.

Só Lavecchia, o mais velho do grupo, 55, desconfiou. Ex-preso político, ele fora banido do país em troca da libertação do embaixador da Alemanha, em 1970. Na entrada da mata, pediu uma arma e ficou com a do próprio Silva.

Quando as luzes se acenderam, os cinco foram fuzilados em segundos, disse Silva. “Até eu que sabia me assustei”, lembra ele.

Lavecchia chegou a atirar contra Silva, mas errou. O argentino Ruggia, 18, não morreu imediatamente. “Vi que ele se debatia, dei um tiro ali e acabou”, contou. Pouco depois, mudou a versão: “Houve [um tiro de misericórdia], mas quem deu eu não sei”.

Após o massacre, os militares serviram sanduíches aos infiltrados: “Falaram: quer Coca ou quer uísque? Eu quero uísque, até nem comi. Tomei para aguentar o sono e não acabar a coragem”.

Onofre ficara num sítio porque era “muito conhecido”. Junto com o ex-ministro José Dirceu e outros, ele havia sido banido do país após o sequestro e a libertação do embaixador dos Estados Unidos Charles Elbrick, em 1969.

Silva e Alberi foram atrás dele. “O Alberi falou: ‘Vamos, Negão, para o acampamento’. Quando paramos, ele [Onofre] viu que era emboscada e quis correr.”

Onofre foi levado a um centro do Exército, onde tentaram convencê-lo a atuar como “cachorro”. Dias depois, recebeu uma injeção de shelltox, um inseticida. “Ao passar pelo banheiro, vi ele deitado meio elétrico.”

Segundo Silva, Onofre teve os dedos, a arcada dentária e tripas removidos. Depois foi jogado num rio. Os demais foram enterrados no parque, supõe o motorista.

O Ministério Público Federal chegou a abrir um inquérito em 2009 para apurar o desaparecimento dos militantes, mas o arquivou por falta de provas.

À comissão Silva disse que as memórias do massacre eram “uma tortura na sua cabeça”. Disse ainda que saiu do Exército porque “chegava um ponto em que não dormia sem calmante” e que se preocupava com a segurança de sua família.

Aos 67 anos, o ex-agente infiltrado da ditadura trabalha hoje como policial civil num município pequeno no oeste do Paraná.

Procurado pela reportagem, ele não quis dar entrevista sobre seu passado.

“Não quero falar mais nada”, disse, por telefone. “Lá em Foz [do Iguaçu], um cara falou que eu era assassino em um bar. Arrebentei ele”, finalizou.

Fonte: https://jornalggn.com.br/ditadura/militar-conta-a-comissao-da-verdade-passos-do-massacre-da-medianeira/