MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

A COP da maniçoba - Por Félix Maier

 


A COP DA MANIÇOBA

Félix Maier

Belém do Pará nunca tinha visto tanta gente importante — ou, pelo menos, tanta gente que se achava importante — desde os tempos em que chegavam navios portugueses carregados de bugigangas, espelhos e a certeza de que saberiam para sempre o que era melhor para os nativos locais.

A cidade estava em polvorosa: a COP 30 era a chance perfeita de mostrar ao mundo que a Amazônia não era só floresta, rio e calor de sauna turbinada, mas também um lugar onde políticos podiam discursar sobre salvar o planeta enquanto queimavam fósseis com a delicadeza de uma locomotiva a vapor em promoção. E o mundo inteiro iria conhecer a exuberante culinária da cidade que reúne mais de dois milhões de pessoas no Círio de Nazaré: pato no tucupi, tacacá, maniçoba, vatapá, bolo de macaxeira, sorvete de açaí. E para arrematar, licor de jambu e de cupuaçu.

Lá estavam ONGs, ecologistas, especialistas, subespecialistas, especialistas dos subespecialistas, assessores dos especialistas dos subespecialistas, influenciadores climáticos, influenciadores de influenciadores e uma quantidade tão grande de consultores internacionais que, se todos resolvessem realmente trabalhar ao invés de queimar combustíveis fósseis para passear o tempo todo ao redor do mundo, talvez o clima melhorasse uns dois graus só de susto.

Belém, coitada, aguentava tudo com a paciência de uma santa barroca, de Nossa Senhora de Nazaré. E com a devoção de quem puxa a grossa corda no Círio de Nazaré.

E no meio desse frenesi ecológico, lá estava ele: o Ogro de Nove Dedos, estrela, luminar e cometa de todas as COPs. Viera para salvar o planeta, ou pelo menos para parecer que estava salvando, que é quase a mesma coisa — com a vantagem de ser mais barato e render mais votos.

Nas tendas da COP, calor de 43 graus medidos à sombra de uma palmeira traumatizada, as ONGs estavam em êxtase, como cotistas em dia de dividendos. Havia ONGs do Canadá, da Noruega, da Papua-Nova Guiné e até um grupo venezuelano que jurava ter vindo defender o direito do papagaio bolivariano à autodeterminação.

Todos felizes, sorridentes e, principalmente, financiados pelos manés, os pagadores de impostos.

— Meu amigo, isso aqui é o paraíso! — dizia um norueguês bronzeado com a cor exata de alguém que jamais viu o sol. — A gente fala de descarbonização, toma um açaí gourmetizado e ganha mais verba para viajar ao próximo simpósio. A vida é dura, mas alguém precisa salvar o planeta enquanto faz turismo e queima combustível fóssil.

— Pois é — respondeu outro, com um crachá pendurado no pescoço e uma camisa verde tão berrante que fazia mal à retina. — Só falta salvar o planeta mesmo. Mas isso a gente deixa para a próxima conferência.

E riam, leves como quem não paga imposto de importação.

Nas proximidades do palco principal, entre painéis sobre o fim do petróleo e discursos sobre energias limpas que consumiam, ironicamente, milhares de watts por segundo fornecidos por uma termoelétrica a diesel, ainda que provisória, um grupo de mulheres indígenas — de porte fenomenal e entusiasmo idem — fazia uma apresentação cultural.

Mas apresentação é pouco: aquilo era um terremoto coreografado.

— Minha filha, olha ali... — cochichou uma idosa para a amiga. — É por isso que dizem que tapuru dá força...

As guerreiras, com cocares coloridos e os peitões de fora, dançavam, vibravam, balançavam tudo o que a gravidade permitia — e mais um pouco — provando que a floresta, se não salvava o planeta, pelo menos alimentava muito bem essas rotundas defensoras da floresta.

Um jornalista europeu, pálido como massa de pastel crua, perguntou:

— Isso é... saudável?

Uma das dançarinas se aproximou, estufou o peito, espetou as mamas na cara do gringo e respondeu:

— Quer experimentar tapuru? É cheio de proteína. Melhor que suplemento importado. E mais barato. E o verme ainda vem fresquinho, direto da palmeira, nada de laboratório.

O europeu saiu cambaleando, convencido de que a Amazônia não era lugar para estômagos delicados.

As índias que dançaram na COP 30, exibindo cocares cada vez maiores e mais coloridos, pareciam ignorar que aquelas penas exuberantes — de araras, papagaios, guarás, garças, gaviões e até carcarás — não brotam espontaneamente no chão da floresta. Cada tonalidade vibrante ali ostentada representa uma ave a menos voando livre, numa conta que, somada ao comércio paralelo de artesanato tradicional, empurra espécies raras para o buraco. Fala-se muito em sustentabilidade, mas pouco se questiona onde ela foi parar quando o assunto é arte plumária: o discurso ambiental some misteriosamente diante do temor de contrariar costumes.

O Ibama, que deveria zelar justamente pela preservação dessas aves, precisa assumir uma postura mais firme, pois tradição é tradição, mas espécies ameaçadas não se recuperam com decreto. Aliás, tradições mudam sim, pois não se vê hoje xamãs andando por aí com galhadas de cervos sobre a cabeça, e talvez já esteja mais que na hora de repensar certos adornos antes que, em nome da cultura, nos vejamos celebrando a extinção.

Porém, não era a primeira vez que havia um evento sobre meio ambiente no Brasil.

A ECO-92, oficialmente chamada Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, foi realizada no Rio de Janeiro, em junho de 1992, reunindo representantes de 179 países, além de ONGs, cientistas e líderes comunitários. Para os ambientalistas, o evento marcou um ponto decisivo no debate ambiental global, ao reconhecer que desenvolvimento econômico e preservação ambiental precisam caminhar juntos: o conceito de desenvolvimento sustentável.

Entre seus principais resultados estão:

  • Agenda 21: um amplo plano de ação para governos, empresas e sociedade adotarem práticas sustentáveis no século XXI.
  • Convenção da Biodiversidade (CDB): tratado internacional para proteger espécies e ecossistemas.
  • Convenção das Mudanças Climáticas (UNFCCC): base para futuros acordos climáticos, como o Protocolo de Kyoto e o Acordo de Paris.
  • Declaração do Rio, com 27 princípios orientando a relação entre meio ambiente e desenvolvimento.

Apesar de toda a pompa anunciada aos quatro ventos do planeta sobre a COP 30, apenas 28 chefes de Estado chegaram a Belém. Nem 30, o número da COP... O que, para uma conferência anunciada como a mais importante desde a invenção do oxigênio, foi considerado um completo fiasco. Os críticos, sempre criativos, logo apelidaram o evento de FLOP 30.

Um repórter perguntou a um assessor do Itamaraty:

— Por que veio tão pouca autoridade?

— Ora, porque ninguém aguenta mais ouvir a mesma coisa — respondeu o assessor com sinceridade suicida. — É a 30ª conferência dizendo que agora vai. Agora acaba o petróleo. Agora o mundo será verde. Agora, sim... Mas ninguém combina isso com os jatinhos e os SUVs.

O Ogro de Nove Dedos, sempre sabedoria em pessoa, havia dito que não mandaria tropas federais para o Rio depois que mais de uma centena de traficantes haviam sido mortos por policiais no mesmo lugar onde ele havia subido o morro com boné CPX durante a última campanha presidencial. Por quê? Porque tropa não resolve nada, disse. Mas mandou uma tropa federal para Garantia da Lei e da Ordem (GLO) para Belém. Resultado? O Ogro estava certo. Não resolveu nada. Foi como se tivesse mandado uma tropa para animar o ambiente. Um grupo do Piçol e outros profissionais da bagunça invadiram um salão e destruíram tudo, como se fosse o tornado que devastou uma cidade inteira no Paraná.

O grande momento chegou quando o Ogro foi flagrado descansando em um iate luxuoso, de três andares, gentilmente emprestado por um empresário interessado em continuar gentil em eventos futuros. O detalhe: o iate consumia 135 litros de diesel por hora.

Uma jornalista perguntou:

— Presidente, não é contraditório usar um iate movido a diesel numa conferência sobre o fim dos combustíveis fósseis?

O Ogro sorriu com aquela candura de quem já explicou coisas piores:

— Minha filha, sabe... é justamente para acelerar a transição energética! Se a gente não queimar logo esse diesel, como é que ele vai acabar? Eu estou ajudando o planeta!

A repórter anotou tudo, porque nunca havia ouvido uma explicação tão criativa.

Poucos dias antes da COP, os órgãos ambientais brasileiros surpreenderam o País aprovando estudos geológicos na Margem Equatorial. A ministra Marina Silva teve uma síncope ideológica. Ambientalistas tremeram. Petroleiras abriram espumantes.

Perguntaram ao Ogro:

— Mas, presidente, não é contraditório anunciar novas prospecções de petróleo, logo às vésperas da COP 30?

— Claro que não! O Macron tá de olho no meu petróleo, sabe. E na minha mulher. Se ele vai sugar o petróleo com canudo sustentável pela Guiana Francesa, eu tiro o meu antes. E se der tempo, pego um pouco do francês também. Vai que o folgado me passa pra trás...

A plateia riu nervosamente.

Entre uma palestra e outra, havia sempre um climatólogo alarmado anunciando o fim do mundo para daqui a cinco anos — previsão feita, aliás, desde 1970. Segundo eles, Dubai deveria estar submersa, Balneário Camboriú com barcos nas portarias dos arranha-céus e várias ilhas do Pacífico reduzidas à saudade.

Mas nada disso aconteceu.

Camboriú segue erguendo prédios com ânimo suicidamente otimista, como o futuro Senna Tower de 154 andares, e Dubai construiu uma enorme ilha artificial em formato de tamareira, porque não há mau presságio que resista a petrodólares.

Nas COPs anteriores, especialistas discutiam o Hockey Stick (Taco de Hóquei), Michael Mann, Al Gore, John Travolta e seu Boeing beberrão estacionado no quintal de sua mansão, além de outros jatos. E havia o presidente do IPCC, Rajendra Pachauri, aconselhando a humanidade a tomar banho frio, enquanto irrigava seu campo de golfe num deserto da Índia com 300 mil galões de água por dia. Pelo belo trabalho de sustentabilidade do verde no deserto, Pachauri e o IPCC receberam o Nobel da Paz, em 2007.

Mansão de John Travolta e seus aviões, em Ocala, Flórida. 

James Delingpole, em 2012, havia lançado o livro Os Melancias - Como os ambientalistas estão matando o planeta, destruindo a economia e roubando o futuro de seus filhos, um título de livro tão longo que quase havia consumido uma árvore inteira. Porém, o autor fazia denúncias graves, sobre o Climagate, escondido do distinto público. Dizia ele, na pg. 17:

A conspiração por trás do mito do Aquecimento Global Antropogênico (também conhecido como AGW, também conhecido como ManBearPig) foi desmascarada súbita, brutal e deliciosamente quando um hacker entrou nos computadores da Unidade de Pesquisa Climática (CRU) da University of East Anglia e divulgou pela internet 61 megabites de arquivos confidenciais (cumprimentos ao site wattsupwiththat.com). Pérolas encontradas nos computadores: comemoração da morte, em 2004, do cientista cético John L. Daly (criador do site Still Waiting for Greenhouse); manipulação de provas; eliminação de provas; violência contra os cientistas céticos e outras patifarias.

E o Taco de Hóquei, o que é isso? É um gráfico elaborado por Michael Mann, o Hockey Stick, que mostraria como a temperatura da Terra aumentou no último milênio. Apresentado no Relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) em 2001, serviu de base para a tese do documentário An Inconvenient Truth (Uma Verdade Inconveniente), lançado em 2006, com a direção de Davis Guggenheim e roteiro e participação de Al Gore, vice-presidente do governo Bill Clinton. Pelo trabalho, Al Gore recebeu o Nobel da Paz, em 2007.

A trapaça do aquecimento global foi desmascarada por vários cientistas céticos, dentre os quais se destaca também o jornalista investigativo e escritor britânico James Delignpole, já citado acima. O Período de Aquecimento Medieval (MWP), diz Delingpole, foi a era em que a Groenlândia, hoje considerada quase inabitável, realmente fez jus ao nome (pelo menos em algumas partes), permitindo que os vikings lá se instalassem, plantassem cevada e criassem ovelhas e vacas (pg. 31). Aos poucos, a farsa do Aquecimento Global Antropogênico (Anthropogenic Global Warning - AGW) está sendo substituída pela tese da Mudança Climática — algo que ocorre desde a formação de nosso planeta. Quem controla a linguagem, controla a cultura. Quem controla a cultura, vence a discussão política (pg. 14).

Voltando a Belém, a incoerência continua sendo tanta que um observador comentou:

— Se hipocrisia fosse energia limpa, já teríamos resolvido a crise climática há décadas.

Embora o recente livro de Leandro Narloch Guia Politicamente Incorreto do Meio Ambiente tenha estreado em segundo lugar na lista dos mais vendidos da revista Veja, não se ouviu nada sobre o assunto na mídia antifas durante a COP 30, por motivos óbvios. Com uma tênue ironia que caracteriza sua famosa série de Guias Politicamente Incorretos (Brasil, América Latina, Mundo, Economia etc.), esse último livro de Narloch mostra o farisaísmo por trás do movimento ambientalista mundial, que não se importa com os pobres, mas com suas mordomias bem climatizadas em escritórios, aviões, limosines, SUVs.

Foi libertador ler no livro de Narloch frases como: O material que mais permitiu aos veganos levar uma vida sem tanta exploração animal não foi o tofu, foi o polietileno e O morador da Amazônia quer ficar rico. Mas o ambientalista prefere que ele passe o dia catando coquinho na floresta. Catando coquinho na floresta, essa foi demais... Sobre a Economia de Amêndoas de Babaçu, à pg. 91, o livro apresenta um quadro em que, quanto mais o Fundo Amazônia investe, mais cai a produção de babaçu ao longo dos anos, devido à concorrência da soja e do dendê.

E, para finalizar a COP 30 com chave de latão, veio o chanceler alemão Friedrich Merz, que deixou Belém dizendo:

— Ninguém quis ficar lá. Todos queríamos voltar para a Alemanha. Senti saudades do chopp gelado, do chucrute, até do clima cinzento de Berlim.

Belém não perdoou. O Ogro, magoado, disse:

— Sujeito grosseiro! Devia ter ido a um buteco comer maniçoba! Dançar carimbó! Se não gostou, problema dele!

Um assessor sussurrou:

— Presidente, talvez ele não tenha gostado das palafitas e do lixo...

— Pois que venha fazer mutirão! — respondeu o Ogro. — Mas falar mal da minha COP da maniçoba, não!

No Pará, 91% da população não tem esgoto. A deputada federal indígena Sílvia Waiãpi (PL-AP), cassada em 2024, disse poucas e boas há um ano, na cara da ministra Marina Silva, durante a CPI das ONGs: até hoje, os indígenas são obrigados a fazer cocô na água e na mata, por falta de saneamento, porque os ambientalistas não querem que eles modifiquem seus costumes.

O governador do Pará, Helder Barbalho, perdeu seu precioso tempo para me bloquear no X. Poderia ter mandado sanear a capital do Pará, tomada por palafitas, lixo de tamanho amazônico nos igarapés e esgoto a céu aberto com urubus à vontade em seu habitat belenense, como se fossem pombas em praças brasileiras e europeias.

A propósito, a imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), Míriam Leitão, também havia me bloqueado no X, por afirmar que ela havia integrado um grupo terrorista durante o governo militar, o Partido Comunista do Brasil (PCdoB). O ator da TV Globo, José Abreu, também me bloqueou no X, por eu publicar que ele havia sido o motorista do caminhão que levou o Cofre do Adhemar, de Santa Teresa para Jacarepaguá, fato mencionado pelo jornalista Luiz Carlos Azedo, na matéria No volante, publicada no Correio Braziliense, 30/01/2013. Como é de domínio público, o grupo terrorista VAR-Palmares (do qual Dilma Rousseff também foi membro) participou da Grande Ação, em 18/06/1969, quando foi roubado um cofre em Santa Teresa, Rio de Janeiro, com a quantia de 2,596 milhões de dólares. O cofre pertencia ao ex-governador de São Paulo, Adhemar de Barros, e ficava no casarão de sua amante, Anna Capriglione.

Como coroamento da chamada FLOP 30, houve uma inusitada dança ritual ao redor do fogo — mas sem os indígenas das Américas, os aborígenes da Austrália e os papuas de Nova Guiné — com os congressistas correndo alucinados para fora das tendas, fugindo do fogo e da fumaça asfixiante, em busca de uma chuva salvadora que apareceu justo durante o incêndio.

Na Ata Final — aquela que ninguém lê, mas todos assinam — estava a ideia genial do Ogro de Nove Dedos: o mapa do caminho para o fim dos combustíveis fósseis.

Parecia simples. Como toda ideia genial que nunca funcionará.

Enquanto tudo isso acontecia, a comitiva, os assessores, os ministros, os observadores internacionais e os especialistas em biodiversidade entornavam bebidas amazonenses com entusiasmo antropogênico. Inclusive com cerveja feita com água tratada de esgoto trazida de Singapura. Talvez seja por isso que o chanceler alemão se mandou, com saudade da Oettinger da Baviera.

E o Ogro?

Brindava a branquinha no iate de três andares, feliz, satisfeito, certo de que salvar o planeta é importante, mas não tão importante quanto salvar o próprio descanso. Piada pronta, também nomearam o evento de COPO 51...

E assim terminou a COP da Maniçoba: um grande sucesso para quem se aproveitou dela, um grande fracasso para quem acreditou nela, e um espetáculo imperdível para quem gosta de ver o mundo tentando se salvar enquanto não larga o diesel, o uísque, o ar-condicionado, os jatinhos e o iate. 



quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Tio Arno Preis: Carta a meus leitores - Por Félix Maier

Tio Arno Preis: 

Carta a meus leitores

Por Félix Maier

Cartas-->Tio Arno Preis: Carta a meus leitores -- 15/10/2008 - 17:34 (Félix Maier)

https://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.php?cod=25946&cat=Cartas&vinda=S

Arno Preis


Cara prima Teresinha,

Inicialmente, parabéns a você e a todos os professores do Brasil pelo seu dia, o Dia do Professor!

Obrigado pelo texto enviado sobre Tio Arno (http://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.php?cod=9666&cat=Ensaios). Gostaria de fazer alguns comentários. Como diria o esquartejador, vamos por partes:

O ensaio da professora de História da Universidade Estadual de Maringá, Elaine Pavani, é um tanto pesado, com 50% de introdução sobre a história relacionada a Antígona, de Sófocles, até, enfim, engrenar no tema em questão, que foi a morte de tio Arno. O paper de Pavani, além de ter uma pomposidade despropositada (talvez inspirado no texto de Maria Feranda de Aragão Ponzio - Cfr. "Referências bibliográficas"), apresenta pelo menos dois erros lamentáveis:

1) Não existe relação da morte de tio Arno com o relato de Antígona, porque Arno não ficou insepulto, com o corpo jogado aos abutres. Ele foi enterrado em local certo e sabido, como foi publicado pelos jornais, tanto de São Paulo, quanto do Rio de Janeiro.

2) Arno Preis não foi enterrado com nome falso, dando a entender que a ditadura fez isso de propósito, para dificultar a localização de seu corpo. Arno foi enterrado com o nome do documento que portava na ocasião, Patrick McBundy Comick, nome que foi falsificado por ele mesmo, para melhor executar seus atos terroristas e não ser pego pelas autoridades. Seu verdadeiro nome foi logo elucidado pelas autoridades, tanto isso é verdade que em seguida todo mundo já sabia de quem se tratava, como noticiaram os jornais.

A pergunta que fica é a seguinte: por que os familiares diretos de tio Arno não foram atrás do corpo logo após sua morte? Por que somente em 1993 seu corpo foi exumado e seus restos mortais levados para sua terra natal, Forquilhinha, SC? Medo das autoridades? Desinteresse? Para mim, isto ainda não foi esclarecido.

A Profª. Pavani achou estranho que militares envolvidos na morte de tio Arno tivessem sido promovidos, inclusive post mortem - caso do Sd Luzimar Machado de Oliveira, morto por tio Arno. Ora, isso é uma prática comum nas corporações militares, é previsto em lei e não há nada a estranhar. O que se deve repudiar é a promoção post mortem de Luiz Carlos Prestes e Carlos Lamarca a coronel, feitos recentemente, com provimentos de general-de-brigada para seus descendentes. Isto foi um ato ilegal, como são muitos os atos do governo dos petralhas. Ambos os militares, Prestes e Lamarca, desertaram do Exército, portanto, abandonaram a Força por sua própria vontade. Nunca houve nenhum tipo de perseguição para que deixassem a caserna para se bandear, um, a soldo de Moscou, outro, a soldo de Cuba. Se eles não fizeram a EsAO, como poderiam ter sido promovidos a oficial superior?

Quanto à abordagem do tema geral em si - "militantes políticos" x Forças Armadas - não se sabe onde termina a alienação da Profª. Pavani e onde começa o embuste. Qualquer idiota que tenha pelo menos dois neurônios sabe muito bem que o grupo terrorista ao qual pertenceu Arno Preis, comandando por Carlos Marighela, era um dos mais radicais e sanguinários que existiram no Brasil. Eles combateram, sim, a ditadura militar, de armas nas mãos, mas não para que a democracia retornasse. O que eles queriam era instalar no Brasil uma ditadura sanguinária, muito pior que a dos militares, que é a ditadura comunista de Cuba, que ocasionou mais de 130 mil mortos, entre os fuzilados e os que foram comidos pelos tubarões do Caribe, quando tentaram fugir do paraíso cubano cantado em verso e prosa por Frei Betto et caterva.

Nada Pavani diz sobre os atos praticados por tio Arno e seu grupo, como o assalto ao trem-pagador Santos-Jundiaí, em 1968, nem dos assaltos a bancos, supermercados e casas d'armas. Nada é dito dos inocentes covardemente executados pela gangue de Marighela, autor de O Minimanual do Guerrilheiro Urbano, que foi a bíblia de muitos grupos terroristas também no esterior, como as Brigadas Vermelhas, da Itália, e o Baader-Meinhof, da Alemanha. Como se vê, vivemos negros tempos do embuste, onde a verdade não tem vez, porque "é um conceito pequeno-burguês", como já dizia Lênin.

No Brasil de hoje, fazer uma análise objetiva de qualquer fato político é sempre uma temeridade, principalmente se for a respeito do "regime militar" pós-64. Ou você comunga com as mentiras sistemáticas das esquerdas, ou você é taxado de nazifascista. Não existe lógica, nem espaço para a argumentação. Só embuste. Já fui criticado por parentes por apenas dizer a verdade como ela é: os terroristas de esquerda das décadas de 1960 e 70 - aí incluído tio Arno - não eram os anjinhos que a Profª. Pavani apresenta idilicamente. Eram assassinos frios de uma ideologia que no século XX matou 110.000.000 de pessoas em todo o mundo, segundo O Livro Negro do Comunismo.

Não se pode negar a coragem de tio Arno em empunhar uma arma para "derrubar a ditadura". Ótimo tenor, que encantava seus amigos, ele sempre foi um sujeito muito valente, mas era temerário, pois não tinha medo de nada. Olavo de Carvalho me escreveu certa vez que tio Arno, em seus tempos de estudante, em São Paulo, chegou a enfrentar no tapa um militar armado. E não foi por problema político, mas por causa de um rabo de saia... Se tio Arno quisesse colocar no lugar da ditadura militar brasileira um governo do tipo dos sociais-democratas da Europa, como a Alemanha, ele teria todo meu respeito e apoio. Mas, ao empunhar a bandeira vermelha dos comunistas, ele se perdeu totalmente, e a História já provou que aquela ideologia não tinha como se sustentar, com o colapso da URSS. Hoje, nem a China quer ser comunista. Eles estão atrás de dinheiro, ou seja, do velho capitalismo. Só por aqui, nestas republiquetas bananeiras da América Latina é que tipos como Fidel, Lula, Chávez, Evo Cocales e Corrêa ainda fazem sucesso.

Não há como apoiar a atitude de tio Arno, de querer escravizar uma nação inteira sob o império da Peste Vermelha. Que você me diz sobre os números abaixo, da ditadura cubana, país onde tio Arno foi fazer seu curso de graduação terrorista?

Abraços,

Félix


***


E-mail recebido de Olavo de Carvalho, no dia 12/06/2003:

“Prezado Félix,

Que surpresa, saber que você é sobrinho do Arno! Ele foi meu amigo. Eu gostava muito dele e o admirava. Ele era um homem culto, inteligentíssimo e de uma valentia física notável. Uma vez desarmou e surrou um policial que havia disparado contra ele, bem na frente da Casa do Estudante, em São Paulo (nada de coisa política, foi questão de mulher). Não me parecia ter convicção marxista muito séria – seguia as ordens do Partidão para acompanhar os amigos. Tinha bom coração e era generoso. Cantava trechos de ópera e hinos sacros com uma bela voz de tenor, fazendo duetos impressionantes com João Leonardo da Silva Rocha, barítono. De vez em quando entrava em depressões, bebia e arrumava brigas, mas em geral era bem humorado e tranqüilo. Comigo, sempre foi exemplar. Ele foi uma verdadeira perda para a nossa geração.

Um abração do Olavo de Carvalho”


***


13/10/2008 21:50

Post do Blog (Hugo Studart)

http://www.conteudo.com.br/studart/o-democrata-fidel-e-os-direitos-humanos/?searchterm=ditadura%20cubana

O democrata Fidel e os Direitos Humanos

Encontrei esses números do relatório da Câmara Ibero-Americana de Comércio/Stanford Research Institute, com dados sobre ações democráticas do kamarada Fidel entre de 1959 a 2004: foram 56.212 fuzilados no "paredón"; 1.163 assassinados extrajudicialmente; 1.081 presos politicos mortos no cárcere por maus-tratos, falta de assistência médica ou causas naturais; 77.824 mortos ou desaparecidos em tentativas de fuga pelo mar. Total: 136.288 cubanos mortos pela ditadura Castro. Em nossa ditadura militar, são 301 os mortos e desaparecidos.


***

Leia, ainda, Tio Arno Preis

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

A melhor idade - Por Félix Maier

 


A Melhor Idade

Félix Maier

Dizem por aí que pertenço à melhor idade. É um modo diplomático de me chamar de velho. Eu discordo. Se essa é a melhor idade, imagino o que seria a pior — talvez aquela em que a gente paga a conta do plano de saúde e o ortopedista manda cartão de Natal.

Acordo todo dia com o corpo fazendo barulhos que não constam do manual de instruções. É um festival de estalos, rangidos e suspiros mecânicos. Parece que tenho orquestra dentro do joelho. Outro dia, ao me levantar da cama, o quadril soltou um tóim tão afinado que pensei em gravar um disco: Sinfonia para prótese em dó menor.

Mas não reclamo, não. Quer dizer, reclamo um pouco — que é o hobby oficial da terceira idade, especialmente por eu ser um viúvo.

Meu amigo Arlindo, por exemplo, diz que o melhor da velhice é o desconto no cinema. Só esqueceu que a gente cochila antes do trailer acabar.

— Eita, Válter, mas é bom cochilar com ar-condicionado e pipoca — ele me responde.

— É, Arlindo, o problema é acordar achando que a Scarlett Johansson é sua enfermeira.

Falando em enfermeira, o Hospital Militar de Área de Brasília virou shopping dos velhinhos. A melhor idade não é só decadência, é também descoberta. Como veterano militar, descobri, por exemplo, que lá é o novo point da terceira idade. Tem ar-condicionado, TV, Wi-Fi e café ruim de graça. O shopping dos velhinhos é sempre muito movimentado. Deve ser por isso que uma Guia de Encaminhamento, para atendimento externo, às vezes demora trinta e sete dias para ser aprovada...

No shopping dos velhinhos a gente se encontra, põe a conversa em dia e compara resultados de exame como quem compara gols do Brasileirão.

— O meu colesterol tá em 280 — diz o Arlindo, com orgulho de artilheiro.

— Ganhou de mim — respondo. — O meu só chega em 240, mas subi bem no ácido úrico.

Há também um clima de romance entre as macas e os labirintos do velho Hospital, de modo que é aconselhável ter o Waze à mão no celular para não se perder. O corredor da ortopedia parece salão de baile. Viúvas penteadas, viúvos perfumados, todo mundo fingindo que não sente dor — e sentindo.

Outro dia, enquanto esperava o cardiologista, uma senhora simpática me perguntou se eu acreditava em amor na terceira idade.

— Minha filha, nessa idade eu acredito até em milagre — respondi. — E se ele vier de minissaia, melhor ainda.

Ela riu, mostrou os dentes (os próprios, segundo garantiu), e me disse que se chamava Nair. Nome de anjo aposentado.

Só no fato de eu falar em minissaia, o leitor deve imaginar minha idade, quase centenária...

Saí dali meio tonto. O coração disparou. Achei que fosse paixão; era só a pressão. Mas é bom confundir as coisas — a emoção dá sentido ao remédio.

Assim como o reumatismo serve de guarda-chuva para todo e qualquer rangido de idoso, virose é o álibi elegante dos médicos quando a doença insiste em não dizer o próprio nome.

Certo dia, entrei no consultório mancando levemente, mas com alguma dignidade — como quem sabe que o inimigo é o tempo, não o menisco. O ortopedista, entusiasmado como um mecânico diante de um motor fazendo barulho novo, esfregou as mãos e anunciou:

— Vamos resolver isso, meu amigo! Quinze minutos e você sai daqui com o joelho novinho em folha.

Quinze minutos. Era o que ele dizia, com aquele sorriso de quem promete o paraíso antes que o anestésico faça efeito. Resolvi testar o entusiasmo científico:

— E como é que fica o joelho depois, doutor?

Ele me olhou com a serenidade de quem recita um provérbio médico e respondeu, com a maior naturalidade do mundo:

— Olha... tem o joelho bom, o joelho ruim e o joelho operado.

A frase veio tão tranquila que quase acreditei que joelho operado fosse uma categoria nobre da anatomia humana, tipo reserva de luxo. Saí do consultório refletindo: se o joelho operado não era nem bom nem ruim, devia estar num limbo ortopédico — um purgatório de cartilagens e ligas de titânio.

Desde então, faz mais de dez anos que me conformei em não poder mais jogar futebol society com o joelho ruim — ele range, protesta, mas pelo menos é meu. E, também, porque um colega que resolveu melhorar a coluna com o mesmo médico hoje anda como se tivesse engolido um cabo de vassoura: elegante, ereto e permanentemente em posição de sentido. Melhor deixar o menisco quieto e o futebol nas lembranças, porque, afinal, pior que um joelho ruim é um bom arrependimento operado.

Depois do hospital, outro ponto de encontro é o baile da terceira idade, organizado num hotel da cidade. Ali o tempo para, ou pelo menos tropeça. Chego com minha bengala cromada — herança de tio Ubaldo, que dançava maxixe até depois do velório da esposa — e vou direto para o bar, tomar um suquinho de laranja com intenção.

O DJ, um rapaz de uns sessenta, toca Nelson Gonçalves, depois mete um bolero de Altemar Dutra, e aí é que o bicho pega.

— Me concede esta dança? — pergunto à Nair, que já estava ali, toda de lilás.

— Depende. É pra dançar ou pra cair junto, Válter?

— Os dois, se possível — digo, sorrindo.

E dançamos. Devagar, como quem negocia com o destino. A cada giro, meu menisco pede socorro, mas o coração agradece.

Terminamos a dança com dignidade, o que significa que ninguém caiu. Um feito. O pessoal até aplaudiu — mas talvez porque a música acabou e eles podiam finalmente se sentar. Nair me deu um beijo no rosto, bem ali, no meio do salão, com dentadura e tudo. Foi o beijo mais sincero dos últimos vinte anos: sem pressa, sem filtro solar, sem medo do amanhã.

Depois disso, confesso que passei a esperar o baile do mês seguinte com o mesmo entusiasmo de um adolescente esperando o recreio. A diferença é que agora o recreio vem com diurético.

Falando em diurético, é impossível ser velho e falar de amor sem falar de mijo. Não é assunto bonito, mas é democrático. O jato, outrora altivo e certeiro, virou um sprinkler anarquista. Molha o chão, o pé, e às vezes até o cachorro, se ele for curioso o bastante.

Outro dia, Nair me perguntou:

— Válter, você ainda se sente homem, assim, no... digamos, sentido completo da palavra?

Respirei fundo. Pensei em mentir, mas a velhice tem esse dom: a sinceridade cansada.

— Sinto, sim. Mas agora o sentido completo vem com manual de instruções, pilha reserva do marca-passo e bula do azulzinho.

Ela riu de modo brejeiro e insinuante, e respondeu:

— Melhor assim. Homem sincero é afrodisíaco depois dos setenta.

Foi a primeira vez na vida que uma mulher me chamou de afrodisíaco. Anotei mentalmente, pra contar pro Arlindo e deixá-lo com inveja.

Mas é curioso: à medida que o corpo desaba, o amor se simplifica. Já não é sobre músculos, mas sobre memória. Não é sobre fogo, mas sobre calor humano.

Nair e eu não fazemos planos; fazemos chá de erva cidreira. Nosso erotismo é mais infusão do que combustão. E há beleza nisso. Um tipo de ternura que só quem teve pressa demais consegue apreciar depois, quando o tempo obriga a andar devagar.

Claro que a velhice tem seus lados cruéis. O espelho, por exemplo, é um canalha. Outro dia, acordei de bom humor, olhei no vidro do banheiro e levei um susto. Achei que meu avô tinha voltado pra me visitar.

E os remédios… ah, os remédios! Tenho tantos comprimidos coloridos que minha mesinha parece a banca de um camelô. Azul pra animar, branco pra dormir, vermelho pra acalmar o coração, verde pro estresse e o estômago, amarelo pra lembrar que ainda estou vivo.

E a próstata, a infame. Já virou personagem da minha vida: eu acordo e converso com ela.

— Vamos segurar firme o mijo hoje, hein?

Ela responde com silêncio e vingança.

Outro dia, enquanto esperava o urologista, o Arlindo me cutuca:

— Sabe o que é pior do que exame de toque?

— O quê?

— Ter saudade dele.

 Não diga! Vai ver que você é aquele gaúcho da estória, que estava levando uma dedada, o médico perguntou, o que você está sentindo? e o machão disse sinto que te amo!...

Rimos tanto que a enfermeira veio ver se estávamos passando mal.

Às vezes penso que a velhice é uma pegadinha de Deus. Ele deixa o desejo vivo, mas manda o corpo para aposentadoria. É um tipo de ironia cósmica: o motor ainda ronca, mas o câmbio emperra. Mesmo assim, eu continuo muito grato. Prefiro ranger que parar de vez.

A Nair diz que eu sou um velho boca-suja com alma de menino.
Pode ser. Mas menino que paga imposto, toma ômega-3 e precisa de lupa pra ler bula de Viagra.

Outro dia fomos à missa dos idosos. O padre, jovenzinho, falou com ternura:

— Meus irmãos, na melhor idade o corpo enfraquece, mas o espírito se fortalece.

E a Nair cochichou:

— O meu espírito até tenta, mas o ciático não deixa.

Tive que segurar o riso para não cometer heresia.

No fim das contas, é isso: a melhor idade é um estado de espírito com artrite. A gente aprende a rir da própria biografia, e a escolher o que lembrar. A saudade fica mais leve, o perdão fica mais fácil, e o amor… o amor vira um hábito gostoso, como café sem açúcar.

Às vezes, quando a Nair adormece no sofá, eu fico olhando pra ela e penso: Meu Deus, como é que esse corpo que já não corre mais ainda dá conta de tanto carinho?

Então me vem uma vontade danada de agradecer — não pela saúde, nem pela juventude perdida, mas pelo simples fato de ainda ter alguém pra implicar, pra segurar a mão, pra chamar de meu amor mesmo depois que o romance virou receita de remédio.

A verdade, meu caro, é que envelhecer é um ato de coragem com senso de humor. A gente vai rindo pra não cair. E se cair, que seja dançando.

Porque, no fim das contas, a melhor idade é sempre a próxima, desde que ainda dê para rir, mesmo que falte dente, e pra apertar a mão de alguém sem precisar de apoio.

— A gente tá velho, mas tá vivo. E no balanço da vida, isso já é lucro.


segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Machado e Eça se encontram no Purgatório - Por Félix Maier

 


Machado e Eça SE ENCONTRAM no Purgatório

Um conto fantástico em que os mortos ainda se engalfinham em  glória, gramática, estilo e... censura.

 Félix Maier

Era uma tarde sem tarde — pois no Purgatório o tempo é uma invenção obsoleta, um relógio parado entre o céu e o inferno. O ar tinha cor de papel envelhecido e cheirava a tinta de tipografia. Por entre nuvens pardacentas, espíritos caminhavam de um lado para outro, arrastando pecados leves o bastante para não merecer o fogo, mas pesados demais para a ascensão.

E foi nessa atmosfera de papel e pecado que dois vultos se cruzaram numa tarde sem tarde, pois o tempo, ali, é uma abstração que perdeu a pontualidade.

Um deles caminhava devagar, apoiando-se num bastão feito de ironia. Tinha a pele morena, pince-nez ajustado com precisão de relojoeiro, e um sorriso discreto, desses que não riem do mundo, apenas o decifram. Era Machado de Assis, o Bruxo do Cosme Velho, que chegara ao Purgatório sem alarde, pedindo licença até para a eternidade vestindo um cerimonioso fraque translúcido.

O outro vinha de passo largo, terno preto etéreo com lenço de gola alta, bigode impecável e porte de diplomata atrasado para um baile solene. Trazia no ar o perfume distante das livrarias de Paris e no olhar a altivez dos que se creem injustiçados até por Deus e o Diabo. Era Eça de Queiroz, o português que acreditava que cada vírgula tinha alma e cada pecado, estilo.

Tropeçaram um no outro, um tropeço metafísico, como se o destino, cansado das suas intrigas terrenas, resolvesse brincar de roteirista purgacional.

Machado recuou um passo, ajeitou o fraque da alma e, com aquele tom que transforma qualquer desculpa em sentença, murmurou:

— Creio que o cavalheiro me interceptou o passo.

Eça arqueou o sobrolho e respondeu, com ligeiro sotaque de Lisboa e orgulho de quem nunca perde a nuance:

— Interceptar? Meu caro, quem tropeça em mim costuma pedir desculpas em francês.

Machado sorriu com um movimento quase imperceptível dos lábios, como quem anota uma ironia mental para uso futuro.

— Francês… até aqui o senhor o invoca. Há de haver cafés parisienses no além, imagino, com madames de névoa e pecados de veludo.

Eça abanou a mão, teatral:

— E o senhor, que nunca saiu da Rua do Ouvidor, fala como se o paraíso fosse um bonde do Rio de Janeiro.

O silêncio que se seguiu era civilizado. No Purgatório, até os insultos exigem boa sintaxe.

Começaram a caminhar lado a lado, ou quase, pois entre eles havia uma distância invisível, medida em séculos de vaidade e crítica literária.

A névoa ao redor cheirava a papel amarelado e tinta de pena. Era o perfume dos escribas da posteridade.

Machado, olhando em volta, comentou:

— Curioso, senhor Queiroz. O Purgatório assemelha-se um pouco à Academia. Há cadeiras, vaidades e votos secretos.

Eça respondeu, sem resistir à provocação:

— E, como na Academia, poucos sobem.

Machado riu com os olhos, que eram sua parte mais viva.

— Ao menos aqui não se discute ortografia.

— Discutir, não. Mas vi ali ao fundo uma alma a conjugar o verbo ascender com cê, e foi mandada de volta ao limbo por erro grave — retrucou Eça.

Caminharam. De vez em quando, passava uma alma apressada, algum poeta arrependido, tentando trocar o Purgatório por uma antologia.

No alto, anjos-porteiros cochichavam, anotando quem falava mal de quem, pois até na eternidade há jornais de fofoca metafísica.

Eça, sempre ansioso por justificar-se, retomou o fio das mágoas antigas:

— Ainda guardo lembrança amarga das críticas, senhor de Assis. Sob pseudônimo, o senhor me esfolou vivo em O Primo Basílio. E disse que O Sr. Eça de Queiroz parece escrever com um bisturi na mão... O Sr. Eça é o Zola das senhoras portuguesas...

Machado pigarreou com elegância, ajeitando o pince-nez.

— Ah, sim… Eleazar. Era um exercício de estilo. A crítica, caro Eça, é um modo educado de praticar a caridade.

— Caridade? — Eça arregalou os olhos. — Chamou minha Luísa de tola, meu Basílio de leviano e meu realismo de vulgar!

— Limitei-me a observar — retrucou Machado — que a empregada Juliana tinha mais alma que a patroa. O senhor quis retratar o adultério e acabou traindo a psicologia.

Eça respirou fundo, dividido entre ofensa e admiração. A vaidade ferida é um espelho que se quebra refletindo o próprio rosto.

— O senhor fala como padre, mas escreve como coveiro. Metade dos seus personagens já nasce morta.

— É uma economia de enredo — disse Machado, com doçura. — O defunto autor é mais confiável do que o narrador vivo.

Eça riu, sacudindo a poeira do orgulho.

— Reconheço, há gênio no seu sarcasmo. Mas confesse: o senhor sempre invejou o meu pecado.

— Pecado? — perguntou Machado, arqueando uma sobrancelha. — No Brasil, o calor já basta.

Foram andando. O chão, feito de páginas translúcidas, parecia murmurar citações antigas. De vez em quando, uma folha solta passava flutuando, trazendo trechos de romances esquecidos. Ao longe, um coral de almas declamava versos franceses. Machado suspirou.

— Nem o senhor, com todo o seu Paris, subiu.

— Nem o senhor, com todo o seu moralismo, desceu — respondeu Eça. Talvez Deus esteja indeciso sobre o valor do estilo.

Riram. No Purgatório, o riso é moeda de purificação. Mas o silêncio seguinte não era inocente. Eça, com aquela elegância provocadora dos duelistas do Chiado, lançou:

— Diga-me, senhor Machado, não é curioso o senhor também ter vindo parar aqui? Ou seria castigo por... pequenas apropriações intelectuais?

Machado ajeitou o colarinho invisível, como quem ajusta a própria ironia.

— O senhor fala de plágio?

Eça ergueu as sobrancelhas.

— Não eu. Apenas cito fontes. Há quem diga que suas nuvens caídas vêm de Alphonse Karr, suas batatas de Ernest Renan, seu verme de Baudelaire e seu emplastro de um tal Sterne.

Machado parou, olhou para o vazio e sorriu.

— Ah, sim. Chamemos de cosmopolitismo literário. Afinal, se os franceses me influenciaram, influenciaram o senhor duas vezes.

Eça gargalhou alto, um riso de vinho e pecado.

— Ainda assim, o meu plágio cheira a Bordeaux, não a mate amargo.

Machado inclinou o chapéu inexistente.

— Pois que brindemos às influências mútuas. O senhor, herdeiro do naturalismo; eu, discípulo da ironia. E ambos, reféns da crítica.

Nesse momento, uma brisa correu, e as nuvens formaram uma espécie de cortina. Dela saiu uma figura miúda, de terno escuro, olhar fiscal e prancheta flamejante.

— Agrippino Grieco! — exclamaram em uníssono, surpresos e resignados.

O crítico literário sorriu com a satisfação de quem reencontra velhos réus.

— Senhores — disse ele —, a eternidade exige revisão. Tenho aqui os autos dos vossos pecados literários.

Eça revirou os olhos:

— Nem morto me livro da crítica.

Machado, tranquilo:

— Deixe-o falar, caro Eça. A verdade, às vezes, melhora com o tempo.

Grieco abriu a prancheta. O som do papel soou como sentença. O Purgatório, que até então sussurrava como uma biblioteca de convento, calou-se por completo. Nem o folhear das almas se ouvia. Agrippino Grieco — crítico emérito e fiscal da posteridade — abrira sua prancheta flamejante.

Os papéis, em vez de linhas, traziam pequenas chamas que ardiam em silêncio, como notas de rodapé em fogo lento.

— Muito bem, senhores — começou, com voz que soava entre o tom de júri e o de colunista. — Eis-me aqui, incumbido de revisar vossas obras e vossos pecados. Afinal, a eternidade, como a boa literatura, não admite rasuras.

Eça endireitou-se, ajeitando o bigode incorpóreo. Machado apenas arqueou a sobrancelha — esse leve gesto que, no Céu ou na Terra, valia por um capítulo. Agrippino prosseguiu:

— Primeiro réu: Machado de Assis. Acusado de citações não creditadas, apropriações cosmopolitas e filosofias reaproveitadas. Item um: Melhor cair das nuvens do que de um quinto andar — procedência, Alphonse Karr. Item dois: Ao vencedor, as batatas — fonte, Ernest Renan. Item três: Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas Memórias Póstumas — Baudelaire, naturalmente. Item quatro: O emplastro Brás Cubas — ah, caro senhor, puro Sterne!

Machado manteve a calma dos culpados que filosofam.

— Meu caro Agrippino, plagiar é dar segunda vida às ideias. A originalidade é o disfarce mais refinado do talento.

— Disfarce ou travestimento? — atalhou Grieco, anotando algo em sua prancheta que faiscou.

— Travestimento é o que o senhor chama de crítica — devolveu Machado. — Um gênero que se veste de erudição e esconde o prazer de punir.

Um murmúrio percorreu as nuvens: os anjos-bibliotecários cochichavam, fascinados. Agrippino fingiu não ouvir.

— Eça de Queiroz, passo ao senhor. — E folheou outro papel ardente. — O senhor é acusado de ter plagiado Zola, adulterado o pudor e cometido pecados de descrição excessiva.

— Descrição excessiva?! — indignou-se Eça. — Eu apenas pintei o real com as cores que ele exige. Se há excesso, é do mundo, não meu.

— Descrição em minúcias da carne não é arte, é fisiologia — disse Machado.

— Zola, Balzac, Flaubert... o senhor bebeu em todas as garrafas francesas — disse Grieco.

Eça inclinou-se, com altivez.

— Ao menos as garrafas eram boas. E o senhor, Machado, confessará que me leu com atenção, pois quem me critica tanto, me admira em dobro.

Machado sorriu.

— Confesso, li-o com o prazer que se tem ao observar um incêndio da sacada: belo, mas perigoso.

Grieco interrompeu:

— Senhores! Aqui não se trata de duelo literário, mas de ajuste de contas com a posteridade.

Eça cruzou os braços etéreos:

— A posteridade, caro Agrippino, é apenas a crítica que Deus faz aos mortos.

Machado assentiu, filosófico:

— E, pelo visto, ainda não fomos absolvidos, para subir. Nem condenados, para descer.

Enquanto o debate se acirrava, as nuvens se juntaram em semicírculo, formando um anfiteatro brumoso. Sentados nas bordas vaporosas estavam figuras ilustres: Camões, que não sabia se declamava ou julgava; Garrett, que penteava o vento; Padre Antônio Vieira, que tentava converter os suspiros em sentenças; e Baudelaire, claro, fumando um cigarro de névoa, curioso para ver o destino de suas influências tropicais.

Camões foi o primeiro a falar, com a solenidade de quem atravessou mares e séculos:

— Senhores, as musas são irmãs. Não há roubo entre família.

Baudelaire, porém, sorriu de modo venenoso:

— Eu, por mim, aceito o plágio como homenagem. Desde que o homenageado receba os direitos autorais da eternidade.

Machado inclinou-se, respeitoso:

— Tenho pagado em glória tardia, caro Charles. E, se o senhor me inspirou, ao menos o fiz vestir fraque brasileiro.

— E eu — replicou Eça, sarcástico — o vesti de casaca portuguesa. Somos ambos alfaiates da linguagem.

Grieco pigarreou.

— Alfaiates, sim, mas a costura é suspeita. Há remendos visíveis, senhores.

Machado respondeu:

— Todo estilo é um remendo que o tempo chama de assinatura.

O murmúrio das nuvens transformou-se em aplauso.

Permitam-me, caro leitor, uma breve interferência — pois quem vos fala, como todo narrador, não é neutro, apenas disfarçado. Machado e Eça, naquele instante, não discutiam a autoria das frases, mas o direito de serem eternos à sua própria maneira. O Purgatório, esse salão nebuloso, não passa de um congresso literário sem encerramento, onde cada alma quer a última palavra e nenhuma deseja ouvir a alheia. E eu, observador das brumas, vi que o julgamento de Agrippino não buscava justiça — buscava estilo. Eça queria a elegância da forma; Machado, a elegância do pensamento; Agrippino, a elegância da censura.

De repente, Grieco retirou da pasta um pergaminho e o ergueu como um troféu. Era o original de Memórias Póstumas de Brás Cubas, com anotações à margem em francês. As letras cintilavam, revelando o diálogo secreto dos autores mortos.

— Eis aqui — disse o crítico, triunfante — a prova de que Machado lia Sterne com entusiasmo quase eclesiástico.

Machado olhou o pergaminho, sereno.

— Li-o, sim. E aprendi com ele que a morte é o narrador mais honesto.

Eça comentou, em voz baixa:

— E o mais rentável.

Grieco continuou sua sanha acusatória, exibindo agora um exemplar de O Primo Basílio com dedicatória a Balzac.

— E o senhor, Eça, não fica atrás. Sua Lisboa cheira a Paris, seu adultério fala francês, e seu moralismo tem sotaque de salão.

Eça abriu os braços:

— Ah, mas foi o pecado que me deu tema, e o tema, estilo. Escrevi o que todos fazem, mas fingem ignorar.

Machado, com um sorriso enviesado, completou:

— Eu escrevi o que todos ignoram, mas fingem compreender.

Grieco suspirou, vencido pela dialética.

— Pois bem — disse ele —, declaro-vos igualmente culpados de genialidade reincidente.

O coro de sombras aplaudiu. Baudelaire, com fumaça azulada, murmurou:

— Ah, se todo plágio fosse assim...

Camões ergueu a espada, feita de neblina e lembrança:

— Pela pena e pelo verbo, absolvidos sejam!

Mas Agrippino, que não cedia facilmente, fechou o relatório com ar de tabelião da eternidade:

— A sentença não é tão simples. Permanecerão ambos no Purgatório até redigirem juntos um tratado intitulado Do Plágio como Forma Superior de Admiração.

Eça fez cara de horror.

— Escrever com este homem?

Machado respondeu com um meio-sorriso filosófico:

— Um prazer infernal, caro Eça.

E assim terminou a sessão.

As almas dispersaram-se como leitores após o prefácio. Eça e Machado permaneceram sentados sobre uma nuvem de leve densidade crítica. Entre eles, Agrippino já desaparecera, deixando no ar um leve cheiro de tinta e burocracia.

Machado quebrou o silêncio:

— Sabe, Queiroz, talvez a eternidade seja apenas uma segunda edição, revista e aumentada.

Eça respondeu:

— Desde que o prefácio não seja seu.

Machado riu.

— Nesse caso, escrevamos em parceria.

Eça levantou-se, resignado:

— Pois bem. Comecemos o tratado. E se a eternidade tem revisores, que ao menos sejam imparciais.

Sobre a mesa pairavam folhas de papel celestial — luminosas, como se escritas por dentro. Era o material concedido por Agrippino Grieco para que redigissem o tratado Do Plágio como Forma Superior de Admiração.

Eça começou o preâmbulo, empunhando a pena espectral:

— “Nós, abaixo-assinados, Machado de Assis e José Maria Eça de Queiroz, reconhecemos que toda obra é filha ilegítima de outra, e que a originalidade é uma forma elegante de esquecimento.”

Machado assentiu, sorrindo:

— Belo começo. Faltam apenas as entrelinhas, que é onde reside a ironia.

— Ironia? — respondeu Eça. — Prefiro o sarcasmo, é mais civilizado.

— O sarcasmo é francês; a ironia, universal — retrucou Machado.

Ambos se entreolharam, compreendendo que o tratado seria mais difícil do que a confissão de um santo. Machado suspirou, olhando o papel que não se deixava concluir.

— Escrever, aqui, é como tentar acender fósforos molhados.

— Natural — ouviu-se a voz de Grieco, retornando num halo vaporoso para atormentar os ilustres escribas. — O Purgatório é a tipografia do eterno inacabado.

— Então somos linotipistas da posteridade — gracejou Eça.

— Não, senhores. — A voz de Agrippino tornou-se grave. — São personagens do próprio estilo. O castigo de todo grande escritor é viver preso àquilo que escreveu.

Machado ergueu as sobrancelhas:

— Nesse caso, estou condenado a ironizar até o fim dos tempos.

— E eu — disse Eça — a descrever salões que não existem.

— Pois que descrevam o que sempre escreveram — replicou Agrippino, antes de desaparecer numa centelha de crítica.

Decididos a terminar o tratado, os dois mestres resolveram visitar o Salão das Ideias Perdidas, onde pairavam todas as frases que nunca chegaram a ser escritas. Era um lugar impressionante: flutuavam ali inícios de romances, metáforas abortadas, parágrafos esquecidos e até o esboço de um soneto de Camões sobre mosquitos.

Eça observou, fascinado:

— Eis aqui a biblioteca da humanidade inconclusa.

Machado tocou numa frase suspensa no ar, Se Deus fosse crítico literário… — e murmurou: — Essa é perigosa. Pode transformar-se em realidade.

Do fundo do salão, uma voz ecoou, grave e mansa:

— Transformou-se em realidade, meus filhos.

Era uma voz sem corpo, mas com muita autoridade. As ideias se afastaram respeitosamente.

— Quem fala? — perguntou Eça, empalidecendo até quase sumir.

— O Autor — respondeu a voz. — Chamam-me de Deus, mas prefiro o título de Crítico Universal.

Machado inclinou-se.

— Então é verdade que o mundo é apenas um manuscrito divino?

— Um rascunho, Machado. Ainda em revisão.

Eça, entre o espanto e a ironia, perguntou:

— E nós, o que somos?

— Margens comentadas.

Houve um silêncio sublime, interrompido apenas pelo farfalhar das nuvens. Machado, em sua calma olímpica, ousou dizer:

— Senhor, se somos notas de rodapé, ao menos que sejamos legíveis.

Eça completou:

— Ou elegantes.

A voz sorriu — e um raio de luz atravessou o salão.

De volta ao Café das Sombras Leves, escreveram juntos, pela primeira vez sem disputa: Toda criação é uma herança. Todo gênio, um tradutor. Plagiar é participar da corrente secreta das vozes que não cessam. Aquele que escreve sozinho mente; aquele que copia, dialoga.
Por isso, o plágio é a mais pura forma de admiração.

Assinaram juntos, Machado com pena de corvo, Eça, com pena de pavão: Machado de Queiroz – Eça de Assis (Revisado por Laurence Sterne e Émile Zola).

Quando finalizaram o tratado, Agrippino Grieco reapareceu, surpreendentemente com um leve sorriso.

— Está aprovado — disse ele. — Mas, aviso: a eternidade o transformará em apócrifo.

Machado inclinou-se, satisfeito:

— Todo texto que sobrevive ao autor é apócrifo.

Eça levantou o copo:

— Às cópias que nos superam!

Brindaram com vinho purgacional em copos feitos de névoa.

No alto do Purgatório, as nuvens se abriram. Camões com um tapa-olho novo, tecido pelas Parcas, Zola com seu diáfano béret, Vieira com batina negra purgacional e colarinho clerical branco, Baudelaire no terno escuro com laço de veludo e até o clérigo espirituoso com peruca branca Sterne acenavam, como num sarau de luz. O Café dissolveu-se em claridade, e o som das risadas se confundiu com o canto dos anjos revisores.

E o narrador, este modesto cronista das almas, encerrou o relato, dizendo ao leitor que o Purgatório, no fundo, não é um castigo. É apenas a sala de espera entre a leitura e a reescrita.

E lá ficaram Eça e Machado, entre o riso e o verbo, escrevendo sem fim o que já estava escrito, comentando o que nunca será dito, pois na eternidade, como na literatura, ao vencedor, as batatas.

Só não se sabia ainda se as batatas viriam cozidas no fogo eterno ou servidas à moda do paraíso — o Crítico Universal não entrega spoilers.  


                                      ***                                                        

Obs.:

Machado de Assis, sob o pseudônio Eleazar, escreveu na revista Cruzeiro ácidas críticas contra o livro O Primo Basílio, de Eça de Queiroz. O crítico literário Agrippino Grieco, no livro Machado de Assis (Conquista, Rio de Janeiro, 2a. edição, revista, 1960), revolveu todos os escritos de Machado, identificando muitas frases famosas que seriam plágio de autores franceses e ingleses não menos famosos.

Assim, resolvi colocar esse trio  e outros gigantes da literatura  no Purgatório, para que continuem se enfalfinhando em glória, gramática, estilo e... censura.

Félix Maier