MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

O nome dele era Vasili Arkhipov - Estudos Históricos

Vasili Arkhipov


O nome dele era Vasili Arkhipov.

E em 27 de outubro de 1962, ele tomou a decisão mais importante da história da humanidade.

Quase ninguém ouviu falar dele. Nunca buscou fama. Viveu em silêncio. Morreu em silêncio. E por quarenta anos, o mundo não soube que uma única palavra dita por ele — “não” — impediu a Terceira Guerra Mundial.

Esta é a história do dia em que um homem salvou oito bilhões de vidas.

Outubro de 1962.
Crise dos Mísseis de Cuba.
Durante treze dias, Estados Unidos e União Soviética ficaram à beira do aniquilamento nuclear. Nikita Khrushchev havia instalado secretamente mísseis nucleares em Cuba, a apenas 150 quilômetros da Flórida. John F. Kennedy respondeu com um bloqueio naval. O mundo prendeu a respiração.

Mas enquanto diplomatas negociavam em Washington e Moscou, o perigo real não estava nas salas de conferência.

Estava na escuridão esmagadora do Mar do Caribe, a bordo de um submarino soviético chamado B-59.

Quatro submarinos da classe Foxtrot haviam sido enviados secretamente para Cuba. Cada um carregava vinte e dois torpedos convencionais — e um torpedo nuclear, com poder destrutivo semelhante ao da bomba de Hiroshima.

O B-59 era comandado pelo capitão Valentin Savitsky. A bordo, como comandante da flotilha e segundo no comando, estava Vasili Arkhipov — um oficial calmo, metódico, marcado por uma experiência que poucos homens sobreviveram.

Dezesseis meses antes, Arkhipov servira no submarino K-19, quando o sistema de resfriamento do reator nuclear falhou. Sem comunicação com Moscou, a tripulação enfrentou uma escolha impossível: deixar o reator derreter ou improvisar um sistema de emergência sob exposição direta à radiação letal.

Sete engenheiros se voluntariaram. Trabalharam sabendo que estavam assinando sua sentença de morte. Salvaram o navio. Morreram semanas depois. Outros quinze tripulantes faleceriam nos anos seguintes.

Arkhipov também foi exposto. A radiação já corria em seu corpo — uma condenação lenta que levaria trinta e sete anos para se cumprir.

Mas em outubro de 1962, ele estava vivo.
E prestes a salvar o mundo.

Quando Kennedy anunciou o bloqueio, a Marinha dos EUA iniciou a caçada aos submarinos soviéticos usando a tática de “caçar até a exaustão”. O B-59 foi forçado a permanecer submerso por dias.

O inferno começou.

Sem poder subir para recarregar baterias ou ventilar, o submarino virou uma fornalha. A temperatura ultrapassou os 50°C, chegando a 60°C em alguns compartimentos. O ar tornou-se espesso de dióxido de carbono. Homens desmaiavam. Respirar doía.

Sem contato com Moscou, a tripulação não sabia se a guerra já havia começado.

Então veio 27 de outubro — o dia mais perigoso da Guerra Fria.

Onze destróieres americanos e o porta-aviões USS Randolph localizaram o B-59. Começaram a lançar cargas de profundidade de advertência — explosivos de sinalização, não letais.

Mas o B-59 nunca recebeu essa informação.

Dentro do submarino, as explosões pareciam um ataque real. O casco tremia. O metal gritava. Muitos acreditaram que aquele era o fim.

O capitão Savitsky concluiu que a guerra havia começado.

— “Vamos disparar agora!” — gritou.
— “Morreremos, mas afundaremos todos eles!”

Ordenou que o torpedo nuclear fosse armado.

Se fosse lançado, destruiria vários navios americanos. Os EUA responderiam com armas nucleares. Moscou seria atacada. Washington também. Em poucas horas, bilhões morreriam. O mundo entraria num inverno nuclear. A civilização acabaria.

Mas o protocolo soviético exigia três autorizações para o disparo nuclear.

Savitsky disse sim.
O comissário político, Ivan Maslennikov, disse sim.

Todos olharam para o terceiro homem.

Vasili Arkhipov.

O calor era insuportável. O ar era veneno. As explosões não paravam. Tudo indicava guerra.

Arkhipov disse:

— Não.

— “Isso não é guerra. São sinais. Se fosse um ataque real, eles já teriam usado armas de verdade.”

Houve gritos. Discussões. O torpedo estava pronto. O tempo parecia inexistir.

Arkhipov permaneceu firme.

— “Precisamos subir. Precisamos falar com Moscou. Não disparamos sem ordens.”

Minutos passaram como eternidades.

Por fim, Savitsky cedeu.

O B-59 emergiu.

À superfície, holofotes os cegaram. Navios americanos os cercavam. Helicópteros sobrevoavam. Mas ninguém disparou.

O submarino soviético foi autorizado a se retirar.

O mundo nunca soube o quão perto esteve do fim.

No dia seguinte, Kennedy e Khrushchev chegaram a um acordo. A crise terminou.

Por quarenta anos, ninguém soube da verdade.

Arkhipov continuou sua carreira. Tornou-se vice-almirante. Viveu modestamente com a família. Nunca contou o que fez. Era segredo de Estado.

Em 1998, morreu de câncer nos rins — consequência direta da radiação do K-19.

O mundo não percebeu.

Em 2002, a história veio à tona. Um oficial presente revelou que o B-59 carregava armas nucleares.

Um historiador resumiu:

— “Um homem chamado Vasili Arkhipov salvou o mundo.”

Pense nisso.

Cada pessoa viva hoje existe porque ele disse não.
Cada cidade que não virou cinzas.
Cada criança nascida depois de 1962.
Cada livro, cada música, cada abraço.

Tudo dependeu de uma palavra, dita num tubo de aço, sob bombas, calor e terror.

Um não.

Isso é coragem moral.
Isso é liderança.

Quando o mundo gritava “agora”, ele disse “esperem”.

Vasili Arkhipov não queria ser herói.
Mas quando a história colocou o fim do mundo em suas mãos, ele escolheu a vida.

Lembre-se disso quando disserem que uma pessoa não faz diferença.

Lembre-se do homem que disse não.

Lembre-se do homem que salvou o mundo. 

Fonte: Estudos Históricos https://www.facebook.com/SBdeHolanda/posts/o-nome-dele-era-vasili-arkhipove-em-27-de-outubro-de-1962-ele-tomou-a-decis%C3%A3o-ma/933520025668940/


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Leia mais sobre o assunto:


Quem foi Vasili Arkhipov, homem que 'salvou' o mundo de guerra nuclear

https://www.bbc.com/portuguese/articles/cn374lnyzdeo


Quem foi Vasili Arkhipov, homem que salvou o mundo de guerra nuclear

Comandante soviético fazia parte de uma frota de submarinos nucleares envolvida na crise dos mísseis de 1962.

https://www.correiobraziliense.com.br/mundo/2023/09/5122433-quem-foi-vasili-arkhipov-homem-que-salvou-o-mundo-de-guerra-nuclear.html


Há 59 anos, Vasily Arkhipov interrompia um torpedo nuclear e evitava uma guerra

Em 1962, durante a Crise dos Mísseis de Cuba, o oficial russo conseguiu conter o início de um conflito com os norte-americanos

https://aventurasnahistoria.com.br/noticias/reportagem/ha-57-anos-oficial-russo-vasily-arkhipov-evitava-uma-guerra-nuclear.phtml  


sábado, 27 de dezembro de 2025

O Sistema Toga Petralha - Por Félix Maier

 


O Sistema Toga Petralha

Félix Maier

Pé na Cova, como sempre, tem vantagens que os vivos invejam: a capacidade de ver o espetáculo de longe, sem pagar ingresso, sem precisar de máscara sanitária nem de fidelidade partidária. Do seu caixão lustroso e florido, com detalhes em metal — que chama de poltrona de primeira classe do além — ele observa o Brasilistão em chamas e sorri com dentes de lata. Não é desprezo: é cadeira de diretor de teatro para uma tragédia em série, com figurantes ridículos e trilha sonora de funk de enterro.

— Pois é — diz Pé na Cova, para ninguém em particular — se eu soubesse que a vida terminaria assim, teria comprado um caixão com Wi-Fi. Pelo menos teria lido os memes com mais calma.

A primeira regra do Brasilistão que Pé na Cova aprendeu é simples: quando a política vira espetáculo, a toga vira figurino. Nasceu, então, o Sistema Toga Petralha, espécie de carnaval jurídico-perpétuo, cujo majestoso desfile acontece no palco iluminado do Supremo Togastão Festivo (STF). Lá, entre cortinas de veludo e lagostas gratinadas com ervas de Provence, a Suprema Caneta decide o que é lei, e o que é piada de mau gosto, com ingresso para o calabouço fatal. E, como todo bom festival, o Brasilistão tem seu imperador: o Ogro de Nove Dedos, autoproclamado Imperador Barba I, que desfila em palanques dourados enquanto distribui promessas como confetes molhados.

Pé na Cova já viu tantos reinados que não se espanta mais. Mas surpreende-se com a consistência do grotesco: um criminoso condenado por unanimidade em três instâncias — nove a zero, o placar perfeito de família — é recolocado ao palco porque o Togastão assim quis. Foi uma forma do Togastão agradecer a Dom Barba I tê-los colocado lá. Houve, dizem, uma reconciliação litúrgica entre pastas, pendrives e nuvens de e-mail. Em 15 de abril de 2021 o Togastão encenou uma reviravolta que mais pareceu mágica de festa junina: agora você o vê condenado, agora o vê descondenado, e tudo isso com cobertura de longos prolegômenos na TV Justiça, lagostas e vinho do Porto.

Pé na Cova coça o queixo (ele ainda inventa esse gesto) e murmura:

— No Brasilistão, o único placar que vale é aquele que a toga marca no escudo. Democracia? Só se for em versão pocket, para viagem dos togados a Nova York, Genebra e Paris.

E porque o humor negro adora uma formatação, o Togastão se concedeu um presente emblemático: sancionou um tal de Poder Moderador de Toga, criado não por uma assembleia constituinte, nem pelo Congresso Nacional, mas pela inspiração suprema desses ilustres cidadãos de toga. Assim, as leis passam a ser recomendações, e recomendações passam a ser cassinos de palavras onde a Suprema Caneta aposta e ganha. O lema, bordado nas cortinas de veludo do Plenário por algum marqueteiro com senso de humor, poderia muito bem ser: Nós decidimos, vocês obedecem. E o povo? O povo ri, chora, faz meme e é desmonetizado. Afinal, no Brasilistão, a democracia é plena, reconhecida por Cuba, Venezuela, Irã e até a ONU — desde que tudo seja aprovado pelo Togastão.

— E os memes, meu caro? — perguntou uma voz da rua, atravessando as frestas do caixão.

— Ah, os memes — respondeu Pé na Cova, com saudade — são o que restou do sarcasmo popular. Pequenos ex-votos digitais, pendurados nos mercados que ainda têm Wi-Fi. Mas, com data de validade.

A situação não é gentil com opositores. O Togastão descobriu formas modernas de matar politicamente um terraplanista fascista: cancelamentos nas redes sociais, bloqueios bancários, multas milionárias, exílios administrativos, um soft kill jurídico que preserva o corpo e arrasa o bolso. Não é preciso paredón, basta um despacho bem redigido para colocar um adversário no calabouço fatal. E se a plateia se revolta, o Togastão manda um comunicado solene lido por uma voz do cineasta vencedor do Oscar, Ainda Estou Aqui, e tudo vira teatro do absurdo.

Há uma cena em que Pé na Cova gosta de recontar com ironia gélida: a minuta do golpe, que circulou em pastas, na nuvem, grupos de WhatsApp e pendrives como se fossem receitas de bolo de avó, que foi filmada e vazada, e por isso caiu no gosto do deboche petralha. Teatral, sem roteiro, repleta de bravatas, igual comédia de pastelão. Um país que produz plot twist por WhatsApp chegou ao ápice do jeitinho institucional: se a prosa não permear o processo, o processo é quem termina por permear a prosa.

Em 2025 o Sistema Toga Petralha deu seu golpe mais escancarado: a morte simbólica de Jair Messias Bolsonaro. Não uma eliminação física. O Sistema Toga Petralha, apesar de tudo, ainda segue com regras mínimas. Foi um pomposo processo de anulação mediática: morto para a Nação, sepultado nos arquivos de transmissão, enterrado com multas milionárias, censurado nas telas, amputado da memória coletiva por decreto. Pé na Cova, que aprecia ironias históricas, aplaude:

— Uma morte por esquecimento é uma obra de arte burocrática. Não precisa de bala; basta um boato bem articulado e uma timeline vigiada.

Os nomes que antes circulavam livremente, daqueles que viraram caricaturas em outdoor e avatar de haters, agora aparecem como pseudônimos nas esquinas digitais. Para evitar que postagens sobre petralhas e piçóis caiam nos filtros automáticos, o povo apelidou os velhos conhecidos: o governador que faz selfie em obra com chuva de brita virou Narcísio G. Benfeitas; o que prometia estradas ao vento virou Romeu do Asfalto; o apresentador sempre aceso virou Dani do Microfone: com seu vozeirão de rádio AM, ele sempre anuncia a chegada de Dom Barba I como se fosse o Carnaval da Democracia. Pseudônimos viraram escudo: tão criativos quanto eficientes, e infinitamente mais divertidos.

Pé na Cova, porém, não é apenas zombeteiro; é analista social de cemitério. Ele observa como as instituições foram aparelhadas, como se tivesse havido uma convenção de costura onde se trocou o tecido da República por um veludo vermelho-vinho com reflexos tártaros, persas e mongóis, digno de um desfile de moda imperial, costurado por Xerxes e bordado por Gêngis Khan. Além do Togastão, a Polícia Federal, o Petistério Público, o IBGE, as agências reguladoras, tudo passou por reformas estéticas: trocou-se a cor das gravatas, os selos, mas manteve-se a mesma dança de máscaras. Pé na Cova acredita piamente que tudo virou moda: o Brasilistão veste o autoritarismo como um traje de gala.

— E a cultura? — alguém pergunta num sussurro pela ventania da cidade.

— A cultura virou playlist de enterro com funk e samba, com alguns versos de protesto escondidos entre refrões. Há artistas que continuam a cantar, outros que simplesmente aprenderam o novo código: sobrevivência rima com autocensura, como bem sabe o humorista Léo Lins, condenado a mais de oito anos por fazer piada politicamente incorreta.

Também existe a pauta da cogitação criminosa, a jabuticaba jurídica que criminaliza o pensamento incipiente. Bastaria rascunhar um plano, murmurar uma ideia num cafezinho, para que o Togastão inaugurasse um processo pelo crime de intenções. George Orwell, se vivo estivesse, bateria palmas. Pé na Cova sorri de lado, com face de argila.

— O Ministério da Verdade ganhou toga — conclui ele. — Agora ordens e imagens desfilam na TV Justiça com a solenidade de um espetáculo pirotécnico.

E o povo? O povo, haters a bordo, tenta rir. No lugar onde outrora havia praças, surgiram arenas de hashtags; onde havia jornais de papel, agora há podcasts de sobrevivência. Algumas revistas foram censuradas, alguns canais foram para o ar, e lá se foram, como quem apaga uma fogueira com gasolina: um espetáculo de fogaréu e fumaça dos infernos. Pé na Cova manda um beijo cínico às equipes de apagões culturais:

— Sabe como se fica famoso hoje em dia? Ser censurado por decreto. É a nova certificação de qualidade artística.

A sátira mais cruel, porém, é a do próprio poder, que se alimenta de rituais: sessões de toga festiva, lagostas que se encolhem nos talheres, discursos solenes sobre moralidade sendo proferidos entre goles de vinho do Porto. O Tocador de Caneta (apelido que Pé na Cova deu a um ministro do Togastão) assina sentenças e interroga consciências, sempre com pose de quem leu um manual de teatro do absurdo e decidiu aplicar o método. O espetáculo precisa continuar: há eleições no horizonte, e o Togastão já sabe quem convém manter no palco.

— Quer apostar? — pergunta uma coruja virtual, que assombra as linhas do tempo — o Sistema garante um favorito e dois coadjuvantes. Se o candidato for realmente independente, o Sistema o amarra com uma canetada: missão dada é missão cumprida!

Pé na Cova ri e lembra: o país não é unificado, é dividido em bantustões de ideias e algoritmos, onde o diálogo virou transmissor de dados e a empatia é um plugin pago, Plus ou Team. A multidão desloca-se entre calçadas e teclados, em busca de um fio de sentido que lhes oxigene o rosto. Alguns ainda cantam hinos de outrora, como Eu te amo, meu Brasil, vestidos de verde-amarelo; outros, entre uma gritaria sertanojo e uma baixaria funk, compartilham memes como penitência.

Na atualidade, não importa quem seja eleito Presidente do Brasil, de direita ou de esquerda, porque quem de fato governa é o Sistema Toga Petralha. O deboche do Togastão é tão escancarado e cruel que aplicou multa de R$ 22,9 milhões ao Partido Liberal (PL), por litigância de má fé. O PL, por pura coincidência, é o Partido de Jair Messias Bolsonaro e tem o número... 22. E o Ogro ficou muito feliz ao indicar o comunista Flávio Dino para o Togastão, justo no dia 27 de novembro de 2023, data que lembra a malfadada Intentona Comunista de 1935, que deixou mais de 1.000 civis e 34 militares mortos, alguns militares friamente assassinados enquanto dormiam no quartel.

Com as instituições federais totalmente aparelhadas pelo PT durante as duas últimas décadas, e observando as inúmeras maracutaias petistas como Correios, Mensalão, Petrolão, BNDES para obras em países dos kamaradas bolivarianos, como Cuba e Venezuela, até o extraordinário  chansonnier  Moacyr Franco perdeu a paciência, compondo uma canção-protesto: República Federativa do Bandido. Tem muito cidadão que não acompanha mais os noticiários, seja na TV, no rádio ou nas mídias, nem tem mais grupos de WhatsApp, bloqueou todos. E tem flamenguista fanático que não vê mais seu time jogar, só para não ter que ligar a TV Globo, considerada #GloboLixo.

No meio dessa ruína com iluminação cênica, há uma esperança teimosa, não anunciada pelos becos oficiais: a possibilidade de se erguer uma nova catedral, não de pedra, mas de consciência cívica. Pé na Cova, que tem tempo de sobra, observa as migalhas do renascimento nos Restos de Brasil: um coletivo que organiza teatro de rua, um grupo que cria o Movimento Brasil Conservador, uma escola que ensina retórica, latim e sarcasmo como ferramentas de resistência. São sementes pequenas, criadas com suor e riso mordaz. Enéas Carneiro vem aí!

— A luta é como uma costura feia — diz Pé na Cova — paciente, repetida, com pontos tortos que não ficam invisíveis. Mas costuram!

E assim o Brasilistão segue: o Gárgula de Nove Dedos gargalha do frontispício de sua catedral lúgubre, despejando promessas podres sobre os súditos do Brasilistão. O Sistema Toga Petralha segue com sua dança ritual, lembrando um sabá céltico de juízes em transe. Pé na Cova, fiel comentarista do cotidiano entrópico, derretido no próprio caos, celebra o absurdo com ironia: a tragédia foi cortada em episódios, o riso transformou-se em algoritmo de resistência e as noites ainda são longas, mas, para ele, eternas no sentido literal.

No fim do ato, Pé na Cova se vira para a plateia — não há público formal — e faz uma oração profana:

— Que os que sobreviverem aprendam a rir com aquilo que não podem mudar e a lutar contra aquilo que podem. Quando o teto ruir, não haverá mais fuga, apenas o silêncio de um país sepultado sob os escombros de sua própria orgia, ao som do último riso de pedra do Gárgula. Então, tenham a coragem de cavar uma saída em vez de esperar que o Imperador Barba I lhes entregue uma escada de papel.

O palco se apaga. A internet continua acesa. Os memes seguem sua marchinha fúnebre. E Pé na Cova retorna ao seu silêncio, satisfeito por ainda ter humor, e, como sempre, uma opinião mortal sobre tudo.


Obs.: Crônica tirada do e-book Contos Risonhos - Entre Risos e Sonhos (E alguns pesadelos)https://felixmaier1950.blogspot.com/2025/12/contos-risonhos-entre-risos-e-sonhos-e.html.


quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

O FASCÍNIO DOS ANOS DE CHUMBO - Por Raymundo Negrão Torres


Aos que se deliciaram com as falácias contidas nos dois recentes livros de Elio Gaspari, recomendo, a bem da verdade, que leiam atentamente o texto abaixo, de autoria do insuspeito historiador general Raymundo Negrão Torres e procedam as devidas correções nas deturpações da História, procedidas pelo jornalista. Aos que não tiveram a desventura de empestar a sua biblioteca com essa excrescência de Gaspari, sugiro que nem passem uma vista d’olhos nela, pelo risco de contaminação, de difícil cura.

jagulha@terra.com.br


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O FASCÍNIO DOS ANOS DE CHUMBO

Raymundo Negrão Torres (*)

Alfredo Hélio Sirkis – um ex-guerrilheiro urbano que ajudou Lamarca no audacioso seqüestro de dois embaixadores estrangeiros – relatou em livro suas experiências na luta armada comunista dos chamados anos de chumbo.

Ao publicar a 14ª edição de “Os Carbonários”, fez questão de inserir, como um novo prefácio, uma espécie de autocrítica na qual reconhece: “Mas a história, ela própria, acontece duas vezes. Uma no instantâneo eclodir dos fatos. Outra nas obras literárias, históricas, biográficas, memorialísticas e, hoje, no audiovisual, na TV, no cinema, em CD-ROM. Se na primeira perdemos fragorosamente, na segunda não nos saímos de todo mal”.

Mais adiante, ao confessar não compreender o permanente interesse da mídia por esse confuso e conturbado período de nossa história, escreveria: ”Muitas obras houve e, pelo fascínio que esse período continua a exercer, muitas ainda haverá”.

E aquele “fascínio” – que disfarça interesses pecuniários – continua dando seus frutos. A sua mais recente manifestação é uma “obra” cuja gestação custou – segundo o autor, Elio Gaspari - longos dezoito anos e o trabalho da maior equipe que uma editora já colocou à disposição de um escritor. Tempo mais longo do que Jacó precisou trabalhar para Labão, antes que este lhe desse a ambicionada Raquel e tão vasto que o irreverente Carlos Heitor Cony chegou a pensar que não viveria o bastante para ter a ventura de saborear o resultado de tão longa faina. Não sei o que o acadêmico e memorialista Cony achou da coisa, mas penso que nada dirá, além da reclamação que já fez em sua coluna diária da imputada co-autoria de um contundente editorial do Correio da Manhã publicado na véspera da queda de Jango Goulart. São “vinhos da mesma pipa”...

Costuma-se dizer que pelos frutos é que se conhece a árvore e árvore má não dá bons frutos. Daí ser interessante conhecer algo da vida do jornalista-autor, dono de página dominical inteira em jornais de circulação nacional e que se julga – “eliocentricamente”, como ele mesmo proclama - um dos ìcones de nosso jornalismo investigativo. A tomar como válido o esboço biográfico de Elio Gaspari traçado por outro conhecido e veterano jornalista, também durante muitos anos figura importante na redação da revista VEJA, em seu alentado livro “Notícias do Planalto”(Companhia das Letras), fica no ar a certeza de que o fruto é o retrato da arvore que o produziu.

Mário Sérgio Conti – até hoje não desmentido no que escreveu e publicou em 1999 – mostra um alvorecer para a profissão nada edificante, pois afirma que com sua ancestralidade napolitana, a convivência em um dos muitos colégios onde estudou com filhos de banqueiros do jogo do bicho e a observação da fauna de malandros, sambistas, prostitutas, pederastas e cafetões da Lapa (Rio), Gaspari embebeu-se do que chama de a “sabedoria das ruas”.

Precisando de uma profissão, acabou sendo empurrado, por sua militância no Partido Comunista, para o jornalismo em Novos Rumos, órgão do PCB, onde chegou depois de um modesto emprego na Embaixada cubana. A reviravolta havida com a queda de Jango Goulart o deixa sem trabalho por uns meses e o leva para um emprego em uma agência de notícias no aeroporto do Galeão que lhe abriria as portas para uma experiência em que sua “sabedoria das ruas” seria de grande valia para o seu promissor início como falsificador de entrevistas.

Como o tempo de contato com políticos e personalidades em trânsito era reduzido, o repórter já levava prontas as entrevistas que eram oferecidas aos que as quisessem encampar em troco da vantajosa aparição nos jornais. Isso triplicava sua produtividade e o recomendava aos patrões, aos encarregados das redações e aos “pauteiros”; além disso, a técnica inusitada e esperta faria escola.

Anos mais tarde, na revista Veja, “a molecagem” – no dizer de Conti – seria repetida, já refinada e com grande sucesso e vantagem. Escola que, ao que parece, nunca foi abandonada e foi utilizada contra uma de suas mais notórias e recentes vítimas, o brigadeiro Werner que teve sua entrevista publicada nas Páginas Amarelas da revista de forma inteiramente deturpada pela repórter que o ouvira, transformando-a em um pronunciamento de caráter nazista.

Esse refinamento deve ter sido também obra da experiência adquirida pelo jovem Gaspari, ainda no tempo do Galeão, quando começou a trabalhar para Ibrahim Sued, o mais bem sucedido colunista social, que soube, como ninguém, utilizar seu faro de repórter policial e informante da polícia para explorar a vaidade de “didus” e “dolores” e transformá-la em rendosa fonte de prestígio e dinheiro.

Terá sido, certamente, a ligação íntima com o “Turco” que terá dado a Elio Gaspari a ferramenta com que abriu o “cofre das vaidades” de certas figuras da ditadura – como Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva - de onde saíram os papéis de arquivos oficiais – transformados leviana e criminosamente em arquivos pessoais - e os “diários” com que montou sua mais recente e longeva obra, cujos dois primeiros volumes, logo que lançados, já despontavam na lista dos mais vendidos, mostrando que o Sirkis tinha razão, mesmo que o apontado fascínio seja o resultado de longas e trabalhosas compilações do que muitos outros já escreveram, com uma conveniente e capciosa seletividade de fatos e fontes ao bel prazer do autor, de declarações com o velho “cheiro de Galeão” e de um texto bem escrito, mas recheado de equívocos, erros grosseiros, meias verdades e mentiras completas, próprias ou encampadas. Falhas que já começam a ser apontadas publicamente, porque ainda estão vivas muitas das testemunhas dos fatos e que agora se dispõem a corrigi-lo e a contar o que sabem.

Em resumo, trata-se de uma obra escrita com objetivos canalhas que tem em vista tentar denegrir e enxovalhar as Forças Armadas, especialmente o Exército e seus chefes, que são, em muitos pontos, ridicularizados e depreciados.

À “sabedoria das ruas” – de que fala o Conti – talvez se devesse acrescentar outro talento herdado e que é revelado em um texto do Zuenir Ventura publicado no suplemento Prosa e Verso, de O Globo de 23 de novembro de 2002, onde ele dá a entender que a mãe do Gaspari, empregada do Hotel Excelsior, no Rio, se apropriou, indebitamente, de livros esquecidos no quarto por hóspede ilustre e os passou ao filho, quando os deveria ter entregue á gerência para serem restituídos ao seu legítimo dono, e hoje enriquecem a variada e volumosa biblioteca “Pedro Malan” do jornalista. Será verdade? O cáustico Elio, ao que se saiba, nunca explicou esse comprometedor lance.

Outra fonte de refinamento Gaspari acabaria tendo de sua ligação com Dorrit Harazim, uma iugoslava de nascimento que, depois de algum tempo morando no Brasil, andou pela França de onde teve de fugir para livrar-se das grades da Suretè francesa que a perseguia por suas ligações com os terroristas. Gaspari - que participou dos primeiros e difíceis tempos do lançamento da revista VEJA (1969/70) - trabalhou com ela por algum tempo na revista, para onde a recrutaram em Paris outras figuras marrons da imprensa, como os Civita e Mino Carta. Este, italiano como ele, muito o ajudou dando-lhe especial destaque na redação da revista, onde se notabilizou por seu jeito desenvolto, prepotente, intrometido e absorvente, para onde voltara com Dorrit em 1979, já casados ou coisa que o valha, depois de algum tempo de trabalho no Rio e no Jornal do Brasil.

Foi na tentativa de incrementar a cobertura política de VEJA que Gaspari veio a conhecer o “bruxo” Golbery de cuja intimidade passou a privar, como verdadeiro “leva-e-traz” de notícias e informações. Com a escolha e a eleição de Geisel para suceder a Médici, “caiu-lhe a sopa no mel”. A tal ponto que na redação da revista era visto como um “aliado da ditadura e um agente do Golbery na imprensa”. E era mesmo. Nas Explicações do primeiro volume da obra de que nos ocupamos, o jornalista não faz segredo dessa situação e confessa que sem o apoio e “a paciente colaboração” (pág. 14) do ex-presidente Geisel ela não teria saído.

Se a isto juntarmos certos equívocos nas apreciações contidas no depoimento de Ernesto Geisel à turma esquerdista do CPDoc da Fundação Getúlio Vargas (que analisei detidamente no capítulo Depoimento Geisel, páginas 103 a 113, de meu livro “Nos porões da Ditadura” da Editora Expressão e Cultura, 1998, Rio de Janeiro), será lícito concluir, sem ofensa à memória de quem já não pode mais defender-se, haver da parte do ex-presidente um empenho subjetivo de melhorar sua imagem histórica e eventualmente resgatar alguns dos inegáveis desacertos de seu governo, o mais autoritário do ciclo revolucionário.

Para quem claramente afirmou que a substituição de Castello por Costa e Silva levaria a Revolução de 64 à perdição e, mais tarde, teve a oportunidade de tentar salvá-la, mas, pelo contrário, ajudou a enterrá-la melancolicamente, parece que só restaram a covardia das memórias póstumas e o uso de interpostas pessoas para melhorar sua biografia. E uma delas, sem dúvida, é o autor de Ilusões Armadas, cujo processo de expulsão do Brasil, como estrangeiro indesejável, foi retirado do Gabinete Militar da Presidência a mando de Golbery que o fez desaparecer, como declarou recentemente, em artigo no jornal Ombro-a-Ombro, o então major Kurt Pessek.

Os dois primeiros volumes do livro do Elio Gaspari foram recebidos com o estardalhaço que era de esperar, pois todo o mundo queria saber o que continham os arquivos implacáveis do “bruxo” Golbery. Na edição do Globo acima citada, o jornalista Aluízio Maranhão cantou em prosa e verso os dois primeiros volumes da obra Só que, ao que parece, "a montanha pariu um rato".

Do resumo que o Globo publicou, já se podia ver quanto de besteiras, preconceito e inverdades estão nos grossos volumes já à venda. A revista Veja, na edição de 27 de novembro de 2002, também deu largo espaço ao lançamento do cartapácio.

Tentaremos alinhavar uma série de observações sobre pontos em que o já publicado é notoriamente incorreto, tendencioso, parcial ou incompleto, em que pese a enorme equipe que a Companhia das Letras – a grande interessada no sucesso editorial do empreendimento – formou para ajudar o autor.

Elio Gaspari parece demonstrar uma entranhada paixão pela democracia e pela liberdade, sentimento estranho e tardio em quem muito cedo alistou-se no Partido Comunista, certamente um equívoco da mocidade ou um jeito malandro de tirar proveito de ser comunista, como se constata no já citado livro do Mario Conti pelo elevado número deles nas redações dos jornais e revistas. O que acaba sendo irrelevante, tendo em vista o imenso número dos cristão-novos da Democracia que andam hoje por aí, no governo, na imprensa e alhures, com gordas indenizações e polpudas pensões arrancadas do suor do trabalhador brasileiro.

Outro detalhe interessante é que o autor faz críticas ferinas ao modo de escrever do general Lyra Tavares e dos capitães redatores de um certo Manifesto lançado na EsAO, esquecendo que eles não tiveram a vasta equipe de edição de texto que garantiu a sua boa sintaxe, conforme reconhece nos agradecimentos.

Cumpre ressaltar também que o autor contou – além da vastíssima bibliografia já existente sobre o assunto – com a colaboração de muitos “inocentes-úteis” que deram seus depoimentos em troca da honra de constar de um livro supostamente tão importante. Acima de tudo, contou com a boa fé de muitos depoentes que jamais iriam imaginar o uso que o jornalista faria de suas declarações e confidências, incluindo-as em um livro destinado a enxovalhar a farda a qual dedicaram suas vidas e que o Golbery, em certo ponto do livro, chama debochadamente de “fantasia”.

Por outro lado, o livro é farto de afirmativas que o autor não se dá ao trabalho de comprovar ou justificar, bastando para tanto a verdade da palavra “eliana” ou a citação de uma fonte muitas vezes duvidosa. Como na página 22 – 1º volume, onde afirma peremptoriamente que “Frota chegou ao generalato graças ao expurgo praticado contra centenas de oficiais fiéis ao regime deposto”. Em 1964, Frota devia ser coronel antigo; logo, o inventado expurgo teria de atingir coronéis mais antigos que ele ou mais bem colocados nos Quadros de Acesso e com o curso de Estado-Maior. Se o Exército dormiu janguista e acordou revolucionário, - como se afirma - de onde saíram as centenas de coronéis fiéis a Jango expurgados? Com tantos coronéis leais o “golpe” teria sido fatalmente derrotado.

Outra falácia que o autor repete é sobre o criador do SNI. E aí há certa justificativa, pois o próprio Golbery dela se pavoneava e muita gente até hoje a repete. O SNI surgiu por transformação do Serviço Federal de Informação e Contra-Informação (SFICI) criado no governo de JK. Quando este visitou os Estados-Unidos, o presidente Einsenhower manifestou-lhe sua preocupação com a infiltração esquerdista no governo brasileiro. Ofereceu-lhe assistência técnica para a criação de uma agência equivalente à CIA, lá surgida no governo Truman em 1949. JK desconversou.

Na visita ao Brasil, em fevereiro de 1960, Ike, além de sugerir a Juscelino que reconsiderasse sua decisão anterior de romper com o FMI, repisou sua antiga preocupação com a infiltração comunista no Brasil, o que tornaria necessário um reforço nos órgãos de segurança. Como JK estava interessado em reatar as negociações com o FMI, concordou em criar a tal agência. Foram criados o SFICI, bem como Seções de Segurança Nacional nos ministérios civis, todos subordinados à Secretaria Geral do Conselho de Segurança Nacional. Quem quiser conferir, leia Moniz Bandeira, em Brasil-EUA – A rivalidade emergente, Editora Civilização Brasileira – 1989, página 93, citado por Roberto Campos, em Lanterna na Popa, página 283.

É enorme a quantidade de maus julgamentos, ambigüidades, distorções, meias verdades e idéias preconceituosas constatadas no primeiro volume do “pentateuco” – A Ditadura Envergonhada – que vale a pena mencionar ainda que brevemente.

Embora admita, implicitamente, que até o AI/5 não havia censura (pág. 24) ao dizer que até a demissão do ministro Frota, em 1977, foram nove anos de restrições, mais adiante, entra em contradição e erra nas contas ao afirmar que com o mesmo Ato o Brasil entrara no mais longo período ditatorial de sua história (pág. 35), esquecendo o “curto período da ditadura estadonovista de Getúlio.

Demonstra uma profunda ignorância do que era a Doutrina de Segurança Nacional da Escola Superior de Guerra, confundindo-a com o que a esquerda caolha, raivosa e burra chamou de Ideologia, responsabilizando-a pela alegada violência do regime, e alongando-se em pretensiosas considerações que só fazem acentuar seu despreparo e sua verbosidade.(pág. 39-40).

Ao sumariar os acontecimentos que antecederam a queda de João Goulart, demonstra que, apesar do tempo de que dispôs e da enorme equipe com que contou, sua pesquisa foi claudicante, errônea e incompleta. Na eleição de Jânio-Jango, esquece e nem menciona a importância dos comitês Jan-Jan. A revolta dos sargentos em Brasília em setembro de 1963 – um dos antecedentes mais importantes da queda de Jango – nem é mencionada.

A importância da interinidade de Ernesto Geisel no comando da 5ª Região Militar é exagerada. Ressuscita um tal Setor Militar do PCB – um tal de SERMIL, mencionado por Luis Mir em seu livro “A revolução Impossível” – coisa em que ninguém ouviu falar e esquece notórios oficiais comunistas, como o major Lauro Garcia Carneiro, valendo-se de depoimentos que teriam sido prestados 33 anos depois dos acontecimentos.(pág. 53/54) E digo, teriam sido, porque há menção no livro a depoimentos que nunca foram prestados, como o atribuído ao então major Kurt Pessek (nota pág. 25). Pura invencionice, repetindo comentários que se ouviram na época em Brasília, afirma o oficial.

Ao falar do general Castello Branco (pág. 54/56) dá a entender que consultou o arquivo pessoal e privado do ex-presidente, mas ignora olimpicamente o importante livro de Luís Viana Filho sobre o Governo Castello Branco – nem mencionado na Bibliografia – e dá ouvidos aos cochichos de um ilustre depoente especial, gravados em doze fitas K-7, com que a filha do mesmo acaba de presenteá-lo, conforme confessa (pág. 15).

Ao falar do interesse dos americanos na situação brasileira nem de leve tem coragem para mencionar entre os eventos marcantes a ajuda aos seus atuais patrões – os Marinho – com o empréstimo de duzentos milhões de dólares do poderoso Time-Life, como forma de fortalecer um grupo que notoriamente se opunha a um presidente que ameaçava jogar o Brasil nos braços de Moscou. (pág. 59/62).

Assis Chateaubriand sempre achou que nessa estória havia o dedo do então embaixador do Brasil nos Estados Unidos, Roberto Campos, que nega o fato em suas memórias. A ajuda aos donos da Globo iria minar o predomínio das Emissoras e Diários Associados e fazer nascer um novo império na mídia brasileira.

E aí vão alguns tópicos para a Companhia de Letras incluir na revisão de uma próxima edição, se o quiser e se houver:

- a 1ª DIE da FEB na Itália pertencia ao IV Corpo de Exército americano. O 5º era o Exército do general Mark Clark de quem o capitão Vernon Walters fora ajudante de ordens (pág. 61);

- A Artilharia Divisionária/3 não era em Porto Alegre e o general Barra que a comandava não era o Rubens – que, como coronel servia em Curitiba – mas seu irmão Newton (pág,90);

- Almirante Vermelho era o apelido pelo qual era conhecido na Marinha o almirante Paulo Mário da Cunha Rodrigues, da Reserva, nomeado ministro nos estertores do governo Goulart e como conseqüência da revolta dos marinheiros, e não o almirante Aragão, chamado “o Almirante do Povo”.

A julgar pela versão dada pelo general Cordeiro de Farias em seu depoimento para Aspásia Camargo e Walder de Góes, sobre o que se teria passado em Curitiba nos idos de 64, sua versão encampada por Elio Gaspari de que “o Exército dormiu janguista no dia 31 e acordou revolucionário no dia 1º”, precisa ser colocada de quarentena. Aquela versão, meninos eu vi!, é inteiramente equivocada. Além disso, o então comandante da Região Militar, general Dario Coelho, fez publicar dias depois um relatório sobre os acontecimentos que desmente a versão do general Cordeiro.

A partir da página 130, o autor inicia um exercício de “chutometria” numerológica a respeito dos presos, mortos, exilados etc. Apresenta dados desde os da embaixada americana até os que, anos depois, surgiriam do livro de dois farsantes – Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio – intitulado “Dos filhos deste solo”.

A citação desse livro feita no final da longa nota de rodapé que tomou o nº 8 (pág.132) dá uma idéia do nível de empulhação que perpassa a obra. A referência cita a página 311, como apoio ao que diz sobre a morte do coronel Alfeu de Alcântara Monteiro. O caso desse oficial se encontra à página 561 e registra uma das muitas mentiras do grosso calhamaço editado com o dinheiro do PT (Editora Perseu Abramo) e sobre o qual vale a pena nos alongarmos, pois dá a medida do que se fez na tal Comissão de Mortos e Desaparecidos.

Ali consta que “Alfeu era coronel aviador. Foi fuzilado no dia 4 de abril de 1964 na Base Aérea de Canoas no Rio Grande do Sul. A perícia médica constatou que foi assassinado pelas costas com uma rajada de metralhadora, tendo sido encontrados 16 projéteis em seu corpo”. Em setembro de 1997, a Comissão concedeu indenização aos familiares do coronel, cuja viúva já recebia pensão militar, com o voto favorável do general Oswaldo Pereira Gomes, que, em entrevista à Folha de São Paulo de 7 de junho de 1998, disse:

“ (...) Houve um caso de um militar janguista que se rebelou num quartel do Rio Grande do Sul. Ele foi morto e a Comissão votou o processo em que ele teria levado 16 tiros pelas costas. Era o coronel Alfeu de Alcântara Monteiro. O pedido de indenização foi aceito. Eu mesmo aprovei o caso. Na verdade, depois de o caso ser apurado, fui descobrir que o coronel não tinha levado 16 tiros pelas costas, mas sim um tiro, após tiroteio (...) O que foi para o relatório “Brasil Nunca Mais” foi essa versão de 16 tiros pelas costas, o que é uma inverdade. Houve muitos casos como esse.”

O general era o representante das Forças Armadas na Comissão. Suas dúvidas sobre esse processo deveriam ter sido tiradas antes da votação, para que pudesse dar seu voto com absoluto conhecimento de causa, como é o mínimo que se espera de qualquer juiz. Elas seriam tiradas se, simplesmente, ele consultasse o IPM que, na época, apurou o fato. Se consultasse teria tomado conhecimento do que ocorreu: o brigadeiro Nelson Freire Lavanère Wanderley, acompanhado do coronel aviador Roberto Hipólyto da Costa, chegou à então 5ª Zona Aérea, em Porto Alegre, para assumir o comando, que deveria ser transmitido pelo coronel aviador Alfeu de Alcântara Monteiro, oficial mais graduado presente. O coronel Alfeu, amigo pessoal de João Goulart, após recusar-se a transmitir o comando, atirou e feriu o brigadeiro, sendo morto com um tiro de pistola 45 pelo coronel Hipólyto, em ato considerado como de legítima defesa de outrem. O coronel Hipólyto foi absolvido pela Justiça Militar. (jornal “Ombro a Ombro” de julho de 1998).

É assim que a esquerda conta a estória dos “anos de chumbo”, agora com o auxílio do tortuoso discípulo do Golbery.

As estatísticas do livro do Gaspari, fazem lembrar as elucubrações que ainda se fazem a respeito do número de índios que havia no Brasil quando da chegada de Cabral ou da falsificação numerológica sobre a população do Paraguai ao iniciar-se a guerra da Tríplice Aliança e que alimentou os inventores do mito do genocídio. “Chutometria” alucinada de burocratas que tinham de preencher e mandar relatórios. No território da 5ª RM, os presos não passaram de 20. Devem ter considerados como presos os que fugiram por nada, os exilados voluntariamente e os que se esconderam. Diz o autor que em três anos (1964/66) passaram pelas embaixadas cerca de 500 asilados. Os dados sobre as intervenções nos sindicatos e confederações, além de fantasiosos e confusos, são ridículos (pág. 131).. Misturam-se e embaralham-se dados para confundir o leitor e aumentar o número de páginas do calhamaço. Se nem o nome certo do órgão punitivo existente na ocasião eles sabem direito, com acreditar na veracidade do que escrevem.

O autor é mais um sujeito que não sabe que a comissão chefiada inicialmente pelo marechal Taurino era a Comissão de Investigação Sumária (CIS) e que a Comissão Geral de Investigações (CGI) – órgão para apurar atos de corrupção, só surgiria depois do AI-5, no começo de 1969, e era presidida pelo Ministro da Justiça (pág. 134). E as incorreções se sucedem como a que aparece na página 137, ao falar na crise da aviação embarcada, quando o número de ministros demitidos é mencionado incorretamente. Dado irrelevante, como se poderia argumentar, mas que desacredita o mais que se escreveu. Depois de tantos anos de pesquisa e com o auxílio de computadores e de uma enorme equipe, o livro tem passagens que fazem lembrar o do Barão de Münchausen. O problema é que a mentira, além de pernas curtas, tem muitas faces e a verdade só uma.

E o repórter falsário dos tempos do Galeão reaparece a cada passo, ao omitir detalhes que invalidariam sua tese ou seu raciocínio de uma evidente prevenção contra os militares, apesar de revelar-se um perfeito sabujo dos generais quando isso lhe traria algum proveito. Ao tentar mostrar o que chama de “a anarquia militar”, escamoteia do leitor fatos e circunstâncias relevantes em uma isenta apreciação histórica.

Ao mencionar a alegada rebeldia dos quartéis na vigência da Constituição de 1946 esconde que a pressão que levou o presidente Vargas ao suicídio foi o “mar de lama” que, segundo ele mesmo constataria envergonhado, corria por baixo do Palácio do Catete e que resultara no assassinato de um major da Aeronáutica por um sicário a serviço da guarda pessoal do próprio presidente. Que o impedimento dos senhores Café Filho e Carlos Luz foi necessário para abortar um golpe que pretendia impedir a posse do presidente eleito Juscelino Kubstichek (pág. 140).

Com o mesmo ânimo encampa a notícia falsa publicada em agosto de 1964 pelo Correio da Manhã, de que “o advogado e ex-deputado paranaense Walter Pecoits, que organizava camponeses na região de Cascavel, ficara cego de um olho, seis dias depois de ter sido preso pelo Exército”. O acusado de ter causado a cegueira no médico foi um oficial da Polícia Militar; a área de atuação do político do PTB não era Cascavel – que em outro ponto do livro é colocada a 200 quilômetros de Curitiba, quando fica a 500 – mas bem longe dali, em Francisco Beltrão/Paraná e Pato Branco/Paraná, onde em 1959 houve um levante de posseiros e, finalmente, fontes insuspeitas declararam que o médico já era quase cego da vista e usou a alegação da violência - que realmente ocorreu – para beneficiar-se politicamente e depois pecuniariamente do fato. (pág. 144). E perfilha, algumas páginas adiante, as estatísticas sobre tortura do famoso projeto Brasil: nunca mais, montado sobre a alegação geral e total dos terroristas e guerrilheiros - por instrução de seus advogados - para nos Juízos Militares derrubar as confissões feitas na fase de inquérito – algumas de próprio punho – alegando sistematicamente as terem feito sob maus tratos.

Curiosamente, uma das exceções foi a famosa Bete Mendes, a Rosa da VAR-Palmares, autora de falsa acusação ao coronel Carlos Alberto Ustra, em 1985

O autor, apesar de ter se tornado um “lambe-graxa” do Golbery, é um crítico feroz do SNI e tenta justificar o porquê de seu pretenso criador tê-lo chamado de “monstro”. Mas atribui ao órgão um pecado que não foi dele e mostra, mais uma vez, que quando se trata do Paraná, é mais mal informado do que o habitual.

A escolha do deputado Leon Peres para governador biônico daquele estado foi uma conspiração palaciana urdida junto ao presidente Médici por gente que se acotovelava no Palácio do Planalto, figurantes de um dos muitos círculos que se criavam na Brasília daqueles tempos – de que fazia parte o deputado e que o Sr. Roberto Médici em depoimento sobre seu pai apelidou de “clube inglês” - e nos quais se entreteciam os arranjos, onde os sócios trocavam elogios mútuos, procurando valorizar-se. E se o SNI chegou a fazer tudo o que o autor menciona (pág. 170/171) deveu-se principalmente ao “uso do cachimbo” que lhe impingiu Golbery e que deixou “a boca torta”, de que o próprio Gaspari dá um exemplo ao afirmar que um oficial de Marinha - cujo nome menciona - lhe mostrara em 1976 um informe do mesmo SNI, exemplo da intimidade que o jornalista gozava com gente do “monstro” em plenos “anos de chumbo”. Arcades ambo, como diriam os latinos e que se pode traduzir por “canalhas ambos”.

E a torrente de mentiras prossegue ao tratar o livro extensamente (pág. 191/196) da tentativa de guerrilha do “exército brancaleone” de Jefferson Cardim Osório, um “porra-louca” para os seus contemporâneos na Escola Militar e que, no episódio, recebia ordens do ex-sargento da Brigada Militar gaúcha, Alberi Vieira dos Santos, como ficou constatado na apuração do evento. Começa, ao dizer que ao atingirem a divisa do Rio Grande do Sul com Santa Catarina, “os guerrilheiros tinham o Exército no encalço”. O “exército” eram dois majores que tinham recebido a missão de rastrear e acompanhar à distância o bando.

A “viagem rotineira” do presidente Castello Branco era um importante evento para a época, qual seja a inauguração da Ponte da Amizade, iniciada por JK e que, ao contrário dos que fariam anos mais tarde com as grandes iniciativas deixadas pelos governos dos generais-presidentes os revanchistas odientos, fora continuada e concluída. E de repente, no relato “eliano” e como soe acontecer nos seriados históricos da TV Globo, o entrevero entre os aprendizes de guerrilheiro e a tropa legal viaja dezenas de quilômetros e muda-se para “as vizinhanças da cidade de Cascavel, duzentos quilômetros a oeste de Curitiba”.

E aí termina a ignorância geográfica de quem não sabe a verdade e começa a falsificação torpe de quem se empenha em difamar o Exército Brasileiro. Não pelo episódio da prisão que poderá ter acontecido, com o destempero do capitão comandante da tropa ao prender um dos responsáveis pela morte acontecida há pouco de um de seus sargentos e defrontar-se com alguém - que certamente não conhecia - sem farda, mas sobre o qual teria descarregado sua justa ira. A partir daí, volta a funcionar a fábrica de mentiras do discípulo do Ibrahim Sued; e vêm as torturas em três quartéis, a desconfiança de Castello com a rapidez das confissões – certamente sob tortura - e a comparação com episódios históricos de 22 e 24.

Jefferson Cardim durante sua longa prisão foi tratado com tanta consideração que conseguiu que comparsas seus armassem, por causa disso e explorando suas regalias, uma fuga espetacular que descrevi em um capítulo do meu livro, “Nos “porões” da Ditadura”, já citado acima. A apontada “rapidez das confissões” (prisão em 28 de março e leitura do presidente em 13 de abril) indicativa de uso de tortura é notícia do pasquim porto-alegrense Coojornal, de dezembro de 1978, o que por si só já desqualifica a afirmação, não fora a tolice de considerar que o prazo de quinze dias fosse motivo de espanto para a difusão de uma informação. E a comparação entre a ação de desatinados a serviço de uma potência estrangeira e subsidiados por dinheiro cubano com as tropelias internas de descontentes com um governo que os perseguiu, enquanto pôde, é descabida, mas coerente com tudo o que o autor assoalha em toda a obra, quando, sistematicamente, escreve que os de um lado “morrem” e os subversivos, terroristas e guerrilheiros são “assassinados”.

E para terminar esse exaustivo exame, embora parcial, de A Ditadura Envergonhada vale a referência comparativa com o que o autor chama a “Roda de Aquários”. É emblemática a leniência com que o autor trata a violência dos desordeiros americanos - que era reprimida sem contemplações pela polícia e que mais adiante motivaria severas medidas contra a indisciplina nos “campi” universitários – com a decisão com que os governos pós-64 enfrentaram a guerrilha urbana e a luta armada comunista em nosso país.

A obra de Elio Gáspari vem a lume no justo momento em que a democracia americana – atingida em seu próprio seio pelo terrorismo islâmico – adota medidas de salvaguarda que deixam o nosso AI-5 como um mero regulamento de colégio de freiras e onde os “porões” da ditadura brasileira - que tanto incomodaram certos círculos da terra de Tio Sam e muitos ditos brazilianistas – ficam a parecer um “jardim de infância” se comparados com os de Guantanamo...


(*) Raymundo Negrão Torres é general reformado e autor do livro 1964 – Uma Revolução Perdida.



Obs.:

Texto publicado no site Usina de Letras:
Artigos-->Élio, Cáspite! - memórias de um mentiroso -- 11/06/2003 - 14:57 (Félix Maier)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

CONTOS RISONHOS - ENTRE RISOS E SONHOS (E ALGUNS PESADELOS) - POR FÉLIX MAIER

Apresentação

 Você está prestes a abrir um livro que não promete mudar sua vida, mas certamente promete cutucá-la. Contos Risonhos – Entre risos e sonhos (e alguns pesadelos) é uma coletânea que mistura humor com filosofia de buteco, poesia com traumas cotidianos, lucidez com maluquice, e salpica tudo com uma ironia que faz o leitor pedir antiácido. São crônicas para ler com um sorriso no canto da boca, um sobrolho arqueado, ou ambas as reações ao mesmo tempo, dependendo do seu nível de resiliência literária.

Aqui desfilam personagens que poderiam muito bem ser nossos parentes ou vizinhos, ou nossas versões alternativas no multiverso da vida adulta. Tem marido aposentado que vira estorvo dentro de casa, árvore de personalidade forte que dá depoimento, velhinho que planeja a própria morte como quem organiza buffet de casamento, e Dona Encrenca, que é exatamente o que o nome indica. Tem também o improvável encontro de Machado e Eça no Purgatório, onde certamente cruzam penas como espadachins do verbo, discutindo quem acerta a estocada mais elegante no texto alheio, e um veterano do Exército chamado Jaque, que não perde a pose nem quando o mundo desanda.

Mas, não espere apenas risadas soltas: há sonhos, memórias, surtos, abduções por Nefertiti, políticos com dedos a mais (ou a menos), discussões teológicas, a menina que colhia lírios no campo e foi levada pela Covid-19, fios egípcios milagrosos, ogros, Grenal com quero-queros expulsos por falta de fair play, e até uma COP da Maniçoba, com o Ogro de Nove Dedos bebericando uma branquinha no deck de um iate de três andares. O Brasil aparece aqui com todas as suas camadas, inclusive as que a gente preferia fingir que não existem, como O Sistema Toga Petralha e Restos de Brasil. Com inveja do Hamas, criamos a Faixa de Gaza no Rio de Janeiro.

E, entre uma risada e outra, o livro ainda arruma tempo para homenagear Luzerna (berço do autor), discutir moda socialista (Rolex incluso), brindar com Martini antes e Sonho de Valsa depois, revisitar um sótão cheio de dinheiro inútil e tratar de um tema seríssimo: a solidão a dois, mal moderno que afeta casais, celulares e gatos como testemunhas.

No fim das contas, este é um convite para caminhar por um terreno onde o cotidiano vira fábula, o absurdo vira regra, e o riso — riso verdadeiro, aquele que faz a alma estalar os dedos — é o melhor guia possível. Abra o livro. Ele já está rindo de você. Ria com ele.

Félix Maier

Brasília, DF, dezembro de 2025.


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