A
noiva de Luzerna
Há
lugares onde as histórias nascem da imaginação, e há lugares onde parecem
brotar da própria terra, como as nascentes escondidas entre as pedras das
montanhas da Linha Limeira, em Luzerna, onde a Mãe das Vertentes guarda os
peixinhos num grande vaso de barro durante as estiagens mais severas.
O
Vale do Rio do Peixe sempre foi assim. Cada morro guarda um causo, cada capão
de mato esconde uma promessa ou uma maldição, e cada velho, quando se anima
diante de um mate bem quente, acaba lembrando de alguma alma penada que jurava
ter visto numa noite de cerração. Ou a lenda do Velho do Rio do Peixe, sempre
repetida durante a reza do terço à noite, tendo a capelinha com Nossa Senhora
passeando na colônia da Linha Limeira, casa a casa.
Uns
contam essas histórias apenas para assustar as crianças. Outros, porque
realmente acreditam nelas. E há ainda aqueles que dizem não acreditar em coisa
alguma, mas que, quando precisam atravessar sozinhos uma estrada depois da
meia-noite, apressam o passo sem olhar para trás, com medo do Fantasma do
Angico. Afinal, coragem é uma virtude admirável, mas prudência nunca fez mal a
ninguém.
Foi
numa dessas noites de conversa, muitos anos depois dos acontecimentos, que ouvi
pela primeira vez falar da Noiva de Luzerna durante a reza do terço. Um velho
colono, homem de poucas letras e de excelente memória, tomou um gole de vinho,
limpou lentamente os bigodes com as costas da mão e disse que certas tragédias
nunca acabam de acontecer. A pessoa morre uma única vez, explicava ele, mas
a desgraça continua vivendo na boca dos outros, passando de geração em geração,
até que já ninguém consiga distinguir onde termina a verdade e começa a lenda.
Talvez
fosse exatamente esse o destino daquela moça, cujo nome, por delicadeza ou
superstição, muita gente evitava pronunciar em voz alta, preferindo chamá-la
apenas de a noiva, como se o vestido branco tivesse acabado de substituir
o próprio nome.
Naquele
tempo, Luzerna ainda conservava o aspecto tranquilo das pequenas comunidades
formadas por descendentes de alemães e italianos, gente acostumada ao trabalho
duro e às alegrias modestas. As manhãs começavam com o canto dos galos e o
badalos do Big Ben da igreja matriz marcando as horas como Westminster, em
Londres. As estradas eram de chão batido, tão vermelhas depois da chuva que
pareciam feitas de barro recém-amassado. As carroças dividiam passagem com
alguns poucos caminhões, com correntes nas rodas, e o GMC do Dresch era chamado
para toda ocasião importante: transportar um doente até o Hospital São Roque,
buscar um vivente na estação ferroviária, levar um noivo até a igreja ou
rebocar o carro atolado de algum vizinho. O progresso chegava devagar, quase
pedindo licença, enquanto as araucárias que haviam escapado dos tratores da
Lumber, durante a construção da ferrovia, continuavam observando tudo do alto
de sua majestade silenciosa, indiferentes às pressas dos homens.
Maria
crescera naquele cenário como tantas outras moças da vila. Era bonita sem
alarde, possuía aqueles modos discretos aprendidos dentro de casa, sabia costurar,
bordar, cozinhar, cuidar da horta e tratar as pessoas com uma delicadeza que
parecia antiga até para seu tempo. Nunca fora dessas moças dadas a risadas
espalhafatosas ou namoros passageiros. Caminhava olhando mais para a frente do
que para os lados, e talvez por isso despertasse ainda mais curiosidade entre
os rapazes da região. Não faltaram pretendentes, mas havia muito tempo seu
coração já escolhera Pedro, um rapaz igualmente reservado, trabalhador
incansável e dono de uma honestidade tão sólida quanto as pedras de basalto que
sustentavam os alicerces da igreja matriz.
Ninguém
estranhou quando eles anunciaram o casamento. Pelo contrário, muitos comentaram
que aquela união parecia escrita desde os tempos em que ambos estudavam no
Grupo Escolar Padre Nóbrega e corriam descalços pelas margens do Rio Limeira,
muito antes de ele entregar suas águas ao Rio do Peixe, justo no local onde
trocaram o primeiro beijo, na romântica ponte coberta, feita de madeira e
cobertura de zinco.
As
famílias já se tratavam como parentes, as vizinhas disputavam o privilégio de
ajudar nos preparativos e até as crianças aguardavam a cerimônia como se fosse
uma festa da comunidade inteira. Durante semanas, as conversas na venda, na
saída da missa e nos mutirões de colheita giraram em torno do vestido da noiva,
dos doces que seriam servidos depois da bênção e da gaita que animaria o baile.
O
outono, entretanto, chegou carregando um céu pesado. Desde o amanhecer daquele
dia uma garoa fina descia sobre os telhados, sem violência, mas com a
persistência de quem pretendia permanecer ali até a noite. As araucárias
deixavam cair gotas grossas das extremidades dos galhos, e um vento frio
percorria lentamente o vale, fazendo estremecer as taquaras e os pés de milho
já colhidos. As mulheres mais velhas trocaram olhares discretos. Conheciam um
sem-número de sinais que a vida moderna aprendera a ridicularizar, mas que elas
continuavam respeitando. Chuva em casamento podia significar bênção, diziam
algumas. Outras, mais desconfiadas, respondiam que Deus também avisava certas
coisas pela natureza, bastando existir quem soubesse escutar.
Na
casa da família, porém, ninguém parecia disposto a alimentar maus presságios no
dia do casamento. A mãe de Maria ajeitava pela terceira vez um véu que já
estava impecável. Uma tia passava as mãos sobre o vestido para retirar fiapos
invisíveis. Uma vizinha insistia em benzer discretamente a noiva toda vez que
ela se distraía olhando pela janela. Maria sorria pouco naquela manhã, mas
todos atribuíram o silêncio ao nervosismo comum das moças prestes a se casar.
Afinal, casar-se não era apenas mudar de endereço. Significava abandonar uma
vida inteira para começar outra completamente diferente. Era natural que o
coração batesse mais forte.
Quando
finalmente chegou a hora de partir, o velho jipe Land Rover já esperava diante
do portão, lavado na véspera com um capricho pouco comum para um veículo
acostumado às estradas enlameadas da região. Alguns vizinhos haviam parado
apenas para ver a noiva sair de casa, e até quem fingia estar ocupado acabou
encontrando algum motivo para permanecer por perto. Maria atravessou lentamente
o pequeno jardim, segurando o vestido para que a barra não molhasse na grama
úmida. Caminhava com elegância, mas quem a observasse com bastante atenção
talvez percebesse que havia em seus olhos uma inquietação difícil de explicar,
como se uma pergunta antiga lhe voltasse à memória justamente quando deveria
existir apenas felicidade.
Foi
então que aconteceu aquilo que transformaria um casamento em lenda.
Maria
deteve-se no meio do caminho. Não olhou para o jipe, nem para a igreja que a
esperava no centro da vila. Seus olhos permaneceram fixos num ponto qualquer,
invisível para todos os demais. Aos poucos, seu rosto perdeu a cor, a
respiração tornou-se curta, uma das mãos procurou apoio no peito, enquanto a
outra parecia afastar do caminho alguma presença que só ela podia enxergar.
Houve quem dissesse, anos depois, que ela murmurou algumas palavras. Outros
juravam que apenas abriu os lábios sem emitir som algum. O certo é que, no
instante seguinte, deu meia-volta com uma rapidez impossível para quem vestia
um traje tão longo e voltou correndo para dentro de casa.
Os
familiares imaginaram um desmaio iminente, um ataque de nervos ou simplesmente
o medo natural que tantas noivas experimentam nos minutos anteriores da
cerimônia. A mãe correu atrás da filha, chamando-a pelo nome. O pai tentou
tranquilizar os vizinhos dizendo que tudo se resolveria em poucos minutos. As
mulheres insistiam para que ninguém se aproximasse demais. Maria, entretanto,
entrou no quarto, fechou a porta por dentro e não respondeu mais a nenhuma voz.
Começaram
então as batidas na madeira, primeiro delicadas, depois aflitas, por fim
desesperadas. O pai chamava, a mãe chorava, uma tia rezava em voz alta,
enquanto um vizinho mais forte tentava arrombar a fechadura. Quando a porta
finalmente cedeu sob o peso do ombro daquele homem, o quarto estava vazio.
Apenas a janela dos fundos permanecia escancarada, deixando entrar a garoa fria
e um vento que fazia ondular as cortinas como se mãos invisíveis ainda tivessem
acabado de afastá-las.
Bastou
um olhar para que todos compreendessem por onde Maria havia fugido. As marcas
dos sapatos afundavam nitidamente na terra molhada e seguiam em direção ao
morro do cemitério. Alguns homens saíram correndo sem dizer palavra. Outros
hesitaram por um instante, como se uma intuição inexplicável lhes aconselhasse
a não prosseguir. A chuva continuava caindo com a mesma serenidade indiferente
dos minutos anteriores, e isso talvez fosse o que mais assustasse: a natureza
parecia não perceber que uma tragédia acabara de começar.
Encontraram-na
pouco depois, enforcada junto a uma velha árvore que dominava o alto do morro
havia muitas décadas. O vestido branco, agora encharcado, confundia-se com a
neblina que havia invadido todo o vale, e ninguém teve coragem de pronunciar
palavra alguma. Pedro chegou por último. Caminhou lentamente entre os homens,
olhou uma única vez para a jovem que deveria tornar-se sua esposa dentro de
poucas horas e permaneceu imóvel, como se toda a dor do mundo houvesse
escolhido justamente aquele instante para pousar sobre seus ombros. Alguns
juraram que ele jamais derramou uma lágrima naquele dia. Outros afirmavam o
contrário. A verdade, porém, perdeu-se entre tantas versões, e talvez isso já
não tivesse importância. Existem sofrimentos que não dependem das lágrimas para
serem compreendidos.
O
enterro reuniu praticamente toda a comunidade. O sino da Matriz dobrou
lentamente enquanto o cortejo avançava sob um céu ainda cinzento depois da
missa de corpo presente. Ninguém sabia o que dizer aos pais da moça, tampouco
ao noivo, que caminhava de cabeça baixa sem responder aos cumprimentos.
Terminada a última oração junto ao túmulo, as pessoas voltaram para casa
carregando uma pergunta que ninguém conseguiria abandonar pelo resto da vida:
por quê? O que poderia ter acontecido entre o momento em que Maria atravessou o
jardim e aquele em que correu de volta para dentro de casa? Bastaram poucos
segundos para destruir um futuro inteiro, e nenhum dos presentes foi capaz de
oferecer uma explicação que convencesse sequer a si próprio.
Naquela
mesma semana começaram a nascer as primeiras versões. Diziam uns que Maria
descobrira uma traição, outros garantiam que recebera uma carta anônima. Havia
quem falasse numa antiga promessa jamais cumprida, numa doença escondida, num
segredo de família ou mesmo numa súbita perturbação da razão. Cada pessoa
acrescentava um detalhe novo, convencida de estar ajudando a esclarecer o
acontecimento, quando na verdade apenas engrossava a névoa que começava a
envolver a memória da jovem. Como costuma acontecer em comunidades pequenas, o
mistério tornou-se assunto obrigatório nas vendas, nas cozinhas e até na saída
da missa, onde as conversas começavam em voz baixa, cresciam em curiosidade e
terminavam invariavelmente com alguém balançando a cabeça e dizendo que certas
coisas pertencem somente a Deus.
Foi
justamente nesses dias que o Velho do Rio do Peixe voltou a aparecer pelas
redondezas.
Ninguém
saberia dizer ao certo quando ele chegara nem de onde vinha. Era como a própria
cerração do vale: num momento a estrada estava vazia; no seguinte, lá vinha
ele, chapéu gasto, barba grisalha, um velho poncho lançado sobre os ombros e um
bastão de araucária na mão, caminhando sem pressa, como quem não obedecia ao
calendário dos homens, mas apenas ao compasso da natureza. Havia quem jurasse
tê-lo conhecido ainda moço, embora sua aparência jamais parecesse mudar. Outros
afirmavam que ele surgia sempre depois de alguma grande enchente, de uma seca
prolongada ou de qualquer acontecimento que deixasse uma cicatriz na alma da
região. As crianças gostavam de acompanhá-lo por alguns metros; os cães jamais
latiam; e as gralhas-azuis, que costumavam desconfiar de qualquer cristão com
pinhão na mão, pousavam sem receio nas araucárias próximas, como se
reconhecessem nele um antigo companheiro de jornadas.
Na
manhã seguinte ao enterro da Noiva de Luzerna, o Velho subiu sozinho até o
morro do cemitério. Permaneceu um bom tempo diante da árvore onde a jovem
encontrara o fim da própria vida. Não rezou em voz alta, não fez o
sinal-da-cruz nem pronunciou qualquer palavra que pudesse ser repetida depois
pelos curiosos. Apenas retirou lentamente o chapéu e passou a mão calejada
sobre a casca úmida do tronco, como quem procura sentir a febre de um velho
amigo. Quando desceu do morro, perto da casa do fotógrafo João Zeni, um colono
perguntou se conhecera a moça. O Velho demorou um pouco para responder e,
olhando para o curso do Rio do Peixe, limitou-se a dizer que certas pessoas
atravessam o mundo como as nascentes das montanhas: nascem silenciosas,
alimentam a vida dos outros e desaparecem cedo demais, deixando apenas um vazio
que ninguém sabe preencher. O homem não compreendeu bem a resposta, mas nunca
mais a esqueceu.
A
vida da comunidade, como sempre acontece, tratou de seguir adiante. O trigo
precisava ser plantado, as vacas continuavam exigindo ordenha antes do
amanhecer, os porcos não deixavam de sentir fome por respeito ao luto de
ninguém, e o Big Ben da igreja continuava marcando as horas como se ignorasse
completamente a tristeza dos homens. Contudo, havia qualquer coisa que já não
era igual. Quando a neblina começava a subir do Rio do Peixe nas tardes frias,
poucos se aventuravam a passar pelo alto do morro. Não era medo, garantiam; era
apenas prudência. No interior, prudência sempre foi uma palavra elegante para
esconder superstições antigas.
Os
primeiros relatos sobre a noiva surgiram naturalmente. Um tropeiro contou que,
voltando tarde de Joaçaba, viu uma mulher vestida de branco caminhando entre as
araucárias, sem que os pés parecessem tocar o chão. Uma professora afirmou ter
ouvido soluços perto do cemitério, no início da Linha Nogueira, numa noite em
que não havia viva alma por perto. Um pescador, homem pouco dado a fantasias,
jurou que certa madrugada encontrou uma moça parada à margem do Rio do Peixe,
olhando a correnteza como quem esperava alguém trazer um bote do outro lado. Quando
se aproximou para oferecer ajuda, ela desapareceu na cerração antes que pudesse
distinguir-lhe o rosto. Houve quem risse dessas histórias, chamando-as de
conversa para espantar crianças, mas os mesmos incrédulos evitavam passar
sozinhos por aqueles lados depois que o sol desaparecia atrás das montanhas.
Como
toda cidade pequena possui mais especialistas em mistérios do que em medicina,
não demoraram a aparecer também os intérpretes do sobrenatural. Alguns
afirmavam que a alma da noiva permanecia presa ao lugar porque morrera sem
cumprir o sacramento do matrimônio. Pior: sem cumprir o sacramento da
confissão. Outros garantiam que ela procurava alguém a quem revelar o segredo
que a levara ao desespero. Os mais imaginativos sustentavam que Frei Bruno
Linden certamente conhecia toda a verdade.
O
velho franciscano, cuja fama de santidade já atravessava o Oeste catarinense,
era cercado por histórias extraordinárias. Uns diziam que possuía o dom da
bilocação e aparecia ao mesmo tempo em Luzerna e Joaçaba. Outros juravam que o
padre sabia das dores das pessoas antes mesmo que elas lhe abrissem o coração.
Ora, raciocinavam os fofoqueiros com uma lógica impossível de refutar
justamente por não fazer sentido algum, se um homem podia estar em dois lugares
ao mesmo tempo, por que não poderia conhecer um segredo que ninguém mais
conhecia?
Jamais
obtiveram resposta. Frei Bruno sorria discretamente quando o assunto surgia e
mudava de conversa com a habilidade de quem compreendia que alguns silêncios
valem mais do que qualquer explicação. O sigilo da confissão, diziam os mais
religiosos. A prudência de um santo, respondiam outros. O certo é que o
mistério cresceu ainda mais alimentado por aquele silêncio, pois poucas coisas
fertilizam tanto a imaginação humana quanto uma pergunta sem resposta.
No
Seminário São João Batista, de Luzerna, havia também outra figura que o povo
conhecia bem: Frei Henrique Müller, reitor do grande casarão de madeira, com
pilotis, dois andares e sótão, e disciplinador de vocação, com suas enormes
munhecas capazes de amassar a cabeça de um gato. Alto e forte, de voz firme e
olhar capaz de fazer um seminarista confessar travessuras ainda não cometidas,
alimentava uma fama curiosa entre gerações de seminaristas. Dizia-se que
possuía um método infalível para corrigir moleques espevitados: torcia-lhes a
orelha com tamanha habilidade franciscana que o castigo doía mais no orgulho do
que na pele.
Os
antigos garantiam que muitos futuros padres aprenderam as conjugações de todos
os tipos de verbos, História, Geografia, Ciências e, principalmente, boas
maneiras entre um puxão de orelha e outro — às vezes com sangramento escorrendo
pela face. Quando a conversa na Loja Bonato enveredava para o mistério da Noiva
de Luzerna, sempre aparecia algum gracejador dizendo que, se Maria tivesse sido
seminarista, Frei Henrique lhe teria torcido as orelhas antes que ela
inventasse tamanho desgosto para a cidade. Os mais religiosos logo repreendiam
a brincadeira, mas acabavam sorrindo, porque sabiam que o velho franciscano,
apesar da severidade, possuía um coração manso e uma paciência que só terminava
quando encontrava algum travesso disposto a testar os limites da disciplina.
O
Velho do Rio do Peixe, entretanto, parecia carregar aquela tragédia de modo
diferente. Continuou percorrendo as margens do rio cobertas por sarandis,
escondendo pinhões esquecidos pelas gralhas-azuis em clareiras onde um dia
nasceriam novas araucárias. Quem o encontrava tinha a impressão de que ele
envelhecera alguns anos em poucos dias. Numa tarde, sentado sobre uma pedra
enquanto observava a água correr mansamente, comentou com um menino que as
árvores morrem em pé, mas os homens, muitas vezes, morrem muito antes de o
corpo desistir de respirar. O garoto não entendeu, apenas guardou a frase na
memória, como se guardam as sementes que talvez um dia venham a florescer.
Os
anos passaram. O vale começou lentamente a mudar de feição. Novas estradas
foram abertas, a produção de alfafa continuava prosperando, os colonos podiam
escolher a quem vender: Fontana, Massignan e Fuganti. Algumas casas de madeira
deram lugar às primeiras construções de alvenaria em Luzerna. Adolfo
Knolseisen, o Adolfinho, abriu o Cine Central, onde predominavam fitas de
cowboy. O André Anrain inaugurou um açougue e um abatedouro de animais ao lado
da ponte coberta. A Loja Bonato vendia bala de coco feita por Emílio Altman.
Frei Sérgio Hillesheim seguia proferindo sermões memoráveis com sua voz de
trovão. O Dr. Nilson Germano Zomkowski
abriu um consultório dentário na vila, e a criação de suínos
transformou-se numa riqueza que poucos poderiam imaginar nas décadas
anteriores.
Quase
todos os dias, enormes caminhões da Sadia cruzavam o Vale do Rio do Peixe rumo
a Concórdia, passando por Luzerna, carregados de porcos para abate. Muito antes
de aparecerem na curva da estrada, já se sabia que vinham chegando. Não era o
ronco do motor que os anunciava, mas o cheiro inconfundível que deixavam atrás
de si.
Os
colonos, gente prática e dona de um humor que sobrevivia até às desgraças, logo
batizaram aquele rastro invisível de cheiro de dinheiro. Bastava um
caminhão passar para alguém comentar, segurando o nariz entre os dedos:
— Lá
vai mais um carregamento de prosperidade...
Outro
respondia:
—
Prosperidade, sim... mas bem que podia ser um pouco mais perfumada.
A
gargalhada corria de um lado a outro da estrada. Era um humor meio cruel, meio
resignado, típico de quem aprendera que a riqueza, no campo, raramente chega
cheirando a flores. Até os padres acabavam sorrindo diante da brincadeira,
embora logo em seguida recomendassem alguma moderação nas palavras, porque
nunca se sabe quando um porco pode acabar servindo de metáfora para um cristão.
O
Velho do Rio do Peixe assistia aos caminhões desaparecerem rumo ao horizonte
com uma expressão difícil de decifrar. Um rapaz perguntou-lhe certa vez se
também sentia o famoso cheiro de dinheiro. Ele respondeu que sim, mas
acrescentou, depois de um longo silêncio, que existiam fortunas incapazes de
comprar uma única noite de paz. Apontou então para o morro onde fica o
cemitério e concluiu que, por mais porcos que cruzassem aquelas estradas, nenhum
deles conseguiria levar embora a tristeza que permanecera naquele lugar desde a
morte da noiva. Os homens enriqueceriam, as cidades cresceriam, os motores
seriam mais potentes e as estradas mais largas, com asfalto, mas havia dores
que não obedeciam ao progresso.
Com
o passar das décadas, a tragédia transformou-se definitivamente em lenda. Os
pais de Maria partiram deste mundo sem jamais compreender o que acontecera.
Pedro envelheceu sozinho. Nunca se casou. Alguns diziam que, em certos fins de
tarde, ainda subia discretamente ao cemitério levando flores, embora ninguém
pudesse afirmar se isso era verdade ou apenas mais um enfeite acrescentado pela
memória popular. Os que conheceram diretamente os acontecimentos morreram um
após outro, e os novos moradores passaram a ouvir a história da mesma maneira
que se ouvem todas as antigas lendas: acreditando apenas pela metade, mas
evitando contrariá-las inteiramente.
Até
hoje, quando a cerração cobre o alto do morro e o vento faz gemer os galhos das
velhas araucárias, sempre aparece alguém disposto a jurar que viu uma mulher
vestida de branco caminhando lentamente entre as cruzes do cemitério. Outros
asseguram que jamais viram coisa alguma. Talvez ambos tenham razão. A verdade,
afinal, nem sempre se deixa enxergar pelos olhos.
Quanto
ao Velho do Rio do Peixe, continuou andando pelos caminhos do vale como fazia
desde tempos que ninguém conseguia recordar. Houve quem o encontrasse muitos
anos depois enterrando pinhões perto de uma nascente do Rio Limeira, e um
menino curioso perguntou por que insistia em plantar árvores cuja sombra talvez
nunca chegasse a desfrutar. O Velho sorriu pela primeira vez desde a tragédia
da noiva e respondeu que a esperança sempre trabalha para quem ainda não
nasceu. Depois fincou mais um pinhão na terra úmida, cobriu-o cuidadosamente
com as mãos e acrescentou, olhando para as araucárias que balançavam ao vento:
— Os
homens passam. As árvores ficam. As lendas também.
Dizem
que, antes de desaparecer mata adentro, voltou-se uma última vez para o morro
do cemitério, ergueu o chapéu em silenciosa despedida e seguiu seu caminho sem
olhar para trás. Talvez tenha sido apenas um velho prestando homenagem a uma
moça que nunca conseguiu esquecer. Talvez soubesse muito mais do que revelou
durante toda a vida. Ninguém pode afirmar.
E
talvez seja melhor assim. Porque existem histórias cuja maior verdade não está
na explicação, mas no mistério. Se um dia alguém descobrisse exatamente por que
Maria abandonou o próprio casamento para correr ao encontro da morte, a
curiosidade estaria satisfeita, mas a lenda morreria no mesmo instante.
Algumas narrativas sobrevivem justamente porque recusam qualquer resposta definitiva. Permanecem suspensas entre a fé e a dúvida, entre a lembrança e a imaginação, como a neblina que, nas manhãs frias de Luzerna, sobe lentamente do Rio do Peixe e, por alguns instantes, faz o mundo inteiro parecer um lugar onde até os silêncios contam histórias.
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Leia mais sobre Félix Maier em "Dados biográficos e memória" -
https://felixmaier1950.blogspot.com/2021/04/felix-maier-curriculum-vitae.html
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"A Noiva de Luzerna
NUM BAIRRO DE LUZERNA, contam que uma mulher vestida de noiva, no dia de seu casamento, enforcou-se em uma árvore no alto do morro perto do cemitério. Dizem que a mulher se arrependeu e, por isso, pessoas a vêem pedindo por ajuda, de noite, vestida de branco. Muitos moradores deste bairro juram que viram a mulher suplicando por ajuda, pois não queria morrer. Outras pessoas garantem que estas aparições não são verídicas, que nunca viram nada e que isto é coisa da imaginação das pessoas.
Colaboração: Cristiane Martendal, Franciele Schroeder, Gladir Salete Mattevi e Vânia Lochstein, professoras da região de Luzerna, cidade vizinha a Joaçaba SC, alunas da faculdade de Pedagogia da UNOESC (Literatura Infantil, 2º sem. 2002)
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O Batismo de um Burro
CONTAM AS PESSOAS IDOSAS do município de Jaborá que, por volta de 1925, numa das visitas do Padre que vinha do Rio Grande do Sul (Gaurama), algumas pessoas faltaram gravemente com respeito para com este religioso, impondo-lhe realizar o batismo de um burro, animal de propriedade de uma pessoa poderosa do município.
Em virtude do fato, o religioso teria lançado uma maldição sobre esta localidade, dizendo que jamais Jaborá haveria de progredir.
O povo, anos mais tarde, preocupado com esse fato negativo, pediu ao então Padre responsável pela Paróquia, Frei Albino, que solicitasse uma bênção do Papa para anular a maldição. E assim foi feito: Frei Albino conseguiu essa bênção apostólica do Papa Paulo VI, em 20/05/66.
Mesmos assim, o povo não perdeu o receio da maldição nesta localidade e, ainda hoje, relaciona o fato de Jaborá continuar sendo uma cidade pequena à maldição, lançada pelo antigo Pároco.
Colaboração: Cleusa Manthey, professora Jaborá SC, cidade do Oeste do estado, e aluna da faculdade de Pedagogia da UNOESC (Literatura Infantil, 2º sem. 2002)
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A Fonte Prodigiosa
SEGUINDO EM PEREGRINAÇÃO, levando consigo a certeza de que o povo de Catanduvas estaria espiritualmente encaminhado através da futura edificação da primeira capela, João Maria se instala em Águas Claras. Sua estada, nesta comunidade, reuniu grande número de pessoas e, após abençoar a nascente de água suave e límpida, passou a batizar o povo, abençoar, aconselhar e até prescrever remédios a base de ervas, ficando o lugar até hoje conhecido como o "Pocinho de São João Maria".
Mais adiante, também em Águas Claras, já a caminho de sua nova peregrinação, provavelmente para os Campos de Palmas, João Maria pernoitou próximo a uma pequena estrada. Quando partiu, novamente o povo fez um cercado no local, o qual foi conservado por muitos anos -- mas hoje resta apenas uma vegetação que foi plantada na ocasião (palminhas). O local ficou conhecido popularmente como o "Pousinho de São João Maria", sendo considerado um lugar abençoado de descanso.
A fonte permanece como uma relíquia da crença e da religiosidade popular transmitida pelo Monge.
Os tropeiros não passavam por esses pontos citados sem levantar a aba do chapéu, em sinal de veneração à pequena ermida, ou sem descer do animal para beber a água benéfica, abençoada pelo milagroso João Maria, fazendo também suas preces e orações.
É impressionante como, ainda hoje, muitas pessoas mantém esta crença no Monge, conservando o conteúdo imaginário em seu mesmo estado de pureza originário.
do livro Memórias de Catanduvas, da professora Gisleine Maria Maccagnan Pazini.
Colaboração: Neile Teresinha Maccagnan Ferreira, Rosmari Pecinato e Tânia Nora, professoras da cidade da região de Catanduvas SC e alunas da faculdade de Pedagogia da UNOESC (Literatura Infantil, 2º sem. 2002)
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A lenda da Gruta do Bicho
GUAECÁ É uma das mais belas praias de São Sebastião. Nesta praia, existe uma grande gruta. Sua entrada é bem grande e, quanto mais se penetra nela, seu tamanho vai diminuindo até não passar mais nada. De suas entranhas, goteja água constantemente.
Contam que aí, muito tempo atrás, morava uma enorme serpente. Esta serpente era maligna. Atraía para si as embarcações e devorava seus tripulantes. O terror era tanto que as embarcações procuravam navegar bem distante da praia.
Nesse período, Anchieta viajava de Bertioga para Ubatuba e ficou sabendo da serpente pelos marinheiros do navio em que navegava. Intrigado, Anchieta resolveu verificar se era verdade o que lhe contavam. Desembarcou em Barequeçaba, subiu o Morro das Sete Voltas e ficou esperando para ver a enorme serpente.
Depois de um certo tempo de espera, o monstrou saiu da gruta. Era feio e enorme. Anchieta não teve medo pois Deus estava a seu lado. Fez uma oração e aspergiu água benta na enorme serpente... Esta soltou um urro tenebroso e começou a vomitar sangue dos náufragos que tinha devorado. Ancheita continuou a rezar e a aspergir água benta. A serpente não agüentou mais: saiu da gruta e jogou-se no mar.
As águas que gotejam na gruta, dizem que é milagrosa. Acreditam ser a água benta de Ancheita que proteje o lugar para que o monstro nunca volte.
VIVIANE, Patrícia (org.). Mitos e lendas de São Sebastião. il. Marcelo Brossler Toledo. 3.ed. São Sebastião SP : Secretaria de Cultura e Turismo, 1996. p. 17.
Colaboração: Rosângela Pereira, coordenadora da Escola Municipal Guiomar Aparecida da Conceição Souza, em Boiçucanga, litoral norte de São Paulo.
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A Lagoa Sangrenta
UMA LENDA CONTADA há muitos anos, em nosso município, é a da noiva que aparecia na Lagoa Sangrenta. Durante a guerra de Anita que envolveu parte de nossa região que fazia divisa com o território do Rio Grande do Sul, aconteceu um fato curioso. Dois jovens muito apaixonados, mesmo sabendo que havia luta entre as tropas acontecendo nas ruas, resolveram casar-se num tal dia marcado.
Tudo preparado. Na noite do casamento, a noiva vestiu-se de branco e montada em um belo cavalo, partiu a caminho de seu amado. Porém, ao chegar perto de uma estrada onde havia uma lagoa, foi atacada pela tropa de guerreiros, que a confundiram com os inimigos. Essa tropa acabou por matá-la e seu corpo caiu na lagoa, deixando a água com a cor avermelhada de seu sangue: seu corpo sumiu entre a água e a escuridão.
Após esse dia, moradores da redondeza passaram a chamar essa lagoa de Lagoa Sangrenta. Mais tarde, pescadores que sempre ali pescavam começaram a ficar apavorados, pois afirmavam que, nas noites em que iam pescar, aparecia para eles a Noiva Vestida de Branco, montada em seu cavalo, acenando como se estivesse pedindo socorro.
Por muitos anos, essa lenda permaneceu em nossa cidade, sendo que nenhum pescador encorajava-se de ir pescar na Lagoa Sangrenta. Essa lenda é contada por antigos moradores dessa região e que, por muitos anos, viveram assombrados e com medo.
Colaboração: Carmen Land, Josie Martha von Borstel e Vanusa Nunes Vieira, professoras da cidade de Piratuba SC e alunas da faculdade de Pedagogia da UNOESC (Literatura Infantil, 2º sem. 2002)
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Kaguya Hime, A Princesa da Lua
UM CASAL DE VELHINHOS morava bem ao fundo de um bambuzal... Eles não tinham filhos e viviam modestamente fazendo cestos e caixotes de taquara. Certo dia, quando o velhinho cortava bambus, viu que um deles brilhava muito pela raiz. "Mas o que será isso?" Curioso, o velhinho cortou o bambu com o machado. Dentro do bambu, uma linda menininha! Ela era tão pequenina que cabia na palma da mão. O velhinho levou a menina para casa e mostrou para a mulher: "Foi Deus quem nos enviou!" A velhinha também ficou muito feliz e disse:
- Vamos chamá-la de Kaguya Hime!
Depois desse dia, o velhinho começou a encontrar outros bambus brilhando. E, de dentro, saíam muitas moedas de ouro. Só havia uma explicação: era a menina quem lhes trazia tanta sorte.
Kaguya Hime cresceu rápido. Depois de três meses, ela se transformou em uma bela moça, tão bela quanto um raio de luar. Logo a beleza da jovem começou a ser comentada pela região. Muitas pessoas vinham só para vê-la e formava-se uma longa fila em frente a casa. Pretendentes também não paravam de chegar: alguns vinham de muito longe, outros eram pessoas importantes. Mas ela...
Ela não queria se casar com ninguém!
No entanto, cinco dos pretendentes vinham todos os dias, sempre com pedidos de casamento. Kaguya Hime então disse "Se algum de vocês conseguir trazer os objetos que eu pedir, então me casarei com essa pessoa: um vaso de pedra dos deuses que nunca se quebra, o galho de uma árvore de pedras vermelhas, um manto de pele de animal que não se queima no fogo." Os objetos que Kaguya Hime pediu eram todos impossíveis de serem conseguidos. Os pretendentes tentaram falsificá-los, mas todos foram desmascarados.
Um dia, o próprio príncipe chegou à casa de Kaguya Hime:
- Sua beleza é ainda maior que sua fama. - e ele pediu: Gostaria muito que se casasse comigo. Mas a moça respon-deu: "Eu não posso me casar com ninguém." O príncipe respeitando a sua vontade, voltou triste para o seu palácio.
As cores do Outono tingia o céu...
Kaguya Hime começou a olhar para a lua, com grande tristeza... uma tristeza que ia aumentando a cada dia. Os pais ficaram muito preocupados e, então, perguntaram:
- Por que você fica olhando a lua, assim tão triste?
- Estou triste porque logo preciso ir embora. Na verdade vim de muito longe. Sou uma princesa do reino da lua e, na próxima cheia, virão me buscar.
Os velhinhos ficaram muito assustados: como se separar de uma filha tão querida?
Chegou a temida noite de lua cheia.
Os velhinhos pediram ajuda ao príncipe que enviou um batalhão de mil homens para impedir que alguém se aproximasse da casa. A princesa foi levada para o quarto dos fundos e os velhinhos aguardaram ao lado da jovem.
De repente, a lua começou a brilhar, brilhar, brilhar cada vez mais forte. "Preparem os arcos!" -- gritou o chefe da Guarda! Cegos com a luz da lua, ninguém pôde ver a chuva de pétalas que caía, nem a grande comitiva que descia, montada em nuvens, trazendo uma carruagem dourada... Quando todos puderam abrir os olhos, a comitiva já ia alta, levando embora a princesa.
CONTAM AINDA que Kaguya Hime deixou para os pais uma poção mágica de vida eterna. Mas sem a filha querida, os velhinhos não quiseram viver eternamente. Então, queimaram a poção na montanha mais alta e, até hoje, um fio de fumaça bem branquinha continua subindo ao céu, ou talvez, até a lua... essa montanha é o Monte Fuji.
KAGUYA HIME, a princesa da lua. adapt. Lúcia Hiratsuka e Peter O Sagae. Narração: Bia Grimaldi. In: MUKASHI... IMA - contos e lendas do Japão. São Paulo: Casa de Bambu/MCD, 1997. faixa 1.
Visite a página da escritora e ilustradora Lúcia Hiratsuka.
Informações sobre o CD Mukashi... Ima.
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A lenda do Mau Agouro
O POVO ACREDITA que se uma pessoa falando constantemente uma palavra infeliz, atrai as energias negativas. As palavras ditas geralmente são: desgraça, maldito, inferno e outras mais.
No Bairro de São Francisco, existia um homem chamado Zé Bastos que constantemente praguejava. Era um pescador muito corajoso que não tinha medo de nada. Toda madrugada era chamado pelo seu amigo Constantino para pescar.
Constantino todo dia chamava os pescadores, de casa em casa, para saírem para o mar. Certa noite de lua cheia, indo chamar Zé Bastos, que era mestre de rede, apareceu a sua frente um homem estranho. Por mais que Constantino andasse para alcançar o homem todo vestido de preto, a mesma distância continuava entre os dois. Estranho!
Saindo da rua principal, dobrando a esquina, o homem de preto ia na mesma direção de Constantino... estavam na rua do Fogo, perto da casa do Zé Bastos.
Quando Constantino chegou na frente da casa do amigo, a figura humana desapareceu. Melhor assim.
Zé Bastos gostava de ser chamado delicadamente, assim não perdia o bom humor. Sabendo idsso, Constantino olhou por um buraco na parede de barro, para chamá-lo, em voz baixa.
Meu Deus! O que é isso?
No quarto do Zé Bastos, estava o homem de negro com os dedos nos orifícios de seu nariz: parecia estar sufocando-o. Assustado, Constantino chamou o amigo aos gritos. Zé Bastos deu um pulo da cama, preparado para briga, meio acordado, não entendendo nada. O homem de negro sumira.
CONTAM QUE o homem de negro nada mais era do que a "desgraça" que tinha vindo buscar Zé Bastos, pois vivia chamando-a para levá-lo para o outro mundo. Nesta noite, veio buscá-lo para a morte, mas ele foi salvo pelo amigo Constantino.
Zé Bastos nunca mais praguejou.
VIVIANE, Patrícia (org.). Mitos e lendas de São Sebastião. il. Marcelo Brossler Toledo. 3.ed. São Sebastião SP : Secretaria de Cultura e Turismo, 1996. p. 13.
Colaboração: Rosângela Pereira, coordenadora da Escola Municipal Guiomar Aparecida da Conceição Souza, em Boiçucanga, litoral norte de São Paulo.
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A lenda do Santo que pecou
EM SÃO SEBASTIÃO, morava um homem que se chamava Benedito Lopes. Este caiçara era temido por todos, principalmente quando bebia, ficava agressivo, brigava com todo mundo e sempre que passava em frente à Igreja, ele insultava São Sebastião com palavrões. O padre, preocupado, dava constantes conselhos a Benedito. Explicava que São Sebastião, um dia, poderia castigá-lo. Esse não escutava o conselho.
Certo dia, Benedito foi encontrado morto na frente da Igreja. Quem poderia ter assassinado um homem tão temido? Esta coragem só teria São Sebastião. O Santo foi acusado pela população de assassinato e foi a julgamento. Depois de dois dias de julgamento e prestar depoimento, o Santo foi acusado e penalizado à prisão por cinco anos. Durante cinco anos, o Santo ficou preso na cadeia local e só saía para as procissões e, assim mesmo, escoltado por policiais. Após ter cumprido sua penalidade, voltou à Igreja de São Gonçalo.
VIVIANE, Patrícia (org.). Mitos e lendas de São Sebastião. il. Marcelo Brossler Toledo. 3.ed. São Sebastião SP : Secretaria de Cultura e Turismo, 1996. p. 7.
Colaboração: Rosângela Pereira, coordenadora da Escola Municipal Guiomar Aparecida da Conceição Souza, em Boiçucanga, litoral norte de São Paulo.
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A Lenda do Sino
POR INCRÍVEL QUE PAREÇA, o lado histórico-religioso de Minas Gerais parece ter chegado também aos confins de Ibitipoca com razoável força. Em meio a tantas grutas e corredeiras, lá está o famoso Pião, no alto de uma montanha do parque. Íngreme a ponto da chuva ter destruído as trilhas de terra, o mirante ainda conserva escombros de uma pequena capela, construída no topo daquela montanha há cerca de 40 anos.
O padre do município de Lima Duarte viajava 30 quilômetros a cada três meses para rezar a missa. Após oito anos de funcionamento, a igrejinha foi destruída pela queda de um raio. Sobraram apenas alguns ladrilhos do piso sagrado e o velho altar de pedra, além da imagem de São Bom Jesus, padroeiro da cidadezinha. O santo foi levado para o arraial vizinho de Mogol. Os restos da igreja foram literalmente carregados pela erosão do tempo e do vento.
Conta a lenda que, logo após a destruição da igreja, o tilintar do sino pôde ser ouvido por vários dias em Ibitipoca. Todos acreditaram que o grande sino havia permanecido de pé. Entretanto, quando os moradores locais se dirigiram ao local para verificar o que havia acontecido, não havia vestígios do sino. Aliás, a peça nunca foi encontrada. Chegar até as ruínas implica uma caminhada de cinco horas de ida e volta. Para substituir os trabalhos da Igreja do Pião, foi então construída a Igreja da Matriz de Ibitipoca, localizada no centro da cidade.
CARIDE, Daniela. A lenda do sino. In: Os andarilhos da serra da Mantiqueira. Gazeta Mercatil, São Paulo, 13 de mai. 1997. D-1, Viagens.
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Uma de Carlos Magno
O IMPERADOR CARLOS MAGNO, já em avançada idade, apaixonou-se por uma donzela alemã. Os barões da corte andavam muito preocupados vendo que o soberano, entregue a uma paixão amorosa que o fazia esquecer sua dignidade real, negligenciava os deveres do Império. Quando a jovem morreu subitamente, os dignitários respiraram aliviados, mas por pouco tempo, pois o amor de Carlos Magno não morreu com ela. O imperador mandou embalsamar o cadáver e transportá-lo para a sua câmara, recusando separar-se dele. O arcebispo Turpino, apavorado, com essa paixão macabra, suspeitou que havia ali um sortilégio e quis examinar o cadáver. Oculto sob a língua da morta, encontrou um anel com uma pedra preciosa. A partir do momento em que o anel passou às mãos de Turpino, Carlos Magno apressou-se em mandar sepultar o cadáver e transferiu seu amor para a pessoa do arcebispo. Turpino, para fugir àquela embaraçosa situação, atirou o anel no lago Constança. Carlos Magno apaixonou-se então pelo lago e nunca mais quis se afastar de suas margens.
CALVINO, Ítalo. Seis propostas para o próximo milênio. 2.ed. trad. Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p. 45."
(Textos extraídos de http://caracol.imaginario.com/estorias/index.html)
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Obs.:
1. Jaborá, a "cidade amaldiçoada", é uma vila próxima a Luzerna e Joaçaba.
2. Catanduvas é uma cidadezinha próxima a Joaçaba.
3. Guerra do Contestado:
João Maria de Agostini ou “Agostinho” foi o primeiro dos três monges messiânicos que fizeram pregação em Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná. Ele era italiano, nasceu no Piemonte (1801), passou pelo Pará, Rio de Janeiro, Sorocaba, deslocando-se depois para o Sul do Brasil, construindo capelas e erguendo cruzes ao longo de sua passagem.
João Maria de Jesus foi o segundo andarilho religioso que surgiu no Sul. Disse ele: “Eu nasci no mar, criei-me em Buenos Aires e faz onze anos que tive um sonho” (“João Maria – Interpretação da Campanha do Contestado”, de Oswaldo R. Cabral, Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1960, pg. 155). Frei Rogério Neuhaus conheceu bem esse beato (Vide “Frei Rogério Neuhaus”, do Frei Pedro Sinzig, Ed. Vozes, Petrópolis, 2ª edição). Este monge profetizou a guerra que iria ocorrer anos mais tarde.
O último dos monges, José Maria de Santo Agostinho, cujo nome verdadeiro era Miguel Lucena de Boaventura, era um soldado foragido do Exército (segundo uma versão) ou da Força Policial do Paraná (segundo outra versão).
“Como ex-militar, organizou então os acampamentos, aos quais denominou de ‘Quadros Santos’, entregando aos adeptos que julgou mais capazes não só o comando como ainda a direção das rezas e da forma. Para a sua guarda especial, cercado da qual se apresentava, soberbo e importante, ante as turbas que o aclamavam, reuniu uma curiosa escolta de 24 sertanejos, aos quais chamou de ‘os Pares de França’.
As simpatias, segundo dizem, eram em sua maioria dirigidas para o regime monárquico, imperando uma certa forma deturpada de saudosismo nas pregações. Corriam, de boca em boca, as aventuras guerreiras, hauridas na ‘História de Carlos Magno’ ” (CABRAL, op. cit., pg. 180-1)
José Maria comandou os colonos fanáticos contra uma tropa do Paraná, nos Campos do Irani, região onde hoje se situa a vila de Irani e a “cidade da Sadia”, Concórdia, dando início a Guerra do Contestado no dia 22 de outubro de 1912. Na ocasião, morreram tanto o monge como o coronel do Exército, João Gualberto Gomes de Sá, chefe da tropa paranaense.
Muitos foram os herdeiros de José Maria, que se dispuseram a vingar o sangue do monge e dos companheiros derramados em Irani. A campanha militar dos “fanáticos” foi uma guerra de guerrilha, com os “redutos” (Quadros Santos) mudando continuamente de lugar (principalmente na região de Videira e Caçador), desgastando as forças policiais e, inclusive, o Exército, que chegou a empregar pela primeira vez aviões em combate, para reconhecimento aéreo. Os rebeldes atacavam continuamente as localidades de Canoinhas, Papanduva (que chegou a ser tomada), Itaiópolis, Calmon, a estação ferroviária de São João. Curitibanos foi parcialmente destruída em 26 de setembro de 1914.
O maior reduto foi Santa Maria, chefiado por Aleixo Gonçalves, que se situava na atual região de Caçador, cidade que abriga o importante Museu do Contestado. Santa Maria foi destruída pela artilharia do general do Exército, Fernando Setembrino de Carvalho, comandante geral das operações, no dia 2 de abril de 1915, quando Adeodato Manuel Ramos conseguiu fugir para organizar a Cidade Santa de São Pedro, onde reuniu 4.000 pessoas. Esse reduto foi destruído no dia 17 de dezembro de 1915. Alemãozinho, Bonifácio Papudo, Carneirinho foram alguns dos líderes revoltosos, porém o mais célebre dos herdeiros do monge foi Adeodato, cuja epopéia pode ser vista no filme do catarinense Sílvio Back, “A Guerra dos Pelados” (F.M.).
Félix Maier nasceu em Luzerna, SC, publicou "Egito - uma viagem ao berço de nossa civilização", Editora Thesaurus, Brasília, 1995, e é articulista de Mídia Sem Máscara (www.midiasemmascara.org).


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