MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964

MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964
Avião que passou no dia 31 de março de 2014 pela orla carioca, com a seguinte mensagem: "PARABÉNS MILITARES: 31/MARÇO/64. GRAÇAS A VOCÊS, O BRASIL NÃO É CUBA." Clique na imagem para abrir MEMORIAL 31 DE MARÇO DE 1964.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

GEN EX EMILIO GARRASTAZU MÉDICI (1905-1985) - Por Veterano Cel Eng Claudio Moreira Bento


GEN EX EMILIO GARRASTAZU MÉDICI (1905-1985)

Veterano Cel Eng Claudio Moreira Bento
Historiador e Pensador Militar, Memorialista e Jornalista
"Tradição é a democracia dos mortos" (Gilbert Keith Chesterton).
Conheci e frequentei durante o Curso da ECEME 1967/69 a sede antiga do Instituto Histórico e Geografico Brasileiro onde realizei algumas pesquisas de interesse de minha terra natal Canguçu–RS da qual escrevia sua História deste 1956, com vistas o seu Centenário em 1857.
Em 1977 renovei este contato tendo nele feito uma conferência sobre o Sesquicentenário da Batalha de Passo do Rosário. E no ano seguinte como instrutor de História Militar na Academia Militar das Agulhas Negras terminei sendo aprovado seu sócio e nele sendo recebido pelo Gen Div Professor Jonas de Morais Correia Filho, presidente do IGHMB . E então passei a frequentar a sua magnifica sede construída por seu Presidente Pedro Calmon, que informava que aquele notável empreendimento muito se devia a empréstimo da Caixa Econômica conseguido com a ajuda do Presidente Médici que muito apreciava a História do Brasil em que havia inciado com a construção do Parque Marechal Manoel Luiz Osório em Tramandai–RS e estimulou a criação de outros parques como o Parque Nacional dos Montes Guararapes em Recife, do qual me coube como missão coordenar o seu projeto, construção e inauguração. Este com a presença do Presidente Médici. E neste trabalho entramos em contado com o Professor Pedro Calmon nos estimulando.
O IHGB em agradecimento ao apoio do Presidente Médici para a construção da grandiosa sede do IHGB batizou uma de suas salas de Presidente Emílio Garrastazú Médici para que ele ao deixar a Presidência pudesse usá-la. E eu conheci esta sala.
Com a morte do Dr Pedro Calmon, esta sala foi extinta. E com a morte do Presidente Médici em 9 de outubro de 1985 é da tradição do IHGB ao final do ano o orador fazer uma homenagem a seus membros falecidos. Mas esta tradição foi negada pela Diretoria ao Presidente Médici. E eu apanhei os dados constantes no IHGB e decidi fazer a seguinte síntese biográfica do General Emílio Garrastazu em meu livro "História da 3º Região Militar 1953-1999". Porto Alegre: AHIMTB/3ª RM 1999 que a seguir transcrevo.
Na 4ª capa trecho de seu discurso Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro ao tomar posse como seu Presidente de Honra
NÃO SE GOVERNA SEM HISTÓRIA
“A ninguém é lícito ignorar a importância da História no desenvolvimento nacional, como instrumento de ação, na elucidação de alternativas prospectivas assim como no encontro de métodos de análise dos acontecimentos que sirvam ao individual e ao coletivo.
Aqui também podemos afirmar que não se governa sem história e historiadores. E nós , os brasileiros podemos dizê-lo melhor do que ninguém, pois, pacificamente , nenhum pais cresceu mais que o nosso , pela pesquisa e análise de nossos historiadores.”
Nota do autor. E entre estes historiadores estava o Barão do Rio Branco, ex grande presidente do IHGB
Gen Div EMÍLIO GARRASTAZÚ MÉDICI “Servir, e servir cada vez melhor” Comandou a 3a RM de 10 Dez 1965 a 9 Jan 1967. Mais tarde comandou o CMS (ex-III Ex.) de 16 Abr 1967 a 26 Out de 1969, de onde saiu para assumir a Presidência da República.
Nasceu em Bagé-RS, em 4 Dez 1905, filho de Emílio Médici e D. Júlia Garrastazú Médici. Cursou o CMPA 1918-24. Praça de Io Abr 1924 na Escola Militar do Realengo, onde foi de-clarado Asp Of de Cavalaria em 7 Jan 1927. Serviu no 12° RC em Bagé Fev 1927 a Out 1937, ou por mais de 10 anos em sua cidade natal. Era o Oficial de Dia do 12° RC em 3 Out 1930, tendo aderido à Revolução de 30 e feito ligação entre militares e civis em Bagé, revolucionários. Foi comissionado Cap pela Revolução, retornando ao seu posto de Io Ten um mês depois.

Comandou efetivos do 12° RC em operações contra a Revolução de 32. Cap em 2 Out de 1934. Em 1937 foi ser Ajudante-Secretário da ECEME. Cursou a EsAO de Fev a Set 1939. Serviu no 8o RCI em Uruguaiana Set 1939 a Fev 1940. Instrutor da EsAO, Fev 1940 a Jul 1943, onde foi promovido a Maj em 24 Jun 1934 e ECEME 1943-44. Serviu no EM/ 3a DC em Bagé, Mar 1944 a Jan 1950, por quase 6 anos, inclusive como chefe de EM, tendo sido promovido a Ten Cel em Jan 1950. EM/3a RM Jan 1950 a Set 1953, como chefe da 2a Sec. (Informações) e Chefe do EMR/3 do Gen Coriolano de Andrade Cel em Jul 1953, comandou o CPOR/PA de 16 Out 1953 a 27 Abr 1957. Chefe do EM/3a RM do Gen Div Arthur da Costa e Silva de 29 Abr 1957 a 15 Mar 1960, quando surgiu forte amizade entre ambos.
Exerceu a chefia do Estado - Maior da 3a Região Militar em três ocasiões. Subcomandante da Academia Militar das Agulhas Negras em Resende-RJ de 12 Abr 1960 a 8 Ago 1961. Promovido a Gen Bda em 25 Jul 1961, comandou a 4a DC (atual 4a Bda C MEC) em Campo Grande-MS, de 29 Ago 1961 a 6 Fev 1963. Segundo a revista VEJA, por ocasião da renúncia do presidente Jânio Quadros, apoiou a posse do presidente João Goulart e a tese parlamentarista que terminou sendo adotada. Comandou a Academia Militar das Agulhas Negras, de 4 Mar 1963 a 8 Mar 1964. Aí teve papel importante para o desfecho incruento da Revolução de 1964, evitando um choque na altura de Resende, de governistas do CML (ex-I Ex) e contra revolucionários do CMSE (ex-II Ex) ao comando do santa-mariense Gen Amaury Kruel. Em Io Abr 1964, o Gen Médici bloqueou a Via Dutra com fortes contingentes de cadetes que as tropas do I Exército se recusaram a atirar, aderindo à Revolu¬ção e colocando-se sob as ordens do Gen Médici. É um episódio importante da História da AMAN, em cujo Gabinete de Comando foi definido o destino do Movimento Democrático de 1964. Adido Militar da Embaixada do Brasil em Washington.
Delegado do Brasil junto à JID e à Comissão Mista - EUA de 30 Jun 1964 a 21 Out 1965, onde foi promovido a Gen Div em 23 Jul 1965. Comandante da 3a RM - Porto Alegre, 10 Dez 1965 a 9 Jan 1967. Io Subchefe do EME no Rio de 30 Jan a 17 Mar 1967 e chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI) no Rio (no antigo Ministério da Fazenda), de 17 Mar 1967 a 16 Abr 1969- Gen Ex em 25 Mar 1969 e comandante do CMS (ex- III Ex) de 16 Abr a 20 Out de 1969 por cerca de 6 meses, tendo passado o comando ao Gen Augusto Cezar Muniz de Aragão, que o exerceu inteira¬mente. Escolhido para Presidente da República em função da doença do Presidente Arthur da Costa e Silva, foi eleito pelo Congresso em 25 Out 1969, com 239 votos a favor, e 76 abstenções do então MDB.

O Presidente Médici, como Presidente da República, deu ênfase ao culto da História do Brasil. Deu grande apoio, como comandante do III Ex ao Parque Histórico Marechal Manoel Luiz Osório em Tramandaí-RS, e estimulou a seguir, como presidente, ao Parque Histórico Nacional dos Guararapes, cujo planejamento, implantação e inauguração em 1970/71 tivemos o privilégio de coordenar de fato.
A atual sede do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, no Edifício Pedro Calmon à Av. Augusto Severo, 8, no Rio, deve- se a sua sensibilidade. Pedro Calmon, em gratidão, reservou uma sala como Gabinete do Gen Médici que foi desmontada ao desaparecer Pedro Calmon, pela Diretoria que o sucedeu.
Documentamos a projeção de sua obra no culto e divulgação da História do Brasil em nossa obra. Como estudar e pesquisar a História do Exército Brasileiro. Brasília: EME/EGGCF, 1978, ora em reedição pelo EME e nas p. 14/15.
O Gen Médici casou com D. Sylla Nogueira Médici, com quem teve os filhos Roberto e Sérgio. Sua atuação como Presidente é amplamente focalizada pela imprensa da época. Sônia Dias e Leda Soares fizeram ampla abordagem de sua vida e obra no Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro FGV-CPDoc (v. 3, p. 2159-2172), onde remetem o leitor a numerosas fontes. Biografou-o em 1973 o Gen Iberê Matos, em "A imagem de um Presidente". Todas, obras para um julgamento sereno, no futuro, longe das paixões do momento. Como Presidente conseguiu uma excelente identificação popular. Possuía um carisma todo especial. Faleceu no Rio, em 10 de Out de 1985, sendo velado lado no Clube Militar, onde comparecemos e testemunhamos fatos ali ocorridos.
Sobre a atuação do Gen Médici como comandante da AMAN e dos demais setores da Academia, o Aditamento ao BI/24 de Abr de 1964 com 6 anexos, as detalham. Fizemos considerações estratégicas sobre a posição de Resende nas revoluções de 1842, 1932 e 1964 em 1994 — AMAN — Jubileu de Ouro em Resende. V. Redonda: Gazetilha, 1994 p. 14-15).
Focalizamos sua ação no CML na obra de nossa lavra Comando Militar do Sul —4 décadas de história. Porto Alegre: CML, 1995.
Servir, e servir cada vez melhor.
Ao deixar a 3a RM, dela o Gen Médici despediu-se no BI Regional de 9 Jan 1967 e nos seguintes termos, exemplares às atuais gerações, como lição de bem comandar.
“Foi, para mim, motivo legítimo de profunda alegria e justificado orgulho, o ter sido comandante efetivo da 3a RM. No decurso de minha já longa vida militar, em várias oportunidades anteriores prestara serviços nesta Região. Neste Quartel General desempenhei funções de Chefe de Secção e Chefe do EMR/3. Cumpri pois, aqui, todas as funções atribuídas a um oficial de Estado-Maior".
Anteriormente, ainda subordinado diretamente à 3a RM, exerci as funções de comandante do CPOR-PA, um dos órgãos regionais que instrui e forma os oficiais da Reserva de 2a Classe do Exército, necessários à 3a RM para atender seus encargos de Mobilização.
O Rio Grande do Sul tem sido, através do tempo histórico, aquele espaço brasileiro onde, por excelência, se afirma a nacionalidade. No passado foram as lutas de fixação das lides internacionais; no presente tem ele sido o cenário onde se ferem outras lutas de afirmação, de características diferentes porque travadas contra maus brasileiros que se voltaram contra as mais caras e legítimas tradições nacionais e que, protegidos por aquelas mesmas Ponteiras marcadas com o sangue de nossos antepassados, trazem essa nova forma de luta para o solo gaúcho. Tudo isso diferencia a 3a. das demais Regiões Militares. Suas peculiaridades, a amplitude e a natureza do apoio que se lhe exige e, em decorrência, os problemas que a ela cabe solucionar, a tornam ímpar, exigindo dela um ambiente característico que a destaca e que se constitui na verdadeira base onde se assenta o trabalho do seu comandante.

Encontrei, também, velhos problemas que se vêm arrastando ao longo do tempo à procura de soluções adequadas às realidades regional e nacional. Para eles, desde o início, esteve voltada a minha atenção, e entendendo que somente um planejamento conjunto, objetivando uma solução global, poderia conduzir a resultados satisfatórios, foi que decidi nomear comissões para estudá-los, equacioná-los e integrá-los em busca do melhor caminho a seguir.
Porém, tal é a magnitude do empreendimento, que um ano foi tempo insuficiente para apresentar a obra definitivamente concluída, restando-me a satisfação de poder apresentar à meu sucessor, um planejamento em estudo e uma execução iniciada.

É diverso e complexo o apoio administrativo que a preparação e a conduta da guerra moderna exigem. No entanto, a natureza da guerra que hoje enfrentamos, predominantemente ideológica, com destaque especial quanto ao seu aspecto interno e o exterior, o desenvolvimento dos órgãos destinados a prover esse apoio, baseado apenas em necessidades do momento justifica-se, plenamente, pelas condicionantes desse mesmo momento - es¬tava pois, o apoio logístico, a exigir uma solução diferente, radical mesmo, em sua concepção que oferecesse, como solução final, não apenas o “Bem Servir” mas o “Servir Melhor”, lema que tão bem define a atuação da 3a. RM.
Visando sanar a inadequabilidade da atual localização de diversos órgãos de apoio, enquistados em pleno centro da cidade de Porto Alegre e, portanto, sujeitos aos inconvenientes de tal situação, a 3a RM adquiriu uma gleba de 185.783,00 metros quadrados, na Vila Anchieta, para nela construir, num sistema administrativo integrado, as instalações que permitirão a centralização dos Estabelecimentos, Parques e Depósitos Regionais situados nesta Capital.
Faz parte, também, desse planejamento, a administração centralizada e a segurança da área de um Batalhão de Comando e Serviços integrado pelos elementos orgânicos dessa OM, solução que, diferente do que até então se vem praticando no Exército Brasileiro, se mostra mais adequada, não só à realidade do momento histórico que vivemos, mas também representa um primeiro passo, nesta Região, em busca de um futuro novo, promissor, renovado e que, do passado, trará somente aquilo que de legítimo e de autêntico possuem as tradições brasileiras.

Considerando atualmente as difíceis condições decorrentes do déficit habitacional pelo qual atravessa o pais e da obrigatoriedade de frequentes mudanças de domicílio ocasionadas pelas necessárias movimentações dos quadros do Exército, a moradia para militares em serviço ativo foi considerado, durante meu comando, assunto de primordial importância no que respeitada a valorização do Homem. Visando minorar essas dificuldades, várias providências foram tomadas em 1966. Delas cumpre salientar, não apenas por sua repercussão no campo assistencial, mas também pela rapidez de seu andamento, a construção de um edifício com 32 apartamentos para oficiais em Porto Alegre, cuja conclusão é esperada para o próximo mês de Fevereiro de 1967. Relativamente a essa obra, cabe-me ainda aludir que, embora a Capital Gaúcha abrigue três Quartéis Generais de Grandes Unidades e inúmeras outras Organizações Militares, constituindo-se em uma das mais antigas e desenvolvidas Guarnições Militares do país, possuía, até 1966, apenas CINCO residências para militares, todas destinadas a Oficiais Generais; por isso, esse empreendimento assume papel de pioneiro no setor de moradia nesta cidade.
No interior do Estado foram concluídas e entregues à militares lá em serviço, 73 moradias, avultando a Vila Militar de Santo Ângelo, na qual foram ultimadas VINTE casas, sendo que 10 destinadas a oficiais e 10 para sargentos, a aquisição de uma residência destinada à moradia do Cmt da ID/ 3 e a conclusão de vinte casas, em Pelotas.
Em síntese, durante este ano em que tive o privilégio de comandar a 3a. RM, foram aplicados Cr$ 1.775.941.700 na construção de moradias para militares, cifra que por si só traduz o interesse posto para a solução de tão relevante problema, e foram entregues para utilização 73 moradias, estando outras 77 unidades residenciais em construção.
O ano de 1966 marcou, no Exército, o início de uma nova fase no que se refere à Assistência Social. Restrita, anteriormente, a pequenos benefícios promovidos através dos CENTROS SOCIAIS, dos Armazéns Reembolsáveis e das Instalações de Saúde, nem sempre capacitados à prestação de assistência efetiva, lançou-se o Exército em nova direção, destinando recursos paras atendimento de necessidades financeiras inadiáveis da comunidade, do grupo, e mesmo do indivíduo.
Sendo iniciativa pioneira, desde logo surgiram duas modalidades diferentes de execução: a centralização dos recursos com o Cmt da 3a. RM ou a sua descentralização, para emprego por decisão dos Comandantes das GU apoiadas.
Ainda neste setor assistencial tive a satisfação de ver concluídos os estudos e assinei convênio com a firma ARMADOR MAJEWSKI para prestação de “Assistência a Funeral” para dependentes de militares.

Os órgãos industriais subordinados a esta RM prosseguiram no decurso de meu comando, integralmente seus programas de produção. Cabe-me, entretanto, destacar as tarefas realizadas pelo Pq RMM/3, de Santa Maria, em virtude da solução definitiva que obteve para três velhos e cruciais problemas, recuperação de motores, baterias e pneus.
Os demais órgãos provedores diretamente subordinados também - bem aprenderam e aplicaram o lema que adotei durante o meu comando nesta RM: “Servir, e Servir cada vez melhor!”
Que agora referir-me, embora de forma ligeira, ao trabalho que se desenvolveu e se está desenvolvendo no CIBSB.
Tudo o que foi feito no CIBSB em 1966, o foi com recursos provenientes do próprio Campo.
De suas atividades nesse período, desejo destacar:
- o aumento do rebanho bovino com a aquisição de mais 2.000 cabeças de gado;
- a melhoria do rebanho ovino pela compra de melhores reprodutores;
- o início da criação equina da Raça Crioula;
- o início, em caráter experimental, da inseminação artificial em bovinos;
- a realização, pela primeira vez, do teste de brucelose;
- a melhoria das instalações do Engenho de Arroz, tendo em vista o aumento de sua capacidade produtiva;
- a construção e recuperação de 36 quilômetros de cercas de arame;
- a construção e recuperação de 36 açudes;
- o início do reflorestamento de algumas áreas com o plantio de cerca de 20.000 mudas, trabalho executado sob a orientação da Secretaria de Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul.
Visando o equipamento do CIBSB, estão planejadas e em estudo as seguintes medidas:
- construção de mais açudes, o prosseguimento do reflorestamento, visando, basicamente, a formação de cortinas florestais para quebra-vento e a implantação de abrigos, a subdivisão dos porteiros e a criação de mais três fazendas, sendo uma Experimental.
O CIBSB é uma fonte potencial de variados recursos da 3a. RM. Por sua extensão, comportando atividades agrícolas e pastoris simultâneas, sem prejuízo das possibilidades da implantação de um excelente Campo de Instrução especializado de que a recente “Operação Caverá” é prova inconteste, fez com que minha atenção estivesse sempre voltada para ele como uma área de inestimável valor, já que lá será possível integrar o binômio PRODUÇÃO-INSTRUÇÃO, sem prejuízo de nenhum dos componentes, numa experiência nova para este Exército Brasileiro que se renova, e que, na renovação, há de encontrar o melhor caminho para atingir a eficiência necessária a cada vez melhor cumprir sua destinação constitucional.
Embora Grande Unidade, com missão de apoio administrativo, a 3a RM, no ano 1966 não descurou dos problemas pertinentes à Instrução, particularmente naqueles ligados à Segurança Interna. Foi intensificada a instrução de Oficiais e de Sargentos. Para oficiais do QGR/3 e das OM Regionais de Porto Alegre foi dado destaque aos assuntos diretamente referentes ao conhecimento e equipamento do território regional e à instrução de tiro, inclusive realizando-se sessões para conhecimento e emprego do moderno armamento (FAP e FAL) com que se está dotando o Exército.
“. . . Outro motivo de satisfação para esta RM, no que se refere à Instrução, é o modo amplamente satisfatório da formação de oficiais da reserva no CPOR-PA e nos NPOR anexos ao 7o RI, 9o RI. I /19o RI e 3o RO 105.
. . Ao assumir o Comando da 3a RM senti necessidade de um contato direto mais freqüente com os comandantes chefes e diretores das OM Regionais. Assim, foi que estabeleci uma programação de reuniões periódicas, quinzenalmente para as OM de Porto Alegre, e na forma de simpósios, por natureza do serviço, para as localizadas no interior. Tal prática apresentou insultados altamente positivos, pelos objetivos que foram atingidos, permi- lindo uma mais fiel compreensão e execução das diretrizes e normas estabelecidas pelo Comando. É pois, com especial prazer que registro o esforço, a dedicação e o zelo desses oficiais, sem o que não teria sido possível construir da 3a RM a magnífica “equipe de trabalho” em que ela se constitui. Em tópico à parte, individualmente, apreciarei a atuação de cada um.”
Resta-me ainda, ao apreciar a 3a. RM como um todo, ressaltar o espírito de disciplina, de trabalho e de camaradagem que gera este extraordinário ambiente de confiança e de lealdade do qual me vi cercado e que se consumi no fundamento onde se assenta a transformação em realidade, do ideal contido no lema “SERVIR, E SERVIR CADA VEZ MELHOR”.Finalmente, aos despedir-me de meus camaradas da 3a. RM, desejo dirigir-lhes somente mais um palavra.

A atualidade mundial e a realidade brasileira estão a exigir não apenas muito de discernimento, de meditação e de sacrifício de nossa parte mas, especialmente, estão a exigir de cada um, e de todos nós, continuada ação em defesa dos interesses da Pátria e de sua Segurança. E penso que neste momento apenas uma ideia deve nortear essa ação: a de que em nossa Pátria não houve revolução, mas sim que uma REVOLUÇÃO está em marcha para construir um novo BRASIL.
Ao seu Chefe de Estado Maior consignou o seguinte elogio.

"Cel Américo José Brasil - Chefe do EMR/3. Ao assumir o comando da 3a Região Militar encontrei servindo no EMR/3 o Cel Américo José Brasil. Já o conhecia de longa data e por isso, não tive dúvidas em convidá-lo para chefiar meu Estado Maior. Sabia ser um Oficial de Estado Maior de escol e de excelentes atributos morais. Do acerto de minha escolha, bem comprovam a gama de trabalhos realizados sob sua orientação e a harmonia existente no QGR/3 e nas Unidades Regionais.
É o Cel Brasil um oficial muito inteligente, culto, capaz, trabalhador, enérgico, mas sobretudo leal e de trato agradável e humano. A par disso enfrenta todos os problemas com realismo e vontade. A ele devo muito do que foi realizado neste ano de comando.

Chefe de família exemplar e excelente companheiro. Pelo seu cavalheirismo e fina educação, conquista a admiração, a estima e a amizade de todos que têm a ventura e a oportunidade de seu convívio.
Serviu este ano, de realizações de tarefas comuns, para consolidar e fortalecer uma velha amizade que muito prezo.
Ao Cel Brasil, com meus agradecimentos pela sua sempre leal e eficiente colaboração, meus votos de pleno êxito na honrosa comissão para a qual foi proposto - Comandante do CPOR-PA - como justo e merecido prêmio a seus invulgares atributos de cidadão e soldado.” (Individual)
Último discurso
Como homenagem ao grande comandante da 3a. RM, é que transcrevo trechos de seu discurso derradeiro como Presidente da República, cargo culminante em cujo exercício muito se valeu da experiência adquirida como oficial do EMR/3, Chefe do EMR/3 por três vezes nos comandos dos generais Coriolano de Andrade e Arthur da Costa e Silva e, finalmente seu comandante operoso que lançou o lema: Servir, e servir cada vez melhor!
“Como ninguém governa só, volto o pensamento, nesta hora, para o alto colégio de estadistas e administradores, ilustres entre os mais ilustres, que em torno de mim se congregaram, como ministros de Estado, durante o período em que tive a honra, que não procurei, mas que sumamente me desvanece, de ser, como Chefe do Governo, o primeiro servidor da Nação.
Pelo talento e pelo valor moral, pela inexcedível capacidade revelada no desempenho do seu ofício, pela incomparável energia e operosidade com que se devotaram ao exercício dos seus cargos, pela intransigente fidelidade aos deveres da relevante função que lhes foi cometida, pela exata inteligência do interesse coletivo, pela abnegação e espírito público de que, em todos os momentos, deram o mais eloquente dos exemplos, esses admirá¬veis homens públicos não somente conferiram lustre ao meu Governo como, sobretudo, engrandeceram o Brasil.
Ao manifestar-lhes, em meu nome e em nome do País a que tão fielmente serviram, o mais profundo reconhecimento, não esquece a minha gratidão àqueles que, junto a mim, no Palácio do Planalto, viveram com dedicação, austeridade, finura e lucidez, o dia-a-dia do Governo com o qual, em clima de inalterável cordialidade, se mantiveram sempre, quer nos propósitos, quer no comportamento, completamente identificados.
Às Forças Armadas desejo render, também, imperativa e justa homenagem pela maneira eficaz, patriótica e desprendida como se houveram no desempenho da sua missão constitucional. Seja pela garantia prestada aos poderes constituídos, à lei e à ordem, seja pela participação direta e vigorosa em programas administrativos da maior transcendência, as corporações militares, fiéis à sua vocação, contribuíram, de forma decisiva, para a segurança, desenvolvimento e tranquilidade que imperam no País.
Nesta comovida expressão de agradecimento, envolvo, ainda, todos os agentes da Administração, dos primeiros aos mais altos degraus de hierarquia, porquanto, a todo o tempo e em todo o lugar, os servidores públicos acudiram, modelarmente, com presteza e proficiência, ao chamado para o cumprimento das missões, pianos e programas governamentais.
À grande e generosa família nacional, nobre e compreensiva, ativa e valorosa, entusiasta e empreendedora, quero, mais uma vez, creditar parte capital do merecimento pela obra realizada em comum, por governantes e governados, durante o período presidencial que hoje termina. Não fossem, na realidade, os recursos humanos com que contamos, recursos em que reside o que de mais precioso possui o Brasil, recursos cuja qualidade está em pleno desenvolvimento, não se teriam alcançado, nas condições que a história administrativa assinala, os objetivos que comandaram nestes últimos anos, a ação do poder público.
Cada país, pela singularidade dos traços que lhe desenham a fisionomia, é um ser político distinto e inconfundível. Cumpre, pois, à sociedade política buscar para os seus problemas, no exercício do direito de autodeterminação, as soluções indicadas pelo seu peculiar interesse, assim no plano econômico como na órbita social, assim no terreno cultural como na esfera política.
A cada povo se reconhece, por isso mesmo, dentro da tradição e da cultura ocidentais, o arbítrio de trilhar, sob o império da vontade social preponderante, os próprios caminhos para prover, à sua maneira e em obediência aos valores que lhe plasmam a individualidade, ao bem-estar e à felicidade coletiva.
Dessa prerrogativa se utiliza, superiormente, com imaginação e espírito criador, o regime vigente para fazer com que predomine a sua concepção do bem comum, alicerçada na prosperidade, na justiça social, na modernização da sociedade, na quebra do círculo vicioso do subdesenvolvimento humano, na ordem, na segurança, na unidade e na coesão nacional.
Do homem se diz, com profundidade não estreme de paradoxo, que somente nasce de modo completo quando morre. Isto porque é morrendo que o ser humano acaba de se realizar, fixando, de forma definitiva, a sua feição existencial. Dos governos, semelhantemente, se pode dizer que nas¬cem por completo quando terminam, porque é terminado que assumem, por igual, a sua feição definitiva.
Neste instante, pois, em que se exaure o meu mandato, nasce por completo, na sua perspectiva temporal, o Governo que presidi; portanto, aqui e agora, se encerra o ato derradeiro da missão que me foi incumbida. Nasce por inteiro exatamente no momento, para mim culminante, da transmissão do cargo de Presidente da República ao meu ilustre sucessor, Gen Ernesto Geisel.
Rico de significado, o fato histórico que ora se desdobra que se constitui reafirmação solene e incontestável do caráter impessoal do regime e de sua fidelidade aos princípios que lhe regem o funcionamento. Reflete este ato, de um lado, a plena estabilidade reinante no País, - estabilidade em que se funda o seu excepcional progresso sócio-econômico, - bem como traduz, de outra parte, o apoio maciço do povo brasileiro à filosofia social e política da ordem revolucionária.
Escolhido, em pleito livre e democrático, sob clima de absoluta tranquiIidade, pelo sufrágio da imensa maioria dos representantes do povo brasileiro, para guardião supremo dos ideais da Revolução de Março, o novo Chefe do Governo possui todas as condições para desencumbir-se, cabalinente, da missão que, em boa hora, debaixo do consenso geral da Nação, lhe foi atribuída.
Na fidelidade do Presidente Ernesto Geisel aos valores que informaram a decisão política de 31 de Março, no seu porte de estadista, no seu profundo conhecimento dos problemas nacionais, na sua envergadura ética e intelectual, na pureza dos seus princípios e na intransigência com que os observa, nas suas qualidades de administrador e nas suas virtudes de homem de ação, em tudo isso se funda a justificada simpatia e confiança com que o Brasil recebe a sua investidura na Chefia do Governo.
Animado dessa mesma confiança e simpatia, é que lhe transmito, de coração aberto e pleno de otimismo, o cargo de Presidente da República, em cujo exercício saberá manter o Brasil no rumo da grandeza a que está destinado. Saberá, sobretudo, o Gen Ernesto Geisel, na Magistratura Suprema da Nação, com a sua peculiar acuidade, patriotismo e prudência, não só prosseguir e consolidar os objetivos estabelecidos, como também criar objetivos novos, já que no governo dos povos, como é curial, não há objetivos definitivos e invariáveis. Saberá, dessa maneira, enfrentar os problemas suscitados por fatos sociais essencialmente novos, resultantes da velocidade com que, em nossa época, - já denominada, com propriedade, de segundo Século XX - evolui a comunidade humana. Saberá, em suma, realizar, em benefício do País, tudo o que for requerido pela felicidade do seu povo.
Senhor Presidente Ernesto Geisel: que Deus proteja Vossa Excelência e o seu Governo.”
Durante seu governo falou certa feita o Presidente Médici:
“Sinto-me feliz todas as noites quando ligo a TV para assistir ao jornal. Enquanto as notícias dão conta de greves, de agitações, atentados e conflitos em várias partes do mundo, o Brasil marcha em paz, rumo ao desenvolvimento. É como se eu tomasse um tranquilizante após um dia de trabalho.”
A importância e apreço do Presidente Médici pela História consta da 4a capa.
Em 16 abril 1999, decorridos 28 anos da inauguração do Parque Histórico Nacional dos Guararapes em 19 Abr 1971 pelo Presidente Médici. Parque que coordenamos seu planejamento, construção e inauguração e lançamos o livro As batalhas dos Guararapes - análise e descrição militar tivemos a sensação do dever cumprido ao ver o Parque consagrado, e nosso livro servir ali de base para ilustrar com seus mapas e maquete do Mirante ali construído em 1999 nos 350 anos da Ia Batalha e, mais, de ver nosso livro basear giro do horizonte realizado pelo comandante da 10ª Bda Inf Mtz, uma demonstração de um combate simulado pelo 14 BI MTz Batalhão Guararapes, seguido de deslocamento de 4 equipes de oficiais tendo seu líder em diversos pontos do campo de batalha, mostrado o desenvolvimento da Ia Batalha. E tudo iniciado com a surpresa de ser designado pelo Gen Div Paulo Roberto Yog de M. Uchôa, comandante da 7a RM/7a DE, para hastear o Pavilhão Nacional nos Guararapes em reconhecimento ao nosso pioneirismo na concretização do Parque Histórico Nacional dos Guararapes e pelo nosso livro sobre as Batalhas. E pensei, ali, que tudo isto não teria lugar, não fora a determinação pessoal do Presidente Médici em concretizá-lo, em reconhecimento ali haver despertado o espírito de força armada e de nacionalidade brasileira.
Lembro que, em 19 Abr 1971 no interior da Igreja dos Guararapes, três meninos de Pernambuco, um branco, um índio e um negro prestaram comovente homenagem ao Presidente e a D Scyla que muito os comoveram. Homenagem também que nos foi prestada, de surpresa, pelos mesmos meninos dentro da igreja em reconhecimento a nosso empenho na missão de tornar realidade o Parque Histórico Nacional dos Guararapes.
Ao falarmos no dia anterior na SUDENE, no Io Simpósio Guararapes, dedicávamos nossa palestra a memória dos generais Mascarenhas de Morais que em 1942 transladou para a igreja dos Guararapes, em memorável cerimônia cívico militar, os restos mortais de João Fernandes Vieira e André Vidal de Negreiros, chefe ilustre que ao final da Guerra em 1945 depositou nos Guararapes os louros da vitória da FEB; do Gen Humberto de Alencar Castelo Branco que desapropriou em 1965 o local das batalhas e finalmente do Gen Médici que idealizou, concretizou e inaugurou como presidente o Parque Histórico Nacional dos Guararapes e todos, hoje, em última analise, responsáveis pelo culto acendrado e conhecimento da epopéia Guararapes pelo Exército no Nordeste, onde os militares se saúdam com as palavras PÁTRIA tendo como resposta BRASIL!
Isto com o significado de que o sentimento de Pátria Brasil nasceu ali no Nordeste, em maio de 1645, quando 18 lideres patriotas firmaram um compromisso de libertar a Pátria Brasil, do domínio do invasor, independente de Portugal que não possuia condições diplomáticas de fazê-lo.
Recordando Pedro Calmon, amigo do Gen Médici, ao qual devia as modernas instalações do atual Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, ele assim definiu o sentido dos Guararapes onde o Presidente criou o Parque Histórico.
“Foi nos Montes Guararapes há 350 anos. A maior das batalhas. O supremo desafio. O duelo mortal do invasor com o filho da terra, do estrangeiro com o nativo, da poderosa opressão e da liberdade heróica. Ali nos Guararapes, em verdade, o luso brasileiro fixou e definiu o seu direito à terra. Tornou-se pela força das armas o seu dono.”
Para Gilberto Freyre, “Nos Guararapes escreveu-se a sangue o endereço do Brasil, o de ser um só e não dois ou três, hostis entre si.”
É fácil, pois, concluir-se o empenho do antigo comandante do III Exército em concretizar o Parque Histórico Marechal Manoel Luiz Osório que foi objeto de nosso livro "A Grande Festa dos Lanceiros", Recife: UFPE, 1971, (também lançado na inauguração do Parque Guararapes) e depois como Presidente, empenhar-se na construção do Parque onde, em tempo recorde, foi implantada a belíssima e cara rodovia de contorno, por desejo expresso do grande ministro Cel Mário Davi Andreazza. E ela lá está como instrumento de proteção e turismo no Parque de que é guardião o Regimento Guararapes.
O Gen Ex Gleuber Vieira, Ministro do Exército, por Portaria de 8 junho deu a denominação histórica de Batalhão Presidente Médici ao 8o Batalhão Logístico de Bagé, originário do 12° Regimento de Cavalaria, a primeira Unidade do então Aspirante de Cavalaria Emílio Garrastazú Médici onde ele serviu por 10 anos, de 1927-37, e com a qual realizou operações na Revolução de 30. Unidade de apoio logístico, atividade em se consagrou o Gen Médici como comandante da 3a Região Militar, a qual imprimiu o lema Servir, e servir cada vez melhor!
E, assim, o Exército abre um processo de resgate e justiça histórica ao ilustre chefe militar!
História e verdade e justiça! E a Diretoria do IHGB que recusou através do seu orador prestar uma homenagem a este grande brasilleiro cometeu uma enorme injustiça e contrariou o que afirmou Gilbert Keith Chesterton (1874-1936). De que “a Tradição é a Democracia dos mortos.” Isto quando os vivos respeitam as decisões dos mortos. E o professor Pedro Calmon não deve respeitadas suas decisões relativas ao Presidente Médici e nem foram respeitadas normas dos Estatutos do IHGB relativa a homenagens que deveriam ser prestadas pelo orador ao final do ano a seu membros falecidos.
Há 44 anos sou sócio do IHGB e minhas contribuições ao IHGB constam de meu livro digital "Meus 28 artigos na Revista do Insntituto Histórico e Geografico Brasileiro", disponivé para baixar em Livros e Plaquetas no site www.ahimtb.org.br.

História é Verdade e Justiça!!!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

OS INCRÍVEIS EXÉRCITOS DE BRIZOLEONE - Por F. Dumont

 OS INCRÍVEIS EXÉRCITOS DE BRIZOLEONE

Por F. Dumont

OS INCRÍVEIS EXÉRCITOS DE BRIZOLEONE - CAP I

OS GRUPOS DOS ONZE E O EXÉRCITO POPULAR DE LIBERTAÇÃO

Em outubro de 1963, Leonel de Moura Brizola, então Governador do Rio Grande do Sul, considerava que o Brasil estava vivendo momentos decisivos e que, rapidamente, se aproximava o desfecho que poderia colocar o País numa nova linha política. Nesse momento, raciocinava o caudilho gaúcho, ele queria estar na crista da onda esquerdista que varreria o País. Sucessivamente, em 19 e 25 de outubro, Brizola fez inflamados pronunciamentos à Nação, através dos microfones de uma cadeia de estações de rádio liderada pela Mairink Veiga, que detinha, na época, o maior percentual de ouvintes das classes média e baixa. Nesses pronunciamentos, eivados, como sempre, de metáforas e redundâncias, conclamou o povo a organizar-se em grupos que, unidos, iriam formar o "Exército Popular de Libertação" (EPL). Com sua habitual e singular loquacidade, comparou esses grupos com equipes de futebol e os 11 "jogadores" seriam os "tijolos" para "construir o nosso edifício". Estavam lançados os "Grupos dos Onze" (G-11) que, para Brizola, constituir-seiam nos núcleos de seu futuro exército particular, o EPL. Os documentos posteriormente encontrados em seus arquivos pessoais revelaram os planos para a formação dos G-11 e do EPL, escritos numa linguagem incisiva mas primária, dramática mas demagógica. O documento mais hilariante, se não fosse macabro, era o das "Instruções Secretas", assinadas por um "Comando Supremo de Libertação Nacional". Ele iniciavase por um "Preâmbulo Ultra-Secreto", no qual a morte incidiria sobre aqueles que revelassem os segredos dos G-11: "Após tomar conhecimento, só a morte libertará o responsável pelo compromisso de honra assumido com o Comando Supremo de Libertação Nacional ... 0 compromisso de resguardo deverá ser um tanto http://www.ternuma.com.br/brizola.htm (1 of 5) [16/09/2008 00:11:35] Brizola solene, para impressionar o companheiro, devendo, antes, verificar as idéias desse Soldado dos G-11, a fim de que seja selecionado, ao máximo, os autênticos e verdadeiros revolucionários, os destemerosos da própria morte..." Os G-11 seriam a "vanguarda avançada do Movimento Revolucionário", a exemplo da "Guarda Vermelha da Revolução Socialista de 1917 na União Soviética". Defendendo a tese de que "os fins justificam os meios", fazia veladas ameaças sobre futuros atos dos G-11: "Em conseqüência, não nos poderemos deter na procura de justificativas acadêmicas para atos que possam vir a ser considerados, pela reação e pelos companheiros sentimentalistas, agressivos demais ou, até mesmo, injustificados". Os integrantes dos G-11 deveriam considerar-se em "Revolução Permanente e Ostensiva" e seus ensinamentos deveriam ser colhidos nas "Revoluções Populares", nas "Frentes de Libertação Nacional" e no "folheto cubano" sobre a técnica de guerrilha (nessa época, os "folhetos cubanos" sobre a técnica de guerrilhas eram disseminados, no País, pelos denominados Movimentos de Educação Popular). Admitiam, essas "Instruções Secretas", que a época era propícia à atuação dos G11: "Devemos nos lembrar que, hoje, temos tudo a nosso favor, inclusive, o beneplácito do Governo e a complacência de poderosos setores civis e militares, acovardados e temerosos de perder seus atuais e ignominiosos privilégios". Instruíam os G-11 sobre a aquisição de armas, recomendando "não se esquecer dos preciosos coquetéis molotov e outros tipos de bombas incendiárias". Alertavam, também, que: "A escassez inicial de armas poderosas e verdadeiramente militares será suprida pelos aliados militares que possuímos em todas as Forças Armadas..." As "Instruções Secretas" estabeleciam o esquema para o início do movimento insurrecional: http://www.ternuma.com.br/brizola.htm (2 of 5) [16/09/2008 00:11:35] Brizola "... os camponeses, dirigidos por nossos companheiros, virão destruindo e queimando as plantações, engenhos, celeiros, depósitos de cereais e armazéns gerais... A agitação será nossa aliada primordial e deveremos iniciá-la nos veículos coletivos, à hora de maior movimento, nas ruas e avenidas de aglomeração de pedestres, próximo às casas de armas e munições e nos bairros eminentemente populares e operários. Desses pontos e à sombra da massa humana, deverão convergir os G-11 especializados em destruição e assaltos, já comandando os companheiros e com outros se ajuntando pelas ruas e avenidas, para o centro da cidade, vila ou distrito, de acordo com a importância da localidade, depredando os estabelecimentos comerciais e industriais, saqueando e incendiando, com os molotovs e outros materiais inflamáveis, os edifícios públicos e os de empresas particulares. Ataques simultâneos serão desfechados contra as centrais telefônicas, rádioemissoras e, onde houver, de TV, casas de armas, pequenos Quartéis Militares ..." Ciente de que a revolução vinha sendo conduzida pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), através da chamada "via pacífica", Brizola reservou um item de suas "Instruções Secretas" para tratar do "Aliado Comunista": "Devemos, ..., ter sempre presente que o comunista é nosso principal aliado mas, embora alardeie o Partido Comunista ter forças para fazer a Revolução Libertadora, o PCB nada mais é que um Movimento dividido em várias frentes internas em luta aberta entre si pelo poder absoluto e pela vitória de uma das facções em que se fragmentou". E prosseguiam, as Instruções, nos seus ataques ao PCB: "São fracos e aburguesados esses camaradas chefiados pelos que vêem, em Moscou, o único Sol que poderá guiar o proletariado mundial à libertação Internacional". Ao mesmo tempo, Brizola apontava o radical Partido Comunista do Brasil (PCdoB) como um possível aliado: "Existe uma ala mais poderosa que, dia a dia, está se elevando no conceito do proletariado marxista, seguidora dos ideais de Mao Tse Tung, de Stalin, e que são, em última análise, os de Marx e Engels. É nessa ala, hoje muito mais poderosa que a de Moscou, que iremos buscar a fonte de potencialidade material e militar para a luta de Libertação Nacional". http://www.ternuma.com.br/brizola.htm (3 of 5) [16/09/2008 00:11:35] Brizola Mas, o tragicômico das "Instruções Secretas" aparecia, com espantosa nitidez, no item sobre a "Guarda e Julgamento dos Prisioneiros": "Para essa tarefa de suma importância, deverão ser escolhidos companheiros de condição humilde mas, entretanto, de férreas e arraigadas condições de ódio aos poderosos e aos ricos, a fim de que não discutam ordens severas que poderão ser conhecidas no momento da luta de Libertação. Estes grupos dos Onze companheiros terão, como finalidade primordial, deter, em todo o seu raio de ação, municípios, vilas, distritos e povoados, todas as autoridades públicas, tais como Juízes de Direito, Prefeitos, Delegados de Polícia, Vereadores, Presidente da Câmara, Políticos influentes e outras personalidades que por acaso estejam dentro de sua esfera de atribuição e limites de ação, recolhendoos a locais apropriados, preferentemente no meio do mato, sob guarda armada e permanente. No caso de derrota do nosso Movimento, o que é improvável, mas não impossível, dado a certas características da situação nacional, e temos que ser verdadeiros em todos os nossos contatos com os Comandos Regionais e esta é uma informação para uso somente de alguns companheiros de absoluta e máxima confiança, os reféns deverão ser sumária e imediatamente fuzilados, a fim de que não denunciem seus aprisionadores e não lutem, posteriormente, para sua condenação e destruição". No início de 1964, Brizola lançou seu próprio semanário, "O Panfleto", que veio se integrar à campanha agitativa já desenvolvida pela cadeia da Rádio Mairink Veiga. Em seus sonhos quixotescos, distribuiu diversos outros documentos para a organização dos G-11, tais como as "Precauções", os "Deveres dos Membros", os "Deveres dos Dirigentes", um "Código de Segurança" e fichas de inscrição para seus integrantes. Chegou a organizar 5.304 grupos, num total de 58.344 pessoas, distribuídas, particularmente, pelos Estados do Rio Grande do Sul, Guanabara, Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. Para Brizola, a revolução estava madura, pronta para ser desencadeada. Havia um líder, ele mesmo. Havia as idéias, seus próprios sonhos de poder. Só faltava algum simples episódio que inflamasse o povo e que fizesse proliferar http://www.ternuma.com.br/brizola.htm (4 of 5) [16/09/2008 00:11:35] Brizola os Grupos dos Onze, provocando o surgimento de seu "Exército Popular de Libertação", na verdade, um pequeno-louco exército de Brizoleone.

F. Dumont

 

OS INCRÍVEIS EXÉRCITOS DE BRIZOLEONE - CAP II

OPERAÇÃO PINTASSILGO

2. A Após a Revolução de 31 de Março de 1964, centenas de comunistas e inconformados políticos fugiram para o Uruguai. A proximidade do Rio Grande do Sul, então visualizado como o principal foco de resistência, oferecia condições seguras para que fosse feita uma avaliação da situação e realizado o planejamento das maquinações revanchistas. A fronteira seca favorecia o contato permanente entre os asilados e aqueles que, embora atingidos por atos revolucionários, ainda não se sentiam ameaçados a ponto de se aventurarem a abandonar o Brasil. O folclore afirma que Brizola fugiu disfarçado de mulher, com uma sainha curta e batom na boca. A verdade, entretanto, é que, depois de passar todo o mês de abril escondido em diferentes locais de Porto Alegre, Brizola, disfarçado de soldado da Brigada Militar, foi levado num fusquinha dirigido por Lenir, esposa do advogado Ajadil de Lemos, até à praia de Pinhal. Daí, um avião monomotor dirigido por Manoel Leaes ("Maneco") levou-o até Sarandi Grande, já no Uruguai. Em pouco tempo, Brizola tornou-se um ponto de referência no Uruguai. A "cadeia da legalidade", sua frustrada tentativa para conter o movimento de Março, dava-lhe uma ascendência natural sobre todos os asilados. Sua inegável liderança carismática, associada a uma verbosidade demagógica, fizeram-no o centro de iradas tertúlias contra o regime militar que se instalara no Brasil. Enviava mensagens pelo rádio dizendo que, até dezembro, estaria de volta ao País, na "crista de um movimento insurrecional". Usando senhas e os intermediários Albery Vieira dos Santos, ex-sargento da Brigada Militar, e Lucio Soares Costa, recebia muita gente: comunistas, militares, sindicalistas, políticos, padres e freiras. Fez contatos com agentes cubanos, dentre os quais o próprio chefe da polícia secreta, Miguel Bruguera del Valle. Elaborou um "Livro de Ouro" para angariar recursos financeiros no Brasil e no exterior. Os famosos dólares de Cuba http://www.ternuma.com.br/brizola2.htm (1 of 3) [16/09/2008 00:11:50] História : Brizola 2 estariam entre eles. Elaborou um "Regulamento Revolucionário", com dez mil exemplares impressos em Montevidéu. Não conseguiu, entretanto, unir todas as forças que se opunham ao novo governo revolucionário. Seu projeto de formar e liderar uma "frente" esbarrou no jogo de interesses e na inconciliável luta que envolvia a vaidade pessoal dos outros líderes. Num prolongamento das anteriores fracassadas tentativas de união e refletindo a crise das esquerdas, os asilados acabaram se dividindo em três grandes grupos, distintos por suas origens: um sindical, um militar e um liderado por Brizola. Em novembro, estava em pleno desenvolvimento a crise envolvendo Mauro Borges, governador de Goiás, acusado de uma tentativa de socialização com a participação de estrangeiros e de militares cassados. Nessa época, em clima de aproveitamento da crise de Goiás, foi montada, no Uruguai, a "Operação Pintassilgo". O plano previa o ataque a diversos quartéis, a tomada da Base Aérea de Canoas, no Rio Grande do Sul, e a utilização dos aviões da FAB para o bombardeamento aéreo do Palácio Piratini, visando à morte do Governador Ildo Meneghetti. A prisão em Porto Alegre, em 26 de novembro de 1964, do capitão-aviador cassado, Alfredo Ribeiro Daudt, abortou a operação e todos os seus planos caíram em poder da polícia. Diversos militares da Aeronáutica estavam envolvidos, aliciados pelo tenente-coronel reformado Américo Batista Moreno e pelo exsargento Santana. Muitos anos mais tarde, em 1982, em entrevista concedida na Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, o ex-coronel Jeffersom Cardim de Alencar Osório acusaria Brizola de ter sido o responsável pela Operação Pintassilgo. Do Uruguai, no conforto de suas estâncias, Brizola queria enviar os ingênuos para as ações que ele próprio não tinha coragem de executar.

F. Dumont

 

OS INCRÍVEIS EXÉRCITOS DE BRIZOLEONE - CAP III

O PACTO DE MONTEVIDÉU E A FRENTE POPULAR DE LIBERTAÇÃO (FPL)

Nos últimos meses de 1964, aumentara a revoada de comunistas brasileiros para o Uruguai, ansiosos em estabelecer alianças com os grupos de asilados políticos os quais, já se dizia, estavam com os "dólares de Cuba". Foi por esse "singelo" motivo que os grupos sindical e militar, acrescidos dos comunistas de "carteirinha", isto é, militantes de organizações subversivas, aceitaram ser tutelados por Brizola. A primeira tentativa de unificação dos grupos existentes concretizou-se em janeiro de 1965, com a criação do "Pacto de Montevidéu", assinado por Leonel Brizola, Max da Costa Santos, José Guimarães Neiva Moreira, Darcy Ribeiro e Paulo Schilling, além de representantes da Ação Popular (AP), com Aldo Arantes, do Partido Comunista Brasileiro (PCB), com Hércules Correia dos Reis, do Partido Operário Revolucionário Trotskista (PORT), com Cláudio Antônio Vasconcelos Cavalcanti, e do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Constituindo-se em uma frente "revolucionária", definiram a insurreição como a forma de luta para a tomada do poder, sem deixar de contar com a participação da parcela da burguesia nacional "prejudicada pelos interesses imperialistas". As massas participariam da luta através da constituição de comitês de empresas, de comitês rurais e de grupos de ação - os "Grupos dos 5". Brizola, agora mais modesto, trocava o futebol de campo pelo de salão. Denominada de Frente Popular de Libertação (FPL), a expressão http://www.ternuma.com.br/brizola3.htm (1 of 3) [16/09/2008 00:12:04] Perda da Propriedade organizada do Pacto de Montevidéu afirmava que os "atos de guerra", definidos como "atos de sabotagem urbana" e "focos de guerrilha no campo", deveriam multiplicar-se por todo o território brasileiro, sem prejudicar a parcela da população não comprometida. Os inocentes deveriam ser ganhos pela insurreição e serem aproveitados como força de pressão e massa de manobra. O Pacto previa, também, a formação de um Comando Nacional (CN) da FPL, através da evolução das estruturas de comando dos grupos de ação e dos comitês de empresas e dos rurais. Enquanto o CN não fosse constituído, um Comitê de Coordenação, sediado em Montevidéu e integrado pelos signatários do Pacto, decidiria sobre a participação da FPL em manifestações de caráter político. A primeira tentativa de sabotagem idealizada pela FPL ocorreu em fevereiro de 1965. Ao fazer um tratamento psiquiátrico em Montevidéu, um exsoldado do 13º Regimento de Cavalaria, conhecido por Ponciano e que trabalhava com explosivos numa firma de Jaguarão, foi recrutado por membros da FPL. Prometeram-lhe 1 milhão de cruzeiros para levar 20 caixas de dinamite para o Uruguai e uma gratificação extra se conseguisse explodir um bueiro na BR-2, em Capão Reiúno, próximo a Jaguarão, interditando a estrada. Ponciano chegou a roubar 32 bananas de dinamite. Entretanto, não conseguiu entregá-las, a explosão não destruíu o bueiro, a BR-2 não foi interditada e o desequilibrado Ponciano, preso, confessou suas ligações com o grupo de asilados. Começava, de forma melancólica, a insurreição da FPL. A inescrupulosa utilização de um débil mental mostrou que, para atingir seus objetivos, tudo era válido para os exércitos de Brizoleone.

F. Dumont

 

OS INCRÍVEIS EXÉRCITOS DE BRIZOLEONE - CAP IV 

JEFFERSOM CARDIM E AS ESCARAMUÇAS DAS FORÇAS ARMADAS DE LIBERTAÇÃO NACIONAL (FALN)

No Uruguai, a incontinência verbal de Brizola deixou-o em situação embaraçosa. A afirmação de que voltaria vitorioso ao Brasil até dezembro de 1964 ficou comprometida com os freqüentes insucessos de todas suas iniciativas. A fim de satisfazer a crescente belicosidade de seus liderados - na maioria, ex-militares cassados das Forças Armadas e da Brigada Militar do Rio Grande do Sul (BMRS) -, Brizola resolveu desencadear mais um "plano revolucionário infalível". Sob a designação genérica de "Esquema Geral", a "revolução" brizolista iniciar-se-ia com um movimento sedicioso no Rio Grande do Sul que se juntaria com forças que iriam penetrar no Mato Grosso, vindas da Bolívia, sob o comando do ex-Coronel da Aeronáutica, Emanoel Nicoll. Com a estratégia em forma de pinça, Brizola pretendia que a junção das duas forças fosse realizada, simbolicamente, em 31 de março de 1965, para "comemorar" o primeiro aniversário do movimento militar que o compulsara ao ostracismo. Para a invasão dos pampas gaúchos, dentre as várias opções, Brizola escolheu a "Operação Três Passos", de autoria do ex-Sargento da BMRS, Albery Vieira dos Santos Júnior. Para comandá-la, foi escolhido o exCoronel de Artilharia do Exército, Jeffersom Cardim de Alencar Osório, que trabalhava no Loyde Brasileiro em Montevidéu. Na noite de 12 de março de 1965, na residência de Brizola, localizada na Praça Independência, em Montevidéu, uma reunião do tipo "estadomaior" decidiu e traçou os detalhes da Operação. Um manifesto a ser divulgado pela Rádio Difusora de Três Passos, no dia http://www.ternuma.com.br/cardim.htm (1 of 6) [16/09/2008 00:12:17] Jefferson Cardim 25 de março, seria a senha para a "revolução brasileira". Nessa mesma reunião, foi analisada a necessidade de recursos para a Operação, sendo realizada uma "vaquinha" entre os presentes: Darcy Ribeiro contribuiu com 500 dólares, o ex-prefeito de Belo Horizonte, Ivo Magalhães, com 300 mil cruzeiros, o ex-Sargento Albery com 10 mil cruzeiros e Jeffersom Cardim com 5 mil pesos uruguaios. O único que não contribuiu foi o próprio Brizola, alegando que ainda não havia recebido os dólares prometidos pelo governo cubano. Na noite de 18 de março, Cardim, Albery e Alcindor Aires iniciaram a marcha para a "revolução", alugando um táxi para levá-los de Montevidéu até Livramento, onde chegaram no dia seguinte. Um outro táxi levou-os até Santa Maria, onde ficou Alcindor para tentar conseguir mais adeptos para a empreitada. Ao atingirem Catuípe, Cardim e Albery observaram que se continuassem fazendo a revolução viajando de táxi em táxi veriam rapidamente terminar o dinheiro da "vaquinha". Então, a fim de economizar os "recursos revolucionários", conseguiram um automóvel emprestado por um amigo de Albery, prosseguindo até Campo Novo, onde pousaram na casa de "Gringo", irmão do ex-Sargento. Nessa cidade, contataram com o professor Valdetar Antônio Dorneles, que preparou um croqui de Três Passos - assinalando os pontos sensíveis - e comprometeu-se a conseguir mais revolucionários para a ação. Agruparam-se os reforços: Alcindor trouxe dois homens de Santa Maria, o ex-Sargento Firmo Chaves chegou de Porto Alegre com mais sete, dentre os quais Adamastor Antonio Bonilha, e Valdetar arregimentou mais nove. Realizaram exercícios de tiro, treinaram montagem de acampamento, distribuiram as missões e chegaram a um impasse: numa falha da logística do planejamento aprovado pelo Comandante Brizola, não fora previsto o transporte para os combatentes. A solução foi dada por "Zebinho", pai de Valdetar, que se lembrou de um amigo do PTB, que tinha um velho Ford bigode, modelo 1929. Não seria por falta de transporte que a revolução seria abortada. http://www.ternuma.com.br/cardim.htm (2 of 6) [16/09/2008 00:12:17] Jefferson Cardim Tiveram, entretanto, que fazer uma pequena alteração nos planos. A pequena quantidade de arregimentados - duas dúzias de homens - não era suficiente para a prevista tomada do quartel de Ijuí. Na noite de 25 de março, Cardim e seu incrível "exército" partiram de Campo Novo rumo a Três Passos, onde chegaram na madrugada do dia seguinte. Sem encontrar resistência, assaltaram o posto policial da Brigada Militar, levando armamento, fardamento e munição. Ainda nessa madrugada, tomaram os transmissores da Rádio Difusora, onde Odilon Vieira, com sua voz de locutor, leu o "Manifesto à Nação", que representava a senha para o início da "revolução brasileira". No final da proclamação, alguns poucos notívagos, surpresos e sonolentos, tomaram conhecimento da criação das "Forças Armadas de Libertação Nacional" (FALN). Ainda em Três Passos, contando com a cumplicidade do sub-delegado local, Cardim trocou o velho Ford bigode por um caminhão Mercedes Benz apreendido, cor de tijolo. Para melhorar a "caixinha" revolucionária, assaltaram a agência do Banco do Brasil. Alegando não possuir as chaves do cofre, o gerente conseguiu repor os frustrados combatentes na sua marcha revolucionária, todos blasfemando contra o azar de não ter sido encontrada a chave. Na pequena cidade de Itapiranga, assaltaram os postos policiais da Brigada Militar, aumentando o seu arsenal. Supondo que o Brasil ardia em revoltas, causadas pelo seu manifesto da madrugada, Cardim roubou um rádio-receptor de uma loja comercial. Surpreso pela ausência de notícias, começou a pensar que o plano fracassara. Restava-lhe, entretanto, a esperança de atingir o Mato Grosso e realizar a junção com o "exército" de Nicoll, que deveria estar vindo da Bolívia. Guiados por Virgílio Soares de Lima, tio de Albery, os sediciosos atravessaram Santa Catarina e penetraram no Paraná. Ao tomarem conhecimento das estrepolias de Cardim e seu bando e http://www.ternuma.com.br/cardim.htm (3 of 6) [16/09/2008 00:12:17] Jefferson Cardim temendo que pudessem se dirigir a Foz de Iguaçu e perturbar a cerimônia de inauguração da Ponte da Amizade sobre o Rio Paraná, com a presença dos presidentes do Brasil e do Paraguai, as autoridades militares determinaram o emprego de tropas da 5ª RM/DE, com o apoio de aviões da FAB e do Núcleo de Divisão Aeroterrestre. O tenente de Infantaria Marco Antonio Savio Costa comandava o 1º Pelotão da 1ª Companhia - sediada em Francisco Beltrão - do 1º Batalhão do 13º Regimento de Infantaria, este sediado em Ponta Grossa. Recebendo a missão de localizar e prender o bando armado, imediatamente reuniu seu pelotão, os claros de momento preenchidos com os quadros que pôde encontrar. Numa viatura de 1/4 Ton do EB e num caminhão basculante preto emprestado pela prefeitura de Francisco Beltrão, saiu o tenente em busca dos "guerrilheiros". Cerca das 1115h de 27 de março de 1965, na região de Santa Lúcia, município de Capitão Leônidas Marques, Cardim ouviu a aproximação de uma viatura com tropas do Exército. Imaginando que pudesse melhorar o já combalido moral de suas FALN, resolveu realizar uma emboscada, dispondo seus homens em ambos os lados da estrada, logo após uma curva. Postando-se fardado de coronel, com um impecável uniforme 4º A e com todas as gemadas a que tinha direito, Cardim acenou para a tropa que se aproximava. Com isso, provocou uma ligeira hesitação no tenente Savio Costa, o suficiente para o início da emboscada, com tiros sobre a viatura. Desembarcando e reagindo violentamente, o pelotão conseguiu equilibrar as ações e aferrou-se ao terreno. Foi quando chegou um avião L-19 da FAB, pilotado pelo 1º Ten Av David Branco e que conduzia um observador aéreo, o capitão Canrobert Lopes Costa, do 18º RI de Curitiba, que, desde o fim da manhã do dia anterior, cumpria a missão de localizar o bando. Após comunicar o que estava observando ao 2º Esquadrão de Controle e Alarme, 2º ECA, e dele ter recebido a determinação de não intervir, o Cap Canrobert, em sucessivos vôos rasantes do L-19, descarregou cinco carregadores de sua Mtr INA .45, sobre as árvores que encobriam os "guerrilheiros". Apoiado pelo "fogo aéreo", o pelotão, depois de também abrir cerrado fogo com suas três Mtr Madsen e fuzis, partiu para o assalto contra o bando inimigo. A coordenação de fogos e o assalto provocaram a fuga desabalada de 21 http://www.ternuma.com.br/cardim.htm (4 of 6) [16/09/2008 00:12:17] Jefferson Cardim "guerrilheiros" que, embrenhando-se nas matas, só mais tarde seriam capturados, através de operações de cerco desencadeadas pelos páraquedistas. Três deles, entretanto, foram presos no momento do combate: o coronel Jeffersom Cardim e os sargentos Albery e Adamastor Bonilha. Infelizmente, a ação dos tresloucados seguidores de Cardim fez uma vítima fatal. O 3º Sargento Carlos Argemiro Camargo, que servia como burocrata na Companhia de Infantaria de Francisco Beltrão e havia se apresentado voluntariamente para a missão, foi alvejado várias vezes ao desembarcar da viatura, deixando viúva grávida de 7 meses. Encerrava-se, tragicamente, mais uma aventura brizoleana. Após cumprir pena, Jeffersom Cardim, em entrevista concedida a Décio de Freitas, em março de 1980, na Assembléia Legislativa gaúcha, declarou que a "Operação Três Passos" previa a entrada de Brizola no Brasil, a fim de catalisar e de detonar as revoltas: "Acho que Brizola se acovardou, foi uma traição, porque em seu apartamento na Praça da Independência, em Montevidéu, selamos um pacto. Ele não cumpriu este compromisso, que era o de derramar o sangue pelo povo brasileiro". Cardim veio a falecer em 29 de Janeiro de 1995, no Rio de Janeiro. Em novembro de 1979, o "Coojornal" publicou uma entrevista concedida um ano antes pelo ex-Sargento Albery, na qual declarou que o dinheiro para financiar a Operação - um milhão de dólares - havia sido conseguido em Cuba e levado, até Brizola, por Darcy Ribeiro e Paulo Schilling. Afirmou, também, sobre Brizola, que: "A traição dele foi ter mandado iniciar o movimento e, depois, ter-se arrependido e não colocar o plano em execução". Pouco tempo depois da entrevista, em fevereiro de 1979, o ex-Sargento Albery foi misteriosamente assassinado - em circunstâncias nunca bem explicadas - no oeste paranaense. Após mais esse malogro, Brizola afastou-se da FPL e, ainda no Uruguai, conduziria mais um de seus incríveis exércitos para o fracasso.

F. Dumont

 

OS INCRÍVEIS EXÉRCITOS DE BRIZOLEONE - CAP V 

O MOVIMENTO DE RESISTÊNCIA MILITAR NACIONALISTA (MRMN) E A RESISTÊNCIA ARMADA NACIONALISTA (RAN)

Nos primeiros meses de 1966, a 1ª Conferência Tricontinental de Havana e a criação da Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS), em janeiro, agitaram os três grupos de exilados brasileiros no Uruguai, já conscientes do fracasso da Frente Popular de Libertação (FPL) e das Forças Armadas de Libertação Nacional (FALN) (ver capítulos III e IV). Em março, esses grupos realizaram diversas reuniões, com a finalidade de formarem uma frente única. Entretanto, enquanto que o grupo de Brizola acreditava que dentro do Brasil iria, em curto prazo, aflorar um movimento contra o governo, o grupo militar não concordava com essa posição e afirmava que a revolução armada era a única forma de tomada do poder. Este grupo preconizava a criação de uma estrutura clandestina, conduzida por uma liderança conhecida e atuando no Brasil. Para eles, a presença física de Brizola era a condição indispensável para o sucesso do movimento. Essa posição constituiu-se no ponto de ruptura entre os dois grupos. A convicção revolucionária de Brizola não era tão grande a ponto de levá-lo a se expor fisicamente. Bem mais tranqüila era a sua "entusiasmada" participação na revolução brasileira tramada à sombra do asilo político no Uruguai. http://www.ternuma.com.br/brizola5.htm (1 of 5) [16/09/2008 00:12:45] Exército brizoleone Por outro lado, os ex-militares relutavam em aceitar a liderança de Brizola, em conseqüência dos repetidos fracassos de suas anteriores tentativas, qualificadas como aventuras irresponsáveis. Em 20 de maio de 1966, realizou-se uma reunião do grupo militar na residência do ex-almirante Cândido de Assis Aragão, em Montevidéu, a fim de ser constituída uma organização que pudesse atuar clandestinamente no Brasil, o Movimento de Resistência Militar Nacionalista (MRMN). Nessa reunião, ficou estabelecido que o MRMN desencadearia, inicialmente, uma série de atos terroristas contra alvos ligados aos interesses norte-americanos no Brasil. Numa fase seguinte, partiria para a eliminação física dos membros do "Peace Corps" e de outros norteamericanos, tachados de "agentes da CIA e do imperialismo". O MRMN apostava que os atos terroristas provocariam uma repressão violenta que, por sua vez, conduziria ao clima visado pela organização, denominado de "auto-defesa das massas". O movimento, a partir daí, ganhando mais adeptos, desaguaria na revolução armada, a partir de um movimento de guerrilhas bem constituído. Da reunião de fundação do MRMN, participaram, dentre outros: o exalmirante Cândido Aragão, o ex-general Henrique Cordeiro Oest, o excapitão da Aeronáutica Alfredo Ribeiro Daudt, o ex-coronel da Aeronáutica Emanoel Nicoll, Jaime de Araujo, Jacy Pereira Lima e o exSargento da Aeronáutica Álvaro Moreira de Oliveira Filho. Inicialmente, a chefia do MRMN coube ao ex-almirante Aragão. Posteriormente, por problemas de saúde, Aragão entregou o comando a Alfredo Ribeiro Daudt e a Emanoel Nicoll. Integrariam, o MRMN, os exmilitares exilados no Uruguai e em outros países, ex-militares cassados no Brasil e, clandestinamente, alguns militares ainda em serviço ativo, recrutados pelo aproveitamento do mote "nacionalismo", pensamento sempre presente na maioria dos militares. Para este fim, as bases do movimento seriam levadas ao Rio Grande do Sul, com a idéia de recrutar militares e civis, que participariam da organização formando "núcleos de resistência" em várias cidades do Brasil. http://www.ternuma.com.br/brizola5.htm (2 of 5) [16/09/2008 00:12:45] Exército brizoleone Em 26 de maio de 1966, o MRMN deu publicidade ao manifesto "Ao Povo Brasileiro", no qual transmitiu uma imagem hegemônica e imperialista do Brasil na América do Sul. No início de junho, os "militares" do MRMN tentaram uma aproximação com o grupo sindical dos exilados. Os "militares" foram representados por Alfredo Ribeiro Daudt, Emanoel Nicoll e Jacy Pereira Lima, e os "sindicalistas" por Osvaldo Pacheco, Osmildo Stafford da Silva, Luiz Cláudio Braga Duarte e Dante Pelacani. A tentativa não teve êxito. Os sindicalistas acreditavam que a atividade dos ex-militares prejudicava o trabalho que Dante Pelacani estava realizando em São Paulo, em ligação com Benedito Cerqueira e com a Federação Sindical Mundial. Naquele mesmo dia de junho de 1966, o MRMN entrou em contato com o Comitê de Apoio a Cuba, a fim de obter o seu reconhecimento político. Em 15 de junho, o ex-presidente João Goulart organizou, em sua residência, uma reunião com o MRMN, representado por Aragão, Daudt e Nicoll, da qual também participaram Darcy Ribeiro e Amaury Silva. Jango prometeu auxílio financeiro ao movimento e, tentando ficar acima dos grupos, criou um Comitê para coordená-los, integrado por Emanoel Nicoll, representando o grupo militar, por Dante Pelacani, o sindical, por Neiva Moreira, os brizolistas, e Darcy Ribeiro, representando o próprio Jango. A movimentação do MRMN obrigou Brizola, que temia perder a sua condição de líder, a aceitar um novo contato com os ex-militares, no início de julho. E, novamente, o impasse causado pela idéia do MRMN de exigir a presença física de Brizola no Brasil provocou outro rompimento. Paralelamente à atuação dos diversos grupos de exilados, uma outra organização destacava-se na época, a Associação dos Exilados Brasileiros no Uruguai (AEBU), que tinha o objetivo declarado de, indistintamente, prestar assistência aos refugiados brasileiros. Orientada pelas liderança de Jango e de Brizola, a AEBU obtinha recursos através da contribuição http://www.ternuma.com.br/brizola5.htm (3 of 5) [16/09/2008 00:12:45] Exército brizoleone de alguns exilados e de colaboradores no Brasil, dentre os quais Doutel de Andrade. O rompimento de Brizola refletiu-se na AEBU. Em 09 de julho de 1966, nas eleições para a sua nova diretoria, os elementos ligados a Brizola foram alijados. A nova direção ficou constituída por Cândido Aragão, na presidência, Alfredo Ribeiro Daudt, na 1ª secretaria, Álvaro Moreira Filho, na 2ª secretaria, Humberto Menezes Pinheiro como 1º tesoureiro, Arnaldo Magno de Araújo como 2º tesoureiro e Cesar Augusto Chefitelli como diretor de assistência social. Debatendo-se em busca de reconhecimento político e de apoio financeiro, o MRMN saiu do imobilismo realizando, em 21 de outubro de 1966, um atentado à bomba contra o monumento do Barão do Rio Branco, em Montevidéu, executado por Gualter de Castro Mello, Tito Guimarães Filho e Arnaldo Magno de Araújo. Em dezembro de 1966, a direção do MRMN decidiu mudar o nome da organização para Resistência Armada Nacionalista (RAN), que utilizava, como símbolo, uma rã. Com o objetivo de angariar o apoio financeiro do Partido Comunista Uruguaio (PCU) e da OLAS, a RAN pretendia lançar um manifesto assinado por Aragão nas principais capitais brasileiras e pichar muros para popularizar a nova sigla. Ficou prevista a ida de Aragão, Daudt e Arnaldo Magno de Araújo a Cuba, a fim de conseguir recursos para enviar seus militantes para realizar cursos de guerrilha em Cuba e na Coréia do Norte. A nova RAN lutava para afirmar-se e ser reconhecida.

F. Dumont

 

OS INCRÍVEIS EXÉRCITOS DE BRIZOLEONE - CAP VI

O MOVIMENTO NACIONALISTA REVOLUCIONÁRIO (MNR) E AS GUERRILHAS DE CAPARAÓ E DO TRIÂNGULO MINEIRO

Para a 1ª Conferência Tricontinental de Havana, realizada em janeiro de 1966, Brizola, aspirando ser reconhecido como o grande líder da revolução brasileira, enviou um seu representante, Aluísio Palhano Pedreira Ferreira ("Aquiles", "Aurelio", "Joaquim"), ex-vice-presidente da extinta Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT). Rompido com o grupo militar do MRMN e pressionado, de um lado, por Havana - para justificar os recursos financeiros que vinha recebendo - e, por outro, pelos seus seguidores - descontentes com a falta de um plano concreto para o retorno - Brizola criou, em 1966, o Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR). Foi a primeira organização expressiva surgida após a revolução democrática de 31 de março de 1964. Apesar de algumas afinidades ideológicas e o mesmo sentimento de aversão ao governo revolucionário brasileiro, o MNR surgiu fora do quadro de luta interna das quatro grandes organizações comunistas então existentes (PCB, PCdoB, POLOP e AP). Inspirados em Brizola, reuniram-se, para formar o MNR, militares cassados, dentre os quais muitos simpatizantes comunistas - oficiais e praças, políticos esquerdistas (filiados ou não a organizações comunistas) e alguns civis cassados. Todos, entretanto, estavam desiludidos com as opções tradicionais da esquerda brasileira, influenciados pela http://www.ternuma.com.br/brizola6.htm (1 of 7) [16/09/2008 00:12:58] Perda da Propriedade revolução cubana e inconformados com a humilhante derrota que as forças democráticas lhes impuseram. Com a idéia de implantar a guerra de guerrilhas no campo com o apoio de um movimento urbano, o MNR articulou-se, basicamente, em dois núcleos: o primeiro, sediado em Montevidéu, que manipulava a organização, e o segundo, no Rio de Janeiro, onde se situaria o Comando Nacional. Havia, ainda, ligações em São Paulo, em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul. De Montevidéu, Brizola chefiava as articulações, em companhia do seu assessor militar, o ex-Coronel do Exército Dagoberto Rodrigues, além de outros como Almino Afonso, Paulo Schilling, Almir Olimpio de Melo ("Paulo Melo"), José Guimarães Neiva Moreira e Moysés Kupperman. No Rio de Janeiro, a direção era de Bayard Demaria Boiteaux, assessorado por Amadeu de Almeida Rocha, no campo político, e pelo ex-Capitão Juarez Alberto de Souza Moreira, no campo militar. Havia, ainda, no Rio de Janeiro, um "colegiado de intelectuais" do qual faziam parte, dentre outros, Amadeu Thiago de Mello, Antonio Carlos Callado, Gabriel Obino, Otto Maria Carpeaux, Ana Araújo de Arruda Albuquerque e Maria Ignez da Costa Duque Estrada Bastos. Em São Paulo, o dirigente era Alonso, com codinome "Sergio". O jornalista Flávio Aristides de Freitas Tavares ("Felix", "Feliciano", "Dr Falcão") funcionava como pombo-correio entre o Brasil e o Uruguai. Para a formação dos guerrilheiros, Brizola obteve o apoio de Cuba. O treinamento iniciava-se em Pando, no Uruguai, numa estância de propriedade de Izidoro Gutierrez, ex-vereador de Uruguaiana, ligado a Brizola. Os elementos selecionados eram http://www.ternuma.com.br/brizola6.htm (2 of 7) [16/09/2008 00:12:58] Perda da Propriedade enviados a Paris, via aérea, onde eram recebidos por Max da Costa Santos, que "legalizava" seus documentos. Daí, seguiam para Praga, onde um funcionário cubano os embarcava em aviões cubanos, em direção a Havana, via Islândia e Canadá. Diversos ex-militares foram treinados em guerrilhas, durante cerca de três meses, na região de Pinar del Rio, em Cuba. Para o retorno, era utilizado o mesmo itinerário, em sentido inverso. De Montevidéu, já com documentos falsos, ingressavam no Brasil por ônibus, um a um, por infiltração. A idéia inicial do "estrategista" Brizola era instalar três focos de guerrilhas. O primeiro seria no norte do Rio Grande do Sul, liderado pelo ex-Sargento Amadeu Felipe da Luz Ferreira. O segundo, no Brasil Central, sob a responsabilidade de Flávio Tavares. O terceiro foco localizar-se-ia em Mato Grosso, sob a orientação de Dagoberto Rodrigues. A morte do ex-Sargento Manoel Raimundo Soares, participante do primeiro grupo, provocou a transferência do foco guerrilheiro para a região de Caparaó, na Serra do Mar, nos limites entre os Estados de Minas Gerais e Espírito Santo, escolhida pela sua proximidade aos centros políticos e econômicos do País, o que poderia motivar e insuflar o movimento das massas urbanas. Iniciada a infiltração dos "guerrilheiros" do MNR em novembro do ano anterior, os primeiros meses de 1967 constituíram-se num período de difícil sobrevivência. Obrigada a freqüentes mudanças de acampamentos, por questões de segurança, acossada pelo frio e precariamente apoiada por uma rede logística deficiente, a "Frente de Caparaó" veio a tornar-se no último fiasco - nunca assumido - de Brizola. Após sobreviver com dificuldades, o grupo de menos de duas dezenas de homens que se encontrava na serra, orbitando em torno do Pico da Bandeira, veio a ser denunciado, ironicamente, pelos próprios habitantes locais, quando começou a roubar e a abater animais para não morrer de fome. http://www.ternuma.com.br/brizola6.htm (3 of 7) [16/09/2008 00:12:58] Perda da Propriedade Em março, a Polícia Militar do Estado de Minas Gerais começou o cerco aos "guerrilheiros", assumindo a 4ª Região Militar, em seguida, o controle das operações. No início de abril, já estavam todos presos, desde o "comandante" Amadeu Felipe da Luz Ferreira, passando pelo assessor militar Juarez Alberto de Souza Moreira, pelo assessor político Amadeu de Almeida Rocha, pela rede de apoio constituída de Hermes Machado Neto, Deodato Batista Fabrício, Itamar Gomes e Gregório Mendonça, até a "força de guerrilha" integrada por Araken Vaz Galvão, Avelino Bioni Capitani, Amarantho Jorge Rodrigues Moreira, Edval Augusto de Melo, Josué Cerejo Gonçalves, Gelcy Rodrigues Correia, Milton Soares de Castro, Jorge José da Silva e João Gerônimo da Silva. Outros quatro "guerrilheiros", José Carlos Bertoncelos, Dario Viana Reis, Alfredo Nery Paiva e Pedro Espinosa, seriam presos, mais tarde, no Rio Grande do Sul. Enquanto isso, o jornalista Flávio Tavares que, pelo "esquema geral" de Brizola, estava encarregado de organizar as guerrilhas no Brasil Central, havia sido procurado em Brasília, em dezembro de 1966, por Jarbas Silva Marques, ex-militante do PC do B. Jarbas dissera-lhe que havia um grupo em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, que havia saído do PC do B, após a sua VI Conferência de junho de 1966, e que desejava realizar ações de sabotagem, de guerrilha e de terrorismo. Dirigido pelo dentista Guaracy Raniero, que havia comparecido à Conferência, o grupo, com cerca de vinte elementos, estava isolado e buscava novos caminhos para atuar. Flávio Tavares percebeu que poderia apresentar a Brizola um "grupo guerrilheiro" praticamente já constituído e desimcumbir-se, quase sem esforço, da missão que recebera. Foi ao Uruguai e, recebendo o "aprovo" de Brizola, retornou a Brasília, contatou com Jarbas da Silva Marques e, ambos, dirigiram-se a Uberlândia, na primeira quinzena de fevereiro http://www.ternuma.com.br/brizola6.htm (4 of 7) [16/09/2008 00:12:58] Perda da Propriedade de 1967. Apresentado como o "Dr Falcão", Flávio Tavares reuniu-se com o grupo de Uberlândia no consultório de Guaracy Ribeiro, onde compareceram, além dos três citados, Taylor Silva, Carlos Maluf Wutke e Edmo de Souza. Na ocasião, concretizou-se a vinculação do grupo de Uberlândia ao MNR de Brizola. Planejaram a obtenção de armas, assaltos a quartéis e o roubo de um carro pagador do DNER, a fim de conseguir recursos financeiros. Em abril de 1967, Flávio Tavares recebeu, em Brasília, um "instrutor militar" enviado por Brizola, de nome José Carlos Vidal ("Carlos Mario", "Juca"), e encaminhou-o a Uberlândia, para ministrar instruções de sabotagem e de guerrilha. Desentendendo-se com o grupo, considerado de baixo nível político e ideológico, o "instrutor militar", depois de 10 dias, retornou a São Paulo. Em fins de julho de 1967, o grupo foi desarticulado, com a prisão da maioria de seus componentes. Dos dois núcleos - um no Rio de Janeiro e outro em São Paulo - estruturados pelo MNR para apoiar o "esquema geral" de Brizola, o do Rio foi duramente atingido. Bayard Demaria Boiteaux, preso, processado e condenado junto com outros "intelectuais de esquerda", assumiu toda a responsabilidade pelo comando do movimento no País. Tendo Caparaó como o esforço principal, o MNR não conseguiu implantar os focos guerrilheiros de Mato Grosso e do Brasil Central. Após o fracasso de Caparaó e a conscientização de Brizola de que não conseguiria criar ou apanhar a "onda" insurrecional em cuja crista pensava retornar ao Brasil, o MNR desmoronou e desarticulou-se. http://www.ternuma.com.br/brizola6.htm (5 of 7) [16/09/2008 00:12:58] Perda da Propriedade Mesmo assim, conseguiu enviar dois representantes - Aluisio Palhano e José Anselmo dos Santos, o "Cabo Anselmo" - na I Conferência de Solidariedade dos Povos da América Latina (I COSPAL), da Oraganização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS), realizada entre 31 de julho e 10 de agosto de 1967, em Havana. Mais tarde, com a liberação pela Justiça Militar de alguns representantes da "Frente de Caparaó", seria criada, em 1969, a nova Resistência Armada Nacionalista (RAN). O núcleo de São Paulo, integrado por ex-militares como Darcy Rodrigues, Onofre Pinto, José Ronaldo Tavares de Lira e Silva, Pedro Lobo de Oliveira e outros, ligar-se-ia a dissidentes da POLOP e criaria, em 1968, a VPR. Dos remanescentes do grupo do Triângulo Mineiro, Guaracy Raniero iria ao Uruguai, buscar contato com Brizola, enquanto que Jarbas Silva Marques integrar-se-ia, em 1969, ao Movimento de Ação Revolucionária (MAR). Flávio Tavares, apesar do envolvimento na preparação do grupo guerrilheiro, ficou preso, apenas, por quatro meses.

F. Dumont

 

Fonte:

https://www.academia.edu/13230727/RECORDANDO_A_HIST%C3%93RIA

Também disponível em https://drive.google.com/file/d/1nmdbywi5rptixGsNKHuSDaI8wsnZHCr-/view